Blog do Celio Gomes

Poli dance vai para Corregedoria da PM

O relevante caso do policial militar que postou vídeos de poli dance para festejar a suspensão dos pardais no trânsito teve hoje um novo capítulo. O Conselho Estadual de Segurança se reuniu para tratar do assunto que abalou Alagoas na última semana. Ao que parece, tem gente que perdeu o sono após a performance do PM sem noção. O cara virou o inimigo número um dos cidadãos de bem.

 

O policial Kleverton Pinheiro de Oliveira compareceu nesta segunda-feira diante do conselho. O momento mais grave da sessão, digamos assim, foi a exibição dos vídeos para os conselheiros. Resultado concreto: por 7 votos a 5, ficou decidido que cabe à Corregedoria da Polícia Militar investigar o delito e apresentar um veredito. Estamos todos ansiosos pelo desfecho.

 

Na TV Gazeta, falando ao vivo, o vice-presidente do Conseg, Antônio Carlos Gouveia, fez questão de demonstrar sua contrariedade com a decisão. Em tom de lamento, ele informou ter sido voto vencido na apreciação do episódio. Por sua proposta, que acabou derrotada, o infrator deveria ser julgado no próprio conselho, dada a gravidade da situação. Gouveia parecia mesmo bastante chateado.

  

A julgar por algumas manifestações acerca do acontecido, há quem defenda a expulsão do PM dos quadros da corporação. Vozes mais extremas querem até a prisão sumária do agente da lei. Não minimizo a presepada do Ferreti, como ele é conhecido, mas estou longe de querer seu enforcamento em praça pública, sob o aplauso dos indignados e dos puros de coração.

 

Ainda bem que o Conseg tomou a decisão certa. Prevaleceram a lógica, o bom senso e a inteligência. Transformar essa encrenca num processo a ser julgado no colegiado, desculpem, seria apenas algo irracional. Como escrevi antes, não falta pauta realmente grave para os conselheiros. É só querer.

 

Tudo isso, não devemos esquecer de tal detalhe, ocorre devido ao carnaval das redes sociais. Hoje em dia, como sabemos de sobra, para desencadear uma revolução, basta a zoada virtual de uma besteira. É por isso que tantos agem como intrépidos guardiões da moral alheia.

Caixa 2 e mala preta nas eleições

Em 2014, a coligação que elegeu a presidente Dilma Rousseff declarou gastos de incríveis 318 milhões de reais. O segundo colocado na disputa, o senador Aécio Neves, registrou despesas que ficaram em 217 milhões de reais. Toda essa fortuna foi devidamente informada ao Tribunal Superior Eleitoral. Os dois lados garantem que não houve um tostão além do que foi declarado à justiça.

 

As regras de financiamento de candidaturas mudaram em 2015. Esta será a primeira eleição presidencial sem a participação dos bancos e grandes empresas – até então a fonte principal dos partidos. A doação de empresas foi banida do sistema, no embalo das pressões sobre o Congresso Nacional. Os congressistas aprovaram a extinção do financiamento privado na guerra pelo voto.

 

Para substituir a grana de empresários patriotas e banqueiros ufanistas, criou-se um fundo especial (com dinheiro público) para as campanhas. O valor total é de 1,7 bilhão de reais. É permitida a doação de pessoa física, que pode entregar a um partido até 10% de seus rendimentos declarados em 2017. Agora, repare isso: em 2014, as empresas doaram nada menos que 3,6 bilhões de reais.

 

Outra novidade é o teto de gastos. Há um valor estabelecido para cada cargo em disputa – são cinco nas eleições gerais. Um candidato a deputado estadual não pode usar mais de 1 milhão de reais. Para quem concorre a presidente, o teto é de 70 milhões. Dilma e Aécio torraram um valor quatro a cinco vezes acima do que agora prevê a regra. Teremos uma campanha mais pobre em 2018?

 

No ano passado, mais uma vez, o país ensaiou uma reforma política necessária, mas ficamos mesmo com um arremedo que nada resolve. Além de destinar uma dinheirama dos cofres públicos para aventureiros, ninguém acredita que isso tenha algum efeito capaz de reduzir a corrupção e o caixa 2. Há quem aposte no contrário, ou seja, numa farra ainda maior de “recursos não contabilizados”.

 

Outro aspecto controverso no modelo é a divisão do bolo, a fatia a que cada um terá direito no fundo de campanha. O critério adotado foi a representatividade no Congresso. O resultado concreto disso é o reforço das velhas legendas e dos mesmos caciques. Ganha mais quem já é grande.

 

Como qualquer um pode verificar, as informações oficiais do TSE mostram que mais de 70% daquele 1,7 bilhão de reais serão divididos pelos dez maiores partidos do país. A principal crítica é que essa modalidade cria barreiras para que vozes alternativas possam entrar no jogo político.

 

Mas se engana quem pensa que os nanicos estejam muito tristes. A instituição do fundo de campanha mantém todos com um belo repasse – além do fundo partidário (não confundir os dois), que é permanente. Criar e manter uma sigla de aluguel continua sendo um rentável meio de vida.

 

A disputa pelo voto, de novo, será também uma guerra nos subterrâneos por onde voam malas, sacos e sacolas de dinheiro. A verdade é que o sistema parece desenhado especialmente para incentivar a fraude e a compra da eleição. Tem tudo para acabar em novos (e explosivos) escândalos.

Reitoria da Ufal precisa se explicar

As universidades federias têm autonomia plena. Em seus quadros, como se sabe, a regra no corpo docente é a crítica ácida ao – com o perdão do lugar-comum – sistema dominante. Reitores e professores estão sempre a postos para a denúncia sobre os desmandos e desvios na gestão pública. Falta o mesmo engajamento para enfrentar as próprias mazelas que se acumulam.

 

Comento reportagem publicada aqui no CADAMINUTO, que o leitor pode conferir no site em todos os detalhes. Segundo texto assinado por Luciana Beder, um prédio gigantesco erguido para ser o restaurante universitário da Ufal em Arapiraca está abandonado há mais de dois anos. Construído em 2015, o local até hoje continua desativado. O mesmo ocorre no campus de Delmiro Gouveia.

 

Alunos contam que, em Arapiraca, um espaço no RU que não funciona está sendo usado como auditório, porque o teto do auditório original desabou no ano passado – entre outros problemas na estrutura física. Estudantes reclamam de vários outros descalabros nas dependências do campus arapiraquense da Universidade Federal de Alagoas.

 

Recentemente a reitoria da universidade soltou até nota oficial para explicar os casos de obras paradas no campus de Maceió. Mesmo diante de imagens incontestáveis, o comando da Ufal se nega a admitir a realidade evidente. Para a gestão, está tudo dentro dos prazos legais, em cronograma sem qualquer entrave no andamento das obras. Ainda que essa versão pareça um enredo ficcional. Por aí, as coisas ficam longe de melhor esclarecimento.

 

O que vemos aí, infelizmente, é o mesmo padrão da política profissional, onde gestores inventam desculpas para justificar o colapso em obras e projetos. Sem falar que é pouco transparente a postura da reitoria, que prefere, como sempre, jogar a culpa de todos os males no Ministério da Educação. Seja qual for a encrenca, os donos da universidade querem mais dinheiro.

 

Como disse na lá no começo, a universidade atua com plena autonomia administrativa, política e financeira. Essa condição faz daquele universo paralelo, em muitas situações, um ambiente ainda mais isolado do que já é naturalmente. Prestação de contas não é o forte por essas quebradas.

 

Diante dos fatos sobre os restaurantes que não funcionam – há mais de dois anos, repito –, a reitoria da Ufal de novo não explicou nada. A Secretaria de Infraestrutura da universidade joga a responsabilidade na construtora. Espera por ajustes da empresa, após notificação do problema.

 

E nada além disso a acrescentar? É muito pouco para o tamanho do problema. Precisa mais.

Hat trick?! A imprensa não toma jeito

Não sei quando começou, mas, de repente, parece que todos os editores de esporte na imprensa descobriram uma fórmula verbal mágica para classificar um feito não muito comum numa partida de futebol: três gols de um mesmo jogador. Um belo dia, algum jornalista antenado com as novidades sapecou o tal do hat trick. Foi a danação. O vírus contaminou todas as redações do planeta.

 

Nós, é claro, enfiamos o pé na jaca e passamos a macaquear a expressão – uma das maiores idiotices que já vi desde que acompanho futebol e leio notícias sobre o jogo de bola. Fui procurar informações sobre a origem do troço, e não entendi até agora por que todo redator hoje em dia não vive sem o seu hat trick particular. Pela adesão unânime, deve ser uma regra obrigatória.

 

Semanas atrás, algum atacante do CRB marcou três vezes durante um desses duelos mortais no gramado, e cá estava, nas manchetes alagoanas, a nova expressão que seduziu repórteres, comentaristas e narradores. Já não bastava o gol contra de pedir música no Fantástico, agora sou obrigado a ler, sobre o resultado do jogo, textos que não podem dispensar essa presepada.

 

E se o cara marcar não três, mas quatro ou cinco gols, como é que fica? É possível, afinal, você sabe, o futebol é aquela caixinha... Jesus de Belém! É por essas e outras que nós, os jornalistas, não temos jeito mesmo. E ainda queremos posar de a turma do senso crítico, donos de uma consciência afiada, sempre com a faca nos dentes, para enquadrar os alienados, os desinformados, a gentalha.

 

Como? Reproduzindo feito papagaio qualquer marmota, venha de onde vier, como se fosse a última das maravilhas da linguagem? Não dá, galera. Este é o país dos geraldinos, da bola na gaveta, do tirambaço do meio de campo, do centroavante trombador, do escanteio de mangas curtas, do juiz ladrão. Há toda uma longa história, uma vasta tradição em jogo, entende?

 

Lembro quando o verbo “detonar” entrou na moda, lá nos anos 90, e foi bater na escalada, ou seja, na abertura do Jornal Nacional. Ficou tão manjado que, um dia, na TV Gazeta, baixou um fax da Globo revogando a expressão. A partir daquele momento, ficava proibido o uso do termo nas reportagens. Como já escrevi aqui, tudo, tudo mesmo, está condenado a virar lugar-comum.   

 

Essa novidade, que descobri há pouco, já é uma velharia completamente sem sentido. Se você escreve isso, está somente pensando no piloto automático – o que é a morte na arte de escrever. Fico imaginando o que Nelson Rodrigues diria sobre esse atentado à linguagem e ao futebol. Peço aos colegas das editorias de esporte que repensem a vida. Deixemos a retranca e vamos ao ataque.

 

Pensar e escrever são duas atividades que formam uma tabelinha virtualmente infernal. Muitas vezes, o resultado pode se traduzir numa jogada imprevisível. E é verdade que, a qualquer momento, o esquema tático pode ser destruído num lance que parecia perdido. Mas é vencer ou vencer. Como dizia Jardel, o artilheiro-pensador do Grêmio, clássico é clássico – e vice-versa.

Manhã de sábado. A 200 por hora

Todos os bispos do Chile renunciaram após acusação de pedofilia. O pedido de “demissão coletiva” será analisado pelo Papa Francisco. A Igreja Católica chilena enfrenta a maior crise de sua história. Agora pense nos fiéis que durante toda a vida confiaram na santidade desses homens do Senhor. Mundo afora, a sucessão de escândalos sexuais, sob a proteção de Deus, não é de hoje.

 

Naturalmente, ficamos sabendo apenas dos casos que rompem a barreira de proteção que parece ser a regra entre os senhores de batina. E ficamos sabendo porque hoje os tempos são outros, com a revolução dos meios tecnológicos de informação. Durante séculos nada disso veio à tona. Até um dia desses, qualquer denúncia sobre desvios na Igreja era derretida nas fogueiras divinas.

 

Violência e medo. Essa é a dupla temática que pode dominar o debate eleitoral na eleição para presidente. O noticiário em geral embarcou na vertiginosa pauta que arrasta a família brasileira. E é claro que Jair Bolsonaro nada com desenvoltura nessa praia de insanidade, com o proselitismo barato que defende a solução simplória de armar todo mundo. Vamos às urnas para um duelo.

 

Nesta sexta-feira, Geraldo Alckmin deu uma piscadela para os ansiosos cidadãos de bem que exigem um Brasil com jeitão de faroeste. Falando para gigantes do agronegócio, o candidato tucano afirmou que o porte legal no campo deve ser uma alternativa a se considerar. E como impedir que o fazendeiro venha à cidade com sua arma legalizada? Avançamos, bastante, para trás.

 

Na campanha eleitoral, tão urgente quanto falar de segurança pública é a retórica de combate à corrupção. Parece uma novidade, não é? Afinal, nunca o país esteve tão conflagrado por tantos casos de assalto aos cofres públicos. Que nada. Jânio Quadros se elegeu presidente, quase 60 anos atrás, usando uma vassoura como símbolo. Prometia varrer a bandalheira para sempre.

 

O jornalismo brasileiro também anda para trás, com desassombro e voracidade. É o que constato diante do frenesi com essa porcaria de casamento real britânico. Tem até especialista para comentários nas grandes redes de TV. No momento em que escrevo, os maiores portais tratam o assunto nas manchetes. Os termos e trejeitos de jornalistas atestam que estamos perdidos.

 

O mundo é maluco mesmo. Se, como dizem os bacanas do pensamento dominante, acabou a velha família; se pai, mãe e filho são coisas do passado, por que essa reverência despudorada a um monumento à caretice? Pelo visto, as meninas querem mesmo é ser princesas – depois, é claro, de encontrarem o encantado príncipe. Cadê o novo homem e o empoderamento feminino?

 

José Dirceu voltou à cadeia e diz que jamais fará delação. A imagem de sua rotina de condenado por corrupção fica ainda mais desconcertante quando se pensa na biografia lançada em 2013 pelo jornalista Otávio Cabral. Ali, vê-se o personagem ávido pelo poder desde a militância de adolescente. De aprendiz de guerrilheiro em Cuba a compulsivo triturador de aliados, fez de tudo para subir.

 

Com Neymar tatuado pela imagem de mercenário, arrogante e desmiolado, o mundo da publicidade elegeu Tite como seu perfeito garoto-propaganda. O modelo ideal de vendedor da Copa é o professor. Por isso somos obrigados a ver o homem a proferir uma coleção de baboseiras, com ares de pensador. E milhões de jovens dispostos a “empreender” deliram com receitas sobre o nada!

 

Manhã de sábado, 19 de maio de 2018. Aqui, nessa parte da cidade, bate o mormaço, cai um chuvisco passageiro, o sol vai e volta, a vizinha estende roupa no barbante esticado entre um poste e outro, e na esquina, um quarteto divide a meiota, e da caixa de som na calçada, eu vou voando pela vida... sem destino algum, e agora sem os pardais, vou sem saber pra onde... estou só, a 200 por hora.

Em defesa do ministro Gilmar Mendes

O ministro Gilmar Mendes mandou soltar mais um preso acusado em alguma investigação da Polícia Federal e do Ministério Público. Qual é a reação imediata? Não me diga que você comete mais uma piada, fazendo pose de indignado e compartilhando sua criativa ironia. Cara, isso também já virou um clichê dos infernos. É mais fácil, eu sei, mas esse automatismo das ideias é tudo, menos criativo.

 

Se tem algo que sinaliza a falência do pensamento é o adesismo geral, a unanimidade, a diluição de um ponto de vista. É por isso que certos manuais e cartilhas fazem tanto sucesso. Repetindo o que todos repetem, agradamos à maioria, ficamos livres de pensar por conta própria e evitamos problemas indesejáveis. Reproduzimos qualquer besteira como se fosse uma relíquia filosófica.   

 

Sem querer magoar os mais sensíveis, além de alguma pitada de burrice, há nas piadas contra o ministro do STF uma perigosa tese sobre o sentido de justiça. Então quer dizer que todo mundo é culpado por antecipação e, mesmo em fase de investigação preliminar, o suspeito já é um meliante desgraçado que deve mofar na cadeia? Acusou, prende e acabou-se? É um raciocínio de doido.

   

Presunção de inocência e respeito à Constituição agora são motivos de chacota. Como é fácil nos convencer a botar nossa própria cabeça na guilhotina! Ironia mesmo é que esse modo de ver as coisas arrasta o intelectual de prestígio e o celerado militarista das redes sociais. Um dos sinais de que estamos diante de algo tresloucado é que Gilmar Mendes unifica a esquerda e a direita na piada.

 

O que importa é saber quais as razões que levam um suspeito à prisão e, depois, por que motivos um juiz decide mantê-lo encarcerado ou libertá-lo. Aí você diz o que pensa sobre a decisão do magistrado. Mas isso é chato, né, e dá uma canseira. Bom mesmo é aderir à palavra de ordem: mete no camburão e joga na masmorra. Por isso, lamento, não embarco nesse carnaval.

 

Sei que é uma guerra perdida. Colunistas da Veja esculhambam Gilmar Mendes. E também os da Folha, do El Pais, da Carta Capital, do MBL, do Brasil 247, do Mídia Ninja, e também os militantes da nova política (à esquerda e à direita). A ideologia de todo mundo se harmoniza no ódio ao pior juiz do planeta. Eu acho toda essa revolta organizada o retrato de um tempo melancólico. E sem graça.

 

Insisto em dois pontos. Primeiro, se eu fosse você, desistia de tentar ser engraçadinho após mais um habeas corpus do Gilmar – porque não cola mais, bicho, virou lugar-comum, e isso é trágico, acredite. Segundo: essa torcida fanática por cadeia, num desejo irracional de vingança, não mira apenas um único alvo, acerta em todos nós. É um incentivo à violação dos direitos intocáveis do indivíduo.

 

Por isso, estou na contramão da comedia que tenta sequestrar a razão e o respeito ao Estado de Direito. Ainda que isso signifique defender o inimigo número um do Brasil pensante – o ministro Gilmar. E ainda que acabe sendo, eu mesmo, alvo de sua refinada ironia. Guerra perdida é comigo.

Nosso problema são os alfabetizados

Alagoas é o estado com a maior taxa de analfabetismo do país. É o que revela o mais novo levantamento do IBGE divulgado nesta sexta-feira. Segundo a pesquisa, 18,2% não sabem ler nem escrever. A Secretaria de Educação se apressou em emitir nota para responder aos fatos. Começa com uma pérola: reconhece a dívida social no combate ao analfabetismo “durante décadas”, mas assegura que tudo mudou a partir de 2015, com “um dos principais compromissos da atual gestão”.

 

Ou seja, a culpa é da herança maldita. A gente não sabia, mas, desde o primeiro ano do atual governo, há uma revolução silenciosa no ensino público alagoano. Acho que é a leitura que posso fazer a partir da nota oficial. Deixando de lado o trabalho vigoroso em andamento, quero falar é da preocupante taxa de alfabetizados que nos atormenta. É aí que mora a perigosa encrenca.

 

Nossa tragédia está na qualidade dos que sabem ler e escrever. Outro dia, apontei aqui as barbaridades num comunicado da Ufal que era um verdadeiro atentado à língua portuguesa. Diariamente, vemos pronunciamentos de autoridades dos mais variados segmentos que parecem recorrer a algum idioma alienígena. Uma forma estranha traduz pensamentos tortos.  

 

Vamos combinar que a imprensa está aí para provar o quanto ser alfabetizado não garante a ninguém a correção das ideias. Os exemplos são assombrosos. As redes sociais, então, nem se fale. Os casos mais engraçados são os de elementos que não sobrevivem a uma concordância, uma crase, e tentam nos convencer de que podem falar – com autoridade – sobre os rumos da filosofia!

 

Pense nos grandes youtubers do país. A maioria precisa ser apresentada, com urgência, ao universo da palavra. Se no princípio era o verbo, ficou encarcerado por lá mesmo, nos primórdios. Os “influenciadores digitais” vieram direto de uma dimensão ágrafa. Que eles sejam influentes, isso diz uma enormidade sobre a civilização alfabetizada. São piores que analfabetos.

 

Um amigo me enviou, há algumas semanas, a reação de um professor universitário a um texto que publiquei no blog. Tomei um susto, não com o chilique raivoso do rapaz, mas com sua inacreditável destreza na construção de frases. A coisa era tão bizarra, que parecia uma peça (involuntária) de humor. Mais assustado fiquei ao constatar que o autor tem até doutorado.

 

Vejam bem: professor e doutor, que forma jovens numa universidade, e que não consegue botar uma vírgula no lugar adequado. Sem falar na indigência dos argumentos, uma mistura de rabugice e bobagens a rodo em defesa de uma suposta “alagoanidade”. Esse é o nível intelectual em nossa academia? Como uma toupeira pode ensinar qualquer coisa em qualquer faculdade?

 

E não se pode esquecer a exuberância de erudição que é a marca de nossos políticos. O padrão degenerado não é privilégio de nenhuma esfera específica. Mas, como ilustração, vejam entrevistas e discursos na Câmara Municipal de Maceió e na Assembleia Legislativa. É desalentador. Por isso, defendo uma campanha de combate ao analfabetismo entre doutores alfabetizados.

O dia em que uma promotora rejeitou homenagem de vereadores

Quem não quer ser homenageado com uma comenda, uma medalha, um título de cidadão honorário, essas coisas? O senso comum dirá que todo mundo gostaria, sim, de ver seu nome numa lista de agraciados por alguma honraria. Diria até que são troféus cobiçados. A fonte dessas homenagens geralmente são os governos (nas três esferas) e as casas legislativas pelo país afora.

 

Assembleias Legislativas, Câmaras e Poder Executivo entregam títulos periodicamente, o que revela que há uma demanda permanente na praça. Logo, a oferta trata de contemplar a multidão de candidatos. Aqui mesmo em Alagoas, se você pensar um pouco, vai lembrar de milhares de ocasiões em que uma fileira de personalidades recebeu as mais diferentes comendas.

 

O mais tradicional, digamos assim, talvez seja o título de cidadão honorário de uma cidade ou de um estado. Mas a coisa é um tanto avacalhada. Em outubro do ano passado, por exemplo, os vereadores de Maceió acharam por bem homenagear o arrivista João Doria com o diploma de cidadão honorário de nossa capital. Uma iniciativa demagógica e eleitoreira. E só.

 

A farra com as homenagens desse tipo, algumas vezes, também serve para amansar agentes públicos cuja missão é justamente fiscalizar o poder político. Toda vez que vejo delegados, promotores ou juízes recebendo salamaleques em palácios, gabinetes e plenários, penso que há algo inadequado, fora do lugar. O dinheiro não é a única moeda de troca nos guichês da corrupção.

 

Por isso, acompanhando a vida pública ao longo dos meus anos de trabalho na imprensa, um dos momentos mais marcantes que testemunhei foi o gesto – raro e exemplar – de uma mulher admirável. Refiro-me à promotora de justiça Fernanda Moreira. Um quadro que honra o Ministério Público Estadual, ela rejeitou uma homenagem da Câmara Municipal de Maceió.

 

Foi em agosto de 2010. No dia 13 daquele mês, uma sessão especial entregaria a Comenda Pontes de Miranda a nomes de destaque do mundo jurídico, segundo informava o parlamento. Vejam a coincidência: por uma ação da promotora, naquela época o MP cobrava dos vereadores a devolução da famigerada verba de gabinete, uma consagrada rubrica para gastança sem nenhum controle.

 

Em ofício à Câmara, a promotora agradecia a gentileza, mas esclarecia que seu trabalho no MP era tão somente uma obrigação como servidora pública. Sendo assim, acrescentava, não havia razão para aceitar tal distinção. Como editor-chefe da Gazeta na ocasião, recebi apelos para dar a notícia sem destaque – os vereadores estavam magoados. Fiz o contrário, como está registrado no jornal.

 

Os fatos têm me levado aqui a duras críticas ao MP e ao Judiciário. Com uma frequência assustadora, alguns de seus integrantes agem muito mais em função de interesses pessoais e políticos, em detrimento das demandas da sociedade. Nesses casos, a vaidade e a sanha pelo poder desprezam até os princípios elementares de conduta, numa perversa distorção dos valores institucionais.  

  

Mas sei que há gente séria, que atua com firmeza e sobriedade no cumprimento do dever sagrado. É o caso da promotora Fernanda Moreira. Seu histórico no MP deveria servir de parâmetro, não apenas a seus pares, mas para todos nós. Sua postura atesta que ninguém precisa de holofotes, bajulação ou truculência para se destacar. Se ela fosse a regra, as instituições estariam muito melhores.

 

Aquele gesto, individual e inesperado, quase oito anos atrás, é um emblema de como devemos nos orientar no meio do furacão. Esclareço que não conheço a promotora pessoalmente. Escrevo tudo isso como registro de algo que marcou minha irrelevante experiência no exercício diário do jornalismo. E porque é sempre saudável, além da crítica, celebrar quem faz a coisa certa.

Renan Filho já está (quase) reeleito

Não se vence uma eleição na véspera, todos sabem, mas Alagoas caminha, mais uma vez, para desmentir essa verdade não escrita. É o que se tem até agora, desde que o prefeito Rui Palmeira desistiu de disputar o governo. Com o panorama devastado no campo da oposição, Renan Filho tem tudo para entrar numa disputa sem adversário que o ameace – exatamente como ocorreu em 2014. Os partidos rivais do governador batem cabeça à procura de um nome. E nada.

 

Claro que haverá candidato, e em condições de brigar pela vitória sobre Renanzinho. É o que garantem nomes como Thomaz Nonô, Teotonio Vilela, Benedito de Lira e o próprio prefeito de Maceió – os caciques do bloco oposicionista. Mas isso é o discurso obrigatório; afinal ninguém é maluco de admitir a própria indigência eleitoral. Como se sabe, a aposta em Rodrigo Cunha também deixou de existir depois que o deputado escolheu concorrer a uma cadeira no Senado.

 

Fico pensando o que de fato significa esse quadro de terra devastada na política de Alagoas, a ponto de não haver um único nome capaz de fazer frente ao atual grupo no poder. A hipótese de que estaríamos sob uma gestão aclamada pelo povo é desmentida pela realidade. Segurança, saúde e educação – para ficarmos nas grandes áreas – estão longe do ideal. Mais de uma categoria de servidores ameaça greve, a começar pelas polícias. Há encrencas para quem se dispõe a enxergar.

 

Ao mesmo tempo, é certo também que não se vê um clima de desaprovação ostensiva ao governo. Mas, do mesmo modo, ninguém morre de amores pela situação no estado – salvo engano em minha rasa interpretação do cenário. Ao que parece, há uma certa resignação no eleitorado, pouca disposição e alguma (ou muita) descrença. Nada disso, porém, explica o raquitismo dessa virtual oposição, incapaz de apresentar uma alternativa com capacidade para jogar de igual para igual.

 

Até a primeira eleição de Renan Filho, todas as disputas anteriores foram acirradas, sem um favorito absoluto durante a campanha. A exceção é Divaldo Suruagy, em 1994, que venceu com mais de 80% dos votos, ou algo por aí. O panorama é mais estranho ainda porque, afinal, o governador parece não ter sido contaminado pelo desgaste do cargo – algo geralmente explorado pelos adversários que se apresentam como candidatos à renovação. Isso também não está à mostra agora em 2018.

 

Como tudo isso é problema dos rivais, Renan Filho, com o valioso auxílio do pai, trabalha obsessivamente para consolidar ainda mais seu evidente favoritismo. Atua como nunca no mundo mágico da publicidade e num arrastão que não dispensa ninguém, para uma aliança total, de todos com todo mundo. Daqui a pouco, atrai até o lado inimigo para suas fileiras. Quer dizer, pensando bem, em alguma medida, isso já acontece na prática. Hoje a eleição está resolvida.

Sergio Moro e João Doria na fotografia

Uma imagem agitou sites, blogs, redes sociais e a imprensa brasileira em geral. Na fotografia, aparecem o juiz Sergio Moro e João Doria ao lado de suas respectivas senhoras. O registro se deu em Nova York, em mais um desses ridículos convescotes armados para intercâmbio de bajulações e contatos visando a futuros negócios. Uma festinha com ricaços e deslumbrados.

 

Moro, a tranqueira de Curitiba e herói dos “cidadãos de bem”, foi o grande homenageado da noite. Recebeu o prêmio de Personalidade do Ano, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. São banqueiros, empresários e especuladores ajeitando o juiz imparcial da Lava Jato. Todos de gravatinha borboleta. As damas exibiram longos com variações de preto

 

Depois da repercussão da foto, o ínclito magistrado disse considerar o caso apenas “uma bobagem” e que “isso não significa nada”. Está errado. O que temos ali é algo bastante representativo do nosso tempo, além de traduzir à perfeição o espírito de uma elite ignorante e predatória. Para completar a presepada, Doria é um candidato a governador de São Paulo em plena campanha. Muito sinistro.

 

Mas a agenda de Moro contou ainda com outro compromisso além do troféu que recebeu. Na noite seguinte, ele deu uma palestra num evento para o mesmo tipo de plateia, organizado pelo Grupo Lide. Esse troço é uma jogada criada também por João Doria para – de novo – garantir contatos que podem gerar retorno financeiro. Na conversa fiada, Moro repetiu lugares-comuns e autoelogios.

 

Para não restar dúvida do entrosamento reinante na patota, Doria se referiu a Moro como “herói do Brasil”. Isso mesmo, o cretino que abandonou a prefeitura de São Paulo antes da metade do mandato também celebra os feitos do justiceiro que despreza a Constituição. É o Brasil que avança.

 

Aquela fotografia, que mostra dois casais emplumados, ao contrário do que Moro disse, já é um documento definitivo. Fica para a História. Está tudo ali: o deslumbramento a peso de ouro de figuras medíocres e um tanto sombrias. Moro é só uma vestal que mama num indecente auxílio-moradia.

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