Blog do Celio Gomes

Rui Palmeira e a candidatura que foi sem nunca ter sido

Foto: Secom Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Rui Palmeira

Marcelo Palmeira, o vice-prefeito, já era tratado como titular entre servidores e secretários na Prefeitura de Maceió. E isso era, até ontem, uma consequência natural da virtual candidatura de Rui Palmeira a governador. Ocorre que o prefeito da capital anunciou, na noite desta segunda-feira 12, que não é candidato nas eleições de outubro. O vice terá que readaptar seus planos de poder, em harmonia com o chefe, pelos próximos dois anos. Consta que a relação entre os dois é de paz.

 

As especulações publicadas aqui, ali e em todos os lugares traçavam os mais diversos – e completos – cenários com Rui na disputa ao governo. Houve informações sobre reforma no secretariado para acomodar aliados – e até a lista de possíveis nomes para o lugar de vice na chapa. A cada movimento na costura de alianças, uma novidade afetaria tanto o ambiente político quanto a gestão municipal. E assim a máquina vem sendo tocada há quase um ano. Como ficará a partir de agora?  

 

Fato é que mudanças significativas só ocorreram em setores da prefeitura porque todos acreditavam na candidatura de Rui. Se ele nunca disse que seria candidato, também jamais indicou de forma direta que descartasse tal hipótese. No vídeo em que anuncia que não disputará a eleição, Rui afirma ter ouvido a família e lideranças políticas. Não cita nomes, a não ser num agradecimento “especial” ao vice Marcelo Palmeira. E os caciques amigos? Oscilam entre a surpresa e a hostilidade.

 

O prefeito de Maceió poderia ter esticado o suspense até abril, limite do prazo estabelecido na lei eleitoral. Aliás, em algumas entrevistas ele insinuou que faria isso mesmo – mas preferiu a prudência: agindo agora, Rui desamarra os partidos para negociar alternativas. E não se pode esquecer que até 7 de abril a troca de partido está liberada – um movimento que pode afetar legendas alinhadas ao prefeito. Suponho que toda essa agitação produz agora debates inflamados entre aquelas lideranças.

 

O que pesou mais na decisão de Rui? Falta de dinheiro para a campanha ou dificuldades para fechar coligação? Suspeito que não há uma causa exclusiva. O panorama geral levou o prefeito à escolha que sempre me pareceu a mais correta, ou seja, cumprir o mandato até o fim. Agora todo mundo quer saber: quem será o candidato a governador apoiado pelo bloco liderado por PSDB e DEM? Já pulam na praça os mais variados nomes. Não faço ideia do que pode pintar logo mais.  

Rui Palmeira: como anunciar uma “bomba”

Vários textos publicados aqui nos últimos meses têm como assunto a eventual candidatura do prefeito Rui Palmeira a governador. Sempre defendi que disputar a eleição, este ano, não parece o melhor caminho político para o tucano. Mas tudo e todos garantiam, desde o ano passado, que o homem era candidato, e nada mudaria esse destino. Pois deu-se o contrário. Num vídeo na internet, ele informa que não disputará a eleição. Diz que tocará os projetos na prefeitura.

 

É como no futebol. O jogo só acaba quando termina, depois que o juiz apita no último segundo dos acréscimos da prorrogação. Arriscar um veredito, a sentença definitiva, é mais perigoso que embarcar em previsões de especialistas nas ciências da política. Estávamos todos à espera de uma confirmação por parte de Rui Palmeira. E ele veio com uma resposta negativa aos apelos e às pressões que o atingiam a partir de todas as direções. Deu um nó em nossa imprensa.

 

Rui não perde nada ficando no cargo até o fim de seu segundo mandato. Aliás, é algo a ser visto como qualidade, bem diferente da tradição de lagar a cadeira e partir atrás de mais poder – afinal é para isso que se disputa uma eleição. Tomando o rumo contrário ao oportunismo rotineiro, o prefeito pode se apresentar como “cumpridor de promessas”. Sem falar que a decisão livra Rui de um risco fatal: uma derrota nas urnas seria sua tragédia. 

 

Como o anúncio do prefeito não dá detalhes sobre sua posição, a partir de agora, no processo eleitoral, fica-se com o mistério sobre quem será o candidato a governador no grupo que comanda a prefeitura. Sabe-se que as pressões eram fortíssimas sobre Rui. Diga-se a seu favor, que ele nunca acenou, ao menos publicamente, com a intenção de ser candidato. Pareceu sempre que esteve mais longe do que perto de uma candidatura. Procura-se um adversário para Renan Filho.

 

Um dado curioso é a forma como recebemos a informação política mais relevante dos últimos tempos em Alagoas. Rui se vale de uma gravação amadora, com imagem sem definição, para comunicar uma “bomba” à população em geral e aos aliados em particular. Nada de entrevista coletiva nem explicações aprofundadas sobre as motivações de tal decisão. A escolha por um vídeo artesanal não parece ter sido um acaso. Rui produz um terremoto com um gesto trivial.

A imprensa grita – e o TSE recua

Uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral não resistiu a 24 horas de noticiário e editoriais nos grandes veículos da imprensa. Como você sabe, o TSE revogou a resolução que restringia o alcance das perguntas nas pesquisas de intenção de voto. Foi uma grita geral. A Folha chamou a iniciativa do TSE de obscurantista. Entidades que representam a imprensa e os meios de comunicação apontaram ameaça à liberdade de expressão. Em dois tempos, o tribunal anulou sua própria medida.

 

No mérito, a resolução que tentava regular o conteúdo das questões na pesquisa eleitoral não parecia mesmo boa coisa. Segundo as normas já anuladas, o instituto não poderia perguntar nada ao eleitor que não fosse exclusivamente sobre a eleição e o voto. Avaliação de governo, por exemplo, não poderia ser tema de questionário aplicado ao entrevistado. Além do mais, seria outra novidade, e com alguma influência, com a campanha praticamente chegando às ruas.    

 

O que chama atenção, entretanto, nesse eloquente recuo do TSE, é precisamente a relação entre a imprensa e as instituições no topo da República. Foi unânime, na Corte eleitoral, a decisão que jogou no lixo as ideias que uma semana antes entravam em vigor. Todos os ministros concordaram ter sido um erro, ou pelo menos um equívoco, a tentativa de uma regulação emergencial sobre a aplicação de pesquisas com o eleitor brasileiro. Após a lambança no tribunal, fica tudo como era até então.

 

Já escrevi que o TSE tem no comando o exótico ministro Luiz Fux. Esse episódio – revelador – foi seu primeiro exotismo, com poucos dias no cargo. Ao se pronunciar na sessão que derrubou a resolução do próprio TSE, Fux disse que era legítima a preocupação dos meios de comunicação. E que preferia suspender as medidas – para “conversar com mais vagar” sobre o tema. Nada mais evidente do quanto é estreita – e delicada – a margem de contato entre judiciário e jornalismo.

 

Com a campanha dominada pelas incontroláveis redes sociais, a onda de combate a trapaças disfarçadas de notícia tem tudo para gerar novos conflitos no âmbito das liberdades individuais. Como se vê, o TSE não demorou a aprontar confusão, antes mesmo da oficialização das candidaturas presidenciais. O vexame público pode ter ensinado boa lição no tribunal. Veremos.

A ridícula candidatura de Rodrigo Maia à Presidência da República

É uma piada atrás da outra. A mais recente, lançada ao grande público algumas horas atrás, é a candidatura de Rodrigo Maia a presidente da República. O “Botafogo” na lista de propina da Odebrecht fez um discurso ridículo na manhã desta quinta-feira, apresentando-se como o grande nome do DEM para as eleições 2018. Atual presidente da Câmara dos Deputados, Maia é a tradução de um mundo político em decadência – e descendo a ladeira em desembesto cada vez maior.

 

Assentado no topo do Poder Legislativo do país em decorrência de conchavos e jogadas suspeitas – e nunca por qualidades políticas ou intelectuais –, o parlamentar aproveita a efêmera fase de mando para delirar sobre o nada. Maia é um caso clássico: irrelevante desde que veio ao mundo, sente-se poderoso e capacitado simplesmente porque ocupa uma cadeira de chefia. Quando terminar seu mandato, voltará à completa insignificância. Seu comportamento é um fenômeno universal.

 

O mesmo tipo de coisa ocorre também na iniciativa privada. Desqualificados em geral, quando premiados por cargos de alto escalão nas empresas, passam a acreditar na ficção de que são competentes. O que temos nesses casos é que um tosco em posto importante acaba por tirar a importância desse mesmo posto. Olhe ao seu redor, e constate você mesmo. Produto desse estranho movimento das relações de poder, o Botafogo acredita que tem tudo para salvar o país.

 

O partido do presidente da Câmara – Democratas – talvez seja o ajuntamento mais decadente da política nacional. É o velho PFL, antes PDS de Paulo Maluf, antes Arena da ditadura militar. Ao longo das décadas, ao invés de reciclagem, a agremiação parece ter apenas aperfeiçoado sua filosofia autoritária, além de se tornar ainda mais medíocre. Mesmo que recorra à cretinice marqueteira, nada é capaz de alterar o DNA carcomido de uma legião de tranqueiras.

 

Com Maia entre os pré-candidatos, temos mais uma figurinha no sacolão de nomes até agora lançados a presidente. Estamos bem. Para citar somente um dos postulantes à altura de sua patetice, está aí o avanço do pistoleiro Bolsonaro. E olhe que esses são apenas dois no bloco da insanidade que se arma para a guerra eleitoral. É bem verdade que o Botafogo tem tudo para cair fora. Entra no jogo agora, como teste, para negociar o passe mais adiante.

Velharias fantasiadas de renovação

João Doria fez campanha para a prefeitura de São Paulo se apresentando como alguém que não era político profissional. “Eu sou um gestor” foi seu mantra desde que se assanhou a disputar a eleição de 2016. Parece que deu certo – e ele se elegeu, no primeiro turno, prefeito da maior capital do país.

 

Com o Brasil mergulhado numa crise que, entre outras consequências, devastou a imagem do mundo da política, o discurso do Prefeito-Botox continua na moda – e com imitadores pelos quatro cantos do país. Em Alagoas, o que não falta é engraçadinho com essa conversa de outsider.

 

É tudo falácia. João Doria é tão político quanto os piores exemplos da política. Honra a categoria e as tradições de uma atividade pródiga na capacidade de produzir mazelas de toda sorte. Para provar como é mesmo diferente, Doria vai abandonar o mandato pela metade assim que abril chegar.

 

Como se acha muito original, diferente de toda essa politicalha amplamente conhecida, o prefeito larga o posto e parte na aventura de disputar a eleição para governador do estado de São Paulo. Queria concorrer à Presidência, mas Geraldo Alckmin soterrou os planos do colega de partido.

 

O que há de novo num prefeito – de primeiro mandato na vida eletiva – que vira as costas a tudo o que prometeu, entrega o cargo ao vice e sai atrás de outra eleição? E quando esse elemento ainda tenta emplacar a imagem de santo entre pecadores? É demagogia em doses letais.

 

Como disse, entre nós, aqui em Alagoas, o que não falta é carinha de bom moço a vender a ideia da renovação na política. Existe até quem negocie filiação partidária com velhos caciques e, ao mesmo tempo, jure por Jesus que não tem “ligação nenhuma” com grupos políticos. Coisa de piadista.

 

Se você anda atrás de puras novidades para a eleição de 2018, cuidado para não comprar porcaria fantasiada de relíquia. É o que mais tem no mercadão de votos. Depois da aquisição, lembre-se que a troca não é imediata como no presente de Natal. As tranqueiras ficam por quatro anos.

Maceió estremeceu – e outros abalos

Terremoto e insanidade. Não sei se entendi direito. Autoridades querem uma investigação da moléstia para botar em cana eventuais responsáveis pelo tremor de terra registrado em Maceió no último sábado, dia 3. Até o governador se pronunciou nesse sentido. Morrendo de medo, os suspeitos devem estar escondidos em lugar inexpugnável – tipo as camadas de placas tectônicas!

 

Assalto e eleição. Desde que inventaram o sistema bancário e a escolha direta de políticos para representar a sociedade, a cada dois anos uma velha pauta retorna aos bastidores ideológicos: ataque a carro forte e a bancos, como se vê agora, é fonte de financiamento de candidatos. Que eu me lembre, isso nunca foi provado até hoje. Mas quem resiste a uma instigante suspeita?

 

Faroeste sertanejo. Numa mostra de incrível resistência cultural, duas famílias que tratam o município de Batalha como propriedade privada revivem, numa só tacada, a gloriosa tradição que amalgama coronelismo e pistolagem. Todos os envolvidos são organicamente íntimos da elite política alagoana – e não adianta disfarçar o indisfarçável. Diplomatas apuram os crimes.

   

Privatize já! Parece que houve a maior zoada em audiência sobre a privatização da Eletrobras, realizada nesta terça-feira em Maceió. Por coincidência, um dia antes, um apagão atormentou moradores de bairros como Trapiche, Vergel, Prado e Ponta Grossa. Durou das nove da manhã às quatro da tarde. Não vi nenhuma explicação da empresa. Tirem isso das mãos do Estado. Logo!

 

Celeiro alagoano. Informa meu colega aqui ao lado, o jornalista Luis Vilar, que o presidente do Partido Novo, João Amoêdo, visita Alagoas nos próximos dias. Costura apoios para sua candidatura a presidente. Com o discurso de “renovação”, ele nos deixa ansiosos para ver as “novidades” alagoanas que serão descobertas pela legenda. O resultado da peneira tem tudo para dar ao país um timaço.

 

Tudo pelo voto. O governador Renan Filho e o prefeito Rui Palmeira examinam – com lupa – o que de fato é prioridade a essa altura na gestão de cada um. O cuidado é compreensível, afinal os dois avaliam tudo segundo as demandas do calendário eleitoral. Com esse foco exclusivo, de nomeações a ordem de serviço, passando por aquisição de remédio, todo esforço é um aceno ao eleitor.

 

Agente duplo. Ainda que o sujeito seja adepto da filosofia antropofágica – que pregava a geleia geral em tudo –, há coisas que não se misturam. Um promotor de justiça, por exemplo, não pode ser advogado nas horas vagas. O mesmo vale para o exercício do jornalismo. Por isso, é nada menos que grotesco que alguém se apresente como “jornalista e publicitário”. O nome disso é pilantragem.

Lula vai chegando à cadeia

Em mais um julgamento com resultado conhecido antecipadamente, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça negou habeas corpus preventivo em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para evitar sua prisão, a defesa entrou com o recurso após a condenação em segunda instância – no caso do apartamento que ele teria recebido de um suposto esquema de corrupção.

 

No julgamento desta terça-feira, de fato ninguém apostava nada numa decisão favorável do STJ. A essa altura dos acontecimentos, não há juiz, desembargador ou ministro que ouse contestar o arrastão da Lava Jato. Com a confirmação oficial do previsível veredito, Lula dá mais alguns passos na direção de uma cela. Há quem garanta que em até um mês ele será trancafiado.

 

Na edição desta semana da Veja, uma reportagem chega a detalhar como estão os preparativos na Polícia Federal para a operação que levará o ex-presidente à prisão. É bem verdade que a revista, assim como outros veículos, já cravou, mais de um ano atrás, que Lula seria preso naquela época – antes mesmo da condenação de primeira instância. A torcida era tanta que virou até piada.

 

Mas agora isso parece inevitável. A última investida da defesa do ex-presidente aposta tudo no Supremo Tribunal Federal. São muitas as pressões para que o STF reavalie a decisão do próprio colegiado que autorizou o cumprimento imediato de sentença após a segunda instância. Lembrando que tal decisão dá um tremendo drible no que diz a Constituição – algo que está na moda no país.

 

No jogo tresloucado das diferenças políticas, o fanatismo militante contra Lula e o PT gostaria mesmo que o velho sapo barbudo fosse levado à forca. Mas como o Brasil ainda não adotou pena de morte – como defendem bolsonaristas de todos os matizes –, a tropa tem de se contentar “apenas” com a cadeia. E tudo isso em pleno ano de eleição. O próximo capitulo do novelão será no STF.

“A ousadia dos bandidos”

Uma igreja é alvo de ladrões durante a madrugada. Grupo de assaltantes ataca as vítimas no meio da tarde, em pleno centro da cidade. Agência bancária invadida por um bando fica a menos de cem metros de um quartel da Polícia Militar. Estudantes são assaltados dentro da sala de aula. Integrantes da quadrilha circulam livremente pelas ruas com armas pesadas, ameaçando moradores do lugar.

 

Todos os dias você lê ou escuta frases como essas que acabo de listar. Com alguma variação, o que vai no parágrafo acima são manchetes, títulos ou “chamadas” de reportagens que a imprensa publica com uma frequência infernal. Estamos no Brasil. E tão previsível quanto a recorrência do crime é a forma como o fato é divulgado pelos meios de comunicação. Parece até haver um manual.

 

A cada episódio de violência como esses, não há repórter ou editor que resista a um dos clichês mais repetidos na história da imprensa brasileira – e isso não é exagero. Refiro-me à sentença que diz assim: “A ousadia dos bandidos não tem limites”. Ou, numa versão ligeiramente modificada, diz o apresentador de TV e escreve o redator do jornal: “Bandidos estão cada vez mais ousados”.

 

Quando escrevemos, um dos problemas na rendição a fórmulas consagradas é a eliminação de parâmetros. Se o assalto a um templo religioso é uma ousadia do meliante, um roubo de cinco milhões de dólares – nas dependências de um aeroporto – seria o quê? Ousadia também? Sendo assim, os dois ataques se equivalem? Quais os critérios para classificação tão elástica?

 

A linguagem nos diferencia e nos define. Para cada situação, uma descrição específica, precisa e contextualizada. Um acontecimento não é igual a outro. Se embalamos tudo com a mesma ênfase desmedida, apagamos as particularidades de cada situação – e damos repercussão idêntica a realidades distintas. Embaralhando categorias e conceitos, confundimos o tudo com o nada.

 

Um dos desafios permanentes do jornalismo é vencer a tentação da facilidade. Aquela expressão chamativa, que parece se impor de maneira tão avassaladora sobre nosso pensamento, é a velha e diabólica armadilha do lugar-comum. Capturada pelo demônio do atalho facilitador, a reportagem estará inapelavelmente contaminada por esse mal de origem – e tanto faz como tanto fez.

 

Em níveis estratosféricos, é assim que se comporta a imprensa diante de qualquer assunto que, por alguma razão, vira notícia. Pode ser por preguiça ou por deficiência na formação. Pode ser a pressa para sair na frente ou a aversão à leitura. As causas da tragédia são diversas, mas certamente as que acabo de citar estão entre as mais comuns. E não se vê sinal de mudança no panorama.

 

Já escrevi aqui sobre esse gosto depravado pelo chavão que domina o texto da imprensa. Volto ao tema porque é algo a ser combatido diariamente. E também porque essa encrenca é uma obsessão antiga do blogueiro. Se a ousadia da bandidagem “é cada vez maior”, suspeito que nós, jornalistas, somos qualquer coisa, menos ousados. E olhe que nem falei do bandido “fortemente armado”.

Quando a publicidade oficial não passa de puro estelionato

A lei proíbe a propaganda antecipada de quem deseja ser candidato em eleições no Brasil. Em caso de violação dessa regra, a candidatura pode ser cassada. É justo. E, que eu saiba, ninguém contesta que assim seja. Pensando nisso, acho que uma lei semelhante deveria impedir que gestores públicos – presidente, prefeitos e governadores – praticassem essa farra de publicidade sobre obras que, muitas vezes, não passam de esboço em maquetes virtuais. Daria uma boa economia de gastos.

 

Entre incontáveis exemplos dessa tradição bizarra, vejam o caso da duplicação da BR-101. O projeto foi lançado há mais de uma década – e ainda não está completo, como se pode ver no percurso alagoano da rodovia. Mas, se a obra está inacabada há dez anos, dinheiro para publicidade nunca faltou durante todo esse período. Quanto terá sido torrado para fazer carnaval em cima de algo que simplesmente ainda não existe? Não vejo explicação lógica e aceitável para isso.

 

Outros casos. Como ocorre no país inteiro, governo de Alagoas e prefeitura de Maceió são pródigos em vender incríveis realizações – projetadas, mas não concretizadas. Hospitais, viadutos, revitalização de orla lagunar e até um marco para o turismo na capital, todo esse pacote aparece, ou já apareceu, em farta divulgação. E, como em outras situações, nenhum desses projetos que acabo de citar tem previsão de entrega. Enquanto isso, o marketing vai queimando barcas de dinheiro.

 

Portanto, com a mesma lógica da regra eleitoral, que seja vetada a propaganda antecipada de maravilhas que, na vida real, ainda não são visíveis. Feito o anúncio ou a promessa de uma obra, a publicidade somente deveria ser autorizada quando o prometido fosse entregue à população. Além do mais, apresentar ficção como verdade, de olho em dividendos políticos, é praticamente um estelionato. A corriqueira prática também indica pleno desprezo pela ética nesse mundo oficial.

 

Parece uma ideia radical, mas não é. É racional e factível, sem qualquer dificuldade ou prejuízo para a administração do serviço público. Claro que, se depender dos gestores no cargo, isso jamais será adotado. Eles levam ao extremo aquela máxima cretina segundo a qual a enganação – ou seja, a publicidade – é mesmo a alma do negócio. Enquanto isso vigorar, andamos para trás.

O candidato a presidente favorito entre artistas e modernosos

Perguntei a um professor do Instituto Federal de Alagoas, pessoa de quem sou próximo, o que ele pensa da candidatura de Guilherme Boulos a presidente da República. Sua resposta: “Tem esse também? Nunca ouvir falar. Quem é?”. Suspeito que a desinformação de meu interlocutor sobre a figura em questão está longe de ser um caso isolado. O brasileiro desconhece o candidato.

 

Boulos é o presidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. O MTST nasceu em São Paulo e hoje promove ocupações generalizadas de prédios na capital paulista. Também é dado a bloquear rodovias. Mas a entidade é muito mais que isso. Em pouco tempo, se transformou numa frente de militância cuja meta principal é a conquista do poder político.

 

O pessoal mostra ousadia e disposição para a guerra. Na página do movimento na internet, o MTST informa que seu grande objetivo é combater “o capital e o Estado que representa os interesses capitalistas”. Para o grupo, somente o socialismo serve ao país. Lá estão descritos também os métodos de atuação em defesa da causa. Sem exagero, parece uma cartilha stalinista.

 

Mas, num seleto eleitorado, formado por artistas e celebridades, o ibope de Boulos é de cem por cento. O lançamento da candidatura contou, entre outros, com Caetano Veloso, Wagner Moura, Sônia Braga, Mônica Iozzi e Paula Lavigne. Essa patota, aliás, costuma promover reuniões políticas no apartamento de Caetano, para traçar os rumos do que se pretende uma ação revolucionária.

 

Se aquele meu interlocutor não conhece Boulos, menos ainda sua parceira escalada para ser candidata a vice na chapa. Trata-se de Sônia Guajajara, a líder indígena que dividiu o palco com alguma inutilidade pop durante o Rock in Rio do ano passado. A ideia é vender a imagem de um bloco antenado às demandas dos “povos excluídos e marginalizados na sociedade”.

 

O presidente do MTST não veio da periferia, muito menos da pobreza. O homem nasceu em família rica, nunca trabalhou na vida e sempre usufruiu da mesada dos pais – certamente dois miseráveis capitalistas. Seduzido pelos ideais de rebeldia e contestação – princípios que pululam na modernosa balada paulistana – Boulos aderiu à guerrilha aventureira. Pensou em Esquerda Caviar? É por aí.

 

O pré-candidato e sua vice ainda vão se filiar a um partido para poder concorrer. A legenda escolhida é o glorioso PSOL. A partir daí, é contar com o exército de intelectuais e de astros de cinema, música e TV para deslanchar a campanha. Quanto ao povo – que desconhece tudo isso –, naturalmente será convencido pelo poder de persuasão dos artistas. É o que pensa a trupe.

    

Como nada existe por acaso, os delírios políticos dessa rapaziada têm história. Ao longo do século 20, no Brasil e mundo afora, sobram exemplos de períodos nos quais estrelas do ambiente artístico se autoproclamaram representantes dos trabalhadores. Só esqueceram de combinar justamente com esses mesmos trabalhadores. É o que temos com a dupla Boulos-Guajajara.

 

Por que é assim? Porque a esquerda puro-sangue jamais abandonou a ideia de que o povão precisa de iluminados para guiá-lo. É essencial doutrinar as massas para tirá-las da alienação e reinventá-las como “agentes da transformação”. Ora, na base desse pensamento está um completo desprezo pela “classe” que esses revolucionários dizem representar. Não há novidade nesse cacoete.

 

Caetano Veloso é um monstro como cantor e compositor. Wagner Moura é um ator mais ou menos. Mônica Iozzi é dublê de atriz, de humorista e de apresentadora de televisão. Cada um no seu quadrado tem uma obra que vale quanto pesa. Como pensadores políticos, valem um trocado. 

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