Blog do Celio Gomes

A compra de deputados e senadores

Vai começar oficialmente o leilão para a troca de partido de olho nas eleições de outubro. Entre 7 de março e 7 de abril temos a “janela de transferência”, período de 30 dias para os detentores de mandato mudarem de legenda, se assim desejarem, dentro das normas do processo eleitoral. E exatamente como se dá na janela do futebol europeu, as cifras são milionárias.

 

Às vésperas do início do prazo para a migração partidária, os corredores do Congresso Nacional vivem dias de agitação e nervosismo. Os lances pelo passe de deputados e senadores são vultosos. É o que já mostraram, por exemplo, reportagens na Folha e no Estadão. Em meio a escândalos de corrupção, o dinheiro segue decidindo a parada.

 

Os parlamentares são assediados por representantes de várias siglas com a oferta tentadora para a mudança de filiação. A verba está garantida pela fortuna a que as agremiações têm direito como fundo partidário. Segundo os relatos, a abordagem é escancarada. Os alvos são praticamente caçados a laço pelos mercadores da política brasileira. Os negócios correm soltos.

 

Partidos buscam principalmente os potenciais puxadores de voto. Com as novas regras, ninguém quer correr o risco de não alcançar a votação necessária para garantir a sobrevivência e o acesso ao tal fundo. É o que prevê a chamada minirreforma aprovada no ano passado. A agressiva tática para pescar novos filiados com mandato já provoca briga entre os gigantes do jogo eleitoral.

 

Os fanáticos pelo arrastão da Lava Jato venderam a profecia de que as operações policialescas mudariam tudo na atividade política. Ainda segundo esse mesmo raciocínio, os efeitos das denúncias e as prisões em série fariam o eleitor banir da vida pública os corruptos do Congresso. Sendo assim, haverá então uma renovação radical do parlamento quando as urnas forem abertas.

 

Nem uma coisa nem outra. Os métodos de cooptação continuam os mesmos, com a explícita compra de deputados e senadores; e pesquisas já indicam que a tendência mais provável é de que a maioria na Câmara e no Senado seja reeleita. Parece, portanto, que a força bruta policial, em parceria com o Ministério Público, pode ser capaz de tudo, menos de melhorar a política.

 

Confesso que não sei se há, neste momento, parlamentares alagoanos em negociações para trocar de partido. O que sei é que estamos nas cabeças entre os líderes de bancadas que trabalham para fortalecer suas tropas. Vamos torcer para que nossas lideranças estejam trabalhando sem fazer propostas, digamos, antirrepublicanas. Seja como for, a casa de leilão já abriu o expediente.

Para manter privilégios imorais, juízes anunciam greve no Brasil da saúva

Juízes federais estão à beira de uma greve, na defesa de mamatas como o auxílio-moradia e outros penduricalhos que elevam os rendimentos da patota às raias da pornografia. A postura simplesmente ignora o que está na Constituição, que estabelece o teto salarial no serviço público. É escandaloso, mas a rapaziada não está nem aí para o mínimo de decência que se espera de magistrados. O absurdo é o retrato de uma cultura da boçalidade no coração de uma elite desprezível.

 

Se os interesses imorais de uma categoria prevalecerem sobre a letra da lei, estaremos diante de uma prova cabal, exposta à lua do sol, de que o “Brasil passado a limpo”, como apregoam os arautos da Lava Jato, não passa mesmo de uma piada. É inacreditável que, após a revelação de incontáveis casos de abuso na concessão dos tais auxílios, associações de juízes venham a público defender o indefensável. E os togados ainda querem posar de vítimas do jornalismo.

       

Desde que os pagamentos imorais começaram a ser publicados pela imprensa, proliferam textos de dirigentes dessas associações – não para dar explicações aos brasileiros, como deveria ser feito, mas para exigir a manutenção dos privilégios e atacar a divulgação dos fatos. É o de sempre: para esse tipo de gente, imprensa que serve é aquela que silencia diante das causas ilegítimas de suas excelências. Acostumados a agir sem dar satisfações a ninguém, juízes decidiram ganhar no grito.

 

A infame iniciativa da greve pretende emparedar nada menos que o Supremo Tribunal Federal. O corporativismo atávico quer impedir que o STF elimine a farra da liberação sem controle desses benefícios. Será um ótimo teste para a presidente do tribunal, Carmen Lúcia, e demais membros da Corte. Um teste difícil, afinal entre os beneficiados que driblam a lei estão Sergio Moro, Marcelo Bretas, Deltan Dallagnol e meio mundo de heróis da Lava Jato. É muita presepada.

 

Recorro àquela mistura de lugar-comum e folclore nacional que dizia o seguinte: ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Que o Supremo faça o que tem de ser feito para nos livrar da saúva que veste capa preta e se acha acima de todos. Caso contrário, sugiro até que suspendam as eleições e se proclame logo a República das Togas. Que os abnegados membros do Judiciário continuem fazendo fortuna num país de miseráveis. Afinal, temos uma Justiça impecável.

A volta do mitológico Jornal do Brasil

Nada menos que na contramão da realidade, o Jornal do Brasil voltou a circular. Está nas bancas do Rio de Janeiro, sua casa desde o nascimento, há 127 anos. Circula também em Brasília e São Paulo. A versão impressa saiu de cena em 2010, quando já não era nem a sombra do mitológico JB.

 

É difícil imaginar o que pretendem os novos donos do jornal, num cenário completamente hostil àquilo que a maioria considera um hábito ultrapassado, coisa de velho, de gente careta: a leitura no papel.  Se os profetas preveem até a morte do livro, o que dirá de notícia impressa!

 

Revistas e jornais resistiram ao rádio e à TV, mas entraram em colapso com o advento da internet. As grandes marcas, no Brasil e no mundo, enfrentam uma guerra de sobrevivência há vinte anos – coisa que se tornou dramática nas primeiras décadas do século 21. E o drama só aumenta.

 

Jornais impressos morrem todo dia. Sem anunciantes, e com a debandada de leitores, a decisão mais comum é a migração para o ambiente virtual. Aliás, é o caminho natural, dos pequenos grupos aos gigantes da imprensa. Todos investem para garantir vida nova na rede mundial.

 

Monstros sagrados da imprensa e da cultura brasileira fizeram a história do velho JB. Alberto Dines, Jânio de Freitas, Elio Gaspari, Carlos Castelo Branco, Bárbara Heliodora, Millôr Fernandes, Clarice Lispector e Ferreira Gullar estão entre os textos que honram a trajetória do jornal.

 

No campo cultural, há um consenso quanto ao pioneirismo e à excelência do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Foi o caderno que se tornou referência obrigatória para quem buscava informação de qualidade sobre o que havia de mais relevante no mundo das artes.

 

Foi a partir do SDJB que se firmou a ideia de um espaço exclusivo para reportagem, resenha e crítica sobre literatura, cinema, música e teatro. Vem daí a proliferação dos chamados Caderno B, Segundo Caderno ou Caderno 2. Estão aí até hoje nas publicações que resistem ao tsunami.    

  

Pode ter certeza: boa parte do que há de mais moderno em nosso jornalismo surgiu primeiro nas páginas do JB. Em 1959, o veículo mudou tudo na apresentação de notícias, com uma verdadeira revolução editorial e gráfica. Suas sacadas foram adotadas por toda a concorrência.

 

As guerras políticas envenenam interpretações sobre o significado da imprensa e do jornal em particular. Em defesa de cartilhas ideológicas, joga-se tudo no mesmo balaio, numa visão simplista, e muitas vezes burra, sobre jornalismo. É o que fazem professores nas universidades.

  

A retomada da circulação do JB, claro, não representa a volta daquele jornalismo praticado em suas páginas no passado. Impossível. Pela internet, vê-se que a edição é magrinha, longe do catatau de cadernos de antes. Além disso – tremenda ironia –, o projeto gráfico é ultrapassado.

 

Nada de saudosismo, essa praga que arrasta até mocinhas e rapazes com menos de 30 anos de vida. Falo aqui de leitura, texto, cultura e história. Por isso, digamos que exalto essa irrelevância – como a maioria deve pensar –, que é a volta do JB no papel. É como se fosse uma resistência à barbárie. Ou seja, uma causa irremediavelmente perdida.

Lula à porta da cadeia, tucanos e PT

Todos os dias, um número incalculável de jornalistas, analistas políticos e palpiteiros em geral escreve na imprensa sobre os rumos do PT e, principalmente, sobre o destino eleitoral de Lula. É chute pra todo lado, mas a maioria tende a concordar num ponto: o ex-presidente está fora da eleição. Sobre a prisão, aí parece haver ainda alguma dúvida na cabeça de uns poucos. Seja como for, do jeito que as coisas correram até agora, o futuro próximo é sombrio para Lula.

 

As perguntas sem resposta abrem uma avenida para especulações de toda ordem. Sem Lula, quem será o candidato petista? O PT pode apoiar um nome de outra legenda? Sendo preso, Lula é um cabo eleitoral mais fraco ou mais forte? Eventual mobilização nas ruas é algo provável ou não? Impedido de se candidatar, pela Lei da Ficha Limpa, Lula apoiará um petista do núcleo duro do partido ou pode sacar um novo “poste” – como Dilma Rousseff nas eleições de 2010?

 

Ao falar sobre tudo isso em entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo, o ex-presidente se recusa a contemplar qualquer hipótese que não seja sua própria candidatura. Diz ter certeza de que o STF mudará a decisão de Sergio Moro e da segunda instância e, assim, ele estará livre para brigar nas urnas. É claro que essa é a postura de quem não quer jogar a toalha. E é por essa razão, bastante óbvia e previsível, que ele trata os fatos como se estivesse flutuando, acima da realidade.

 

Enquanto o cenário definitivo sobre Lula não estiver legalmente desenhado, os dilemas e as incertezas tornam o ambiente no PT, e na esquerda em geral, cada vez mais tenso. Por isso, a três por quatro as lideranças nesse campo – algumas com intenção de se candidatar – trocam bordoadas entre si. PDT, PC do B, PSB, Rede e PSOL, por exemplo, atiram contra todos, mordem e sopram o lulismo e se mostram tão perdidos quanto o próprio PT.

 

Na entrevista à Folha, Lula está eloquente, fala com uma tranquilidade que não combina com a situação de um homem acossado, na iminência de ser preso. Entre uma ironia e outra, ele diz algo que, embora não seja uma grande descoberta, chama atenção para um dado que não vi entre aqueles incontáveis analistas: “Pela direita, ninguém será presidente sem o apoio dos tucanos. Pela esquerda, ninguém será presidente sem o PT”. Segundo o que aí está, a observação faz todo sentido.

 

Na pergunta seguinte, o entrevistado resume de maneira ainda mais simples e direta o que acha que teremos em outubro nas urnas. “Eu, se entendo um pouco de política, vou dizer uma coisa: a disputa deverá ser outra vez entre tucanos e PT”. De política, Lula de fato entende bastante, e isso não dá para negar. Então, pode-se até dizer que estaremos entre três opções na hora do voto: um tucano, um petista e um bolsonarista. Se você queria novidade, o panorama é esse.

Nossas universidades públicas e uma disciplina sobre o “golpe” de 2016

Será que a Universidade Federal de Alagoas vai criar, nos cursos de ciências humanas, a disciplina que acaba de ser criada pela Universidade de Brasília? Como o leitor deve saber, estou falando da decisão tomada pela UnB, e já seguida por outras universidades, de instituir uma nova matéria para seus estudantes, cujo título entrega o que será ensinado: O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil. A iniciativa prova que, na academia, a militância de esquerda não tem limites.

 

Eu disse “esquerda”, mas talvez o mais correto seja falar em militância partidária. E praticar doutrinação em nome de preferências por partidos políticos, nas bancas universitárias, é um equívoco mortal. É preciso entender, porém, que a invencionice da UnB está longe de representar uma grande surpresa. Justamente pelo perfil que sempre tiveram as universidades públicas, é cem por cento natural que tenhamos agora uma disciplina para aplicar lições sobre as ideias do PT.

 

Tenho certeza de que neste momento alguns professores da Ufal já discutem os caminhos para seguir a trilha da UnB. É bem provável que o mesmo ocorra em nossa universidade alagoana, a Uneal. Aliás, nesta última, suspeito que até a Reitoria esteja engajada na causa. Como disse, tal postura é natural, está na alma “progressista” dos intelectuais que dominam o ambiente universitário. Primeiro, as ideias da minha turma; depois, também.

 

Na Ufal, além das ciências sociais, aposto que o Departamento de Comunicação – onde fica o curso de Jornalismo – deve estar animadíssimo com a ideia da disciplina sobre o “golpe”. Por lá, sempre houve a maior concentração de petistas por metro quadrado de Maceió. E para ministrar a matéria, não haverá problema, afinal professores já fazem na prática o que a ementa prevê: propaganda das ideias alinhadas ao PT e companhia. Sem dúvida, vamos formar militantes aguerridos.

O casamento de Whindersson Nunes e um retrato medonho do jornalismo

O planeta das badalações e das frivolidades se rendeu às maravilhas do litoral norte alagoano. O sinal mais evidente desse fenômeno é que aquela parte do estado se transformou em balneário para casamentos e convescotes de subcelebridades endinheiradas. A coisa é recente, embora as praias, o sol e o vento estejam por ali há muito mais tempo. Reinava a paz até a invasão dos famosos.

 

Alguém já disse que “famoso” no Brasil é profissão. Não adianta o que o sujeito faz ou pensa; a fama é sua credencial para abrir portas e conquistar o aplauso das multidões. É esse tipo de personalidade que, de uns anos para cá, descobriu a existência de São Miguel dos Milagres. O pequeno município à beira-mar entrou de vez para a rota dos bacanas que respiram ostentação.

 

Tudo começou nas festas de virada de ano. Révellion chique tem de ser em Milagres. Aliás, é assim, já com intimidade, que a turma trata o lugar – somente pelo último termo. São Miguel dançou nessa. Com as farras de Ano Novo, vieram as festas temáticas, cheias de tendas e camarotes ao som do melhor da nossa música: sertanejo pegajoso, sofrência e arrocha.  

 

Não demorou muito e pintou a moda dos casamentos no recanto praieiro de Alagoas. Com a região ganhando citações em publicações nacionais sobre turismo, trocar alianças no balneário, ao que parece, virou o sonho de casais apaixonados – e deslumbrados até a medula. Nada mais natural, portanto, que Whindersson Nunes, o maior youtuber do país, venha se casar entre nós.

 

O casamento do humorista piauiense que nasceu na internet ocorreu nesta quarta-feira, 28. Cada um com seu modo de vida e sua visão de mundo, é claro. O que incomoda profundamente – algo que daria até um estudo de caso – é o papel de nossa imprensa. Tanto nos veículos locais quanto nos meios nacionais, o evento é tratado com uma babaquice quase inacreditável. Quase.

 

Nessas ocasiões, dublês de jornalistas não produzem reportagens. Toda a cobertura se apresenta como uma exaltação a detalhes idiotas, coisa típica do mais fútil colunismo social. Na verdade, uma festa particular, como o enlace de dois famosinhos irrelevantes, nem merece cobertura jornalística. Mas as empresas querem cliques e curtidas haja o que houver. Aí já era.

 

Embora não tenha mais o direito a surpresas com qualquer bobagem, confesso que não esperava que o caderno de cultura do maior jornal do estado, a Gazeta, tratasse o casamento do youtuber como um evento à altura da arte: o oba-oba dos ricaços e alienados foi bater na capa do caderno. A decisão editorial que pariu essa abordagem é um retrato medonho do nosso jornalismo.

 

Lembrei de Joel Silveira e de sua reportagem mais conhecida, A Milésima segunda noite da Avenida Paulista, publicada na década de 1940. É sobre o casamento de uma filha do conde Francisco Matarazzo Jr., representante da elite bilionária da época. O texto da víbora, como Joel ficou conhecido, saiu em livro pela Companhia das Letras, em 2003. É uma aula que a imprensa esqueceu.

 

Entre plumas, espumas e buquê, faltou uma víbora em Milagres.

Interesses eleitorais tumultuam o trabalho no Ministério Público

Quando as instituições orientam suas agendas em função de demandas políticas, a consequência mais inofensiva é a turbulência interna. Se a fogueira das vaidades é fenômeno incontrolável, mesmo em clima de normalidade, imagine quando interesses eleitorais dominam o ambiente de trabalho. Temos um colapso. É o que ocorre desde o ano passado no Ministério Público Estadual em Alagoas.

 

Tudo isso decorre naturalmente dos objetivos político-partidários evidentes na atuação do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça. Candidatíssimo nas eleições deste ano, o chefe do MP sonha com uma cadeira de senador a qualquer custo. É sua causa única e exclusiva na busca por uma nova carreira profissional. Dizem por aí que tem boas chances de êxito.

 

Como todo cidadão brasileiro, o procurador tem pleno direito de fazer suas escolhas. Se decidiu entrar para o mundo da política e exercer mandato no Legislativo, aí é com ele. A encrenca é a forma como isso se dá. No exercício do cargo, em meio a investigações que envolvem autoridades, o chefe do MP tem suas ações postas em xeque, por suspeita de falta de isenção.

 

Embora não tenha feito pesquisa a respeito, creio que o MP alagoano vive uma quadra inédita. Nunca um procurador-geral esteve tão engajado em negociações políticas quanto nos dias de hoje – nas vésperas da eleição e como virtual candidato. A julgar pelo que se publica, Mendonça avalia propostas de filiação partidária que vão do socialismo romântico à filosofia bolsonarista.

 

Como se vê, parece que a paleta ideológica do procurador é bastante eclética. Na internet, ele é o herói dos adeptos da candidatura de Jair Bolsonaro. Os seguidores do troglodita adoram o jeitão “prendo e arrebento” visto nas declarações de Mendonça. Como eles têm certeza de que podem “consertar” o Brasil, fico aqui curioso sobre os planos específicos para Alagoas.

 

E pensar que faz mais de um ano que o Ministério Público vive nessa delicada encruzilhada: não sabe se vira a esquina para o trabalho ou atravessa para o lado oposto, onde estão a militância política e o mercadão de votos. Enquanto se misturam as duas direções, pior para os interesses da sociedade. Resta torcer para que o mês de abril chegue logo e o chefe do MP se livre do pesado dilema.

Debate sobre liberação de armas: a demagogia na ponta do fuzil

Se a intervenção federal no Rio resultará em coisa boa para a população, há controvérsias. Mas a medida produziu um efeito colateral instantâneo, ainda que involuntariamente: insuflou o debate sobre o direito à posse de arma de fogo pelo cidadão comum. Em todos os segmentos e camadas sociais, parece haver gente que só pensa nisso – quer um 38 ou uma pistola para se proteger da bandidagem. Os defensores da ideia querem revogar o Estatuto do Desarmamento.   

 

Confesso que o tema não me empolga muito. Não entendo bem por que tamanha passionalidade entre os que reivindicam a legalização de portar uma arma. Ao ver os argumentos dos adeptos do armamentismo geral, é difícil encontrar algo de fato convincente. Os discursos nessa linha abusam de comparações com os Estados Unidos, forçando a mão para aplicar raciocínios atravessados, como se atestassem a justeza em se adotar a liberação de armas. Parece apenas um truque retórico.

    

Sendo um legítimo bate-boca dos dias atuais, se não tiver gritaria, achincalhe e palavrões, não tem graça. Por isso, enquanto não podem sacar uma ponto-40 contra os inimigos, os senhores do clube do tiro disparam uma fuzilaria verborrágica (e ofensiva) sobre adversários de suas ideias. Não digo que são todos, mas uma boa parte se manifesta como inteiramente desmiolada. Imagine esse tipo de indivíduo com poder de fogo. Afinal, por que você e eu precisaríamos andar armados?

 

Se há gritaria e ofensas nas discussões sobre o assunto em redes sociais, naturalmente a discórdia começa e nunca termina nas diferenças políticas inconciliáveis. Dizendo de outro modo, mas não muito, aqui também, como tudo nessa vida, nunca haverá acordo entre tais escolhas ideológicas. Antes de ouvir os argumentos, os lados querem saber se estão falando para a direita ou para a esquerda. Rodamos em volta de todo e qualquer assunto, e ficamos no eterno e estéril maniqueísmo.

 

Um bocado de autoridade em Alagoas anda por aí mostrando simpatia à ideia que prevê todo mundo armado. A conversa demagógica é a mesma desde sempre: vamos desarmar o marginal e armar o cidadão de bem. Eis um discurso velho, tipicamente populista, que joga tudo no clima de pânico social para vender uma falsa solução. A fixação nessa pauta é uma das frentes na campanha de Jair Bolsonaro. Não por acaso a coisa esquentou nos últimos meses na turba fiel ao homem. 

 

Para fechar, lembro ainda que há um aspecto curioso no palavrório dos armamentistas: também para este insano debate, a tropa de choque da bala convocou nada menos que Deus e as escrituras sagradas. Sim, para os ideólogos do Velho Oeste, a bíblia cristã está recheada de cantos, cartas e provérbios que justificam o uso da força contra seus inimigos. Ora, se está escrito, quem somos nós, pecadores compulsivos, para discordar? Então, pode apontar e engatilhar seu fuzil – e seja feliz.

O inútil Ministério da Segurança

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Conta o folclore – amplamente conhecido e renovado na esfera pública – que a principal providência para solucionar um problema é nomear uma comissão. Igualmente relevante é o segundo passo: marcar uma reunião com todos os envolvidos na crise. Do encontro emergencial, finalmente, vai-se ao terceiro degrau para avançar nas soluções: a pauta e a data da reunião seguinte. E assim vai. É mais ou menos isso o que ocorre com a criação do Ministério da Segurança Pública.

 

Além desse aspecto operacional, digamos assim, tem ainda o alcance político de tal iniciativa, a poucos meses das eleições gerais. Tanto na variável política quanto na ação formal de governo, o movimento expõe métodos amadores e acena com intenções suspeitas. Criar um ministério a essa altura é apostar numa velha ideia que não avança um centímetro sobre os pontos cruciais do combate à violência. A nova pasta foi cogitada há uns vinte anos, durante o governo FHC.

   

Mas, depois da intervenção, o presidente Michel Temer parece ter se empolgado com a agenda que prioriza o tema da segurança pública. Um ministério, nesse sentido, serve a contento, se o nosso Vampirão pretende uma boia para respirar alguns pontinhos ao menos na faixa do “regular”. Até agora a rejeição é quase absoluta. Com esse objetivo marqueteiro em escala obsessiva, os mais céticos podem dizer que não há perigo de dar certo. E é fácil prever o futuro com a nova repartição.

 

A primeira coisa que teremos em pleno funcionamento, implacável em seus dogmas e na hostilidade à lógica elementar, é o aparato burocrático. Prova cabal de nossa afeição à autossabotagem, a burocracia é a engrenagem e a alma do erro oficial. Rapidamente qualquer novidade estará em absoluta harmonia com o ritmo próprio da máquina pública. Teremos apenas o que está anunciado desde agora: cabide de emprego e mais espaço para jogadas eleitorais.

 

Resumindo uma opinião, penso que um novo ministério não resolve nada. Inutilidade. E assim penso, se não por razões especiais, porque talvez esteja entre aqueles mais céticos.

A jornalista que enquadrou o prefeito

Começo com um parêntesis. (Já deveria ter escrito sobre isso. Dada a gravidade do caso, falo com atraso. Mas ainda dá tempo). Um jornal traz uma reportagem sobre uma escola pública fechada por falta de condições mínimas para receber alunos e professores. Após a publicação da notícia, o prefeito do município onde fica a escola reage de maneira tão surpreendente quanto estúpida.     

 

A notícia saiu na Tribuna Independente. A autora da reportagem é a jornalista Thayanne Magalhães. O município é Capela, terra dominada até hoje pelos senhores da cana-de-açúcar. E o prefeito se chama Adelmo Moreira Calheiros, herdeiro de gloriosas tradições naquela parte da Zona da Mata. Na eleição, para a urna eletrônica ele usa o nome de guerra, no diminutivo. Vira o Adelminho.

 

Insatisfeito com a publicação dos fatos sobre a escola, o prefeito partiu para um ataque inusitado, embora tipicamente atual: Adelminho enviou para a repórter uma mensagem ofensiva por celular. Revelado pela própria vítima do ataque, o teor das palavras do prefeito varia entre o descabido, a grosseria e a intimidação. É algo indefensável sob qualquer ponto de vista.

 

Na mensagem de resposta ao prefeito, e nas providências que tomou em seguida, incluindo denúncia à polícia, a jornalista agiu de modo exemplar. Às baboseiras mal escritas pelo gestor municipal, ela reagiu com seriedade, num recado que deixa claro o repúdio à postura de seu interlocutor sem noção. Aliás, bota falta de noção na cabeça de um homem público!

 

Adelmo Moreira faz 40 anos em abril. Não é mais um adolescente desses que escrevem coisas infantis por impulso incontrolável. Se age assim, é por outras razões. Trata-se de alguém que nasceu para a política profissional – com ou sem mandato. Descendente legítimo da Era dos Engenhos, parece ter levado ao exercício da política os princípios gerais da oligarquia canavieira.

 

O caso está sendo acompanhado pela Federação de Jornalistas e pelo sindicato da categoria. No mais, é prestar apoio e solidariedade a uma profissional que, reitero, portou-se de forma irretocável. Por isso mesmo, sua conduta serve de referência para o público em geral e, em particular, aos coleguinhas de profissão. Thayanne Magalhães nos mostra como é que se faz a coisa certa.

 

Resumo: no episódio todo, perde o autoritarismo medieval, exposto em seu natural ridículo, e ganha o exercício da imprensa livre. Afinal, liberdade de expressão é oxigênio para a convivência civilizada, esfera em que a censura e a truculência não podem prosperar.

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