Blog do Celio Gomes

O treinador Tite no Jornal Nacional

A história se repete. Numa “deferência” à Rede Globo, o treinador Tite foi ao estúdio do Jornal Nacional para uma entrevista exclusiva. Horas depois da convocação final dos 23 jogadores, ao vivo, o técnico da seleção brasileira falou para Willian Bonner e Renata Vasconcelos. É o mesmo tipo de movimento que outros já fizeram em anos anteriores. É a Globo surfando na maré alta que embala o time brasileiro desde que Tite assumiu o comando. Um oba-oba que pode acabar mal.

 

Quem deve ter pensado algo bem particular sobre a entrevista, suponho, foi o técnico Luiz Felipe Scolari. Há duas semanas, Felipão conversou com o jornalista André Henning, no canal Esporte Interativo. A certa altura, ao falar dos 7 a 1 da Alemanha na Copa de 2014, o treinador revelou que não dá entrevista à Globo enquanto o “todo-poderoso” estiver na emissora. Sim, ele se referia ao insuportável Galvão Bueno. Para o técnico, o narrador agiu com leviandade e arrogância.

 

Segundo Felipão, após a derrota para os alemães, Galvão “passou dez minutos na TV” apontando o dedo para o “grande culpado”. Jogou a torcida contra ele, segundo suas palavras. É verdade. Mas Felipão poderia ter lembrado também que, durante toda a Copa, a Globo e Galvão não passaram um minuto sem bajular o treinador – que depois seria massacrado pela mesma voz que antes o exaltava como gênio. Não há nada de anormal nesse comportamento; é a marca registrada por ali.

 

Até o dia do vexame, a Globo não via problemas com o trabalho de Scolari. Galvão, em especial, é insuperável na arte de opinar de acordo com a conveniência e os próprios interesses. Rasteja por qualquer astro, mas, ao primeiro sinal de problema, veste a fantasia de crítico indignado e aciona a máquina de moer reputações. É o que há de mais cretino e desonesto nesse falso jornalismo.

 

Parreira, Zagalo e Dunga conheceram o jogo sujo: num dia aparecem em reportagens como sábios absolutos; no outro viram a escória do país e são linchados para uma audiência de “cem milhões de uns”. Após campanha irretocável nas Eliminatórias, Tite conhece o céu global. Nesta noite de segunda-feira, segundo Bonner, o treinador inaugurou o novo estúdio do JN como entrevistado.

 

Tratado até como um pensador, desses que vendem balelas motivacionais, Tite deve saber que com Galvão Bueno e o padrão Globo de jornalismo não se brinca. Não pode se enganar com as homenagens de agora. Amanhã, uma bola fora, e será escorraçado. Perguntem ao Felipão.

Bolsonaristas na eleição presidencial

Foto: O Povo Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Jair Bolsonaro

Para alegria da “direita esclarecida” alagoana, nova pesquisa CNT/MDA mostra mais uma vez a liderança de Jair Bolsonaro na corrida eleitoral –levando-se em conta que Lula não será candidato. Embora seja isso mesmo o que vai ocorrer, num dos cenários o instituto ainda apresenta o nome do petista como alternativa. E, nesse caso, ele venceria em todos os cenários, no primeiro e no segundo turno. Mas, como disse, tal hipótese está descartada. Assim, vamos falar da realidade.

 

Sem Lula, os três primeiros colocados na pesquisa são Bolsonaro, Marina Silva e Ciro Gomes. Com esse cenário, nos desenhos de segundo turno, o deputado que adora um fuzil também aparece na frente de quase todos os eventuais finalistas com ele, com exceção de Marina; aí os dois aparecem empatados. Os números também traduzem o novo contexto após a desistência de Joaquim Barbosa, o candidato que foi sem nunca ter sido. Na verdade, o quadro que sai dos números não surpreende.

 

Outra vez, os novos dados apontam para a situação desesperadora do PT e do PSDB. O petismo não tem um Plano B para herdar os votos de Lula, o que já aparecia nos levantamentos anteriores. Já o tucanato, segura um fardo com a candidatura de Geraldo Alkmin. O ex-governador tem nada menos que 55,9% de rejeição – o índice de eleitores que dizem não votar no candidato de jeito nenhum.

 

A rejeição é um fator decisivo para o êxito ou o fracasso na disputa. Pelo que se tem agora, Alckmin precisa praticamente operar um milagre para reverter esse panorama desolador. A perspectiva imediata parece complicada diante da possibilidade de novas encrencas para ele no âmbito da
Justiça. A depender do noticiário, o tucano pode se enroscar ainda mais numa agenda negativa.

 

Por enquanto, voltando ao começo do texto, quem comemora é a turma da porrada e do achincalhe contra mulheres, negros, gays e minorias em geral. Quem festeja é o pessoal que considera direitos humanos conversa de marginal para proteger bandidos. É o Brasil dos “cidadãos de bem” que têm certeza de que todos os nossos problemas foram resolvidos depois da prisão de Lula.

 

Você já ouviu o alerta: estamos perto – e longe – da eleição; ou seja, até lá tudo pode mudar. E a pesquisa revela o sentimento imediato. Além do mais, outra lembrança óbvia e obrigatória é que a campanha não começou pra valer. Sim, há as redes sociais, os passeios, seminários e entrevistas. Mas tudo isso pode desabar quando a coisa pegar fogo no horário eleitoral e nos debates. É outra fase.

 

Precisamos falar sobre Ciro Gomes. Ainda não deslanchou, como ele age loucamente para ocorrer. O coronel do Ceará continua com aquele discurso esquizofrênico: esculhamba o mercado e o capitalismo selvagem numa esquina, mas, logo adiante, faz o mesmo contra o Estado pesado, sindical e corrupto. Ciro é uma conversa para cada plateia, e o contrário de hoje na fala de amanhã.

 

Ainda tem muito candidato na praça. E um bocado não passa de jogada. É só negociação.

Futebol. Arte. Política. Notícia.

Hoje é mais uma segunda-feira, 14 de maio de 2018. Quando este texto começou a ser escrito, eram 2h50. Mais tarde, um pouco depois do meio-dia, o técnico da seleção brasileira anunciará a lista final dos convocados para a Copa da Rússia. Não haverá surpresas. Ao contrário de outros tempos, ninguém parece preocupado com os selecionados do professor Tite. Contestado durante algum período, não resta mais dúvida de que o alagoano Roberto Firmino é nome certo.

 

Nem sempre foi assim, esse descaso. Agora, dizem por aí, o nosso glorioso futebol já não desperta o mesmo sentimento que um dia despertou entre os brasileiros. Mas a imprensa e a publicidade se esforçam para reviver o clima de suspense e expectativa. As peças com o treinador como garoto-propaganda na TV são todas horrorosas. Em cada uma, parece haver um prenúncio de fracasso.   

 

Vasculhando as manchetes para verificar o que está em destaque, nas primeiras horas do dia, ainda na madrugada, descubro em O Globo: Neymar é “o rei do Instagram”. Além do futebol, na Folha, o governador de São Paulo “homenageia a PM que matou assaltante na frente de crianças”. Na Veja, gravações revelam vereador em conversas com milicianos. Nada realmente “bombástico”.

 

A Folha de domingo trouxe reportagem elogiosa com o deputado Rodrigo Cunha. Para não me surpreender, o destaque é a “tragédia familiar” que marca a vida do jovem político. Ele relembra o caso e explica o que o moveu a pegar a via partidária. Não há mais dúvida de que este será um dos motes de sua campanha ao Senado. Segundo a matéria, Cunha tem o apoio de Heloisa Helena.

 

A imprensa também informa que nosso Cacá Diegues lançou seu novo filme, O grande circo místico, no festival de Cannes. Não vi ainda nenhuma resenha sobre a temerária ideia de adaptar o poema do gigante Jorge de Lima. Num delírio de desinformação, a Globo diz que o cineasta é comparado a Jean-Luc Godard e François Truffaut. É como comparar Graciliano a Paulo Coelho.    

 

Entre meia-noite e 1h, vi Tom Zé no Canal Livre, da Band. Gênio incontestável, para cada pergunta, uma resposta aparentemente sem sentido – e por isso mesmo a prova de que estamos diante de um artista necessário e obrigatório. Enquanto isso, os cadernos culturais desperdiçam papel e tinta para exaltar o empoderamento de novas cantoras. Ok, é tempo de engajamento, mesmo com arte ruim.

 

Em mais uma releitura, um passeio pelos relatórios de Graciliano quando prefeito de Palmeira dos Índios. Incontornável é não pensar no município em 2018. Na prestação de contas do gestor improvável, lá estão os vereditos devastadores sobre eleitores, obras e servidores públicos. É quase automático constatar o que seria impossível, mas não é: a cidade não para de andar para trás.

 

Acho que comecei o texto com data e hora influenciado por outras releituras aleatórias, no caso os diários de Fernando Henrique e Getúlio Vargas. A história a quente. Em ambos, uma mistura de miudezas e revelações do que pensaram os chefes da República em momentos dramáticos do país. O registro direto, em primeira pessoa, nos dá um retrato muitas vezes desconcertante do poder.

 

Fecho mais um texto que não é exatamente sobre um tema, além de ser demasiado imediatista. Isso me obriga a atualizar o blog no máximo até o meio da tarde. É quando sai a lista do Tite. Vou tentar.  

Política, um caso de vida ou morte

O seu corpo é uma dimensão da política. Os seus afetos só fazem sentido se você entender o quanto estão mediados por uma visão política. Suas relações pessoais, com os amigos e a família, refletem o peso da política. Sem consciência da política, sua intimidade será um imenso vazio. O amor é uma manifestação essencialmente política. Em resumo, sem política sua vida é a perdição.

 

Eu penso muita besteira. Mas a conversa fiada que você acaba de ler no parágrafo acima nunca fez parte da minha coleção particular de tolices. As ideias aí acima tomaram conta de todas as tribos e indivíduos. Engajados e descolados, caretas e modernosos, conservadores e liberais, reacionários e progressistas, esquerda e direita, Tom e Jerry – todos adoram exaltar a política como oxigênio de nossa existência. A chatice adicional é aguentar os argumentos dos que tentam nos convencer.

 

Os que menos têm condições de nos arrastar para essa ladainha são justamente os políticos. O que todos eles querem, naturalmente, é o voto do eleitor. Logo, o palavrório desses senhores que reivindicam seu interesse pela política mira exclusivamente o caminho das urnas. Mal comparando, jamais espere o delírio de um açougueiro na defesa da filosofia vegana.  

 

Mas, para além dos representantes do povo, a defesa apaixonada de uma vida respirando política 24 horas por dia é um equívoco planetário. E, a essa altura, nem adianta argumentar que a coisa não é bem assim. Quem o fizer, será alvo de um coquetel mortífero de acusações. “Alienado” será o ataque mais leve sobre o infeliz que ouse desdenhar dessa crença de proporções universais. É o que faço.

 

Acho que já escrevi aqui o quanto considero uma insanidade a bagaceira instalada até entre grandes amigos por causa de discussões sobre política. É uma armadilha letal. É um despropósito, uma visão de mundo sem qualquer lógica. Viver com isso como princípio absoluto, me parece, é apenas aderir ao senso comum. E se há algo tão grandioso assim, definitivamente nunca será a política.

 

Defender ideias, pensar na cidade e no país, dar o seu voto a um candidato que lhe parece confiável – está tudo certo com isso. Ocorre que esses gestos estão circunscritos à esfera das demandas coletivas, ainda que relevantes. Mas não podem ser confundidos com a essência das relações humanas. O essencial: quem fala, age, sente e decide é o indivíduo, uma pessoa concreta.

 

Eu sei que é mais romântico – e respeitável, para muitos – pregar a utopia, a transformação, a beleza da crença no engajamento político. Talvez por algum defeito de fabricação, escapei dessa. Melhor assim. Não fiz amizades – e nem desfiz – movido por preferências partidárias ou ideológicas. Mas não ficarei ensandecido com sua eventual discordância furiosa. Por mim, a gente pode conversar.

Cinco ideias sem propósito

Matadores. A ditadura militar brasileira matava “subversivos perigosos” com o aval direto do presidente Ernesto Geisel. É o que revela documento secreto da CIA, tornado público agora, para espanto geral. Que é espantoso, realmente é, mas não pode surpreender ninguém. Tranquilos devem estar os dementes que rezam a Jesus por um valentão para dar um jeito no Brasil.  

 

Matrioska. Daniel Alves está fora da Copa. Aos 35 anos de idade, o futebol do atleta é mais espuma que realidade em campo. Sem dúvida, um desfalque de peso para os momentos de presepada com Neymar nas redes sociais. Para o time, não fará falta. Não será por causa da ausência de um lateral decadente que a seleção vai dançar na Rússia. Deve dançar por outras razões. Vamos torcer.

 

Inocentes. Bolsonaro reclama de fake news. Michel Temer reclama de fake news. Michel Teló reclama de fake news. Luiz Fux reclama de fake news. O treinador do Flamengo reclama de fake news. A torcida do Flamengo reclama de fake news... Posar de vítima de fake news é a novíssima fórmula para o sujeito justificar qualquer lambança. Grave mesmo é o jornalismo levar isso a sério.

 

Desbunde. Quando, em 1988, li o livro 1968 – O ano que não terminou, não imaginava que, três décadas depois, a obra de Zuenir Ventura seria considerada um “clássico” no Brasil. O veredito é um exagero e tanto. E não tenho simpatia por essas mistificações que exaltam épocas e supostos heroísmos. E é justamente o que mais vejo nas festivas reportagens sobre a efeméride.

 

Tempero. Houve um tempo em que a imprensa publicava receitas de culinária como protesto. Era uma forma de denunciar a censura. Naquele tempo, ninguém imaginava que a imprensa elevaria prato de comida à condição de alta cultura e distinção intelectual. Coisinhas do mundo gourmet provocam verdadeiro transe em mocinhas e rapazes pelas redações afora. Não sei... Sou meio tosco.

A carta aberta de Rodrigo Cunha

O deputado Rodrigo Cunha começou mal sua aventura rumo ao Senado. Na “carta aberta aos alagoanos”, apela, já na primeira linha, à memória do crime político que vitimou sua mãe, a deputada Ceci Cunha. O caso, que ficou conhecido como a Chacina da Gruta, ocorreu há vinte anos. Suponho que não seja necessário explicar por que esse tipo de apelo é, no mínimo, constrangedor. Para obter o atual mandato, o jovem idealista também recorreu à mesma tática. Tomara que não avance por aí.

           

Em sua totalidade, a carta do agora candidato a senador é uma antologia de frases vazias, ideias primárias e clichês a perder de vista. O texto parece saído de algum manual de autoajuda ou de alguma obra de Paulo Coelho. “O que me fez seguir em frente foi a coragem de lutar por justiça”. Eis um exemplo que resume a qualidade do pensamento exposto no comunicado ao povo de Alagoas.

 

A outra marca do texto é o autoelogio sem cerimônia. Estamos diante de um homem corajoso, tomado de “muita ousadia” para, é claro, “superarmos o velho e fazermos brotar o novo”. Cunha tem certeza de que reúne todas as credenciais do salvador da pátria. “Passei as últimas semanas captando os sentimentos dos alagoanos”, informa ele com humildade e senso crítico.

 

Se há algo de novo no candidato, ele trata de esconder bem escondido na sua carta absolutamente trivial, genérica, velha. O que temos nessas palavras é a mais pura tradução do arcaico, da retórica consagrada nos piores discursos de populistas de cabeça oca. Na verdade, a julgar pelo conteúdo desse documento pessoal, o que está escrito resume a cantilena da medieval política.  

 

Juventude nunca foi e nunca será sinônimo de postura de vanguarda. Do mesmo modo, a única ligação que existe entre aparência e essência é a banalidade de uma rima fácil. Se tudo isso representa uma grandiosa alternativa para o eleitorado, para mim tanto faz. Não tenho e nem estou à procura de um líder, um ídolo, um guru. Desperdiço o tempo em outros esportes.

 

Que o deputado aprimore o texto e o pensamento. O Senado já está cheio de nulidades – todas com estampa bem cuidada, cabelos retocados e gestual ensaiado. Mas, ainda assim, nulidades.

A criminosa investigação do crime

A Polícia Federal concluiu a investigação sobre um suposto desvio de verba na Universidade Federal de Santa Catarina. É aquele caso em que o reitor Luiz Carlos Cancellier cometeu suicídio, após ser apontado como um dos responsáveis pelo esquema. A Veja antecipou o relatório na semana passada. Hoje, a Folha de S. Paulo também traz reportagem sobre o desfecho das investigações da PF. E o que temos na praça é algo realmente criminoso: o relatório é uma grande porcaria.

 

Como ressalta a Folha, são 817 páginas – e nenhuma prova, nenhum indício, nada que demonstre a culpa do reitor. Ainda assim, de maneira sórdida, os investigadores sustentam a versão inicial e apontam ligação do ex-reitor com os fatos. Está claro que a PF errou, e muito, mas falta dignidade para admitir o conjunto de falhas grosseiras. Procurada pela reportagem, a superintendência do órgão em SC saiu-se com resposta ridícula: “Investigação encerrada”.

 

Cancellier só não está indiciado porque está morto. E o que acontece agora? As baboseiras alinhavadas em centenas de páginas seguem para o Ministério Público, que decidirá se oferece ou não denúncia contra os citados. Pelo visto, acostumados com o vale-tudo da Lava Jato, celerados na PF não cogitam outra decisão que não seja a denúncia. Como o MPF adotou a mesma sanha justiceira – afinal basta um power point como "prova" cabal e incontestável –, não será surpresa nenhuma se a patetice avançar mais um degrau.

 

O que está na origem dessa filosofia é algo bem ajeitado na cabeça de muitas autoridades, embora jamais tenham a coragem de admitir, por razões óbvias: para investigar, podemos atropelar os limites da legalidade. Esse é ponto. Sei que, aqui mesmo em Alagoas, candidatos a xerife e a herói nutrem desprezo por princípios que consideram apenas empecilhos às suas exibições de valentia. São agentes da lei que, em nome do combate ao crime, adotam ações também criminosas.

 

Nos últimos anos, essa modalidade investigativa alcançou alturas jamais cogitadas no país. O espírito beligerante dos indignados de fachada ou dos idiotas úteis alimenta a fúria sanguinolenta de policiais, promotores e juízes. Mais que isso, acaba por legitimar atos cuja legitimidade está abaixo de zero. Quando a autoridade se considera acima das leis, podemos encomendar o caixão. Já era.

 

Mas é justamente sob a inspiração desse discurso, do prendo & arrebento & estraçalho, que uma multidão de “cidadãos de bem” está mobilizada para dar um jeito no Brasil. É muita onda... Talvez por que nunca tenha sido fã de heróis dos quadrinhos ou de fanfarrões do cinema, comigo isso não cola. Quem rasga o processo legal é só um criminoso – seja togado, fardado ou engravatado.

Cuidado! Você pode ser massacrado

“Estou sendo massacrado nas redes sociais”. Quem disse isso foi o vereador do Rio de Janeiro Marcello Siciliano, agora suspeito de envolvimento no assassinato de sua ex-colega na Câmara Municipal, a vereadora Marielle Franco. A suspeita sobre ele apareceu após reportagem do jornal O Globo. Uma testemunha contou à polícia que o crime foi tramado por Siciliano em parceria com um ex-policial militar que está preso por chefiar uma milícia. O vereador, claro, nega tudo.

 

Para se defender publicamente da acusação, o vereador convocou uma entrevista coletiva. Toda a imprensa deu destaque à frase que abre este texto – uma declaração feita em tom de desabafo e também de denúncia. Pode ser óbvio, mas achei sintomática essa ênfase ao se referir às redes sociais. Parece que o vereador está mais incomodado com a zoada na internet do que com a gravidade da suspeita sobre sua conduta. Eu sei que hoje é assim, mas continua esquisito.

 

É aquela situação: falando em tese, o sujeito apronta as piores bandalheiras, e tem a consciência tranquila, mas bate a indignação se a coisa se torna pública. É o que vemos com os arrependidos de malfeitorias a rodo – somente quando descobertos. Não sabemos se o vereador é culpado ou não, mas ele mesmo está mais preocupado com sua imagem no mundo virtual do que em demonstrar inocência. Ao menos foi essa a impressão que ficou ao vê-lo dar suas explicações para os jornalistas.

 

No reino da aparência e da futilidade, não é por acaso que são recorrentes as notícias de suicídio após a repercussão de algum fato, por mais banal que seja, na grande rede. A exposição inesperada de uma opinião ou de um gesto pode levar uma pessoa a atitudes extremas. Nessas ocasiões, é frequente o recurso à violência – contra o outro ou contra si mesmo. Como se sabe, essa realidade já é praticamente um campo específico de estudos. E a tendência é que esse quadro piore muito mais.

 

Não interessa o que você pensa, o que faz ou deixa de fazer. Como andam suas redes sociais? Espero que estejam cheias de curtidas, elogios e corações. É possível encarar as confusões em casa, na rua e no trabalho. Dá para desenrolar a pressão na escola e os desencontros de uma balada. Dramático mesmo, imagino, deve ser superar qualquer desencanto que se transmite pelas telinhas.

 

É o jeito de pensar em nosso tempo. Aliás, mais que isso, é o jeito de existir. A tragédia não é nada, se na internet ninguém liga para o que é trágico. Do mesmo modo, a tolice definitiva ganha o peso de uma calamidade, se uma onda se ergue nas redes sociais. Daí para o “massacre”, é só mais um clique.

Berrando na TV, de olho na política

Dos estúdios de TV, geralmente aos berros, para o mundo da política. Não é de hoje, esse é o sonho que muitos dublês de jornalistas acalentam depois de ficarem “famosos” diante das câmeras. Pensei nisso ao ler reportagem sobre o bizarro José Luiz Datena. Mais uma vez, ele ameaça disputar uma eleição, talvez para o Senado. Em 2016, o apresentador esteve à beira de uma candidatura – nada menos que a prefeito de São Paulo. Desistiu após perceber que não teria chance nas urnas.

 

Pelo Brasil afora, são muitos os exemplos de profissionais que deixaram o mundo da notícia para tentar uma nova vida. Decidiram ampliar o alcance de suas ideias originais, digamos assim, com um mandato no Executivo ou no Legislativo. No Congresso Nacional, alguns deputados e senadores vieram do ambiente televisivo. A exposição natural pelo trabalho pode ser uma vantagem e tanto.

 

Em Alagoas, são muitos os que tentaram a política a partir da popularidade decorrente de um programa de televisão. Um dos casos mais antigos é o de Sabino Romariz, lá nos primórdios da década de 1980. Pilotando o “A vez do povo na TV”, que misturava o grotesco com o assistencialismo, ele conquistou um mandato de deputado estadual. Acabou fazendo escola com herdeiros até hoje.

 

Entre os nomes mais recentes, quem mais chegou longe, sem dúvida, foi o hoje deputado federal Cícero Almeida. Expoente dos programas mundo cão, além do Legislativo, acabou conquistando a prefeitura de Maceió em 2004, sendo reeleito em 2008. Pelo que se sabe, Almeida se vê obrigado agora a dar um passo atrás, sendo candidato a uma cadeira na Assembleia Legislativa.

 

Outro que partiu para a carreira na política é Jeferson Morais, também popular em programas de noticiário policial. Ele exerceu um mandato de deputado estadual. Disputou a eleição para prefeito de Maceió em 2012, mas não teve êxito. Em 2014, fracassou na tentativa de renovar o mandato na Assembleia. Não sei se pretende concorrer nas eleições deste ano. É provável que sim.

 

Quem conheceu um sucesso fulminante foi Cristiano Matheus. Dos microfones e holofotes, se elegeu vereador por Maceió em 2004. Nem cumpriu o mandato e, em 2006, pescou uma cadeira de deputado federal. Repetiu a dose, abandonou o mandato em 2008 e virou prefeito de Marechal Deodoro, sendo reeleito em 2012. Meio encrencado, tenta uma vaga na Assembleia.

 

Oscar de Melo é um curioso caso de passagem meteórica pela vida partidária, com um mandato único de vereador por Maceió. Após trocar de profissão, voltou à TV e, ao que parece, desistiu da política. Pela mesma Câmara, passou Wilson Junior, que manteve jornada dupla – no parlamento e no ar como apresentador. Em 2016, perdeu a eleição para renovar o mandato.

 

No cenário de hoje, em âmbito nacional, Celso Russomano acumula mandatos de deputado, mas tem fracassado nas tentativas à prefeitura de São Paulo. Como se sabe, Luciano Huck ensaiou simplesmente uma candidatura a presidente. Delírio similar ao que se viu com Silvio Santos, que se aventurou na disputa presidencial de 1989. A insanidade foi barrada pela Justiça Eleitoral.

 

Todos têm direito de buscar o voto do eleitor. Basta para isso cumprir os requisitos da lei. O problema, com os famosos da TV, é que na maioria dos casos a experiência concreta revela quase sempre um desastre. Ter audiência não significa necessariamente um conjunto de princípios saudáveis e bons projetos para a vida pública. Uma coisa é certa: em outubro, eles tentarão de novo.

Prefeituras, caciques e mequetrefes

Os prefeitos vivem reclamando de falta de dinheiro para cumprir suas obrigações. Alegam que o governo federal não ajuda e, mais que isto, ainda atrapalha quando determina contingência nos repasses legalmente previstos. Sim, volto a um tema recorrente – porque isso parece que nunca tem fim. Como vocês lembram, a Associação dos Municípios Alagoanos já alertou até para o risco de “holocausto”, caso as prefeituras não recebam mais verba da União. O diagnóstico é sempre assim.

 

Aí a gente vê a reportagem no Fantástico, sobre o município de Mata Grande, nos confins do sertão alagoano e nordestino. (Cadê o dinheiro que tava aqui?). Investigação do Ministério Público Estadual revela que a turma que se apossou do comando por lá, em temporada recente, arrastou pelo menos 12 milhões de reais. Um ex-prefeito e um ex-presidente da Câmara estão foragidos. O MP garante que o esquema continua com a atual gestão. As investigações estão em andamento.

 

As informações sobre Mata Grande revelam um modelo, um padrão de governar que atravessa o mapa alagoano de ponta a ponta. Se fizermos um recorte com os últimos dez anos, é impressionante a recorrência de casos em que prefeitos são flagrados com as patas na botija. As denúncias acabam levando também a um troca-troca na chefia das prefeituras, seja por iniciativa das Câmaras, seja por decisão da Justiça. Mas isso não resolve. Na maioria das vezes, sai uma quadrilha, entra outra.

 

Então falta dinheiro devido à crise ou por que as gangues tomam de assalto os cofres públicos? A julgar pelo índice de casos de corrupção nas prefeituras, somos obrigados a eleger a segunda variável como determinante da falência exposta. Quanto mais repasse, mais chance para o enriquecimento de gestores sem nenhum compromisso com as demandas sociais.

 

Na reportagem da Globo, mais uma vez, chama atenção algo também recorrente: a ostentação e a vulgaridade da turma que mete a mão no dinheiro do povo. Sobram aquelas cenas deploráveis de passeios de barco, baladas e farras bancadas com o produto da roubalheira. Confiantes na impunidade, larápios exibem sem medo suas estripulias luxuosas. Sentem-se acima de todas as leis.

 

A Associação dos Municípios poderia se preocupar com essa calamidade. Quem sabe, criar algum programa, alguns mecanismos que ajudassem na transparência dos gastos públicos. Claro que isso jamais será sequer cogitado, a não ser como jogo de cena. Prefeitos adoram falar em “parceria” com entidades como o MP e Tribunal de Contas. Uma brincadeira que não leva a lugar nenhum.

 

Finalmente, deve-se lembrar que esses mequetrefes municipais, dos quais só ouvimos falar nessas horas medonhas de bandidagem, são eleitos na garupa dos caciques que mandam e desmandam na política alagoana. São amigos dos reis, cumprem ordens daqueles que abençoam suas aventuras e assaltos. É uma relação que mistura voto, contas bancárias e malas pretas. A perspectiva não é boa.

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