Blog do Celio Gomes

Sindicato critica prisão de jornalista

O leitor confere a seguir a nota do Sindicato dos Jornalistas e da federação nacional da categoria sobre o episódio que sacudiu bastidores do mundo jurídico em Alagoas. Estou falando, é claro, da prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira. Depois de 24 horas encarcerada por suposto crime de calúnia e difamação, ela foi solta no fim da tarde de ontem (quarta-feira 25). Cobrei uma manifestação oficial das entidades que defendem o exercício do jornalismo. A nota abaixo foi divulgada em redes sociais e no site da Fenaj. A redação do texto é anterior à soltura da jornalista.

 

NOTA OFICIAL

 

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Alagoas (Sindjornal) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) vêm a público cobrar do Poder Judiciário, os devidos esclarecimentos sobre a prisão preventiva da blogueira Maria Aparecida de Oliveira, ocorrida ontem (segunda-feira, 23) acusada de coação à vítima, o procurador-chefe do MP/AL, Alfredo Gaspar de Mendonça, em processo movido pelo Ministério Público Estadual.

De antemão, enquanto o Sindjornal aguarda as devidas explicações, reafirma o seu compromisso intransigente na defesa dos direitos constitucionais à liberdade de expressão e de informação. Ao mesmo tempo, se coloca à disposição de Maria Aparecida de Oliveira para garantir o seu amplo direito de defesa.

O fato é mais preocupante por ocorrer num momento em que o Brasil vive um clima de incertezas jurídicas e com liberdades individuais sendo cerceadas. A medida tomada pelo Judiciário Alagoano contra a blogueira causa estranheza por ser exagerada e apressada, já que se poderia aguardar o julgamento do processo sem submeter a ré à medida extrema de prisão.

O  Sindjornal  e  a  Fenaj  reiteram  seus  compromissos  históricos  com  a democracia,  a  liberdade  de  imprensa  e  o  jornalismo  comprometido  com  a verdade e a ética.

SINDICATO DOS JORNALISTAS DO ESTADO DE ALAGOAS

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS – FENAJ

Contra tiranetes e brutamontes, a liberdade de pensar e escrever

O governador do Maranhão, Flávio Dino, acaba de ser flagrado num caso grave de distorção do papel das instituições de Estado – que devem agir sob o inafastável princípio da impessoalidade. Pelo que se viu na imprensa nacional, ele tentou transformar as forças de segurança em instrumento de perseguição política em ano eleitoral. A ordem era para que a Polícia Militar partisse para cima das oposições. Com a revelação da criminosa iniciativa, ele jura que nada tem a ver com o escândalo.

 

A peripécia do governador é um exemplo da tentação que acomete todos os chefes do Poder Executivo, em qualquer esfera da vida pública. É claro que o mesmo perigo rodeia em tempo integral o Poder Legislativo. Para impedir que pessoas molestem com desassombro o arcabouço institucional que protege a sociedade, há uma série de mecanismos, de múltiplas configurações. São regras de controle e meios de correção que devem ser acionados com rapidez e eficiência.

 

No Estado de Direito, o mais precioso desses mecanismos de blindagem a ações totalitárias contra os direitos sagrados do indivíduo é a Constituição. Lá estão prescritos os remédios legais para barrar espasmos de autoritarismo tão comuns a projetos de tiranete. Quando vejo valentões fazendo pouco caso da obediência às leis – ainda que travestidos de “homens de bem” –, não tenho dúvida: é mais um saudosista dos tempos em que o coronelismo decretava a vida e a morte.

 

Falei dos poderes Executivo e Legislativo. Se a violação aos princípios elementares da democracia é algo deletério no mundo da política, imagine quando isso é uma tara em setores do Judiciário e do Ministério Público. Aí a ameaça se reveste de cores sombrias. Um agente da lei – como juiz ou promotor – adepto ao atropelo normativo incorre em prática hedionda. Agindo assim, é alguém que, por dentro da máquina, opera a falência da instituição e agride a todos de modo selvagem.

 

Mas existe outra frente de combate aos senhores do obscurantismo. Refiro-me à imprensa livre e à liberdade de expressão. São conquistas definitivas do mundo civilizado. Não são poucos, porém, os que lamentam isso profundamente. Não por acaso, todo aquele que pretende pastar acima de tudo é inimigo mortal do ambiente livre em que podemos falar, debater e denunciar desvios, delitos e crimes. Hoje como ontem, sobram exemplos de vozes em defesa da filosofia do prendo e arrebento.

 

No Brasil de agora, e nem preciso me esforçar para demonstrar isso, a cada esquina um idiota prega o linchamento de acusados, o fechamento do Congresso Nacional ou a volta da ditadura militar. Cretinos de alto coturno e engravatados em luxuosos gabinetes sentem urticária quando escutam falar em direitos humanos. É gente cujo DNA será sempre refém do mandonismo engordado nos berços do engenho e da oligarquia. Para essa tipologia mental, a vida do outro não vale nada.

 

Aqui neste espaço, a política e os políticos nunca tiveram boa vida. A crítica dura e intransigente é a regra, sem concessões. Basta conferir os textos. Mas não me venham com a gritaria tosca e autoritária de salvadores da pátria – estejam eles cobertos por jaquetões, capotes ou togas. Não precisamos de brutamontes com receitas patéticas envernizadas de soluções simplórias para o país. Contra tudo isso, o trabalho da imprensa, no grande veículo ou no simples blog, é antídoto radical.

Chefe do MP é obrigado a recuar

Muito bem. O procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, veio a público para se explicar sobre a obscura prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira. Ele deu sua versão dos fatos em entrevista coletiva. Como o leitor pode conferir em texto anterior neste blog – “Prisão de jornalista é jogo bruto” –, escrevi que o chefe do Ministério Público tinha a obrigação de se pronunciar.

 

Não era o que ele pretendia fazer, como informou sua assessoria no dia em que Maria Aparecida foi encarcerada. Mas, diante da repercussão da medida de força contra uma mulher de 68 anos de idade, mudou de ideia. Na entrevista, Alfredo Mendonça disse que não pediu a prisão da acusada por calúnia e difamação. Informou ainda que o MPE solicitou nesta terça-feira a liberdade da jornalista.

 

Além de afirmar que respeita a liberdade de expressão e de imprensa, o chefe do MPE fez outras acusações contra Maria Aparecida. Disse que, anos atrás, foi procurado por um advogado com uma queixa de extorsão contra a jornalista. Foi vago sobre isso, sem nomes ou detalhes concretos. Mesmo assim, acusou Aparecida de cometer crimes em série, sendo campeã de processos judiciais.

 

Está claro que o MPE – ou melhor, um grupo de integrantes da instituição – foi obrigado a recuar. Fico aqui pensando por que promotores imaginaram que um ato de força como este seria tolerado por todo mundo, sem reação da opinião pública. A história toda parece longe de acabar. Espero que Maria Aparecida seja posta em liberdade o quanto antes. E que responda pelo que é acusada. Mas que isso se dê dentro da lei, sem margem para truculência de nenhum tipo.

Presidida por uma mulher, OAB de Alagoas silencia sobre a prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira

A Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas tem hoje uma mulher como presidente. É a advogada Fernanda Marinela de Sousa. Ela é atuante. Andou aparecendo em debates até fora de Alagoas. Esteve em emissoras de rádio e TV defendendo o Estado de Direito. Em entrevistas sobre o atual momento da vida pública brasileira, atacou aqueles que se sentem acima da lei. Falou com firmeza.

 

Como se sabe, a OAB tem uma Comissão de Direitos Humanos. Você certamente já ouviu falar muito sobre o trabalho dessa comissão. Recebe denúncias sobre excessos praticados por autoridades contra o cidadão comum e, com certa frequência, denuncia prisões abusivas. É um segmento relevante da sociedade civil, com iniciativas em defesa das garantias individuais e coletivas.

 

Infelizmente, a Ordem dos Advogados não veio a público – nem por meio da Comissão de Direitos Humanos, nem pela voz de sua presidente – para tratar da prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira. Que pena. Eu realmente torço para que isso não seja um sinal de pouco caso com algo tão grave como o que está em jogo. De modo sumário, sem explicações, uma mulher foi encarcerada.

 

E eu torço mais ainda para que não estejamos diante de uma omissão covarde. Não é esse o padrão moral que a presidente da OAB tem exposto por aí. Mas a valentia, doutora Marinela, não pode ser seletiva, para usar palavra da moda. Tenho certeza que este não é o seu caso. O silêncio da OAB – indefensável – compromete e mancha a história da entidade. Ainda dá tempo.

 

Uma categoria sem voz

 

Quanto ao Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, o que se tem até o momento é uma fala acanhada do presidente da categoria, durante um evento festivo na manhã desta terça-feira. Lamento, mas é muito pouco, quase zero. Talvez fosse melhor ficar calado. O mínimo que deveria ser feito era uma nota oficial para cobrar informações das autoridades. A Federação Nacional dos Jornalistas tem uma comissão específica para cuidar dos direitos da mulher. Mas até agora nada. Que coisa feia!

Prisão de jornalista é jogo bruto

CadaMinuto/Arquivo Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Alfredo Gaspar de Mendonça

Vamos falar claramente sobre os fatos concretos? Vamos falar sem rodeios: quem é que precisa se explicar sobre esse caso espantoso? O procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, deve explicações à sociedade sobre a prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira. É ele o autor da ação que resultou no ato extremo contra uma mulher de 68 anos de idade. A prisão foi decretada pelo juiz Carlos Henrique Pita Duarte, titular da 3ª Vara Criminal de Maceió. O que fez a jornalista?

 

Aí a coisa começa a se complicar. Ela foi presa pelo que disse e escreveu em seu blog e nas redes sociais. E o que ela escreveu e falou por esses meios? Segundo as parcas informações divulgadas, ela difamou e caluniou o chefe do Ministério Público Estadual, sua excelência, o doutor Alfredo Gaspar. Então ela foi presa sumariamente pelo crime de opinião, é isso? Prisão preventiva, sem denúncia e sem julgamento? São questões graves que estão sem resposta até agora.

 

O procurador-geral se recusa a falar. Alega que o caso está sob segredo de justiça. Como assim? Por que esse caso corre sob sigilo? Quais as razões que levaram o juiz Pita Duarte a decretar o segredo? A cada pergunta, tudo fica mais nebuloso, mais esquisito. Insisto no ponto: uma jornalista está encarcerada pelo que escreveu sobre o chefe do Ministério Público! Até onde sei, é algo inédito.

 

E por que eu digo que o procurador tem de falar? Porque ele não é uma mera parte na ação. Ele comanda o MP, ele chefia a instituição que tem como prerrogativa, entre outras coisas, analisar processos e depois denunciar ou não os eventuais acusados. Ou seja, legalmente, o MP é o dono da ação contra a jornalista que responde pelas acusações. Mas o autor da ação é Alfredo Gaspar!

 

Defendo as supostas calúnias que a jornalista teria feito? Jamais. Não é disso que se trata aqui. Estamos falando de liberdade, estamos falando do respeito aos direitos fundamentais numa democracia. Eu não direi que estamos diante de um processo kafkiano porque a sofisticação nunca foi a marca de certas autoridades alagoanas. Isso é jogo bruto. Que venham os esclarecimentos, necessários e obrigatórios. A alegação de segredo de justiça é frágil, não tem cabimento.

 

Nesses tempos tenebrosos de abusos generalizados contra as liberdades, é preciso lembrar: não estamos sob um regime de exceção. Todos devem seguir o Estado de Direito. Sim, ninguém está acima da lei – nem eu, nem você, nem a jornalista. E isso também vale para os poderosos.

Sindicato dos Jornalistas, Fenaj e OAB precisam falar sobre prisão sumária de jornalista. Estamos diante de algo extremamente grave

Um fato gravíssimo ocorreu nesta segunda-feira em Maceió. Por ordem da Justiça, que atendeu a um pedido do chefe do Ministério Público Estadual, Alfredo Gaspar de Mendonça, foi presa a jornalista Maria Aparecida de Oliveira. Ela tem 68 anos. Segundo informações divulgadas até agora, após ser detida em casa, ela foi conduzida a uma delegacia e depois ao presídio feminino.

 

As acusações à jornalista seriam por calúnia, difamação e coação de testemunha. Quem se sentiu caluniado e moveu a ação foi justamente Alfredo Mendonça. A assessoria do MPE e o advogado de Maria Aparecida informaram que o processo corre em segredo de justiça. Não há, portanto, detalhes sobre os fatos. O que há, isto sim, é uma sombra pesada sobre essa prisão pra lá de estranha.

 

Pelo que entendi, a acusada está sendo presa por falar e expressar opinião. Isso não pode ser visto como algo dentro da normalidade. É uma medida drástica, com todo o jeito de arbitrariedade. Atenção: ela é apenas investigada, não houve denúncia e muito menos julgamento – até porque seu suposto crime é coisa bem recente, de alguns meses para cá. O que é que está acontecendo?

 

O Sindicato dos Jornalistas precisa se pronunciar. A Federação Nacional dos Jornalistas precisa falar. A Ordem dos Advogados do Brasil precisa dizer o que pensa sobre o caso. Repito: esse episódio nada tem de normalidade. Não estamos diante de um evento corriqueiro. Estamos diante de um ato de força – extremo – contra uma jornalista, uma mulher de 68 anos de idade. Que perigo ela pode representar? Há umas três décadas atuando na imprensa, nunca vi isso na vida pública alagoana.  

 

As entidades que citei têm obrigação de se pronunciar – em defesa da liberdade de expressão e em defesa da transparência absoluta que deve pautar ações dos poderes oficiais. Uma mulher de 68 anos acaba de ser presa em condições nebulosas, de modo sumário, e os envolvidos dizem que tudo é “segredo de Justiça”?! O que é isso? Os fatos precisam ser esclarecidos. 

O Sertão fantasiado da Rede Globo

Um dia desses alguém desenterrou um episódio que revela do que é capaz a cabecinha de João Dória, o ex-prefeito de São Paulo que tenta a eleição para governador. Na década de 1980, quando era presidente da estatal Embratur, o elemento propôs explorar a seca do Nordeste como atividade turística. A cretinice está devidamente documentada em publicações da época.

 

Lembrei disso ao ver a campanha publicitária da Globo sobre sua nova série, Onde Nascem os Fortes, que estreia esta semana. O marketing para promover a historinha água com açúcar invade não apenas os intervalos comerciais, mas todos os telejornais da casa, incluindo todas as suas afiliadas no país inteiro. Disfarçada de jornalismo, a propaganda se exibe como reportagem.

 

Mas o ponto aqui não é o padrão jornalístico praticado na escola global. Quero falar da paisagem que serve de cenário para a trama novelesca. A história é ambientada nos confins sertanejos da Paraíba. Basta olhar as cenas que aparecem nas chamadas para constatar a reafirmação de uma tradição complicadíssima: outra vez, o velho Sertão do Brasil vira mitologia de butique.

 

É um fenômeno com uma longa história na cultura brasileira, cheia de capítulos bastante diversos entre si. No caso Globo, sua investida sobre a aridez nordestina se filia aos piores momentos dessa atração eterna que o Sertão exerce sobre a arte e o artista. Quando vejo galãs e beldades fazendo cara de mal ou de sofreguidão, à base de maquiagem cuidadosamente fabricada... Rapaz, não é fácil.

 

No universo do audiovisual, o cinema chegou antes. Nas décadas de 1950 e 60, deu-se a primeira febre da exploração da vida nas terras brutas e selvagens. De Lima Barreto, com o seu O Cangaceiro, a Glauber Rocha, com Deus e o Diabo na Terra do Sol, passando por Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, tudo o que é artista de Copacabana e Ipanema pegou carona nessa onda.

 

De lá para cá, teve de tudo, com resultados quase sempre desastrosos. Não é o caso dos filmes que citei, embora não tenha muita simpatia pelo título de Nelson Pereira, e O Cangaceiro tenha valor exclusivamente arqueológico, digamos assim. Glauber produziu uma obra-prima absoluta – que aliás fica mais forte à medida que o tempo passa. É uma rara e extraordinária exceção no conjunto.

 

Nos últimos vinte anos, nas intermináveis “retomadas” do cinema brasileiro, o Sertão voltou às telonas pelas lentes de cineastas nascidos no Nordeste. São os tais ciclos de Pernambuco e do Ceará. Mesmo com abordagens variadas, e menos papagaiada, a média é perigosamente equivocada. Mas nada supera os globais. Eu, Tu, Eles resume o que pode haver de pior nessa cinematografia.

 

O filme é dirigido por Andrucha Waddington, que confunde arte com publicidade. Sua pretensão de retratar o Brasil profundo – fixação delirante, aliás, em nosso cinema – resulta apenas em bizarrice. A técnica sofisticada, os filtros que retocam a imagem, os cenários plastificados, tudo isso é de embrulhar o estômago. Regina Casé de sertaneja está à altura dessa pretensiosa macacada.

 

Eis o Sertão – fantasiado e folclórico – que as câmeras da Globo começam a exibir, mais uma vez e como sempre, a partir de agora. Nenhuma surpresa, é verdade; mas sempre deplorável. Talvez isso explique, em parte, a hilariante proposta de João Doria. Estamos vendo um crime continuado.

A voz do povo é de Deus ou do capeta?

Uma democracia sem povo, suponho que você concorda, democracia nunca será. É a participação popular, a opinião da maioria, que estabelece essa verdade universal. Mas, na prática, é evidente que a coisa não é tão simples assim. Penso nas incontáveis situações e nos intermináveis debates em que o dilema é exatamente como garantir a prevalência da vontade da maioria. É conflito.

 

Nos últimos anos, temos vários exemplos em que a questão foi levada ao centro da guerra política. Ainda com Dilma Rousseff no poder, sobretudo quando explodiram as manifestações de 2013, a ideia de convocação de uma nova Constituinte foi defendida por muita gente, tanto de dentro quanto de fora do governo. Seria o caminho para, segundo essa corrente, promover reformas profundas.

 

Na falta de uma Constituinte, uma alternativa seria então a convocação de um plebiscito para decidir sobre grandes temas, vitais e urgentes para a vida do brasileiro. O tempo passou e, cinco anos depois, não houve nem uma coisa nem outra. Para os defensores da consulta à população, decisões graves exigem o aval explícito dos cidadãos. Sem isso, não haveria legitimidade nas ações oficiais.

 

Também a partir de 2013, uma das modas que surgiram foi a seguinte formulação: nenhum partido representa mais os anseios da sociedade. O modismo se desdobrou e permanece. É a tal crise de representatividade. Sendo assim, é necessário recorrer a mecanismos que permitam um protagonismo real do eleitor, não apenas uma mera formalidade. E quais seriam esses mecanismos?

 

Ninguém sabe. Na falta de uma solução mágica, porque isso não existe, proliferam versões diferentes de uma mesma tese: tudo precisa passar, antes, pelo crivo de todos. Isso inclui, por exemplo, eleição direta para ministros do STF. De volta ao plebiscito, seria o caso de recorrer à consulta sobre reformas como a da Previdência. Há ainda o projeto de candidaturas avulsas, sem filiação partidária.

 

Nada disso, porém, parece provável até agora – e assim deve continuar. No meio de toda a propalada descrença na política tradicional, estamos a caminho das urnas, rigorosamente dentro dos critérios clássicos de escolha de nossos representantes no Legislativo e no Executivo. Ou seja, ainda que o diagnóstico decrete a falência do sistema político, as regras do jogo não caíram.

 

Nesse enredo que segue – difuso, errático e imprevisível –, o sujeito oculto é a voz do povo. Essa é a essência da democracia plena, beleza, mas a pergunta inconveniente é: o povo é sábio? Amenizando: o povo é sempre sábio? Para quem acredita que as redes sociais nasceram com a vida humana, sim. Com essa ligeira pegada sociológica, o oráculo se manifesta no alarido da internet.

 

Faz sentido. O tiroteio verbal das redes derruba estrelas da TV, força reviravoltas nas tramas noveleiras e obriga o cancelamento de eventos como palestras e exposições. Uma corrente de internautas barra a contratação de um astro do esporte, fulmina campanhas publicitárias de gigantes do mercado e leva um governo a revogar medidas apresentadas como incontornáveis.

 

Nem se fale de autoridades, de todas as esferas, a invocar o absoluto respeito ao sacrossanto clamor das ruas. Se a opinião pública diz que é assim, assado não pode ser. Chegamos à velha tese, milenar, segundo a qual a voz do povo é a voz de Deus. Além de pensamento essencialmente populista, e até demagógico, isso não parece fácil demais? Há lógica numa sentença tão simplória?

 

Não pode ser. A história das civilizações aponta para a conclusão oposta. E basta ficarmos nos exemplos clássicos do século 20, o período em que as maiores tiranias se ergueram com o aval enlouquecido da sabedoria das massas. Parece incontestável que nunca as ruas erraram tanto. 

 

Resumo esse conjunto de palpites: quanto a Deus, não sei; mas o capeta adora a voz do povo.

PJ! O Partido da Justiça vai te pegar

Esclareço de saída, para registrar o devido crédito, que o nome de batismo “Partido da Justiça” é de autoria do economista André Singer, colunista da Folha de S. Paulo. Neste sábado, ele comenta a virtual candidatura presidencial de Joaquim Barbosa, o sempre nervosinho ex-presidente do STF. Em texto anterior, falei por que a alternativa do agora filiado ao PSB não me parece nada saudável. Ele chega como que representante do mundo perfeito do Poder Judiciário. Uma lorota.

 

Acertadamente, Singer aponta o ovo da serpente lá no processo do mensalão, quando Barbosa se transformou no herói dos caçadores do petismo e da esquerda. Com seus rugidos moralistas, foi o primeiro dos togados, na história recente do país, a sentir o gostinho do bafo ensandecido das massas. No meio do caminho, não foram poucas as vezes em que Barbosão mostrou sua face autoritária. Nas mais célebres dessas ocasiões, ofendeu jornalista por não gostar da pergunta.

 

O ex-ministro é assim. É todo simpatia, até ser confrontado com questões que, embora pertinentes e obrigatórias, provocam incômodo. Não é surpresa nenhuma. Eu diria que é mesmo a regra na República das Togas. Juízes não aceitam opinião contrária, sequer a dúvida sobre seus pontos de vista. Se forem contestados, então, já ameaçam dar voz de prisão em flagrante. E quem vai desafiá-los? Acima de seus poderes, ninguém. É a força descomunal de uma infame tradição.

 

Aí veio a Operação Lava Jato. Com o braço armado da Polícia Federal e a brilhantina dos menudos do MPF, os aprendizes de tiranete perceberam que a hora é agora. Tendo Sergio Moro à frente e Marcelo Bretas no batalhão auxiliar, desde então a turma presta seu belo serviço aos patriotas que formam os dez por cento mais ricos do país. De 2014 para cá, presunção de inocência, devido processo legal, acusação baseada em provas e respeito à Constituição deixaram de existir.  

 

O pensamento de Joaquim Barbosa navega nessas águas barrentas. Parte do eleitorado mergulhou fundo, de olhos fechados, e acredita mesmo que vai capturar os tubarões da corrupção e de todas as malvadezas do Brasil. Se o homem que veio do Supremo ainda hesita em ser candidato, é porque ele sabe que não é mais um intocável, não pode mais se valer do absolutismo que somente a toga lhe garantia. Ao contrário de Moro, Bretas e patota, se entrar na campanha, terá de dar explicações.

 

Por enquanto, como a degradação na vida pública segue sem freio ladeira abaixo, com ou sem Barbosa o Partido da Justiça avança com voracidade. É perturbador. Mas, seja lá como for, e sem querer amenizar as trevas, também há nisso tudo densos capítulos de patetice.

O fim e o começo de quase tudo

Para Fernando Coelho, Wado, Eduardo Calado, Lelo Macena e Lael Correa. Mas eu garanto que eles não têm culpa nenhuma.

 

Porque o mar não está para peixe, tudo caiu por terra. Porque nem tudo são flores, a vaca foi para o brejo. Porque o jogo só acaba quando termina, a vida é um livro aberto. Porque deu zebra na hora H, dois bicudos não se beijam. Porque venderam gato por lebre, nada como um dia após o outro. Porque tiveram a paciência de Jó, cada macaco no seu galho. Porque as aparências enganam, é hora de a onça beber água. Porque nem tudo está perdido, antes tarde do que nunca. Porque tudo é passageiro, chutaram o pau da barraca. Porque mudou da água para o vinho, é hora de virar a página. Porque o homem é aquilo que come, no carnaval ninguém é de ninguém. Porque há o tempo de plantar, o buraco é mais embaixo. Porque jabuti não sobe em árvore, o sol brilha para todos. Porque Deus é brasileiro, quanto mais quente melhor. Porque a sua hora vai chegar, felicidade não se compra. Porque a verdade é cristalina, que seja infinito enquanto dure. Porque botaram as cartas na mesa, o perigo mora ao lado. Porque o poeta é um fingidor, cada cabeça, uma sentença. Porque a vida é um sopro, o tiro saiu pela culatra. Porque a Terra é azul, os opostos se atraem. Porque a noite é uma criança, o bom cabrito não berra. Porque a caravana passa, nada é um mar de rosas. Porque dá um frio na barriga, é osso duro de roer. Porque naquele tempo era melhor, o rio corre para o mar. Porque é aqui e agora, hoje só amanhã. Porque a arte não se explica, o vento balança o coqueiro. Porque estamos no olho do furacão, a saudade mata a gente. Porque é um campo minado, gosto não se discute. Porque a casa caiu, o impossível não existe. Porque é coisa de outro mundo, cavalo dado não se olha os dentes. Porque os sonhos nunca morrem, atire a primeira pedra. Porque isso não é aquilo, o céu é o limite. Porque é fogo na roupa, as cartas não mentem jamais. Porque só sei que nada sei, o último a sair apague a luz. Porque o tempo não para, de onde venho e para onde vou. Porque isso é uma loucura, quem quiser que conte outra. Porque é fato consumado, o silêncio é cheio de som e fúria. E jogo palavras ao vento – porque um novo dia amanhece.  

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