Blog do Celio Gomes

Prédios em ruína: Cultura e Educação

É sempre assim. No dia seguinte ao acidente, a imprensa deflagra uma verdadeira devassa para apontar todas as situações com potencial de repetir a tragédia da vez. Tão eloquente quanto o repentino trabalho investigativo do jornalismo será a iniciativa das autoridades para tomar providências. O caso do momento ocorreu em São Paulo. Depois que o prédio ocupado por famílias de sem-teto desabou, todo mundo despertou para o perigo mortal dos imóveis abandonados.

 

Como era previsível, também em Alagoas essa síndrome de resolver as coisas após uma tragédia já se manifestou. Noticia-se que o Ministério Púbico Estadual pretende fazer um levantamento de construções públicas sem uso ou invadidas por pessoas que não têm moradia. A partir desses dados, será cobrada uma solução – que pode ser até a demolição, no caso de haver risco de acidente semelhante ao de São Paulo. Por que somente agora o pessoal do MP resolveu acordar?

 

Até parece que ninguém anda por aí, vendo as ruas e a arquitetura pelo Centro de Maceió, por exemplo. Ali o que mais tem é prédio público abandonado. Tem um bocado de imóvel particular também. Um breve passeio revela uma quantidade quase inacreditável de endereços fechados e caindo aos pedaços. Há exemplos dos mais variados tipos arquitetônicos. Mas essa realidade não é nada recente, pelo contrário. E ninguém havia percebido problema nenhum até alguns dias atrás.  

 

Lamento, mas a grande preocupação que surge agora não passa de oportunismo. Pensando em Maceió, estamos longe de ter um projeto sério para a cidade, coisa que aliás nunca tivemos. Plano diretor e planejamento urbano existem no papel, e olhe lá. Uma mobilização intempestiva tem tudo para gerar discursos e soluções de fachada para problemas complexos. Agir sob pressão dos fatos e da opinião pública, aliás, é um verdadeiro clássico no campo da política. Nunca termina bem.

 

Um dos prédios públicos abandonados no centro da capital é um emblema da política alagoana. E diz muito da miséria moral e intelectual daqueles que têm o poder por aqui. Dá um estudo de caso, uma tese acadêmica. Refiro-me à antiga sede da Secretaria Estadual de Educação. Foi fechada em 2012 com a promessa de que passaria por uma bela reforma. E está lá, um crime a céu aberto, cometido por saqueadores do patrimônio do povo. Uma área gigantesca que virou depósito de lixo.

 

Outro exemplo com a mesma carga simbólica está na Rua Pedro Monteiro, também no Centro. É o imóvel que serviu de sede, vejam só, para a Secretaria Estadual de Cultura. Já abrigou a rádio estadual e um teatro. Na aparência, está desmoronando. Enquanto isso, brinca-se de eleger bloco de carnaval de uma patota de amigos como patrimônio cultural de Alagoas. Não. Educação e cultura, aqui no estado, acabam é assim, sob a poeira e os escombros de prédios desprezados.

 

Mas vamos ver. Estou curioso pelo trabalho que está prestes a começar a partir de uma força-tarefa que envolverá diferentes órgãos e instituições. Como sempre, políticos, autoridades e especialistas já andam por aí cheios de ideias para nos salvar de algum desabamento iminente. Como sabemos, será um trabalho sério, vigoroso e eficiente. Em breve, poderemos constatar o grandioso resultado.

Cícero Almeida e o “foro privilegiado”

A restrição do foro especial para deputados e senadores, aprovada pelo STF nesta quinta-feira, já provocou o primeiro efeito na bancada alagoana. Segundo leio na Folha de S. Paulo, o ministro Dias Toffoli devolveu à justiça estadual um processo em que o deputado Cícero Almeida responde pelo suposto crime de fraude em licitação. O caso é de 2005, primeiro ano de Almeida como prefeito de Maceió. Ele acabou virando réu numa ação sobre contrato com empresa de limpeza urbana!

 

Os fatos que geraram a denúncia estão lá atrás, ainda no nascedouro do primeiro mandato de Almeida na prefeitura. O processo volta para Alagoas porque seria um delito anterior ao mandato do parlamentar no Congresso Nacional. Este ano, ele parte para uma nova eleição, ao que parece para deputado estadual – e sem que um troço de 2005 tenha sido esclarecido. Será que o ritmo processual vai disparar por aqui? É o que certamente saberemos nos próximos meses.

 

Como disse no texto anterior, não sei quantas situações idênticas existem no STF envolvendo deputados e senadores alagoanos. É possível que outros ministros também sejam relatores de processos que agora devem ser remetidos ao Tribunal de Justiça. Não há prazo estabelecido para que um ministro analise as denúncias sob sua guarda e decida se haverá ou não transferência para nova instância. “Sentar em cima da investigação” não é uma frase que veio do nada.

 

Estamos bem perto da eleição. Tudo pode acontecer, é verdade, mas quando se trata de tramitação judicial, há etapas e percursos inescapáveis. E falo estritamente do cumprimento da lei. Ressalto esse aspecto porque não parece haver chance de a novidade sobre o foro especial interferir no quadro eleitoral. A ponte aérea de processos entre instâncias do judiciário não terá consequências imediatas porque, afinal, de algum modo, tudo começa de novo – ou quase isso. 

 

A suposta quase extinção do “foro privilegiado”, ainda mais do jeito que ficou após o julgamento do Supremo, é um conto do vigário para o eleitor brasileiro. Deveria acabar quase tudo mesmo, mas, ainda assim, não estaríamos atacando o essencial em termos de reformas estruturais, como se diz por aí. O que houve no STF foi uma reação às pressões de todos os lados – dos holofotes e das ruas.

Políticos alagoanos serão atingidos pelo fim do “foro privilegiado”

Foto: Agência Brasil Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true STF

Por 11 votos a zero, o Supremo Tribunal Federal restringiu o alcance do foro especial por prerrogativa de função, conhecido na gandaia brasileira como “foro privilegiado”. Antes de mais nada, é preciso lembrar o óbvio: de novo os ministros do STF invadem o terreno do Congresso Nacional e atuam como legisladores de toga. É verdade que, deve-se ressaltar, isso não ocorre por um exotismo próprio do Supremo. O tribunal simplesmente julga demandas que lá chegam.

 

É a tal da judicialização não apenas da política, mas de tudo na vida nacional. A loucura é que a decisão do STF, sacramentada nesta quinta-feira (03), vale apenas para os 513 deputados e os 81 senadores. Eu disse “apenas” porque foro especial também contempla governadores, ministros de Estado, prefeitos, juízes, desembargadores, membros do Ministério Público, os próprios integrantes dos tribunais superiores... Para essas categorias, nada muda. Cadê a lógica? Nem adianta procurar.

  

De todo modo, abre-se agora a possibilidade para que os casos de crimes cometidos por parlamentares, no exercício do mandato, sejam alvo de processos na primeira instância, ou seja, no âmbito da justiça estadual. Mas a novidade se aplica para o eventual delito que não tenha ligação com as atividades do deputado ou do senador. Vale para o chamado crime comum – o que abrange praticamente tudo, desde um atropelamento até o recebimento de propina. Pelo menos em tese.

 

Como os efeitos do julgamento serão aplicados imediatamente, os ministros do STF devem enviar às instâncias estaduais os casos que lá tramitam neste momento. Se não estiver enganado, isso atinge nomes da política alagoana. Não tenho certeza sobre todas as denúncias contra deputados e senadores de Alagoas que estão no STF. Mas entre eles estão os senadores Renan Calheiros e Fernando Collor. Ainda assim, a transferência dos processos não se dará de modo automático.

 

Pelo que li a respeito, cada ministro relator vai analisar as situações dos processos que estão sob sua responsabilidade. O envio à primeira instância dependerá também da etapa em que estejam os casos. Se o crime tiver ocorrido antes do atual mandato, aí essa transferência será mais rápida. Por enquanto, há mais dúvidas que certezas diante da decisão tomada hoje. O certo é que há zoada demais para avanço de pouca coisa, penso eu. De repente, tudo pode ficar na mesma.

 

Nos últimos tempos, o debate sobre o fim do “foro privilegiado” entrou em ritmo de insanidade. Vende-se a ideia segundo a qual todos os males do país vão acabar após a mudança de uma norma vigente há décadas. Longe disso. Há muita demagogia, muita jogada para atender ao carnaval da arquibancada – além de muita desinformação. Podemos ficar tranquilos. A bagaceira resiste.

A ideologia no prédio que desabou

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Não poderia ser diferente de jeito nenhum. É claro que o desabamento desse prédio na região central de São Paulo tinha que virar motivo de guerra política. Abandonado há alguns anos, o imóvel foi ocupado por famílias que não têm onde morar. E aí começam os problemas. A ocupação é obra de um dos movimentos de sem-teto que já invadiram dezenas de espaços na maior cidade do país.

 

Uma informação surpreendeu o Brasil: as famílias pagavam aluguel para o movimento que coordena invasões pela capital paulista. A conta mensal para cada grupo variava entre 200 reais e 400 reais. Do alto de minha ignorância como jornalista, sempre imaginei que invasores não pagassem nada; afinal, como indica a palavra, se eles invadiram o lugar, não seriam inquilinos. Mas não é bem assim.

 

Para piorar as coisas, várias pessoas que habitavam o prédio que veio abaixo acusaram os coordenadores do LMD (Luta por Moradia Digna) de abandonarem as famílias. LMD é a entidade por trás da ocupação não apenas desse imóvel, mas de vários outros em São Paulo. Até agora, o que foi revelado põe sob suspeita os métodos e os interesses do autodenominado movimento social.

 

Essas informações foram suficientes para algumas vozes da imprensa denunciarem o que seria uma verdadeira máfia sob a aparência de movimentos sociais. No fundo, os supostos ativistas que atuam nesse tipo de guerrilha urbana estão mesmo é garantindo uma renda e tanto. Pelos valores cobrados, e com a quantidade de ocupações, garante-se uma arrecadação milionária.

 

Não falta quem cobre explicações a Guilherme Boulos, o revolucionário do PSOL candidato a presidente da República. Ele é o comandante do MTST, o maior, mais atuante e mais barulhento dos movimentos que se apresentam como lutadores em nome da moradia para os pobres. O MTST também cobra aluguel? E os demais grupos, concorrentes na praça, também recebem a cada mês?  

 

Enquanto tais perguntas ainda não foram respondidas, e talvez nunca venham a ser, também existe a acusação do outro lado. “Estão querendo criminalizar os movimentos sociais”, apontam algumas assinaturas na imprensa, entre jornalistas, políticos e colunistas de toda ordem. Sim, quem é de esquerda diz uma coisa; quem está à direita defende outra versão. A marmota de sempre.

 

No meio dos ataques, também seria previsível que imediatamente alguém gritasse, indignado: “Fake news”. Não importa qual seja a informação, nem de que lado está a origem daquilo que se informa; a acusação de falsidade dos fatos parte de todos os envolvidos na disputa política – ou ideológica, se você preferir. Sem querer ficar em cima do muro, a briga não resulta muito boa para ninguém.

 

Agora, uma coisa me parece óbvia: o politicamente correto impede uma investigação pra valer sobre o aluguel cobrado aos sem-teto. É evidente que os responsáveis por isso vão se agarrar no argumento de que atuam em benefício dos excluídos. E ninguém quer correr o risco de receber o carimbo na testa de intolerante aos movimentos sociais. Nessas horas, até a Globo é de “esquerda”.

Quem leva a eleição para presidente

Leio artigos de profissionais que ganham a vida como especialistas em tendência de voto no eleitorado brasileiro. Vejo programa de entrevista com os diretores do Datafolha e do Ibope avaliando o panorama das pesquisas sobre as eleições que vêm aí. No falatório geral temos muita espuma, especulações demasiado cuidadosas e um alto índice de lugares-comuns. Profecia não é fácil.

 

Os palpites e cenários desenhados não variam muito. De tão repetidas por todo mundo, algumas análises parecem surgir do nada, e servem como escoras nos momentos em que debatedores não têm o que dizer. São os piores lances de um jogo sempre arriscado. Espera-se dos debatedores que apontem favoritos, as possíveis surpresas e até eventuais azarões. Mais ou menos por aí.

 

Vamos a algumas ideias consolidadas na praça, a essa altura da bagunça geral. Jair Bolsonaro, hoje, estaria no segundo turno. Isso é tão certo quanto a ideia de que a candidatura pode despencar quando a campanha pegar fogo. Como o eleitor está obcecado pelo “novo”, Joaquim Barbosa também tem fôlego para brigar nas cabeças. Precisa consolidar a posição nos meses seguintes.

 

Mesmo barrado nas urnas, Lula é capaz de garantir votos a um nome do PT escolhido por ele como seu substituto. E esse Plano B também teria chances reais de garantir uma vaga no segundo turno. Isso somente deixará de existir se o partido fizer uma aposta muito errada, numa hora ainda mais equivocada. Quanto mais os petistas demorarem nessa decisão, mais perigos vão enfrentar.

 

Dramática é a situação do PSDB, com Geraldo Alckmin aparentemente sem um discurso claro e contundente. Até agora, ele representa tudo o que o eleitor parece desprezar no atual contexto de ódio aos nomes consagrados. Os números das pesquisas refletem esse diagnóstico. Resta a aposta na estrutura partidária e numa feitiçaria bem-sucedida na propaganda para a TV.

 

Marina Silva e Ciro Gomes, por razões e variáveis distintas, seriam as maiores incógnitas, embora a líder da Rede Sustentabilidade tenha melhor desempenho nas pesquisas do que o ex-ministro. Para o fortalecimento de seus projetos, ambos dependem de alianças, algo ainda em aberto. Ciro sonha com o apoio do PT, uma hipótese hoje vista como remota – para não dizer impossível.

 

A ironia é que as pesquisas garantem que os brasileiros procuram por um nome radicalmente novo, mas os candidatos na ponta das intenções de voto são velhos conhecidos. Parece que, na falta dessa radical novidade, Bolsonaro e Joaquim Barbosa pescam uma parcela dos insatisfeitos com a velha política. É mais ou menos como diz a piada: “Não tem tu, vai tu mesmo”. Mas isso pode mudar.

 

A incerteza absoluta sobre os rumos da eleição para presidente está no índice que reúne os eleitores indecisos e os que dizem votar em branco ou nulo. No total, esse exército de desiludidos é maior que o conjunto que declara preferência por um concorrente. É o universo em desencanto.

 

Por isso, o jornalista Ricardo Kotscho diz que, fôssemos às urnas agora, o senhor Ninguém seria o candidato disparadamente favorito. Mas ainda faltam cinco meses. Tempo suficiente para tudo.

 

                                                                      * * *

 

Três dias sem internet aqui na ilha. Segundo a empresa, foi o tempo necessário para uma “manutenção na rede”. Por isso, a falta de atualização. Volto a importunar os leitores.

Diretor de filmes irrelevantes, cineasta alagoano quer ser imortal

Carlos Diegues é candidato a imortal da Academia Brasileira de Letras. O cineasta alagoano vai disputar a cadeira que era de Nelson Pereira dos Santos, seu colega de Cinema Novo que morreu na semana passada. A notícia confirma algo que me parece uma ironia recorrente no universo da arte. Não importa o quanto um artista tenha trilhado o caminho da rebeldia e da contestação, o tempo acaba por amansar o rebelde e o contestador. Nada como a discutível glória da imortalidade!

 

Um dos filhos da festiva e mitológica década de 1960, Diegues adora repetir – com humor, mas também com uma dose de soberba – que ele e seus parceiros de viagem tinham um objetivo singelo naqueles tempos: mudar o cinema, o Brasil e o mundo. Essa lenda está registrada em várias de suas entrevistas e também em textos publicados por ele na imprensa. No cinema, deu certo.

 

Isso não quer dizer que os filmes sejam, todos, grandes obras. Para falar a verdade, sem o carnaval que domina parte da crítica, na média boa parte da produção de Cacá Diegues e demais nomes do CN é um fracasso. Um dos problemas fatais está justamente na pretensiosa ideia de revolucionar tudo – até o país e o planeta. As premissas ideológicas fulminaram a estética.

 

Mas a fixação num ideal de arte revolucionária, temperado com uma leitura ligeira do marxismo, está longe de ser o único e maior problema em muitos dos filmes do alagoano. Dias Melhores Virão, Um Trem para as Estrelas, Tieta do Agreste, Orfeu, Veja Esta Canção e Deus é Brasileiro, por exemplo, não acrescentam nada ao cinema produzido por aqui. Parece coisa de amador.

 

Títulos como Ganga Zumba, Joana Francesa, Xica da Silva e Bye Bye Brasil, que formam o núcleo duro da produção do cineasta, podem ser lembrados hoje mais como marcos arqueológicos do que como realização de grande arte. Com todo o respeito, Diegues justifica na plenitude a piada que Paulo Francis gostava de contar: os filmes são belas porcarias, mas os diretores são foda.

 

Nomes como Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, para mim, construíram um cinema muito mais inquietante – e fizeram obras-primas que o alagoano e outros badalados jamais conseguiram realizar. Talvez por isso, Carlos Diegues, embora tenha concorrência na eleição, alcance o fardão na quase irrelevante ABL. Se conseguir a cadeira, será um imortal de filmes mais mortos do que vivos.

Lula da Silva tem que morrer

Há exatamente um mês, os ônibus que faziam parte da caravana do ex-presidente Lula na região Sul foram alvejados por tiros. O ataque ocorreu durante a noite do dia 27 de março, numa estrada do Paraná. Antes, a mesma caravana já havia sido atacada por pedradas que tentavam acertar o homem que tantos parecem não apenas odiar – pelo visto, gostariam de vê-lo trucidado.

 

Esse petista desgraçado – que muita gente de bem prefere morto – está preso desde 7 de abril. Mas isso não é o suficiente. Os pais dedicados, os cidadãos indignados, os senhores que vão à missa todo domingo – enfim, toda essa comunidade que adora a bandeira do Brasil quer mais. Deve ser por isso que, na madrugada deste sábado, de novo no Paraná, houve mais uma rajada de balas.

 

O alvo de agora foi o acampamento dos apoiadores de Lula, instalado a cerca de um quilômetro da sede da PF em Curitiba, onde o ex-presidente está detido. Segundo informações oficiais, a polícia encontrou no local cápsulas de pistola 9 mm. Duas pessoas ficaram feridas nesse novo atentado contra Lula e o PT – ainda que o homem não esteja no local. Está claro que o ódio mortal é para ele.

 

Pistola 9 mm não parece ser coisa muito fácil de se encontrar por aí, penso eu. Como não sou especialista no assunto, e nunca peguei em arma de verdade, nem quero uma para defender meu patrimônio secreto, talvez eu esteja errado. Mas, afinal, o que explica esse desvario com todo jeito de disposição assassina? É somente mais um ato isolado, fruto de uma cabecinha enferrujada?

 

Essa é fácil de cravar. Claro que não. Das passeatas organizadas pela direita ao lixo virtual na internet, porcarias de todos os penteados pregam abertamente a morte de Luiz Inácio Lula da Silva. Em muitos desses casos, quando confrontados pra valer, os valentões apelam para a cretina explicação de que tudo não passa de “brincadeira”. E seguem apontando fuzis para a cabeça de Lula.

 

Aí não, meu amigo. Não vejo nada de normalidade em alguém que acha saudável, que acha engraçado e bonito reverenciar imbecis que vivem a exibir pistolas e metralhadoras apontadas para a cabeça de uma pessoa. Isso tem consequência. Nessa toada, podemos chegar em qualquer lugar, até no inferno, menos num porto civilizado. Os tiros em Lula e no acampamento decorrem disso aí.

 

Pode apostar: agora mesmo uma horda deve estar fazendo piada com o caso que feriu duas pessoas. Celerados não perdem tempo e já estão urrando de prazeres com os tais memes, sempre muito inteligentes. De outro lado, tem a delinquência que tenta jogar a culpa nas vítimas. E assim, a cada disparo e a cada relincho, patriotas e "pessoas honradas" seguem na caminhada para salvar o país.

As Coreias, a cidade e o meio da rua

A Coreia do Sul e a Coreia do Norte se aproximam. Os presidentes trocaram apertos de mãos, sorrisos e demais gentilezas. Um deles, o do Sul, veste o clássico terno & gravata. O outro, do Norte, veste o que parece um uniforme militar. Eles também se diferenciam pelo corte de cabelo. No meio, as bombas e todo um arsenal de armas nucleares. Um vizinho, aqui na rua, pergunta se o antigo bairro da Coreia, em Maceió, tem algo a ver com essas terras distantes que estão agora na TV.

 

Até o começo dos anos 1980, acho que ainda se falava na Coreia maceioense. O bairro estava colado à Ponta Grossa, mais precisamente a partir de um determinado ponto da Rua Cabo Reis, quase no extremo da via, em direção ao Rei Pelé. Onde hoje existe uma UPA, ali era, digamos, o coração da Coreia. Houve um tempo em que os lugares mais identificados com a barra pesada eram, num extremo da capital, a Coreia, e no outro extremo, o Jacintinho. Ninguém falava ainda de “periferia”.      

 

Desde sempre, e como ocorre em outras partes da cidade, os bairros se misturavam: Vergel, Coreia e Ponta Grossa sempre se confundiram. Nos envelopes das cartas, você poderia escrever qualquer um dos três nomes, que a correspondência chegava sem problema. O mesmo se dava com os bairros do Prado, Trapiche e Ouricuri. Este último, assim como o nosso território coreano, também deixou de existir; foi engolido pelo Prado a partir da mesma década de 1980.   

 

Rua Bom Destino, Rua do Arame, Rua Boa Sorte, Vilas Kennedy I e II. Essas e outras vias estavam nessa mistura de bairros. Podia ser qualquer um, ficava ao gosto do morador. Com o tempo, Coreia e Ouricuri viveram o mesmo processo de marginalização – ou alguma coisa por aí. Se não estou enganado, não pegava muito bem informar que seu endereço ficava nesses lugares. Esse talvez tenha sido o fator crucial para a morte dessas localidades – aos menos a morte dos nomes.

 

Ali pelos anos 70, para um típico maloqueiro (como eu) que vivia exclusivamente nessas áreas da cidade, ao percorrer pela primeira vez a geografia dos “bairros nobres”, o maior impacto foi ver os espaços desertos. Ninguém nas calçadas; nenhum racha no meio da rua; nenhuma turma de pivetes jogando ximbra; ninguém nas esquinas jogando dama ou dominó; nenhuma casa com a porta aberta e, lá dentro, a voz de Roberto Carlos; nenhuma garota rodando bambolê. Nobreza!

 

Que cidade era aquela em que as ruas estavam mergulhadas no silêncio? Nas casas luxuosas não havia moradores? Onde estavam os bandos de garotos que, no Vergel e arredores, enchiam praças, ruas, vilas e bibocas? No bairro nobre, pensei, o povo ou é esquisito ou fica todo mundo entocado, com alguma tristeza inexplicável. Descobri que havia uma cidade dentro da cidade.

 

Mais tarde, um pouco de literatura ampliou as ideias sobre a vida nas bandas periféricas da paisagem urbana. De Baudelaire a João Antônio, lá estavam os personagens que os críticos carimbam como típicos da arquitetura marginal. Mais para cá, o cubano Pedro Juan Gutierrez ergue um monumento a esse universo de sons, cores e tipos tão próprios do lado oposto às áreas nobres.

 

No clássico A Alma Encantadora das Ruas, escreve João do Rio: Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

 

Parece que me desviei do assunto original. Espero que ninguém entenda isso como uma pretensa crônica. Era tudo o que não queria que você pensasse. Ia falar da geopolítica internacional...

Cartola banido, bandalheira intocada

A notícia do dia, no mundo da bola, é a decisão da Fifa sobre o presidente afastado da CBF, Marco Polo Del Nero. A entidade internacional baniu para sempre do futebol o cartola brasileiro. As razões para medida tão drástica, claro, são os casos de corrupção envolvendo propina para jogos da seleção de Neymar & Cia. Como já escrevi aqui, uma quadrilha comanda o esporte mais popular na terra de Pelé, Garrincha e Joãozinho Paulista. Apesar dos escândalos, o esquema segue intocado no país.

 

Os competentes cartolas alagoanos devem estar tristes com a decisão da Fifa. Certamente consideram que o parceiro Del Nero é vítima de uma tremenda injustiça. Temos até um vice-presidente da CBF para a região Nordeste. Com esse prestígio, federação estadual e clubes como CSA e CRB são tradicionais aliados das jogadas dos capitães da tropa. A mesada garante a tabelinha.

 

Quando vejo reportagens sobre a delinquência no futebol, é impossível não pensar na TV Globo e nas autoridades da Justiça amarelinha. Tudo o que se sabe sobre a máfia da bola é consequência de jornalismo estrangeiro e de investigações muito longe do Brasil. Países da Europa e principalmente os Estados Unidos fizeram o que deveria ser feito entre nós. Mas aqui a retranca é indevassável.

 

Na imprensa, para homenagear a coragem de poucos, deve-se reconhecer que há exceções relevantes. Serei estupidamente óbvio ao lembrar que entre essas exceções a Globo nunca esteve e jamais estará. É impossível. Afinal, trata-se da maior parceira no sistema tático corrupto montado pela CBF. A Globo é uma sócia majoritária e absoluta no organograma. E a sociedade é indissolúvel.

 

Por isso, quando uma notícia como a de hoje, sobre Del Nero, aparece nos telejornais da casa, está lá o constrangimento na cara de apresentadores e repórteres. Deve ser ao menos um tantinho incômodo fingir que a empresa não tem nada a ver com a pilantragem. A realidade é o contrário.

 

É claro que não há o que festejar. Del Nero é cachorro morto. A Fifa e CBF sabem disso. A entidade brasileira já elegeu o novo presidente, o tal Rogério Caboclo – que no dia da eleição puxou aplauso para o antecessor. O novo chefe representa a perpetuação da mesma gangue. Tem saída?

 

O caminho único seria pelos clubes. Como o jogo não existe sem o jogador, caberia aos times brigar para assumir a organização do futebol. Mas aí entram os cartolas e os mercadores de atletas, entre outros males intocáveis no meio do campo. Eis aí um universo condenado à bandalheira.

Thomaz Nonô para governador! Por que essa candidatura não existe?

Arquivo/Secom Maceió Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Thomaz Nonô

A oposição ao governador Renan Filho apostava tudo na candidatura do prefeito de Maceió, Rui Palmeira. Depois de um suspense que parecia interminável, finalmente Rui anunciou, em 12 de março, que não disputaria o governo alagoano. Um mês e meio após o anúncio que parece ter devastado sonhos de um bocado de gente, a frente partidária que perdeu sua alternativa dada como certa ainda não encontrou o famoso Plano B. Seria o deputado Rodrigo Cunha. Ele hesita.

 

Rui Palmeira é tucano como seu quase substituto. O deputado é apresentado agora como uma das novas estrelas do PSDB, pronto para ocupar um espaço mais amplo e se tornar um protagonista além do tucanato. Cunha começou a trajetória como superintendente do Procon, agraciado pelo então governador Téo Vilela. Suas credenciais para o cargo foram a origem familiar e os vínculos partidários. A suposta renovação que ele representa ainda se resume aos ternos e à retórica.

 

A oposição não tem apenas o PSDB, é claro. Por que as demais legendas não apresentam opções? Entre os partidos aliados nesse balaio está o Democratas, chefiado pelo ex-deputado José Thomaz Nonô. Não seria este um nome para ser o candidato após a desistência do prefeito? Até agora, salvo engano, essa ideia não teria sido sequer cogitada. Nem o próprio cacique do DEM teria tal pretensão.

 

Penso que é o caso clássico de descompasso entre disposição pessoal e circunstâncias da época. Em outras palavras, Nonô talvez tenha de se resignar com o seguinte fator da história: seu tempo passou. Não que ele seja irrelevante na política alagoana. Mas já foi muito mais forte. A partir de 1983, passou a colecionar mandatos de deputado federal; foram nada menos que seis, por mais de duas décadas. E mais de uma vez, ele foi o mais votado – e se orgulhava de ser imbatível.

 

Com esse desempenho nas urnas, craque no gogó e bom de briga, o político sempre teve seu nome ali, na marca do pênalti, como potencial candidato a governador ou a prefeito da capital – mas a ideia nunca se tornou viável. Coisas do jogo partidário e dos lances inesperados no destino de cada um. Em 2000, quando já não era o mesmo da época de ouro – os anos 80 e 90 do século passado –, disputou a prefeitura de Maceió. Para alguém de sua envergadura, a votação foi um vexame.

 

Naquela disputa pela prefeitura, Kátia Born foi reeleita no segundo turno, vencendo Regis Cavalcanti. Sim, Nonô caiu ainda no primeiro tempo do jogo. O grande campeão de votos do passado amargou um melancólico fiasco. Em 2006, tentou ser senador, mas perdeu para Fernando Collor. Nos anos seguintes, ele chegaria ao Palácio dos Palmares, mas – que ironia – na inexpressiva cadeira de vice-governador. O titular era Téo Vilela. Seu último posto foi o de secretário de Saúde.

 

Digamos que em condições normais, se isso fosse possível em política, Nonô seria um candidato natural a governador. Controla um partido, tem ligações em todo o estado e sabe como poucos o que faz um boi voar. Mas veja como é a vida: dois caras que começaram ontem – Rui Palmeira e Rodrigo Cunha – teriam muito mais chance de vitória. É a percepção de seu próprio entorno. E é uma constatação objetiva da realidade. Como ele encara isso, não faço nenhuma ideia.

 

Mas quem garante qualquer coisa em política, cravando certezas no futuro, bom da cabeça não é. Vai que um vento desgovernado bate no destino do ex-deputado, e o homem sai candidato a governador?! Não, não tenho informação privilegiada sobre nada nem ninguém no jogo eleitoral alagoano. Eu não apenas nada entendo de ciência política, como também estou por fora de todos os bastidores do poder. Por isso mesmo posso “viajar” e atirar em todas as direções.

 

É o que acabo de fazer – com alguma base no que chamamos de vida real, naturalmente.

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