Blog do Celio Gomes

Grupo de extermínio é tradição brasileira (e alagoana)

Há notícias que nos perseguem durante décadas. O Ministério Público Estadual investiga a existência de um grupo de extermínio formado por policiais militares. Escrevo baseado em informações que o leitor pode conferir aqui no CADAMINUTO, em textos da jornalista Vanessa Alencar. Segundo o MP, são nove casos suspeitos, envolvendo homicídio e desaparecimento de jovens.

 

Todos esperam que a iniciativa seja pra valer e não fique apenas nas entrevistas de autoridades, como promotores, corregedores e até do governador (que aliás se manifestou sobre o assunto nesta segunda-feira). Renan Filho defendeu a apuração rápida e rigorosa. Disse que grupo de extermínio é intolerável dentro ou fora das polícias. Por razões óbvias, não é uma investigação simples.   

 

Comecei falando de notícias que atravessam as décadas. Alagoas tem uma longa tradição quando se trata de força policial agindo à margem da lei, contra a sociedade. Os exemplos escabrosos remontam à formação do estado e alcançaram épocas mais recentes. Aqui é a terra do Sindicato da Morte e da Gangue Fardada. Em mais de uma ocasião, esse histórico chamou atenção do Brasil.

 

As notícias sobre mortes de bandidos nas periferias de Maceió, com sinais de execução sumária, atribuídas a justiceiros dentro das polícias, foram bastante comuns em nossos jornais ao longo dos anos 1970. Não começou ali, mas aqueles foram dias com muita coisa fora da ordem. Havia quase que uma exaltação oficial da linha dura. Delegado defendia ilegalidades na maior desenvoltura.     

 

Os tempos da gangue fardada, entre as décadas de 1980 e 90, elevaram a coisa ao patamar da política, embora isso também não fosse uma novidade. Digamos que naquela época, o braço armado ganhou uma retaguarda talvez mais espraiada na esfera de caciques partidários, dentro e fora dos governos. O combate a tudo isso gerou consequências que se desdobram até hoje.    

 

Naturalmente não inventamos esse pecado hediondo que inverte tudo quanto ao poder das instituições públicas, que deixam de proteger o cidadão para simplesmente praticar a eliminação de pessoas. Recentemente, uma sequência de assassinatos no Pará levantou fortes indícios de que se trata de ação organizada dentro da Polícia Militar daquele estado. Apuram-se os fatos por lá

 

Por fim, acrescento que não tenho esperança de que a investida anunciada agora pelas autoridades dê algum resultado significativo. Teremos uma resposta apenas burocrática a esses fatos muito esquisitos. Lamento. Mas é o padrão quando se trata desse tipo de denúncia. Torço bastante para que o trabalho do Ministério Público prove que estou errado e desmoralize minha previsão. Veremos.

Vida real derruba fábula de seleção perfeita. E Neymar não aprendeu nada

Não foi surpresa nenhuma, mas Neymar Junior superou todas as expectativas negativas. Quer dizer, o cara foi muito pior do que qualquer pessoa poderia imaginar. Em sua segunda Copa, a estrela acaba de nos provar, de maneira acachapante, que os anos passam mas ele não aprende nada. Neymar tem certeza que é o elemento fundamental da seleção. E não é. Na estreia contra a Suíça, sua participação foi nada menos que ridícula. Começou a aprontar desde os primeiros minutos de bola rolando. Sem querer forçar a barra, isso tem a ver com algumas coisas que já escrevi aqui.

No texto anterior, disse que a obrigação desse elemento era jogar sua bolinha. E o que se viu em campo foi um deslumbrado, alguém que enxerga tudo a seu redor como algo secundário; tudo existe apenas para que ele exiba suas firulas idiotas, com provocações e chororô contra adversários e a arbitragem. Em português futebolístico, não jogou patavina. Tite não teve coragem de substituí-lo.

A postura de Neymar desmoraliza o discurso água com açúcar do treinador, que vive repetindo que o mais importante é o coletivo. É tudo o que seu garotinho mimado não faz. Joga o tempo todo para ele mesmo, desprezando a noção básica de conjunto para obter o resultado desejado. Ou Tite fala para seu jogador que ele está errado, e por isso prejudicando o time, ou a coisa tende a piorar. O mais provável, porém, é passar a mão na cabeça do menino. Por isso, Neymar é o que é.

Outro ponto que reforça a situação deplorável é a omissão dos demais jogadores diante dos erros de Neymar. Ninguém tem moral para cobrar do parceiro que solte a bola, que jogue para o time, que pare de prender o lance de maneira equivocada e improdutiva. Não existe liderança entre os jogadores. De novo, o discurso da importância do grupo não aparece na hora do jogo. Vamos ver o que o professor fará diante do fiasco da estreia. Se continuar com essa pegada, afunda de vez.

E finalmente, não foi pênalti em Gabriel Jesus. Ele mergulha depois do enrosco com o zagueiro. Nem dá para tratar o lance como polêmico. O atacante tentou apenas fraudar a jogada para obter a marcação do juiz, que não caiu na armadilha. Quanto ao gol da Suíça, Miranda e toda a zaga se postaram de modo bizarro. Marcaram o vento enquanto o atacante subia sozinho. O goleirão galã também deu sua contribuição ao ficar plantado vendo a bola chegar à pequena área.

Há muita coisa a se observar sobre o tipo de jogo apresentado pelo Brasil. Firmino, por exemplo, deveria ter entrado bem antes. Jesus está longe de um milagre.Mas esse é apenas um aspecto entre vários outros que podem ser avaliados. Não vou aqui dar uma de analista tático. Vimos algo muito errado nessa estreia. Veremos o que muda a partir do segundo desafio. Na largada, ficou evidente o tamanho da encrenca. Gostei. É a vida real desmontando a fábula de uma seleção perfeita.  

A vez e a hora da perplexidade

Domingo, fim de uma manhã e começo de uma tarde. ​Pensando aqui o que escrever sobre a estreia do Brasil contra a Suíça na Copa do Mundo. Vi o jogo entre Costa Rica e Sérvia, que estão em nosso grupo. A vitória dos sérvios, por 1 a 0, é uma boa tradução do jogo, especialmente pela magreza do placar. Não houve grandes chances. Diante do padrão apresentado pelas duas equipes, um empate seria mais justo. Mas justiça nada tem a ver com futebol.

Marcelo, o lateral que será o capitão no jogo de hoje, fez o combinado na entrevista coletiva. Veio com aquela conversinha do sonho que todo garoto tem de jogar pelo seu país. Veio com a lorota de que se lembra dos tempos de criança jogando bola na rua, num bairro pobre do país. É marketing. É populismo barato para ganhar a torcida. Tudo falso como na publicidade. Tratado como craque, Marcelo adora um vacilo na hora errada.

Em respeito à tradição do oba-oba, a cobertura da Globo começa com a batucada multicultural que reúne os surdos do Olodum e os tamborins da Portela. Samba e carnaval. Cachaça e mesa redonda. Ninguém sabe o que vai acontecer quando a bola rolar, mas o exagero da confiança extrapola os bons modos e atropela as precauções à patetice. Mas tudo bem. Não há razão para censurar o torcedor que vestiu amarelo e pintou a cabeleira de verde.

Depois dos gols de Cristiano Ronaldo e do pênalti desperdiçado por Messi, reacendeu a besteirada que nunca se apaga: quem é o melhor do mundo, afinal? Esse debate ocorre há uma década e os defensores de um lado e outro repetem os mesmos argumentos, com incansável capacidade para a exaltação do tédio. É o campeonato do qual o sem noção Neymar reza todo dia para conquistar. São os lances de um jogo que nos marca por pressão.

Mas agora finalmente nossos titulares estão à beira do gramado. Vai começar nossa primeira partida em mais uma Copa. Como não tenho esse coração de torcedor fanático, verei o espetáculo de olho no conjunto da obra. Tudo me interessa e, mais ainda, quando tudo mistura o efêmero, o dispensável e a perplexidade. Conquista? Vencer ou vencer? Coração na ponta da chuteira? Melhor nem tentar. Nunca surfei essa onda. Boraprojogo!

Homens e “meninos” desmiolados

Quanto tempo de vida é necessário para que um menino seja considerado um homem adulto? Segundo uma regra antiga, a maioridade chega aos 18 anos. A partir dessa etapa da existência, o sujeito adquire o direito de, por exemplo, dirigir um carro, desde que, é claro, devidamente habilitado para isso. Mas antes, aos 16, o mesmo sujeito já está autorizado a votar. Um direito reconhecido por lei. Nesta condição, ele pode, portanto, dar sua contribuição na escolha dos rumos do país.

 

Suponho que todos concordem que escolher os legisladores, o governador ou o presidente da República seja algo realmente sério. Exige de cada um, em tese, capacidade intelectual para uma decisão de tamanha relevância. E essa variável, aliás, é um dos argumentos de quem defende a chamada redução da maioridade penal. Se está apto ao voto, deve responder como gente grande por um crime eventualmente cometido. A consciência da realidade não pode ser seletiva.

 

Ocorre que os códigos formais na sociedade não combinam automaticamente com a vida real. Assim como a teoria, por mais lógica e criativa que seja, não opera a mágica de anular o fato sacramentado, nenhum decreto pode lhe convencer de que uma cadeira é um ventilador. Por isso, não é tão fácil quanto parece, à primeira vista, definir o momento preciso em que nasce um adulto.

 

Mas o que toda essa conversa fora de hora tem a ver com a estreia do Brasil na Copa? É hoje que a gente vai atrás da primeira vitória, em jogo contra a Suíça. Foi mal. Acabei me demorando demais nessas premissas em linguagem macarrônica. Eu pretendia mesmo era chutar a canela de Neymar e outros “garotos” da nossa seleção. Porque o que mais tem nesse time brasileiro é “moleque”.

 

A estrela maior da seleção tem 26 anos, um filho e está envolvido o tempo todo em negociações que somam milhões de reais, euros e dólares. Para driblar o pagamento de impostos e fechar contratos semanalmente (alguns de gaveta), Neymar age como um veterano. Quando contestado, dentro e fora de campo por suas presepadas, aí não: é só um garotinho que gosta de jogar bola. Comovente.

 

Ele tem origem na tradicional escola dos meninos da Vila, a expressão que a imprensa inventou a partir de determinado momento. A ideia ganhou força com o surgimento de Robinho e Diego – e nunca mais saiu de moda. O que sei é o seguinte: no Brasil, meninos de verdade pegam no batente aos oito, dez anos de idade. Ainda na infância, já trabalham duro para ajudar a família.

 

O deslumbrado craque da seleção, além de outros menos badalados, não têm nada de “garotinhos”. Tratá-los com essa condescendência, quando agem até de forma um tanto pilantra, é só o erro de setores de uma imprensa que não perde a veia bajulatória quando é de seu interesse.

 

E quanto às falsas polêmicas produzidas por Neymar nas redes sociais, como esta última do cabelo ridículo, provam reiteradamente que nosso grande craque é apenas um cretino desmiolado. Espera-se que, em campo, jogue sua bolinha, sem macaquices. Não fará nada além da obrigação.   

Profecia não combina com o imprevisível

Uma das melhores coisas no universo do futebol são as previsões erradas. Não é raro que certezas absolutas – antes de a bola entrar em campo – estejam demolidas quando o juiz apita o fim do jogo. E já vimos isso acontecer na Copa do Mundo da Rússia. Foi logo na segunda partida do torneio, entre Uruguai e Egito. Por muito pouco, o placar não ficou no mísero empate de zero a zero.

 

A vitória uruguaia saiu aos 44 minutos do segundo tempo numa cabeçada do zagueiro José Giménez, após cobrança de escanteio. Ainda que no limite do sufoco, deu a lógica. Esse resultado, no entanto, desmoralizou uma das ideias mais repetidas por meio mundo de comentaristas às vésperas da partida. A convicção unânime dizia que o Uruguai tem a melhor dupla de atacantes do torneio.

 

Suarez e Cavani formam, para os analistas, o ataque dos sonhos. Pela expectativa, apresentada como incontestável, os dois goleadores teriam tudo para garantir o êxito dos uruguaios. E o que se viu em campo? Nada menos que um fiasco eloquente, sobretudo de Suarez, que teve desempenho medíocre. Assim, de onde mais se esperava, veio a decepção total na hora da verdade.

 

Esse tipo de desconexão radical entre previsões certeiras e a realidade dos fatos ganha relevo justamente pela contundência de quem tenta antecipar o futuro. Os vereditos parecem revestidos de critérios e premissas incontornáveis. O cronista afirma que dois jogadores resolverão um jogo com a mesma naturalidade de quem boceja ou dá bom dia ao colega de trabalho. E erra solenemente.

 

Ainda assim, os caras não aprendem – não aprendemos. Logo após o acachapante desfecho em sentido contrário ao que foi anunciado, voltamos, com a maior serenidade, à compulsão das profecias para o próximo jogo. Subestimamos o imponderável, os milhares de detalhes que podem mudar tudo o que parece ser o caminho natural das coisas. É uma das tradições imutáveis no futebol.

 

O triunfo do Uruguai veio, mas não como todos diziam que seria. Neste sábado, são quatro jogos para testarmos a sobrevivência dos prognósticos feitos no dia anterior sobre os duelos envolvendo oito seleções. Na primeira das partidas, a França venceu a Austrália por 2 a 1. Os franceses chegaram à Rússia como candidatos ao título; aliás, são tidos como favoritos; mas ficaram devendo.

 

Se há o que se pode cravar no panorama do dia, em mais uma previsão, é que alguns lances dentro das quatro linhas têm tudo para derrubar a lógica e as mais distintas convicções. Isso sim é infalível. Os erros mais comuns decorrem das apostas e palpites sobre o placar dos jogos. Mas isso é um direito universal de todos nós. Com muita bola pra rolar em campo, a normalidade não tem vez.  

As garotas na mesa redonda falam de futebol como craques

Jô Soares está de volta à televisão. E como comentarista de futebol. A estreia do humorista foi na noite desta quinta-feira. Contratado pelo canal Fox, ele participa de uma mesa redonda, o Debate Final – Especialistas. No primeiro programa, Jô trocou ideias com um quarteto de treinadores brasileiros: Abel Braga, Jair Ventura, Wanderley Luxemburgo e Carlos Alberto Parreira. A mediação foi do experiente narrador Téo José. Para começar, não comprometeu, mas pode melhorar muito.

 

Há uma hiperinflação desse formato de programa na TV brasileira. Todos os canais abusam. A coisa já extrapolou, faz tempo, os limites do tolerável. Certamente a explicação mais lógica para isso é o baixo custo de produção. Muito mais caro é produzir reportagem de fôlego. Mas o bate-boca faz parte do jogo e tem lá suas qualidades. Claro que isso vale para quem acompanha futebol. Mais ainda, vale para quem gosta de ver o jogo. De todo modo, falamos de dramas e lances do acaso. 

 

Na Globo, como já era do conhecimento até das torcidas do Flamengo, Irã e Marrocos, a linha editorial é a papagaiada. Garotos-propaganda disfarçados de jornalistas capricham nas caretas, nos trocadilhos debiloides e na vigarice em geral. Nenhuma surpresa. Não há jornalismo nos programas globais sobre a Copa. Galãs de novelas viram “comentaristas”. Tudo tem de ser “divertido” e “emocionante”. Para garantir a audiência, a receita padrão impõe um desfile de idiotices.

 

Na cerimônia de abertura do evento, Ronaldo Fenômeno estava lá como representante dos craques do esporte. Escolha errada. Horas depois, ele já aparecia na mesa do SporTV, batendo ponto na empresa de seu parceiro de negócios, o Grupo Globo. Até onde vi, ao falar das seleções do Uruguai e Egito, fez piada com o Ramadã e, bisonhamente, bajulou a Fifa, a sua outra parceira comercial. Desde que se aposentou dos gramados, Ronaldo virou um negociante oportunista.

 

Nos canais Fox Sports, uma maravilha. Nesses dois dias, o melhor programa de TV sobre a Copa, disparado, é o Comenta Quem Sabe, uma mesa de debate formada exclusivamente por mulheres. Cinco profissionais com desempenho impecável. Vanessa Riche, Daniela Boaventura, Nadine Bastos, Isabelly Morais e Livia Nepomuceno estão arrasadoras. Não há concorrentes à altura.

 

Um dos muitos pontos fortes do programa com as jornalistas é o requinte das análises. Bem longe dos bordões manjados e das falsas polêmicas, elas destrincham táticas, jogadas duvidosas e decisões inesperadas, sempre com clareza, precisão e valiosas informações. De quebra, tudo numa combinação perfeita de descontração e elegância de sobra. Um golaço incomparável.

 

Quem passa por este blog de vez em quando sabe que o futebol é uma pauta com alguma regularidade. Durante a Copa, pretendo importunar os leitores com textos diários sobre o que me chamar atenção nos jogos e na cobertura da imprensa. Afinal, é um mês inteiro com a bola no centro do mundo. Mas os demais assuntos continuarão em foco. Bom é assim: chutar pra todo lado.

Uma vitória da democracia

Finalmente o Supremo Tribunal Federal acertou uma. Depois de um longo inverno de aberrações contra direitos fundamentais previstos até na Constituição, acabou a farra das famigeradas conduções coercitivas. No fanatismo justiceiro que tomou conta da Polícia Federal e do Ministério Público, esse mecanismo virou mais uma porta escancarada ao criminoso abuso de autoridade.

 

O placar apertado de 6 a 5 reafirma a divisão que se instalou no STF. Vê-se que a ala disposta a legislar e atropelar princípios básicos do Direito segue na ativa. É um perigo permanente. São os justiceiros de toga. O quinteto populista do juridiquês. A turma da demagogia dos tribunais. Eis os celerados: Carmen Lúcia, Edson Fachim, Roberto Barroso, Luiz Fux e Alexandre de Moraes.

 

Esse grupo é o favorito da Globo para o Conversa com Bial. Os cinco vivem a passear pelo Brasil dando palestras sobre democracia. Sob essa fachada de guardiões da moralidade nacional, vomitam uma antologia de baboseiras para agradar plateias sedentas por linchamento judicial a qualquer preço. Nessa toada, Barroso e Fux são os campeões das delinquências intelectuais.

 

No julgamento do caso sobre as conduções coercitivas, a dupla repetiu o palavreado que se tornou o eixo de uma trapaça argumentativa. Para os dois elementos, assim como também para Fachim, qualquer defesa dos direitos individuais é estratégia para proteger corruptos. Isso é demagogia das grossas. Por esse raciocínio pilantra, ninguém jamais será considerado inocente.

 

Já escrevi aqui vários textos sobre o que está em jogo neste caso. Sendo repetitivo, o suposto combate a qualquer tipo de crime não pode ocorrer à base de ações igualmente criminosas. Isso é de uma obviedade escandalosa. E isso não é assim para proteger bandido. É proteção essencial a todos os cidadãos. Mas o que não falta hoje em dia é gente disposta à execução sumária.

 

O resultado de agora no STF naturalmente não põe fim a essa onda obscurantista. Patrocinada pelos que deveriam fazer o contrário, que é zelar pelo respeito às leis, a truculência de autoridades está mais firme do que nunca. Barroso, Fux e companhia encontram terreno fértil na mentalidade rasteira de figurões da política e da imprensa. É sempre mais popular defender a degola geral e irrestrita.

 

E os que agem desse modo, é claro, saltitam no picadeiro com discurso de moralistas da consciência da pátria. É o circo perfeito para todo tipo de horrores na contramão do respeito às liberdades individuais. É preciso combater essa distorção que agride valores intocáveis numa sociedade democrática. Nos últimos anos, a moda no Brasil é exatamente o inverso disso. Andamos para trás. 

As Copas do Mundo na TV e o monopólio da Rede Globo

A primeira Copa do Mundo que os brasileiros assistiram ao vivo pela TV foi a de 1970. Que estreia! Quis o destino que o novo tempo nas transmissões de jogos da nossa seleção nesse torneio fosse inaugurado com a conquista do tri. Ainda em preto e branco, as imagens direto do México representavam, por aqui, uma revolução no jeito de acompanhar uma partida de futebol.

 

Naquele tempo, bem menos da metade dos lares possuía um aparelho de televisão. Nada parecido com o apogeu que se daria nos anos seguintes. Conta a história que as confusões, brigas e rasteiras para garantir os direitos de transmissão, entre as emissoras, começaram também ali, em 70. O mal é de origem. Depois de um tremendo impasse, Globo, Tupi, Band e a antiga Record exibiram o Mundial.

 

De lá para cá, apenas duas vezes houve o monopólio da transmissão na TV aberta: em 1982 e em 2002, a Globo – é claro – exibiu sozinha os duelos pelo título mais importante do futebol. Pois agora, esta anomalia se repete. O império carioca tem outra vez o controle total do espetáculo televisivo. A única alternativa é o canal Fox, se o torcedor tiver uma assinatura de TV fechada.

 

A outra opção também fora da rede aberta é o Sportv, mas que igualmente pertence aos Marinho. Duro mesmo é se você tiver de aguentar as tenebrosas narrações de Galvão Bueno, aquela mistura irretocável de desinformação, ufanismo e cretinice. O padrão globo de antijornalismo chega ao ápice nesta Copa, com a cobertura oficialmente sob controle da área de entretenimento.

 

Veja que ironia. Em termos de monopólio da Globo, há hoje um retrocesso descomunal. Em plena democracia, a emissora domina os direitos sobre um evento como uma Copa, como não conseguiu fazer em plena ditadura. Em 1974, seis televisões transmitiram os jogos: Cultura, Tupi, Record, Band, Gazeta-SP, além da Globo. Quatro anos depois, em 1978, as mesmas seis televisões estavam lá.

 

A partir de 1986, a coisa ficou mais engraçada, com a chegada de SBT e Manchete às transmissões da Copa. As coberturas com vozes distintas, e com infalíveis doses de maluquices, seguiram até 2002, quando, como já disse, tudo ficou nas mãos de Globo e Sportv. A partir daquele ano, o negócio foi se afunilando. Até a ESPN, Band e Bandsport caíram fora este ano. É a força da grana.

 

Para quem é curioso sobre futebol, jornalismo e TV, a internet é uma janela para alguns momentos sensacionais dessa longa história. São impagáveis alguns debates (ou apenas comentários) de figuras como João Saldanha, Jô soares, Zagalo, Armando Nogueira, Luciano do Valle, Juarez Soares, Gerson, Tostão e mais uma multidão de jornalistas e personalidades do futebol que marcaram época.

 

Se tudo ficou mais profissional nas transmissões televisivas, como gostam de pensar os idiotas da objetividade, perdemos em diversidade de vozes, opiniões e linguagem – perdemos no jeito de contar os lances desse jogo mirabolante. Por falar nisso, a bola entrou em campo. Rússia e Arábia Saudita travam um duelo para o estádio lotado, num deserto de craques. E pintam os primeiros gols.

 

Só por curiosidade, vejo pela Fox, na transmissão de João Guilherme (narrador) e comentários de Paulo Vinícius Coelho, o PVC, e Zinho, campeão mundial no insosso torneio de 1994. Mas claro que, ao longo dos jogos, darei uma olhada e outra, de vez em quando, nas presepadas de Galvão e da Globo. Afinal, preciso ter informações para poder esculhambar as porcarias. Não será difícil.

Shopping center explica o Brasil

As cenas em um shopping center de Salvador traduzem um Brasil que segrega os cidadãos entre quem pode e quem não pode frequentar certos ambientes. Um menino esmolambado, que vende confeito e chiclete na porta do luxuoso centro de consumo, aborda um rapaz e pede um lanche. O baiano que recebe o pedido então leva o garoto para dentro do shopping e compra almoço para os dois. Um segurança decide que isso é vetado ali. O caso ganhou imediata repercussão nacional.

 

De fato, o que se vê nas imagens gravadas por celular e espalhadas pelas redes sociais causou tremendo impacto e gerou uma verdadeira comoção. No meio da discussão entre o cara que pretende almoçar com o menino e o funcionário, aparece um gerente (ou supervisor) que acaba apagando o incêndio. No fim da confusão, a criança senta à mesa na praça de alimentação e pode comer ao lado de seu camarada inesperado. Como explicar o que se passa nesse acontecimento?

 

Primeiro, o segurança. Ao agir com intolerância, e proibir a presença do garoto naquele espaço, ele repete várias vezes uma frase reveladora: É o meu trabalho. O que isso quer dizer? Parece lógico deduzir que ele está nos informando que está cumprindo ordens. Faz parte de seu “trabalho” zelar para que o público padrão do lugar não seja perturbado por tipos inconvenientes. (Aliás, o final feliz, digamos assim, só foi possível por causa das gravações que levariam tudo à internet).   

 

Não tenho dúvida que é exatamente isso que vigora nos shoppings do país inteiro – principalmente nos que se querem destinados à “elite”. Resistem entre nós os muros invisíveis e não declarados da discriminação mais abjeta – de cor, posição social, renda etc. E o shopping é um emblema perfeito desse apartheid tacitamente normatizado. Em Maceió, existem três desses centros. Não por acaso, aquele considerado o mais “popular” está ali na Via Expressa, nas proximidades do Benedito Bentes.

 

No extremo oposto, perto da praia e dos bacanas, instalou-se o mais suntuoso dos nossos shoppings. Ao primeiro sinal de uma presença destoante, os seguranças começam uma discreta troca de informações pelo rádio de comunicação. Quando isso ocorre, o penetra desavisado passa a ter seu percurso monitorado. Repito: o padrão é nacional. A regra é um clássico: cada macaco no seu galho.

 

Nossa tradição em discriminar é tanta que isso ocorre até ao ar livre, naquele que é tido como “o espaço mais democrático do país”, que é a praia. Embora irregular, o documentário Faixa de Areia, lançado em 2007, tem o mérito de capturar, em vários depoimentos, a tolerância zero entre muitos que gostariam de selecionar seus vizinhos de bronzeado e mergulho. Imagina no shopping.

 

Muitos engraçadinhos por aí, que se acham modernos liberais, fazem piada sobre racismo e discriminação em geral, classificando tudo como “mimimi”. O que há, para essas bestas, é o critério da “meritocracia”. Pois é. Nem precisava, mas o que acaba de ocorrer no shopping da Bahia prova que deve ser isso mesmo. O Brasil continua um belo exemplo de respeito a todos. Vai vendo!

O falso dilema da camisa amarela

Vocês devem ter lido por aí que muita gente se recusa a vestir a camisa amarela para torcer pela seleção na Copa da Rússia. A bola começa a rolar nesta quinta-feira. Já o Brasil, estreia no próximo domingo, dia 17. A torcida que rejeita o uniforme oficial diz que a peça virou símbolo máximo dos “patos”, aquela massa que foi às ruas para pedir a queda da então presidente Dilma Rousseff.

 

De fato, embora não faça parte de nenhuma igreja política, nem à esquerda nem à direita, reconheço que os engajados na Patolândia traduzem algum ideal próprio de uma piada grotesca. Sair por aí enrolado em bandeira e beijando uma peça de roupa não me parece um comportamento muito saudável. Apelar ao patriotismo sempre foi, em qualquer tempo, sinal de obscurantismo.

 

Mas torcer ou não torcer não é um caso de agora. Isso não é exclusividade dos tempos de Copa. Para um torcedor típico, desses que se exibem apaixonados por um time ou pela seleção, deve ser inexplicável que alguém se declare indiferente. Mais grave ainda, para quem vibra no êxtase da vitória ou cai no choro da derrota, é ver o sujeito torcer contra seu próprio país. Mas é natural.

 

E torcer contra não é algo ligado necessariamente a um protesto pela situação política de uma época. Também não significa menosprezo pelo futebol. Além de ver muitos jogos, acompanho com algum método o noticiário e os debates amalucados que atravessam a imprensa de ponta a ponta. Mas, ao longo do tempo, enquanto o interesse se fortalecia, a alma de torcedor foi se congelando.

 

Estrada afora, até o “time do coração” – que na verdade nunca me fez agir com fanatismo – virou vidraça. Estou mais pronto para o ataque do que para a defesa apaixonada. Vejo com certa estranheza marmanjos que perdem tempo brigando por seus times, trocando insultos ou apenas sacando piadas contra os adversários. É a parte mais sem graça nesse universo fantástico.

 

Tanto faz se, no Brasileirão, der Flamengo, Vasco, Corinthians ou Palmeiras. Ou qualquer outro. Ganhar e perder é o de menos. Espero a surpresa, o lance mais improvável, o triunfo do acaso. Hoje mesmo, vi na TV o São Paulo bater o Vitória por 3 a 0. No primeiro tempo, o meia são-paulino Nenê abriu o placar com uma obra de arte. Logo ele, um veterano que já foi vaiado por sua torcida.

 

A primeira Copa na memória é a de 1974. (Sou de antigamente). Em 1978, assisti, revoltado, ao juiz acabar o jogo com a bola em pleno ar depois da cobrança do escanteio que Zico completaria para o gol. Nunca houve um lance tresloucado como aquele. Em 1982, foi chocante ver a Itália eliminar a segunda maior seleção de todos os tempos – a primeira, claro, é a mitológica formação de 70.

 

É só um jogo de bola, dizem alguns, e é verdade. Mas futebol também é alta literatura. Eduardo Galeano, García Márquez, Albert Camus, Nelson Rodrigues. Tostão. Eis aí uma breve seleção de gênios que levam a banalidade desse jogo a dimensões do sublime. Da lista, Tostão é o único vivo. E é ele, disparadamente, o melhor texto na produção atual na imprensa brasileira.

 

Por fim, é obrigatório lembrar o incontornável: a experiência de ir ao estádio beira a epifania. Nem adianta explicar. Pensando e vivendo o futebol desse jeito, só posso entender como irrelevante o dilema de, por razões políticas, vestir ou não a camisa amarela. É apenas uma imensa tolice. Quem resume um drama existencial a esses termos, deixa claro que não entende o que está em jogo.

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