Blog do Celio Gomes

Na marca do pênalti

De volta ao jogo. A seleção brasileira avança e, para seguir até a final, tem agora o México nas oitavas. Os mexicanos assombraram o mundo na estreia, derrotando a Alemanha por 1 a 0. Os acontecimentos foram muitos nesses dias sem textos novos por aqui (por razões técnicas). Retorno, portanto, com pautas acumuladas, que se atropelam.

 

E estou falando da agenda Copa da Rússia. Os anfitriões já estão nas quartas, depois de despachar a até então favorita Espanha. Nosso terceiro jogo na fase anterior, contra a Sérvia, fortaleceu um aparente otimismo na torcida brasileira. Mas o time não jogou, em nenhuma partida, o futebol que chegou prometendo. E a seleção mudou.
 
Estamos com dois laterais que até ontem eram reservas. De repente, contusões deram a Fagner e a Filipe Luis a chance de assumirem como titulares. Danilo e o intocável Marcelo ficam no banco no jogo de hoje contra o México. Lá na frente, Neymar ainda está longe de mostrar as qualidades de um craque fora de série.
 
Croácia e Rússia precisaram dos pênaltis para conquistar vaga nas quartas. Os croatas bateram a Dinamarca, e os russos derrubaram a lógica do favoritismo espanhol. A partir do Mundial de 1986, o Brasil tem um histórico de decisões por pênaltis, incluindo o título de 1994. Espera-se que isso não seja necessário com os mexicanos.
 
A notícia mais absurda foi sobre um encontro entre Galvão Bueno e Neymar, o pai. Segundo li, seria uma tentativa de costurar um pacto entre as partes. O objetivo único desse acordo, claro, seria fazer com que a Globo não pegue no pé de Neymar, o filhote. Como se houvesse senso crítico no noticiário global sobre a Copa.
 
Ninguém parece cogitar um fiasco no desafio de hoje. Perder para o México não combina com a realidade escancarada. Isso não quer dizer que será fácil. Apesar de um certo clamor na imprensa, Tite ainda não se dobrou à ideia de mexer no ataque, trocando Gabriel Jesus por Firmino. O alagoano continua no banco.
 
Concentração para o jogo. Espero voltar ao longo do dia.

Brasil ganha sem convencer

​Veio a primeira vitória brasileira na Copa da Rússia. Diante de um adversário inoperante, a seleção alcançou dois a zero no placar quando o jogo já estava nos minutos de acréscimo. A Costa Rica não ameaçou pra valer em nenhum momento ganhar a partida. Houve apenas um lance de gol, verdadeiramente perigoso, contra o Brasil. Mas, como todos viram, o resultado saiu no sufoco.

Em tese, Tite operou duas mudanças que deram certo. No intervalo, ele sacou Willian e entrou com Douglas Costa. O substituto deu mais velocidade ao time, com jogadas que tentavam tabela e invasões na área pela direita. Aos 20 minutos do segundo tempo, recorreu a Firmino, que entrou no lugar de Paulinho. Ficamos com dois centroavantes em campo. O gol tinha de sair para nos aliviar.

A poucos minutos do fim do jogo, Coutinho e Neymar mudaram as coisas. Agora vamos fechar a primeira fase contra a Sérvia. Um empate basta para selar a passagem às oitavas. O desempenho da seleção, nesta sexta-feira, não diminuiu o cardápio de preocupações sobre a força desse time. Uma das deficiências foi na hora do arremate após troca de passe ou arrancada.

Neymar chorou quando o juiz apitou o fim da partida. Depois, soltou mensagem de desabafo, avisando que ninguém sabe o que ele passou na vida, até chegar onde somente ele sabe que está. Uma mistura de marketing com dramalhão. As alterações abrem dúvidas sobre as ideias do treinador para o jogo contra a Sérvia. O lateral Fagner no lugar de Danilo, por contusão, deu conta do recado.

Os dois jogos, pode-se dizer, deixam mais preocupações e temores do que convicções quanto à caminhada da seleção na Copa. Não jogamos o futebol que todos esperavam, sobretudo após a campanha das Eliminatórias, depois de Tite assumir o cargo. As duas partidas também nos informam que o principal craque da seleção, Neymar, esteve muito abaixo do que tem obrigação de mostrar.

A vitória, de todo modo, alivia a alma de treinador e jogadores. Não se contesta a qualidade individual no time, mas Tite não provou ter encontrado o caminho mais certeiro para o triunfo do conjunto. Seu propalado coletivismo não se impôs em campo; só tem aparecido nas entrevistas cheias de conversa oca e escapismo. A marca do professor, se existe, ainda não tem um eixo.

Neste sábado, a atual campeã Alemanha faz um jogo de vida ou morte contra a Suécia. Depois de perder na estreia para o México, os alemães podem ser eliminados em caso de nova derrota. Mas tudo isso é especulação sobre duelos que podem gerar lances inesperados. Especulações também quando escrevo sobre o destino do Brasil. Por enquanto, muita bola ainda vai correr  

O jogo jogado no campo da linguagem

Você já ouviu falar em sistema de jogo com duas linhas de quatro e dois volantes? E uma linha de cinco, com três zagueiros e dois meias avançados? Todo time precisa de um centroavante nato, aquele cara considerado especialista na grande área? Essas e outras questões provocam debates intermináveis entre comentaristas de todos os tipos. Raro é ver novidade no palavrório repetitivo. 

Em tempos de Copa do Mundo, a linguagem restrita ao esporte ganha a visibilidade natural decorrente da cobertura massiva na imprensa. Nos maiores portais de notícia do país, a pauta de política e economia foi sumariamente desbancada para segundo plano. Desde o pontapé inicial, no topo está tudo o que acontece nos jogos e também o que ocorre fora do gramado.

Um dos termos que parece uma criação mais recente é o adjetivo agudo. De repente, todo jornalista ou debatedor eventual cobra um personagem que mostre essa inusitada qualidade. Na seleção brasileira, o volante Paulinho é a peça que atraiu para si a quase novidade que é tal classificação. Por agudo, entenda-se o volante que dá uma arrancada e chega na área inesperadamente.

É um fenômeno que tem história: novas situações forçam o surgimento de palavras e expressões até então desconhecidas. O mais comum, no entanto, talvez seja a adoção de termos inéditos para descrever práticas antigas, mas que pintam até como revoluções, por causa, digamos assim, de um novo vocabulário. É o milenar dilema sobre o ovo ou a galinha no começo de todas as coisas.

Nesta quinta-feira, a Argentina precisa jogar bola, ou a casa cai. Depois de empatar na estreia contra a Islândia, o time de Messi não tem direito a mais um vacilo. Grandes seleções vivem perigo semelhante. É o futebol moderno, alerta o especialista que descobre essa modalidade esportiva a cada quatro anos. Não existe receita infalível e universal para garantir o êxito no placar.

Voltando à linguagem, o treinador também pode armar um esquema com duas linhas de cinco. Com essa formação (ou qualquer outra), o professor pode ainda lançar mão de um atacante que joga flutuando pela entrada da área. Nesse caso, flutuar é um dos verbos mais requisitados para uma análise do jogo. Uma moda verbal para se referir a algo que sempre existiu. 

Pensando bem, a cada bola fora, palavras ao vento e velhas ideias. Sem drama, é do jogo.

A apreensão depois da estreia, Neymar Junior e as garotas russas

Depois de uma estreia que gerou mais desconfiança que empolgação, criou-se um certo suspense sobre como se portará a seleção brasileira no segundo jogo, contra a Costa Rica nesta sexta-feira. Após o gol de Philippe Coutinho na vitória sobre a Suíça, o time entrou num compasso um tanto sonolento, um ritmo inexplicável para analistas e torcedores de todas as tendências. Daí a apreensão.

Mas ninguém consegue ver como admissível um novo tropeço, ainda mais que o adversário não tem como assustar. Há quem defenda a entrada de Douglas Costa no lugar de Neymar; e a troca de Gabriel Jesus por Roberto Firmino. Sãos as vozes mais radicais, que pregam uma mudança incisiva no jeito de jogar dos brasileiros. Tite, no entanto, deve repetir a formação que começou a Copa.

Entre uma bola e outra na rede, os vídeos de nossos turistas torcedores na Rússia, com piadas grosseiras sobre garotas, provocam quase uma comoção nas redes sociais. Foi tanto barulho que virou pauta no Jornal Nacional. Os protagonistas da presepada estão até com medo, segundo leio na imprensa. Não esperavam tamanha repercussão; agora passam vergonha planetária.

Como se dá hoje em dia com qualquer tipo de acontecimento de repercussão, o espetáculo de patetice dos brasileiros com as russas alcançou o debate político (ideológico, para quem preferir). Esquerda e direita trocam sopapos também acerca do caráter e perfil dos sem noção. Sem dúvida, estamos diante de uma manifestação nada saudável. É bom que passem vergonha mesmo.

Voltando à amarelinha, dois camaradas acham que estou exagerando ao falar de Neymar Junior. Acusam-me de superestimar os erros cometidos pelo camisa 10 na primeira partida. Nessa toada, eu também estaria minimizando as qualidades mortais de nosso maior craque. De fato, corro o risco de ver meus chutes desmoralizados por uma apresentação de gala de Neymar e companhia. 

O alto risco faz parte do jogo quando estamos na praia das opiniões, diagnósticos e, principalmente, quando avançamos para desenhar previsões. Tudo fica ainda mais turbulento porque este é o mundo imprevisível da bola. Na véspera de completar uma semana de torneio, perdeu quem deveria ganhar e venceu quem parecia destinado ao fracasso. O México talvez seja a melhor surpresa.

E Neymar, como já escrevi, vai nos dizer, na próxima partida, se está disposto a jogar sério ou se vai continuar no embalo teatral e sem sentido da estreia. Mais uma vez, parece estar nas mãos do treinador a chave para resolver o caso. E, segundo leio por aí, o engajamento da torcida nacional subiu em relação ao marasmo inicial apontado pela imprensa. Até as vendas de camisa subiram.

A tecnologia e o juiz que pode tudo

Juiz de futebol em campo é que nem Sergio Moro na Lava Jato: quem manda é ele e fim de papo. Não adianta o que dizem as provas (ou a ausência delas), o que vale é o apito e a caneta do homem. Na Copa da Rússia, a coisa mudou. Pela primeira vez na competição, a tecnologia está decidindo o placar final das partidas. Chegou o tempo do VAR, a sigla em inglês para o chamado árbitro de vídeo. 

Fim das controvérsias e dos debates insanos nas mesas redondas, nos botecos e nas esquinas? Jamais. Pelo que se viu até agora, quinto dia dos duelos entre seleções, a novidade incendiou a cabeça de jogadores, torcidas e comentaristas nos quatro cantos do mundo. Claro que o Brasil teria de protagonizar a papagaiada também nesse quesito, fazendo carnaval com as decisões do VAR.

Dois lances no jogo Brasil e Suíça levaram Galvão Bueno e reinstalar a teoria da conspiração contra nosso time. Para o narrador, assim como para outros patriotas, Miranda foi empurrado no gol suíço. E Gabriel Jesus sofreu pênalti quando tentava dominar uma bola perto da pequena área. Quase que alguém propõe um abaixo-assinado pelo banimento do juiz que julga no replay.

A revolta não tem fundamento em nenhum dos dois momentos do jogo. A grande piada desse episódio foi a CBF cobrando transparência da Fifa na aplicação das novas regras, com a solidariedade de Galvão. A reclamação chegou a ser formalizada em documento. Ora, esse antro de delinquentes, que é a instância máxima do futebol brasileiro, não tem moral para acusar ninguém de nada.

Tinha que ter mesmo o apoio da Globo, sua parceira na formação de quadrilha multinacional. Aliás, por falar em Lava Jato, nesse caso o Ministério Público brasileiro não dá um pio. Foi preciso que os Estados Unidos investigasse e botasse cartolas na cadeia. Por aqui, as autoridades do MP e do Judiciário não enxergaram nada de errado. E continuam cegos na omissão e na cumplicidade.

Quem também virou piada mundo afora foi Neymar, com suas caretas desavergonhadas, típicas dos piores canastrões, nas encenações de falta. É o clássico cai-cai. Depois de seu bisonho desempenho na estreia, se transformou na principal dúvida para o segundo jogo. Ninguém sabe o que o paparicado marmanjo pode aprontar diante da Costa Rica. Tite precisa enquadrá-lo.

A imprensa brasileira se divide entre a turma dos bajuladores e falsos isentos (a maioria) e o pessoal que fala o que precisa ser falado (uma minoria). Os especialistas são também de dois tipos: os jornalistas de profissão e os jogadores que se tornaram comentaristas. Nas duas patotas, são raros o equilíbrio e o senso crítico. Prevalecem mesmo a gritaria e o fanatismo tresloucado. É jogo duro.

Até o jogo que acaba de começar, entre Rússia e Egito, ainda não apareceu um craque absoluto e incontestável. A média é sofrível. Os grandes nomes estão devendo. Philippe Coutinho tem tudo para brilhar e sair consagrado da Copa. Mas, para isso, tem de se impor sobre as macaquices do camisa 10 da seleção. É só a primeira rodada. Muita pernada e bola fora estão chegando. Torcendo contra.

Grupo de extermínio é tradição brasileira (e alagoana)

Há notícias que nos perseguem durante décadas. O Ministério Público Estadual investiga a existência de um grupo de extermínio formado por policiais militares. Escrevo baseado em informações que o leitor pode conferir aqui no CADAMINUTO, em textos da jornalista Vanessa Alencar. Segundo o MP, são nove casos suspeitos, envolvendo homicídio e desaparecimento de jovens.

 

Todos esperam que a iniciativa seja pra valer e não fique apenas nas entrevistas de autoridades, como promotores, corregedores e até do governador (que aliás se manifestou sobre o assunto nesta segunda-feira). Renan Filho defendeu a apuração rápida e rigorosa. Disse que grupo de extermínio é intolerável dentro ou fora das polícias. Por razões óbvias, não é uma investigação simples.   

 

Comecei falando de notícias que atravessam as décadas. Alagoas tem uma longa tradição quando se trata de força policial agindo à margem da lei, contra a sociedade. Os exemplos escabrosos remontam à formação do estado e alcançaram épocas mais recentes. Aqui é a terra do Sindicato da Morte e da Gangue Fardada. Em mais de uma ocasião, esse histórico chamou atenção do Brasil.

 

As notícias sobre mortes de bandidos nas periferias de Maceió, com sinais de execução sumária, atribuídas a justiceiros dentro das polícias, foram bastante comuns em nossos jornais ao longo dos anos 1970. Não começou ali, mas aqueles foram dias com muita coisa fora da ordem. Havia quase que uma exaltação oficial da linha dura. Delegado defendia ilegalidades na maior desenvoltura.     

 

Os tempos da gangue fardada, entre as décadas de 1980 e 90, elevaram a coisa ao patamar da política, embora isso também não fosse uma novidade. Digamos que naquela época, o braço armado ganhou uma retaguarda talvez mais espraiada na esfera de caciques partidários, dentro e fora dos governos. O combate a tudo isso gerou consequências que se desdobram até hoje.    

 

Naturalmente não inventamos esse pecado hediondo que inverte tudo quanto ao poder das instituições públicas, que deixam de proteger o cidadão para simplesmente praticar a eliminação de pessoas. Recentemente, uma sequência de assassinatos no Pará levantou fortes indícios de que se trata de ação organizada dentro da Polícia Militar daquele estado. Apuram-se os fatos por lá

 

Por fim, acrescento que não tenho esperança de que a investida anunciada agora pelas autoridades dê algum resultado significativo. Teremos uma resposta apenas burocrática a esses fatos muito esquisitos. Lamento. Mas é o padrão quando se trata desse tipo de denúncia. Torço bastante para que o trabalho do Ministério Público prove que estou errado e desmoralize minha previsão. Veremos.

Vida real derruba fábula de seleção perfeita. E Neymar não aprendeu nada

Não foi surpresa nenhuma, mas Neymar Junior superou todas as expectativas negativas. Quer dizer, o cara foi muito pior do que qualquer pessoa poderia imaginar. Em sua segunda Copa, a estrela acaba de nos provar, de maneira acachapante, que os anos passam mas ele não aprende nada. Neymar tem certeza que é o elemento fundamental da seleção. E não é. Na estreia contra a Suíça, sua participação foi nada menos que ridícula. Começou a aprontar desde os primeiros minutos de bola rolando. Sem querer forçar a barra, isso tem a ver com algumas coisas que já escrevi aqui.

No texto anterior, disse que a obrigação desse elemento era jogar sua bolinha. E o que se viu em campo foi um deslumbrado, alguém que enxerga tudo a seu redor como algo secundário; tudo existe apenas para que ele exiba suas firulas idiotas, com provocações e chororô contra adversários e a arbitragem. Em português futebolístico, não jogou patavina. Tite não teve coragem de substituí-lo.

A postura de Neymar desmoraliza o discurso água com açúcar do treinador, que vive repetindo que o mais importante é o coletivo. É tudo o que seu garotinho mimado não faz. Joga o tempo todo para ele mesmo, desprezando a noção básica de conjunto para obter o resultado desejado. Ou Tite fala para seu jogador que ele está errado, e por isso prejudicando o time, ou a coisa tende a piorar. O mais provável, porém, é passar a mão na cabeça do menino. Por isso, Neymar é o que é.

Outro ponto que reforça a situação deplorável é a omissão dos demais jogadores diante dos erros de Neymar. Ninguém tem moral para cobrar do parceiro que solte a bola, que jogue para o time, que pare de prender o lance de maneira equivocada e improdutiva. Não existe liderança entre os jogadores. De novo, o discurso da importância do grupo não aparece na hora do jogo. Vamos ver o que o professor fará diante do fiasco da estreia. Se continuar com essa pegada, afunda de vez.

E finalmente, não foi pênalti em Gabriel Jesus. Ele mergulha depois do enrosco com o zagueiro. Nem dá para tratar o lance como polêmico. O atacante tentou apenas fraudar a jogada para obter a marcação do juiz, que não caiu na armadilha. Quanto ao gol da Suíça, Miranda e toda a zaga se postaram de modo bizarro. Marcaram o vento enquanto o atacante subia sozinho. O goleirão galã também deu sua contribuição ao ficar plantado vendo a bola chegar à pequena área.

Há muita coisa a se observar sobre o tipo de jogo apresentado pelo Brasil. Firmino, por exemplo, deveria ter entrado bem antes. Jesus está longe de um milagre.Mas esse é apenas um aspecto entre vários outros que podem ser avaliados. Não vou aqui dar uma de analista tático. Vimos algo muito errado nessa estreia. Veremos o que muda a partir do segundo desafio. Na largada, ficou evidente o tamanho da encrenca. Gostei. É a vida real desmontando a fábula de uma seleção perfeita.  

A vez e a hora da perplexidade

Domingo, fim de uma manhã e começo de uma tarde. ​Pensando aqui o que escrever sobre a estreia do Brasil contra a Suíça na Copa do Mundo. Vi o jogo entre Costa Rica e Sérvia, que estão em nosso grupo. A vitória dos sérvios, por 1 a 0, é uma boa tradução do jogo, especialmente pela magreza do placar. Não houve grandes chances. Diante do padrão apresentado pelas duas equipes, um empate seria mais justo. Mas justiça nada tem a ver com futebol.

Marcelo, o lateral que será o capitão no jogo de hoje, fez o combinado na entrevista coletiva. Veio com aquela conversinha do sonho que todo garoto tem de jogar pelo seu país. Veio com a lorota de que se lembra dos tempos de criança jogando bola na rua, num bairro pobre do país. É marketing. É populismo barato para ganhar a torcida. Tudo falso como na publicidade. Tratado como craque, Marcelo adora um vacilo na hora errada.

Em respeito à tradição do oba-oba, a cobertura da Globo começa com a batucada multicultural que reúne os surdos do Olodum e os tamborins da Portela. Samba e carnaval. Cachaça e mesa redonda. Ninguém sabe o que vai acontecer quando a bola rolar, mas o exagero da confiança extrapola os bons modos e atropela as precauções à patetice. Mas tudo bem. Não há razão para censurar o torcedor que vestiu amarelo e pintou a cabeleira de verde.

Depois dos gols de Cristiano Ronaldo e do pênalti desperdiçado por Messi, reacendeu a besteirada que nunca se apaga: quem é o melhor do mundo, afinal? Esse debate ocorre há uma década e os defensores de um lado e outro repetem os mesmos argumentos, com incansável capacidade para a exaltação do tédio. É o campeonato do qual o sem noção Neymar reza todo dia para conquistar. São os lances de um jogo que nos marca por pressão.

Mas agora finalmente nossos titulares estão à beira do gramado. Vai começar nossa primeira partida em mais uma Copa. Como não tenho esse coração de torcedor fanático, verei o espetáculo de olho no conjunto da obra. Tudo me interessa e, mais ainda, quando tudo mistura o efêmero, o dispensável e a perplexidade. Conquista? Vencer ou vencer? Coração na ponta da chuteira? Melhor nem tentar. Nunca surfei essa onda. Boraprojogo!

Homens e “meninos” desmiolados

Quanto tempo de vida é necessário para que um menino seja considerado um homem adulto? Segundo uma regra antiga, a maioridade chega aos 18 anos. A partir dessa etapa da existência, o sujeito adquire o direito de, por exemplo, dirigir um carro, desde que, é claro, devidamente habilitado para isso. Mas antes, aos 16, o mesmo sujeito já está autorizado a votar. Um direito reconhecido por lei. Nesta condição, ele pode, portanto, dar sua contribuição na escolha dos rumos do país.

 

Suponho que todos concordem que escolher os legisladores, o governador ou o presidente da República seja algo realmente sério. Exige de cada um, em tese, capacidade intelectual para uma decisão de tamanha relevância. E essa variável, aliás, é um dos argumentos de quem defende a chamada redução da maioridade penal. Se está apto ao voto, deve responder como gente grande por um crime eventualmente cometido. A consciência da realidade não pode ser seletiva.

 

Ocorre que os códigos formais na sociedade não combinam automaticamente com a vida real. Assim como a teoria, por mais lógica e criativa que seja, não opera a mágica de anular o fato sacramentado, nenhum decreto pode lhe convencer de que uma cadeira é um ventilador. Por isso, não é tão fácil quanto parece, à primeira vista, definir o momento preciso em que nasce um adulto.

 

Mas o que toda essa conversa fora de hora tem a ver com a estreia do Brasil na Copa? É hoje que a gente vai atrás da primeira vitória, em jogo contra a Suíça. Foi mal. Acabei me demorando demais nessas premissas em linguagem macarrônica. Eu pretendia mesmo era chutar a canela de Neymar e outros “garotos” da nossa seleção. Porque o que mais tem nesse time brasileiro é “moleque”.

 

A estrela maior da seleção tem 26 anos, um filho e está envolvido o tempo todo em negociações que somam milhões de reais, euros e dólares. Para driblar o pagamento de impostos e fechar contratos semanalmente (alguns de gaveta), Neymar age como um veterano. Quando contestado, dentro e fora de campo por suas presepadas, aí não: é só um garotinho que gosta de jogar bola. Comovente.

 

Ele tem origem na tradicional escola dos meninos da Vila, a expressão que a imprensa inventou a partir de determinado momento. A ideia ganhou força com o surgimento de Robinho e Diego – e nunca mais saiu de moda. O que sei é o seguinte: no Brasil, meninos de verdade pegam no batente aos oito, dez anos de idade. Ainda na infância, já trabalham duro para ajudar a família.

 

O deslumbrado craque da seleção, além de outros menos badalados, não têm nada de “garotinhos”. Tratá-los com essa condescendência, quando agem até de forma um tanto pilantra, é só o erro de setores de uma imprensa que não perde a veia bajulatória quando é de seu interesse.

 

E quanto às falsas polêmicas produzidas por Neymar nas redes sociais, como esta última do cabelo ridículo, provam reiteradamente que nosso grande craque é apenas um cretino desmiolado. Espera-se que, em campo, jogue sua bolinha, sem macaquices. Não fará nada além da obrigação.   

Profecia não combina com o imprevisível

Uma das melhores coisas no universo do futebol são as previsões erradas. Não é raro que certezas absolutas – antes de a bola entrar em campo – estejam demolidas quando o juiz apita o fim do jogo. E já vimos isso acontecer na Copa do Mundo da Rússia. Foi logo na segunda partida do torneio, entre Uruguai e Egito. Por muito pouco, o placar não ficou no mísero empate de zero a zero.

 

A vitória uruguaia saiu aos 44 minutos do segundo tempo numa cabeçada do zagueiro José Giménez, após cobrança de escanteio. Ainda que no limite do sufoco, deu a lógica. Esse resultado, no entanto, desmoralizou uma das ideias mais repetidas por meio mundo de comentaristas às vésperas da partida. A convicção unânime dizia que o Uruguai tem a melhor dupla de atacantes do torneio.

 

Suarez e Cavani formam, para os analistas, o ataque dos sonhos. Pela expectativa, apresentada como incontestável, os dois goleadores teriam tudo para garantir o êxito dos uruguaios. E o que se viu em campo? Nada menos que um fiasco eloquente, sobretudo de Suarez, que teve desempenho medíocre. Assim, de onde mais se esperava, veio a decepção total na hora da verdade.

 

Esse tipo de desconexão radical entre previsões certeiras e a realidade dos fatos ganha relevo justamente pela contundência de quem tenta antecipar o futuro. Os vereditos parecem revestidos de critérios e premissas incontornáveis. O cronista afirma que dois jogadores resolverão um jogo com a mesma naturalidade de quem boceja ou dá bom dia ao colega de trabalho. E erra solenemente.

 

Ainda assim, os caras não aprendem – não aprendemos. Logo após o acachapante desfecho em sentido contrário ao que foi anunciado, voltamos, com a maior serenidade, à compulsão das profecias para o próximo jogo. Subestimamos o imponderável, os milhares de detalhes que podem mudar tudo o que parece ser o caminho natural das coisas. É uma das tradições imutáveis no futebol.

 

O triunfo do Uruguai veio, mas não como todos diziam que seria. Neste sábado, são quatro jogos para testarmos a sobrevivência dos prognósticos feitos no dia anterior sobre os duelos envolvendo oito seleções. Na primeira das partidas, a França venceu a Austrália por 2 a 1. Os franceses chegaram à Rússia como candidatos ao título; aliás, são tidos como favoritos; mas ficaram devendo.

 

Se há o que se pode cravar no panorama do dia, em mais uma previsão, é que alguns lances dentro das quatro linhas têm tudo para derrubar a lógica e as mais distintas convicções. Isso sim é infalível. Os erros mais comuns decorrem das apostas e palpites sobre o placar dos jogos. Mas isso é um direito universal de todos nós. Com muita bola pra rolar em campo, a normalidade não tem vez.  

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