Blog do Celio Gomes

Decadência geral entre togados

Rodrigo Janot, aquele procurador-geral da República que patrocinou o acordo pornográfico com os irmãos açougueiros Wesley e Joesley, segue sua trajetória de pilantragem intelectual. Depois que deixou o cargo – devidamente desmoralizado –, o rei das delações imorais vive a dar pitacos sobre política e justiça, sempre com ofensas e mentiras a respeito de autoridades que ele trata como desafetos. O homem não passa um dia sem disparar maledicências e cretinices contra tudo e todos.

 

Na verdade, Janot reproduz um vergonhoso padrão de conduta, cada vez mais na moda entre senhores até então vistos como exemplos de sobriedade. Depois das redes sociais, vestais do mundo das togas nunca mais seriam os mesmos. De promotores do Ministério Público a magistrados de qualquer tribunal, ninguém resiste à sedução de aparecer com mais um faniquito, não importa por qual razão. O que interessa é a autopropaganda em doses bestiais. Os doutores estão em transe.

 

É dentro desse novo cenário que se deve avaliar o patético desempenho do Supremo Tribunal Federal – como se viu na sessão desta quinta-feira. Figurinhas como Roberto Barroso e Luiz Fux não se conformam mais com o papel de simples julgadores. Eles querem formular novas leis e reescrever a Constituição, como se tivessem sido escolhidos para substituir o Poder Legislativo. Tudo isso, naturalmente, vem coberto por aquela ridícula vaidade que é própria da patota.  

   

Vejam como estamos numa situação de calamidade. Seja na ativa, seja passeando pelo mundo (como a tranqueira do Janot), suas excelências perderam mesmo a compostura que se espera de toda e qualquer autoridade. Se a letra da lei sempre foi sinônimo de segurança jurídica e garantia de respeito ao estado democrático, hoje não mais. Interesses políticos e vaidade pessoal passaram a ser os parâmetros básicos nos tribunais. Foi sempre assim? Provavelmente.

 

A diferença nos dias de agora talvez seja a gradação das lambanças. Os atuais integrantes do STF, por exemplo, já aprontaram tanta presepada, que é impossível encontrar outra época tão decadente quanto a que estamos vivendo. Mudar isso tudo é tarefa para atravessar gerações. Assim não dá.

A gambiarra do STF e a prisão de Lula

Foto: AFP Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Lula

A temperatura no Supremo Tribunal Federal revela o tamanho da crise que envolve os ministros da casa. O dilema da hora é a prisão após o julgamento na segunda instância. Porque uma nova decisão do STF sobre isso pode, na prática, beneficiar o ex-presidente Lula. Como se sabe, com a regra em vigor, ele está à porta da cadeia e pode entrar na cela nos próximos dias. Sua única aposta de salvação, portanto, está no Supremo, que pode mudar o entendimento sobre o tema.

 

O caso da prisão após sentença de um tribunal, tendo ainda o réu o direito a recurso, pode ser considerado um dos maiores desastres na história do Judiciário brasileiro e do STF em particular. Eu falei na regra em vigor, mas na verdade essa norma é resultante da gambiarra que o Supremo enfeixou sobre a Constituição. Em outubro de 2016, apavorados com a gritaria generalizada, seis dos onze ministros decidiram ignorar o texto constitucional. Resolveram legislar.

 

Sem margem para feitiçarias interpretativas, está no Artigo 5º da Constituição: Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Qualquer coisa fora disso afronta a chamada lei maior do país. O “trânsito em julgado” significa – como sabe o estagiário em advocacia – julgamento definitivo no STF, ponto final do processo. Se queremos mudar a lei, então que o Congresso o faça, no exercício legal e legítimo de suas atribuições.

 

O patético é ver o clima de guerra no STF. Quanto mais tenso o ambiente, mais ficamos com a impressão de que ali estão todos preocupados porque têm o rabo preso, e estão dispostos a acomodar as coisas do jeito mais conveniente a suas demandas secretas – em alguns casos, nem tão secretas assim. Deu-se que a presepada de 2016 está agora no centro da confusão justamente quando Lula é a bola da vez. A essa altura, qualquer nova decisão do STF vai aumentar a gandaia.

Universidade alagoana dá curso sobre o “golpe” – e escancara militância partidária na academia

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Anúncio do curso no site da Uneal

Confirmado. Os alagoanos também podem fazer o curso criado pela Universidade de Brasília sobre o processo que resultou no impeachment da presidente Dilma Rousseff. O título do curso prova como a militância de esquerda controla o ambiente universitário no país: O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil. A iniciativa por aqui é da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal).

 

No dia primeiro deste mês, escrevi sobre essa novidade brasileira. No texto, dei como certo que a ideia parida na UnB fatalmente seria adotada por nossos intelectuais que tanto produzem nas instituições públicas de ensino superior. Por enquanto, não tenho notícia sobre a Universidade Federal de Alagoas, outro reduto sagrado de diletantes a serviço do PT e auxiliares.

 

A turma da Uneal foi mais ágil. O curso será ofertado a partir do dia 5 de abril e terá duração de dois meses. Segundo informa o site da universidade, as sessões de doutrinação ideológica vão ocorrer entre 19h e 22h, no campus I, localizado em Arapiraca. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site. O credenciamento será realizado no primeiro dia das aulas.

 

No espaço para as inscrições, você encontra esta explicação sobre a essência da coisa: O curso tem como objetivo analisar o processo político que culminou com o golpe que afastou a presidenta Dilma Rousseff e suas consequências para o país e em particular, para os setores mais pobres da população. Vejam que o idioma corrente por lá adotou a grafia presidenta.

 

Não sei como anda o nível de produção de conhecimento em nossa universidade estadual. Sei que até um dia desses havia uma guerra política entre reitoria e oposição. O reitor Jairo Campos da Costa é um engajado militante de causas sociais. Numa entrevista que concedeu recentemente, cogitou disputar as eleições deste ano, talvez como candidato a deputado estadual.

 

A propósito, a profunda bibliografia do curso, segundo o que se viu na UnB, tem textos da revista Carta Capital e de sites alinhados ao petismo e à esquerda em geral. Sem dúvida, vamos aprender bastante sobre a realidade brasileira com essas obras-primas do pensamento universal.

O pensador Tite e o começo da goleada

A cada quatro anos temos um encontro com um Brasil gigante, potência universal única em suas qualidades incomparáveis, bonito por natureza. Um país como este, claro, é habitado por um povo singular, “guerreiro”, cheio de lições valiosíssimas para o resto do planeta. É o Brasil das publicidades sobre a Copa do Mundo, o país da fantasia forjada por agências de propaganda, com orçamentos e cachês milionários para celebridades, jogadores e técnico da seleção brasileira de futebol.

 

Para se produzir uma propaganda eficiente, como sabem os craques do setor, é preciso caprichar na receita de cretinice. O primeiro passo é a escolha dos ingredientes, matérias-primas facilmente encontráveis em qualquer lugar. Criancinhas, paisagens de cartão-postal e trilha sonora sentimentaloide, por exemplo, não podem faltar numa boa peça publicitária. Mas o melhor de tudo é o texto. Todo anúncio de peso, como os da Copa, tem aquela pegada “literária” e “filosófica”.

 

A menos de três meses para o início dos jogos na Rússia, as campanhas que promovem os patrocinadores da Copa já estão no ar. Cada uma dessas peças sintetiza e reitera a essência da publicidade – que é uma depravada falsificação da vida real. E essa operação ainda se apresenta com ares de refinamento intelectual. O melhor (no caso, o pior) exemplo na atual temporada é a propaganda do banco Itaú, que usa o treinador Tite como grande astro. É uma aula de mistificação.

 

Na campanha do banco, os mágicos da agência publicitária se superaram. A sacada foi usar como texto os fragmentos de entrevistas do próprio Tite – epigramas que revelam a originalidade na cabeça de um notável pensador. O comercial simula uma preleção do técnico antes de o time entrar em campo. Mas o time que se vê não é a seleção, e sim o povo brasileiro. Nessa publicidade, a sabedoria epigramática do professor Tite nos ensina o caminho ideal para o sucesso e a felicidade.

 

Neymar Jr., o boçalzinho de cabeça oca, também estrela anúncios para, no clima do futebol, vender de tudo, de sabonete a cachaça. No caso do atacante, a mensagem de autoajuda de Tite dá lugar a promessas de força e beleza. Muda o enredo, mas o grau de farsa é rigorosamente igual – porque será sempre isto uma publicidade. Bom, todos sabemos como acabaram as macaquices ufanistas de Felipão como garoto-propaganda em 2014. O Brasil brasileiro adora uma goleada.

A morte de Marielle e a “morte” da democracia brasileira

Foto: Revista Fórum Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Marielle Franco

Você acha que a democracia no Brasil está sob ameaça? É o que dizem as mais variadas vozes – de intelectuais da academia a lideranças políticas, passando, é claro, pelo universo da arte. Todo dia, vejo algum representante dessas categorias, com ares de muita preocupação, a nos trazer o inquietante alerta quanto à proximidade do abismo: o país tem um regime democrático de mentira.

 

O discurso é anterior ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, mas é inegável que se tornou imensamente mais comum e repetitivo após o afastamento definitivo da petista. Na verdade, trata-se de uma versão dos fatos – o que aliás combina com a acusação de que houve um “golpe” com a destituição do poste inventado por Lula. Como dizem por aí, é guerra de narrativas.

 

Nesse quadro de radicalismo político e ideológico, o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), no Rio de Janeiro, inflacionou o índice dos que veem o Brasil à beira de um regime autoritário. “O crime que matou a vereadora é um atentado à democracia”, dizem inúmeros entrevistados na ostensiva cobertura da imprensa sobre o caso. Parece que vivemos num regime de terror.

 

Como sempre acontece, na algaravia generalizada nem os que estão do mesmo lado se entendem quanto à extensão do diagnóstico. Alguns denunciam, como disse antes, uma ameaça às instituições e às regras legais; outros, talvez mais visionários, já decretaram a morte da democracia no país. Aqueles que discordam ou são alienados ou estão mesmo do lado das forças do mal.

 

A morte da vereadora é um crime covarde e hediondo. As autoridades têm obrigação de produzir uma investigação eficiente. O esclarecimento do caso é essencial ao país. Nada menos que isso. A pergunta número um é sobre os mandantes do atentado. Ela era uma crítica dura das ações da Polícia Militar nas favelas. Sua atuação também incomodava as milícias cariocas.

 

Como a maioria dos brasileiros, eu também nunca ouvira falar de Marielle Franco. A enxurrada de informações que veio agora, não tenho dúvida, revela alguém especial. Intelectualmente preparada, firme na defesa de ideias e projetos, ela combinava essas evidentes qualidades com a vivência direta das periferias. Com autoridade, falava daquilo que conhecia na pele.

 

É uma tragédia brasileira. Mas, precisamente porque estamos numa democracia – de fato e de direito –, o assassinato de Marielle está sendo investigado como deve ser. Todos os procedimentos obrigatórios serão seguidos, dentro do que prevê as leis, para que os criminosos sejam identificados e presos. Deve-se cobrar que isso ocorra o mais rápido quanto possível.

 

Acrescento que, também nesse episódio, o discurso do caos, em boa medida, obedece a interesses políticos. E isso apenas tumultua as apurações, além de representar uma ofensa à memória da vereadora. Sua morte não pode ser usada como bandeira partidária, com palavras de ordem cuja meta são dividendos eleitorais. Que haja menos panfletagem – e mais respeito por Marielle.

A promessa mais desmoralizada

Durante a campanha de 2016, João Doria prometeu que, se eleito prefeito de São Paulo, ficaria no mandato até o fim – e não cogitava sequer disputar a reeleição. Ele acaba de anunciar a candidatura ao governo paulista – repetindo, aliás, a conduta de outro tucano, José Serra, doze anos atrás. Em 2006, Serra largou a prefeitura após um ano e três meses no cargo para também concorrer ao governo. Nos dois casos houve compromisso no papel, para atestar a seriedade da coisa.

 

Mas nem a assinatura, nem o registro do documento em cartório, nem a firma reconhecida, tudo às claras e preto no branco, nada impede a reincidência do crime – a mais escandalosa falsa promessa. Sem argumento sério diante da mentira em estado bruto, tem-se um espetáculo de demagogia embalado numa retórica sem base na realidade. Cumprir os quatro anos de mandato deve ser a promessa mais desmoralizada por políticos na história recente do país.  

 

Por ironia, o também tucano Rui Palmeira teria muito mais razões para deixar o mandato e disputar a cadeira de governador. Rui está no segundo mandato na Prefeitura de Maceió – e, que eu saiba, nunca se pronunciou sobre tempo de permanência no posto de prefeito. Seu colega de partido, Doria cai fora do barco com menos de um ano e meio de mandato. Para quem vende o slogan marqueteiro do “não político”, o rei da propaganda revela que é tão profissional quanto as mais velhas raposas. 

 

E por falar em promessa, não vamos esquecer que 2018 é tempo de produção em larga escala dessa commodity espiritual. Seja no campo da economia ou no âmbito da saúde e segurança, a revolução está a caminho, na mente brilhante de cada candidato. Como fabricar insanidades em forma de discurso eleitoral está permitido nas democracias, fatalmente a diversão está garantida.

Rui Palmeira continua zen

Um pouco mais sobre o fim de uma candidatura. Horas depois do anúncio feito pelo prefeito de Maceió, Rui Palmeira, confirmando que não será candidato a governador, uma evidência se impôs: o gesto provocou sim um terremoto no meio político. Vejam o vídeo gravado pelo secretário municipal Thomaz Nonô, presidente do DEM em Alagoas. Com ar de decepção, vemos em Nonô a imagem que predomina no grupo de aliados do prefeito. Por ali, era tudo o que ninguém queria ver.

 

Nem os mais próximos contavam com a desistência de Rui. Ao que parece, os que defendiam a candidatura a todo custo acreditaram na tática da pressão explícita. Ao longo dos meses, Rui foi cobrado publicamente por caciques em busca de um palanque com viabilidade eleitoral. Ao prefeito, não seria dado o direito de discutir nomes alternativos. Em algum momento, nas cordas, ele decidiu pelo confronto interno – e agora, mesmo contrariadas, as partes precisam se acertar.

 

Enquanto os comandos partidários tentam agora um candidato forte para enfrentar o governador Renan Filho, Rui Palmeira continua zen. É o que se vê no vídeo em que descarta a candidatura, e também nas declarações que deu na manhã seguinte ao anúncio-bomba. O prefeito fala como se nada incomum estivesse ocorrendo. Sua tranquilidade exibida em público não combina com o nervosismo dos parceiros políticos. Afinal, uma eleição sela destinos de modo irreversível.

 

Rui Palmeira sabe de tudo isso. Nada, porém, parece ameaçar o ritmo quase sobrenatural de seus passos, decretos e escolhas. Haja o que houver, por mais tenso que um episódio possa se mostrar, o ar de calmaria não muda. Ao menos aparentemente, o prefeito está sempre na paz. Sem drama!

O candidato que a imprensa inventou

A candidatura que nunca existiu é uma dessas notícias que servem para analisar o trabalho da imprensa. Claro que me refiro à decisão do prefeito de Maceió, Rui Palmeira, que anunciou não ser candidato ao governo do estado. O anúncio em tom singelo, por meio de um vídeo com baixa qualidade, contrasta com a gravidade da mensagem. Pensando bem, é até desconcertante.

 

E também é assim porque, há vários meses, notícias de todos os tamanhos, em todos os suportes, não deixavam dúvida quanto ao candidato Rui Palmeira. Uma vez cogitada, ninguém mais sequer mencionava a sério a hipótese de o prefeito não topar a aventura. O mesmo vale para textos de opinião – que assim como as reportagens tratavam Rui como um candidato em plena campanha.    

 

Dizendo com outras palavras, se não estiver enganado, todos nós jornalistas informamos – com mais ou menos ênfase – que a candidatura de Rui Palmeira era inevitável. Por que dissemos isso, e com tanta convicção, passando ao leitor a ideia de que apuramos os fatos com rigor? O anúncio de Rui agora desmente essa suposta metodologia de trabalho. Estávamos todos chutando?

 

(Corta para 2014. Sem partido, qual o destino de Marina Silva nas eleições presidenciais? Foi um carnaval de “revelações” e “bombas”, todo santo dia, sob a assinatura dos maiores colunistas políticos do país. Quando Marina anunciou que seria vice na chapa com Eduardo Campos, descobriu-se que todas as certezas e previsões não passavam de embromação com grife).

    

Blefe e especulação têm lugar de destaque no noticiário sobre a seara política. De repente, o que era apenas uma distorção deliberada, sem a devida checagem por ninguém, acaba virando verdade aceita sem contestação. A negligência com a apuração combina com a superficialidade da informação levada ao público. No automático, passamos adiante ficção como realidade.

 

Como um de nossos esportes é desconfiar de tudo, quem acredita que os erros, equívocos e exageros da imprensa são frutos da natureza? Provavelmente você tem certeza de que erramos por algum interesse, certo? E de fato não é fácil contestar quem assim desconfia do chamado jornalismo profissional. A responsabilidade é toda nossa. O caso Rui Palmeira tem seu lado pedagógico.

Rui Palmeira e a candidatura que foi sem nunca ter sido

Foto: Secom Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Rui Palmeira

Marcelo Palmeira, o vice-prefeito, já era tratado como titular entre servidores e secretários na Prefeitura de Maceió. E isso era, até ontem, uma consequência natural da virtual candidatura de Rui Palmeira a governador. Ocorre que o prefeito da capital anunciou, na noite desta segunda-feira 12, que não é candidato nas eleições de outubro. O vice terá que readaptar seus planos de poder, em harmonia com o chefe, pelos próximos dois anos. Consta que a relação entre os dois é de paz.

 

As especulações publicadas aqui, ali e em todos os lugares traçavam os mais diversos – e completos – cenários com Rui na disputa ao governo. Houve informações sobre reforma no secretariado para acomodar aliados – e até a lista de possíveis nomes para o lugar de vice na chapa. A cada movimento na costura de alianças, uma novidade afetaria tanto o ambiente político quanto a gestão municipal. E assim a máquina vem sendo tocada há quase um ano. Como ficará a partir de agora?  

 

Fato é que mudanças significativas só ocorreram em setores da prefeitura porque todos acreditavam na candidatura de Rui. Se ele nunca disse que seria candidato, também jamais indicou de forma direta que descartasse tal hipótese. No vídeo em que anuncia que não disputará a eleição, Rui afirma ter ouvido a família e lideranças políticas. Não cita nomes, a não ser num agradecimento “especial” ao vice Marcelo Palmeira. E os caciques amigos? Oscilam entre a surpresa e a hostilidade.

 

O prefeito de Maceió poderia ter esticado o suspense até abril, limite do prazo estabelecido na lei eleitoral. Aliás, em algumas entrevistas ele insinuou que faria isso mesmo – mas preferiu a prudência: agindo agora, Rui desamarra os partidos para negociar alternativas. E não se pode esquecer que até 7 de abril a troca de partido está liberada – um movimento que pode afetar legendas alinhadas ao prefeito. Suponho que toda essa agitação produz agora debates inflamados entre aquelas lideranças.

 

O que pesou mais na decisão de Rui? Falta de dinheiro para a campanha ou dificuldades para fechar coligação? Suspeito que não há uma causa exclusiva. O panorama geral levou o prefeito à escolha que sempre me pareceu a mais correta, ou seja, cumprir o mandato até o fim. Agora todo mundo quer saber: quem será o candidato a governador apoiado pelo bloco liderado por PSDB e DEM? Já pulam na praça os mais variados nomes. Não faço ideia do que pode pintar logo mais.  

Rui Palmeira: como anunciar uma “bomba”

Vários textos publicados aqui nos últimos meses têm como assunto a eventual candidatura do prefeito Rui Palmeira a governador. Sempre defendi que disputar a eleição, este ano, não parece o melhor caminho político para o tucano. Mas tudo e todos garantiam, desde o ano passado, que o homem era candidato, e nada mudaria esse destino. Pois deu-se o contrário. Num vídeo na internet, ele informa que não disputará a eleição. Diz que tocará os projetos na prefeitura.

 

É como no futebol. O jogo só acaba quando termina, depois que o juiz apita no último segundo dos acréscimos da prorrogação. Arriscar um veredito, a sentença definitiva, é mais perigoso que embarcar em previsões de especialistas nas ciências da política. Estávamos todos à espera de uma confirmação por parte de Rui Palmeira. E ele veio com uma resposta negativa aos apelos e às pressões que o atingiam a partir de todas as direções. Deu um nó em nossa imprensa.

 

Rui não perde nada ficando no cargo até o fim de seu segundo mandato. Aliás, é algo a ser visto como qualidade, bem diferente da tradição de lagar a cadeira e partir atrás de mais poder – afinal é para isso que se disputa uma eleição. Tomando o rumo contrário ao oportunismo rotineiro, o prefeito pode se apresentar como “cumpridor de promessas”. Sem falar que a decisão livra Rui de um risco fatal: uma derrota nas urnas seria sua tragédia. 

 

Como o anúncio do prefeito não dá detalhes sobre sua posição, a partir de agora, no processo eleitoral, fica-se com o mistério sobre quem será o candidato a governador no grupo que comanda a prefeitura. Sabe-se que as pressões eram fortíssimas sobre Rui. Diga-se a seu favor, que ele nunca acenou, ao menos publicamente, com a intenção de ser candidato. Pareceu sempre que esteve mais longe do que perto de uma candidatura. Procura-se um adversário para Renan Filho.

 

Um dado curioso é a forma como recebemos a informação política mais relevante dos últimos tempos em Alagoas. Rui se vale de uma gravação amadora, com imagem sem definição, para comunicar uma “bomba” à população em geral e aos aliados em particular. Nada de entrevista coletiva nem explicações aprofundadas sobre as motivações de tal decisão. A escolha por um vídeo artesanal não parece ter sido um acaso. Rui produz um terremoto com um gesto trivial.

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