Blog do Celio Gomes

A Assembleia Legislativa à luz do dia, mas ainda nas sombras

A Assembleia Legislativa do Estado é alvo de nova investida da Polícia Federal. Investigação em andamento parece ter chegado a indícios de que naquela casa haveria fantasmas disfarçados de servidores públicos. Se confirmado o esquema, estaríamos diante de velha feitiçaria com a folha salarial do parlamento alagoano. Todos devem se lembrar da histórica Operação Taturana, de 2005, que escancarou um assalto de proporções inéditas praticado por deputados. Pegou quase todos.

 

Mas a tradição de delinquências por ali remonta a décadas. Folha paralela na Assembleia é como contrato de gaveta, com a assinatura de “laranjas” e testas de ferro. Brota como capim. A cada temporada, quando menos se espera, escapam alguns raminhos da floresta submersa. Até hoje, nenhum parlamentar foi punido na esfera judicial pelas traquinagens com o dinheiro público. Nem antes nem depois da Taturana. O novo caso, portanto, reafirma a força do antigo hábito.

 

As suspeitas de agora fizeram o atual presidente da ALE, Luiz Dantas, vir a público para se pronunciar – o que por si só é quase um milagre. Ainda assim, não falou com a imprensa, soltou uma nota. Ele nunca dá entrevista e, sempre que abordado por jornalistas, faz questão de ser claramente antipático. Sua postura é típica dos que agem como se não devessem prestar contas a ninguém. Não raramente, reage a perguntas com rispidez e menosprezo pelo desavisado interlocutor.

 

Em sua nota, o trecho que mais me chama atenção diz o seguinte: “Trabalho à luz do dia, irmanado com a legalidade e os princípios que devem nortear a administração pública. Curiosa essa imagem da luminosidade solar, do brilho do sol, como se o apelo ao clarão da natureza afirmasse com mais ênfase a lisura de suas ações. Como sabemos, a retórica indignada é quase sempre cúmplice dos fatos que tenta esconder. Se este é o caso nos dias de hoje, somente o trabalho da PF pode clarear.

 

Localizado no Centro de Maceió, de frente para uma praça, entre a biblioteca pública e a catedral católica, sobre o prédio da Assembleia o sol incide durante muitas horas, a cada dia que amanhece. Serei óbvio ao dizer, porém, que tamanha claridade bate no lado de fora, na fachada. Lá dentro, suas excelências trabalham em ambiente arejado, na sombra aconchegante. O mal é o recorrente mergulho nas trevas da corrupção. Quando isso ocorre, nem as luzes do céu barram o crime.

Mentiras que contaram pra você

A seguir, uma relação de 23 fenômenos que são tão verdadeiros quanto uma cédula de três reais. Naturalmente, o conjunto poderia ficar mais extenso que a lista telefônica. Para não cansar o leitor, apresento uma breve antologia de coisas que, embora sejam parte de nossa realidade, deveriam ser catalogadas como manifestações sobrenaturais. Ou pura ficção científica. Confira.

 

Indignação de cartolas do futebol.

 

Auditoria na Assembleia Legislativa de Alagoas.

 

Liberal na oligarquia canavieira.

 

Democracia na cabeça de um bolsonarista.

 

Serviço de Inteligência na polícia estadual.

 

Político preocupado com fake news.

 

Intelectuais independentes a serviço de partidos.

 

Vida inteligente na Câmara Municipal de Maceió.

 

Bom gosto e elegância na elite alagoana.

 

Renovação política com filhotes de coronéis.

 

Investigação com lisura pelo Tribunal de Contas.

 

Ética e notório saber jurídico no Tribunal de Justiça.

 

Poesia nos textos de Pedro Bial.

 

Professor de Jornalismo na Ufal.

 

Literatura na Academia Alagoana de Letras.

 

Convicção ideológica no troca-troca partidário.

 

A Globo preocupada com um Brasil melhor.

 

Fanáticos religiosos pregando a paz e a tolerância.

 

Revitalização do Centro de Maceió.

 

Publicitário fazendo campanha em defesa da ética e da cidadania.

 

Alternância de poder em sindicatos.

 

Filantropia na Santa Casa de Misericórdia.

 

Cinema alagoano.

Washington Francelino, um cidadão alagoano que dá uma aula ao Brasil

Um morador da Massagueira é o protagonista de um episódio que ilustra de modo acachapante a miséria da política. Por tabela, ele também expõe à perfeição o nível de nossos gestores no comando da máquina pública. Sem querer, Washington Francelino, que trabalha como vendedor em um supermercado, dá uma aula desconcertante ao Brasil. Parece exagero, mas é precisamente isso o que ocorre ali, no povoado que pertence ao município de Marechal Deodoro.       

 

Descobri a história pela TV Pajuçara, numa reportagem do jornalista Lucas Malafaia. Resumindo o que o repórter conta, na Massagueira não existem placas com os nomes das ruas; em alguns locais, as placas que existem estão apagadas; e em outras situações, ainda mais absurdas, as ruas não têm nome oficialmente registrado. Resultado: a população sofre até para pedir um remédio à farmácia, porque entregadores têm dificuldade para localizar o endereço. Alagoas no século 21.

 

Ainda segundo a reportagem, Washington tenta resolver o problema faz muito tempo – porque as consequências são realmente pesadas. As correspondências também não chegam às casas, assim como os recibos de água e energia. Outro morador conta que precisa ir buscar sua conta de energia na Eletrobras. Ou seja, a negligência escandalosa da prefeitura de Marechal provoca um gravíssimo transtorno para famílias que são tratadas como se ali não residisse ninguém.

 

Aí vem a iniciativa surpreendente do funcionário do supermercado. Incomodado com a aberração oficial, Washington tentou, primeiro, uma resposta pelas vias formais. Bateu na porta da prefeitura para reivindicar uma solução para o caso. Fez isso várias vezes, e nada. Até que desistiu de esperar pelas autoridades competentes – que provaram, neste caso, que temos de tudo aí, menos competência. Então ele teve uma ideia para acabar com a dor de cabeça de 12 mil habitantes.

 

O morador mapeou todo o povoado. Segundo seu levantamento, são 60 ruas. Em seguida, com dinheiro do próprio bolso, produziu as placas. Para afixar cada uma, em muros e imóveis, ele mesmo sai de bicicleta, carregando uma escada e o equipamento necessário na realização de sua inusitada tarefa. Nos casos de locais sem registro de nome, Washington reúne os moradores que, numa espécie de assembleia, democraticamente escolhem qual será a identificação.

 

E a prefeitura? A reportagem foi ouvir as explicações. De cara, não entendi por que o escalado para falar foi o secretário de Articulação Política. De todo modo, Luciano Vasconcelos botou tanta dificuldade para resolver a encrenca, deu tantas desculpas, que pelos meus cálculos a prefeitura planeja levar uns dez anos de estudos para cumprir sua obrigação. O homem falou até em satélite. Se o ritmo for o mesmo para todas as demandas de Marechal, a coisa tá feia por lá.

 

Massagueira é um lugar extraordinário, com uma paisagem descrita por todos, com justiça, como das mais bonitas em Alagoas. Também por isso, é o destino de ricaços nos fins de semana, que vão desfrutar de suas águas e da culinária. Imagino que o prefeito, que nem sei quem é, deve curtir isso tudo, com amigos e parentes, na hora do lazer. Sugiro que preste atenção nas ruas.

 

E quanto a Washington Francelino, deveria ser convidado a dar palestras para aspirantes a gestor e candidatos a executivo. Tem muito a ensinar sobre ação política, potência do indivíduo na sociedade e exercício direto de cidadania. Sua mensagem principal, me parece, tem a ver com o alcance de uma iniciativa que, isolada, vai muito além da vontade de um homem só. Parabéns pra ele.

Mais um belo exemplo dos togados

Desembargadores do Tribunal de Justiça do Amazonas não precisam pagar plano de saúde, nem para eles nem para seus parentes. É que o governo estadual garante todo e qualquer tratamento, nos hospitais mais caros do país. Foi o que revelou reportagem do Fantástico, na Globo, na edição deste último domingo. Os gastos superam a casa dos milhões de reais durante alguns anos.  

 

Os amigos da corte também não se preocupavam com a manutenção da saúde em dia. Qualquer espirro ou dorzinha de barriga, eles tinham à disposição os melhores centros médicos e os medicamentos necessários, não importava o preço. Afinal, a conta vai para os cofres públicos. Enquanto isso, como se vê em todo o país, a população dorme nas filas para uma consulta no SUS.

 

Um dos beneficiados da ação criminosa era o próprio presidente do TJ-AM. Tem de tudo na investigação do caso. O plano de saúde clandestino bancou tratamento para um colunista social, incluindo internação no Sírio Libanês, endereço dos enfermos da elite nacional. A conta foi de aproximadamente 800 mil reais. Isso mesmo. Todo esse valor para um único paciente.

 

Para a reportagem, a Secretaria de Saúde do Amazonas informou que cumpria ordens dos senhores do tribunal. Na verdade, era uma sociedade entre os poderes Executivo e Judiciário. Era um lavando a mão do outro, e a safadeza garantia a mamata para as duas quadrilhas. Aquilo ali mostra um método, uma centenária tradição brasileira. Com a grife luxuosa da toga.

 

Enquanto isso Roberto Barroso e Luiz Fux, duas vozes equilibradas do STF, passeiam pelo mundo denunciando a corrupção da política e das empresas privadas no Brasil. Sobre o Judiciário, nada a declarar. É tudo gente honesta. A imprensa estrangeira fala até no Governo de Juízes que toma conta de nossas vidas. Está ótimo. Basta ver o excepcional padrão amazônico.

Tempo de “calar os críticos”

O domingo que passou foi de decisão nos campeonatos de futebol pelo Brasil afora. Aqui em Alagoas, a glória de levar o título ficou com o CSA, após vencer o CRB por 2 a 0. Mas não estou aqui para debater a técnica dos jogadores nem a tática dos professores à beira do gramado. Meu interesse radical são as palavras e as ideias que agitam as cabeças e movem os corações. Por aí.

 

Ao fim de cada partida, vêm as entrevistas coletivas de atletas, treinadores e cartolas. Precisa ter estômago e paciência infinita para suportar alguns minutos de um palavreado que, espremido, não sobra nada. É um festival de redundância, mau-caratismo, pieguice e boçalidade – e tudo o mais nessa linha que você possa imaginar. Mas o melhor, digo, o pior de tudo está nos “desabafos”.

 

Vou me deter no discurso dos campeões. Neste fim de semana, salvo engano, 17 regionais chegaram ao fim. Em todos eles, tenho certeza, os vencedores tiveram, na entrevista, seu momento de “calar os críticos”. O que é isso? É a hora em que a ideia mais repetida tem como objetivo único dar àquele êxito as cores de uma odisseia de superação. E não importa que isso seja nada além de um delírio.

 

Ninguém acreditava em nosso time. Fomos criticados o tempo todo. Disseram que nosso time ia fracassar. Tiraram onda do nosso futebol. Teve um pessoal fazendo piada. A imprensa falou que o time deles era o favorito. Foi sofrido. Lutamos contra tudo. Vocês não sabem o que tivemos de superar. A família sofreu junto. Mas a gente sempre acreditou. E taí o resultado. É nós! Chupa!

 

Quais são os autores dessas reflexões que acabo de reproduzir? Aí é que está. A resposta é: todo mundo e ninguém. São frases que, de tão repetidas, ganharam vida própria. “Vida” é força de expressão; são ideias-zumbis; estão soltas no ar, sopradas ao vento, prontas a invadir nossa mente, sedenta por teses que afaguem e reafirmem nossa tola convicção de que somos únicos.

 

Somos escravos da vaidade. Não basta a vitória incontestável, reconhecida por unanimidade. Todo aplauso ainda será insuficiente para homenagear proezas que somente um ser especial é capaz de realizar. Precisamos elevar a conquista ao patamar dos feitos mitológicos. Precisamos ornamentar o enredo com os lances típicos do herói. Frases feitas para traduzir a ilusão de uma saga inexistente.

 

O exemplo do futebol vale para tudo. O mesmo tipo de discurso está na boca do ator premiado, do cantor consagrado pelas multidões, do magnata no topo dos milionários, do estudante aprovado em primeiro lugar no vestibular, do medalhista olímpico e até do político que vence a eleição. Todos, sem exceção, tiveram de atravessar barreiras infernais para chegar lá.

 

Para encerrar minhas divagações de pensador de botequim, lembro do filme 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras, obra-prima do diretor Marcelo Masagão, lançado em 2003. Espécie de ensaio sobre a futilidade, o ilusório e a morte dos valores, o filme – para além da ficção e do documentário – aponta para o triunfo do autoengano. E ainda pagamos por isso.

 

Somos assim, tão originais e exclusivos como a banalidade de cada um e de todos. Quanto a mim, sem querer me gabar, devo acrescentar o seguinte: como sou o cão chupando manga, agora vou até ali, exaltar minhas incomparáveis façanhas e calar os críticos.

Um lugar para a seita bolsonarista

Reparem como é a política. O sujeito que mais atira em Luiz Inácio Lula da Silva ficou um tanto preocupado após a prisão do petista. Sim, ele mesmo, Jair Bolsonaro estaria meio triste com o ex-presidente fora do jogo eleitoral. Qual é o drama? O presidenciável que prega violência e distribui preconceitos se sente órfão de seu alvo preferencial. Bolsonaro precisa desesperadamente de um inimigo. Essa é a sua lógica existencial – que ele aplica igualmente ao campo da política.

 

Se age de tal forma, certamente achou no eleitorado aqueles que também precisam babar de ódio para alimentar seus ideais de vida. Afinal, é com essa postura que ele enfeitiça até agora legiões de celerados que amam pulverizar tudo aquilo que lhes parece oposição. Curiosamente, como já anotei aqui, a filosofia do brucutu foi adotada por segmentos que pregam o fuzilamento enquanto clamam por Jesus. A prevalecer seus valores, teríamos uma espécie de teocracia armada.

 

Uma mistura de fanatismo e ignorância embala seus seguidores. Para defender ideias tresloucadas, recorre-se à histeria no discurso e ao primitivismo na hora de listar propostas. Em sua mente perturbada, o candidato resolve tudo na base do grito e receitas fáceis. Faz sentido. É o caminho que dispensa a complicadíssima operação que é pensar. Para sacar o fuzil e mandar bala, basta querer. É o Bolsomito. Para ele, governar o país seria tarefa mais afeita ao campo da mistificação.

 

Um dos sinais evidentes de que essa visão de mundo se alimenta da intolerância mais radical é a exaltação da ditadura militar. Seus seguidores acreditam pra valer que o Brasil foi muito melhor no regime das botinas e dos assassinatos de adversários. O que faz alguém, no pleno funcionamento do juízo, pregar tamanha obscenidade? Essa rapaziada chega a fazer piada com a barbaridade que tirou a vida da vereadora Marielle Franco. É a civilização desses crentes.

 

Sempre houve simpatia por ideias idênticas às de Bolsonaro. O sucesso de programas de TV nos quais dublês de jornalista pregam a pena de morte está aí há décadas. Bolsonaristas adoram Datena e outras vigarices de mesmo padrão. Isso sem contar a carga explosiva de insulto contra mulheres, negros, homossexuais etc., como se pode constatar em farta antologia registrada pela imprensa e na Internet. É com esse conjunto da obra que o fanfarrão pretende “dar um jeito” no país.

 

Com o inimigo favorito fora de combate nas urnas, a milícia do Jair vasculha o cenário à procura de novo alvo para oxigenar sua mórbida respiração. Não tenho candidato a nada, mas certamente há na praça alternativas à degradação definitiva, que seria o triunfo da tranqueira. Torço para que o bolsonarismo se mantenha nas sombras – que é o devido lugar de toda e qualquer seita.

Uma candidatura na hora mais errada

O marqueteiro de Marina Silva está entre o gênio e a besta. Até agora ninguém entendeu por que a ex-senadora lançou sua candidatura presidencial no mesmo dia em que Lula estava sendo preso. Não é possível que alguém tenha imaginado que o assunto Marina teria alguma repercussão de peso em um noticiário monopolizado pela saga do ex-presidente. Mas parece que ela, por alguma razão misteriosa, foi convencida do contrário. E num sábado convulsionado, surgiu a candidata.

 

Marina foi a sensação na disputa de 2010, quando concorreu pela primeira vez, ainda filiada ao PV, e obteve 19,6 milhões de votos. Quatro anos depois, na eleição seguinte, entrou na campanha como vice de Eduardo Campos, que morreu em acidente aéreo. Na cabeça da chapa, parecia certo que estaria no segundo turno, mas, depois de uma carnificina no horário eleitoral, acabou, de novo, em terceiro lugar. Ainda assim, conseguiu mais de 22 milhões de votos. Teria a mesma força agora?

 

Não é o que apontam as pesquisas realizadas até o momento. Na verdade, é um tanto complicado se obter um cenário com a devida clareza porque os levantamentos mais recentes trazem Lula como candidato, uma possibilidade hoje descartada. Sem o ex-presidente, alguns institutos mostraram a candidata na casa dos 10%. Ainda saberemos qual o impacto eleitoral com a prisão de Lula.

 

Alguns analistas consideram que o novo panorama político não sinaliza para o crescimento da ex-senadora, que aliás concorre por outro endereço partidário, a Rede Sustentabilidade, sua nova legenda, da qual é fundadora e principal estrela. Nessa nova tentativa de chegar à Presidência, tem ao seu lado a alagoana Heloísa Helena. É a combinação entre o zen e a estridência.

 

Longe dos holofotes há um bom tempo, não se sabe ao certo o que Marina pode apresentar que seja capaz de atrair, mais uma vez, o eleitorado à procura de alternativa renovadora. A impressão é de que perdeu o charme da novidade que antes foi associado a seu nome. Resta esperar pela estratégia para reacender o interesse que despertou no passado. Lançar a candidatura em data completamente inadequada não pareceu nada estratégico. Deve ter lá suas motivações insondáveis.

Juízes militantes deveriam seguir exemplo de Joaquim Barbosa

Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, do qual também foi presidente, Joaquim Barbosa é um dos mais novos filiados do PSB, o Partido Socialista Brasileiro. Sua iniciativa tem como objetivo principal ser candidato a presidente da República, embora isso ainda não esteja decidido na legenda. Barbosa avaliou mais de um convite até optar pela sigla associada ao campo da esquerda.

 

Olha aí uma notícia que é pedagógica no atual panorama da vida pública brasileira – especialmente diante da militância política que toma conta de setores do Judiciário e do Ministério Público Federal. Barbosa entrou no STF em 2003 e ficaria até 2030, quando completa 75 anos idade. Mas renunciou ao posto em 2014, abrindo mão de 16 anos de exercício do cargo de ministro.

 

A conduta do ex-presidente do STF deveria servir de modelo para boyzinhos do MPF e marmanjos da Justiça que fazem política sob a fantasia da toga. Magistrados e procuradores que trocam os autos do processo pelo circo das redes sociais cometem um atentado ao bom Direito. Atuando como agentes de tribunais de exceção, julgam e condenam pelos teclados da histeria virtual.

 

Joaquim Barbosa foi o relator do mensalão, que condenou José Dirceu e outros nomes ligados ao PT, no escândalo que explodiu em 2005. Foi a partir desse caso que o então ministro passou a ser lembrado como potencial nome com qualidades para a renovação da política. Nem entro no mérito de tal entendimento. De todo modo, ele escolheu o rumo certo ao renunciar à toga.

 

É o contrário do que fazem figuras como Marcelo Bretas e Deltan Dallagnol. O celerado juiz do Rio de Janeiro e o procuradorzinho de Curitiba representam o grau máximo de devassidão no exercício de cargos que exigem seriedade e recato. Não são os únicos, é claro, a cometer abusos em série protegidos pela força descomunal de suas corporações. Uma bizarrice que hoje é moda.

 

Apesar do bom exemplo de Joaquim Barbosa, não acalento expectativas sobre a patota do Judiciário e do MPF que escolheu a militância e maltrata a Constituição. Deltan, Bretas e assemelhados se pretendem faróis do povo, mas não passam de aberrações que afrontam os princípios de isenção e imparcialidade da Justiça. A politicagem togada segue a cada dia mais insolente.

A decisão de Rui Palmeira e ACM Neto

Seis governadores e quatro prefeitos de capital renunciaram aos cargos para disputar a eleição do dia 7 de outubro. De acordo com reportagem da Folha, dois nomes que eram dados como certos nesse grupo acabaram desistindo e vão completar o segundo mandato. São eles os prefeitos de Maceió e de Salvador. Se o tucano Rui Palmeira surpreendeu muita gente ao desistir da candidatura ao governo, mais surpreendente é o caso de ACM Neto, do DEM, na capital baiana.

 

Nos dois casos, a oposição enfrenta agora a duríssima tarefa de construir uma alternativa viável para enfrentar, em Alagoas e na Bahia, os atuais governadores. Na pátria do axé, a decisão do prefeito facilita a vida do governador petista Rui Costa. E no cenário alagoano, os mais apressados já decretaram a reeleição de Renan Filho. As duas situações também se assemelham noutro ponto: a debandada para o barco governista. É cada um brigando para salvar o próprio pescoço.

 

Como disse, o caso do herdeiro político de Antonio Carlos Magalhães é muito mais grave do que o do filho de Guilherme Palmeira. ACM Neto, informam as pesquisas, tem altíssima aprovação popular como gestor de sua cidade. Era tido como forte candidato ao governo. Além disso, é um dos caciques nacionais do Democratas e, nessa condição, tem como uma de suas missões o crescimento da legenda no país. Ainda assim, desistiu de concorrer na última hora.

 

Ao falar sobre sua decisão, o prefeito de Salvador disse que agiu “com o coração”, e que optou por completar o trabalho na prefeitura – “para deixar um legado”. Ele comentou ainda que é jovem, tem 39 anos, e pode disputar o comando de seu estado mais adiante. Aqui, Rui Palmeira tem 41 anos e, penso eu, também não precisava de açodamento, ao menos sob esse aspecto da idade. Pode adiar para 2022 uma candidatura ao Palácio dos Palmares. Não é o fim do mundo. 

 

Claro que a decisão de ambos provoca estragos, sérias consequências políticas entre os aliados. “Vamos ter que recomeçar as conversas do zero”, afirmou à Folha o presidente do DEM em Alagoas, Thomaz Nonô. Mas o cálculo eleitoral não é tudo. Escrevi aqui, mais de uma vez, que o melhor caminho para o prefeito de Maceió era ficar no cargo e terminar a jornada de oito anos. Sua posição não o diminui, é exatamente o contrário. Vamos ver qual será o seu legado.

Troca-troca no mercadão político e o “liberalismo moderno” de Bolsonaro

Enquanto o Brasil prestava atenção ao caso Lula, a sexta-feira, 6 de abril, também foi dia de fechamentos de acordos, propostas de compra & venda e lances ousados no leilão republicano da política. Acabou o prazo oficial para mudança de legenda a tempo da eleição de outubro. A última informação que vi era de que uns 60 deputados federais trocaram de bando. Todos eles – e nem seria preciso dizer – movidos exclusivamente por altruísmo e convicções ideológicas.  

 

Até onde sei, os partidos que mais atraíram desertores de outras legendas foram o DEM e o PSL. Vejam que dado sintomático! São duas agremiações no campo da direita. Nada existe por ação das divindades, naturalmente. O Democratas tem como sua estrela de maior brilho o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Já o PSL é o covil chefiado por Jair Bolsonaro. Sinal de que o país avança.

 

Amigos com mais estômago que eu para enfrentar o debate sobre a política alagoana me dizem que por aqui a mudança de lado, assim como nos demais estados, também foi intensa. Confesso que não tive paciência para destrinchar as múltiplas frentes no vaivém de nomes nos casamentos e divórcios em nossa paróquia. Sei que houve de tudo e mais um pouco para selar rentáveis alianças.

 

Esgotou-se também o prazo geral para filiações de todo aquele com intenções de disputar a preferência das urnas. Por isso, empresários, jornalistas, advogados, sindicalistas, professores, profissionais liberais e gente de muitas áreas engrossaram os números de adesão a um partido político. Agora todos estão aptos a cair em campo nas maquinações de uma candidatura.

 

Retorno à direita. Como disse acima, um dos partidos que mais se beneficiaram com novas filiações foi o PSL de Bolsonaro. E essa onda tem uma marola também na praia alagoana. Acabo de saber que empresários por essas bandas estão fascinados com o pensamento liberal – moderno e renovado – que enxergam no deputado adepto da filosofia do fuzil. Parem as máquinas!

 

Esses liberais homens de negócio já foram vistos em passeatas à beira-mar, embrulhados no verde e amarelo da bandeira nacional, ornamentada com uma cruz. São chefes de família, penitentes cristãos e zelosos patriarcas do lar. Também são chegados a um 38 – para defender seus nobres princípios. E haja modernidade nessa abadia! De fato, a eleição que vem aí tem tudo para salvar o Brasil.

 

Eu teria mais coisas a dizer sobre essa renovação na vida pública brasileira. Mas prefiro aguardar por mais informações sobre esse bloco empresarial alagoano – que reza para Jesus e acende velas para o saudável espírito bolsonarista. Estou ansioso para conhecer avançadas lições de tiro e catecismo.

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