Blog do Celio Gomes

Um clássico nos gramados do STF

São três clássicos em andamento. Enquanto escrevo, o placar no primeiro jogo é de 1 x 0 para o Barcelona sobre a Roma. No segundo jogo, o Liverpool abriu 3 x 0 sobre o Manchester City. As duas partidas valem pela Liga dos Campeões da Europa. O terceiro duelo ocorre no gramado do STF entre Lula e a Lava Jato. O placar até agora é de 1 x 1. O ministro Edson Fachin saiu na frente, votando pela prisão do ex-presidente. Já o ministro Gilmar Mendes empatou a partida, com um voto favorável ao habeas corpus para o petista. Ele ainda aproveitou o lance para bater na imprensa.

 

Gilmar Mendes reclamou da pressão indevida – que chamou de “chantagem” – que segundo ele ocorre em algumas coberturas da imprensa. Ele está certo, neste caso específico. Quem viu o Jornal Nacional de ontem sabe do que estou falando. As reportagens exibidas tentaram, de maneira escandalosamente incisiva, constranger os ministros a votar como quer a Globo: contra Lula.

 

Nos dois primeiros embates, lá no futebol europeu, não tenho preferência. Espero que a vitória saia para o melhor futebol – com o perdão do lugar-comum. Já no STF, tomo partido pela Constituição, que tem de ser cumprida. Porque isso significa respeito não apenas a Lula, mas a todos os brasileiros. Sendo assim, espero que Lula saia vitorioso no embate contra o obscurantismo.

 

A bola – e os votos – continuam em campo. Volto após o apito final.

O Exército contra a democracia: a fala descabida do comandante

Se há duas coisas historicamente incompatíveis no Brasil, desde a queda do Império, são o Exército e a democracia. A República nasceu, como se sabe, com um golpe militar, e essa tradição chegou ao ápice com a ditadura instalada em 1964. Por isso, as mensagens do comandante Eduardo Villas Bôas parecem mesmo um aceno a ações nada democráticas no panorama que vivemos hoje.

 

Na noite desta terça-feira, às vésperas do julgamento pelo STF do habeas corpus em favor de Lula, o militar escreveu em rede social: Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.

     

Nada mais obscuro que um general no comando da tropa vir a público se manifestar de forma um tanto ameaçadora contra a ordem legal do país. É uma pressão descabida contra a suprema corte da nação. Que história é essa de o Exército compartilhar com o “cidadão de bem” o que ele chama de “repúdio à impunidade”? É a força bruta querendo impor sua vontade a qualquer jeito.

 

Para ficarmos no período entre 1964 e 1985, nos 21 anos de regime militar, o Exército representou tudo, menos respeito à democracia e à Constituição. É exatamente o contrário do que diz o general. A ação das Forças Armadas durante a ditadura significou a pior quadra na vida brasileira. Só para não esquecer: torturas, desaparecimentos e assassinatos resumem o legado de terror.

 

No fim do seu inaceitável recado, o comandante solta a sombria lorota. Diz ele que o Exército “está atento às suas missões institucionais”. Que missões seriam essas? Intervir no processo político? Fechar o Congresso Nacional? Decretar a censura à imprensa? Cassar o mandato de políticos eleitos pelo voto popular? Eliminar “subversivos”? Essas missões o Exército de fato conhece bem.

 

Lembro aqui de algo deplorável, que ainda ocorre nos quartéis pelo Brasil afora. A cada 31 de março, muitos comandos regionais do Exército comemoram o aniversário do que para eles é a “Revolução de 64”. Um ataque mortal contra as liberdades em geral e contra a democracia é festejado como se celebrassem algo nobre. Trata-se de uma ofensa em todos os sentidos.

 

Como se vê, o “cidadão de bem” conta até com o apoio de generais para botar o sapo barbudo na cadeia. Seja qual for a decisão do STF, espera-se que os ministros votem com a Constituição. E com coragem. Porque não resta dúvida de que as palavras do comandante acenam para a covardia. Três décadas após o fim da ditadura, o Brasil mudou demais – ainda que tantos continuem no passado.

A quase candidatura do chefe do Ministério Público Estadual

CadaMinuto/Arquivo Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Alfredo Gaspar de Mendonça

Não é nada do outro mundo, mas está chegando um momento sempre importante em ano de eleições. A partir desta quarta-feira, são três dias até o fim do prazo de filiação partidária para quem pretende ser candidato na disputa pelo voto. Sete de abril também é o limite para agentes públicos deixarem os cargos – também se quiserem testar a popularidade nas urnas. A agitação é forte.

 

Como nunca deveria ocorrer, um dos ambientes mais contaminados pelo clima pré-eleitoral é o Ministério Público de Alagoas. Não lembro quando tivemos um panorama semelhante ao de hoje. Suponho ser algo inédito. O assunto mais debatido na instituição passa longe de processos, investigações ou termos de ajustamento de conduta. Tudo por lá gira em torno da eleição.

 

É natural. O ineditismo está no fato de o chefe do MPE ter mergulhado de cabeça no mundo da política. Há praticamente um ano, cogita-se a candidatura do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, a algum cargo – nada menos que a senador ou a governador. Nesse período, o que não faltou foram reuniões e mais reuniões para debater a viabilidade dessa renovadora ideia.

 

O procurador, sempre cauteloso em público, turbinou, em particular, todo tipo de especulação em torno de sua eventual aposta como candidato. Não foi por acaso que, ao longo dos meses, a cada temporada, surgiram novidades quanto à tendência da hora. Mendonça recebeu convites, conversou com caciques partidários, avaliou pesquisas, apresentou condições a diferentes legendas...

 

Agora, depois de fabricar as maiores expectativas, parece que o procurador teria desistido de sua ambição em servir ao povo com um mandato eletivo. Como as jogadas políticas podem mudar tudo a cada semana, o cenário posto hoje está longe de garantir ao chefe do MP uma perspectiva de vitória nas urnas. Diante da incerteza, ele estaria prestes a anunciar que fica no cargo.

 

Caso a tendência de não se candidatar seja confirmada, o procurador adia o sonho da política para 2020, quando poderá concorrer ao cargo de prefeito de Maceió. Aliás, quem acompanha de perto os lances dos tais bastidores da política – não é o meu caso – diz que o desejo acalentado pelo homem é mesmo a prefeitura. O Senado sempre foi uma alternativa menos atraente.

 

Pensando sobre o caso do chefe do MP, é inescapável a comparação com o prefeito Rui Palmeira. Assim como o tucano, Mendonça faz suspense até a última hora quanto à sua decisão. E também como Rui, a demora acabou virando um complicador nos planos eleitorais. A indecisão fechou portas e atraiu obstáculos. De todo modo, manda a prudência que esperemos até o fim.

 

Enquanto isso, como falei, o nervosismo e a instabilidade tomaram conta da instituição – sempre tão carregada de demandas graves sobre a vida pública no estado. O limite dos prazos legais deve trazer, em tese pelo menos, um pouco mais de calma entre as autoridades do Ministério Público. Com o desfecho do impasse, o foco por lá volta para investigações e processos em andamento.

Na base do fuzil e de orações

Deltan Dallagnol e Marcelo Bretas, dois cristãos fervorosos, estão orando sem parar pela prisão do ex-presidente Lula. A dupla trocou mensagens pelas redes sociais e, mais uma vez, patrocina um patético show de demagogia. Dallagnol é o procuradorzinho de “bochechas rosadas” que recebe auxílio-moradia, mesmo tendo residência própria. Bretas é o juiz do Rio de Janeiro que embolsa não apenas um auxílio-moradia, mas dois – ele e sua senhora, morando sob o mesmo teto.

 

O riquinho do Ministério Público Federal também anunciou que está fazendo jejum, para convocar as energias divinas contra o desgraçado do petista que governou o Brasil por oito anos. Já seu colega magistrado declinou da convocação para segurar o apetite voraz. Deve ter pensado que o inimigo não vale tamanho sacrifício. Que autoridades são essas, Jesus de Belém?! Esses caras pensam que são pastores, pregadores, santos... Nem sei se tudo isso é mais revoltante ou mais ridículo.

 

Como escrevi em texto anterior, o fanatismo ideológico apela até para as forças do além em defesa de seus pontos de vista. Do mesmo modo, a seita da Lava Jato curitibana é capaz de tudo, inclusive de assediar Deus e os anjos para alcançar seus objetivos. O bizarro é que essa turma, quando é de seu interesse, ataca aqueles que não respeitam a laicidade do Estado. A pilantragem intelectual é a marca registrada desses elementos que pretendem manietar até o voto livre do eleitorado.

 

Vejam que combinação saudável para o futuro do país. A internet está inundada por vozes que aliam orações ao Todo-Poderoso a gritos em louvor de Jair Bolsonoro. Sim, a direita que se vende como esclarecida e bem-informada se ajoelha para os dez mandamentos e para a cartilha infernal do troglodita. Tudo com a mesma devoção, com o mesmo grau de misticismo de legiões inquisidoras. Nas imagens reproduzidas por esses grupos, os símbolos da guerra são a cruz e o fuzil.

 

É esse tipo de cidadão de bem que Dallagnol e Bretas seduzem com suas rezas e safadezas retóricas. Nesta quarta-feira o STF decide se Lula será ou não preso após a condenação em segunda instância. Os ministros deveriam decidir de acordo com a Constituição, mas, nos tempos em que vivemos, a letra da lei e nada são a mesma coisa. Por isso, prosperam nos quatro cantos as ideias de linchamento para todo aquele de quem discordamos. Fazer o quê? Oremos!

Quando o jornalismo é apenas trololó

No momento em que comecei a escrever o texto que você lê agora, todos os grandes veículos de imprensa na Internet traziam como destaque, com algumas variações, a mesma notícia: a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, diz que “o país vive tempos de intolerância” e que “é preciso ter serenidade”. Na maioria dos sites, o palavreado da ministra ganhou a manchete.

 

Outras notícias, igualmente reproduzidas por quase todos os meios, tratam de afirmações feitas por autoridades ou personagens de peso na vida pública. Luís Roberto Barroso, também do STF, diz que a Justiça não pode tomar decisões “de acordo com paixões da sociedade”. Já o ex-presidente Lula, mandou o seguinte recado, em tom sentimental: “Não vão prender meus sonhos”.

 

No último sábado (31/03), a manchete da Folha de S.Paulo (versão impressa) foi esta: “Temer reage e diz que querem tirá-lo da vida pública”. Na Carta Capital, o editor achou que era uma informação relevante mais uma papagaiada retórica de Ciro Gomes, e tascou a declaração para o leitor: “Há uma escalada protofascista no Brasil”. Na IstoÉ, Trump critica o México e “Via Crucis migratória”.

 

Esse amontoado de frases, com as devidas aspas, tem um ponto mortal em comum. Tudo isso é a tradução irretocável de uma ideia tragicamente equivocada de jornalismo. Em quase cem por cento desses casos de pretensas reportagens, o que temos é a antinotícia – que começa na primeira sílaba e se esgota quando as aspas se fecham. É o que se chama de jornalismo declaratório.

 

No trabalho da imprensa, uma declaração, seja de quem for, deve ser tomada pelo jornalista como ponto de partida, nunca de chegada. E isso quando o eventual personagem expõe alguma ideia ou intenção realmente grave – o que não ocorre na maioria das vezes. Mas o que se vê de maneira generalizada é a supervalorização de qualquer frase idiota. Se for uma “polêmica”, aí danou-se.

 

É aquilo que alguém já batizou de escandalização do nada. Se a gente pensar só um pouquinho, as manchetes que reproduzi nos parágrafos anteriores não trazem notícia nenhuma. Não vai acontecer nada como consequência do que disseram os autores dessas tolices. O falatório desenfreado, reproduzido acriticamente por todos os quadrantes, é tão novidade quanto o silêncio absoluto.

 

Não, isso não é um sinal de que o jornalismo de hoje inventou a notícia que notícia nunca será. A tara por declarações chamativas, que geram manchetes, sempre existiu na imprensa. Pode-se avaliar, sim, que os tempos recentes de fato agravaram, e muito, a situação. A febre do trololó mostra o jornalismo, até nos gigantes do setor, em fase de indigência. É um desserviço à sociedade.

 

Como em outros erros da imprensa, as causas do império do jornalismo declaratório são duas. Uma é financeira, a falta de investimento dos veículos na reportagem digna desse nome. A outra, tão séria quanto a primeira, é o próprio jornalista. Achamos mais fácil matar a pauta com dois telefonemas (ou troca de mensagens) do que sair à rua em busca dos dados, abertos ao imprevisível.

 

Nessa combinação melancólica, desprezamos a vida real que pulsa lá fora, e ficamos sentadinhos, no ar condicionado, em ambientes que mais parecem cubículos, e fingimos que praticamos o melhor do jornalismo investigativo. O resultado é esse vendaval de inutilidades empacotadas em solene verborragia. Enquanto isso, o bicho pega, a casa cai e os dramas explodem. Bem longe das redações.

Desembargador do TJ-AL dará aula em curso sobre o “golpe de 2016”

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Desembargador Tutmés Airan

A Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) anuncia quatro nomes já confirmados como professores no curso de extensão sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Com o título de O Golpe de 2016 e o futuro da democracia do Brasil, o curso começa na quinta-feira (05), com aulas no campus de Arapiraca, e terá duração de dois meses. Para todos aqueles que tiverem interesse na doutrinação petista, as inscrições ainda podem ser feitas pelo site da instituição. A aula inaugural terá como professor Tutmés Airan, um dos desembargadores do Tribunal de Justiça do estado.

 

Até onde sei, os outros três professores confirmados são: Luciana Caetano, economista e professora da Universidade Federal de Alagoas; Ricardo Coelho, jornalista, ex-delegado regional do Trabalho e também professor da Ufal; e Othoniel Pinheiro, defensor público do Estado. Cada um deles abordará um aspecto do que consideram ter sido uma trama subterrânea para derrubar a primeira mulher no comando do país. Pelo que entendi, esses mestres farão uma espécie de aula especial – não estarão ao longo de todo o curso. As aulas ocorrem à noite, entre 19h e 22h.

 

Ricardo Coelho é petista de carteirinha há umas três décadas. Exerceu a chefia do Ministério do Trabalho em Alagoas no primeiro mandato do então presidente Lula. Ele é um caso típico de militante partidário, a serviço das causas do PT em tempo integral, que faz da universidade um bico. Quando o trabalho no partido dá uma folga, ele reaparece para suas brilhantes aulas no curso de Comunicação Social da gloriosa Ufal. Naturalmente, não é o único a fazer da universidade passatempo remunerado. Por isso, o nível de nossos acadêmicos é referência nacional.

 

O nome que mais parece surpreendente nessa lista de pensadores é o de Tutmés Airan. Não por suas ideias políticas. Porque, para quem não sabe, também se trata de um petista histórico, embora tenha abandonado a militância ao ingressar no Poder Judiciário. Pelo menos é o que imagino. Mas é como no futebol: uma vez Flamengo... Um caso de amor não acaba assim tão fácil. Aliás, a participação do desembargador nesse barco está de acordo com sua trajetória, digamos, de rebeldia e vanguarda. Como advogado, sempre atuou pelas demandas de todas as minorias.

 

Ao escancarar sua simpatia política, Tutmés Airan mostra que nem todo o Judiciário pode ser considerado “golpista”, como acusam os próprios petistas. O desembargador deixa claro também que não está preocupado com a opinião de seus colegas no TJ, muito menos com a turma de togados nos tribunais superiores. Digo isso porque o impeachment cumpriu todas as formalidades de um devido processo legal, sendo assim reconhecido pela corte máxima da Justiça, o STF.

 

Mas o desembargador não concorda com esse entendimento que acabo de escrever. Vejam lá no material produzido pela Uneal (foto) o tema da aula que ele vai ministrar para os estudantes e discípulos do petismo: O papel do Poder Judiciário no golpe e o futuro da democracia no Brasil.

A impunidade no crime de homicídio e o erro da imprensa no caso Marielle

Foto: Revista Fórum Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Marielle Franco

Na letra da lei, o prazo para a conclusão do inquérito policial varia. O tipo e as circunstâncias do crime – se eventual acusado está preso ou não, por exemplo – determinam a duração máxima das investigações. Mas tudo isso é a teoria no Código de Processo Penal. Como se sabe, o mais comum é a prorrogação do período de tempo incialmente estabelecido para a devida apuração dos fatos.

 

É uma raridade que um homicídio seja elucidado no intervalo de 30 dias, como prevê a legislação – ainda mais quando se trata de episódios com ingredientes que elevam a complexidade da situação. Um exemplo bem claro são os assassinatos por encomenda, cujo grau de planejamento torna mais difícil o trabalho da polícia. A realidade atropela os códigos.

 

É por isso que soa até como insanidade a cobrança da imprensa pela suposta demora na solução no caso Marielle Franco. De repente, vejo meio mundo de repórteres na TV repetindo a mesma lorota, mais ou menos assim: “Olha, após tantos dias da morte da vereadora, a investigação não avança, e não sabemos quem mandou e quem executou o atentado”. Só pode ser piada.

 

Não sei se esse tipo de abordagem se deve mais à ignorância ou ao sensacionalismo quase inerente em certas coberturas. O crime que abalou o Brasil, a partir do Rio de Janeiro, ocorreu há menos de três semanas. Nada, portanto, autoriza ninguém a acusar a polícia de incompetência, muito menos a esbravejar que estamos diante de mais um caso no mapa da impunidade. Ainda não.

 

Aliás, a imprensa pode, sim, cobrar o esclarecimento rápido desse ou de qualquer outro crime. Meu espanto é que isso está sendo feito agora como se a regra no Brasil fosse a celeridade das investigações. A verdade é que na maioria dos casos de homicídio no país, os inquéritos são arquivados sem apresentar indícios de autoria. E aí sim os criminosos estão livres e impunes.

 

O quadro brasileiro nesse campo é tão caótico que praticamente todos os estados não sabem quantos homicídios, a cada ano, são investigados e solucionados. Foi o que revelou estudo do Instituto Sou da Paz, divulgado no fim do ano passado. A pesquisa se valeu de dados oficiais fornecidos pelos governos estaduais e pelo Ministério Público, em todas as unidades da federação.

 

Somente seis estados deram informações completas para se verificar o índice de esclarecimento de homicídios dolosos: São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Segundo o instituto, Alagoas ficou entre os estados que, em vez de números concretos, relataram um vasto conjunto de dificuldades técnicas para produzir tal levantamento.

 

Dos seis estados que forneceram dados precisos, São Paulo conseguiu denunciar autores de homicídio em 38,6% dos casos – bem menos que a metade das investigações. Já no Rio de Janeiro, palco da emboscada que vitimou a vereadora Marielle, somente 11,8% dos assassinatos foram esclarecidos no período de um ano. O panorama é mesmo de calamidade insofismável.

 

O fracasso da apuração de crimes contra a vida, resumindo, é o previsível desfecho dos inquéritos por todo o Brasil. Por enquanto, porém, a morte de Marielle ainda não pode ser encaixada nessa estatística. Quanto ao silêncio das autoridades sobre o andamento da investigação, nada de errado com isso. Pelo contrário. Delegado falastrão não está entre os requisitos de bom trabalho.

Deus é de direita, Jesus é de esquerda

Se não me engano, escrevi outro dia neste espaço que, diante de algumas manifestações na guerra política atual, ficamos com a impressão de que Deus é de direita. Digo isso porque, de uns tempos pra cá, grupos organizados na militância ideológica recorrem com frequência aos mandamentos do Senhor para defender seus pontos de vista. Até aqueles que rezam e fazem promessas – para ter o direito de andar armados – dizem falar em nome do Altíssimo. Pode isso, camarada Coelho?

 

Antes que continue, lembrarei o óbvio. Sim, estamos vivendo o período da Páscoa, acabamos de fechar a Semana Santa. Ocorre que todo esse labafero diz respeito ao Cristianismo – ou seja, estamos falando de uma seita específica, com algumas correntes dominantes, como o Catolicismo. Uma multidão de seres humanos mundo afora, porém, tem outras preferências no campo da mitologia e do sobrenatural. Nem todos celebram suas divindades em volta da mesa, com sururu e chocolate.

 

Feito o registro da obviedade histórica, retorno ao ponto. Se o Todo-Poderoso tem sido assediado para se filiar às correntes direitistas, Jesus Cristo é alvo do mesmo tipo de assédio – mas para se juntar aos fiéis da esquerda. Prova disso é que, durante esses dias de procissões e retiros, vi um bocado de textos associando o filho de Maria ao delírio utópico de uma revolução nos moldes russos ou cubanos. Nesse caso, deve-se reconhecer que os argumentos capricham no quesito bom humor.

 

Li algo mais ou menos assim: Jesus veio ao mundo na mais absoluta pobreza, como um representante legítimo das minorias, e se tornou um inimigo dos poderosos, ao defender os despossuídos. O cara foi um subversivo, na plenitude do conceito de subversão. Decidido a derrubar o sistema controlado pelas classes da elite, montou uma guerrilha no campesinato e tramou um ataque à “burguesia” daquele tempo. Foi traído por um fascista infiltrado, e acabou como sabemos.

 

Se Deus é de direita, e Jesus partiu para a esquerda, temos um dilema infernal. Mas, pensando bem, até que há alguma lógica na situação aparentemente paradoxal. O que estaria em jogo é a eterna crise na relação entre pai e filho, quando o jovem rebelde não mais se conforma em seguir o velho – um senhor autoritário, acomodado com aquela vidinha um tanto reacionária. Na verdade, estou fazendo especulações na tentativa de entender o racha político que ameaça até o governo do Céu.

 

Como Deus é uma invenção do homem, temo que a qualquer momento o MDB seja convocado para apaziguar as diferenças entre as alas. Já prevejo coalização ampla, agregando desde os mais xiitas, passando pelos socialistas morenos, até os crentes mais moderados. O perigo são as técnicas de persuasão sempre usadas nessas horas de acirramento. Sem acordo, cada um interpreta a seu modo a Constituição do Além, ou seja, a Bíblia. Enquanto isso, na moita, o Capeta corre por fora.

Passeando às custas do povo

Em dezembro de 2013, o senador Renan Calheiros viajou de Brasília até o Recife para uma importante missão como presidente do Congresso Nacional: foi dar uma turbinada em sua cabeleira. Depois do bem-sucedido implante capilar, descobriu-se que a viagem entre a capital do país e a terra do Mangue Beat tinha sido feita num avião da FAB. Ou seja, eu e você pagamos pela cirurgia republicana do pai do governador Renanzinho. Após a revelação dos fatos, Renan ressarciu os cofres da União.

 

Um dia desses, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes partiu para Fortaleza, onde era convidado especial no casamento de uma enteada. Para viabilizar o deslocamento, ele usou a cota de passagens aéreas a que tem direito como integrante do STF. Naturalmente, os togados devem recorrer à cota para missões oficiais. Casamentos, batizados e confraternizações em geral não estão entre eventos previstos como ação de trabalho.

 

O mesmo Gilmar Mendes acaba de se meter em outra presepada envolvendo viagens às custas do contribuinte. Ele foi a Portugal para falar num seminário do Instituto Brasileiro de Direito Público, que tem entre seus donos o próprio ministro. Um repórter da Folha perguntou quem pagou as passagens. A esclarecedora resposta do togado foi esta: Devolva essa pergunta a seu editor, manda ele enfiar isso na bunda. Isso é molecagem, esse tipo de pergunta é desrespeito.

 

No dia 22 de março, o julgamento do habeas corpus em favor de Lula foi suspenso em função de um compromisso particular do ministro Marco Aurélio Mello. Ele informou que não poderia perder o voo para o Rio de Janeiro, onde daria uma palestra para uma patota do mundo jurídico. Não bastasse o insulto de priorizar uma agenda pessoal em detrimento de suas obrigações oficiais, o ministro faz piada com a suspeita de que o passeio também saiu às custas do tribunal supremo.

 

Em outubro do ano passado, o tosco presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, foi vagabundear por três países, acompanhado pela mulher e outros nove comparsas do Congresso. A farra em Portugal, Itália e Israel teve todos os custos bancados pela Câmara. Para ganhar os ares, claro que o grupo também teve uma aeronave da FAB à disposição. A explicação de fachada para a esbórnia internacional foi que a viagem serviu de intercâmbio e “troca de experiências”.

 

É uma de nossas mais arraigadas tradições. O mundo se transforma, a terra já é plana, mas esse tipo de bandalheira atravessa os tempos – sem perigo de um dia acabar. E veja: o mal percorre todas as instâncias e esferas da vida pública, sem distinção de posto, nos três poderes da República. Eu diria que é praticamente uma guerra perdida tentar varrer para o lixo essa prática deletéria. Se eu fosse um revolucionário, simpático a radicalismos, defenderia o paredão ou a guilhotina. Mas sou da paz.

É jornalismo ou descarada publicidade? O dia em que Otto venceu o Louro José

Você procura notícia. Abre um jornal ou uma revista – parece que não, mas jornal e revista ainda existem –, e lá está uma reportagem sobre o lançamento de um novo produto, de um show ou de um projeto inovador. Tudo nos leva a acreditar que é informação factual, um assunto que se tornou pauta da imprensa pela intrínseca relevância daquilo que está sendo veiculado. Nem sempre.

 

Um dos pecados mortais no jornalismo é a reportagem que é tudo, menos reportagem. Aquilo que é vendido ao leitor, com toda a maquiagem de notícia, pode ser tão somente o resultado de uma transação comercial entre a empresa de comunicação e um anunciante disfarçado. Durante minhas temporadas na direção de redações, foram muitas as brigas para repelir esse tipo de fraude.

 

Contarei aqui três episódios. O primeiro é bem antigo, lá dos anos 1990, quando dirigi o departamento de jornalismo da TV Gazeta. Concurso público e vestibular sempre rendem cobertura da imprensa. Numa dessas ocasiões, uma pauta corriqueira mandava o repórter percorrer alguns cursinhos para ouvir, claro, professores e candidatos. Assim foi feito.

 

A matéria foi exibida na edição noturna do ALTV. Antes mesmo do encerramento do telejornal, o próprio diretor comercial da emissora praticamente invade minha sala, ensaiando um chilique, esbravejando a seguinte pergunta: “Porra, Célio, que sacanagem é essa?”. Ele estava indignado porque um cursinho que era forte anunciante da casa não fora contemplado na reportagem.

 

Antes de mandá-lo pastar, expliquei ao sujeito que minha equipe não era formada por contatos comerciais, e sim por jornalistas. Acrescentei que se ele contava com o departamento de jornalismo para estelionato e extorsão, e com isso apresentar lucros à empresa, suas contas iam ficar no vermelho. A ironia é que se tratava de um diretor trazido de fora, recomendado pela Globo.

 

Em outro caso, nos anos 2000, já como editor-chefe da Gazeta de Alagoas, deu-se a maior confusão quando criamos o caderno Maré – que existe até hoje. Logo na estreia, o departamento comercial vendeu um anúncio de umas três páginas – e, eu saberia depois, garantiu ao cliente que o assunto estaria na capa, como se fosse uma informação jornalística. Derrubei a bandalheira sem hesitação.

 

Quando a edição foi para a gráfica, o então diretor comercial soube que sua criminosa armação estava morta. Foi uma sucessão de lances dramáticos, com ligações por toda a noite e apelos à cúpula da empresa, na tentativa de mudar minha decisão. Inútil. Na capa do caderno saiu a reportagem escolhida pelos editores, como tem de ser. O diretor que se virasse com seu cliente.

 

O terceiro episódio tem uma boa dose de comédia. E aqui a história mistura as duas empresas da Organização Arnon de Mello. Ainda no cargo de editor-chefe da Gazeta, recebi um pedido para registrar a ilustre visita do Louro José a Maceió. O personagem, parceiro intelectual de Ana Maria Braga, fazia uma turnê pelo Brasil. Era, naturalmente, uma demanda comercial da Globo.

 

Apesar da marmota, como a celebridade animal arrastava uma multidão de fãs por onde passava – e era de interesse “institucional” da Globo –, a direção da Gazeta contava com minha sensibilidade. Fizemos a cobertura do acontecimento, com direito a encontro do Louro com o público na praia da Pajuçara. Mas houve uma verdadeira crise após a publicação da matéria.

 

Saiu um breve registro do fato, em página interna do Caderno B, na sessão destinada ao circo da televisão. O bicho pegou. A cúpula da empresa estava certa de que o Louro José estaria nada menos que na capa do caderno, como a principal reportagem, e chamada na primeira página do jornal. Isso eu jamais faria, a não ser que estivesse a um passo do hospício, por colapso mental.

 

O terremoto – afinal era uma ordem da Globo para sua afiliada – rendeu um momento único em minha trajetória nas redações. Houve uma reunião de emergência da diretoria. Os mais exaltados me perguntavam por que eu havia preterido o Louro José em nome de uma capa do B com o cantor e compositor Otto, que na época lançava mais um de seus extraordinários trabalhos.

 

Perguntei se alguém ali sabia quem era Otto. Silêncio. Então, sapequei uma sinopse sobre coisas como circuito musical alternativo, nomes da safra pernambucana e cena independente. Mostrei que Otto foi capa dos maiores jornais do país, e que era um dos grandes renovadores da música brasileira. Finalmente, lembrei que falávamos de um caderno cultural, não de um suplemento de piadas.

 

Situações como essas que acabo de contar estão na rotina de qualquer jornalista no comando de uma redação, não importa o tamanho do veículo. As experiências que vivi me fazem crer que há sempre margem para o debate. Se a diplomacia não resolve, tem de partir pra porrada. A tragédia é quando os dois lados – jornalismo e comercial – viram sócios. Aí, camarada, estamos perdidos.

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