Blog do Celio Gomes

Por que Bolsonaro precisa de inimigos

A estratégia de cultivar inimigos no jogo da política é tão anacrônica quanto recorrente. Jair Bolsonaro está aí para provar que a prioridade em seu governo é atacar adversários – mesmo que esses adversários sejam apenas invenções do pensamento bolsonariano. Denunciar o tempo todo a ação de forças ameaçadoras distrai a imprensa e, sobretudo, reforça o sentimento de fidelidade na seita supostamente sob ataque. É sempre mais fácil acusar o outro do que explicar o próprio fracasso.

Com esse ideal de guerra na cabeça, Bolsonaro responde a qualquer coisa apontando para sabotadores imaginários. Vejam o caso do professor Olavo de Carvalho. Passam os dias e a influência do filósofo sobre o governo parece aumentar cada vez mais. O resultado é uma briga de foice entre os filhos idiotas do presidente e a ala militar no Planalto. Nesse caso, pai e filhote aprontam as piores safadezas – e depois saem acusando a “imprensa suja” e o “comunismo que tanto mal fez ao país”. 

No patético episódio do aumento do diesel pela Petrobras, que foi desautorizado pelo presidente, viu-se um governo batendo cabeça durante vários dias, sem uma explicação séria e razoável sobre o acontecido. Nada. Ou melhor, o de sempre: está tudo certo na gestão federal; estão querendo tumultuar o trabalho do estadista brasileiro. Os fanáticos seguem lambendo as botas do “mito”.     

O racha entre olavistas e militares chegou no ponto máximo de tensão, ao menos até o momento em que escrevo isto aqui. Carluxo, o filhote mais assanhado nas redes sociais, agora dispara suas pilantragens abertamente contra o vice-presidente, Hamilton Mourão. O herdeiro errático do capitão não vê limites pra fazer valer o projeto de sua família. Ninguém está a salvo disso daí.

Diretamente do baixo clero, o inexpressivo deputado Marco Feliciano dá sua contribuição para a vigarice dos Bolsonaro. O pastor de almas perturbadas quer apresentar um pedido de impeachment contra Mourão. Tem o apoio, como se vê, dos aloprados trombadinhas – que se valem do laço de parentesco para detonar em Brasília. Público & privado sob as ordens da “nova política”.

O governo seguirá nessa toada, indicam todos os sinais emitidos pela gang amiga de milicianos. É por isso que resta clara a reincidente tática de buscar inimigos que sirvam de bode expiatório. Imprensa, esquerda, globalismo, universidades e “traidores da causa”, entre outros, estão na mira. Um dos alvos da hora, como se sabe, é o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaristas querem mandar sem freios.

Até um dia desses, apoiador meio enrustido desse governo, o cineasta José Padilha pulou do barco. Em artigo na Folha, o diretor de Tropa de Elite fulminou o ex-juiz Sérgio Moro, aquele que, depois de servir de cabo eleitoral para Bolsonaro, ganhou de presente o cargo de ministro da Justiça. Padilha disse que o pacote anticrime apresentado por Moro é um tremendo incentivo ao negócio das milícias.

Ao dizer o óbvio, o cineasta saiu da ala dos amigos e se transformou em odioso marginal a ser abatido pelo exército de robôs do bolsonarismo que age no submundo da internet. É assim que a banda toca. Como disse, o espetáculo vai continuar, porque esse é o DNA da porcaria que hoje governa o país. Também por isso fala-se tanto na possibilidade de Bolsonaro não terminar o mandato.

Futebol turbina a imagem de Alagoas

Esqueça a política da casa – com nosso talento para influenciar a República, em diferentes momentos da vida nacional. Também esqueça a alta cultura caeté, que ora se traduz nas criações de Carlinhos Maia, esse novo guru da elite alagoense. O maior acontecimento na história recente de Alagoas é a chegada do CSA à primeira divisão do futebol brasileiro. Daqui a uma semana, no domingo 28, quando o time entrar em campo contra o Ceará, pela Série A, nada será como antes.

Pescando informações sobre o Azulão, descubro que o trabalho do treinador Marcelo Cabo não é uma unanimidade no clube. Haveria pessoas na cúpula da diretoria com opiniões pouco otimistas com a permanência do professor. Diante do cenário, parece contraditório que azulinos tenham restrições ao técnico responsável pela façanha da ascensão ao bloco dos grandes. Esses insatisfeitos acham que o time poderia contratar um nome com mais peso no mercado da bola. Veremos adiante.

O treinador já andou dizendo que recebeu dezenas de propostas para trabalhar em clubes maiores – mas deu preferência à continuidade de um projeto. Parece bonito. Não se sabe o quanto dessa demanda pelo talento de Marcelo Cabo seria coisa de marketing. O técnico não revela os autores das propostas tentadoras. A presidência do CSA, porém, ao tratar do assunto, garante que a ideia é pela manutenção da equipe técnica. A sequência dos primeiros jogos será determinante para o caso.

Mas não tenho informações concretas sobre uma eventual guinada da cartolagem sobre o futuro do treinador ou de qualquer outra peça no grupo. Aliás, essa não é a motivação do texto. Escrevo isso aqui para ressaltar o quase ineditismo de um time alagoano na primeira divisão. A visibilidade não apenas a jogadores mas também ao estado é automática, decorrente da potência única que é o esporte como vitrine. Numa competição longa, que atravessa quase o ano inteiro, haja exposição!

A estreia do CSA é fora de casa, em Fortaleza. E vejam que curiosidade: o mestre Lisca Doido, que treinava o Ceará até este domingo, perdeu o cargo após derrota para o Fortaleza, na decisão do campeonato estadual. Nesse caso, me parece que o clube cearense (e primeiro adversário dos alagoanos) decidiu levar a competição a sério. Mas isso é problema do inimigo, diriam os fanáticos da Mancha e simpatizantes. A segunda partida do CSA, contra o Palmeiras, será no Trapichão, em 01/05.

No mundo ao mesmo tempo pantanoso, superficial e despirocado que é o jornalismo esportivo, o CSA começa sua jornada na primeira divisão com destino selado: ficará entre os quatro rebaixados, de volta à Segundona em 2020. É o que pensam onze entre dez analistas de futebol. Para os que falam e escrevem sobre o nosso esporte mais popular, o time alagoano não tem chance de sobreviver por mais de uma temporada. A torcida aposta no mistério que ronda esse jogo de bola.

Além do feito surpreendente de subir à elite, quebrando uma tradição que parecia indestrutível para nós, o CSA terá de provar que o êxito não foi um acidente da natureza. Se conseguir isso, vai desmentir a previsão universal de fracasso inevitável. O desempenho do elenco não depende apenas de lições para o campo, mas também das ideias que podem pintar na cabeça de cartolas vivendo tempos festivos. E é isso: nas cores do CSA, parece que o futebol eleva o patamar de Alagoas.

Depois da morte, a volta de Alan García

O nome de Alan García parece não combinar com o século 21, muito menos com a urgência do hoje e do agora. Era uma figura congelada na década de 80 do século passado. Quando se elegeu presidente pela segunda vez, para o mandato entre 2006 e 2011, já não guardava nada daquele sujeito que empolgou os peruanos lá atrás. Aquela eleição peruana de 1985 influenciou a região. Forçando a barra, digamos que Alan García é uma espécie de precussor da onda “bolivariana”. Por aí.

O governo do homem que prometia guerra à pobreza e distribuição de renda – mais de trinta anos atrás – acabou em desastre. A receita biruta de combate à inflação, à base de pacotes mágicos cuja maior feitiçaria era o congelamento de preços, teve efeitos contrários ao que pregavam craques da economia – todos de veia estatizante e intervencionista. Mais ou menos como tivemos nos tempos de Sarney e Collor. O fracasso do primeiro governo de García deu em Alberto Fujimori.

Nosso personagem, o ex-presidente do Peru tratou de providenciar tintas dramáticas ao desfecho de sua trajetória – na política e na vida. Investigado por corrupção no grande esquema multinacional da Odebrecht, Alan García recebeu voz de prisão em casa, nas primeiras horas do dia. Pediu aos policiais para subir até o quarto e fazer uma ligação para seu advogado. Mas, uma vez longe do alcance da polícia, ele se matou com um tiro na cabeça. A morte sacode um país e muda o rumo da política.

A notícia dessa inquietante tragédia (individual e coletiva) nos lembrou, como em 2006, que Alan García ainda estava por aqui, fazendo política como antigamente – com improváveis simpatizantes e ao mesmo tempo ferozes detratores. O problema é que uma novidade inconveniente acertou o político de um modo devastador, como ele nunca havia até então experimentado. As suspeitas de corrupção destruíram, no García atual, o que restava do ideal que embalou um povo no passado.

E como esse cara estava mais no passado do que em dia com os novos tempos – é uma impressão –, suspeito que muita gente ouviu falar dele somente agora, com sua imagem atrelada ao gesto radical do suicídio. E só isso. Mas tantos outros, como o blogueiro aqui, parecem rever imagens de uma época remota, lá quando a gente mal começara qualquer coisa. Afinal, pra todo mundo, mais de três décadas de memória é loucura. Talvez porque fatos e pessoas, passa o tempo, vão e voltam.

Violência contra a mulher! E o governo?

Vejo pelo noticiário uma investida do governo estadual para divulgar uma série de serviços e medidas que fazem parte do que podemos chamar de políticas públicas para a mulher. A ênfase é na prevenção da violência contra a população feminina e no combate ao crime de feminicídio. A visibilidade desse trabalho, de ontem pra hoje, coincide com a declaração do governador, feita em rede social, de que seu governo não dá vida boa a “marmanjos” violentos e misóginos. Cobrei ações.

Em texto anterior, logo aí abaixo, sugeri que o governador faça da atenção à mulher uma prioridade absoluta nesta gestão, com iniciativas de peso não apenas para investigar o feminicídio – com rigor e agilidade –, mas pra impedir o crime. Uma das críticas recorrentes ao Estado é quanto à inexistência de uma Delegacia da Mulher que esteja aberta 24 horas por dia. Os custos gerais, passando por dificuldade com pessoal, são um entrave para enfrentar essa encrenca. Mas o governo se explica.

O leitor pode conferir aqui no CADAMINUTO o que o governo de Renan Filho tem a oferecer nesse campo. Tire suas conclusões. As informações foram divulgadas nesta quarta-feira 17/04. Entre outras coisas, ressalta-se a criação de uma “força-tarefa”, que envolve várias delegacias e profissionais de diferentes áreas no socorro imediato a vítimas dos “marmanjos” matadores. Tomara que tudo isso seja capaz de produzir os efeitos necessários. Nessa área, estamos parados no tempo há décadas.

No governo como um todo, assim como na estrutura da segurança pública, servidores competentes podem fazer as coisas avançarem. Naturalmente, sem o engajamento pleno da cúpula governamental, aí a missão desanda. No caso específico de projetos para a população feminina, tem muito homem falando potoca. Não é o melhor sinal para quem se diz disposto a mudar um terrível quadro, tão antigo quanto enraizado na pior das tradições. E olhe que muito discurso é só fachada.

Resumindo, ainda bem que as autoridades estão se mexendo para enfrentar um grande mal. Vamos ver adiante se medidas anunciadas agora têm mesmo o arrojo de quebrar parâmetros e padrões criminosos. Mas, sem querer fazer carnaval com isso, continuo achando que o governador e equipe estão devendo algo realmente forte na prevenção e combate ao feminicídio. Não haverá milagre da noite para o dia, é claro, mas a estrada a ser percorrida é desafio urgente. Pra ontem.

Você também quer fechar o STF?

No momento em que escrevo, com a noite avançando, a crise que sacode as instituições da República entra no terceiro dia de um terremoto como havia muito não se registrava no país. E vai piorando. Mesmo que sempre arrodeado por controvérsias, e muitas vezes sendo o agente detonador de graves confusões, o STF ficou agora – perigosamente acima de grau razoável – numa inóspita sinuca de bico. Ao reagir para em tese conter um “crime”, dá um tiro certeiro no próprio pé.

Depois do ato de censura contra os sites O Antagonista e revista Crusoé, materializado na decisão do ministro Alexandre de Moraes, como recuar, para atenuar o dano à própria imagem, sem humilhação em praça pública? Para qualquer lado que dobre, a Corte não vê alternativa milagrosa que alivie o péssimo conceito do qual está associada por variados segmentos na sociedade. A revolta é geral.

Numa escala que não parece coisa pouca, você encontra de militante profissional a pais de família ensandecidos pregando o mesmo futuro – com transformações que julgam essenciais ao “conserto” do Brasil: eles querem a morte de ministros e a extinção do Supremo. São essas ideias que os mais indignados escrevem pelas redes sociais. Alguns foram chamados para prestar depoimento.

Nas últimas horas, o país assistiu a uma batalha inesperada entre a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e o ministro Alexandre de Moraes. Ela publicou decisão que tentava anular o inquérito aberto por Dias Toffoli para investigar ofensas e ameaças ao tribunal e a seus juízes. Pelo menos foi assim que tudo começou. Moraes, que preside esse inquérito extravagante, atacou a PGR e manteve o andamento das apurações. Lembrando que, no meio da história, pintou a censura aos sites.

A pancadaria de MMA do Direito, entre Raquel e Alexandre, é mais um episódio exótico ao extremo, algo também raramente visto ao longo da história do STF. O duelo travado nos autos da celeuma foi transmitido Brasil afora, debatido por milhões de pessoas, por meio da tecnologia da informação. Quase redundante, vamos ressaltar que o saldo para o nosso glorioso tribunal máximo é dramático.

O que pode ocorrer de mais grave caso não se dê um freio no terremoto crescente? Tudo, inclusive coisa nenhuma, dizem pensadores ali, tomando uma brisa na esquina, enquanto espiam a paisagem mutável e tranquilizadora. Não parece haver condições para a censura perpetrada pelo STF continuar de pé. O caminho que indica sobriedade é o pleno anular a sentença do juiz carequinha.

Um aspecto que chama atenção em especial são os termos usados pelos mais furiosos críticos do STF. Como falei, esses querem simplesmente o fim da instituição. É assombrosa a quantidade de gente que prega isso com orgulho, com uma convicção fanática, com argumentos que realmente traduzem desprezo e ódio pelo colegiado guardião da Constituição. E foi assim, quase de repente.

Ou quase. Mas não entro agora por análises aleatórias sobre causas e origens do mal. Aqui, apenas o registro de um comportamento mais do que equivocado. Se isso é estratégia de militância política e social, pensando que seja uma escolha realmente séria, então o estrategista que prega o fechamento do Supremo Tribunal Federal é um militante suicida. Não entendeu nada até hoje, já no século 21.

Ataco o STF, que não pode censurar a liberdade de expressão e de imprensa, nunca, e sem ressalva de nenhuma ordem – nem materialista e nem sobrenatural. Defendo o STF, cujo papel é base sagrada e indispensável para a sobrevivência de uma democracia, de fato e de direito. Pregar sua extinção é tão maluco quanto uma enorme demonstração de burrice. Assim é complicado.

A censura do STF sobre a imprensa

Foto: Divulgação Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true STF

Mais uma vez, num turbulento Brasil de uns anos pra cá, a liberdade de expressão e de imprensa está em jogo. Provoca reações em todos os cantos a decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes. Ele determinou que o site O Antagonista retire do ar uma reportagem da Crusoé, revista exclusivamente virtual. A decisão atende a pedido do presidente do Supremo, Dias Toffoli. A revista divulgou que o chefe do STF foi citado na delação premiada de Marcelo Odebrecht, via Lava Jato.

Sem entrar no mérito da informação sobre Toffoli – que à primeira vista parece frágil –, o caso ganha dimensão bem mais ampla com esse ato de censura contra o exercício da imprensa livre. Sim, como não poderia pensar de outro jeito, a iniciativa do ministro é uma ofensa grave à liberdade de expressão. É o que prevê a Constituição, sem meias palavras em seus artigos. Mas sempre haverá quem apresente divagações gongóricas pra sustentar a tese de justeza na violação de um direito.

Como se sabe, uma verdadeira força-tarefa de entidades vinculadas ao jornalismo divulgou várias notas de repúdio à decisão arbitrária de Alexandre de Moraes. Há certos agravantes de fato muito sérios. Entre outras patacoadas, é um movimento corporativista. E para atuar em favor de um dos seus, o tribunal age como se pudesse tudo. A censura ainda revela que a Corte pode ser tomada pelo espírito truculento sobre o Direito – prontamente afoita a se blindar, mais ainda, e com avidez.

A medida, já classificada por muitos como teratológica, expõe o Supremo Tribunal Federal em níveis mais desabonadores do que estava até agora. A imagem do colegiado fica um pouco mais suja na chamada opinião pública brasileira. No Congresso Nacional, duas ideias assombram os togados do topo do Judiciário. Grupos cada vez maiores (e mais influentes) andam pra todos os lados, nos corredores, gabinetes e plenário, tentando emplacar a CPI da Lava Toga. Pode acontecer.

A eventual Comissão Parlamentar de Inquérito seria um desastre para o Judiciário. Reconhecer que a investigação no parlamento pode ser instalada não significa imaginar que isso seja provável. Até agora, não é; mas é algo que parece ter deixado a esfera da fantasia e do remoto. Uma ventania no meio da crise generalizada, e aprova-se a coisa. Pode-se dizer que o tribunal passa por seu pior momento desde a redemocratização, três décadas atrás. E circula outra ideia, lá entre as raposas.

Assim como a CPI, tramitam também no Legislativo pedidos de impeachment de ministros do STF. Gilmar Mendes, Celso de Mello e o próprio presidente Toffoli são os mais visados. O que até um dia desses seria impensável, não está de todo fora de cogitação no panorama de agora. Para algum pedido ser formalizado e virar processo, basta o comando do parlamento decidir que sim.

Tudo isso, no entanto, nesse episódio de censura à imprensa, é pano de fundo diante do flagrante de autoritarismo. A decisão do ministro carequinha é um disparate, um abuso inaceitável na democracia. O ato merece o repúdio, sim, nos termos em que se manifestaram as entidades ligadas ao exercício do jornalismo. Por aqui, o leitor jamais verá sombra de concessão a qualquer atentado às liberdades.

Bolsonaro e o dinheiro para Record e SBT

Os gastos com publicidade no governo federal subiram 63% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2018. Jair Bolsonaro torrou 75 milhões de reais com a distribuição de muita grana para veículos de comunicação. Mas, calma, ele não deu vida boa para a Globo comunista, não. Os soldadinhos do bolsonarismo podem ficar tranquilos. Uma dinheirama irrigou o caixa de Edir Macedo (Record) e Silvio Santos (SBT), dois patriotas de primeira.

Vemos aí como funciona a lógica muito particular que norteia esses cavalheiros honestos e cidadãos de bem que governam o país. O presidente da República usa o nosso dinheiro para comprar o apoio da “imprensa independente”. O Grupo Jovem Pan também tá nessa – é um dos mais engajados na agenda do cretino que ocupa o Palácio do Planalto. Agora você entende o que significa a “nova política” que esses heróis apresentam ao Brasil. Acabou o tempo da ideologia que assaltava o Erário.

A coisa ficou tão escancarada, tão claramente dirigida para fins politiqueiros, que o governo nem se preocupa em dar explicações sobre nada. O que interessa para a seita é manter no cabresto os bobalhões que acreditam na guerra cultural contra o globalismo marxista. São eles que, creem os Bolsonaro, vão assegurar o triunfo do projeto de poder. Nada mais eficaz para garantir a fidelidade cega de um fanático do que alimentar seu fanatismo – uma mistura de ilusão e boçalidade.

Tudo tão velho! Para poderosos de qualquer tendência, imprensa boa é aquela que bajula, e não a que exerce seu papel incontornável de vigilância e crítica. Logo, nada mais natural que Record e SBT caiam nas graças do patético presidente. O Jair Messias que os meninos “cristãos e conservadores” veneram é apenas a reprodução dessa prática que atravessa gerações. Pagou, levou. Com gordos repasses, as TVs seguirão fazendo o “bom jornalismo” – na opinião do pagante, é claro.

Estou esperando pra ver a nova direita defender a política para a publicidade governista. Afinal, foi pelo discurso do zelo com o dinheiro público que esse bando conquistou a mente dos sedentos por sangue de comunistas ladrões. Como já escrevi aqui, nesse ponto os “liberais” recorrem aos mesmos mecanismos manejados pelos esquerdistas: dos “blogs sujos” nas épocas do lulismo, evoluímos para as grandes redes de televisão no bolso do capitão da tortura. E assim vieram os novos tempos!

Outra pauta. E o STF acaba de recorrer à prática de odiosa censura contra a imprensa. O alvo é o site O Antagonista, que publica a revista virtual Crusoé. Quem determinou o ato de força foi o ministro Alexandre de Moraes, a pedido do colega e presidente do tribunal, Dias Toffoli. A temperatura no ambiente da República é cada vez mais elevada. Será o tema de próximo texto aqui, mais tarde.

O governo de Renan Filho e os “marmanjos” que assassinam mulheres todos os dias

O assassinato de uma alagoana que morava no interior de São Paulo levou o governador Renan Filho a se manifestar sobre o crime de feminicídio. O corpo de Maria Elitácia dos Santos foi sepultado neste sábado 13/04, em Porto Calvo, cidade em que ela vivia, até se mudar. Ela foi morta a tiros pelo ex-marido. Imagens de uma câmera de segurança registraram a ação do assassino no meio da rua.

Na véspera do sepultamento de Elitácia, Renan Filho publicou o seguinte no Twitter: “Violência de gênero não é crime passional. O feminicídio cometido pelo marido da alagoana de Porto Calvo choca e revolta. Precisamos educar os meninos para o respeito, e punir com dureza os marmanjos que tratam mulheres como propriedade”. Em seguida, o governador falou de ações a serem adotadas.

Escreveu Renan Filho: “Aqui em Alagoas determinei à Polícia Civil que os feminicídios sejam investigados célere e profundamente, afim de que todos esses marmanjos que atentam contra a vida de mulheres sejam exemplarmente punidos. Vou endurecer ainda mais o combate a esse tipo de crime”. A fala do chefe do Executivo estadual é importante, mas precisa se concretizar em atos.    

Na própria rede social em que falou sobre o caso, duas seguidoras foram direto ao ponto ao comentar as declarações do governador. Uma delas postou o seguinte: “Governador, é um absurdo que as Delegacias da Mulher não funcionem 24 horas por dia e nem nos fins de semana, horários e dias em que comprovadamente há maior número de ocorrência de violência contra a mulher”.    

A outra seguidora, ao interagir com a publicação, reforçou a crítica sobre as delegacias inoperantes: “Fim de semana, os marmanjos enchem a cara de cachaça e ficam valentões. Além disso, a violência não tem hora pra acontecer”. As duas mulheres nos lembram de algo absolutamente óbvio – o que significa que elas estão cem por cento com razão. Se nem o básico existe, como enfrentar o drama?

É louvável que o governador venha a público para falar claramente sobre essa tradição hedionda que mancha o Brasil de modo inominável. No país em que eleitos em 2018 – e eleitores também – fazem até piada com a morte de seres humanos, e acham que feminicídio é invenção de esquerdista, merece elogio o fato de Renan Filho se pronunciar nos termos que acabo de citar. Mas é pouco.

Além da condenação aos “marmanjos”, o governo de Alagoas tem a obrigação de mostrar serviço pra valer. Se reconhece a dimensão dessa tragédia entre nós, então a autoridade precisa dar respostas à altura, com ações realmente capazes de evitar a recorrência de tamanha bestialidade. Noto que o governador, em sua fala na internet, dá ênfase à investigação do fato consumado. É o mínimo.

Sim, o feminicídio deve ser investigado com rigor, para que o homicida pague por seu ato abominável. Ocorre que nenhuma sentença vai reparar o que já está feito. Depois do assassinato, a terrível dor de uma família é para sempre. Como se diz nessas horas, nada do que se faça vai trazer uma vida de volta. O que a sociedade exige é que o Estado tenha meios de impedir o ato criminoso.

E nesse ponto, governador, sua gestão falha de modo lastimável – como de resto acontece em todo o Brasil. Até quando? Como falei, suas palavras devem ser vistas como relevantes, sem dúvidas, mas isso é nada se não se refletir em política pública permanente. Cadê o atendimento 24 horas por dia para as mulheres vulneráveis, que, na mira de machos assassinos, podem tombar agora mesmo?

É dever incontornável do Estado oferecer, com máxima agilidade, uma ampla rede de medidas protetivas a mulheres sob ameaça. O sujeito com intenções de matar a ex-parceira, por exemplo, tem de ser impedido de chegar perto dessa pessoa. Em Pernambuco, agressores de mulheres, potenciais assassinos, são monitorados por tornozeleira. A polícia sabe quando o marginal está por perto.

Alguma chance de Alagoas seguir o exemplo pernambucano, governador? A iniciativa do estado vizinho, tão simples, tem amenizado a situação. É apenas uma providência entre tantas que podem ser adotadas. Reitero: discurso, apenas, não resolve. Não me venham com homenagem no Dia Internacional da Mulher, com distribuição de flores uma vez por ano. Isso é apenas demagogia.

Termino com uma sugestão a Renan Filho. Já que o senhor se manifestou em rede social, mostrando sua indignação – que acredito verdadeira –, saia da internet e apresente algo de peso. Convoque entrevista coletiva e detalhe o que sua gestão fará para enfrentar esse extermínio da população feminina. Transforme essa causa em prioridade sagrada de seu governo. É o que todos queremos.

Tropical, abençoado por Deus

O Brasil das milícias. Os milicianos hoje em dia gozam de forte prestígio – vejam que coisa – no topo do poder político e governamental da República. Do Rio de Janeiro a Brasília, os assassinos que subjugam populações inteiras contam com apoio e simpatia de governadores, parlamentares, ministros e do presidente do país. Para esses patriotas, os matadores fazem o serviço que o poder público não faz. É esse tipo de gente que comanda os destinos de todos os brasileiros.

O Brasil do feminicídio. Aqui ninguém tira nosso troféu de campeões mundiais do extermínio de mulheres. Todos os dias – e isso não é força de expressão – machos assassinam garotas, jovens e senhoras, movidos pela tradição perversa de dominação sobre o outro, como se essa tradição fosse um dado da natureza. O discurso misógino dos pilantras que hoje comandam o país incentiva a matança. Discurso que é admirado pelos bandos fanáticos que apoiam a corja de “homens de bem”.

O Brasil do racismo. Os índices oficiais de homicídios – mais de 60 mil por ano – revelam que a população negra é o grande alvo dos exterminadores que agem, muitas vezes, sob a proteção dos homens da lei. Das universidades às grandes empresas, passando pelos tribunais de Justiça, é um milagre encontrar um negro em posições de chefia ou de destaque. Nos presídios, ao contrário, a massa de encarcerados, muitos sem julgamento, é formada por essa parcela da sociedade.

O Brasil da homofobia. A cada dia – e isso também não é força de expressão – pessoas LGBTI são dizimadas nessa terra bonita por natureza. A turma que hoje manda no país chama isso de mimimi. Faz sentido, afinal o presidente amoral já cansou de dizer que prefere um filho morto do que um gay. É praticamente uma licença para matar. Os doentes que agora deliberam sobre políticas públicas estão engajados em combater a “ideologia de gênero” – o que na prática é a disseminação do ódio.

O Brasil dos laranjas. Alagoas, Rio, Minas, Brasília... Por toda a parte árvores frondosas deram frutos podres que hoje estão vitaminadas com mandatos nos poderes Executivo e Legislativo. Como já escrevi aqui, as eleições de 2018 provavelmente foram as mais fraudadas de nossa história. O ministério do ridículo presidente também tem sua cota no laranjal. Investigações foram abertas, mas até agora ninguém foi punido. Pelo visto, todos acham que essa bandidagem é natural e aceitável.

O Brasil do desprezo à escola e ao conhecimento. Numa palestra recente, o agora novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, recorre a palavrões para se referir às maiores universidades do país. Na mesma palestra, um irmão do ministro – que também está no governo – simula cusparadas toda vez que cita a Universidade Harvard, considerada a melhor do mundo. São dois cretinos que, com esse padrão de conduta, seduziram Bolsonaro e seus filhotes trombadinhas. É o triunfo da escória.

O Brasil da degradação ambiental. Temos um governo que diz proteger o meio ambiente – “mas não de forma xiita”. A ideia criminosa por trás da frase canalha se materializa no vale-tudo da exploração da floresta e de áreas de proteção, da liberação de venenos para o agronegócio e na anistia de multas para bandidos que destroem qualquer pedaço de chão para plantar seus lucros indecentes. O ministro da área já foi condenado por ações desse tipo, mas e daí? É o país avançando...

O Brasil sem lei. Os exemplos podem ser vistos em todas as instâncias, mas ninguém supera Sergio Moro, a síntese de um Estado que não é democrático e nem de Direito. Essa figura medíocre levou para o Ministério da Justiça a mesma lógica de quando rasgava o Código Penal e a Constituição nos seus tempos de juiz. E olhe que o sujeito tem planos nada modestos. Sua aspiração mais singela é um assento no STF. Mas o que ele almeja mesmo é ocupar a cadeira do chefe: ser presidente do país.

Minha lista poderia seguir, com muito mais das incontáveis qualidades de um Brasil que hoje assombra o mundo. Mas acho que o panorama acima é um painel razoável do lugar em que vivemos. Aquele trovador que um dia definiu essa terra como especialmente abençoada por Deus talvez tivesse que atualizar sua visão, para nos explicar o que houve com o deslumbramento solar e tropical que ele celebra em sua arte. Porque agora outro poeta diz tudo: esta é a Terra Desolada.

Bolsominions! Um texto de Fernando Coelho

Já sabemos o que acontecerá em breve – antes até do que se imaginava: os bolsominions se tornarão minoria. Só eles, os fanáticos, sobrarão após a debandada que já se iniciou.

Em síntese, penso que nem todo eleitor do milico sofre da insanidade do bolsonarismo. Defendo que parte expressiva dos eleitores votou de modo irresponsável ou distraído.

Quem foram eles? O velho cidadão cansado da corrupção e da violência urbana; o inocente inútil que entendeu errado os recados da vida; o ex-petista que acredita ter levado nos cornos; os isentões que ao fim pularam pra o lado errado do muro; e aquela figura meio tapadinha mesmo.

Para todos esses, desde que reconheçam a escolha desmiolada, pode-se até pensar em anistia.

O bolsonarismo é outra coisa. Uma espécie de demência decorrente de ranços, traumas e atrofias com generosas pitadas de psicopatia. Uma chaga cognitiva e comportamental que acomete tipos dos mais distintos e proporciona as mais bizarras combinações. Não teve educação que resolvesse. 

Para mim, um dos tipos mais chocantes é o antiesquerdista. O elemento não tolera a ideia de distribuição de renda no país considerado o mais desigual do mundo. Só há uma lei: a do mais forte. Meritocracia. Estado mínimo. Vassalagem ao mercado. O pseudo-aristocrata. Chumbeta do consumismo. Dondocas, velhos yuppies, hippies cansados, patricinhas e novinhos embasbacados com o próprio pau pequeno de classe média.

O antiesquerdista pode ser pobre também. Sabemos que o bolsonarismo é um fenômeno transverso e intraclasse. Contraditório? No Brasil, não. Por aqui, tipos mais humildes e a família assalariada das periferias também bateram panela com sangue nos olhos. Depois vibraram com a reforma trabalhista e agora torcem pelo estupro da Previdência. Um escândalo.

E há mais: o cidadão de bem que esperneia no front da liturgia. Com um apelo histérico, o lobo em pele de cordeiro mira a pauta de costumes. Nessa hora, carolas e evangélicos rezam o mesmo terço. É o sonho de viver na bolha do falso moralismo. Os bonzinhos que pagam o dízimo estão salvos; o resto vai direto para o inferno. Amor ao próximo uma tamanca. O elemento defende mesmo é a censura e o cerceamento das liberdades individuais. Educação é perversão, e arte é coisa do cão. O sistema financeiro livre e solto pode. A livre expressão, não.

Num grupo mais explosivo figura o machista-armamentista. Turma da pesada que manda bala em tudo que afronta sua moral de quinta categoria. Em geral perturbada, a cabecinha do sujeito revela contornos de misoginia e sexismo. Pode haver racismo também. Um dos mais violentos. Mimado, complexado, inseguro e maledicente. Apoia até a tortura. Um perigo.

Na maioria dos casos, o bolsominion surge da mistura desses padrões. Há o armamentista-evangélico-misógino, o ultraliberal-racista-homofóbico, o falso moralista-antiesquerdista-armamentista... E por aí vai.

Em comum, todos defendem o fim da corrupção, como se fossem paladinos da ética. Pura falácia. De honesta essa gangue não tem nada. Todo mundo conhece um bolsonarista que recebeu propina, que já pagou propina, que é cabo eleitoral de político corrupto, que trapaceou para se dar bem... A ficha corrida pode ser extensa.

Ao fim, a horda descerebrada deixará sua marca como uma minoria barulhenta e perniciosa, mas insípida e covarde, que influenciou circunstancialmente parte de uma população cansada e desinteressada em política partidária e escreveu com lama e sangue mais um capítulo da já maltratada história deste país. Felizmente, como previsto, as almas sebosas começam a sucumbir à própria má formação.

Sigamos em frente.

Fernando Coelho é jornalista, músico e poeta-compositor. De quebra, é mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.

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