Blog do Celio Gomes

Os Bolsonaro são a nova Família Buscapé

O governo de Jair Bolsonaro tem um problema que vai durar os quatro anos de mandato do presidente. É que os maiores criadores de confusão com o Planalto são os três herdeiros do capitão. Ou seja, o pai pode demitir meio mundo em sua equipe, mas não tem como destituir Carlos, Flávio e Eduardo dos “cargos” de filhos do chefe. E o trio joga o jogo mais baixo nos bastidores, com falas estúpidas e ofensivas na direção de qualquer voz que se levante contra presepadas no governo.

Um dos filhos, Flávio Bolsonaro chega ao Senado com o carimbo da forte suspeita de enriquecimento ilícito. Combinado a isso, o “garoto” é chegado a milicianos, como provam suas homenagens a acusados de homicídios no Rio de Janeiro. Não deu explicação minimamente lógica para sua obscura conduta. Que as investigações consigam resultado esclarecedor.

Já Eduardo, aquele que responde por ameaças a uma ex-namorada, andou meio entocado nos últimos dias. Deve estar ocupado com maquinações nos subterrâneos. Além de querer fechar o STF com um cabo e um soldado, age a partir de seus interesses e, por isso, atropela também ministros e o vice, Hamilton Mourão. Já brigou com parlamentares aliados, sempre no baixo nível.

E tem o Carluxo. Vereador no Rio de Janeiro, ele praticamente abandonou o trabalho na Câmara Municipal. Deveria renunciar ao mandato e se mudar para Brasília. É o cara da comunicação do pai presidente – o que para Carlos Bolsonaro significa mergulhar de cabeça no lamaçal das redes sociais. O elemento passa o dia no Twitter espalhando falsidades, atacando pessoas e a imprensa.

Sabemos de muitos casos de confusão em empresas comandadas por famílias. É uma tradição. Agora mesmo a TV Bandeirantes vive uma crise, com irmãos querendo destituir João Saad da presidência do grupo. A via saudável é profissionalizar a gestão com executivos sem parentesco com os sócios. Mas, nesses casos, trata-se de negócio privado. E na vida pública, o que fazer?

Aí a coisa se complica pra valer. Jair Bolsonaro pode trocar de ministro a hora que quiser, mas, como disse, não tem como trocar de filhote. O certo seria o presidente enquadrar seus bandoleiros mirins, mas parece que não tem força diante desse trio de boçais deslumbrados com o poder. O que ele faz mesmo é passar a mão na cabeça de suas crias. Com esse padrão, alimenta o ânimo dos sujeitos.

As peripécias de Flávio, Eduardo e Carlos irritam ministros, com especial estrago na ala militar. Os generais no governo consideram o trio um foco permanente de problemas. A continuar nessa toada, não se sabe o que pode ocorrer nas próximas semanas, nos próximos dias ou daqui a pouco. Temos um governo que lembra a Família Buscapé, aquele desenho animado sobre relações humanas.

Hamilton Mourão, inimigo dos Bolsonaro

Sabem da última ameaça ao honrado presidente da República, Jair Messias? Ao contrário do que se poderia imaginar, não estou falando de nenhum perigoso carcamano do globalismo ou do marxismo cultural. Por mais estranho que possa parecer, bolsonaristas identificaram no vice Hamilton Mourão um inimigo tão odioso, que precisa ser abatido. Os doentinhos da nova direita queriam demitir o general do governo o mais rápido possível. O problema é que ele foi eleito no voto.

Mourão virou alvo dos três maloqueiros filhotes do presidente (sem querer ofender a maloqueragem de raiz). Com pouco mais de um mês de governo, o vice-presidente agora é tão odiado no planeta bolsonariano quanto uma exposição de arte ou uma música do comunista Chico Buarque. Nunca pensei que tão rapidamente o fanatismo dessa galera se voltasse contra seus próprios integrantes.

Mas é exatamente isso o que está acontecendo. A cada entrevista do vice, intelectuais do nível de Alexandre Frota e Joice Hasselmann atacam nas redes sociais. A mesma atitude é replicada pelos seguidores da seita Brasil afora, internet adentro. Se eu fosse o Mourão, tomaria alguns cuidados, afinal os Bolsonaro têm aquele carinho por milicianos. Vai que, tomados por forte emoção...

As trombadas com o vice alimentam um dos vários focos de crise num governo com pouco mais de um mês de vida. Todo dia é uma confusão dos diabos, sempre com a contribuição infalível dos próprios governistas. Mas nada se compara à desenvoltura dos herdeiros do capitão presidente. São obcecados em manietar as ações de qualquer ministério; querem mandar mais que os ministros.

Bolsonaro deixou o hospital nesta quarta-feira. A alta médica chegou junto com mais uma crise, deflagrada após reportagens da Folha de S. Paulo, que mostram o laranjal de candidaturas do PSL, o partido do presidente. Pelo que já se sabe, o partido da “nova política” é especialista em fabricar candidatos fantasmas, para garantir o desvio do fundo partidário, abastecido com recursos públicos.

O escândalo da safadeza com laranjas nas eleições do ano passado pode custar a cabeça de Gustavo Bebianno, ministro da Secretaria Geral da Presidência. Ele era o presidente nacional do PSL durante o processo eleitoral de 2018. No meio do caso, Carlos Bolsonaro, um dos pivetes do capitão, chamou Bebianno de mentiroso pelas redes sociais. O governo mantém o nível prometido.

Depois de Mourão, portanto, agora é Bebianno o alvo principal dentro do próprio governo. A situação do ministro é insustentável. Mas ele disse em entrevista à Globo que não pede demissão. A crise está no patamar mais delicado, a ponto de poder provocar a primeira baixa no ministério. Voltarei ao assunto no próximo texto para abordar com mais detalhes o fator família no comando do país.

A explicação do governo não convence

“Alagoas está em boa situação fiscal – e a população pode ficar tranquila”. A garantia é do secretário da Fazenda, George Santoro, em entrevista ao jornalista Luis Vilar, meu colega aqui do lado no CADAMINUTO. O governador Renan Filho também quebrou o silêncio, na mesma linha do secretário. Não há risco de corte nos salários dos servidores públicos, afirma o chefe do Poder Executivo. Os dois tiveram de falar bastante nesta sexta-feira, para apagar o incêndio provocado pela notícia revelada no dia anterior pela imprensa nacional. Demoraram a se tocar sobre a urgência.

Tudo bem. Então Alagoas se manifesta ao Supremo Tribunal Federal sobre algo gravíssimo – mas tudo não passa de “solidariedade” aos estados que enfrentam uma situação de colapso em suas finanças. Tem lá alguma lógica, mas ainda não me parece uma explicação definitiva. Longe disso.

Vejam: são 27 unidades da Federação. Cadê a “solidariedade” dos demais governadores? Somente nove estados assinam a carta que solicita ao STF alteração na Lei de Responsabilidade Fiscal, com o objetivo de obter autorização legal para a medida extrema. Difícil aceitar como algo simplório.

Fala o governador, também segundo este portal: “O STF ainda nem deliberou. Vamos aguardar a decisão para checar o que vamos fazer em Alagoas. Mas garanto que esse não é o nosso caso”. A declaração aponta numa direção, mas parece deixar uma porta aberta para mudança de lado.

O panorama fiscal dos estados não é nada saudável. Depois de uma temporada de forte crise nos últimos anos, 2019 começou mais bagunçado do que se imaginava. O primeiro mês do governo Bolsonaro deixou a nítida impressão de tempo perdido. A turma tá preocupada com o “globalismo”.

De todo modo, sendo otimistas, vamos acreditar nas garantias de Renan Filho e Santoro. O governo continua prometendo aquele meio mundo de hospitais, escolas em tempo integral e concursos para diferentes categorias. Na propaganda, a coisa vai muito bem, obrigado. Marketing não tem crise.

Governador tem de falar sobre folha salarial

O governador Renan Filho manteve um silêncio perturbador diante de uma notícia nada corriqueira sobre sua gestão. Refiro-me à proposta defendida por nove governos estaduais, incluindo Alagoas, de eventual redução da jornada de servidores, com o automático corte de salários. Resumo dos fatos está no texto anterior do blog. Não lembro de nada parecido nas últimas décadas, sem exagero.

A medida seria uma forma de evitar colapso nas finanças, no caso de uma queda significativa nas receitas públicas. É algo que precisaria ser aprovado pelo Supremo Tribunal Federal, porque mexe com a Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada nos anos 1990, durante o governo Fernando Henrique. Foi um avanço tremendo na legislação, que veio pra impedir a farra de gastos com a folha.

A notícia, que saiu nesta quinta-feira, provoca um temor generalizado entre milhares de funcionários do governo. Na verdade, é uma bomba de efeitos instantâneos e que deveria receber explicação oficial, rápida e transparente. Por isso, pensei que o próprio governador viria a público de imediato pra contar tudo, preto no branco, sem meias palavras nem discurso enviesado. Mas, até agora, nada.

Ao CADAMINUTO, a assessoria da Secretaria da Fazenda informou algo que, lendo e relendo, praticamente nada informa pra valer. Diz que o governo de Alagoas pediu ao STF que seja autorizada essa medida radical – mas foi apenas “em solidariedade aos estados em calamidade financeira”. É uma versão rasteira diante da gravidade do assunto. Não esclarece coisa nenhuma.

O governador Renan Filho tem de falar sobre essa história. Se não o fizer logo, vai apenas contribuir para aumentar a desconfiança de que algo de muito errado pode estar ocorrendo com o caixa estadual.  O silêncio sobre tema tão preocupante certamente não ajuda a acalmar os ânimos de ninguém. O mais óbvio a fazer é dar uma entrevista coletiva para enfrentar as muitas dúvidas.

Vamos ver se ao longo desta sexta o chefe do Executivo faz o que deve fazer. Como disse, esticar uma história dessas só prejudica o próprio governo. Sabe-se que a situação de muitos estados é de insolvência. Basta olhar para o Rio de Janeiro ou para Minas, por exemplo. Há risco, remoto ou iminente, de Alagoas entrar para o time dos falidos? Com a palavra, Renan Filho.

Servidor estadual terá corte nos salários?

O CADAMINUTO já publicou reportagem sobre o assunto. Como se trata de uma novidade bem inesperada, vou dar alguns palpites. Antes, vejam o que publica a Folha de S. Paulo nesta quinta-feira. Logo em seguida, deixo um breve comentário.

Em carta ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Dias Toffoli, os secretários de Fazenda do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Paraná, Ceará, Pará, Alagoas e Mato Grosso do Sul pedem ao Supremo que restabeleça a medida que prevê a possibilidade de redução da jornada de trabalho dos servidores públicos com o correspondente corte dos vencimentos em caso de frustração de receitas.

O grupo pede ainda que volte a valer a medida que, também em cenário de perda de receitas, permite que o Executivo ajuste os limites financeiros dos demais Poderes e do Ministério Público nos casos em que os não o façam.

A carta foi entregue na segunda-feira (4) pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e sua secretária da Fazenda, Cristiane Alkmin Schmidt, ao ministro Dias Toffoli.

Embora impopular, a possibilidade de cortar salários e reduzir carga horária de servidores é cada vez mais cara aos estados, que veem na medida um meio de reajustar as suas contas, bastante pressionadas pelos gastos com pessoal ativo e inativo. 

Comento. A iniciativa dos estados revela que as perspectivas não parecem boas a essa altura do campeonato. Naturalmente, para o público local o governo de Alagoas tenta manter a imagem de que está tudo bem. Não se vê o governador Renan Filho passar recibo para crise nenhuma. Mas a carta ao STF, assinada pelos secretários de Fazenda, incluindo o nosso George Santoro, sinaliza para outro panorama. Ainda segundo a Folha, o Supremo analisa o caso no dia 27 deste mês.

Flávio Bolsonaro e o promotor bolsonarista

O promotor Cláudio Calo deveria assumir as investigações sobre o caso que envolve o senador Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz, que era uma mistura de motorista, assessor e faz tudo do filho Zero-1 do presidente da República. O integrante do Ministério Público do Rio de Janeiro se declarou impedido para atuar nas investigações e pediu pra sair. Na verdade, Calo foi obrigado a cair fora.

O promotor não poderia jamais atuar no caso, por uma razão escandalosa: é um fanático bolsonarista, que usa as redes sociais para bajular o próprio Flavio Bolsonaro. A admiração deste senhor pelos investigados é tanta, que ele, em publicações no Twitter, minimizou as suspeitas de mutreta na movimentação financeira de Queiroz, reveladas pelo Coaf. Deve ser por engajamento patriótico!

Parece piada, mas é assim mesmo que muitos promotores, procuradores e juízes agem hoje em dia. Fazem política protegidos pela toga. Eis aí um fenômeno dos novos tempos. Deltan Dallagnol, aquele das bochechas rosadas, continua fazendo escola. O juiz Marcelo Bretas – o Moro das praias cariocas – é campeão nesse tipo de safadeza. Bretas é o sério magistrado do auxílio-moradia em dobro.

Antigamente, juízes e promotores gostavam de repetir o que consideravam um mandamento sagrado: autoridades como eles só se manifestam nos autos de um processo. Hoje não mais. Com as redes sociais, está provado que esse rigor todo não resistiu à compulsão pela politicagem e nem à vaidade típica de retardados que fazem qualquer patetice para conseguir likes e curtidas.

Se existe algo de positivo nessa novidade, digamos assim, é que agora sabemos que a discurseira de imparcialidade e isenção dos doutores é tudo papo furado. A seriedade de muitos, pelo visto, depende dos nomes envolvidos nas denúncias. Se a capa do processo tem um nome simpático aos senhores da moralidade alheia, aí as acusações não valem nada. Se for do outro lado, é bandido.

Quando são cobrados por suas macaquices pelas redes sociais, sobretudo por declarações em defesa aberta de amigos da política – ou com ataques a lideranças que rejeitam – aí os homens da lei ficam valentões e denunciam perseguição à Justiça. É a tática mais manjada pra desvirtuar a realidade e escapar de responsabilidades. Esse padrão, degenerado desde a origem, veio pra ficar.

Como essas categorias são brutalmente corporativistas, seus integrantes agem feito deuses, acima do bem e do mal. Nada lhes acontece, mesmo que cometam barbaridades. As Corregedorias, o Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional do Ministério Público deveriam combater os abusos dos aloprados, mas isso não passa de teoria. Por essas e outras, o Brasil é o que é.

O pacotinho de Sergio Moro contra a violência

O Brasil tem uma das polícias que mais matam no mundo. O pacotinho de medidas para combater a violência, apresentado pelo ministro Sergio Moro, traz uma proposta perfeita para elevar esse índice. A grande ideia do ex-juiz, que entrou para o governo Bolsonaro após agir como cabo eleitoral na reta final da campanha, é livrar a cara de policiais que vierem a matar em supostos “confrontos”.

As maiores vítimas das forças policiais nos “tiroteios” nas periferias brasileiras são pobres e negros. São dados oficiais que revelam a seletividade do “combate ao crime”. Caso a intenção do herói de Curitiba seja aprovada pelo Congresso Nacional, o que já é algo corriqueiro estará devidamente legalizado. Se isso é tudo o que Moro tem a oferecer, a bandidagem até agradece.

É certo que a visão do ministro sobre ações violentas das polícias combina com o pensamento de governadores e secretários de Segurança por todo o país. Combina também com a cabecinha de otoridades do Judiciário e do Ministério Público.  Aqui mesmo em Alagoas a regra é essa: invadir áreas tomadas pela pobreza e mandar bala nos “vagabundos”. A estratégia rende até votos.

Para enfrentar a corrupção no meio da política, Moro também propõe a chamada criminalização do caixa dois. O engraçado é que o ministro da Justiça já defendeu enfaticamente o ministro Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, useiro confesso dessa modalidade de financiamento de campanha. No caso de Onyx, como ele pediu sinceras desculpas, Moro declarou que o malfeito está superado.   

O presidente da República é simpático a grupos de extermínio. Foi o que ele mesmo declarou, mais de uma vez, ao longo de sua medíocre trajetória na política. Os filhos de Bolsonaro são amigões de milicianos cariocas. Sergio Moro é parte da turma de um governante que já manifestou respeito a torturadores. Nada mais natural, portanto, que os projetos do ministro mirem justamente os pobres.

No pacotinho que será analisado na Câmara e no Senado, Moro incluiu medidas já rejeitadas pelo Congresso. Ele tenta agora dobrar o parlamento com ideias que, por um lado, agridem a presunção de inocência, e, na outra ponta, incentivam matança legalizada. Se não der certo, o ministro jogará a culpa nos parlamentares que votarem contra suas intenções. O que ele faz é política, desde a toga.

A segurança pública é responsabilidade dos estados, segundo nossa Constituição. A encrenca, como disse, é que os gestores estaduais só conhecem o caminho da truculência. “Bandido bom é bandido morto”, berram esses populistas de quinta categoria, para justificar a política de extermínio que incentivam nas cidades. Se depender de Moro, vamos continuar por aí, detonando na periferia.

Senado: Davi Alcolumbre presidente, o destino de Renan e a estreia de Kajuru

O novo presidente do Senado é do Amapá. Davi Alcolumbre, 42 anos, está no primeiro mandato. Foi vereador e deputado federal pelo PDT. Hoje é um dos “renovadores” da política alojados no DEM. A vitória do senador dá ao Democratas um protagonismo inesperado – com Rodrigo Maia na presidência da Câmara, comanda agora as duas casas. É uma situação nada corriqueira entre nós.

Além de mandar no Congresso, o partido emplacou três dos mais importantes ministérios na equipe de Bolsonaro: Casa Civil, Saúde e Agricultura. A situação provoca ciumeira nas alas que disputam poder dentro do governo. Alcolumbre foi uma aposta do ministro Onyx Lorenzoni. Terá, portanto, de entregar o combinado à altura do empenho de uma tropa governista. Vai ter imenso trabalho.

A partir de agora, começa pra valer a rotina de negociações com o governo em torno da agenda de votações. O projeto mais aguardado é o da reforma da Previdência. O Planalto conta com a parceria do Legislativo para aprovar o que vem por aí. O eleito para presidir o Senado assume refém das prioridades governistas. Veremos como se portará diante de casos concretos em debate no plenário.

E Renan Calheiros? O que todos se perguntam é se ele vai mesmo para a oposição ostensiva ou se terá outra postura. Como candidato a presidir o Senado, ele tentou mostrar simpatia plena às ideias de Bolsonaro. Agora, na condição de maior derrotado, num processo por demais desgastante, deve avaliar os rumos no dia a dia do parlamento. Pode surpreender, seja qual for a escolha que fizer.

A eleição que agora está resolvida deixa um saldo grave. Com cenas típicas de ficção ruim, senadores mostraram por que a imagem dos políticos e o conceito de política nunca estiveram tão sujos. Nos dois dias das sessões, houve um festival de manobras e agressões ao regimento do Senado. Uma mostra do quanto estamos longe de um padrão sério e civilizado na vida pública.

Com uma formação cheia de novatos, o Senado registrou, nesses dois dias, alguns momentos de pequenos choques entre os mais veteranos e a turma que se vende como a “nova política”. Num desses momentos, o senador petista Jaques Wagner chegou a levantar a voz para contestar uma das crias da jovem guarda. Não se sabe se esse tipo de embate dura muito ou acaba em pouco tempo.  

Não sei em que medida, mas parece que, também nesta eleição do Senado, as redes sociais jogaram algum papel relevante. Durante as sessões senadores falavam diretamente com eleitores que acompanhavam tudo e cobravam os eleitos e compartilhavam e faziam zoada por cada lance e até foram citados por alguns parlamentares. Tudo assim, embolado e instantâneo, até sem vírgula.

O Senado ganhou um personagem difícil de encontrar um rival à altura. Espero que me entendam: falo de Jorge Kajuru, aquele jornalista esportivo. O novo senador fez enquetes, em tempo real, pra que seus seguidores decidissem como ele deveria votar. Ao defender voto aberto, contou ao país como descobriu um caso de traição quando era criança. O pai era dado a coisas secretas, revelou.

Se, em termos de talento para a comédia, Kajuru não é páreo para o Tiririca, seu colega de Congresso na Câmara, o senador é craque em produzir insanidades e bizarrices. Teremos um Senado talvez bem mais animado. Aliás, Kajuru fez vários elogios a ele mesmo durante as sessões, com destaque para seu “poder de comunicação” e domínio da “oratória”. A perspectiva é das melhores.

Farejando a derrota no Senado, Renan desiste

O senador Renan Calheiros retirou sua candidatura a presidente do Senado. Foi uma decisão surpreendente e que acaba por aumentar a confusão instalada no plenário. O mais maluco é que o parlamentar alagoano anunciou sua desistência quando já ocorria a segunda votação, depois que a primeira foi anulada por suspeita de fraude. O novo processo parou mais uma vez e não se sabe como a sessão chegará ao fim. Já estamos diante de fatos inéditos na história do Congresso.

A resposta mais óbvia para explicar o gesto de Renan é que ele farejou os sinais de uma derrota inevitável. Isso ocorreu porque, embora a votação seja oficialmente secreta, dezenas de senadores declararam o escolhido na hora de depositar a papelada na urna. A essa altura, já se fala do erro cometido pelo MDB ao bancar a candidatura do alagoano. O nome de Simone Tebet seria bem mais leve do que o do cacique veterano. A insistência em Renan gerou reação fortemente negativa.

Segundo a Globonews, logo depois de renunciar à candidatura, Renan deixou o plenário. Não se sabe se ele abandonou mesmo de vez a sessão ou se ainda tenta alguma jogada de última hora. Não parece haver mais chance de uma reviravolta que beneficie o parlamentar do MDB. Em situação inversa, Davi Alcolumbre já recebe cumprimentos como virtual eleito – o que não deixa de ser uma tremenda precipitação. Por tudo o que já ocorreu, não se pode garantir nada nem coisa nenhuma.

Neste momento, o processo está parado. O plenário e a mesa batem cabeça. O senador Espiridião Amim, que é um dos candidatos, defende que tudo recomece do zero. O que a mesa propõe, no entanto, é a sequência da votação, mesmo que Renan tenha renunciado quando isso já estava em andamento. A votação recomeça no momento em que termino o texto. Pode haver segundo turno, se ninguém obtiver 41 votos na primeira rodada. Depois do desfecho, voltarei para comentar.

Suspeita de fraude na eleição do Senado

Tem de tudo na escolha do novo presidente do Senado. Encerrada a votação secreta, descobriu-se que haveria dois votantes há mais do que o total de 81 senadores. A suspeita, portanto, é de que pode ter ocorrido uma tentativa de fraude. Algum bobinho deu um jeito de assinalar em duas cédulas, e não apenas em uma. Diante da bizarra descoberta, instalou-se novo impasse na reunião para escolha do presidente. Há quem defenda nova votação ou a anulação dos votos a mais.

O episódio acrescenta lances deploráveis ao que já era além de deplorável. A esculhambação começou desde a sexta-feira, numa sequência de tumultos que em nada ajuda na imagem do velho Congresso. Neste momento, a mesa não se entende com o plenário sobre o que fazer frente aos votos fantasmas – embora a alternativa de nova votação deve mesmo ser o caminho adotado. Os candidatos foram consultados sobre essa opção, e há consenso pra repetir o processo de escolha.

Em seu discurso como candidato, nesta sessão de sábado, o senador Renan Calheiros bateu forte no ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Como escrevi antes, o ministro bancou a candidatura de Davi Alcolumbre, numa aposta para derrotar o alagoano. Os dois são filiados ao DEM. Alcolumbre foi chamado de pau-mandado de Onyx. A ação do ministro irritou o senador Major Olímpio, ele mesmo candidato a presidente, que além de filiado ao PSL, é um fanático bolsonarista de carteirinha.

A sessão começou no fim da manhã. Escrevo estas linhas pouco depois das 16h – e o impasse dos votos fantasmas continua. A mesa chegou a sinalizar que haverá nova votação, mas a gritaria não arrefeceu. Até máquina trituradora de papel foi levada a plenário para tornar a coisa, por assim dizer, mais limpa. É um dia e tanto para o Poder Legislativo brasileiro. A senadora Leila do Vôlei acaba de se manifestar como fiscal da votação. Vai começar a nova rodada de escolha na Casa. Volto depois.

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