Blog do Celio Gomes

Professor aloprado e ódio ao jornalismo

Uma das coisas mais exóticas que descobri nos tempos de universitário – isso já faz trinta anos – foi que existe uma fanática e indestrutível aversão ao jornalismo por parte dos professores de jornalismo. Parece uma contradição inexplicável, mas é assim mesmo nas faculdades de Comunicação Social. Ao menos nas universidades públicas federais, eis uma tradição que se estabeleceu definitivamente.

 

Pelas informações que circulam, sei que hoje a situação é rigorosamente a mesma, ou talvez até mais grave. Nas aulas de jornalismo, aprende-se de tudo, menos como fazer uma pauta, apurar um assunto, escrever uma reportagem e outras habilidades que nossos mestres julgam inúteis e desprezíveis. Altamente qualificados, estão na academia para cumprir missões mais nobres do que essas futilidades da imprensa.

 

Um dos objetivos principais de mestres e doutores é revelar ao pobre aluno o admirável mundo novo da “consciência crítica”. Do curso de jornalismo você pode sair prontinho para ser um ativista das causas mais urgentes da humanidade. Já informações sobre texto e edição, por exemplo, aí não. Essas banalidades não interessam a tais pensadores, ainda que não façam a menor ideia do que seja uma redação de verdade.

 

Não importa a disciplina, o mantra na cabeça de professores é esculhambar os grandes veículos de imprensa do país. O problema mortal é que só sabem fazer isso – e repetem o palavrório ao longo de décadas, desde a criação do curso na universidade brasileira. Essa postura populista é bem conveniente, serve de biombo para ocultar a reincidente mediocridade na sala de aula.

 

Outra marca assustadora é a total ignorância dos doutores sobre a fascinante história da imprensa. Nunca vi um professor fazer qualquer menção a episódios, nomes ou momentos decisivos que tivessem no centro as páginas do jornalismo praticado no país ou mundo afora. Livros existem. Mas ninguém lê nada no planeta paralelo em que vivem os que deveriam ensinar algo sobre jornalismo.

 

No curso de Comunicação, as aulas versam sobre ideologia, status quo, hegemonia, cultura dominante, cultura marginal, combate à burguesia, comunicação de massa, comunicação popular, brechas para mensagens alternativas... É a cartilha perfeita de um marxismo rebaixado. Para repetir essa ladainha, ninguém precisa estudar nada. É o mundo ideal para o professor aloprado.

 

Tudo isso ganha uma fachada de modernidade quando o professor titular navega por uma pegada transdisciplinar. Para isso, basta recorrer a algum intelectual da moda, de origem francesa, que alia divagações ilegíveis a uma repaginada militância de modelo progressista. É mais uma roupa nova para o esqueleto de sempre.

 

Com a internet, abriu-se o vasto horizonte do mundo virtual e suas redes sociais. Sem dúvida um caminho valioso para pesquisas. Mas, limitados e pragmáticos até a medula, os mestres já despejam sobre esse campo os mesmos cacoetes e charlatanices com os quais sempre exerceram a arte de ensinar. Ou seja, conhecimento de jornalismo que é bom, das bancas universitárias, não sai nada.

Um secretário por um punhado de votos

O troca-troca de nomes em prefeituras e governos estaduais segue em ritmo desenfreado por todo o país. Por aqui, todos os dias ouve-se falar em titulares de cargos ameaçados de despejo – e, para se completar a operação, também se ouve falar dos candidatos a ocupar o lugar dos despejados. Algumas mudanças já ocorreram e outras estão a caminho.

 

Desgraçadamente, o que move essa frenética “reforma de secretariado” não é qualquer planejamento estratégico para incrementar a gestão pública. Exonerações e nomeações no Diário Oficial passam longe dos critérios de desempenho e competência. É a política, sua besta, dirão a mim os nossos bem-informados especialistas em bastidores do poder. A eleição de 2018 está logo ali.

 

É isso mesmo. E é também um tanto chocante como nos acostumamos com essa prática, tratando com naturalidade, e até com alguma reverência, aquilo que não passa de um casuísmo rasteiro e escancarado. O resultado dessa miserável filosofia de governo jamais dará resultados positivos para a população. Teremos sempre um time jogando em função de metas eleitoreiras.

 

A substituição de um secretário desencadeia mudanças em cascata numa equipe que será chefiada, agora, pelo novo titular do cargo. E aí, lá se vai para o lixo um conjunto de ideias e projetos que estava em execução pelos desalojados. Claro, o novo dono do pedaço chega abarrotado de planos originalíssimos, disposto a começar tudo a partir do zero.

 

O mal atravessa toda a máquina burocrática brasileira, do governo federal aos municípios. É uma tradição intocada ao longo de nossa história. Uma reforma política pra valer teria de implodir essa aberração consagrada no país. Mas, olhando para o Congresso Nacional, não há qualquer vestígio que aponte nessa direção.

 

Pelo contrário. O cenário desolador insinua que estamos condenados a um estado de coisas que despreza o interesse do país de maneira obsessiva. Não é por outra razão que, por exemplo, prefeitos se sentem à vontade para montar suas equipes nomeando a mãe, a mulher, o genro e os filhos para ocupar os principais cargos na administração pública. Desde sempre, não há perigo de dar certo.

Quando a TV Globo decidiu que Alagoas teria horário de verão

O que determina uma decisão de governo? No campo das formalidades e das obrigações legais, são os interesses coletivos de uma sociedade. Essa é a resposta mais óbvia e previsível que se pode encontrar. Nunca sabemos, no entanto, o quanto podem pesar demandas de outra ordem por trás de um simples decreto. Vou dar um exemplo de como uma iniciativa oficial pode ter motivação bem particular.

 

O Brasil pode abandonar o horário de verão. A decisão teria como causa a irrisória economia no consumo de energia elétrica registrada nos últimos anos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, não há consenso entre as autoridades do setor quanto ao cancelamento da medida. O horário especial vem sendo adotado no país de maneira ininterrupta há quase três décadas. Mas a estreia foi bem lá atrás, em 1931.

 

A regra se modificou ao longo do tempo. Inicialmente adotado em grande parte do país, o fuso especial vigora hoje em dez estados e no Distrito Federal. Sul, Sudeste e Centro-Oeste são as três regiões em que os relógios são adiantados em uma hora. Se não for cancelado, o horário de verão começa em outubro e vai até fevereiro do próximo ano.

 

Nos primeiros anos da década de 90, a Bahia era o único estado nordestino no horário de verão. Mas em 1995 um decreto da Presidência da República incluiu mais dois estados no pacote: Alagoas e Sergipe. Essa decisão não era decorrência de possível economia de recursos públicos. No caso de Alagoas, o decreto foi resultado de um acordo entre o governo estadual e a TV Gazeta.

 

Naquele tempo, os estados que originalmente ficavam de fora do horário de verão poderiam adotar a medida, bastando para isso formalizar um pedido à Presidência da República. Foi o que fez o então governador Divaldo Suruagy, alegando que, excluído do horário especial, o estado viveria transtornos com um fuso diferente de Brasília.

 

A verdadeira razão, no entanto, foi uma pressão da TV Globo sobre suas afiliadas para que convencessem governadores a agir pela adoção da medida. Motivo da pressão: a diferença dos relógios atrapalhava a programação da rede. Entrosado com a direção da Organização Arnon de Mello, Suruagy concordou em ajudar o poderoso veículo de comunicação.

 

E assim foi feito. Como editor de telejornais da TV Gazeta na época, lembro da satisfação da diretoria e funcionários com a decisão do governador. Um alívio para todos da casa. Para atender exclusivamente ao desejo da Globo, a população alagoana adiantou os ponteiros do relógio e viveu sob o horário de verão, de outubro de 1995 a fevereiro de 1996.

 

O episódio combina plenamente com as tradições que marcam a relação da TV Globo com o poder. Como está comprovado, por muitos anos o ministro das comunicações era escolha direta dos donos da emissora. As ordens do doutor Roberto Marinho a presidentes, em diferentes épocas, formam um capítulo singular da vida pública brasileira.

A corrupção que veste farda

As declarações de um general que defendeu uma eventual intervenção militar no país fizeram um barulho inédito, desde que esse tipo de manifestação reapareceu nos últimos anos. Como se sabe, o general falou suas baboseiras durante uma palestra em Brasília, na última sexta-feira 15. Já tratei do episódio aqui. Volto ao tema para novos chutes e palpites.

 

No texto anterior sobre o assunto falei de uma falsa ideia, repetida por aqueles que estupidamente elogiam a ditadura militar que infernizou o Brasil durante duas décadas. Segundo o argumento falacioso, nos tempos do regime autoritário não havia corrupção, ou quase nada, porque nos quartéis a honestidade é regra absoluta. Vamos pensar um pouco mais sobre essa ilusão.

 

É claro que isso não se sustenta em pé. Tanto na época da ditadura como nos anos seguintes não foram poucos os casos de desvio de verba sob as ordens fardadas. A imprensa tem natural dificuldade para apurar esses casos justamente porque a falta de transparência é lei inviolável nas Forças Armadas. O mesmo vale para as polícias militares Brasil afora.

 

A coleção de delitos honra as piores tradições. Fraude na aquisição de combustível; licitações viciadas para compra de armamento; superfaturamento em contratos com fornecedores; uso ilegal de veículos oficiais para benefício pessoal; desvio de função de integrantes das tropas para servir a políticos e comandantes – tudo isso pode estar acontecendo agora, sob a capa fantasista da austeridade.

 

Existe ainda uma anomalia bastante comum nas forças militares, federais e estaduais, vez por outra denunciada, mas nunca resolvida. Trata-se de senhores de alta patente com uma atuação paralela – e secreta – no mercado da segurança privada. Uma investigação pra valer revelaria quantas empresas têm militares em suas folhas de pagamento ou até mesmo como sócios ocultos.

 

Mas vamos a um exemplo atualíssimo de como as corporações fardadas atuam com lisura na gestão pública. Vejam o que acaba de ser noticiado sobre o Corpo de Bombeiros Militar do Rio de Janeiro. Nada menos que 30 oficiais e coronéis foram presos acusados de um gigantesco esquema de venda de alvarás para liberar qualquer coisa. Era bem rigoroso: pagou, levou.

 

Notícia ainda mais recente saiu na versão brasileira do El País. Segundo a reportagem, um tenente-coronel da PM de São Paulo, preso desde março, negocia uma colaboração premiada para revelar uma tramoia de roubalheira na corporação. 18 coronéis estariam envolvidos numa jogada que pode ter desviado mais de 200 milhões de reais, entre os anos de 2005 e 2012.

 

No escândalo fardado carioca não falta nada que você não tenha visto nos clássicos de corrupção no país. A propina é a engrenagem do negócio, com direito a conversas gravadas, ostentação e malas de dinheiro. Portanto, para quem acredita que os quartéis têm alguma coisa a nos ensinar sobre honestidade, um pouco de memória pode clarear as coisas.

 

Mas não é por tudo isso que devemos rechaçar uma intervenção militar. A corrupção deve ser combatida e punida, em qualquer esfera. O ponto essencial é outro. Devemos repudiar acenos a regimes de força porque isso é uma violação aos direitos humanos e às liberdades individuais, valores sagrados na democracia.

A reportagem de Marcelo Rezende que a Globo prefere esquecer

A trajetória de Marcelo Rezende no jornalismo percorreu mais de quatro décadas, em diferentes veículos de comunicação. Mas foi na TV Globo que ele se tornou um nome nacionalmente conhecido, a partir do fim dos anos 80. Os pontos altos da carreira do repórter foram lembrados em várias reportagens, depois de sua morte, no último sábado 16.

 

Na emissora carioca, o Jornal Nacional destacou o trabalho em que Rezende denunciou a ação criminosa da Polícia Militar de São Paulo, no caso que ficou conhecido como Favela Naval. O lugar fica no município de Diadema. PMs foram flagrados torturando e matando moradores da região. O ano era 1997. A denúncia teve repercussão internacional.

 

Mas outra reportagem do jornalista, exibida no Fantástico em novembro de 1998, entrou para a história da Globo e da imprensa brasileira. E não foi por bons motivos. Rezende fez uma entrevista exclusiva com o motoboy Francisco de Assis Pereira, o homem que ficara conhecido como o Maníaco do Parque. Era acusado de matar pelo menos onze mulheres na capital paulista.

 

A matéria especial pretendia inaugurar uma vertente mais arrojada de jornalismo para TV. Foi o que a Rede Globo avisou a suas afiliadas, que deveriam ficar atentas ao novo formato. Sei disso porque eu era o diretor de jornalismo da TV Gazeta. O resultado foi um desastre absoluto, com duração de incríveis 40 minutos naquela edição do Fantástico, o “show da vida”. A Globo entrou em crise.

 

Para começar, a produção tinha no comando o departamento de dramaturgia, e não a Central de Jornalismo. Um consagrado diretor de novelas, Roberto Talma, assinava a obra jornalística. A edição abusou de trilha sonora de suspense e efeitos especiais à altura do pior sensacionalismo. Para decifrar a mente do assassino, as fontes ouvidas foram um astrólogo e duas videntes.

 

Difícil saber o que era mais bizarro naquilo tudo. Houve simulação dos ataques às mulheres, que mais pareciam cenas de filme de terror de última categoria. Cuidadosamente planejada, a iluminação sobre o rosto do maníaco tentava elevar o clima de tensão e medo. Rezende se empenhou na missão. Cada frase de seu texto tinha como objetivo principal dramatizar ao máximo aquele enredo.

 

As perguntas e a condução da entrevista foram o ápice de um erro total. O assassino foi levado a contar detalhes de sua infância na zona rural, marcada, segundo ele, pela imagem de bois sendo abatidos a golpes de marretadas. O repórter pede que ele mostre como eram os movimentos do animal no momento da agonia. Em pé, o motoboy se contorce e cai no chão do presídio. Foi tudo medonho.

 

Como disse antes, o resultado da aberração provocou uma tremenda crise na Globo. Assustada com a péssima repercussão do caso, a direção da emissora exigiu explicações de Evandro Carlos de Andrade, então homem forte do jornalismo da casa. Descobriu-se que ele não acompanhara de perto a nova aposta de sua equipe. O que deveria ser um novo paradigma para os jornalistas morreu ali mesmo.

 

E o que explica aquele desastre? A resposta é simples. Era uma tentativa irresponsável de recuperar audiência, numa época em que a Globo via seu ibope em queda. Na guerra suja pela liderança, todos os limites são atropelados. Ficou a lição, mais uma, na longa, conturbada e espetacular história da imprensa brasileira.

A hora e a vez da filosofia brasileira

Eles estão em todos os programas de TV, nas emissoras de rádio, nas feiras literárias, em seminários de universidades e nos debates promovidos por veículos de comunicação. Todos se apresentam como pensadores, com sábias palavras a nos dizer sobre a conturbada realidade mundial e a eterna crise brasileira. Nunca houve tantos gurus como nos tempos atuais.

 

Qual é o tema da vez? Não importa. Eles têm respostas para nossos dramas universais. Da rejeição à política ao império das redes sociais, das loucuras de Donald Trump ao novo feminismo, dos atentados terroristas ao jogo da baleia azul – nenhum mistério resiste ao time de celebridades especialista em tudo.

 

Imigrantes são vítimas de xenofobia? Estudantes espancam professores em sala de aula? Manifestantes depredam bancos e empresas? Intolerância religiosa? Cultura do funk? Despacito? Menino do Acre? É fácil entender. Chamem o Cortella, o Karnal, o Clovis de Barros, o padre Fábio de Melo, a Márcia Tiburi, a Viviane Mosé, o Sakamoto, a Clara Averbuck... A lista é interminável.

 

Antigamente, tudo isso era chamado de autoajuda. Parece que hoje, para se apresentar ao mercado com a eficiência desejada, a coisa ganhou ares mais sofisticados. Cada um na sua área de conhecimento, nossos intelectuais campeões de audiência têm em comum a sagacidade para ganhar dinheiro. O segmento de palestras remuneradas desconhece as crises que balançam a economia.

 

A verborragia vai parar nos livros, é claro, dando ares de seriedade a ideias capturadas no vento. Os pensadores da moda lançam um novo título por dia, com novas revelações imperdíveis sobre a nossa existência. De tão ativa, são se sabe como essa turma arranja tempo para estudar. Deve ser alguma técnica secreta, típica dos grandes sábios.

 

Fica a dica: ao contrário do que pensava Caetano, está provado que é possível filosofar em alemão – e em brasileiro.

A velha política e a eleição de 2018

Então você está cansado e não aguenta mais os políticos tradicionais. Mais ou menos de quatro anos para cá, as multidões descobriram o que certos pensadores gostam de chamar de “crise de representatividade”. Preocupados com os rumos da civilização, analistas mais antenados enxergam o fenômeno em dimensões globalizantes. A revolta toma conta do mundo.

 

Da primavera árabe às jornadas de julho de 2013 no Brasil, chegamos aos dias atuais. Nesse intervalo de tempo, a tensão política foi às alturas e elegeu caras novas que pouco ou nada mudaram o panorama que esta aí. A descrença generalizada segue reproduzindo um difuso desejo por mudança, ainda que ninguém consiga apontar como isso poderia se materializar de modo eficaz e saudável.

 

Longe das teorias mais ou menos alucinadas, a lista de nossos favoritos para 2018 escancara o paradoxo desconcertante: daqui a um ano, vamos eleger a velharia de sempre. Basta ver a última pesquisa para a eleição presidencial, realizada pela Confederação Nacional dos Transportes e publicada nesta terça em toda a imprensa. Os nomes que teremos na urna estão na praça há algumas décadas.

 

Para governar um novo Brasil a partir de 2019, nossas alternativas começam em Lula e Marina Silva, passam por Ciro Gomes e Geraldo Alckmin e terminam em João Dória e Jair Bolsonaro. Entre eles, ainda temos Álvaro Dias e Aécio Neves. É esse o time que pede o seu voto com a promessa de transformar o país num celeiro de desenvolvimento, emprego e ética na política.

 

Os números apontam, mais uma vez, que Lula bate todos os concorrentes, no primeiro e no segundo turno. O campeão de votos, no entanto, é um não candidato, ou seja, o índice de rejeição. Na média geral, os nomes são rejeitados por 50% dos eleitores. Natural. Sobra ódio pra todos os lados e para todas as siglas partidárias.

 

Voltemos então ao cenário sobre o desencanto geral com os políticos tradicionais. Você pode até estar cansado de todos eles, mas já deve ter percebido que não terá escapatória. Mesmo que seu voto (de protesto) seja nulo ou em branco, um velho conhecido nosso chegará ao poder. É o destino.

O procurador que atropelava a lei

O Supremo Tribunal Federal pode devolver à Procuradoria Geral da República a segunda denúncia de Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer. É o que informam veículos da imprensa nacional. E por que isso? Porque a peça acusatória do agora ex-procurador-geral é uma coleção de insinuações e proselitismo político destituída do essencial: as provas não estão lá.

 

Reportagem da Folha de S.Paulo, na edição do último sábado, constata que o licencioso Janot se baseou em fatos ainda em investigação, ou seja, sem conclusão alguma sobre a consistência dos eventos narrados. Nada menos do que 15 episódios usados como prova pelo procurador não passam de histórias sem comprovação. Esse foi o padrão degenerado numa gestão desastrosa na PGR.

 

Para denunciar Temer por obstrução de justiça, além de acusar outros políticos por formação de quadrilha, o procurador das flechas de bambu recorre exclusivamente ao relato de delatores. E fica por aí. Ocorre que, segundo a lei, delação nenhuma pode ser tomada como prova, é claro. Os delatores precisam apresentar dados concretos que confirmem o que dizem. Mas, para Janot, a lei é um detalhe.

 

Em sua carta de despedida aos colegas do Ministério Público Federal, o procurador que atropela a Constituição e os códigos se apresenta como um homem valente, que não se acomodou diante dos criminosos da política. Como peça de demagogia e dissimulação, é lindo. O problema não é a suposta coragem de fanfarrão. Não é isso o que está em debate. A tragédia são os métodos de Janot.

 

Não importa se os alvos de uma autoridade são Renan Calheiros, Temer, Aécio ou Lula. Importa que, para denunciar seja lá quem for, essa autoridade obedeça rigorosamente à legislação. Fora disso, estamos expostos à tirania dos que se sentem, aí sim, acima de todas as leis. Esse é o ponto. Serei repetitivo: não se combate o delinquente com um processo assentado numa antologia de delinquências jurídicas.

 

O STF agiria com acerto se devolvesse a denúncia feita por Janot à nova procuradora-geral, Raquel Dodge. Que as coisas andem nos trilhos da legalidade, eis uma condição essencial para a saúde de uma democracia. Não precisamos de valentões de fachada nas esferas da Justiça. Precisamos de juízes e promotores que atuem com respeito às regras e honestidade.

Uma jogada estremece o Brasil

Esqueça a Lava Jato e o império da corrupção. Temer, Lula, Joesley e Sérgio Moro perderam. Nenhum monstruoso escândalo, desses revelados por delação premiada, chega nem perto do que realmente nos interessa agora. O mundo quer saber: afinal, Jô é bandido ou inocente? Porque no Brasil nada é mais avassalador do que os dramas de uma partida de futebol. Vamos falar sério.

 

Era domingo. O clássico entre Corinthians e Vasco parecia correr para o zero a zero, até que houve aquele cruzamento aos 28 minutos do segundo tempo. A bola saiu da linha de fundo, pela ponta esquerda, sobrevoou a pequena área e, no limite do segundo poste da trave, mudou a vida de João Alves de Assis Silva, um paulistano negro, de 1,88m e 30 anos de idade, conhecido como Jô.

 

Do lançamento ao toque do centroavante na bola, são três segundos. Tempo suficiente para escrever um capítulo definitivo na biografia de um homem. O gol do jogador corintiano provocou um vendaval de revolta e histeria por todo o país. O pecado mortal de Jô foi ter usado o braço para mudar o placar da partida. Por causa do gol ilegal, ele foi chamado de bandido e comparado a Fernadinho Beira Mar.

 

Na exótica tentativa de uma abordagem mais sofisticada do caso, cronistas não perderam a chance de comparações com o quadro de degradação na política nacional. Para esses, no Brasil da ilegalidade consagrada, o atleta confirma que, sim, nosso caráter pervertido não tem cura. Desde que a bola tocou a rede até o momento em que escrevo, o massacre sobre o jogador é impiedoso.

 

Outra jogada, cinco meses atrás, acrescenta ao episódio doses de crueldade diabólica. Além de fazer um gol irregular, Jô é acusado de hipocrisia porque, em abril, se beneficiou de uma atitude ética do adversário, elogiado por ele mesmo. Jogando contra o São Paulo, livrou-se de um cartão amarelo depois que o zagueiro Rodrigo Caio, são-paulino, avisou o árbitro sobre a punição equivocada. Dessa vez, faltou ao corintiano o idêntico gesto de honestidade.

 

Com a alma do brasileiro em transe, até os deuses do futebol se perguntam: em casos assim, o jogador deve se denunciar, abrindo mão até da vitória, ou o árbitro está em campo para isso? Ouvi algumas vozes, uma minoria, defendendo que a obrigação de apontar o eventual erro é do juiz. Mas a repulsa dominante ao comportamento do jogador não deixa dúvida quanto à sua condenação inapelável.

 

Ética, dentro e fora dos gramados – é disso que se trata, afinal. Vale qualquer coisa para ganhar? Jô parece viver hoje o mesmo tipo de tragédia que desabou sobre um craque, depois de uma inocente jogada, no distante ano de 1976. A diferença é que o lance do passado ocorreu longe da bola e do campo de jogo, mais precisamente num comercial de TV para vender cigarros da marca Vila Rica.

 

O gol de mão cometido por Gerson, tricampeão com a mitológica seleção de 1970, foram palavras que, para ele, se tornariam malditas: Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também!. O slogan entrou para a história como a ilustração perfeita da nossa malandragem, a síntese de um tipo de indivíduo destinado a driblar qualquer regra por toda a eternidade. Nascia a Lei de Gerson.

 

Ao lado de expressões como “jeitinho brasileiro” e “sabe com quem está falando?”, a Lei de Gerson foi rapidamente capturada por sociólogos ávidos por teorias para decifrar o brasileiro. Ter seu nome associado a algo tão pesado levou o ídolo do futebol à depressão. De tão incomodado, passou a se recusar a tratar do assunto, sob qualquer hipótese.

 

Volto a Corinthians e Vasco. Até agora, o atacante que fez o gol ilegal se defende afirmando não saber em que parte de seu corpo a bola bateu. Mas, também para ele, o benefício da dúvida está sumariamente negado. Quer apenas levar vantagem. Não sei. O que me ocorre é o seguinte: um cara que venceu na vida jogando futebol, João Alves de Assis Silva, demasiadamente humano, como eu e você, também erra.

O delírio de uma intervenção militar

Talvez por falta de ocupação, um general andou por aí defendendo uma intervenção militar no país. A convicção imbecil foi exposta durante uma palestra em Brasília. As reações foram previsíveis. A direção nacional do PT divulgou nota para condenar a ideia. Alarmistas vociferam a iminente ameaça dos quartéis. E militantes de todas as cores denunciam a intolerância da extrema direita golpista.

A manifestação do general desocupado ocorre dias depois das palavras de Zezé di Camargo, esse exemplo de talento e consciência crítica na arte brasileira. O cantor acha que deveria ocorrer uma ação fardada para “ajustar as coisas”. Não foram os primeiros e não serão os últimos a expor a ignorância política e o apreço pela arbitrariedade.

A volta dos militares é uma idiota cogitação há mais de trinta anos, ou seja, desde que a ditadura acabou. Durante o governo Sarney, o primeiro pós-presidentes fardados, a pauta esteve na ordem do dia em vários momentos. Naquela época de pandemônio na economia e na política, a ameaça era levada mais a sério do que viria a ocorrer nos anos seguintes. No fim dos anos 1980, o assunto era capa de revistas e pulava nas manchetes de jornais.

Em todas essas ocasiões, a hipótese nunca foi além de discursos tresloucados. O mesmo se dá agora. Um dos motivos alegados pelos que defendem o regime de força é a suposta honestidade dos governos militares. Um mito. A verdade é que, pela violência da censura e das perseguições, as mazelas produzidas por ditadores são simplesmente abafadas; ficam longe do conhecimento da população.

Um exemplo banal da honestidade e da seriedade de fachada na ditadura é este: filmes proibidos para o público eram exibidos, em sessões particulares, para o deleite de oficiais e comandantes dos truculentos governos. Agora imagine o que não ocorria quando os interesses iam além de uma piada como essa.

O desejo pelo arbítrio vai se manifestar sempre, aqui e ali, com mais ou menos ênfase. Há razões concretas para isso, é claro. Em Alagoas, por exemplo, nos últimos anos o comando regional do Exército comemora, em 31 de março, o aniversário da “Revolução”. É tosco. É delirante. Mas fica por aí. Apesar de tudo, ainda que jovem, em três décadas a democracia brasileira se consolidou pra valer.

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