Blog do Celio Gomes

Politicagem na universidade brasileira

Leio aqui no CADAMINUTO que a Universidade Estadual de Alagoas vive uma guerra aberta entre reitor e vice-reitor. Jairo Campos da Costa e Clébio Correia de Araújo romperam no meio do mandato e hoje trocam acusações. Pelo que entendi, no centro estão interesses de ordem política. Aliás, o reitor já manifestou mais de uma vez a intenção de ser candidato nas eleições de 2018. Cogita uma cadeira de deputado estadual na Assembleia Legislativa.

 

Mas não me interessa aqui debater as razões da dupla. Além do mais, não conheço detalhes da desavença entre os dois acadêmicos. O caso, no entanto, expõe uma realidade que é bem mais comum do que se noticia sobre o cotidiano de nossas universidades públicas. O que deveria ser um espaço para pesquisa, ensino e produção de conhecimento, vive tomado pela mais baixa politicagem.

 

Assim é também nas universidades federais, transformadas em palanques para militantes a granel. Com estabilidade infinita no emprego, professores se valem de cargos e prerrogativas para atuar em nome de legendas partidárias, o que nada tem a ver com educação. É uma praga estabelecida e, desgraçadamente, irreversível. Enfrentar essa distorção é um perigo para qualquer um.

 

Mestres e doutores, todos os dias, vomitam em sala de aula a mais escancarada propaganda política, sem qualquer preocupação com os assuntos previstos em suas disciplinas. Na outra ponta dessa operação, estão aqueles que simplesmente usam a universidade para fazer carreira na política partidária. Tratam as faculdades como uma célula de seus partidos.

 

Há exemplos de professores que transformaram a universidade em “bico”. Passam uma temporada com mandato eletivo, ou como secretários em prefeituras e governos estaduais, e reassumem a cadeira acadêmica quando estão em baixa no circo da política – ou seja, quando são desalojados da mamata partidária. Aí, retornam à mamata universitária.

 

Falo de um fenômeno nacional. E essa é a realidade por aqui também, naturalmente. A Universidade Federal de Alagoas e a Uneal estão mergulhadas nesse ambiente degradado de militância escancarada e guerra suja pelo poder. Faz tempo. A trombada entre reitor e vice, nos corredores de nossa universidade estadual, é apenas um sintoma da tragédia na educação superior do país. Caso perdido.

OAB-Alagoas defende a censura

A Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas acaba de escrever uma das piores páginas em sua história de 85 anos de existência. Numa mensagem enviada aos veículos de comunicação nesta quinta-feira 28, a entidade pede, sem qualquer eufemismo, que não seja publicada uma informação sobre a prisão de um advogado, no município de Palmeira dos Índios.

 

O advogado detido numa operação policial se chama Igor Gonçalves Ferro. Seu nome foi divulgado pelos delegados da Polícia Civil que comandaram a operação nas primeiras horas do dia. Segundo a polícia, ele faz parte de um grupo envolvido em diversos crimes no Agreste. Outras seis pessoas também foram detidas. Com eles, os policiais encontraram armas e drogas. 

 

Os mandados judiciais foram expedidos pela 17ª Vara Criminal da Capital, especializada no combate ao crime organizado. A direção da Polícia Civil informou que dará detalhes do caso durante esta sexta-feira. Não entro, é claro, no mérito das acusações apontadas pelas autoridades. As investigações devem apresentar ao Ministério Público as provas que eventualmente sejam levantadas.

 

Antes de tudo isso, porém, a OAB alagoana se antecipa e comete um gesto de censura explícita, ao praticamente exigir da imprensa que esconda a identidade do advogado suspeito – e preso. O trecho mais revelador no documento oficial da entidade deixa evidente um tom de intimidação, quase uma ameaça. Transcrevo essa parte, em destaque:

 

“Como temos a absoluta certeza de que a intenção dos meios de comunicação não é o de violar princípios constitucionais e que o direito de imprensa, liberdade de expressão e inibição à censura devem andar juntos com os princípios da presunção de inocência e proteção à intimidade, requer esta Diretoria que não seja divulgado o nome do advogado preso, nem que sejam divulgadas imagens do mesmo”

 

Essas palavras, que fazem parte de uma peça que já é histórica, são assinadas por Juliana Marques Modesto Leahy, secretária-geral da Diretoria de Prerrogativas e Valorização do Advogado da OAB-AL. Mas é claro que a autoritária iniciativa partiu da cúpula da entidade. A presidente da OAB é Fernanda Marinela de Sousa Santos. Por que ela não assina o documento? Algum constrangimento, talvez?

 

O respeito à presunção da inocência é o argumento central nas alegações para a censura que se deseja impor. Todos os dias, porém, operações policiais prendem dezenas de pessoas em nossas cidades. Não se conhecem manifestações semelhantes da OAB em defesa do alegado princípio que agora é usado para proteger um advogado. Porque não é disso que se trata. A motivação da Ordem é puramente corporativista. E pelo interesse de sua turma, e da corporação, vale tudo.

 

A OAB tem um poder descomunal no país. Atua com ferocidade política o tempo todo. Não reluta em pedir a cabeça de qualquer um – de ministro do STF a presidente da República. Por isso, sente-se à vontade para, agindo exclusivamente em nome dos interesses de uma categoria, decidir o que a imprensa pode ou não pode publicar. 

 

No discurso, a OAB tem como uma de suas bandeiras a defesa incondicional das liberdades individuais e de expressão. Na vida real, como se vê, apela aos piores caminhos do arbítrio e do abuso contra um direito sagrado de todos nós.

O abuso do STF contra o Senado

Afinal, o Senado pode ou não rever a decisão do STF que afastou do mandato o senador Aécio Neves? Como vocês viram, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu, por três votos a dois, que o parlamentar perde suas funções e deve se recolher à noite, sem direito è liberdade depois que o dia escurece. Eu diria que avaliar o ato do STF é ao mesmo tempo um direito e uma obrigação do Senado.

 

Mas, antes de defender meu ponto de vista, a memória do caso. Em conversa com o açougueiro Joesley Batista, Aécio pede 2 milhões de reais para resolver demandas de campanha. Dias depois da linha direta por telefone, um homem do senador aparece recebendo uma mala com o dinheiro. Parece grave? Sim, gravíssimo. Os lances apontam para propina e corrupção.

 

Ocorre que qualquer punição ao senador só é possível como consequência de um processo legal. E isso não é matéria de dúvida nem campo para opiniões da cabeça de um juiz do Supremo ou de ninguém. É o que está nos textos das leis e da Constituição. Um suspeito não é réu automaticamente; logo, não pode ser alvo da sanha antecipatória de tribunal nenhum.

 

Pelas manifestações dos senhores togados, estamos diante de um movimento populista, que pretende dar uma resposta imediata à sociedade, ainda que para isso sejam atropeladas as regras elementares previstas no ordenamento jurídico. É o que vem ocorrendo não apenas no exemplo de agora, mas em inúmeras situações desde que passamos a idolatrar juízes e procuradores.

 

Luiz Fux e Roberto Barroso, que votaram contra o senador, são as duas figurinhas mais exóticas hoje no STF. Onde houver holofotes berrando por linchamentos sumários, eles batem ponto, sambando sob as capas esvoaçantes e a bordo de salto alto. Mais uma vez, temos aí um tipo de abuso que extrapola o caso específico e viola o direito de todos. Um precedente para ilegalidade ganha status de parâmetro geral, de alcance coletivo.

 

Não bastasse o argumento de ordem estritamente legal, a decisão do STF é um claro desrespeito ao princípio de independência entre os poderes da República. Mas, como disse Lula naquele telefonema vazado criminosamente por Sergio Moro, parece que todo mundo está acovardado. A decisão do STF é uma ilegalidade e não pode vigorar como se fosse algo natural.

 

Pelo noticiário de hoje, talvez o próprio Supremo, em votação com os onze ministros, anule, nos próximos dias, a aberração da Primeira Turma. Ou é isso ou o Senado terá de fazê-lo. É um direito incontestável do parlamento. Mas é também uma imposição moral. Caso contrário, seria melhor fechar a casa.

Um jogo de futebol e algumas ideias

Suspeito que nem todo mundo sabe, mas houve um tempo em que o centroavante de pouca habilidade era chamado de trombador. Sem aviso nem explicações, como tudo na vida, ou quase tudo, isso mudou para sempre. Hoje em dia, misteriosamente, o mesmo tipo de jogador é elogiado por uma de suas “principais qualidades”: o cara é um especialista em fazer a parede.  

 

Alguns trombadores me ocorrem agora. Dadá Maravilha, Beijoca, Serginho Chulapa, Viola, Joãozinho Paulista e Dentinho foram modelares. Com alguma licença poética, muitos poderiam citar Nunes e Roberto Dinamite, mas eu discordo. Um legítimo trombador distribui a esmo caneladas e pontapés, corre olhando para baixo, chuta pra todos os lados e reza por um cruzamento pelo alto.  

 

Mas não vou aqui cometer uma resenha, ainda que precise explicar melhor o espanto diante do fenômeno que chamarei de um deslocamento de princípios no futebol. O que temos, com a nova nomenclatura, é mais um caso em que as palavras parecem nos revelar – sem que os cronistas se deem conta – uma reelaboração de conceitos, valores e paradigmas. Renomear o trombador para pivô muda o jogo que se joga fora de campo.

 

No cenário brasileiro atual, os dois pivôs mais elogiados por comentaristas de todas as tendências são Jô (Corinthians) e Guerrero (Flamengo). Além de fazer a parede, de costas para os zagueiros adversários, dominam como ninguém a arte de flutuar na entrada da área. Quando vemos a dupla em ação, cada um por seu time e com suas particularidades, os velhos e autênticos trombadores nos dizem algo inquietante, algo que se foi e que retorna.

 

Se você não gosta de futebol, ou é indiferente a esse esporte, talvez não entenda tamanha atenção a um irrelevante jogo de bola. Naturalmente, meu assunto aqui não é a disputa de uma partida ou a rivalidade entre dois times. Também não cuido de idolatria por sujeitos afamados como craques. E, principalmente, não estou interessado se um time perde ou vence de goleada.

 

Berrar, brigar ou chorar, na vitória ou na derrota, são apenas manifestações banais e tediosas, diante de um teatro único e imprevisível. Gostar de futebol e torcer por um time são coisas diferentes. Desconheço o que chamam por aí de time do coração. Livre do fanatismo, que nunca experimentei, o jogo se expande sem parar, em significados e perplexidades.

 

Talvez por isso, e não por torcer por um clube – o que não faço –, tenha assistido, nas últimas horas, a duas partidas de futebol. Em cada lance, da mais extrema inventividade ou da mais inacreditável presepada, é o pensamento que está em jogo. Sempre. O torcedor apaixonado e o centroavante discordam, mas o gol é só um detalhe. O drama é outro, mais amplo e muito mais profundo. 

 

Mas se você considera todo esse amontado de palavras uma bola fora, está tudo certo. Pode me chamar de perna de pau.

A Globo e os bancos querem um mundo melhor. Sim, eles podem!

Para escapar de certas armadilhas intelectuais, ou simplesmente para não cair em golpes publicitários, basta ficar um pouco mais alerta. É comum que essas duas ameaças apareçam combinadas e casadinhas em eventos apresentados como de alto nível, para capturar sua atenção – e seu dinheiro.

 

Tenho certeza que algum evento caça-níquel, como o que acabo de descrever acima, está marcado para ocorrer agora mesmo, em algum auditório perto de você. Vender baboseiras como se fossem pensamentos profundos, numa embalagem de slogans modernosos, é uma das indústrias mais lucrativas no mercadão das ideias feitas.

 

Os seminários e palestras que prometem transformar a vida e redimensionar a quadratura do círculo se espalham pelo Brasil. Dos confins da floresta amazônica à beira da praia ensolarada de Maragogi, por exemplo, um gênio que tudo sabe vai começar a falar. Plateias ávidas por fórmulas mirabolantes de sucesso estão prontas para acreditar em tudo, até em milagres.

 

Escrevo tudo isso porque vejo o anúncio da palestra mais aguardada pelo Brasil em todos os tempos. Barack Obama, o guru que foi presidente dos Estados Unidos durante oito anos, vem aí com suas lições para salvar o país e o planeta. O homem é o convidado especial de um convescote promovido pelo banco Santander em parceria com o jornal Valor Econômico.

 

Veja se isso faz algum sentido. O tema da palestra de Obama é Mudar o mundo? Sim você pode! Para aprender como concretizar a façanha do americano, o ingresso mais barato custa 5 mil reais. Isso mesmo. Se quiser ouvir a mágica de um assento mais favorável, o preço sobe para 7 mil e 500 reais. Repare que o negócio é uma tabelinha entre um banco e um jornal das Organizações Globo.

 

Aí você pensa: quem mais estaria preocupado em mudar o mundo, para melhor é claro, se não um banco e a família Marinho? É perfeito. O título da palestra repete o slogan da primeira campanha presidencial de Obama, lá de 2008. Nove anos depois, ele continua ensinando o segredo, e multidões continuam a pagar – caro – pelo manual exclusivo e infalível.

 

O slogan de Obama é um miserável lugar-comum, com toda a fachada de originalidade e nenhuma essência de verdade. (Tratei disso no texto anterior). Sua palavra de ordem para vender o que não existe resume-se a uma sem-vergonhice publicitária, típica do ideário dominante em nossos dias e, ao mesmo tempo, idêntica às pilantragens marqueteiras de todas as épocas.

  

O que explica o triunfo de tamanha fraude intelectual, exibida com desassombro em cartazes, meios eletrônicos e letreiros luminosos? No caso específico de Obama, o poder descomunal do cargo que exerceu e a fama planetária são fatores decisivos. Não importa o que ele diga, a besteira grandiloquente será recebida como peça fundamental do conhecimento nos auditórios amestrados.

 

É assim que funciona a indústria da ignorância globalizada. Não esqueça. Um banco (que representa o setor mais lucrativo da economia) e a família mais rica do país querem um mundo melhor para todos. Quem duvida? Para nos convencer de suas intenções altruístas, fazem qualquer esforço pelo povo – e recorrem a um mito contemporâneo.

 

Neste mundo ou em qualquer outro, quando tudo estiver transformado, os mercadores de ilusões estarão por aí a mercadejar. Mas não adianta. Nada, nenhuma credencial, por mais festiva e barulhenta, será capaz de pingar substância onde só há embuste e falsificações. Caia fora.

Vida e morte em nossas palavras

Tudo está à beira do lugar-comum. Tudo mesmo, inclusive a frase que acabo de escrever na abertura do texto que você está lendo agora. E por que isso tem alguma importância em nossas vidas? Porque tudo em volta se articula, antes e inapelavelmente, na forma de discurso. E o instrumento inescapável na construção de um discurso – para a defesa de uma ideia – será, sempre, cedo ou tarde, um conjunto de lugares-comuns.

 

Sustentar um ponto de vista, com alguma originalidade e consistência, é o que poderíamos chamar de tarefa infernal. Para qualquer paisagem que se olhe, somos arrastados pelo turbilhão de frases feitas, como se aquelas frases nos dessem as soluções incontestáveis aos dramas e mistérios da vida – por mais terríveis e insondáveis que sejam aquilo que é dramático e aquilo que é misterioso.

 

Cedo ou tarde, no primeiro parágrafo, e tarefa infernal, no segundo, são os dois lugares-comuns mais visíveis que usei até aqui. Você pode identificar outros, ou nenhum, a depender de seu repertório, da sua visão de mundo e da sua paciência. É automático. É compulsivo. O que antes tantas vezes já foi dito reaparece a cada ímpeto por alguma explicação, e o velho se impõe como novo. Uma armadilha para o espírito a cada esquina, a cada opinião.

 

Destrinchar a fala recorrente que atravessa os tempos está fora do alcance de qualquer um. Da Bíblia ao manifesto das vanguardas, a redundância assombra a linguagem. Do primeiro filósofo ao homem anônimo do agora e do futuro, a solução verbal que um dia arejou a realidade estará, ao fim e ao cabo, no catálogo infinito das repetições. O índice de uso e reuso será a única diferença. No grau máximo da perversão repetitiva, significado nenhum sobrevive à morte da palavra.

  

Agora mesmo – para não ficarmos na pura divagação, longe da vida real – uma artilharia de lugares-comuns aponta para nós. O Rio de Janeiro vive uma escalada da violência; os editoriais na imprensa, claro, exigem: Basta!. A crise generalizada levou o país a um aparente beco sem saída. Vivemos um problema tão desesperador, e inédito, que não resta dúvida quanto ao diagnóstico teatral: é caso de vida ou morte.

 

Numa espiral interminável e fatalista, o pensamento modela nosso texto e nossa fala – e o que escrevemos modela o que pensamos. Quando os termos desse movimento cobrem todas as situações, leves ou pesadas, perigosas ou inofensivas, íntimas ou universais, então aqueles termos nada mais têm a nos dizer sobre a leveza e o fardo, o perigo e o destemor, a intimidade e o infinito das coisas e dos sentimentos.

 

Na vida pública, especialmente na política, está o mais deletério e degradado laboratório de lugares-comuns. Faz sentido. Para conquistar a adesão da maioria, a retórica da autoridade e da ordem se estrutura essencialmente na repetição de clichês e no apelo das frases de efeito. O resultado previsível é a consagração do consenso rasteiro e a eliminação de qualquer divergência. Temos aqui uma das regras absolutas do poder.

 

A literatura, ainda que tantas vezes contaminada por abusos e vícios da palavra, é nossa barricada para resistência ao colapso definitivo. Só não digo que cada um deve fazer a sua parte porque isso não quer dizer absolutamente nada – nem ontem, nem nunca. Nossa sobrevivência depende de algo mais radical, que pode até parecer um delírio, mas, acredite: precisamos defender a linguagem.

Candidatos a renovadores da política

O procurador palestrante Deltan Dallagnol, que gasta mais tempo distribuindo chiliques e bravatas em redes sociais do que lendo processos, anda ocupado com propostas de partidos políticos. Como se noticia largamente, o rapaz de “perfil longilíneo e bochechas rosadas” pretende se valer do fanatismo da Lava Jato para conquistar um mandato de senador.

 

Outros nomes da República de Curitiba também são cogitados como virtuais candidatos nas eleições de 2018. Eles integram uma lista de personalidades, de variados setores, que se apresentam como renovadores da política. Estão chegando para mudar o país e nos livrar do atraso. Vamos conferir algumas dessas figuras – que sonham nada menos com a Presidência do Brasil.

 

Luciano Huck. Animador de auditório que reforma casas e carros, em seu programa semanal apresentado pela Rede Globo. Já montou seu circo várias vezes aqui mesmo em Alagoas, sempre tratado com reverência por autoridades que não perdem uma chance de se promover em presepadas de toda ordem.

 

Bernardinho. Técnico da seleção brasileira de vôlei, campeão olímpico com o time masculino. Em 2014, quase sai candidato a governador do Rio de Janeiro pelo PSDB, mas desistiu depois de pressão familiar. O sonho de transformar tudo isso que está aí, porém, continua vivo. Mais uma vez, sinaliza que pode partir para a briga nas urnas.

 

Roberto Justus. Primeiro genérico brasileiro de Donald Trump, ele ficou conhecido como especialista em “demissões” de subcelebridades em programas de televisão. É um desses casos doentios de exposição em qualquer meio de comunicação dedicado a tais bizarrices. Está no ar atualmente na Record TV.

 

Marcos Palmeira. Galã de novelas da Globo e militante do agronegócio que respeita as regras de proteção ao meio ambiente. É uma das vozes mais atuantes numa espécie de campanha permanente na defesa por um Brasil mais saudável. Também empresta sua consciência crítica a personagens de comédias desmioladas que rendem muita grana.

 

Flávio Rocha. É o dono das Lojas Riachuelo. Está para o Rio Grande do Norte, seu estado natal, assim como João Dória está para São Paulo. Vende a ideia de empresário moderno e empreendedor, em guerra contra a política profissional – embora revele muita espuma e quase nenhuma essência. Já foi denunciado pelas condições de trabalho em suas empresas.

 

Valéria Monteiro. Foi estrela como apresentadora do Jornal Nacional e do Fantástico, na TV Globo, durante a década de 90. Antes do jornalismo, foi modelo, bailarina e atriz. Hoje em dia se apresenta como ativista e vê na corrupção o maior problema do país. Anunciou que será candidata a presidente, mas ainda não escolheu um partido.

 

Lembro que a lista é formada por nomes de fora da política. E essa é exatamente uma das “qualidades” principais que todos vendem ao possível eleitorado. Se a coisa está mais feia do que nunca, o que você acha dessa renovação anunciada?

Nosso futebol dominado pela máfia

Hoje, Alagoas pode escalar um segundo time na Série B do Campeonato Brasileiro. A missão está nos pés dos craques do CSA, no jogo da vida contra o perigosíssimo Tombense. Mas a jogada aqui será outra. Nunca houve, no Brasil, tanto debate sobre ética no futebol. A cada cobrança de lateral, a cada bola na trave, entre um escanteio e um drible da vaca, o bate-boca sobre honestidade entra em campo e sobe as arquibancadas.

 

Nada tão pertinente. O esporte mais popular no país sempre foi um laboratório de trambiques, politicagem e lances escandalosos de marmelada. A Confederação Brasileira de Futebol não passa de um aglomerado de dirigentes mafiosos, com representantes de todas as divisões, em todas as federações estaduais. A retranca dos marginais para manter o placar da goleada a favor da bandidagem é indevassável.

 

No comando da organização criminosa, ou seja, na presidência da CBF, está a figura bizarra de Marco Polo Del Nero. Acusado de lavagem de dinheiro e fraudes para receber propina, o elemento é alvo até do FBI. Por isso virou um refugiado na própria casa e não pode deixar o Brasil sem correr o risco de ser preso. Um vexame internacional, esse desmoralizado manda como quer no futebol brasileiro.

 

Herdeiro de uma tradição corrupta, Del Nero tem o pleno apoio de clubes e federações, todos domesticados à base de benesses variadas e repasse de dinheiro. As luvas compraram o voto na eleição; a mesada compra a cumplicidade permanente. Com esse esquema tático degenerado, o Brasil Futebol Clube afunda na última divisão.

 

Apesar dos escândalos mundialmente conhecidos, não temos em vista nenhuma chance de virar o jogo. Basta olhar ao nosso redor. Carreiristas da política tomaram os clubes de assalto e agem exclusivamente em nome de seus interesses pessoais. Fazem dos times de futebol currais eleitoreiros, com os piores métodos de gestão e chutes de autoritarismo.

 

Perto de tudo isso, o gol de mão, o impedimento não marcado e a simulação de pênalti não passam de truques em campeonatos juvenis. O debate sobre a ética nos gramados pode até pegar fogo e incendiar as torcidas, mas estamos bem longe do que é urgente pra valer. Nosso futebol tem de sair das garras dessa máfia.

 

No mais, bola pra frente e toda sorte ao CSA!

A rejeição a Sergio Moro

Você percebe que o país atravessa um momento bem particular, ou mesmo sem precedentes históricos, quando lê na imprensa uma pesquisa sobre o índice de aprovação popular ao trabalho de um juiz, um integrante do Poder Judiciário. A notícia foi um dos destaques deste domingo, 24 de setembro. Alguém se lembra de outras épocas em que coisas assim aconteciam entre nós?

 

Saiu na grande imprensa. O levantamento é do Instituto Ipsos. Os dados informam como o povo avalia a atuação de onze personalidades da vida pública. Desse time, nove são políticos, com ou sem mandato. Os outros dois nomes são o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e o juiz Sergio Moro. (Ensaiando uma candidatura no próximo ano, Barbosa já é visto como um político).

 

Mas a pesquisa é notícia – com forte repercussão – por causa de Moro, o magistrado de Curitiba que está no coração da Operação Lava Jato. É sobre ele que vamos especular. A novidade é que, informa o instituto, disparou a rejeição à figura do rei da filosofia do “prendo e arrebento”. Seus métodos são aprovados por 48% dos entrevistados, mas o homem tem a rejeição de nada menos que 45% dos brasileiros. Empate técnico.

 

O resultado é péssimo para o juiz e toda a sua turma curitibana. A comparação que todos fazem é com o desempenho do ex-presidente Lula na mesma consulta popular. Os dados completos podem ser facilmente verificados em diferentes sites. Não vejo necessidade de reproduzir tudo aqui. Vou direto a alguma interpretação e a vários palpites sobre o quadro obtido.

 

O panorama é trágico para Moro porque, enquanto sua rejeição avança, a de Lula diminui. E enquanto a aprovação a Lula sobe, a do juiz desce, em relação aos meses anteriores. É bastante revelador que isso ocorra depois de o juiz condenar o ex-presidente – e após as acusações contra Lula feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci, em depoimento ao próprio Moro. O efeito previsível não seria o contrário?

 

Talvez sim, caso o juiz Moro agisse com o devido decoro e não tivesse se transformado numa festiva celebridade, a receber troféus como se fosse o último herói do nosso tempo. Sua presença no cinema, com saquinho de pipoca e tudo, para ver o filme que o trata como dono da moralidade nacional, é o exemplo definitivo de alguém dominado por uma vaidade indecente.

 

Ao que parece, o grande público tende a repudiar, cada vez mais, a boçalidade estridente de um membro da Justiça que, afinal, deve se comportar como um magistrado, e não como um inimigo do réu, seja ele quem for. Um convicto adepto da estratégia de se valer do barulho na imprensa para emplacar suas teses, Moro é vítima do veneno previsto em sua própria receita.

 

Não discuto aqui a culpa ou a inocência de Lula. Trato dos métodos de investigadores e do Judiciário. O juiz vive o mesmo drama dos procuradores juvenis da República de Curitiba. De maneira irresponsável, e com manifestações cretinas, fazem política o tempo todo, atacam as instituições com inédita desfaçatez e condenam investigados pelas redes sociais. Parece um bando de maníacos descontrolados.

 

A pesquisa, que ajuda Lula e repudia Moro, expressa a percepção desses abusos em série. Escrevo mais uma vez o que está em textos anteriores: precisamos combater o erro, a corrupção e a delinquência, é claro; mas isso não pode ocorrer por meios ilegais e atos delinquentes.

A gritaria sobre uma exposição e o eterno mistério da arte

Aquela exposição proibida em Porto Alegre ainda é notícia – e até fora do Brasil. Uma abordagem comum na cobertura da imprensa sustenta que uma “onda conservadora” forçou o banco Santander a desistir do evento, depois que o Movimento Brasil Livre, o MBL, denunciou que algumas obras eram ofensivas a valores cristãos e exaltavam a pedofilia e a zoofilia.

 

O caso, do qual já tratei aqui, mistura um bocado de temas: política, liberdade, uso da censura, direitos individuais, religião, ideologias, vozes da direita e da esquerda. Católicos e cristãos em geral se sentiram particularmente atingidos pela suposta agressão a símbolos de fé, considerados sagrados. Para esses, qualquer argumento em defesa da exposição será inútil. Dogmas descartam o diálogo.

 

Mas o ponto que me interessa agora é outro. O bombardeio de opiniões e impropérios ressuscitou um velho debate e recolocou na praça o dilema igualmente antigo, no qual já se entranharam pensadores de todas as correntes, em todas as épocas: o que é a arte, afinal? A pergunta é praticamente um fantasma que se recusa a dormir no além e retorna quando menos esperamos.

 

Sim, porque um dos ataques mais comuns às obras expostas pelo banco garante que imagens escatológicas representam tudo, menos uma expressão artística. Não faltaram aqueles que decretaram que arte é a expressão da beleza e do sublime, algo construído com a nobre finalidade de nos dar prazer e até doses de felicidade. A tese é uma inocente e equivocada viagem no tempo.

 

É um tanto desconcertante – mas não surpreendente – que o conceito do belo ainda seja, para tantos, critério definidor na criação do artista. É uma regressão de séculos. Estivéssemos ainda sob tal paradigma, o mundo jamais teria conhecido a era da modernidade e todas as vanguardas que demoliram fronteiras, ampliaram modos de linguagem e libertaram nosso olhar para ver o infinito. Falo o óbvio, eu sei.

 

Nossa resistência à estranheza parece nascer com o DNA. Pular fora do convencional será quase uma traição, ou um pecado mortal, a convicções forjadas na matéria do idealismo. Quando essa rendição ao simplório se une a tabus e crenças religiosas, o ciclo se fecha em níveis irrecuperáveis. É o triunfo do fanatismo. Ou algo por aí. Guiados por tais valores, ainda que seja pura arte, só veremos danação.

 

De tão sedutores, o erro e a tolice dominam até aqueles que detêm instrumentos valiosos de análise. Penso na literatura e no grande poeta Ferreira Gullar. Em mais de uma entrevista, em seus últimos anos de vida, declarou que considerava um escritor como Samuel Beckett “um grande chato”. E explicava que, para ele, o irlandês produziu uma obra que deixa o leitor em depressão.

 

É uma avaliação primária, um erro indefensável, ainda que se trate de Ferreira Gullar. Procurar boniteza e conforto na música, na pintura, na instalação ou nas páginas de um romance não faz nenhum sentido. Como disse, seria andar para o passado, para bem antes de tempos medievais.

 

Mas, diante do debate sanguinolento que se espalhou, suspeito que seja uma guerra perdida. De todo modo, se no terceiro milênio ainda nos perguntamos o que é a arte, e qual a sua função em nossas vidas, não serei eu, tão perdido nesse mundo quanto você, a desvendar tamanho mistério.

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