Blog do Celio Gomes

Troca-troca no mercadão político e o “liberalismo moderno” de Bolsonaro

Enquanto o Brasil prestava atenção ao caso Lula, a sexta-feira, 6 de abril, também foi dia de fechamentos de acordos, propostas de compra & venda e lances ousados no leilão republicano da política. Acabou o prazo oficial para mudança de legenda a tempo da eleição de outubro. A última informação que vi era de que uns 60 deputados federais trocaram de bando. Todos eles – e nem seria preciso dizer – movidos exclusivamente por altruísmo e convicções ideológicas.  

 

Até onde sei, os partidos que mais atraíram desertores de outras legendas foram o DEM e o PSL. Vejam que dado sintomático! São duas agremiações no campo da direita. Nada existe por ação das divindades, naturalmente. O Democratas tem como sua estrela de maior brilho o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Já o PSL é o covil chefiado por Jair Bolsonaro. Sinal de que o país avança.

 

Amigos com mais estômago que eu para enfrentar o debate sobre a política alagoana me dizem que por aqui a mudança de lado, assim como nos demais estados, também foi intensa. Confesso que não tive paciência para destrinchar as múltiplas frentes no vaivém de nomes nos casamentos e divórcios em nossa paróquia. Sei que houve de tudo e mais um pouco para selar rentáveis alianças.

 

Esgotou-se também o prazo geral para filiações de todo aquele com intenções de disputar a preferência das urnas. Por isso, empresários, jornalistas, advogados, sindicalistas, professores, profissionais liberais e gente de muitas áreas engrossaram os números de adesão a um partido político. Agora todos estão aptos a cair em campo nas maquinações de uma candidatura.

 

Retorno à direita. Como disse acima, um dos partidos que mais se beneficiaram com novas filiações foi o PSL de Bolsonaro. E essa onda tem uma marola também na praia alagoana. Acabo de saber que empresários por essas bandas estão fascinados com o pensamento liberal – moderno e renovado – que enxergam no deputado adepto da filosofia do fuzil. Parem as máquinas!

 

Esses liberais homens de negócio já foram vistos em passeatas à beira-mar, embrulhados no verde e amarelo da bandeira nacional, ornamentada com uma cruz. São chefes de família, penitentes cristãos e zelosos patriarcas do lar. Também são chegados a um 38 – para defender seus nobres princípios. E haja modernidade nessa abadia! De fato, a eleição que vem aí tem tudo para salvar o Brasil.

 

Eu teria mais coisas a dizer sobre essa renovação na vida pública brasileira. Mas prefiro aguardar por mais informações sobre esse bloco empresarial alagoano – que reza para Jesus e acende velas para o saudável espírito bolsonarista. Estou ansioso para conhecer avançadas lições de tiro e catecismo.

A ESTRATÉGIA DO VELHO LULA

Caiu a noite – e Lula não se entregou à Polícia Federal. Ele dispensou a “gentileza” do representante maior da República das Togas, o paladino juiz Sergio Moro. O magistrado que virou santo para muita gente parece ter tentado uma pegadinha, mas não contava com a estratégia emergencial do velho sapo barbudo. O que parecia inevitável ao longo da sexta-feira, agora está praticamente descartado. Há certa perplexidade na cobertura da imprensa.

 

Vejo analistas de tudo que é lado com as opiniões mais diversas possíveis. Alguns veem na postura de Lula um gesto de afronta à decisão judicial. Outros dizem que não. Afinal, ele não era obrigado a se apresentar voluntariamente em Curitiba. Como diz Moro em seu despacho, isso era uma “opção”. E o ex-presidente abriu mão dessa alternativa. A decisão de Lula não o transforma em foragido, porque ele se encontra em local sabido por todos. A polícia que vá buscá-lo. O quadro é este.

 

Embora ainda se fale em alguma reviravolta de última hora quanto ao cumprimento efetivo da ordem de prisão, prevalece agora algum consenso de que, se não hoje, o velho Lula entrará na cadeia curitibana ao longo do sábado. Nunca uma determinação para prender alguém provocou um cenário como o que temos até esta noite. Enquanto isso, Lula aparece na janela, acena para a multidão e, em seguida, desaparece dentro do prédio. A plateia não para de aumentar por lá.

 

Como se sabe, Lula está na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, em São Paulo. É o palco histórico das greves que balançaram a ditadura militar no fim da década de 1970. Por causa de sua militância como presidente da entidade naqueles tempos, o então líder dos operários foi preso em 1980 pelo regime totalitário que jogou o país nas trevas por mais de duas décadas. É evidente que os dias são outros. Mas a simbologia não pode ser esquecida.

 

Certamente com isso na cabeça, o homem que transformou o Brasil em oito anos, nos dois mandatos presidenciais, sabe que patrocina mais uma jogada no campo da política. É legítimo. Para quem já solta berros de histeria quanto a uma afronta à Justiça, vale lembrar: todo o processo conduzido por Moro é uma antologia de abusos e arbitrariedades contra o ex-presidente. E ao violar preceitos básicos processuais em um caso, o magistrado agride na verdade a todos.

 

Lula, penso eu diante do que está ocorrendo agora enquanto escrevo, age com legitimidade e sem afronta às instituições. Ninguém pode ser coagido a abrir mão de estratégias em defesa de sua liberdade – bem maior e insofismável de todo homem. Será preso. Mas, como disse o advogado Roberto Batochio, seu cliente não vai ao matadouro de cabeça baixa. O que temos: a história do Brasil vai escrevendo diante de nós um capítulo cujo ineditismo chama atenção mundo afora.

UM DIA NA HISTÓRIA DO BRASIL

Hoje é sexta-feira, 6 de abril de 2018. O dia amanheceu nublado, com previsão de chuva para todo o fim de semana. Até agora, no meio da manhã, minha sensação é de mormaço. Aqui em Maceió, até onde sei, nada além dos acontecimentos rotineiros. Na região onde moro, algumas pessoas saíram cedo de casa para caminhar pela orla da lagoa. No momento em que comecei a escrever, faltam algumas horas para um fato inédito na história do Brasil. Um ex-presidente da República teve prisão decretada e tem até as cinco horas da tarde para se entregar.

 

Falar em ineditismo do fato não explica muito. O ex-presidente a ser preso neste dia não é um personagem comum. E isso não é uma opinião. É fato reconhecido dentro e fora do país. Por toda a sua trajetória, Luiz Inácio Lula da Silva se tornou o maior líder popular que o país já conheceu. Ele passou a noite anterior na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Continuava por lá até o fim da manhã. A ordem é para que o ex-presidente fique detido na sede da Polícia Federal em Curitiba. Existe um forte suspense sobre como será o momento da prisão. Ele não vai se entregar voluntariamente. Assim, o cenário por enquanto está imprevisível.

 

O acontecimento brasileiro desta sexta-feira não está restrito ao interesse apenas da população do país. Dada a envergadura do personagem, o caso Lula está nas manchetes de praticamente toda a imprensa internacional. Na frente do sindicato onde ele se encontra, há jornalistas também de todos os grandes veículos do mundo. A defesa do ex-presidente Lula recorreu até à ONU para tentar evitar a prisão. Advogados alegam que ele é vítima de um processo político e apelam para a defesa dos direitos humanos. Tudo isso não dará resultado. Lula será preso hoje, de um jeito ou de outro.

 

Se alguém contasse, anos atrás, que um dia no futuro estaríamos vendo o velho Lula sendo levado preso, acusado de corrupção, seria considerado louco de pedra. Mas esse dia chegou, como estamos todos assistindo. Eu e você estamos aqui, cada um com seus dramas particulares, sendo testemunhas da história viva. Alguns protestam. Outros comemoram. Outros se dizem indiferentes. Eu, que não acredito nas boas intenções da política, que não engrosso fileiras na militância de nenhuma causa, escrevo. Escrevo para pensar. E penso que Lula na cadeia é uma tragédia brasileira.

PT e outros partidos de esquerda comemoram a prisão de Lula

A quem interessa Lula fora do jogo eleitoral em 2018? A muita gente, mas com certeza absoluta a amplos setores da própria esquerda. O aparente paradoxo é somente isto, aparência e nada mais. E não é assim apenas a partir dos fatos recentes, com a condenação em segunda instância, habeas corpus rejeitado pelo STF e prisão decretada pelo juiz paladino Sergio Moro. A coisa vem lá de longe.

 

Quando falo na esquerda que comemora, em silêncio, a tacada mortal no velho Lula, incluo medalhões (e medalhinhas) do próprio barco do PT. É entendimento comum que o gigantismo político do ex-presidente, ao longo das décadas, barrou a ascensão de novas lideranças capazes de atrair a atenção e os votos do eleitor. Em todo esse tempo, ou era com ele... Ou era com ele também.

 

De caso pensado ou involuntariamente, Lula sabotou alternativas em sua própria casa. De Eduardo Suplicy a José Dirceu; de Olívio Dutra a Tarso Genro; de Luiza Erundina a Chico Alencar; de Marta Suplicy a Patrus Ananias – ninguém chegou nem perto do protagonismo exercido pela estrela maior da legenda. Cito esses nomes de memória, mas na lista cabe muito mais gente.

 

A multidão de companheiros que jamais conseguiu se impor ao menos para dividir com Lula a força petista explica Dilma Rousseff. Contrariando todo mundo ao seu redor, até os “históricos” do partido, ele inventou, na eleição de 2010, uma candidata sem qualquer ligação maior com o petismo. Dilma sempre militou no PDT. Trocara de legenda havia pouco tempo e, mesmo assim, foi imposta.

 

Essa realidade incomoda os filiados desde sempre, mas nenhuma voz desafiou o comando onipresente de Lula. Nos últimos anos o quadro no PT apenas se agravou. Prova definitiva é o cenário desolador de agora, em que a legenda vive seu momento mais dramático. Sem Lula nas urnas, Fernando Haddad e Jaques Wagner soam como possibilidades remotas, prontos para a derrota.

 

Para além do PT, demais siglas de esquerda não confessam, mas Lula banido da eleição marcada para daqui a seis meses não deixa de ser oportunidade ao crescimento de algum nome dessas forças. Não há dúvidas de que Rede, PSOL, PC do B, PSB e PDT lamentam o calvário lulista – mas isso não passa de discurso. Em particular, veem no drama uma porta que se abre.

 

Em termos de pré-candidatos, ninguém mais que Ciro Gomes, o coronelzinho do Ceará, está mais afoito com o cenário pós-Lula. Não por acaso, finge descaradamente que está arrasado com o “amigo” a caminho da prisão. Nada mais falso. A cada palestra que proferiu nos últimos quatro anos, Ciro cansou de chamar Lula de ladrão. Em suas piruetas, não poupou nem a família do ex-presidente.

 

Mas agora ele aparece se derramando em lágrimas pela iminente prisão do petista. Claro! O sonho dourado de Ciro é ser candidato em aliança com o PT, que assim deixaria de apresentar um nome próprio, para apoiá-lo. Ele avalia que tem muito mais chance de herdar os votos de Lula, bem mais que qualquer outro petista. Com essa ideia na cabeça, é capaz de beijar os pés de Lula e do PT.

 

Ao falar sobre a prisão do ex-presidente, Ciro disse estar “muito triste”, e cobrou cadeia também para os “corruptos do PSDB e da direita”. Repito: é um descarado se oferecendo como candidato ao PT. Vai repetir esse discurso todo santo dia, na esperança de convencer Lula a indicá-lo para a eleição. A propósito, esse guerrilheiro revolucionário nasceu no berço do PDS, nada menos que a velha Arena, o partido oficial dos brucutus da ditadura. Como se vê, Ciro é tudo, até progressista na veia.

Elas estão descontroladas!

A nobreza do mundo habitado por procuradores do Ministério Público Federal se revela a cada vez que alguns deles dão mostra de suas qualidades intelectuais. Foi o que ocorreu no dia em que o STF decidiu rasgar a Constituição, ao negar o pedido de habeas corpus para o ex-presidente Lula. Durante o julgamento, uma turba formada por membros dessa casta provou que certas autoridades não podem reivindicar o nosso respeito. São elas próprias que se desmoralizam.

 

A imprensa informa que, bem ao estilo de torcidas organizadas do futebol, bandos de procuradores acompanharam a sessão do STF em clima de decisão de campeonato. E, tal como os pit bulls desocupados das arquibancadas, os meninos do MPF não se contentaram com a condição de expectadores. Partiram para a depredação moral dos integrantes da suprema corte do país.

 

E como a imprensa soube do comportamento desvairado dessas autoridades ao longo da reunião no STF? Elementar. É claro que eles não resistiriam à vertigem das redes sociais. Por quase onze horas, tempo que durou a sessão, fizeram de tudo em termos de ofensa, piada e ironia com o andamento dos votos. Montagens e trocadilhos revelam o grau de descompostura a que podem chegar.

 

Na mais pornográfica das manifestações, um deles fez uma montagem com uma foto de uma reunião de militares. Sobre a imagem, aparecia a frase: “Exército assistindo ao julgamento do STF”. Ou seja, a julgar pela cretina manifestação, estavam exaltando a pressão descabida do comandante Eduardo Villas Bôas, que na véspera da sessão fez clara ameaça sobre as instituições. É nojento.

 

A mesma patota se diz preocupada com a “onda de ódio e preconceito” na Internet. Essas “otoridades” não vacilam em processar jornalistas que, pelo meio virtual, criticam suas presepadas. Mas os procuradores fazem exatamente o mesmo; usam as redes para achincalhar a honra dos outros – com o agravante covarde de se protegerem atrás da muralha de uma poderosa corporação.

 

Uma das novidades na reedição do Manual de Redação da Folha são as regras para seus jornalistas quanto à utilização das redes sociais. Acertadamente, a Folha lembra a seus funcionários que ao se manifestarem, ainda que expressem opiniões pessoais, o leitor pode identificar suas eventuais idiossincrasias com a posição do jornal. E isso é um problema sério que deve ser evitado.

 

Outras empresas também adotam a mesma postura da Folha. O Ministério Público deveria pensar a respeito. As estripulias ridículas de seus integrantes serão sempre automaticamente vinculadas à instituição. Como ninguém segura o ímpeto febril dos garotos, seus faniquitos virtuais servem apenas para sujar o conjunto do MP. Alguém precisa agir, antes que eles comecem a publicar nudes.

 

Por enquanto, e numa espiral cada vez mais lacradora, como naquele clássico da arte musical brasileira, na interpretação definitiva do Bonde do Tigrão: Vai, vai... Até o chão... Elas estão descontroladas.... Lamento, mas assim não dá. Sobriedade, senhores!

Willian Bonner contra Gilmar Mendes

Em seu voto no julgamento do pedido de habeas corpus para o ex-presidente Lula, o ministro Gilmar Mendes criticou a cobertura da imprensa. Ele citou especificamente a Folha de S. Paulo, o jornal O Globo e a Rede Globo. Mendes fez menção à cobertura do Jornal Nacional, na edição de terça-feira, véspera do julgamento. Disse que houve tentativa de constrangê-lo. E houve sim.

 

Durante as várias reportagens, o JN mostrou que estava porcamente forçando a mão, numa abordagem para emparedar não apenas o ministro, mas todo o tribunal. Como jornalista – mas não exclusivamente por isso –, defendo a liberdade plena no trabalho da imprensa. Sua atuação livre é um dos pilares da democracia, e nada pode ameaçar tal condição. Sem qualquer ressalva.

 

Defender a liberdade da imprensa, no entanto, não significa concordar com tudo o que se publica, muito menos ignorar as digitais da manipulação de um noticiário que parece esconder obscuros interesses, em detrimento do direito da sociedade à informação qualificada. A edição do JN um dia antes da análise do caso no Supremo, aliás, não foi surpresa nenhuma. Foi apenas previsível.   

 

Curioso ver a reação instantânea da Associação Brasileira de Imprensa. O julgamento ainda estava longe de acabar, e a prestimosa ABI sapecou uma nota de repúdio ao ministro. Em termos agressivos, diz que Gilmar Mendes fez “acusação infamante” aos veículos citados. Nada disso. Ele exerceu o direito de crítica e apontou com clareza evidências de abordagem tendenciosa em reportagens.

 

Mais bizarro foi o que se viu na Globo durante o Jornal Nacional desta quarta-feira, quando Willian Bonner expôs a posição da emissora diante das duras palavras do ministro. Disse o boneco falante: “O ministro Gilmar Mendes afirmou que a Globo fez chantagem. Não foi isso. O que o Jornal Nacional praticou foi jornalismo”. Quanto vale essa garantia do editor-chefe da família Marinho?

 

O jornalismo deve incomodar os donos do poder. É uma das razões incontornáveis de sua existência. O contrário desse princípio é a bajulação de poderosos e a autocensura diante de fatos que atentam contra os interesses coletivos. Ora, o padrão da Globo sempre foi exatamente esse que acabo de mencionar. Seu jornalismo enviesado sempre agiu na contramão da verdade.

 

Em agosto de 2013, a direção das Organizações Globo publicou um longo texto com um pedido de desculpas ao país. Foi o reconhecimento de um erro histórico – o apoio incondicional ao golpe militar de 1964. A Globo diz que essa acusação era vista internamente como algo “irrefutável”. Realmente, basta ver as manchetes do jornal O Globo do período para constatar a postura hedionda.

 

Enquanto viveu, Roberto Marinho, o patriarca da máquina de fabricar mentiras, nomeou todos os ministros da Comunicação do governo brasileiro. Foi o que ocorreu até o governo José Sarney. É claro que isso traduz um método que não se elimina com um discurso recheado de hipocrisia. Bonner honra as tradições da casa. Nada mudou, a não ser a sofisticação tecnológica. A atuação da Globo hoje em dia prova que o pedido de desculpas é apenas mais uma de suas incontáveis falsidades.

Supremo Tribunal Federal joga no lixo a Constituição – e manda Lula para cadeia

O voto aloprado da ministra Rosa Weber foi crucial para o resultado do julgamento do habeas corpus pretendido pela defesa do ex-presidente Lula. Como todo mundo sabe, o Supremo Tribunal Federal decidiu por 6 a 5 que ele deve ser preso após a sentença de segunda instância, proferida pelo tribunal federal com sede em Porto Alegre. O resultado rasga a Constituição do país.

 

A presidente do STF, Carmen Lúcia, sai do julgamento desmoralizada. E isso não é um exagero retórico. Quem assistiu ao julgamento do começo ao fim, voto a voto, sabe do que estou falando. O julgamento, que só terminou na madrugada desta quinta-feira, nem deveria ter ocorrido. É que tramitam no próprio Supremo duas ações que tratam do mérito da questão – para além de Lula.

 

O julgamento ocorreu porque a presidente sentou em cima dessas duas ações, agindo deliberadamente para impedir o esclarecimento definitivo do caso. Ela sabe que, no mérito, o pleno do STF tem posição contrária ao entendimento que prevaleceu no julgamento do habeas corpus específico para o ex-presidente. A manobra de Carmen Lúcia foi condenada, com ênfase, pelo ministro Marco Aurélio Mello. Naquele momento, ela deveria ter reagido à altura. Mas não.

 

Confrontada pelo colega durante a sessão, a presidente da Corte gaguejou, soltou risinho amarelo e ficou com cara de paisagem. Não teve argumento para rebatê-lo. Marco Aurélio disse que o desfecho do julgamento era resultado da “estratégia” da ministra. Ou seja, acusou a colega de maneira explícita. E ela se calou! Nunca se viu nada parecido na história do Supremo.

 

Ainda sobre o voto de Rosa Weber, sua loucura verbal foi tamanha durante a argumentação, com idas e vindas, que virou piada instantânea pela Internet. Resumindo, a ministra disse que era “pessoalmente” favorável ao pleito de Lula, mas votaria contra, por respeitar o entendimento da maioria num julgamento similar de 2016. O exotismo dessa posição fala por si.

 

A decisão autoriza a prisão imediata. Após publicado o acórdão, será questão de poucos dias para que isso aconteça. Ao negar o habeas corpus, o STF jogou no lixo um bocado de artigos e leis do ordenamento jurídico, mas o escândalo mesmo é que o tribunal desprezou este texto: Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. É o inciso 57 do artigo 5º da Constituição Brasileira. Uma regra sagrada em defesa de todos nós. Não mais.

 

Venceu o populismo judicial barato. Ganhou a peraltice verborrágica, demagógica e cretina de figuras como Luiz Fux e Roberto Barroso. Durante os votos, ambos trataram o texto da Constituição como irrelevante. Mais que isso, praticamente fizeram chacota do que está na lei maior do país. Parece inacreditável, não fossem os dois aquilo que são. Um dia tenebroso.

Um clássico nos gramados do STF

São três clássicos em andamento. Enquanto escrevo, o placar no primeiro jogo é de 1 x 0 para o Barcelona sobre a Roma. No segundo jogo, o Liverpool abriu 3 x 0 sobre o Manchester City. As duas partidas valem pela Liga dos Campeões da Europa. O terceiro duelo ocorre no gramado do STF entre Lula e a Lava Jato. O placar até agora é de 1 x 1. O ministro Edson Fachin saiu na frente, votando pela prisão do ex-presidente. Já o ministro Gilmar Mendes empatou a partida, com um voto favorável ao habeas corpus para o petista. Ele ainda aproveitou o lance para bater na imprensa.

 

Gilmar Mendes reclamou da pressão indevida – que chamou de “chantagem” – que segundo ele ocorre em algumas coberturas da imprensa. Ele está certo, neste caso específico. Quem viu o Jornal Nacional de ontem sabe do que estou falando. As reportagens exibidas tentaram, de maneira escandalosamente incisiva, constranger os ministros a votar como quer a Globo: contra Lula.

 

Nos dois primeiros embates, lá no futebol europeu, não tenho preferência. Espero que a vitória saia para o melhor futebol – com o perdão do lugar-comum. Já no STF, tomo partido pela Constituição, que tem de ser cumprida. Porque isso significa respeito não apenas a Lula, mas a todos os brasileiros. Sendo assim, espero que Lula saia vitorioso no embate contra o obscurantismo.

 

A bola – e os votos – continuam em campo. Volto após o apito final.

O Exército contra a democracia: a fala descabida do comandante

Se há duas coisas historicamente incompatíveis no Brasil, desde a queda do Império, são o Exército e a democracia. A República nasceu, como se sabe, com um golpe militar, e essa tradição chegou ao ápice com a ditadura instalada em 1964. Por isso, as mensagens do comandante Eduardo Villas Bôas parecem mesmo um aceno a ações nada democráticas no panorama que vivemos hoje.

 

Na noite desta terça-feira, às vésperas do julgamento pelo STF do habeas corpus em favor de Lula, o militar escreveu em rede social: Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.

     

Nada mais obscuro que um general no comando da tropa vir a público se manifestar de forma um tanto ameaçadora contra a ordem legal do país. É uma pressão descabida contra a suprema corte da nação. Que história é essa de o Exército compartilhar com o “cidadão de bem” o que ele chama de “repúdio à impunidade”? É a força bruta querendo impor sua vontade a qualquer jeito.

 

Para ficarmos no período entre 1964 e 1985, nos 21 anos de regime militar, o Exército representou tudo, menos respeito à democracia e à Constituição. É exatamente o contrário do que diz o general. A ação das Forças Armadas durante a ditadura significou a pior quadra na vida brasileira. Só para não esquecer: torturas, desaparecimentos e assassinatos resumem o legado de terror.

 

No fim do seu inaceitável recado, o comandante solta a sombria lorota. Diz ele que o Exército “está atento às suas missões institucionais”. Que missões seriam essas? Intervir no processo político? Fechar o Congresso Nacional? Decretar a censura à imprensa? Cassar o mandato de políticos eleitos pelo voto popular? Eliminar “subversivos”? Essas missões o Exército de fato conhece bem.

 

Lembro aqui de algo deplorável, que ainda ocorre nos quartéis pelo Brasil afora. A cada 31 de março, muitos comandos regionais do Exército comemoram o aniversário do que para eles é a “Revolução de 64”. Um ataque mortal contra as liberdades em geral e contra a democracia é festejado como se celebrassem algo nobre. Trata-se de uma ofensa em todos os sentidos.

 

Como se vê, o “cidadão de bem” conta até com o apoio de generais para botar o sapo barbudo na cadeia. Seja qual for a decisão do STF, espera-se que os ministros votem com a Constituição. E com coragem. Porque não resta dúvida de que as palavras do comandante acenam para a covardia. Três décadas após o fim da ditadura, o Brasil mudou demais – ainda que tantos continuem no passado.

A quase candidatura do chefe do Ministério Público Estadual

CadaMinuto/Arquivo Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Alfredo Gaspar de Mendonça

Não é nada do outro mundo, mas está chegando um momento sempre importante em ano de eleições. A partir desta quarta-feira, são três dias até o fim do prazo de filiação partidária para quem pretende ser candidato na disputa pelo voto. Sete de abril também é o limite para agentes públicos deixarem os cargos – também se quiserem testar a popularidade nas urnas. A agitação é forte.

 

Como nunca deveria ocorrer, um dos ambientes mais contaminados pelo clima pré-eleitoral é o Ministério Público de Alagoas. Não lembro quando tivemos um panorama semelhante ao de hoje. Suponho ser algo inédito. O assunto mais debatido na instituição passa longe de processos, investigações ou termos de ajustamento de conduta. Tudo por lá gira em torno da eleição.

 

É natural. O ineditismo está no fato de o chefe do MPE ter mergulhado de cabeça no mundo da política. Há praticamente um ano, cogita-se a candidatura do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, a algum cargo – nada menos que a senador ou a governador. Nesse período, o que não faltou foram reuniões e mais reuniões para debater a viabilidade dessa renovadora ideia.

 

O procurador, sempre cauteloso em público, turbinou, em particular, todo tipo de especulação em torno de sua eventual aposta como candidato. Não foi por acaso que, ao longo dos meses, a cada temporada, surgiram novidades quanto à tendência da hora. Mendonça recebeu convites, conversou com caciques partidários, avaliou pesquisas, apresentou condições a diferentes legendas...

 

Agora, depois de fabricar as maiores expectativas, parece que o procurador teria desistido de sua ambição em servir ao povo com um mandato eletivo. Como as jogadas políticas podem mudar tudo a cada semana, o cenário posto hoje está longe de garantir ao chefe do MP uma perspectiva de vitória nas urnas. Diante da incerteza, ele estaria prestes a anunciar que fica no cargo.

 

Caso a tendência de não se candidatar seja confirmada, o procurador adia o sonho da política para 2020, quando poderá concorrer ao cargo de prefeito de Maceió. Aliás, quem acompanha de perto os lances dos tais bastidores da política – não é o meu caso – diz que o desejo acalentado pelo homem é mesmo a prefeitura. O Senado sempre foi uma alternativa menos atraente.

 

Pensando sobre o caso do chefe do MP, é inescapável a comparação com o prefeito Rui Palmeira. Assim como o tucano, Mendonça faz suspense até a última hora quanto à sua decisão. E também como Rui, a demora acabou virando um complicador nos planos eleitorais. A indecisão fechou portas e atraiu obstáculos. De todo modo, manda a prudência que esperemos até o fim.

 

Enquanto isso, como falei, o nervosismo e a instabilidade tomaram conta da instituição – sempre tão carregada de demandas graves sobre a vida pública no estado. O limite dos prazos legais deve trazer, em tese pelo menos, um pouco mais de calma entre as autoridades do Ministério Público. Com o desfecho do impasse, o foco por lá volta para investigações e processos em andamento.

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