Blog do Celio Gomes

Quem leva a eleição para presidente

Leio artigos de profissionais que ganham a vida como especialistas em tendência de voto no eleitorado brasileiro. Vejo programa de entrevista com os diretores do Datafolha e do Ibope avaliando o panorama das pesquisas sobre as eleições que vêm aí. No falatório geral temos muita espuma, especulações demasiado cuidadosas e um alto índice de lugares-comuns. Profecia não é fácil.

 

Os palpites e cenários desenhados não variam muito. De tão repetidas por todo mundo, algumas análises parecem surgir do nada, e servem como escoras nos momentos em que debatedores não têm o que dizer. São os piores lances de um jogo sempre arriscado. Espera-se dos debatedores que apontem favoritos, as possíveis surpresas e até eventuais azarões. Mais ou menos por aí.

 

Vamos a algumas ideias consolidadas na praça, a essa altura da bagunça geral. Jair Bolsonaro, hoje, estaria no segundo turno. Isso é tão certo quanto a ideia de que a candidatura pode despencar quando a campanha pegar fogo. Como o eleitor está obcecado pelo “novo”, Joaquim Barbosa também tem fôlego para brigar nas cabeças. Precisa consolidar a posição nos meses seguintes.

 

Mesmo barrado nas urnas, Lula é capaz de garantir votos a um nome do PT escolhido por ele como seu substituto. E esse Plano B também teria chances reais de garantir uma vaga no segundo turno. Isso somente deixará de existir se o partido fizer uma aposta muito errada, numa hora ainda mais equivocada. Quanto mais os petistas demorarem nessa decisão, mais perigos vão enfrentar.

 

Dramática é a situação do PSDB, com Geraldo Alckmin aparentemente sem um discurso claro e contundente. Até agora, ele representa tudo o que o eleitor parece desprezar no atual contexto de ódio aos nomes consagrados. Os números das pesquisas refletem esse diagnóstico. Resta a aposta na estrutura partidária e numa feitiçaria bem-sucedida na propaganda para a TV.

 

Marina Silva e Ciro Gomes, por razões e variáveis distintas, seriam as maiores incógnitas, embora a líder da Rede Sustentabilidade tenha melhor desempenho nas pesquisas do que o ex-ministro. Para o fortalecimento de seus projetos, ambos dependem de alianças, algo ainda em aberto. Ciro sonha com o apoio do PT, uma hipótese hoje vista como remota – para não dizer impossível.

 

A ironia é que as pesquisas garantem que os brasileiros procuram por um nome radicalmente novo, mas os candidatos na ponta das intenções de voto são velhos conhecidos. Parece que, na falta dessa radical novidade, Bolsonaro e Joaquim Barbosa pescam uma parcela dos insatisfeitos com a velha política. É mais ou menos como diz a piada: “Não tem tu, vai tu mesmo”. Mas isso pode mudar.

 

A incerteza absoluta sobre os rumos da eleição para presidente está no índice que reúne os eleitores indecisos e os que dizem votar em branco ou nulo. No total, esse exército de desiludidos é maior que o conjunto que declara preferência por um concorrente. É o universo em desencanto.

 

Por isso, o jornalista Ricardo Kotscho diz que, fôssemos às urnas agora, o senhor Ninguém seria o candidato disparadamente favorito. Mas ainda faltam cinco meses. Tempo suficiente para tudo.

 

                                                                      * * *

 

Três dias sem internet aqui na ilha. Segundo a empresa, foi o tempo necessário para uma “manutenção na rede”. Por isso, a falta de atualização. Volto a importunar os leitores.

Diretor de filmes irrelevantes, cineasta alagoano quer ser imortal

Carlos Diegues é candidato a imortal da Academia Brasileira de Letras. O cineasta alagoano vai disputar a cadeira que era de Nelson Pereira dos Santos, seu colega de Cinema Novo que morreu na semana passada. A notícia confirma algo que me parece uma ironia recorrente no universo da arte. Não importa o quanto um artista tenha trilhado o caminho da rebeldia e da contestação, o tempo acaba por amansar o rebelde e o contestador. Nada como a discutível glória da imortalidade!

 

Um dos filhos da festiva e mitológica década de 1960, Diegues adora repetir – com humor, mas também com uma dose de soberba – que ele e seus parceiros de viagem tinham um objetivo singelo naqueles tempos: mudar o cinema, o Brasil e o mundo. Essa lenda está registrada em várias de suas entrevistas e também em textos publicados por ele na imprensa. No cinema, deu certo.

 

Isso não quer dizer que os filmes sejam, todos, grandes obras. Para falar a verdade, sem o carnaval que domina parte da crítica, na média boa parte da produção de Cacá Diegues e demais nomes do CN é um fracasso. Um dos problemas fatais está justamente na pretensiosa ideia de revolucionar tudo – até o país e o planeta. As premissas ideológicas fulminaram a estética.

 

Mas a fixação num ideal de arte revolucionária, temperado com uma leitura ligeira do marxismo, está longe de ser o único e maior problema em muitos dos filmes do alagoano. Dias Melhores Virão, Um Trem para as Estrelas, Tieta do Agreste, Orfeu, Veja Esta Canção e Deus é Brasileiro, por exemplo, não acrescentam nada ao cinema produzido por aqui. Parece coisa de amador.

 

Títulos como Ganga Zumba, Joana Francesa, Xica da Silva e Bye Bye Brasil, que formam o núcleo duro da produção do cineasta, podem ser lembrados hoje mais como marcos arqueológicos do que como realização de grande arte. Com todo o respeito, Diegues justifica na plenitude a piada que Paulo Francis gostava de contar: os filmes são belas porcarias, mas os diretores são foda.

 

Nomes como Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, para mim, construíram um cinema muito mais inquietante – e fizeram obras-primas que o alagoano e outros badalados jamais conseguiram realizar. Talvez por isso, Carlos Diegues, embora tenha concorrência na eleição, alcance o fardão na quase irrelevante ABL. Se conseguir a cadeira, será um imortal de filmes mais mortos do que vivos.

Lula da Silva tem que morrer

Há exatamente um mês, os ônibus que faziam parte da caravana do ex-presidente Lula na região Sul foram alvejados por tiros. O ataque ocorreu durante a noite do dia 27 de março, numa estrada do Paraná. Antes, a mesma caravana já havia sido atacada por pedradas que tentavam acertar o homem que tantos parecem não apenas odiar – pelo visto, gostariam de vê-lo trucidado.

 

Esse petista desgraçado – que muita gente de bem prefere morto – está preso desde 7 de abril. Mas isso não é o suficiente. Os pais dedicados, os cidadãos indignados, os senhores que vão à missa todo domingo – enfim, toda essa comunidade que adora a bandeira do Brasil quer mais. Deve ser por isso que, na madrugada deste sábado, de novo no Paraná, houve mais uma rajada de balas.

 

O alvo de agora foi o acampamento dos apoiadores de Lula, instalado a cerca de um quilômetro da sede da PF em Curitiba, onde o ex-presidente está detido. Segundo informações oficiais, a polícia encontrou no local cápsulas de pistola 9 mm. Duas pessoas ficaram feridas nesse novo atentado contra Lula e o PT – ainda que o homem não esteja no local. Está claro que o ódio mortal é para ele.

 

Pistola 9 mm não parece ser coisa muito fácil de se encontrar por aí, penso eu. Como não sou especialista no assunto, e nunca peguei em arma de verdade, nem quero uma para defender meu patrimônio secreto, talvez eu esteja errado. Mas, afinal, o que explica esse desvario com todo jeito de disposição assassina? É somente mais um ato isolado, fruto de uma cabecinha enferrujada?

 

Essa é fácil de cravar. Claro que não. Das passeatas organizadas pela direita ao lixo virtual na internet, porcarias de todos os penteados pregam abertamente a morte de Luiz Inácio Lula da Silva. Em muitos desses casos, quando confrontados pra valer, os valentões apelam para a cretina explicação de que tudo não passa de “brincadeira”. E seguem apontando fuzis para a cabeça de Lula.

 

Aí não, meu amigo. Não vejo nada de normalidade em alguém que acha saudável, que acha engraçado e bonito reverenciar imbecis que vivem a exibir pistolas e metralhadoras apontadas para a cabeça de uma pessoa. Isso tem consequência. Nessa toada, podemos chegar em qualquer lugar, até no inferno, menos num porto civilizado. Os tiros em Lula e no acampamento decorrem disso aí.

 

Pode apostar: agora mesmo uma horda deve estar fazendo piada com o caso que feriu duas pessoas. Celerados não perdem tempo e já estão urrando de prazeres com os tais memes, sempre muito inteligentes. De outro lado, tem a delinquência que tenta jogar a culpa nas vítimas. E assim, a cada disparo e a cada relincho, patriotas e "pessoas honradas" seguem na caminhada para salvar o país.

As Coreias, a cidade e o meio da rua

A Coreia do Sul e a Coreia do Norte se aproximam. Os presidentes trocaram apertos de mãos, sorrisos e demais gentilezas. Um deles, o do Sul, veste o clássico terno & gravata. O outro, do Norte, veste o que parece um uniforme militar. Eles também se diferenciam pelo corte de cabelo. No meio, as bombas e todo um arsenal de armas nucleares. Um vizinho, aqui na rua, pergunta se o antigo bairro da Coreia, em Maceió, tem algo a ver com essas terras distantes que estão agora na TV.

 

Até o começo dos anos 1980, acho que ainda se falava na Coreia maceioense. O bairro estava colado à Ponta Grossa, mais precisamente a partir de um determinado ponto da Rua Cabo Reis, quase no extremo da via, em direção ao Rei Pelé. Onde hoje existe uma UPA, ali era, digamos, o coração da Coreia. Houve um tempo em que os lugares mais identificados com a barra pesada eram, num extremo da capital, a Coreia, e no outro extremo, o Jacintinho. Ninguém falava ainda de “periferia”.      

 

Desde sempre, e como ocorre em outras partes da cidade, os bairros se misturavam: Vergel, Coreia e Ponta Grossa sempre se confundiram. Nos envelopes das cartas, você poderia escrever qualquer um dos três nomes, que a correspondência chegava sem problema. O mesmo se dava com os bairros do Prado, Trapiche e Ouricuri. Este último, assim como o nosso território coreano, também deixou de existir; foi engolido pelo Prado a partir da mesma década de 1980.   

 

Rua Bom Destino, Rua do Arame, Rua Boa Sorte, Vilas Kennedy I e II. Essas e outras vias estavam nessa mistura de bairros. Podia ser qualquer um, ficava ao gosto do morador. Com o tempo, Coreia e Ouricuri viveram o mesmo processo de marginalização – ou alguma coisa por aí. Se não estou enganado, não pegava muito bem informar que seu endereço ficava nesses lugares. Esse talvez tenha sido o fator crucial para a morte dessas localidades – aos menos a morte dos nomes.

 

Ali pelos anos 70, para um típico maloqueiro (como eu) que vivia exclusivamente nessas áreas da cidade, ao percorrer pela primeira vez a geografia dos “bairros nobres”, o maior impacto foi ver os espaços desertos. Ninguém nas calçadas; nenhum racha no meio da rua; nenhuma turma de pivetes jogando ximbra; ninguém nas esquinas jogando dama ou dominó; nenhuma casa com a porta aberta e, lá dentro, a voz de Roberto Carlos; nenhuma garota rodando bambolê. Nobreza!

 

Que cidade era aquela em que as ruas estavam mergulhadas no silêncio? Nas casas luxuosas não havia moradores? Onde estavam os bandos de garotos que, no Vergel e arredores, enchiam praças, ruas, vilas e bibocas? No bairro nobre, pensei, o povo ou é esquisito ou fica todo mundo entocado, com alguma tristeza inexplicável. Descobri que havia uma cidade dentro da cidade.

 

Mais tarde, um pouco de literatura ampliou as ideias sobre a vida nas bandas periféricas da paisagem urbana. De Baudelaire a João Antônio, lá estavam os personagens que os críticos carimbam como típicos da arquitetura marginal. Mais para cá, o cubano Pedro Juan Gutierrez ergue um monumento a esse universo de sons, cores e tipos tão próprios do lado oposto às áreas nobres.

 

No clássico A Alma Encantadora das Ruas, escreve João do Rio: Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

 

Parece que me desviei do assunto original. Espero que ninguém entenda isso como uma pretensa crônica. Era tudo o que não queria que você pensasse. Ia falar da geopolítica internacional...

Cartola banido, bandalheira intocada

A notícia do dia, no mundo da bola, é a decisão da Fifa sobre o presidente afastado da CBF, Marco Polo Del Nero. A entidade internacional baniu para sempre do futebol o cartola brasileiro. As razões para medida tão drástica, claro, são os casos de corrupção envolvendo propina para jogos da seleção de Neymar & Cia. Como já escrevi aqui, uma quadrilha comanda o esporte mais popular na terra de Pelé, Garrincha e Joãozinho Paulista. Apesar dos escândalos, o esquema segue intocado no país.

 

Os competentes cartolas alagoanos devem estar tristes com a decisão da Fifa. Certamente consideram que o parceiro Del Nero é vítima de uma tremenda injustiça. Temos até um vice-presidente da CBF para a região Nordeste. Com esse prestígio, federação estadual e clubes como CSA e CRB são tradicionais aliados das jogadas dos capitães da tropa. A mesada garante a tabelinha.

 

Quando vejo reportagens sobre a delinquência no futebol, é impossível não pensar na TV Globo e nas autoridades da Justiça amarelinha. Tudo o que se sabe sobre a máfia da bola é consequência de jornalismo estrangeiro e de investigações muito longe do Brasil. Países da Europa e principalmente os Estados Unidos fizeram o que deveria ser feito entre nós. Mas aqui a retranca é indevassável.

 

Na imprensa, para homenagear a coragem de poucos, deve-se reconhecer que há exceções relevantes. Serei estupidamente óbvio ao lembrar que entre essas exceções a Globo nunca esteve e jamais estará. É impossível. Afinal, trata-se da maior parceira no sistema tático corrupto montado pela CBF. A Globo é uma sócia majoritária e absoluta no organograma. E a sociedade é indissolúvel.

 

Por isso, quando uma notícia como a de hoje, sobre Del Nero, aparece nos telejornais da casa, está lá o constrangimento na cara de apresentadores e repórteres. Deve ser ao menos um tantinho incômodo fingir que a empresa não tem nada a ver com a pilantragem. A realidade é o contrário.

 

É claro que não há o que festejar. Del Nero é cachorro morto. A Fifa e CBF sabem disso. A entidade brasileira já elegeu o novo presidente, o tal Rogério Caboclo – que no dia da eleição puxou aplauso para o antecessor. O novo chefe representa a perpetuação da mesma gangue. Tem saída?

 

O caminho único seria pelos clubes. Como o jogo não existe sem o jogador, caberia aos times brigar para assumir a organização do futebol. Mas aí entram os cartolas e os mercadores de atletas, entre outros males intocáveis no meio do campo. Eis aí um universo condenado à bandalheira.

Thomaz Nonô para governador! Por que essa candidatura não existe?

Arquivo/Secom Maceió Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Thomaz Nonô

A oposição ao governador Renan Filho apostava tudo na candidatura do prefeito de Maceió, Rui Palmeira. Depois de um suspense que parecia interminável, finalmente Rui anunciou, em 12 de março, que não disputaria o governo alagoano. Um mês e meio após o anúncio que parece ter devastado sonhos de um bocado de gente, a frente partidária que perdeu sua alternativa dada como certa ainda não encontrou o famoso Plano B. Seria o deputado Rodrigo Cunha. Ele hesita.

 

Rui Palmeira é tucano como seu quase substituto. O deputado é apresentado agora como uma das novas estrelas do PSDB, pronto para ocupar um espaço mais amplo e se tornar um protagonista além do tucanato. Cunha começou a trajetória como superintendente do Procon, agraciado pelo então governador Téo Vilela. Suas credenciais para o cargo foram a origem familiar e os vínculos partidários. A suposta renovação que ele representa ainda se resume aos ternos e à retórica.

 

A oposição não tem apenas o PSDB, é claro. Por que as demais legendas não apresentam opções? Entre os partidos aliados nesse balaio está o Democratas, chefiado pelo ex-deputado José Thomaz Nonô. Não seria este um nome para ser o candidato após a desistência do prefeito? Até agora, salvo engano, essa ideia não teria sido sequer cogitada. Nem o próprio cacique do DEM teria tal pretensão.

 

Penso que é o caso clássico de descompasso entre disposição pessoal e circunstâncias da época. Em outras palavras, Nonô talvez tenha de se resignar com o seguinte fator da história: seu tempo passou. Não que ele seja irrelevante na política alagoana. Mas já foi muito mais forte. A partir de 1983, passou a colecionar mandatos de deputado federal; foram nada menos que seis, por mais de duas décadas. E mais de uma vez, ele foi o mais votado – e se orgulhava de ser imbatível.

 

Com esse desempenho nas urnas, craque no gogó e bom de briga, o político sempre teve seu nome ali, na marca do pênalti, como potencial candidato a governador ou a prefeito da capital – mas a ideia nunca se tornou viável. Coisas do jogo partidário e dos lances inesperados no destino de cada um. Em 2000, quando já não era o mesmo da época de ouro – os anos 80 e 90 do século passado –, disputou a prefeitura de Maceió. Para alguém de sua envergadura, a votação foi um vexame.

 

Naquela disputa pela prefeitura, Kátia Born foi reeleita no segundo turno, vencendo Regis Cavalcanti. Sim, Nonô caiu ainda no primeiro tempo do jogo. O grande campeão de votos do passado amargou um melancólico fiasco. Em 2006, tentou ser senador, mas perdeu para Fernando Collor. Nos anos seguintes, ele chegaria ao Palácio dos Palmares, mas – que ironia – na inexpressiva cadeira de vice-governador. O titular era Téo Vilela. Seu último posto foi o de secretário de Saúde.

 

Digamos que em condições normais, se isso fosse possível em política, Nonô seria um candidato natural a governador. Controla um partido, tem ligações em todo o estado e sabe como poucos o que faz um boi voar. Mas veja como é a vida: dois caras que começaram ontem – Rui Palmeira e Rodrigo Cunha – teriam muito mais chance de vitória. É a percepção de seu próprio entorno. E é uma constatação objetiva da realidade. Como ele encara isso, não faço nenhuma ideia.

 

Mas quem garante qualquer coisa em política, cravando certezas no futuro, bom da cabeça não é. Vai que um vento desgovernado bate no destino do ex-deputado, e o homem sai candidato a governador?! Não, não tenho informação privilegiada sobre nada nem ninguém no jogo eleitoral alagoano. Eu não apenas nada entendo de ciência política, como também estou por fora de todos os bastidores do poder. Por isso mesmo posso “viajar” e atirar em todas as direções.

 

É o que acabo de fazer – com alguma base no que chamamos de vida real, naturalmente.

Lava Jato: histeria e fanatismo

O bloco do fanatismo da Lava Jato, que vai de bolsonaristas a nostálgicos da ditadura, passando pela direita “esclarecida”, está à beira de um colapso nervoso. Tudo porque o STF tirou de Sergio Moro o caso do sítio que envolve o ex-presidente Lula. A coisa é tão escalafobética, que o juiz de Curitiba decidiu que a palavra do Supremo não vale nada – e anunciou que ele não larga o processo de jeito nenhum. Para isso, o ídolo messiânico tem o noticiário da Rede Globo como aliado fiel.

 

Nem sei ao certo o que vai ocorrer com esse episódio. O que chama atenção mesmo é a histeria desencadeada nos meios que pretendem eliminar o velho Lula a todo custo. O homem tem de ser levado ao degredo, silenciado para sempre, longe dos olhos de todos. Não basta a prisão após uma sentença ridiculamente poluída por ilações e elogios de Sergio Moro a ele mesmo.

 

E nessas horas, as vozes da ignorância, da maledicência e da desonestidade estão devidamente espalhadas nas mais diversas prateleiras. Berram os mocinhos de gel no cabelo do MPF, berram jornalistas do Renova BR, berram ideólogos do armamentismo, berram intelectuais do porte de Alexandre Frota e Joice Hasselmann. É muita inteligência em defesa de uma causa.

 

Tamanha patifaria barulhenta está de acordo com o pensamento tosco que idolatra heróis de toga. Parece que, por essas vozes, o país deve ser governado por uma delegacia da Polícia Federal gerenciada pela força-tarefa da Lava Jato. Fora das ideias medonhas dessa patota, não há salvação – é o que imaginam por aí. E não importa se os fatos anulam a versão que querem impor.

 

Já escrevi aqui, inúmeras vezes, sobre a sanha obscurantista que temos na praça, alimentada pela filosofia do prendo e arrebento. O que se apresenta como novidade não vai além de ideias fixas hoje requentadas. Como nos tempos do getulismo ou no golpe de 64, o inimigo mortal é a corrupção. Em nome dessa guerra tresloucada, idiotas reverenciam figuras claramente autoritárias. É complicado.

 

A continuar no embalo que arrasta demagogia e irracionalismo, o fanatismo das sirenes, das algemas e dos “óculos de aro fino” tem tudo para nos levar ao abismo. A República das Togas avança.

“Ela desafiou o Poder Judiciário”

Mudarei a pauta a partir do próximo texto, mas o caso da prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira ainda rende o que falar. Na verdade, jamais saberemos o que de fato houve nos bastidores desse obscuro episódio. Escrevo isso depois de ler declarações da promotora Marluce Falcão publicadas pela Gazeta nesta quinta-feira, em matéria assinada pela jornalista Regina Carvalho.

 

A promotora foi ouvida pela repórter na manhã da quarta-feira, portanto horas antes da soltura de Maria Aparecida. Embora expliquem pouco, as palavras da integrante do Ministério Público Estadual servem para reforçar o quanto houve de esquisitice nessa operação toda, que resultou no silenciamento de uma mulher, ao menos durante um dia e uma noite. Vamos ler a promotora.

 

Estou fora fazendo um curso. A promotoria criminal da capital é coletiva. São dez promotores. Pelo que eu me lembro desse caso, ela [a jornalista] estava desaparecida e foram feitas várias tentativas em vários endereços e ela não foi localizada. Vejam que Falcão fala da “promotoria coletiva”. Ela é uma das assinaturas no pedido de prisão de Maria Aparecida. Repare que é possível entender que a promotora ressalta essa coletividade e, com isso, apaga a responsabilidade individual.

 

Vejam que perigo para os direitos básicos do cidadão. O eventual alvo da ação enfrenta uma verdadeira força-tarefa contra ele. E, caso tente questionar a autoridade específica, isso simplesmente não existe porque, como alega a entrevistada da Gazeta, a promotoria é coletiva. Eu estou vendo a hora de o MP informar que ninguém entre os seus pediu a prisão da jornalista.  

 

A promotora diz ainda que, pela internet, a acusada teria avisado ao procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, que continuaria com ataques. Ele processou Maria Aparecida por calúnia. Falcão: Na verdade, esse processo estava correndo normalmente como qualquer outro. Ela responde a dezenas, mas ela desafiou o próprio Poder Judiciário. Viram como é? Tudo corria “normalmente”. E é bom você tomar cuidado para não “desafiar” a Justiça alagoana. Se não...

 

Serei repetitivo. Jamais saberemos a verdadeira motivação que levou não apenas um, mas um grupo de promotores (cinco ao todo) a solicitar que uma mulher de 68 anos de idade fosse para a cadeia, quando nem processo existe ainda. Ela não foi sequer indiciada. E nem saberemos o que se passou na paisagem que vai da sede do MPE até o gabinete de um magistrado que decretou a prisão.

 

Apesar da coletiva do procurador-geral, sobram perguntas sem resposta. É que essa história da prisão sumária foi algo muito sinistro. Mas desse mingau todo podemos ressaltar o ponto que realmente importa: como diz o ditado, autoridades podem muito, até demais; mas não podem tudo.

Sindicato critica prisão de jornalista

O leitor confere a seguir a nota do Sindicato dos Jornalistas e da federação nacional da categoria sobre o episódio que sacudiu bastidores do mundo jurídico em Alagoas. Estou falando, é claro, da prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira. Depois de 24 horas encarcerada por suposto crime de calúnia e difamação, ela foi solta no fim da tarde de ontem (quarta-feira 25). Cobrei uma manifestação oficial das entidades que defendem o exercício do jornalismo. A nota abaixo foi divulgada em redes sociais e no site da Fenaj. A redação do texto é anterior à soltura da jornalista.

 

NOTA OFICIAL

 

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Alagoas (Sindjornal) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) vêm a público cobrar do Poder Judiciário, os devidos esclarecimentos sobre a prisão preventiva da blogueira Maria Aparecida de Oliveira, ocorrida ontem (segunda-feira, 23) acusada de coação à vítima, o procurador-chefe do MP/AL, Alfredo Gaspar de Mendonça, em processo movido pelo Ministério Público Estadual.

De antemão, enquanto o Sindjornal aguarda as devidas explicações, reafirma o seu compromisso intransigente na defesa dos direitos constitucionais à liberdade de expressão e de informação. Ao mesmo tempo, se coloca à disposição de Maria Aparecida de Oliveira para garantir o seu amplo direito de defesa.

O fato é mais preocupante por ocorrer num momento em que o Brasil vive um clima de incertezas jurídicas e com liberdades individuais sendo cerceadas. A medida tomada pelo Judiciário Alagoano contra a blogueira causa estranheza por ser exagerada e apressada, já que se poderia aguardar o julgamento do processo sem submeter a ré à medida extrema de prisão.

O  Sindjornal  e  a  Fenaj  reiteram  seus  compromissos  históricos  com  a democracia,  a  liberdade  de  imprensa  e  o  jornalismo  comprometido  com  a verdade e a ética.

SINDICATO DOS JORNALISTAS DO ESTADO DE ALAGOAS

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS – FENAJ

Contra tiranetes e brutamontes, a liberdade de pensar e escrever

O governador do Maranhão, Flávio Dino, acaba de ser flagrado num caso grave de distorção do papel das instituições de Estado – que devem agir sob o inafastável princípio da impessoalidade. Pelo que se viu na imprensa nacional, ele tentou transformar as forças de segurança em instrumento de perseguição política em ano eleitoral. A ordem era para que a Polícia Militar partisse para cima das oposições. Com a revelação da criminosa iniciativa, ele jura que nada tem a ver com o escândalo.

 

A peripécia do governador é um exemplo da tentação que acomete todos os chefes do Poder Executivo, em qualquer esfera da vida pública. É claro que o mesmo perigo rodeia em tempo integral o Poder Legislativo. Para impedir que pessoas molestem com desassombro o arcabouço institucional que protege a sociedade, há uma série de mecanismos, de múltiplas configurações. São regras de controle e meios de correção que devem ser acionados com rapidez e eficiência.

 

No Estado de Direito, o mais precioso desses mecanismos de blindagem a ações totalitárias contra os direitos sagrados do indivíduo é a Constituição. Lá estão prescritos os remédios legais para barrar espasmos de autoritarismo tão comuns a projetos de tiranete. Quando vejo valentões fazendo pouco caso da obediência às leis – ainda que travestidos de “homens de bem” –, não tenho dúvida: é mais um saudosista dos tempos em que o coronelismo decretava a vida e a morte.

 

Falei dos poderes Executivo e Legislativo. Se a violação aos princípios elementares da democracia é algo deletério no mundo da política, imagine quando isso é uma tara em setores do Judiciário e do Ministério Público. Aí a ameaça se reveste de cores sombrias. Um agente da lei – como juiz ou promotor – adepto ao atropelo normativo incorre em prática hedionda. Agindo assim, é alguém que, por dentro da máquina, opera a falência da instituição e agride a todos de modo selvagem.

 

Mas existe outra frente de combate aos senhores do obscurantismo. Refiro-me à imprensa livre e à liberdade de expressão. São conquistas definitivas do mundo civilizado. Não são poucos, porém, os que lamentam isso profundamente. Não por acaso, todo aquele que pretende pastar acima de tudo é inimigo mortal do ambiente livre em que podemos falar, debater e denunciar desvios, delitos e crimes. Hoje como ontem, sobram exemplos de vozes em defesa da filosofia do prendo e arrebento.

 

No Brasil de agora, e nem preciso me esforçar para demonstrar isso, a cada esquina um idiota prega o linchamento de acusados, o fechamento do Congresso Nacional ou a volta da ditadura militar. Cretinos de alto coturno e engravatados em luxuosos gabinetes sentem urticária quando escutam falar em direitos humanos. É gente cujo DNA será sempre refém do mandonismo engordado nos berços do engenho e da oligarquia. Para essa tipologia mental, a vida do outro não vale nada.

 

Aqui neste espaço, a política e os políticos nunca tiveram boa vida. A crítica dura e intransigente é a regra, sem concessões. Basta conferir os textos. Mas não me venham com a gritaria tosca e autoritária de salvadores da pátria – estejam eles cobertos por jaquetões, capotes ou togas. Não precisamos de brutamontes com receitas patéticas envernizadas de soluções simplórias para o país. Contra tudo isso, o trabalho da imprensa, no grande veículo ou no simples blog, é antídoto radical.

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