Blog do Celio Gomes

A força jovem da jurássica UNE

Você já ouviu falar, é claro, nas gloriosas lutas do Movimento Estudantil. Já ouviu falar porque essa é uma das mais festejadas lendas brasileiras. É bonito imaginar jovens corajosos, brigando em frente dupla – pela educação e por um país melhor.

 

Pensei nessas questões folclóricas assistindo ao programa político do PC do B na televisão. Foram dez minutos de ideias inovadoras na propaganda obrigatória exibida na noite desta terça-feira (24). E o que tudo isso tem a ver com estudantes?

 

Respondo logo a seguir. Antes, vamos falar um pouco mais sobre a propaganda na TV. Como sempre, viu-se uma lista de filiados reproduzindo as ideias do partido. São quase todos políticos com algum mandato no legislativo ou no executivo.

 

Mas o PC do B também apresentou entre suas estrelas do programa uma estudante. E não foi uma aluna qualquer de uma escola pública do meio do Brasil. Foi Marianna Dias, a presidente da União Nacional dos Estudantes – a jurássica UNE.

 

Nada que se considere estranho. Ao contrário, a presença da jovem de 25 anos está cem por cento de acordo com o espírito do negócio. A UNE sempre foi um braço partidário da esquerda, cumprindo ordens e reproduzindo a militância sob encomenda.

 

Como todo jovem está a um passo do engajamento revolucionário, e como tem algo de romantismo acreditar nesse tipo de lenda, vai-se repetindo eternamente a informação de que a UNE tem muita importância no Brasil. É assim desde os primórdios.

 

Os congressos estudantis, como o que elegeu este ano a baiana Marianna para o comando da UNE, são na verdade encontros para dar palanque a velhos políticos. E eles pertencem a legendas que sempre mandaram na entidade. Não há pluralismo.

 

Ouvir o discurso da direção da UNE é voltar algumas décadas no tempo. Paradoxalmente, falando em nome da renovação, as jovens lideranças ressuscitam o palavreado mais retrógrado possível. Para essa patota, o muro de Berlim continua de pé.

 

Nos meus tempos de universitário, vi de perto a atuação dos destemidos que pretendiam mudar o mundo. Algumas décadas depois, vejo que o discurso já não parece o mesmo – parece ainda mais reacionário e oportunista. Isso não tem cura.

As mãos sujas da Lava Jato

Em mais um desses convescotes cheios de lero-lero com doutores do Direito, lá estão Sergio Moro e Deltan Dallagnol expelindo suas digressões de alarmismo e pílulas de demagogia para uma plateia preocupada com os rumos do país. Trata-se de um fórum organizado pelo jornal O Estado de S.Paulo, cujo tema é Mãos Limpas & Lava Jato.

 

O procurador da República que tem as bochechinhas rosadas repete seu falatório de dono da verdade, com ataques cretinos ao STF e a todos aqueles que contestam suas estripulias acima da lei. Claro que o homem não perde a oportunidade de atacar também a política, apontando como solução a renovação do Congresso a partir das eleições de 2018. Como se sabe, ele quer ser senador.

 

Na mesma linha, vai o fanático juiz Moro, também com ironias idiotas contra ministros do Supremo e vozes da imprensa que criticam seus métodos abusivos de atuação. Para essa duplinha do barulho, o Brasil não tem saída fora das sirenes da Polícia Federal e das carnavalescas operações chefiadas pelo Ministério Público Federal. Assim, metem suas mãos em tudo, mesmo que estejam sujas.  

 

Esses senhores se acham salvadores da pátria e, não bastasse o messianismo policialesco, ambos têm a pretensão de seres iluminados, com ideias supostamente originais, mas que não passam de uma mistura de demagogia com indigência intelectual. Exemplo disso são as falas sobre o combate à corrupção como “esperança infinita”.

 

O encontro promovido pelo Estadão confirma uma das marcas centrais da Lava Jato, segundo seus próprios mentores. Ou seja, para que os objetivos sejam alcançados – sem contestação – tudo tem de passar por uma forte campanha via imprensa. Foi precisamente esse um dos pontos sagrados da Operação Mãos Limpas na Itália.

 

A república de Curitiba, que tem Moro e Dallagnol como os principais pistoleiros na linha de tiro, berra a cada minuto que o país só tem salvação com o fim dos privilégios para a elite. É verdade. Mas falta incluir entre os alvos dessa guerra a turma de nababos do Ministério Público e do Judiciário. Quando essa rapaziada agir nessa direção, a gente conversa sobre a coragem dos doutores togados.

 

O problema da Lava Jato não é o combate à corrupção. É o festival de ilegalidades no rastro desse trabalho que ignora os mais elementares preceitos da Constituição. Basta ler o que já foi publicado sobre tudo o que essa galera já aprontou. Prisões preventivas sem prazo e vazamentos de informações sob sigilo são os exemplos mais evidentes.

 

Mas aí estão eles, numa palestra atrás da outra, apresentando-se como as almas mais puras do mundo. No fórum de hoje, nada de novo está sendo dito. É a mesma cartilha, embalada em miseráveis frases de efeito e ideias superficiais. Pensando bem, a linguagem aí não fica longe do pior da política. Muita espuma, arroubos e populismo de última categoria.

Cícero Almeida e Temer na rede social

Ex-prefeito de Maceió por dois mandatos e hoje deputado federal, Cícero Almeida teve uma ideia inusitada. Como conta aqui no CADAMINUTO a jornalista Vanessa Alencar, o parlamentar lançou uma enquete por uma rede social sobre a denúncia contra o presidente Michel Temer, que será votada pela Câmara nesta quarta-feira (25). O resultado da enquete será o voto de Almeida.

 

Os deputados vão decidir se o presidente deve ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção e formação de quadrilha. Como você sabe, será a segunda vez que o destino de Temer estará nas mãos do parlamento. Da primeira ocasião, os deputados decidiram não haver provas para afastar o presidente. Ao que parece, o resultado será o mesmo.

 

Não se pode negar: a iniciativa de Almeida de fato é original e provocou rebuliço no eleitorado. Agora, isso faz algum sentido? Temos aí um gesto de respeito e transparência no exercício do mandato? Vamos ver. Os congressistas decidirão sobre um processo, uma peça acusatória produzida pela Procuradoria Geral da República, ainda na gestão do aloprado procurador Rodrigo Janot.

 

Para dar seu voto contra ou a favor de Temer, o que é necessário para os deputados? Podemos especular várias coisas a respeito, mas um dado é obrigatório: eles precisam conhecer a denúncia que será votada. As acusações de Janot ao presidente formam um conjunto de 245 páginas, com depoimentos, transcrição de conversas gravadas, reprodução de documentos e fotografias.

 

Suponho que a maioria dos brasileiros não leu o que está na peça da PGR. Considero um tanto sem lógica transferir ao eleitor uma decisão como esta – que até pode ser política, mas, essencialmente, tem de ser técnica. Vamos imaginar que Almeida, cioso do mandato e consciente da decisão a ser tomada, já leu atentamente a denúncia. Se fez isso, acha que Temer é culpado ou inocente?

 

E há outra pergunta – pertinente – que os leitores fazem sobre o gesto do ex-prefeito: por que ele não fez o mesmo no afastamento de Dilma Rousseff e na primeira denúncia contra Temer? Para ser coerente, o parlamentar teria de ter aplicado nos casos anteriores os mesmos argumentos que apresenta agora no vídeo em que convoca os eleitores para sua enquete.

 

Lamento, mas o gesto de Cícero Almeida nada tem de democrático, como ele tenta nos convencer. É apenas uma jogada excêntrica cujo objetivo é tão-somente a tentativa de agrado para a arquibancada. Sem contar que a iniciativa revela uma boa dose de irresponsabilidade diante de algo tão grave para o país. Não será com essa gota de populismo virtual que teremos algum avanço.

 

Os políticos estão cada vez mais ensandecidos pelas redes sociais. Prefeitos e governadores tomam decisões pela internet assim como parlamentares legislam mais pelo teclado do que pelos trâmites do Congresso. É um festival de maluquices, um circo de demagogia cada vez mais amplo, com resultados absolutamente ridículos. Mas isso é outro assunto. Fica para depois.

Deus é um cabo eleitoral decisivo

Nova pesquisa Datafolha confirma que Deus continua sendo um cabo eleitoral de peso entre a população brasileira. Por isso, candidatos devem ficar atentos a esse fator esotérico na hora de partir para a campanha. Se a crença no pai de Jesus não é garantia automática de voto, rejeitá-lo certamente vai reduzir as chances de êxito na boca da urna. A pesquisa saiu nesta segunda-feira.

 

O levantamento avalia especificamente a força dos evangélicos na eleição. Ironicamente, dois candidatos de perfis opostos – Jair Bolsonaro e Marina Silva – são os favoritos entre esse eleitorado particular. O dado paradoxal parece revelar o grau de irracionalidade numa escolha que se baseia em supostos valores religiosos. Definitivamente, não me parece algo saudável.

 

O índice mais eloquente na pesquisa, no entanto, é acerca da influência do Altíssimo sobre os eleitores. Nada menos que 52% da população afirmam que rejeitam qualquer candidato que se apresente como ateu. Um número nesse patamar sinaliza que o homem de pouca ou nenhuma fé, portanto, estará condenado ao fracasso se o eleitor desconfiar de sua descrença.       

 

A realidade confirmada pela pesquisa nos lembra de um caso antigo. Em 1985, bem antes de sonhar com a Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso tentou se eleger prefeito de São Paulo, mas tropeçou na falta de fé. Em debate mediado pelo jornalista Boris Casoy, FHC caiu na armadilha ao falar sobre crença religiosa. Ateu, ele acabou se enrolando na resposta e se deu mal.

 

Não se pode garantir que o episódio tenha sido o fator determinante na derrota de FHC. Mas a verdade é que a repercussão provocou um estrago e tanto na campanha, ajudando o candidato adversário a disparar na reta final e levar a prefeitura paulistana. Hoje, parece até loucura, mas o vitorioso naquela ocasião foi o inclassificável ex-presidente Jânio Quadros.

 

Se mais da metade da população informa que sua escolha está atrelada ao dilema de ser ou não ser seguidor do Divino, é claro que cem por cento dos candidatos se apresentam como devotos desde criancinha. Todo mundo anda com um terço, vai a procissões ou vigílias e gasta boas horas do dia em compungidas orações. Se preciso for, em nome do voto todos pagam qualquer penitência.

 

Não bastasse o massivo apoio do eleitorado, como se sabe, Deus é brasileiro desde o princípio e não será boa coisa desafiar tamanho poder. Dizem que a cabeça do eleitor é imprevisível – e os fatos mostram que ele é capaz de tomar as decisões mais insanas. Mas quando o assunto é a reverência ao Senhor, não convém contar com a flexibilidade dos fiéis. Ateu é candidato ficha suja.

A revolução russa, ontem e hoje

Pegando carona no centenário da revolução russa, editoras lançam um pacote de títulos, com variadas interpretações e diferentes enfoques sobre o movimento que mudou o mundo depois de 1917. É história que não acaba mais. E não poderia ser diferente. Para além de nossas opiniões sobre comunismo, marxismo e ideologias em geral, os acontecimentos de cem anos atrás ainda repercutem nos dias de hoje.

 

Desde os primeiros tempos da revolução, a literatura produziu incontáveis ensaios, biografias e romances para entender o impacto das transformações inéditas que varreram o planeta.  Nenhum outro levante político capturou tantos escritores e intelectuais para uma causa. Afinal, aqueles eventos cruciais seriam a materialização de uma fascinante ideia: inaugurava-se a utopia.

 

O triunfo dos ideais comunistas, que em última instância se traduziria no governo do proletariado, pareceu uma perspectiva arrebatadora aos olhos de artistas e pensadores, dentro e fora do território russo. Mestres incontestáveis da arte literária no século 20 dedicaram talento, atenção e engajamento em defesa do regime que enterrou a tradição da era czarista.

 

Impossível anotar uma lista completa de escritores que apoiaram ostensivamente os rumos políticos da Rússia marxista. Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Pablo Neruda e Graciliano Ramos são apenas quatro exemplos de autores que defenderam o novo regime como modelo de sociedade. Naturalmente cada um firmou posição com estilo particular e níveis variados de adesão.  

   

Dos nomes citados acima, Sartre talvez tenha sido o aliado mais fanático – e festivo – das ideias russas. Nosso Graciliano, bem a seu modo, foi um convertido de olhos abertos e senso crítico diante do que considerava equívocos nos desdobramentos do regime. Prova disso é seu extraordinário Viagem, livro que escreveu após um périplo pelos países comunistas em 1952.

 

Falei, no começo, do lançamento de obras neste ano do centenário da revolução. Mas um título grandioso sobre tudo isso que escrevo saiu no Brasil em 2016. No cardápio à disposição dos leitores, não há nada – nada mesmo – parecido com o livro O Fim do Homem Soviético, da escritora Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura em 2015.

 

As páginas da autora apresentam um painel desconcertante da Rússia de ontem e de hoje, a partir das memórias de diferentes gerações. Vai em busca não de heróis, mas de “um ser humano”, pois “é lá que tudo acontece”. Svetlana põe a velha literatura de não-ficção em novo patamar, colhendo entrevistas que nos trazem um monumental conjunto de personagens e relatos surpreendentes.  

 

Ouvimos histórias dramáticas, desesperadoras, na voz direta de homens, mulheres, jovens e velhos. Entre uma e outra fala, conhecemos seres que, diante da história de seu próprio país, se mostram contraditórios, revoltados, entediados, niilistas ou simplesmente resignados. Há quem despreze o legado leninista, há os que celebram os feitos do sanguinário Stalin. 

 

O Fim do Homem Soviético espana para longe a poeira de mistificações, rótulos e ideias feitas, para nos apresentar um verdadeiro mundo novo, a Rússia de agora, ainda tão visceralmente traumatizada por um fenômeno que explodiu há um século. “O comunismo tinha um plano insano: refazer o velho homem, o antigo Adão”, escreve a autora em sua obra.

 

A extinção do homo sovieticus – a expressão é da escritora – começou a partir do governo Gorbatchóv, mas seu fantasma parece assombrar a vida russa por todos os lados. Svetlana Aleksiévitch nasceu na Ucrânia, em 1948. A refinada qualidade de sua produção honra as tradições da literatura essencial que nos chegou daquele lado do mundo. 

Subindo no telhado pra tocar guitarra

Tudo começou no dia 30 de janeiro de 1969, num endereço de Londres. Quatro elementos tiveram a ideia de tocar umas musiquinhas num lugar inusitado. Para arranhar suas guitarras, escolheram o terraço de um prédio – um feito jamais visto até ali na trajetória do rock. Eram os Beatles em fim de carreira. Aquela performance seria a última vez que o grupo se apresentaria ao vivo.   

 

Não houve aviso prévio da apresentação. Moradores e transeuntes perceberam, aos poucos, a cena inesperada. A plateia ia se formando entre um acorde desafinado e outro. Por trás da ideia aparentemente despretensiosa estava a gravação de um documentário que imortalizaria o evento. O show inesperado durou 42 minutos e acabou com a chegada da polícia.

 

Como toda iniciativa original, aquela também daria frutos estranhos ao longo do tempo. Por isso, nas últimas quase cinco décadas, toda semana uma bandinha qualquer, em qualquer parte do mundo, macaqueia o gesto do quarteto de Liverpool. Os mais exagerados garantem que, naquele dia frio para os londrinos, os Beatles inauguraram um gênero pop: música no terraço.

  

Não há escapatória. A exaustiva repetição de qualquer coisa – uma frase, um verso, uma música – fulmina o que antes havia de criatividade no ato inaugural. A diluição é o destino incontornável daquilo que veio primeiro. É assim na história das ideias e da arte. Após o impacto de algo radicalmente novo, seu autor tem um encontro marcado com a legião de imitadores.

 

Volto aos roqueiros. Sob a rentável inspiração dos Beatles, a banda irlandesa U2 também subiu no telhado para tocar. E o grupo não se satisfez com uma única experiência. A primeira vez foi no fim da década de 80, em Los Angeles, quase vinte anos após o quarteto de franjas. Em 2007, os liderados de Bono Vox voltaram a escalar um edifício, agora na mesma Londres.

 

Os irlandeses provam que música no terraço virou mesmo um gênero. É assim ao menos para a indústria do entretenimento, sempre ligadíssima em novas fontes de lucro – em sociedade com os artistas, é claro. O cenário no alto de um prédio, que um dia foi surpreendente, banalizou-se, virou item obrigatório em clips de medalhões do pop e de aspirantes ao estrelato.

 

De tão melancolicamente imitado, resta evidente que realizar um show no alto de um prédio deveria ser proibido por lei. Como prevê o Código Penal, trata-se de um crime continuado. Mas nada disso interessa à feitiçaria do marketing para turbinar as vendas do produto em questão. É por isso que neste domingo, aqui no Brasil, podemos ver uma banda no telhado. De novo, é o U2.

 

Para confirmar sua veia eternamente rebelde, o rock da banda irlandesa toca nos telhados da Rede Globo. Mais que isso, o show é exclusivo para o Fantástico. Como se vê, já perto de 50 anos, aquela invenção dos Beatles continua rendendo a única coisa que poderia render nos dias de hoje: uma sinfonia de oportunismo, cretinice e mediocridade. Pode cortar o som, que a arte está morta.

Guerra política vê palavra como inimiga

Não importa o número de imagens, vivemos num mundo de palavras. Eu poderia citar várias situações do cotidiano, e especular sobre essas situações, para defender a afirmação que abre o texto que escrevo agora, no meio de uma madrugada. Mas a motivação para o assunto nada tem de esotérica. Vamos falar do que está – e sempre esteve – na ordem do dia.

 

Na bizarrice da discórdia política brasileira, como em tudo na vida, a palavra é quase sempre fatal. Por isso, seja qual for a encrenca, fala-se tanto em “guerra de versões”, “narrativas contraditórias” e “verdades relativas”. Nunca recebemos tantos alertas sobre o perigo de fake news. Tão importante quanto o evento será a forma de descrevê-lo para alguém logo adiante.

     

A linguagem está no centro dos embates nacionais. Não sei se vocês perceberam, mas é comum encontrar na imprensa textos que estraçalham pessoas que costumam falar, por exemplo, em estado de direito, respeito à democracia, presunção de inocência e direito à plena defesa. Se você sacar uma dessas expressões em nome de seus argumentos, periga ser espancado. 

 

Segundo os críticos mais ferozes, ou seja, quase todos, quem usa esse palavreado só pode ser um cretino golpista, que agora cita a Constituição – outro pecado mortal – para proteger seus bandidos favoritos de estimação. Para esses revoltados em tempo integral, quem diz que o Brasil é uma democracia deve ser um idiota – ou, nos piores casos, um execrável fascista.

 

Não deixa de ser curioso, e um tanto inesperado, que na guerrilha geral, do xingamento a cusparadas, guerrilheiros apontem armas para o significado das palavras, de uma frase. Igualmente estranho é que os alvos sejam princípios e conceitos consagrados, ao longo da História, em todos os lugares onde trinfou não a utopia, mas uma ideia de civilização. Negar isso é uma postura amalucada.

 

O problema é que não estamos dispostos a pensar sob certos parâmetros gerais. Aliado a isso, nossa tradição nunca foi de zelo com o cumprimento de regras e o respeito à lei. Com rapidez fulminante, chutamos qualquer mandamento sagrado como se fosse um mero formalismo – ainda que seja uma garantia aos direitos de todos.

 

A julgar pelo ambiente tomado de fúria, a lista de termos e palavras na mira de tiro tende a crescer sem limite. É uma frente de embates cada vez mais ocupada desde a conexão de todos com todo mundo. Além do mais, nunca haverá escassez desse especial tipo de munição. Basta pular da cama de manhã, e o gatilho já está armado.

 

Para completar o drama, só falta os filiados à estratégia Black Bloc voltarem a atacar. Poderemos vê-los quebrando ao meio um substantivo, um verbo ou um predicado. Já imagino frases e orações inteiras despedaçadas a golpes de pernadas voadoras. Afinal, para conversa reacionária, o único remédio é a porrada.

Por que o povo desistiu das ruas

Quando a coisa se complica pra valer e se descobre que o bicho tá pegando, parece que todo mundo olha ao redor e começa a gritar – entre a cobrança, a raiva e a indignação: cadê o povo na rua?! Essa ideia está em textos a granel que tentam analisar o quadro político no país. Pelo que se nota, também nesse caso, esquerda e direita estão juntas no clamor pela insurgência popular.

 

Existem os que reclamam porque os panelaços sumiram logo depois da queda de Dilma Rousseff. Para esses, quem enchia as avenidas contra a corrupção, ainda no governo do PT, era um bando de alienados a serviço das elites que decidiram derrubar uma presidente legítima. Com Michel Temer no poder, a horda manipulada pela direita fascista voltou para casa.

 

Mas é preciso reconhecer que no universo de vozes que lamentam o sumiço das manifestações de rua há de tudo, até mesmo direita e extrema direita. Claro. Afinal, os fenômenos do dia a dia – e a vida em geral – são por demais complexos para se deixarem encaixar por explicações simplórias. Isso só ocorre quando queremos dobrar a realidade às nossas ideias e causas de estimação.

 

E é exatamente isso o que se vê na troca de sopapos entre supostos esquerdistas e aparentes reacionários de direita. Cada qual vê a paisagem de acordo com suas inclinações irresistíveis. Por isso o bloco dos que condenam a omissão do povo é diversificado – e tenta explicar de qualquer jeito o que não é fácil de entender. Enquanto isso, as pessoas tocam o barco.

 

Foi sempre assim. Protestos, levantes, golpes e revoluções jamais existiriam sem as massas. Ocorre que os movimentos de mobilização gigante um dia terão de acabar. E o que acontece após o desfecho das revoltas será, necessariamente, o reordenamento das diferentes forças em jogo. Como não existe briga que dure para sempre, as ruas também serenam. 

 

O caso agora é outro, é verdade, e não tenho a menor ideia sobre as razões que empurram as famílias para o barulho das ruas ou para o silêncio recatado do lar. A militância estridente, de qualquer lado, também não sabe, mas seu compromisso não é com os fatos, e sim com suas paixões incontestáveis. Tenhamos calma. Qualquer dia desses, a rebeldia à deriva bate o ponto.

Candidatos que não deveriam existir

A eleição legislativa de domingo (22 de outubro) é vista como crucial para a sobrevivência de lideranças e mesmo para os rumos do país. Falo da Argentina. A pátria do maior jogador de futebol do mundo convive com atores políticos à altura de nossos melhores piores momentos, aqui no Brasil. Trato do assunto por causa de Cristina Kirchner, a ex-presidente que tenta se eleger senadora.

 

O drama é o seguinte: depois de exercer o cargo de presidente da República, é razoável que o político mantenha uma atividade partidária como qualquer outra figura pública? E, além disso, é recomendável que um ex-presidente dispute outros mandatos, para cargos naturalmente abaixo da Presidência na estrutura de poder? Não vejo argumentos convincentes para isso.

 

Vamos pensar nos casos nacionais. Depois da redemocratização, José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco foram três presidentes que, encerrados os mandatos, voltaram às disputas miúdas, percorrendo periferias e povoados, negociando tudo o que se negocia, para garantir um novo cargo. Os fatos mostram que a volta à política diminuiu a biografia dos três.

 

Parece uma questão também de lógica acachapante. Quem já esteve no topo do poder político, com as prerrogativas plenas que o cargo de presidente confere, o que fará de novidade como deputado, senador ou governador? A experiência brasileira revela que o saldo não vai além da irrelevância. Nesse jogo menor, a Presidência da República também sai diminuída.

 

Mas o próprio Brasil tem o exemplo do que parece ser o melhor caminho. Fernando Henrique Cardoso prova que lugar de ex-presidente não é correndo atrás de voto. Distante das carnificinas eleitorais, FHC não conheceu o desgaste biográfico que atingiu seus antecessores na cadeira presidencial. Nessa condição, preserva a própria imagem e se mantém num protagonismo especial.

 

É a tradição sul-americana. Assim como nos demais países do continente, em diferentes épocas, lá está a senhora Kirchner berrando pra todo lado, trocando acusações e achincalhes com adversários, em busca de uma cadeira de senadora. Até um dia desses, era a magistrada número um da nação, a presidente da Argentina. É claro que isso é ruim para o país e para ela também.

 

O ideal parece estar na realidade americana. Um ex-presidente retornar às batalhas eleitorais é uma hipótese inimaginável. Retrato mais bem-acabado de uma democracia moderna, os Estados Unidos não têm dúvida sobre o papel de um ex-chefe da nação. São tratados como estadistas, na plenitude do termo. E estes se comportam com a devida sobriedade que tal condição impõe. 

 

Estamos bem longe disso. Em 2018, haja o que houver até lá, ex-presidentes devem aparecer com o nome na urna. E esse é um dado que, reitero, acaba por banalizar a instituição da Presidência da República. A sede pelo poder explica, em boa parte, a resistência de uma tradição nefasta.

Givaldo Carimbão, um filho de Maria

Além do recurso à baixaria verbal, o que mais chama atenção no vídeo com o deputado federal Givaldo Carimbão é uma única frase, que ele repete umas dez vezes e aos berros: “Maria é minha mãe! Maria é minha mãe!”). A manifestação histriônica, completamente fora do tom, ocorreu durante uma audiência conjunta nas comissões de Segurança e de Cultura, na Câmara dos Deputados.

 

O vídeo pode ser visto aqui no CADAMINUTO. Carimbão resolve pegar carona na última onda de histeria moralista – depois das presepadas com exposições em museus – e abusa do proselitismo politiqueiro. Seu alvo é o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, convidado na audiência. Num raciocínio tosco, o deputado fala da mãe do ministro “com as pernas abertas”.

 

São dois graves problemas, pelo menos. O primeiro é o baião de dois que mistura religião e política. Não existe, mundo afora, nenhum exemplo de casamento saudável entre essas damas. O que existe de sobra são regimes em pandemônio social decorrente das disputas movidas a fanatismo. Não importa a crença, o outro será sempre um bárbaro – a ser convertido ou eliminado.

 

Um segundo problema é algo consagrado, um método essencial na política, que por certo deve nos irritar eternamente: a caudalosa demagogia na busca por dividendos eleitorais. É o que explica o teatro do parlamentar alagoano, com sua indignação ensaiada para a ocasião e para as câmeras. Nada que desabone o deputado, visto no contexto geral do Congresso.

 

No país da Lava Jato, a ira santa de Carimbão não chega nem perto do grande mal a ser combatido, que é a corrupção. Sendo assim, ele e outros tantos têm carta branca para pregar por Nossa Senhora, Jesus e todos os santos do céu. O bom de episódios assim é que podem ser vistos como emblemáticos, o tipo ideal de uma conduta ampla no parlamento brasileiro. O nível é esse aí.

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