Blog do Celio Gomes

Páginas ao longo da vida

Nossa maneira de ler vai mudando com o tempo. Comigo, houve uma época em que poderia pular qualquer assunto nas páginas que pareciam intermináveis nas edições de domingo dos grandes jornais do país. Política, Economia, Comportamento, Internacional – essas e outras editorias (agrupadas em caudalosos cadernos) estavam sempre sujeitas, vamos dizer, a alguma circunstância do espírito. Às vezes, lia tudo, de ponta a ponta; às vezes, atropelava parágrafos.

 

Mas com os cadernos culturais (ou suplementos literários), aí não. Nada justificaria a negligência com as críticas, resenhas e ensaios sobre todas as artes – da poesia ao grafite, do cinema às instalações, do teatro à música. Cada opinião sobre um autor ou uma obra, por mais breve que fosse, era uma porta para outras informações, mais amplas, num filme, num romance, numa biografia...

 

A leitura do conteúdo sobre arte e pensamento aliava o prazer estético a uma espécie de compromisso moral com o que realmente interessa na vida. O jornal ia para o lixo após concluído o último texto – mas não o caderno cultural. Aquele era um conteúdo atemporal. Somente após o volume de edições chegar ao ponto de virar um problema doméstico, jogava fora, contrariado.

 

Não sei a partir de quando, isso mudou. Não que o interesse hoje seja inferior ao que já foi. Mas, em algum momento impreciso, as resenhas e ensaios ficaram um tanto repetitivos. A sensação de familiaridade, digamos assim, com esse universo, com o estilo desse tipo de texto na imprensa, me leva rapidamente, muitas vezes, quase que a adivinhar o que vem pela frente. Há uma fórmula.

 

Os adjetivos são mortais numa crítica ou numa resenha. E lá vem o resenhista me dizer que a peça revela um universo “sombrio”; que o poema é “seco” e “desconcertante” em sua linguagem; que o filme se constrói em planos “poderosos” e numa fotografia “limpa” e, ao mesmo tempo, “inquietante”. O mesmo tipo de raciocínio está em análises de hoje e de ontem, como grande sacada.

 

Um problema recorrente no jornalismo cultural (mas não apenas aí) é a aplicação de uma mesma ideia para obras e artistas muito diferentes. Um exemplo que me parece quase insuportável é apontar o escritor que “borra as fronteiras” entre ficção e realidade. Isso já foi dito sobre Borges, Lima Barreto, Roberto Bolaño, David Foster Wallace, Cristovão Tezza e até Chico Buarque, entre outros. Sem falar em toda a literatura beat. Se vale para todos, não esclarece nada sobre ninguém.

 

Estou falando, claro, de um campo específico de leitura; no caso, o que se publica na imprensa acerca da produção cultural. Nada de enxergar alguma qualidade excepcional num passado glorioso – o que seria cair numa velha armadilha. Talvez tenha sido sempre mais ou menos assim, com variações mais para o lado dos leitores do que para o lado de quem escreve. É uma hipótese.

 

A análise do resenhista afunda de vez quando a redundância vem embalada no tom de afetação. É um mal resistente nas páginas do jornalismo cultural. Jogo de cena geralmente esconde pobreza nas ideias. Somente a experiência frequente na leitura pode vacinar o leitor contra essas tolices.

 

Em tempos de tagarelice compulsiva pelas redes sociais, é uma questão de sobrevivência separar as pérolas do entulho de inutilidades. Quando a irrelevância domina até espaços que se pretendem profissionais, isso parece impossível. Mas quem lê tanta notícia, perguntava o baiano mais odara.

 

(Eu ia falar sobre leitura e pensamento. Não deu muito certo).

Sem rumo, nas ruas e na estrada

Era uma vez uma multidão nas ruas. E não apenas num único lugar, mas um fenômeno que se espalhava por todas as regiões do país. Na cidade de São Paulo, onde a revolta se originou, a bandeira inicial daqueles protestos exigia a redução na tarifa de ônibus. Logo as reivindicações seriam ampliadas e todos começaram a gritar contra tudo. Até hoje, historiadores, sociólogos, filósofos e demais especialistas não se entendem quando chamados a elucidar o que aconteceu.

 

Foi em junho de 2013, cinco anos atrás. Nesse período, governos caíram pelo mundo afora, Donald Trump virou presidente dos Estados Unidos, o mistério do menino do Acre parou o Brasil, Marília Mendonça dominou a parada musical, a seleção tomou 7 a 1 da Alemanha, Dilma Rousseff foi deposta da Presidência e Lula foi parar na cadeia. Muita coisa cabe num intervalo de meia década. O brasileiro não para de se espantar com novidades que arrombam a festa e anunciam revoluções.

 

Quase no aniversário das manifestações de 2013, a frota nacional de caminhões parou no meio da estrada e, mais uma vez, o povo brasileiro viu a nação pegando fogo. Dessa vez, era uma categoria específica, indignada com o assalto perpetrado nas bombas de óleo diesel. Em nome de uma causa particular, ficamos sem gasolina, sem gás de cozinha, sem um bocado de produtos alimentícios e até sem remédio. O governo cedeu o que podia (e o que não podia) para restaurar a normalidade.

 

Os últimos dias de maio de 2018 não podem ser comparados ao levante de junho de 2013, é verdade. No entanto, os dois eventos guardam semelhança ao desafiarem os que pretendem explicar as coisas a partir de ideias consagradas. Basta uma olhada nos incontáveis textos publicados na imprensa: cada um atira numa direção. Também aqui ninguém se entende na hora de apontar protagonistas, vilões, vencedores e vencidos. Até uma palavra morta voltou do além: locaute.

 

Uma diferença marcante na greve das carretas, em relação às passeatas de 2013, é a ausência de mascarados. Que fim levou o black bloc? Os agentes da baderna e da quebradeira de hoje não esconderam o rosto, não se protegeram no anonimato. Os ataques a veículos e a intimidação a quem queria seguir viagem ocorreram à luz do dia, de cara limpa e, o mais relevante, tudo foi devidamente registrado pelo celular. Era preciso exibir as ações para afirmar a força da causa.

 

No mundo jurídico, informa o lugar-comum que, se não está nos autos, o fato não existe. Celular e Smartphone. WhatsApp. Rede social. Sem esse conjunto tecnológico, parece que nada mais é possível em nossas vidas – sequer a nossa própria existência. Por isso, de vez em quando, tenho dúvida se ainda estou aqui. (Mas isso é uma divagação fora do contexto. Deixemos de lado).

 

Protestar é um direito na democracia. Mas não parece que esteja acima do bem e do mal. Essencial mesmo é a liberdade individual, o livre exercício de discordar, de se mexer ou de ficar parado, a depender da vontade de cada um. Nunca houve uma mobilização como a dos caminhoneiros, dizem por aí. Não sei. Saímos do colapso como de outras vezes em que o imprevisível derrubou certezas.

 

Era uma vez os dias que correm. E, tão urgente quanto resolver os dilemas de nosso tempo, queremos entender suas origens e estabelecer previsões sobre o que nos espera logo ali. Mas podemos ficar tranquilos: tal operação não corre o menor perigo de chegar a bom termo. (Eu ia falar de acontecimentos concretos, mas desconfio que, no meio da estrada, mudei de rumo sem querer).

Na internet, “projetos” e fantasia

Enquanto isso, a campanha eleitoral corre solta nas redes sociais. Em algumas situações, candidatos mais espertos conseguem emplacar na imprensa ideias que não passam de promessas, algumas quase delirantes. É o caso de um trem de turismo entre os municípios de Quebrangulo e Palmeira dos Índios. Disfarçado de “gestor público”, um aspirante a deputado estadual emplacou essa lorota na TV Gazeta e até na Folha de S. Paulo. É tudo especulação, mas ganhou ares de seriedade.

 

Fui pesquisar a respeito. O projeto do trem do turismo, entre a terra natal de Graciliano Ramos e a cidade em que o escritor foi prefeito, existe há mais de década. Aliás, fala-se disso desde 2003, sempre na carona de períodos eleitorais. Passada a onda, a coisa é esquecida, até a próxima data em que candidatos reaparecem. É exatamente por isso que a velha promessa está de volta agora.

 

Segundo o publicado na Folha e divulgado na TV Gazeta, a obra custará 7 milhões de reais. Os idealizadores juram por Nossa Senhora que isso sairá do papel com recursos de duas prefeituras (das cidades citadas), do Ministério do Turismo e do Banco do Nordeste. Também depende de investimentos da CBTU, responsável por trens que deslizam em ferrovias brasileiras. E os prazos?

 

Ninguém sabe, ninguém diz. Os prefeitos de Quebrangulo e Palmeira também garantem que, no que depende de suas gestões, está tudo lindo. Só falta os outros cumprirem as demais etapas. Se a coisa não andar, o discurso está pronto: a culpa é de terceiros. A verdade, digo eu aqui, é que não existe nada certo para o tal projeto, a não ser a pintura de estações ferroviárias. E campanha.

 

Mas eu ia falar das redes sociais. Assim como o “trem do turismo”, o que não falta é promessa eleitoreira, ficção científica sendo exposta em vídeos e discursos pelo Instagram e YouTube, os dois espaços em que descobri um caminhão de candidatos vendendo mágica. Território livre para difusão de panfletos de toda ordem, as redes antecipam as invencionices do guia eleitoral que vem aí.

 

Há alguns anos, a cada eleição, jornalistas e palpiteiros em geral batem cabeça na pretensão de medir a força do universo virtual na disputa pelo voto. Não é fácil realmente. Primeiro, pelo volume descomunal de informações e iniciativas por parte dos candidatos. E, depois, porque não é moleza separar projetos reais de fantasiosas pegadinhas contra o eleitor. O apito do trem pode enganar.

Esquerda unida no primeiro turno?

Pelo que andei lendo e ouvindo nos últimos dias, a palavra de ordem entre setores à esquerda na eleição presidencial é coalizão. Não que isso seja uma novidade, mas a ideia é defendida com mais visibilidade no atual contexto. Quem fala essas coisas, ao menos a maioria, diz que votaria em Lula caso ele fosse candidato. Mas, apelando ao senso de realidade, esses lulistas alegam que a candidatura do ex-presidente está na esfera da fantasia. Insistir por aí seria uma tática suicida.

 

Em nome de uma alternativa viável e consistente contra a direita, os defensores da coalização também alertam para os perigos da proliferação de candidatos à esquerda. Eis o raciocínio: “Será que, divididos, não corremos o risco de uma derrota ainda no primeiro turno? É também possível que, num eventual segundo turno, os dois finalistas sejam nomes da ala conservadora”. E aí?

 

Até agora, o grande empecilho para um acordo dessas forças tem sido o PT. E o candidato que mais deseja a aliança é Ciro Gomes, do PDT. Aliás, na última segunda-feira, ele foi o entrevistado no programa Roda Viva, na TV Cultura. Pelo que entendi da repercussão, eleitores fiéis ao campo progressista se animaram com o desempenho do candidato e voltaram a falar na tal coalização.

 

O problema é que Lula continua se dizendo candidato. E a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, já declarou que Ciro não passa pelo partido “nem com reza brava”. Assim fica difícil – o que deixa muito eleitor do PT em certo desalento. Essa ala considera um erro estratégico dos petistas a insistência com Lula e a intransigente postura em relação a possíveis aliados. Mas é o que temos.

 

A ideia de uma esquerda unida em nome de Ciro Gomes não esbarra apenas em Lula e no PT. Embora nanico, Guilherme Boulos (o sem-teto e intelectual do PSOL) atrai alguma parcela do eleitorado que historicamente votou no lulismo. É um eleitor com instrução de terceiro grau e forte simpatia pelo ideário das revoluções socialistas. Artistas e intelectuais em geral estão nessa.

 

Vale também ressaltar que, mesmo entre eleitores que votaram em Lula e Dilma no passado, o nome de Ciro hoje é muito mais viável que o de qualquer petista que venha a ser indicado como o Plano B. Talvez seja por isso, entre outros fatores, que alguns analistas garantem: no limite dos prazos legais, o PT vai abraçar a candidatura de Ciro ainda no primeiro turno da corrida pelo voto. A conferir.

 

Com o sinal trocado, a velha direita (ou o campo conservador, como queira) vive algo um tanto semelhante – embora sem a carga dramática de ver seu nome favorito na cadeia, como é o caso do PT. De Geraldo Alckmin a Alvaro Dias, passando por Flávio Rocha e João Amoedo, o outro lado está engarrafado de candidaturas. Marina Silva? Nem esquerda nem direita. Mas aí é outra história.

Gasolina, política e presidente da Petrobras

Depois da greve dos caminhoneiros, cai o presidente da Petrobras. Pedro Parente entregou o cargo na manhã desta sexta-feira, abatido pelo tiroteio decorrente da política de preços dos combustíveis. Ele ficou em situação complicada depois que o país, refém de uma categoria, praticamente parou em alguns setores. Mas o que muda com essa troca de comando na Petrobras? Os valores e os mecanismos de reajuste da gasolina serão outros a partir de agora? Certamente não.

 

Todo mundo pediu a cabeça de Parente, de Ciro Gomes a Jair Bolsonaro, de Guilherme Boulos a Alvaro Dias. E o que essas vozes de destaque na política brasileira argumentavam? Diziam mais ou menos isto: ora, não é possível que a empresa mantenha no cargo esse senhor que provocou todo esse caos, com uma fórmula de gestão que beneficia o mercado e pune os brasileiros. Com essa lógica generalista, quem pediu a demissão de Parente está mais preocupado com eleição.

 

Funcionou. Foi esse tipo de pressão que acabou forçando a troca no comando da empresa. Mas a metodologia na gestão de preços da Petrobras tem tudo para ser mantida. Porque, na verdade, o governo não tem alternativa; não existe mágica para manter lucros e fazer o consumidor pagar bem menos para encher o tanque do carro. Uma guinada pode provocar problemas ainda maiores.

 

Mas política é política. Ainda mais em ano de eleições gerais. Por isso, não se deve levar a sério a gritaria de candidatos contra Pedro Parente e a Petrobras. É quase tudo pilantragem disfarçada de indignação com os preços dos combustíveis. Pilantragem para caçar alguns votinhos na disputa de outubro que vem aí. A mesma lógica, a essa altura, é adotada em qualquer outra área.

 

Os mais celerados pregam congelamento de preços ao consumidor. É incrível. Esse é justamente o caminho mais curto para o desastre de proporções mais perversas. Congelamento só funciona na cabeça de dinossauros que ainda estão por aí na vida pública brasileira. Mais de uma vez na história, experimentamos esse modo de administrar a economia. Os resultados sempre foram trágicos.

 

Portanto, a troca de comando na Petrobras serve apenas para satisfazer a histeria geral, ainda embalada nos bloqueios de estrada e no desabastecimento de produtos essenciais à população. Para o mercado de compra e venda de combustível, pode apostar que não haverá milagre.

 

A primeira reação à queda de Parente, aliás, não é das melhores para a saúde da própria empresa. O temor é que a tentação populista leve a direção a adotar medidas arriscadas – e irresponsáveis. No mais, candidato falando sem parar contra tudo e mais alguma coisa é somente oportunismo.

 

Não existe mágica em economia. Existe a vida real. E matemática.

Jogo rápido no feriado da fé

Candidatos invadem as ruas de São Paulo nesta quinta-feira de feriado. Corpus Christi.

 

Ouço falar em apóstolos... Eles estão no meio do povo. Também estão entre os políticos que pegam carona na Marcha para Jesus.

 

A passeata religiosa virou uma tradição brasileira. Está no calendário do turismo.

 

Tapetes de flores cobrem avenidas.

 

Festa para a família cristã. Adoramos tudo o que é sobrenatural – de santos a orixás.

 

O melhor mesmo é a combinação de orações com pregação eleitoreira. Mãos dadas, olhos fechados, sermões.

 

E olho no voto desse povo iluminado pela fé.

 

O país desce a ladeira, mas todos querem o milagre da redenção.

 

O pecado mora ao lado (do outro). 

 

Somos assim. O Estado é laico, mas a politicalha é ecumênica.

Ódio (e porrada) em cima da imprensa

Jair Bolsonaro e Guilherme Boulos defendem posições antagônicas em política, mas concordam num ponto: a três por quatro eles atiram contra a imprensa. Alexandre Frota e Gregório Duvivier, dois intelectuais em alta no Brasil de hoje, são inimigos mortais sobre todos os assuntos, mas também estão juntinhos na raiva que destilam sobre o famigerado ofício do jornalista profissional.

 

A nova direita que pretende salvar o Brasil odeia o jornalismo. Para os seguidores do movimento, nas redações é tudo um bando de esquerdista que mal disfarça a preferência absoluta pelo PT. O Mídia Ninja e demais coletivos que produzem conteúdo militante (e progressista) desprezam as redações, formadas por um bando de reacionários que reproduzem os valores do neoliberalismo.

 

Na manifestação de coxinhas e nos seminários do MBL, a imprensa não pode entrar. Os repórteres que pretendem acompanhar os eventos certamente vão manipular os discursos e distorcer ideias, tudo para reproduzir preconceitos contra os jovens que não rezam na cartilha revolucionária. Na reunião de blogueiros progressistas, a imprensa é banida, porque nunca retrata a verdade dos fatos.   

 

Nas grandes passeatas, contra e a favor do impeachment de Dilma, sobrou pancada para equipes de reportagem dos mais variados veículos de comunicação. Ninguém suportava mais tanta mentira e manipulação, diziam os revoltados à esquerda e à direita. Protestos de sem-teto ou de policiais militares não têm simpatia nenhuma com jornalistas. O risco de agressão é permanente.

 

Para confirmar esse carinho todo, a greve dos caminhoneiros é o mais recente exemplo de como o brasileiro gosta da imprensa. São inúmeros episódios de hostilidade e até violência física contra profissionais, em diferentes partes do país. Parece haver uma atração fatal entre cidadãos indignados (com qualquer coisa) e um repórter, um fotógrafo, um cinegrafista. Piscou, e lá vem um pontapé.

 

Na Venezuela, Maduro herdou de Hugo Chávez a ojeriza pela imprensa. É o quarto poder a serviço do imperialismo e das forças do mal. Nos Estados Unidos, Trump gostaria de matar boa parte dos jornalistas, que nada fazem a não ser despejar mentiras para jogar a opinião pública contra o presidente americano. Também aqui, os inimigos se abraçam na aversão extrema pelo jornalismo.

 

Mas o meio da rua está longe de ser o único espaço hostil à imprensa. A repulsa a essa atividade também é cultivada, e muito, em ambientes mais sóbrios e até pretensamente requintados, como a universidade, por exemplo. Vá em qualquer debate ou seminário sobre comunicação, e você verá doutores explicando por A + B por que o jornalismo é um mal a ser combatido. O sentimento é geral.

 

Quando estava no primeiro ano do curso de Jornalismo da Ufal (há muito tempo), fui a uma palestra do renomado Muniz Sodré. Ele estava lançando um novo livro e foi à Casa da Comunicação falar para estudantes e profissionais da área. Assim que começou a palestra, o primeiro alvo de suas críticas ao mundo caiu justamente sobre a imprensa. Achei aquilo estranhíssimo.

 

Mas a plateia recebeu o ataque como uma boa piada, uma ironia merecida, e todos reagiram até com gargalhadas. Hoje, aquele episódio se encaixa à perfeição nessa análise pedestre que faço aqui. Professores de jornalismo detestam jornalismo. Vi isso muitas vezes ao longo da minha graduação. Os intelectuais da Ufal não têm o hábito de ler a imprensa. Estão ocupados com suas ideias.

 

Neste espaço critico com frequência escolhas e estilos da nossa imprensa. Porque o que não falta é coisa para criticar. Mas isso jamais será sinônimo de condenação sumária e desprezo pelo papel do jornalismo. Combato essa visão idiota e autoritária. Muito antes de pensar em ser jornalista, fui um leitor fascinado por esse mundo da informação, da notícia, da análise, da divergência, do texto.

 

Imprensa e liberdade são indissociáveis. Sem a primeira, a segunda deixa de existir. Mas parece que isso não passa pela cabeça de quem vive a pregar o extermínio do jornalismo, seja um caminhoneiro ou um PhD em bancas universitárias. A internet turbinou tal sentimento. Há até especialistas por essas bandas que veem mais relevância em memes do que em reportagens.

 

Se, bem ou mal, as democracias triunfaram mundo afora, isso certamente deve ser creditado, em boa medida, ao exercício livre da imprensa. É por isso que todos os regimes autoritários não vacilam em destruir veículos de comunicação e eliminar jornalistas. Agora, atacar voluntariamente esse pilar da civilização é um ato suicida de uma sociedade. É bem a cara de patriotas, à direita e à esquerda.

O jogo duplo do sindicalista

Em texto publicado aqui no dia 24/05, escrevi que supostas lideranças de caminhoneiros mal conhecem uma boleia de caminhão. Nas imagens da TV, senhores engravatados falam mais como políticos profissionais do que como legítimos representantes da categoria. Uma reportagem publicada pela Folha de S. Paulo nesta quarta-feira combina com as ideias expostas neste blog.

 

José da Fonseca Lopes, presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) é o senhor que mais fala em nome dos grevistas da estrada. Segundo revela a Folha, é um tucano de carteirinha, filiado ao PSDB desde 1995. Atua como militante político há uns trinta anos. Em 1994, foi cabo eleitoral de Mário Covas, organizando caravanas na campanha para governador.  

 

Com a força dos caminhões mobilizados por Fonseca, Covas venceu aquela eleição para o governo de São Paulo. Em 1998, o ex-caminhoneiro disputou um mandato de deputado federal, mas obteve apenas 1851 votos. O fracasso nas urnas não arrefeceu o engajamento partidário do homem que agora se vende como grande líder dos motoristas de caminhão. Continuou ativo na militância.

 

A reportagem também expõe os fortes laços do sindicalista com o patronato. Sempre foi bem acolhido entre os poderosos do setor de transportes. Exemplo disso é que a sede de sua Abcam fica no prédio da CNT, a Confederação Nacional dos Transportes, a entidade dos empresários. Além disso, o homem mantém relação de amizade com “terríveis” donos do capital.

 

Durante as negociações entre governo e caminhoneiros, viu-se que enquanto o líder garantia uma coisa, os grevistas faziam o oposto, radicalizando o movimento. Isso mostra o quanto Fonseca é respeitado como representante de sua categoria. É pura ficção. Se a situação parece finalmente caminhar para a normalidade, o sindicalista tucano nada tem a ver com isso.

 

O jogo duplo do presidente da Abcam é uma realidade consagrada no meio sindical. Não há nada de surpreendente em tal postura. A escola do sindicalismo forma exatamente esse tipo de gente. Seja qual for a categoria, o sindicato acaba sob o controle de uma patota cuja missão principal é fazer política em cima das demandas do trabalhador. Os companheiros sabem do que estou falando.

Na eleição ao Senado, o velho e o novo

Se o panorama da eleição para governador segue em ritmo modorrento, o mesmo não se diga da disputa ao Senado. Como se sabe, Renan Filho, por enquanto, não se preocupa com eventuais adversários. Até agora, a oposição tem apenas nanicos lançados como concorrentes ao Palácio dos Palmares. Para senador, o ambiente parece mais engarrafado numa lista de várias candidaturas.

 

Com duas vagas em jogo, a eleição testará o fôlego de Renan Calheiros e Benedito de Lira. Em lados opostos, os dois encaram o desafio de renovar o mandato. Ocorre que, nesse caso, há nomes de peso que podem ameaçar a reeleição de um dos titulares, talvez até dos dois. Ligados ao governo ou à prefeitura de Maceió, Maurício Quintella, Rodrigo Cunha e Marx Beltrão estão na guerra.

 

A corrupção virou o assunto que mais preocupa o brasileiro, segundo a última pesquisa Datafolha sobre as ideias na cabeça do eleitor. Por aí, pode-se deduzir que terá boas chances o candidato que for capaz de traduzir o discurso da ética e da honestidade. E esse, não há dúvida, é o principal ativo de Rodrigo Cunha diante de adversários encrencados com denúncias de malfeitorias.

 

A questão é saber se isso terá mais peso do que o voto por “realizações”. Assentados em boa estrutura partidária, e com a máquina da gestão pública a favor, Renan e Benedito tentarão emplacar a ideia de “trabalho” realizado por Alagoas. Contam ainda com a velha fidelidade nos rincões do interior do estado – tanto no apoio de prefeitos como na simpatia do eleitor pragmático.

 

Quando a campanha começar oficialmente teremos um cenário mais claro sobre a tendência da opinião pública. Até agora, pesquisas já realizadas confirmam a dianteira dos atuais senadores. Mas essa escolha tem muito da inércia que joga a favor daqueles que já exercem mandato. Com a briga no horário eleitoral na TV, os ventos podem mudar de direção. Ninguém está em posição confortável.

 

Para fechar, uma última observação. Com o desprezo geral à política, além de uma onda por renovação a qualquer custo, o que dizer de um quadro que pode reeleger Renan e Benedito ao Senado? É o que tentam entender onze entre dez analistas do caótico quadro eleitoral brasileiro.

Parlamentarismo numa hora dessa?!

Enquanto o país sofre com uma crise que parece interminável, a presidente do STF, Carmen Lúcia, pautou para 20 de junho o julgamento de uma ação que contesta a prerrogativa do Congresso para instituir o regime parlamentarista por meio de emenda constitucional. Provando, mais uma vez, o ritmo vertiginoso do Judiciário, o caso a ser julgado chegou ao Supremo em 1997. Agora, 21 anos depois, com o Brasil quase paralisado, o STF acha de trazer à tona um tema dos mais controversos.

 

Os ministros devem dizer se uma PEC é um caminho legal para mudar o regime de governo. O entendimento corrente é o de que isso só pode ocorrer pela via da consulta direta à população. Foi justamente assim que, num plebiscito em 1993, os brasileiros rejeitaram o parlamentarismo. É o que prevê a Constituição. Mas, como virou moda, todo dia algum juiz dá uma canetada para atropelar princípios constitucionais. Se prevalecer a lógica, o Supremo vai barrar a proposta no Congresso.

 

No mundo das especulações republicanas, a iniciativa da presidente do STF causou bastante surpresa. Por que isso agora? É o que perguntam analistas, consultores, jornalistas e políticos. Seria esta uma saída emergencial para o drama brasileiro? Não parece ter o menor sentido – a não ser que existam fatores e motivações desconhecidas de todos nós. Com o histórico recente de marmotas na corte máxima da Justiça, um movimento inusitado provoca algum susto.

 

Sem contar que nossa última experiência de parlamentarismo se deu no meio da gigantesca crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros, lá nos primórdios da década de 1960. Foi uma medida de puro casuísmo, fabricada sob encomenda para tirar poderes de João Goulart, o vice que assumiria a cadeira de Jânio. Após a redemocratização, a partir dos anos 1980, o parlamentarismo vai e volta à agenda pública, sempre no rastro de fases de turbulência social. É o caso nos dias que correm.

 

Assim que a notícia do julgamento no STF saiu, começaram as acusações de conspiração para tirar do brasileiro o direito de escolher seus governantes. Não chega a tanto, afinal seria uma maluquice extrema alguma jogada, a essa altura, para suspender as eleições de outubro. De todo modo, o Supremo conseguiu abrir uma nova frente de bate-boca entre as tropas eleitorais em disputa.

 

E tudo isso para responder a uma demanda judicial de 20 anos atrás. Os protagonistas daquela discussão na Câmara dos Deputados nem lembravam mais que ainda haveria julgamento. Em condições normais de civilidade, tamanho despropósito não seria levado a sério. Mas seguimos no padrão nosso de cada dia. A Justiça brasileira tarda, falha e ainda provoca tumultos.

Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com