Blog do Celio Gomes

A Tropa da Federal nas eleições 2018

Entre agentes, delegados e escrivães, 55 nomes ligados à Polícia Federal são candidatos nas eleições 2018. Muitos deles trabalharam ativamente na Operação Lava Jato – ainda que esse trabalho seja simplesmente conduzir suspeitos à prisão ou levá-los para depoimento. Que bela credencial para o exercício de um mandato na vida pública! Boa parte se filiou ao PSL, o partido de Bolsonaro.

Segundo a Folha de S. Paulo, desse total de patriotas armados que pretendem dar um jeito no país, 41 sonham com uma cadeira de deputado federal. Da PF em Alagoas, saiu um herói mais ousado, que se candidatou a senador. Como se vê, o discurso do prendo & arrebento – que seduz o “cidadão de bem” – conta com opções a perder de vista. Isso é a renovação da “direita esclarecida”!

Eis aí a que estágio chegamos. Com tanta gritaria, o passo seguinte, está claro, era mesmo aderir ao histerismo verde e amarelo. De acordo com essas mentes – pouco afeitas à chatice de estudos e projetos complicados –, a solução é simples, meu amigo. Inspirados no Messias pelo qual tanto esperaram, o Bolsonaro, basta ter “pulso firme” e, ainda mais importante, uma boa pontaria.

Além daqueles que têm origem na Federal, pode-se garantir que muito mais gente engrossa a Tropa Armada nas eleições. São nomes ligados ao Ministério Público, ao Judiciário, à Polícia Civil e à Polícia Militar. Há candidatos saídos de todas essas instituições. E todos devidamente convencidos de que acabou o tempo da moleza. Nunca a expressão “bandido bom é bandido morto” foi tão inspiradora.

Com esse bordão desqualificado, que revela uma combinação de malandragem, truculência e demagogia, a turma da Federal e afins jamais esteve tão afoita como agora. Com a densidade dessa filosofia política, essa gente elegeu, como não poderia deixar de ser, a segurança pública como grande tema de campanha. As soluções, naturalmente, passam pelo bom manejo do fuzil.

E quem seria o potencial eleitor da rapaziada do trabuco? Entre outros traços, ele tem nível superior e boa renda, segundo indicam pesquisas já publicadas sobre o perfil dos apaixonados por Bolsonaro. Ou seja, acesso à informação não significa ideias saudáveis – mas bem o contrário.

E você, está disposto a resolver tudo na base da porrada? Caso seja esta sua alternativa para acabar com a bagunça, pode ficar tranquilo, porque a Liga da Justiça e da Polícia vem aí. Numa prova de que o conceito de evolução é mesmo complicado, no século 21, voltamos ao faroeste medieval.

A liderança de Lula e a volta de Dilma

Em dois dias, três pesquisas dos maiores institutos do país – CNT/MDA, Ibope e Datafolha – mostram o crescimento das intenções de voto em Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial. É o Brasil apresentando ao mundo um quadro tipicamente brasileiro: o líder absoluto para ganhar a eleição faz campanha diretamente da cadeia. A turma da Lava Jato e da Rede Globo não entendem o fenômeno.

Mais ou menos parecida é a situação da ex-presidente Dilma Rousseff. Vítima de um processo nada transparente que a derrubou do cargo, ela está virtualmente eleita para o Senado, bem à frente dos demais candidatos na eleição em Minas Gerais. No Datafolha, Dilma tem 25% da preferência do eleitorado. O segundo colocado tem 11%, numa disputa que, como se sabe, contempla duas vagas.

Os três levantamentos sobre a briga pela Presidência também apresentam o mesmo quadro quanto a Jair Bolsonaro. Sem Lula, ele fica em primeiro lugar, oscilando entre 18% e 22%. A má notícia para o capitão da reserva é que sua candidatura tem dificuldade para avançar acima desse patamar. Muito se fala que sua presença no segundo turno seria praticamente certa. Olha, não sei não.

A julgar pela fotografia do momento, sim, o nome do candidato está na liderança. Mas ele não tem uma diferença confortável em relação aos demais concorrentes. Não seria uma surpresa se, a partir de 31 de agosto, com a campanha obrigatória na TV, o quadro se tornar mais complicado para ele.

A pesquisa Datafolha parece mais ampla, e capta informações relevantes quanto à provável troca de Lula por Haddad como o candidato do PT. Está claro que o ex-prefeito de São Paulo tem forte potencial. Como escrevi no texto anterior, tem tudo para cravar uma vaga no segundo turno.

É uma tremenda ironia. De dois anos para cá, em nome dos “cidadãos de bem”, derrubamos Dilma e metemos Lula na cadeia. A “nova direita” festejou a morte do PT e da esquerda em geral. Tudo mudaria na eleição de 2018, com aquela turma nos braços do povo! Não é o que está aí.

A verdade é que a corrida está em aberto. Sem querer ser redundante, veremos se as coisas ficam como estão ou mudam radicalmente a partir da propaganda na televisão – e com Haddad no lugar de Lula. Lembrando que Geraldo Alckmin tem um latifúndio no tempo destinado aos candidatos.

Encarcerado, Lula é campeão de votos

Depois da decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que mandou o Brasil respeitar a candidatura de Lula, o ex-presidente recebeu nesta segunda-feira mais uma boa notícia para ele. Pesquisa CNT/MDA mostra que o petista não para de subir na preferência do eleitorado. Ele segue firme na liderança, agora com 37,3%. No levantamento anterior, o índice era de 32,4%.

O candidato Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar com 18,8% das intenções de voto. Marina Silva obtém 5,6%, Geraldo Alckmin vem logo depois, com 4,9%, e Ciro Gomes registra 4,1%. Em qualquer cenário para o segundo turno, Lula ganharia a eleição com ampla vantagem sobre o adversário. Os dados humilham as previsões de “analistas” que davam o homem como descartado.

Deve ser uma dor de cabeça dos infernos para setores da imprensa, do Judiciário e do Ministério Público Federal ver que, mesmo com um massacre sem tréguas, o velho sapo barbudo não apenas resiste, mas sobe nas pesquisas. Ainda que seja barrado no tapetão, jogará o papel decisivo na escolha do próximo presidente. E olhe que estamos a menos de 50 dias para o primeiro turno.

Abri o texto citando a decisão da ONU em favor de Lula. Diferentemente do que ocorreu ao noticiar este fato (escondendo o assunto), os grandes veículos agora dão destaque à pesquisa. No momento em que escrevo, a novidade está no topo dos sites da Folha e da Veja, por exemplo.

Mesmo que a TV Globo faça de conta que a ONU não existe – quando se trata de Lula –, a decisão do comitê internacional tem forte repercussão nos maiores jornais do mundo. É evidente que essa cobertura fora do Brasil vai aumentar, o que tende a beneficiar cada vez mais a situação de Lula.

Como escrevi em texto anterior, as pesquisas também revelam que, se Lula for impedido de concorrer, sua força para transferir votos ao substituto será cada vez maior. Nesse sentido, Fernando Haddad tem muita chance de cravar um lugar no segundo turno e garantir a faixa.

Encarcerado na republiqueta de Curitiba desde abril, Lula é um fenômeno a desafiar historiadores e cientistas políticos em geral. Enquanto isso, peraltas que rebaixam as instituições – como o STF – fingem que está tudo bem. Mas não. Eles respiram entre a vergonha e a desmoralização.

Agora uma palavra sobre guerra suja. Em Alagoas, leio aqui no CADAMINUTO, pesquisa suspeita corre o mundo virtual contrariando, e muito, números do Ibope e do Ibrape, divulgados na semana passada. Será assim até o fim da campanha. Um veneno que as redes sociais adoram espalhar.

Renan Filho monta a maior coligação do Brasil nas eleições estaduais

A eleição em Alagoas está na primeira página da Folha de S. Paulo desta segunda-feira. O jornal chama atenção para o tamanho da coligação que apoia o governador Renan Filho, que tenta renovar o mandato. Ele conseguiu reunir nada menos que 19 partidos na aliança que vai enfrentar o senador Fernando Collor, seu principal adversário na disputa. Collor tem o apoio de oito legendas.

É muito partido. Ao lado de Renanzinho estão forças aparentemente opostas no campo ideológico – se isso existisse de fato no Brasil. Estão com o atual governador, por exemplo, siglas como PR e o Solidariedade, que convivem pacificamente com PC do B e PT. (E ainda querem fazer barulho por causa da aliança entre Collor e o PSDB do prefeito Rui Palmeira e do ex-governador Téo Vilela).

Outro exemplo de exotismo com a ideologia – mas, de novo, somente na aparência – ocorre no Maranhão. Lá o comunista Flávio Dino, que busca a reeleição, conta com 16 partidos em sua campanha, entre eles PT e DEM, num casamento que é a cara da política brasileira. Ou seja, após o impeachment de Dilma, bastou uma eleição para golpistas e lulistas se abraçarem na gandaia.

O panorama é assim por todo o país. Dos pampas aos seringais, como diria o tropicalista, a esculhambação do sistema político-partidário mostra sua caveira. A explosão de agremiações, com receitas sensacionais para a vida nacional, é ao mesmo tempo causa e efeito das barbaridades que assolam a rotina do brasileiro. E assim vamos com esse padrão para mais uma aventura eleitoral.

Participam das eleições, agora em 2018, 35 siglas. A maioria, como se sabe desde antigamente, veio ao mundo para mamar no dinheiro público, com repasses milionários a partir do tal fundo partidário. Lembra da expressão, também antiga, “legendas de aluguel”? É disso que se trata. Ao contrário das oscilações no setor imobiliário, aqui há sempre inquilinos e corretores fechando negócio.

A coisa não vai ficar por aí, não. Em janeiro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral informou que, além dos atuais 35 no feirão partidário, há simplesmente 73 novos partidos na fila para oficializar o registro. Sim, você leu certo: daqui a pouco teremos mais de 100 legendas pedindo voto na praça.

Vejam como anda a criatividade de patriotas dispostos a trabalhar duro pelo Brasil. Estão chegando por aí, entre tantos, o Partido das Sete Causas (PSETE), o Igualdade (IDE) e o Muda Brasil (MD). Eu imagino que, com o mundo plural e cheio de ideias, o número de ideologias cresce sem fim.

Num cenário estupidamente fragmentado como este, não passa de piada a conversa de reforma política, para reduzir a quantidade dessas quadrilhas. Talvez um dia isso até venha a ocorrer, mas certamente terá como motivação o consagrado “instinto de sobrevivência” dos donos do poder.

“É só fuxico. É só conchavo. É só rasteira”. Um dia desses, o presidenciável Ciro Gomes recorreu a esse trio de substantivos para acusar o que chamou de falta de escrúpulos na seara política. Se já é assim com 35 legendas, pense como será no futuro próximo. É por isso que sou um otimista.

Política e eleição desde sempre

As coisas mudam o tempo todo, mas não é bem assim. A cada eleição, por exemplo, a gente reencontra os mesmos temas, embalados na mesma dissimulação, numa reiterada forma de fazer a velha política. Basta ver as entrevistas e os debates com os candidatos. É quase desesperador aguentar jornalistas fazendo surradas perguntas como se fossem uma incrível novidade.

Se a imprensa, em tantas ocasiões, não escapa da mesmice, os políticos à caça de votos são imbatíveis nesse quesito. Impossível catalogar tudo. O exemplo mais urgente que me ocorre agora é a seguinte questão: pergunta-se ao candidato a presidente se, caso eleito, ele nomeará para os ministérios gente da área, técnicos, ou vai escolher indicados pelos partidos da coligação.

Essa discussão é um verdadeiro clássico em campanhas eleitorais. A resposta costuma ser mais ou menos assim, na fala do postulante: comigo, vai acabar essa tradição de apadrinhados nos órgãos de governo; não se pode usar um ministério como “boquinha” para os amigos. É com esse discurso que todos garantem um governo absolutamente armado sob o exclusivo critério da meritocracia.

Quando acaba a eleição, e o vitorioso anuncia sua equipe, a lorota da qualidade técnica cede lugar ao pré-histórico pragmatismo das alianças partidárias – tudo em nome, claro, da tão almejada “governabilidade”. Diante do estelionato, não adianta cobrar coerência dos novos governantes. A reação será a fantasia retórica, tão antiga quanto todas as promessas que serão descumpridas.

Isso vale também, naturalmente, para os governos estaduais e prefeituras. Por aqui, se você olhar em volta, vai constatar o quanto nossos gestores seguem à risca esse padrão escandaloso. É claro que os partidos poderiam oferecer quadros de talento para ocupar os cargos de comando, mas isso fica mesmo no plano das divagações. Os nomeados, muitas vezes, parecem aptos só a bandalheiras.

E olhe que nem falei ainda do nepotismo, que continua bizarramente na moda pelo país. Em governos e prefeituras, é infernal a tropa de mães, irmãos, sobrinhos, marido e mulher, parentes e contraparentes. Sim, nepotismo é proibido por lei, mas e daí? É para isso que há “brechas jurídicas”.

Sei que existe, aqui e ali, algum milagre como exceção. Infelizmente, quase nada perto da manada de incapazes e delinquentes que domina os postos vitais na gestão da coisa pública. Sempre foi assim. Continua assim. E assim continuará após o resultado das eleições neste 2018, no século 21.

Pessimismo, frustração e desencanto com a política? Nada disso. Não escrevo sobre essas escamas metafísicas que mobilizam os espíritos patriotas que vagam por aí. Minha pauta é a vida real. Vamos a uma escolha tão simples como sempre foi: nas urnas, nossa tarefa é eleger o menos ruim.

Rui Palmeira entra com tudo na campanha de Collor ao governo

Não sabemos nada sobre como se armou a coligação que apresenta Fernando Collor para candidato a governador de Alagoas; no máximo, temos explicações protocolares. Até o anúncio da candidatura, não li sequer uma especulação sobre eventual aliança entre o senador e o tucanato estadual. Mesmo com tantos craques em nossa imprensa, tenho a impressão de que ninguém cantou essa bola.

Uma candidatura de Collor, sim, estava dentro das possibilidades normais. Mas tendo um nome do PSDB como vice, e com o forte apoio do prefeito de Maceió, aí não. Por fora dos bastidores da política, para mim foi algo pra lá de inesperado. Lembro que o próprio Rui Palmeira seria o candidato da oposição para enfrentar Renan Filho, mas ele preferiu cumprir o segundo mandato até o fim.

Com sete partidos coligados, além do PSDB também se juntaram a Collor o PP de Benedito de Lira e o DEM de Thomaz Nonô. Suponho que estas siglas (e seus caciques) jogaram papel decisivo para um acordo que, até ontem, não aparecia como possível. Conhecido o desfecho, pintaram as reações de alguns insatisfeitos, precisamente o deputado Rodrigo Cunha e o ex-governador Téo Vilela.

A situação de Cunha é a mais inusitada. Após a desistência de Rui na disputa ao governo, o deputado era o nome virtualmente escolhido, mas ele também pulou fora da briga, optando por tentar uma cadeira de senador. Pelo visto, tocará a campanha fantasiado de rebelde sem causa.  

Também não vi, até agora, nenhuma declaração de Thomaz Nonô sobre o candidato a governador apoiado por seu partido. O dono do DEM alagoano tem uma história de tapas e beijos com Collor. A situação de hoje, no entanto, não é inédita entre ambos. Já se abraçaram nos palanques da vida.

Em 2002, Nonô pediu votos para Collor na disputa pelo governo. Naquele ano, o então governador Ronaldo Lessa ganhou a disputa e se reelegeu. A relação se estremeceu, outra vez, quatro anos depois, quando Nonô foi candidato ao Senado em 2006. Fernando Collor levou a única vaga em jogo.

Já o ex-governador Téo Vilela também deu sinais de acabrunhamento com a aliança de seu partido. Se entendi bem o que foi publicado por aí, o tucano se nega a fazer campanha para Collor e já declarou que seu voto não será do candidato. É outro com discurso de rebeldia meio fantasioso.

Enquanto isso, aparentemente alheio à encenação de seus partidários, Rui Palmeira entra com tudo na campanha de Collor. Já segue o candidato em caminhadas pelas ruas, distribuindo abraços, apertos de mão, sorrisos e promessas. E esta é a maior novidade das eleições em Alagoas.

Os votos de Lula, a recomendação da ONU e a chanchada brasileira

O Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou que o Brasil permita a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. A entidade internacional apela ao Estado brasileiro que “tome todas as medidas necessárias para garantir que Lula desfrute e exercite seus direitos políticos como candidato das eleições presidenciais de 2018”. O que isso pode representar na campanha eleitoral?

Antes de chutar alguma resposta, ressalto que, mais uma vez, a grande imprensa dá tratamento enviesado a um fato de repercussão mundo afora. No Jornal Nacional não houve reportagem sobre o assunto. A emissora se limitou a uma nota, sem imagem nem entrevistas. O mesmo se verifica hoje na capa dos jornais. A notícia passou longe das manchetes e dos títulos em destaque.

É uma tática amplamente conhecida – e adotada – quando veículos de comunicação decidem sonegar espaço a determinado tema que não lhes interessa. E não importa, como disse, que a notícia esteja nos maiores jornais do mundo. Se Lula é inocente ou culpado, não interessa aos donos da narrativa imposta hoje por setores do Judiciário, do Ministério Público Federal e da imprensa.

O único problema para consolidar uma distorção dos fatos como realidade é que acabou o tempo da voz única e incontestável. Com a Internet, uma edição do Jornal Nacional que manipula um acontecimento tem tudo para ser desmoralizada em algumas horas. É o que está ocorrendo precisamente agora, depois que a Globo, de novo, trata a informação de maneira vergonhosa.

Mas, afinal de contas, a decisão do comitê da ONU terá algum efeito na disputa eleitoral? Ainda que Lula continue preso e seja declarado inelegível – como vai ocorrer mesmo –, a resposta é sim. O candidato do PT reitera sua condição de vítima de um processo sem provas, levado adiante na base do atropelo da lei, sobretudo de princípios essenciais da Constituição. Porque foi isso o que ocorreu.

Barrado como candidato, Lula no papel de perseguido político é tudo o que o PT precisa para tocar sua música. Já aparecem as primeiras pesquisas que indicam o crescimento de Fernando Haddad, o Plano B do partido. Os dados indicam que a transferência dos votos de Lula pode ocorrer em grau suficiente para levar Haddad ao segundo turno. E aí, as chances de vitória são elevadas.

É por isso que os celerados no MPF e no Judiciário querem passar por cima de todos os prazos e declarar (ontem, se fosse possível) a inelegibilidade do velho sapo barbudo. Nenhuma novidade. É a mesma sanha que se viu na atuação do juizinho da Lava Jato para condenar o ex-presidente no caso do apartamento. E mesmo com toda essa operação, Lula segue determinando os rumos da corrida.

Chovendo no molhado: o país terá uma eleição em panorama inédito na política brasileira. O ambiente de terra arrasada, cultivado por tranqueiras que deveriam zelar pelas instituições, cedeu o palco para cretinos de todos os matizes – milicos, carolas e togados, entre outros. Jair Bolsonaro, mesmo que perigoso, é só a parte mais tosca da novela, verdadeira chanchada nacional.

Pesquisas apontam ampla vantagem de Renan Filho sobre Fernando Collor

Duas pesquisas, divulgadas no mesmo dia, revelam um panorama amplamente favorável ao governador Renan Filho. De acordo com números do Ibope, anunciados na noite desta quinta-feira pela TV Gazeta, Renanzinho periga ser reeleito no primeiro turno. Ele tem 24 pontos à frente do segundo colocado, o senador Fernando Collor – que também é o nome com maior rejeição.

Vamos ver os dados do Ibope. Renan Filho (MDB) aparece na frente com 46% das intenções de voto. Collor (PTC) é o segundo colocado com 22%. Em terceiro lugar, Josan Leite (PSL) marca 2%, e Basile Cristopoulos (PSOL) obteve 1%. O candidato Melquezedeque Farias (PCO) não foi citato pelos eleitores. Cenário semelhante foi apresentado também na pesquisa do Ibrape, que já comentei.

O Ibope trouxe outra boa notícia para Renan Filho. Seu governo é aprovado por 59% da população. Somando tudo, pode-se dizer que o desafio, para Collor, é quase uma missão suicida. O tempo pode ser fatal na campanha. Estamos a menos de 60 dias da hora do voto. O drama do candidato é como transformar um quadro hoje tão desfavorável. Tem trabalho de sobra para os marqueteiros.

É claro que as pesquisas refletem o agora. Será a partir do Guia Eleitoral no rádio e na TV que os candidatos vão mostrar a cara ao eleitor. Também é verdade que somente a partir desta semana começou o corpo a corpo nas ruas – uma coisa de antigamente, mas que continua sendo essencial. Os rumos da campanha vão determinar a dança dos números nos próximos levantamentos.

Na noite desta quinta, a Rede Bandeirantes realizou debates para governador em alguns estados. Como não temos afiliada Band em Alagoas, assisti ao encontro dos candidatos ao governo de São Paulo. Nossas emissoras locais ainda não anunciaram datas para debates neste primeiro turno.    

Já a Rede TV promove nesta sexta-feira um debate com os candidatos a presidente. Li na imprensa que a emissora pretende expor a cadeira destinada a Lula – que não teve permissão da Justiça para participar, como pediram seus advogados. O inusitado da situação dá um resumo do Brasil.

Lula candidato e pesquisa eleitoral

Quantos dias vai durar a candidatura de Lula a presidente? Pela rapidez da Procuradoria Geral da República, não passaria de hoje. Com Lula fora das urnas, será mesmo Fernando Haddad o candidato do PT. E, a esta altura, não há quem aposte num cenário definido quanto ao desempenho dos concorrentes. Um segundo turno sem o PSDB ou o PT seria a grande novidade em 24 anos.

Mesmo preso, Lula mantém sua força eleitoral em todas as regiões do país, especialmente no Nordeste. A nova pesquisa Ibrape, divulgada nesta quinta-feira aqui no CADAMINUTO, atesta essa realidade. O petista tem o voto de 55% do eleitorado alagoano. Jair Bolsonaro tem 11%. O grande mistério é saber quanto desse apoio Lula consegue transferir ao novo poste, Haddad.

Por falar em pesquisa, temos também os números do Ibrape para senador e governador de Alagoas. Mais ou menos como previsto, Renan Filho lidera a corrida na tentativa de renovar seu mandato, com 44% das preferências. Na segunda posição, o senador Fernando Collor tem 21%. Basile Cristopoulos e Josan Leite ficaram empatados com apenas 1% das intenções de voto. É a largada.

Como escrevi em texto anterior, um cenário como este, captado pela primeira pesquisa após a confirmação oficial das candidaturas, pode nos levar a uma definição em primeiro turno. É a tendência natural quando dois candidatos se isolam dos demais. Ainda é cedo, claro, e o horário eleitoral na TV só começa no fim do mês. Aí veremos se os rumos podem virar ou não.

Na corrida presidencial, existem ao menos três pedidos de impugnação da candidatura Lula. Já por aqui, até agora, não vi notícia nesse sentido com nenhum de nossos candidatos. Pelo visto, num primeiro momento, ninguém sinalizou com jogadas no tapetão. Mas não deve demorar para que isso acabe ocorrendo. Ainda que não existam fatos concretos, acusar faz parte da estratégia.

Enquanto os candidatos a presidente falam sem parar, em entrevistas e debates, ainda não temos isso na eleição alagoana. Nenhuma emissora de TV local anunciou debates no primeiro turno que já começou. A campanha está no contato direto da rua e no tiroteio das redes sociais.

As eleições 2018 ocorrem sob um “protagonismo” inédito do Poder Judiciário. Na onda que varre o país nos últimos anos, não será surpresa se uma invencionice de última hora, a partir da cabeça de algum doutor da magistratura, mudar as regras do jogo. Perto disso, o mistério das urnas é fichinha.

O Brasil de hoje, a lei e as eleições

Alguém já disse, há muito tempo, que o problema do Brasil não é a falta de leis, mas o excesso. Por isso, quando vejo um político se vangloriar de ser autor de tantos e quantos projetos, que servem apenas para engrossar em algumas páginas nossos códigos, tenho certeza de que é ação puramente eleitoreira. Um exemplo escancarado dessa complicada realidade é a Lei Maria da Penha.

Saudada pela imprensa como grande avanço no combate à violência contra a mulher, a iniciativa jamais chegou nem perto de alcançar tal promessa. Doze anos depois de entrar em vigor, a lei não produziu qualquer redução nos índices da criminalidade que atinge a população feminina. Números dramáticos revelam que a estatística explodiu no intervalo superior a uma década.

Governos não admitem a existência de áreas dominadas pelo crime, nas quais nem as polícias conseguem entrar. Ainda que seja algo corriqueiro no cotidiano de cidades por todo o país, autoridades rejeitam as evidências com naturalidade escandalosa. Aí, a cada estação, surge um caso de repercussão nacional para provar, mais uma vez, a quase falência da segurança pública.

É o que estamos vendo agora em São Paulo, com o assassinato de uma PM na favela de Paraisópolis. É apenas mais um exemplo. Após ser reconhecida como policial, segundo leio em reportagens, ela foi levada por quatro bandidos que trabalham para o PCC, submetida a “julgamento” – no tribunal da facção – e condenada à morte. Os donos da região ditam suas próprias leis, acima do Estado.

Enquanto isso, o general da reserva Hamilton Mourão, candidato a vice na chapa do presidenciável Jair Bolsonaro, acaba de revelar ao mundo a chave teórica para explicar os grandes males que afligem os brasileiros. Para ele, é tudo muito simples: herdamos a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos. A nova direita embala pensamentos cheios de erudição.

O general não explicou como poderíamos nos livrar dessa herança maldita. A julgar pela inteligência programática de bolsonaristas, aqui mesmo por Alagoas, suponho que talvez defendam o extermínio de selvagens remanescentes e a volta da escravidão. Ora, chega de democracia e mimimi.

Os cidadãos de bem, que não aguentam mais um país tão esculhambado, perderam a paciência. Chegou a hora de um cara de pulso forte, com fuzil na mão para caçar índios, negros e, é claro, subversivos comunistas que ameaçam a integridade da família. Parece ficção, mas chegamos a isso.

O lado positivo de toda essa antologia de sandices é que, quanto mais Bolsonaro e assemelhados falam, mais expõem suas patologias mentais. Ao menos assim, fica mais fácil enviá-los de volta ao planeta particular de onde vieram. Para tanto, não precisamos de novas leis. Uma eleição resolve.

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