Blog do Celio Gomes

Vivemos no paraíso

Se melhorar, estraga! No primeiro dia de 2018, recorro a um velho provérbio para falar sobre as condições de vida em Alagoas. (Não é bem isso, mas tentarei explicar melhor). Como você sabe, aplica-se o enunciado que abre este texto quando uma determinada situação é tão perfeita, mas tão perfeita, que dispensa qualquer tipo de aprimoramento. Isso é possível?

 

Sim, é possível que tudo esteja num grau de perfeição irretocável. É o que se vê na paisagem alagoana, incluindo aí todos os municípios do interior e a capital de tantas praias. Mas, antes que o leitor aponte sinais de delírio nas ideias do blogueiro, esclareço: Maceió e Alagoas chegaram ao paraíso, sim, como está amplamente demonstrado na publicidade oficial.

 

Nos últimos dias do ano que passou, governo do estado e prefeitura da capital desencadearam novas campanhas de propaganda. E o que vemos? Verdadeiros contos de natal com final feliz. Saúde, educação, segurança, transporte, saneamento... É uma maravilha. Antes da eleição, governador e prefeito disputam o troféu de melhor direção de filmes publicitários. O páreo é duríssimo.

 

As peças de divulgação oficial reproduzem um discurso padronizado. Na política, governador e prefeito exibem suas diferenças – seja nas ideias ou no estilo de agir e governar. Na linguagem publicitária, porém, Renan Filho é igual a Rui Palmeira. Isso ocorre porque, no campo da propaganda, prevalece a maquiagem total – sobre as ruas, os prédios e as pessoas.

 

Para nos convencer de que vivemos num paraíso, marqueteiros têm na tecnologia o parceiro mais festejado nesse negócio. Muitos sorrisos, lindos cenários e palavras quase ufanistas marcam os anúncios. Na captação de imagens, pode-se dizer que a chegada dos drones afetou para sempre a cabeça dos sabidos em marketing. Por isso, a farra das cenas aéreas. É coisa de enjoar.

 

Com orçamento milionário, as agências contratadas pelo poder público dedicam-se com esmero à fabricação de um mundo paralelo, aquele lugar em que todos os males sumiram, nada mais é problema, tudo está uma beleza. O perigo dessa operação é o exagero. A coisa é tão retocada, recebe tantas camadas artificiais, que pode gerar efeito contrário: revelar um monstrengo.

 

Não sei. Difícil imaginar avanços de verdade quando pensamos na lógica dessas propagandas que afrontam nossa inteligência e desafiam a vida real. Seria necessário transformar isso de algum modo. Porque, afinal, é muito esforço, muita gente mobilizada, muito talento e muito dinheiro – e tudo isso para nos contar um bocado de lorota. Tem algo errado aí. É ou não?

 

(Calendário não passa de calendário. Ainda assim, torço para que você viva fortes acontecimentos em 2018. Com plena liberdade, eu espero continuar escrevendo aqui, pensando sobre tudo e qualquer coisa. De preferência, na contramão do bom-mocismo, do que é moda e das ideias consagradas. Se não for assim, não tem graça nenhuma. Até já).

Notícias exclusivas de dezembro

Impossível ser indiferente ao jornalismo típico da época do ano. A cada doze meses, dezembro escraviza as redações com as pautas que se impõem aos jornalistas com o selo implacável de obrigatórias. No momento em que escrevo, estamos sendo informados sobre os mesmos assuntos de anos (e décadas) anteriores. Do movimento nos terminais rodoviários à aventura dos engarrafamentos nas rodovias, tudo ganha números festivamente grandiosos.

 

Aliás, se as reportagens têm, praticamente todas, uma abordagem que podemos chamar de festiva, isso não é força de expressão ou figura de linguagem. O jornalismo não sabe o que fazer diante da exigência mortal de tratar dos mesmos assuntos. Exigência mortal porque no geral não se consegue escapar das armadilhas da repetição. Se o assunto é o mesmo, a linguagem é redundante.

 

Qualquer bobagem com motivos natalinos é alvo de longas matérias, com personagens enquadrados em enredos previamente definidos como eixo da cobertura. No caso da TV, ainda temos as peripécias de criativos repórteres, sempre rápidos em velhos trocadilhos supostamente engraçados, o que mostra o nível de texto no telejornalismo do país. Em dezembro, tudo isso fica mais grave.

 

Papai Noel. Viagem ao litoral. Compras no shopping. Troca de presentes. Ceias. Confraternização. Escolha do cardápio. Escolha da roupa. Paz. Solidariedade. Balada. Fogos coloridos. Promessas. Reencontros... Coisas reais e coisas da imaginação. Os assuntos de sempre, sempre na mesma época, o fim do ano. E por toda a imprensa, a opção pelo mais fácil: uma fórmula universal.

 

(O leitor poderia me acusar de estar à procura de assunto neste fim de ano. Daí um texto como este, que não é exatamente sobre alguma coisa ou algum acontecimento em particular. Faz sentido. Mas creio que não é disso que se trata aqui. De fato, na hora em que escrevo faltam somente dois dias para 2018. É, talvez escreva um texto sobre o ano que acaba. Ainda dá tempo).

O prefeito Rui Palmeira contra o Tribunal de Contas do Estado

Dentro e fora da prefeitura de Maceió, entre os aliados e também entre seus adversários, a pergunta que todos se fazem é: ao acusar publicamente o Tribunal de Contas, o prefeito Rui Palmeira acertou em cheio ou cometeu um erro grave no que se chama, às vezes, de xadrez político? Sendo um ignorante acerca de bastidores do poder – neste e em qualquer outro caso –, digo não parecer fácil cravar uma resposta definitiva. E há sempre a alternativa de nada acontecer.

 

Comento, como o leitor já sabe, o episódio em que o prefeito da capital acusou a presidência do TC de atuar politicamente ao retardar uma certidão solicitada pelo município há 80 dias. Rui afirma que a conselheira Rosa Albuquerque, atual presidente do colegiado, cumpre ordens do irmão, o deputado estadual Antonio Albuquerque. Segundo o prefeito, a certidão é necessária para a liberação de um empréstimo que será investido em grandes obras na cidade.

 

Não é a primeira vez, nem será a última, que um gestor público acusa alguma instituição de trabalhar contra os interesses da sociedade. É uma acusação realmente grave. Pelas palavras de Rui, no caso concreto de agora, o TC estaria segurando o documento para prejudicar deliberadamente sua gestão – o que significa enfraquecer politicamente o prefeito. Nesse quadro, entra a eleição 2018 – e quem se beneficia é o governador Renan Filho. Não vou nem falar dos milhões do empréstimo.

 

Dada a gravidade da denúncia, suponho que o prefeito não decidiu fazer o que fez de uma hora para outra, sem se dedicar a momentos de indispensável meditação. Suponho também que a iniciativa de partir para o ataque jamais ocorreria sem o apoio de aliados importantes e sem o incentivo de conselheiros confiáveis. Ou não é assim no feijão com arroz da política? Ao contrário de um gesto intempestivo, a tacada do prefeito foi, em tese, resultado de algum planejamento.

 

Como era de se esperar, a presidência do TC reagiu falando grosso. Chamou de “irresponsáveis” e “levianas” as acusações feitas por Rui. Vamos ver o que virá nos próximos dias. Reta final do ano, entre árvores de natal e cretinices publicitárias, a tendência é a pauta mergulhar. Agora todo mundo só pensa na confraternização universal. O mais provável é que em janeiro, pós-virada, as peças do jogo reapareçam em novas posições. (É complexo. Talvez volte ao tema. Por enquanto, é isso).

Quando direita e esquerda se unem – e por que isso é uma bobagem

Pode até parecer meio estranho, mas, em grande medida de nossa existência, não importa nada a ideologia que você abraçou para viver. Porque existem opiniões, preferências e escolhas capazes de unir todas as tendências. Ou quase todas. A unanimidade talvez seja mais comum do que se pensa. Mas não digo tudo isso para defender teses rebuscadas e misteriosas. Falo do intercâmbio – vertiginoso e alucinado – de manifestações rotineiras sobre o tudo e o nada. Abaixo, exemplos de como a direita e a esquerda andam juntinhas, seja contra ou a favor, quando certos assuntos estão em pauta. Por ódio, por amor ou por conveniência, esquerda e direita estão de rolo. Vamos ver.

 

O primeiro exemplo de casamento perfeito entre tolerantes, intolerantes e delirantes é Gilmar Mendes. Talvez ninguém seja tão alvo de porradas e piadas do que ele. Pega bem mirar o “repugnante” ministro do STF. Gilmar apanha de um lado, de outro e do meio. Detoná-lo é uma espécie de atestado de postura ética. Não importam suas decisões. Está decretado pelo bom-gosto intelectual que o homem é um pária sem chance de recuperação. Eu lamento um pouco esse quadro, por uma razão específica: ainda que ele acerte, o medo da histeria coletiva abafa o necessário reconhecimento do acerto. Há um componente de covardia na parada.

 

Cabeça a cabeça com Gilmar, claro, está Michel Temer. Todos os bons pensadores do país – da esquerda e da direita – condenam seu governo de ladrões e incompetentes. O presidente mais impopular da história tem o desprezo também do mundo cultural, cujo arco vai de Chico Buarque a Fausto Silva (o Faustão), passando por Gregório Duvivier e Fernanda Lima. Assim como o ministro do STF, Temer é um tipo de vírus letal contra a boa imagem dos indignados, de um extremo ao outro da guerra política. É mais um casamento perfeito entre os revoltadinhos de todas as cores.

 

Agora um caso muito curioso. Antes guru de uma suposta direita esclarecida, o jornalista Reinaldo Azevedo caiu em desgraça por alguns textos em que defende pontos de vista teoricamente simpáticos à esquerda e, especificamente, ao PT. Com isso, antipetistas fanáticos se juntaram aos petistas de carteirinha no ódio mortal ao jornalista. O autor de O País dos Petralhas é visto agora, por seus antigos fãs, como um corrompido pelas ideias comunistas que ameaçam nosso amanhã. Aqui, um processo realmente grave de profunda metamorfose no que antes se manifestava como a mais pura convicção. Falo naturalmente do ataque a Reinaldo. De seu lugar, ele continua o mesmo.

 

Os dois lados gostam de ressaltar suas diferenças no mundo da cultura e da arte. Mas não podem negar o vasto campo de harmonia entre direitistas e esquerdistas, a depender da obra ou do artista em debate. Um exemplo pra lá de eloquente de como os extremos se abraçam na mesma opinião é Pablo Vittar. A moda das últimas semanas é destruir a cantora. O esporte favorito de todos os sabidos quando se fala em arte é explicar em detalhes, de A até Z, o fiasco da voz da menina que canta Todo Dia. E o discurso tem sempre aquele cacoete de superioridade, sabe como é? Variáveis de caráter, como boçalidade, não têm mesmo ideologia; ou, de outro jeito mas com o mesmo resultado, ideologicamente, um boçal pode estar de qualquer lado, da ponta direita à ponta esquerda.

 

Há muito mais sobre essa relação de zelo e desprezo entre gloriosos atores e princípios do pensamento político, digamos assim. O que sei é que o mais difícil é tentar pensar sem pagar tributo a esta ou aquela corrente de ideias. Quanto a chegar ao ponto de romper amizades por causa de tranqueiras como PT e PSDB, não é comigo. Nem consigo entender como isso é possível. Jamais tive, e nunca terei, esse engajamento em níveis escandalosos por nenhuma causa. O que é fatal, o que realmente interessa na vida, está em outra dimensão. Só não sei o que é. Você acha que sabe?

Uma jornalista da Globo com medo de fazer turismo em Alagoas

Não tenho certeza se foi em 1996 ou no ano seguinte. Do episódio, porém, lembro bem. A respeitada Alice Maria, mandachuva no jornalismo da Rede Globo naqueles tempos, fez uma consulta inusitada a Márcio Canuto, então diretor de jornalismo da TV Gazeta. Ele me relatou a história um tanto surpreso. Eu era o chefe de redação no departamento. A consulta era sobre uma viagem a Alagoas.

 

Um parente da jornalista estava escolhendo um roteiro de passeio pelo Nordeste. Pensou em conhecer Maceió. Ao saber das intenções, Alice ficou preocupada com a segurança da pessoa de sua família. E qual era o motivo dessa preocupação? Sim, eram as notícias sobre a onda de violência que assolava o estado. Márcio Canuto ouviu então a pergunta: “É seguro visitar Maceió?”.

 

O dilema do turista daquela ocasião – visitar ou não visitar a capital alagoana – estava longe de ser uma postura isolada. A imprensa nacional não passava um dia sem falar do que ocorria por aqui. Em pleno fim do século 20, nossa fama de terra violenta estava no topo como poucas vezes ocorrera. Lá fora, associada a Alagoas, a palavra que mais se ouvia era “pistolagem”.  

 

A má fama não surgira do nada. Ali, entre 96 e 97, para ficarmos nos casos de maior repercussão, estávamos nas manchetes com três pautas medonhas: o assassinato de PC Farias, o assassinato de Silvio Vianna (da Secretaria da Fazenda) e a explosão da chamada gang fardada, chefiada pelo temido tenente-coronel Manoel Cavalcante. Tudo isso no meio de uma crise política tenebrosa.

 

Foram muitas as notícias de cancelamentos de viagens para Alagoas devido ao clima generalizado de lugar perigoso. Como tudo tem uma vertente de comédia, houve até uma ideia idiota de se organizar uma passeata de protesto contra a cobertura da imprensa “forasteira”. Sabe aquela história de punir o mensageiro pela mensagem ruim? Era exatamente isso. Deu em nada.

 

Desde aqueles fatos, em duas décadas o estado alcançou a liderança na taxa nacional de homicídios. A diferença em relação aos anos 90 é a presença do componente político em vários crimes do passado, como nos três casos que citei acima. Eis que agora, de repente, um pouco daquela abordagem apareceu em algumas reportagens de grandes veículos sobre os atentados em Batalha.

 

Como se sabe, num intervalo de um mês dois vereadores foram assassinados no município sertanejo. Dito assim, parece mesmo que voltamos aos tempos da pistolagem e dos jagunços agindo livremente numa terra sem lei. O governo estadual garante que não. A polícia ocupou Batalha e promete que as investigações logo vão elucidar os crimes. Até agora, nada se esclareceu.

 

Violência política e crimes de mando estão no DNA alagoano, não se pode negar. É História. Que as autoridades atuem com rigor – dentro da lei – para evitar um retrocesso que seria absolutamente trágico. A imagem nacional do estado, seja ela qual for, não é culpa da imprensa. Jornalismo camarada e jogadas de marketing nunca mudarão nada. No máximo, operam ridículas maquiagens.

 

(Sobre a desconcertante consulta da jornalista da Globo, vinte anos atrás, Márcio Canuto respondeu que achava tudo exagerado e, sim, o turista iminente poderia vir conhecer nossas praias numa boa. Eu concordei com o diagnóstico, mas não lembro se a pessoa se convenceu). 

 

Pós-escrito, horas depois: Relendo o texto, fiquei com uma incômoda desconfiança. Talvez o leitor veja uma imprecisão, ou até mesmo um equívoco de ordem gramatical na penúltima linha. Lá está escrito o turista iminente poderia vir conhecer... A desconfiança: o leitor pode pensar que eu quis dizer turista eminente, no sentido de “relevante”. Esclareço que não. Usei o termo para falar do “quase” turista. (Na verdade, não sei se isso tem alguma importância. Mas achei melhor registrar).

 

Uma retrospectiva do agora

Como não tenho paciência – pelo menos por enquanto – para organizar uma lista com os fatos marcantes do ano, estava aqui pensando nos assuntos que agitam o Brasil nas últimas 24, 48 ou, no máximo, 72 horas. Mais ou menos isso. Apesar de escolher uma faixa tão curta de retrospectiva, não é exatamente fácil fechar uma seleção, dado o volume de acontecimentos que estremece o brasileiro a cada minuto. Como diz aquela velha canção, quem lê tanta notícia? O espanto na pergunta de Caetano Veloso tem 50 anos e, vamos reconhecer, ao formulá-la ele foi ao mesmo tempo atual e profético. Dito isto, vamos aos fatos que realmente interessam à opinião pública.

 

O ministro do STF Gilmar Mendes suspendeu a prática de condução coercitiva, que virou moda entre os rapazes do Ministério Público e da Polícia Federal. A decisão provoca chororô entre os fanáticos da Lava Jato e seguidores do guru Sérgio Moro. Para não variar, o ministro está certíssimo.

 

Outro ministro do STF, dessa vez Edson Fachin, mandou para a cadeia o deputado Paulo Maluf. O dado mais chamativo de tal decisão é seu atraso. Pelo conjunto da obra, o homem deveria ter sido trancafiado há pelo menos trinta anos. Prendê-lo agora soa quase como uma inutilidade. Maluf não é mais nada na política brasileira. Quando tinha poder, foi deixado em paz, em plena liberdade.

 

Enquanto Maluf entra, Garotinho, o ex-governador do Rio de Janeiro, sai. O marido de Rosinha ganhou liberdade também por decisão do ministro Gilmar Mendes, só que agora na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Se você tem uma queda para o legalismo, o que significa cumprir a lei, aqui Gilmar também acertou.

 

Para eliminar a urucubaca no Palácio do Planalto, um pai de santo aplicou um passe no presidente Michel Temer. Paramentado, com ramos de uma planta desconhecida em mãos, o homem invadiu o palco de uma solenidade do PMDB e garantiu que Temer é vítima de “macumba do PT”. Foi exótico, é verdade, mas a política brasileira tem uma longa tradição de convivência com o além.

 

Agora deixemos a política e a polícia de lado, para falar de cultura, que é mais engraçado. Novo clip da cantora Anitta mostra ao mundo o que é que a brasileira tem. Vai Malandra é o título de mais uma música destinada à posteridade no cancioneiro nacional. A repercussão é tanta que abriu um debate em várias frentes – do feminismo à afrodescendência. Caso sério!

 

MC Livinho, uma estrela ascendente do funk, que não sei quem é, tem participação cancelada no The Voice após agredir um fã no meio de um show. Revoltado com seu afastamento da atração global, agora ele prega boicote ao programa. Não sei o resultado da convocação feita pelo artista, mas o páreo é duro: ficamos do lado da TV Globo ou do nervosinho? Eis o drama.

 

Numa cena de novela da Globo, a altura errada de um vilão “vira piada e viraliza nas redes sociais”, informam todos os grandes meios de comunicação do país. Aí já é demais. Fico por aqui, diante de tantos fatos cruciais que não param de ganhar as manchetes. Daqui a pouco, essa retrospectiva instantânea estará defasada. Porque nosso oxigênio é a novidade. É ou não é?

Velhos problemas, nenhuma solução

A vida pública e o mundo da política de vez em quando nos surpreendem, mas em regra as estripulias que vemos por aí, em boa parte, repetem velhas presepadas. Pensei nisso vendo o noticiário sobre a tal polêmica com os radares eletrônicos, também conhecidos como pardais, espalhados no trânsito de Maceió. Eis aí um tema que vai e volta – e não sai do lugar.

 

Em janeiro de 2005, ao tomar posse no primeiro mandato de prefeito da capital, a ação inaugural do eleito Cícero Almeida, hoje deputado federal, foi desativar os radares que haviam sido instalados na gestão de sua antecessora, a então prefeita Kátia Born. Bem ao seu estilo, Almeida subiu numa escada encostada num poste e, ele mesmo, desligou um dos equipamentos.

 

Era o “fim da indústria das multas”, anunciou o prefeito, repetindo uma das acusações que fizera à prefeita que saía, durante toda a campanha. Mais de uma década depois, aí está a Justiça determinando que a prefeitura desative os radares. Sobre a atual gestão do município, a mesma acusação de usar o serviço apenas para reforçar o cofre. É ou não é a mesma ladainha?

 

O mesmo ocorre com a chamada Zona Azul, a cobrança por estacionamento rotativo nas ruas de Maceió. Isso já vigorou – vejam só! – lá na primeira metade da década de 1990, ou seja, há mais de 20 anos. Pois no começo de 2017, a prefeitura anunciou a volta do serviço, como se fosse uma tremenda novidade. Em maio, suspendeu tudo por recomendação do Ministério Público de Contas.

 

Para não esticar muito a conversa, citarei mais dois exemplos de notícias que, embora tratem de assuntos de hoje, reproduzem na verdade pautas velhíssimas. Vejo na TV a imagem de juízes fazendo vistoria no presídio Baldomero Cavalcanti. Resultado: detentos denunciam condições precárias lá dentro e maus tratos. Quantas vezes vi isso na imprensa alagoana? Perdi a conta.  

 

Outra bomba que pauta nossos repórteres investigativos é a superlotação nas maternidades Santa Mônica e Hospital Universitário. As duas unidades não se entendem sobre o atendimento das gestantes com gravidez de alto risco. As autoridades, claro, prometem soluções imediatas. O primeiro passo é uma reunião de emergência. Depois, novas reuniões. E assim vai, até a próxima crise.

 

Se fizer um breve levantamento, você pode listar outros temas. Garanto que a relação será interminável. A gestão pública, como disse, é tão inesperada quanto previsível. Claro que a imprensa deve noticiar, afinal, os mesmos problemas se repetem de modo obsessivo. O inquietante é a naturalidade com a qual tratamos de problemas remotos como explosivas novidades.

 

Seja como for, é inescapável concluir que encrencas insolúveis atestam, a cada temporada, aqui e ali, a tremenda faixa de incompetência generalizada de nossos gestores. Por isso, e como não acredito em mágicas e milagres, nossa perspectiva definitivamente está longe de ser das melhores. Em alguns casos, diria até que estamos preparadíssimos para os próximos passos – todos para trás.

Deus é de direita – e está na moda

Do falatório debiloide e da troca de impropérios entre supostos intelectuais ou dublês de analistas políticos, nem o Altíssimo escapou. Se você reparar bem, defender a crença em Deus virou, para muitos, mais um atalho para proselitismo e exposição de vaidades que nada têm a ver com religião. Não tenho dúvida, estamos diante de uma novidade dos tempos atuais. Acho tudo meio engraçado.

 

Tenho a impressão de que a fixação no Pai de Jesus dá tanto ibope nas redes sociais quanto a troca de nudes entre os internautas. Descobri, por exemplo, que há uma legião de indignados com o Porta dos Fundos e com o Zorra (da Globo) por fazerem piadas com toda a família sagrada, incluindo Nosso Senhor, Nossa Senhora, apóstolos e profetas. Os ofendidos pregam boicote a esses programas.      

 

O lado mais previsível no fanatismo coroinha é a hipocrisia. Pelo nível de argumentação de alguns textos que vi por aí, resta evidente que estamos diante de figuras adeptas de um velho jogo duplo: rezam sob os holofotes e pecam a valer nas quebradas protegidas pelas sombras. Evidente também é a fragilidade argumentativa dos que se querem crentes até dormindo.

 

Como se sabe, atribui-se ao marxismo a ideia de que a religião seria o ópio do povo. A tese anda em baixa faz muito tempo, mas até que explica, em parte, a guerra santa deflagrada hoje em dia entre direita e esquerda. Sim, porque tudo acaba nesse duelo ideológico – que sempre existiu, mas ganhou cores renovadas, ou seja, em variados tons de rabugice, ignorância e bobagens infinitas.

 

Nessa rasa disputa de ideias, diante de tantas manifestações equivocadas, todos os dias e nos mais variados ambientes, não há como negar outra evidência: os seguidores dos mandamentos católicos fazem suas orações ajoelhados à direita do Divino. Nada de errado com isso. Cada um com sua escolha. Problema é a politização dos radicais no exercício de suas crenças. Ou crendices.

 

Outro dado particular na exaltação e defesa de Deus é uma tentativa de justificar a fé com retórica pretensamente erudita. Tentativa tosca e fracassada. E tome citações de meio mundo de autores, lidos de orelhada ou via Google. Pensadores cristãos nunca foram tão assediados moralmente quanto se vê agora por esses festivos ativistas do Rei dos reis.

 

A bíblia cristã é uma leitura fascinante. Sua importância histórica e literária está acima de controvérsias. Para além das versões convencionais, que se encontram aos montes, vários de seus livros ganharam no Brasil traduções feitas por ensaístas e poetas. Cito dois exemplos magistrais: o Eclesiastes, segundo o grande Haroldo de Campos, e O Livro de Jó, vertido ao português por José Elói Ottoni.

 

Mas a tropa dos homens de fé, que anda por aí caçando hereges até dentro de museus, não entende nada sobre quase tudo, menos ainda sobre literatura. A obsessão dos pregadores é espalhar suas rezas e combater o perigo do avanço da esquerda – o que significa combater o capeta. Porque se Deus é de direita, o coisa ruim só pode ser um esquerdista dos infernos. Ave Maria!

Procuradores e juízes candidatos

Inspirados pelas ações carnavalescas – e muitas vezes arbitrárias – da Lava Jato, magistrados e procuradores do Ministério Público, pelo país inteiro, namoram o caminho das urnas nas eleições de 2018. Para ter votos, falta combinar com os russos, como diria Mané Garrincha. Mesmo assim, tais autoridades estão cada vez mais buliçosas diante do que consideram uma boa chance de chegar lá. Querem mais poder.

 

O suspeito trânsito entre essas categorias – Justiça, MP e política – não é propriamente uma novidade. Há muitos detentores de mandato por aí afora que, na origem profissional, atuavam como promotores ou juízes, até que foram seduzidos pela nobre missão de representar o povo. Em Alagoas mesmo, um ex-chefe do MP hoje é prefeito no interior. Outros membros da instituição, em outras épocas, também abraçaram o ideal da política.

 

Se a chamada judicialização da política está na ordem do dia, o caldo pode engrossar ainda mais com as virtuais candidaturas dos senhores togados. Também por essas bandas, o nome mais vistoso apontado como eventual candidato é o do próprio procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça. Com ligações orgânicas no mundo partidário, o atual comandante do MP alagoano vai sondando alianças com indiscreta desenvoltura.

 

Essa nova realidade na vida pública brasileira transforma a disputa de 2018 numa eleição de variáveis inéditas. Jamais houve um período de campanha eleitoral tão dominado por fatores judiciais como o que teremos no próximo ano. É aí que os guardiões da lei e da ética entram com tudo na caça por um mandato. Se der errado, voltam ao lindo trabalho de combate à corrupção.

 

No país em que até uma porcaria de filme tenta vender togados e policiais como heróis, está tudo dentro da lógica hoje dominante em boa parte dos diferentes setores da sociedade. Mas, na vida real, heroísmo e santidade só existem na cabecinha de inocentes ou na mente esperta dos ansiosos pré-candidatos dessa turma. Valem-se de mistificações para emplacar seus projetos pessoais.

 

Para fechar esse breve comentário, lembro que um dia desses a patota do Ministério Público Federal deu mais uma entrevista coletiva, no Rio de Janeiro, com um objetivo preciso: orientar a escolha do eleitorado. É a nova modalidade do antigo voto de cabresto, uma filosofia política antes atribuída aos velhos coronéis dos confins do país. Como se vê, as coisas sempre podem piorar um pouco mais.

Os votos de Lula e os nordestinos

A sobrevivência política do ex-presidente Lula, ainda com intenções de voto suficientes para ganhar uma eleição, deve-se aos miseráveis e desinformados eleitores do Nordeste. É o diagnóstico recorrente em colunistas da chamada grande imprensa. Por essa visão, se dependesse do pensamento avançado do Sul e Sudeste, Lula estaria morto para qualquer disputa.

 

O problema, para esses dublês de analistas políticos, é que a realidade eleitoral em lugares como Rio, São Paulo e Minas Gerais não combina com a avaliação que fazem sobre as diferenças entre as escolhas das populações. Um ótimo exemplo da inteligência nas bandas de lá foi a eleição municipal do ano passado. Em três grandes capitais, três bombas levaram a prefeitura.

 

Os esclarecidos paulistanos entregaram o comando da maior cidade do país a um aventureiro, um deslumbrado que mais parece um boneco fabricado por publicitários. João Doria é uma farsa em todos os sentidos. Já o esperto eleitor carioca preferiu outra potência intelectual e ética para governar o mais badalado cartão-postal do país: Crivella, o bispo da Universal, emplacou sua reza.

 

Para completar o trio de bagaceiras, Belo Horizonte elegeu para prefeito um notório cartola do futebol, Alexandre Kalil, dono de uma bela ficha de serviços prestados ao submundo da política mineira. Kalil é populista, ignorante e truculento. Mas ninguém por lá viu problemas em entregar os cofres e o destino da cidade a uma figura acima de qualquer suspeita como ele.

 

Quando se assanham em elucidar o comportamento do eleitorado nordestino, tratado como um bando de analfabetos em suas teses, vozes de peso na imprensa parecem esquecer os dados citados aqui. Nenhuma palavra sobre as aberrações eleitas pelos cidadãos nos grandes centros do país. Quando se trata de Lula, no entanto, são rápidos no gatilho.

 

Todas as pesquisas apontam Lula como favorito na eleição de 2018. Saco de pancadas em tempo integral nos últimos anos, sua força eleitoral é mesmo um assombro – e um desafio para quem pretenda explicar o fenômeno. Por enquanto, o palavreado dominante entre colunistas afamados passa longe de ideias e hipóteses reveladoras. Até agora, falta originalidade e sobra preconceito.

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