Blog do Celio Gomes

Um deserto de ideias nas eleições

O debate público sobre os rumos do país, em grande medida, é um festival de ideias inúteis disfarçadas de propostas consistentes. As maiores besteiras, quando não cretinices, são anunciadas com pose e solenidade. É assim em tempo integral, mas a coisa chega ao paroxismo em época de eleições. É impossível separar o que seriam metas de slogans de campanha. Vou listar exemplos.

Refundar a República. Esta é, digamos assim, uma diretriz de ordem quimérica. O sujeito que sai por aí defendendo uma coisa dessas deveria ser preso em flagrante. É estelionato puro. Platitudes servem apenas para esticar discursos vazios, que nada significam para nossa vida real.

Cuidar das pessoas. Eis aí uma bela proposta de governo que não é inédita. Tamanha pilantragem intelectual vai e volta a cada campanha eleitoral no país. Mais uma vez, está na ordem do dia para muitos candidatos. De tão recorrente, daqui a pouco será defendida até como projeto de lei.

Menos Brasília, mais Brasil. Isso quer dizer que o candidato pretende descentralizar a gestão dos recursos públicos – ou algo por aí. Falta explicar como se daria, na prática, essa inversão de prioridades. É mais uma expressão cuja origem só pode ser a cabecinha oca de algum marqueteiro.

Ajustar as contas. Sim, o Estado brasileiro gasta mais do que arrecada e gasta de maneira errada. “É como a dona de casa. A senhora sabe que na feira tem de comprar aquilo que seu orçamento pode cobrir”. Você já ouviu essa brincadeira como se fosse algo muito sério, não é? Continua na moda.

Educação é base de tudo. Aqui temos mais um clássico no discurso de cem por cento da politicalha nacional. Todo mundo vai, finalmente, promover a grande revolução brasileira pelos bancos escolares. É assim desde os primórdios, mas seguimos formando analfabetos em larga escala.

Integração das polícias. Numa guerra civil não declarada, com mais de 60 mil homicídios num único ano, o Brasil não sabe o que fazer com a segurança pública. Mas, para os candidatos, é muito simples: basta um trabalho integrado, com inteligência, e tudo certo. E ninguém tinha pensado nisso!

Valorizar o servidor. De olho no voto de um segmento gigantesco, nenhuma candidatura é doida ao ponto de magoar esse exército instalado na máquina estatal. De concreto mesmo, depois de eleito, ninguém mexe uma vírgula para corrigir aberrações que, de fato, envenenam a coisa púbica.

Retomada do crescimento. É fórmula mágica para gerar milhões de empregos e elevar a renda do brasileiro, garantem candidatos à esquerda e à direita. De tão óbvio, ninguém é contra isso, ora. Então por que até hoje não conseguimos resolver o dilema? Porque eleição é circo e diversionismo.

Combater a ciranda financeira. Na campanha, todos os candidatos partem pra cima dos bancos e seus lucros indecentes. Prometem o fim da especulação descontrolada, que torna os ricos ainda mais ricos. Prometem taxar as maiores fortunas e as grandes heranças. E ficamos com as promessas.

Desenvolvimento sustentável. Outro reencontro com o passado de eleições. Na onda verde-vegana, bonito é defender os rios, as matas e as jaguatiricas. Na contramão do falatório, avançam todos os tipos de agressão ao meio ambiente. Ao contrário da promessa, eis aí o retrocesso insustentável.

O conjunto das patifarias forma uma obra em permanente expansão. Uma olhada pelo noticiário, e você pode acrescentar incontáveis “propostas” que se enquadram na lista acima. Depois, é votar.

Os debates eleitorais na era da internet

Além dos dois encontros já realizados, até o dia da eleição haverá mais seis debates entre os candidatos a presidente. Pelo menos é o que está devidamente agendado em diferentes emissoras de TV e outros veículos de comunicação. Debate é sempre algo controverso a cada eleição, a começar pelo candidato que lidera as pesquisas: quem está na frente nunca gosta de debater nada.

Todo mundo concorda com isto: se você lidera a corrida, não tem o que ganhar em confrontos com os adversários – mas tem tudo a perder. Nos debates, todos vão preparados para atacar aquele que tem a maior intenção de votos; afinal, se ele continuar isolado na dianteira, o jogo estará decidido. Mas a ausência pode ser vista como sinal de covardia, uma marca difícil de remover.

Esse dilema ronda todos os candidatos que lideram as pesquisas, tanto para presidente quanto para os governos estaduais. Em disputas anteriores pela Presidência, Fernando Collor, Fernando Henrique e Lula decidiram não participar dos debates no primeiro turno. Nessas ocasiões, o mediador mostra a cadeira vazia do candidato ausente. É lógico que não fica uma imagem muito boa para o faltoso.

Imagine um encontro de duas horas, no qual o nome ausente é tratado pelos rivais, com insistência, como “fujão”. Pega muito mal – e pode, sim, acarretar sérios prejuízos. Quando o candidato em questão gosta de se vender como exemplo de “valentia”, sua fuga será ainda mais grave. É o caso de Jair Bolsonaro. Após anunciar que não iria mais a debates, voltou atrás e diz que estará presente.

Com o triunfo das redes sociais, a reação aos debates e seus efeitos na influência do voto mudaram uma enormidade. Na pré-história das comunicações (que foi ontem), quem perdia o debate ao vivo, na TV, não tinha mais como conferir o desempenho dos candidatos. Hoje, desculpem pelo óbvio, pode-se ver e rever o evento, no todo ou em parte, a qualquer hora do dia ou madrugada.

O jornalista Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes, revelou algo bem ilustrativo dos novos tempos. Antes da explosão da internet, nas reuniões com os partidos sobre o formato dos debates, os candidatos brigavam por um ponto que consideravam sagrado: não admitiam a exibição de trechos do programa nos telejornais – por medo dos critérios de edição do material. Um perigo.

Agora, completa o jornalista, isso nem entrou em pauta, porque deixou de fazer sentido. Uma vez no ar, tudo está na internet, sujeito a edições infinitas, pelas mãos de qualquer pessoa. Ou seja, um “fujão” verá esse carimbo ser replicado como jamais seria possível até um dia desses. Por tudo isso, o bate-boca entre os candidatos mudou bastante, mas, ao que parece, continua relevante na disputa.

Dos seis debates que ainda vão ocorrer no primeiro turno, o próximo será no dia 9 de setembro, organizado pela TV Gazeta de São Paulo em parceria com o Estadão. E o último, na TV Globo, está marcado para 4 de outubro, em cima do dia do voto. Até lá, a campanha ainda promete muito.

A eleição alagoana na grande imprensa: notícia real e informações duvidosas

Na imprensa nacional, a eleição em Alagoas aparece de vez em quando, quase que exclusivamente com informações que incomodam as candidaturas dos nomes mais conhecidos. Num dia, a Folha traz algum veneno pra cima de Fernando Collor; no outro, a Veja informa algo inconveniente a Renan Calheiros (seja pai, seja filho). O Globo e o Estadão também noticiam encrencas nos bastidores.

De onde partem essas informações? Qual a origem de supostos episódios revelados a partir de fontes misteriosas? A explicação é simples. As campanhas têm profissionais com algum trânsito entre editores ou colunistas na grande imprensa. E a missão dessa turma é abastecer o noticiário com fatos favoráveis a seus clientes e, é claro, negativos às candidaturas adversárias. Pode ser verdade ou não.

Ávidos por “informações exclusivas”, os meios abrem suas páginas para interesses duvidosos e nada transparentes. Sendo assim no jornalismo profissional, imagine como anda a promoção de acontecimentos de campanha nas redes sociais. Na guerra, reza o lugar-comum, a verdade é a primeira vítima. A você, cabe a tarefa nada fácil de separar fato concreto de pegadinha eleitoreira.

Além das colunas em jornais e revistas, saem reportagens que também podem provocar algum impacto nas eleições. Nos últimos dias, por exemplo, Alagoas apareceu com destaque na Folha e na TV Globo. No primeiro caso, o assunto foi o Ranking de Eficiência, criado pelo jornal, para medir a qualidade dos serviços em educação, saúde, segurança e infraestrutura. Estamos no fim da linha.  

No caso do jornalismo global, a emissora carioca redescobriu a seca em territórios do sertão alagoano. Exibida no Jornal Nacional – maior audiência da TV brasileira –, a reportagem reviveu aquelas cenas típicas do mais puro sensacionalismo e pieguice: gente chorando, com a panela vazia e sem água para beber. A Globo sabe que isso tem potencial explosivo no meio de uma eleição.

Mudando de assunto, mas ainda no campo da disputa eleitoral, um tema que sempre desperta curiosidade (e alguma surpresa) é o patrimônio declarado pelos candidatos. Alguns, notoriamente abastados, informam que nada possuem. Outros, com rotina aparentemente modesta, registram fortunas oceânicas. Este ano, aqui em Alagoas, o maior dos ricaços é apenas um “suplente”.

Depois da zoada sobre a aliança entre Collor e tucanos, candidatos caíram em campo atrás de voto, deixando o discurso de rebeldia no reino da ficção científica. As coligações se acomodam, cada uma na sua raia, e os postulantes ao governo e ao Senado percorrem todos os municípios, na maior parceria, tudo junto e intensamente misturado. Afinal, o que importa mesmo é seduzir o eleitor.

Sobre as pesquisas. Pelos primeiros números divulgados em Alagoas, a briga pelo Senado começa mais acirrada do que a disputa pelo Palácio dos Palmares. Renanzinho lidera com folga sobre Collor. Renan (pai), Benedito de Lira, Maurício Quintella e Rodrigo Cunha travam um duelo mortal por duas vagas. Mas, nos dois casos, governo e Senado, é mais prudente apostar num desfecho imprevisível.

Fake news e censura nas eleições

Craque em produzir factoides em seu próprio benefício, o ministro do STF Luiz Fux afirmou que o candidato que recorrer a fake news será barrado pela Justiça Eleitoral. Ele garante que o responsável por espalhar falsas notícias terá a candidatura cassada. Não explicou, porém, como os doutores de toga pretendem descobrir se as mensagens de campanha do postulante são verdadeiras ou não.

A fala do ministro, mais uma vez, joga para a arquibancada e serve, de novo, para reforçar o Judiciário como protagonista no jogo das eleições. Em junho passado, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de notícias da internet sobre a candidata Marina Silva. Seriam informações falsas que, segundo o TSE, ofendiam a honra de Marina. A ação foi movida pela presidenciável e seu partido.

A decisão gerou controvérsia. É que ninguém pode garantir, com rapidez e precisão, quando estamos diante de uma reportagem comprovadamente mentirosa. Depois que a expressão fake news entrou para o vocabulário da crônica política, todo mundo se diz vítima de alguma notícia inverídica. Virou estratégia de defesa para rebater qualquer dado que incomode o candidato. E aí é conflito.

Como já escrevi aqui, o apetite voraz de Fux e outras trepeças sobre a imprensa tem tudo para resultar em censura. Nesses casos, o alvo principal serão os sites que não integram os grandes veículos de comunicação do país. Assim, corremos o risco da mordaça interditar visões alternativas sobre os políticos e os temas de campanha. Na verdade, o TSE não tem como resolver a parada.   

Enquanto isso, a corrida para presidente vai ganhando novos contornos, principalmente depois das últimas pesquisas e dos dois debates que já ocorreram neste primeiro turno. Uma evidente consequência dessa nova etapa é a postura de Jair Bolsonaro. Vendo que a coisa não é tão simples quanto soltar disparates ou apertar o gatilho de um 38, o candidato quer fugir dos próximos debates.

Leio na imprensa que os animais no comando da candidatura alegam ser inútil debater com os demais concorrentes. Segundo a tropa de Bolsonaro, nesses encontros, os candidatos são “nivelados por baixo”. Como esse guru da “nova direita” pratica uma política de alto nível, ele não quer mais participar. Terá de fazer malabarismo para explicar que não está morrendo de medo.

O problema de Bolsonaro é que ele tomou uma enquadrada de Marina Silva no último debate, realizado na Rede TV. O episódio repercutiu fortemente contra sua candidatura. Sem argumentos para reagir à altura, diante de uma mulher, o capitão afinou, a valentia evaporou.

O caso nos faz pensar o quanto a televisão continuará sendo decisiva nas eleições. A propaganda na TV ainda nem começou, e Bolsonaro já percebeu que sua horda de celerados nas redes sociais pode fazer barulho, mas está longe de ser o suficiente para lhe garantir os votos necessários.

Finalmente, que “mito” é esse com trejeito de covardia na hora de encarar o adversário?

A Tropa da Federal nas eleições 2018

Entre agentes, delegados e escrivães, 55 nomes ligados à Polícia Federal são candidatos nas eleições 2018. Muitos deles trabalharam ativamente na Operação Lava Jato – ainda que esse trabalho seja simplesmente conduzir suspeitos à prisão ou levá-los para depoimento. Que bela credencial para o exercício de um mandato na vida pública! Boa parte se filiou ao PSL, o partido de Bolsonaro.

Segundo a Folha de S. Paulo, desse total de patriotas armados que pretendem dar um jeito no país, 41 sonham com uma cadeira de deputado federal. Da PF em Alagoas, saiu um herói mais ousado, que se candidatou a senador. Como se vê, o discurso do prendo & arrebento – que seduz o “cidadão de bem” – conta com opções a perder de vista. Isso é a renovação da “direita esclarecida”!

Eis aí a que estágio chegamos. Com tanta gritaria, o passo seguinte, está claro, era mesmo aderir ao histerismo verde e amarelo. De acordo com essas mentes – pouco afeitas à chatice de estudos e projetos complicados –, a solução é simples, meu amigo. Inspirados no Messias pelo qual tanto esperaram, o Bolsonaro, basta ter “pulso firme” e, ainda mais importante, uma boa pontaria.

Além daqueles que têm origem na Federal, pode-se garantir que muito mais gente engrossa a Tropa Armada nas eleições. São nomes ligados ao Ministério Público, ao Judiciário, à Polícia Civil e à Polícia Militar. Há candidatos saídos de todas essas instituições. E todos devidamente convencidos de que acabou o tempo da moleza. Nunca a expressão “bandido bom é bandido morto” foi tão inspiradora.

Com esse bordão desqualificado, que revela uma combinação de malandragem, truculência e demagogia, a turma da Federal e afins jamais esteve tão afoita como agora. Com a densidade dessa filosofia política, essa gente elegeu, como não poderia deixar de ser, a segurança pública como grande tema de campanha. As soluções, naturalmente, passam pelo bom manejo do fuzil.

E quem seria o potencial eleitor da rapaziada do trabuco? Entre outros traços, ele tem nível superior e boa renda, segundo indicam pesquisas já publicadas sobre o perfil dos apaixonados por Bolsonaro. Ou seja, acesso à informação não significa ideias saudáveis – mas bem o contrário.

E você, está disposto a resolver tudo na base da porrada? Caso seja esta sua alternativa para acabar com a bagunça, pode ficar tranquilo, porque a Liga da Justiça e da Polícia vem aí. Numa prova de que o conceito de evolução é mesmo complicado, no século 21, voltamos ao faroeste medieval.

A liderança de Lula e a volta de Dilma

Em dois dias, três pesquisas dos maiores institutos do país – CNT/MDA, Ibope e Datafolha – mostram o crescimento das intenções de voto em Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial. É o Brasil apresentando ao mundo um quadro tipicamente brasileiro: o líder absoluto para ganhar a eleição faz campanha diretamente da cadeia. A turma da Lava Jato e da Rede Globo não entendem o fenômeno.

Mais ou menos parecida é a situação da ex-presidente Dilma Rousseff. Vítima de um processo nada transparente que a derrubou do cargo, ela está virtualmente eleita para o Senado, bem à frente dos demais candidatos na eleição em Minas Gerais. No Datafolha, Dilma tem 25% da preferência do eleitorado. O segundo colocado tem 11%, numa disputa que, como se sabe, contempla duas vagas.

Os três levantamentos sobre a briga pela Presidência também apresentam o mesmo quadro quanto a Jair Bolsonaro. Sem Lula, ele fica em primeiro lugar, oscilando entre 18% e 22%. A má notícia para o capitão da reserva é que sua candidatura tem dificuldade para avançar acima desse patamar. Muito se fala que sua presença no segundo turno seria praticamente certa. Olha, não sei não.

A julgar pela fotografia do momento, sim, o nome do candidato está na liderança. Mas ele não tem uma diferença confortável em relação aos demais concorrentes. Não seria uma surpresa se, a partir de 31 de agosto, com a campanha obrigatória na TV, o quadro se tornar mais complicado para ele.

A pesquisa Datafolha parece mais ampla, e capta informações relevantes quanto à provável troca de Lula por Haddad como o candidato do PT. Está claro que o ex-prefeito de São Paulo tem forte potencial. Como escrevi no texto anterior, tem tudo para cravar uma vaga no segundo turno.

É uma tremenda ironia. De dois anos para cá, em nome dos “cidadãos de bem”, derrubamos Dilma e metemos Lula na cadeia. A “nova direita” festejou a morte do PT e da esquerda em geral. Tudo mudaria na eleição de 2018, com aquela turma nos braços do povo! Não é o que está aí.

A verdade é que a corrida está em aberto. Sem querer ser redundante, veremos se as coisas ficam como estão ou mudam radicalmente a partir da propaganda na televisão – e com Haddad no lugar de Lula. Lembrando que Geraldo Alckmin tem um latifúndio no tempo destinado aos candidatos.

Encarcerado, Lula é campeão de votos

Depois da decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que mandou o Brasil respeitar a candidatura de Lula, o ex-presidente recebeu nesta segunda-feira mais uma boa notícia para ele. Pesquisa CNT/MDA mostra que o petista não para de subir na preferência do eleitorado. Ele segue firme na liderança, agora com 37,3%. No levantamento anterior, o índice era de 32,4%.

O candidato Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar com 18,8% das intenções de voto. Marina Silva obtém 5,6%, Geraldo Alckmin vem logo depois, com 4,9%, e Ciro Gomes registra 4,1%. Em qualquer cenário para o segundo turno, Lula ganharia a eleição com ampla vantagem sobre o adversário. Os dados humilham as previsões de “analistas” que davam o homem como descartado.

Deve ser uma dor de cabeça dos infernos para setores da imprensa, do Judiciário e do Ministério Público Federal ver que, mesmo com um massacre sem tréguas, o velho sapo barbudo não apenas resiste, mas sobe nas pesquisas. Ainda que seja barrado no tapetão, jogará o papel decisivo na escolha do próximo presidente. E olhe que estamos a menos de 50 dias para o primeiro turno.

Abri o texto citando a decisão da ONU em favor de Lula. Diferentemente do que ocorreu ao noticiar este fato (escondendo o assunto), os grandes veículos agora dão destaque à pesquisa. No momento em que escrevo, a novidade está no topo dos sites da Folha e da Veja, por exemplo.

Mesmo que a TV Globo faça de conta que a ONU não existe – quando se trata de Lula –, a decisão do comitê internacional tem forte repercussão nos maiores jornais do mundo. É evidente que essa cobertura fora do Brasil vai aumentar, o que tende a beneficiar cada vez mais a situação de Lula.

Como escrevi em texto anterior, as pesquisas também revelam que, se Lula for impedido de concorrer, sua força para transferir votos ao substituto será cada vez maior. Nesse sentido, Fernando Haddad tem muita chance de cravar um lugar no segundo turno e garantir a faixa.

Encarcerado na republiqueta de Curitiba desde abril, Lula é um fenômeno a desafiar historiadores e cientistas políticos em geral. Enquanto isso, peraltas que rebaixam as instituições – como o STF – fingem que está tudo bem. Mas não. Eles respiram entre a vergonha e a desmoralização.

Agora uma palavra sobre guerra suja. Em Alagoas, leio aqui no CADAMINUTO, pesquisa suspeita corre o mundo virtual contrariando, e muito, números do Ibope e do Ibrape, divulgados na semana passada. Será assim até o fim da campanha. Um veneno que as redes sociais adoram espalhar.

Renan Filho monta a maior coligação do Brasil nas eleições estaduais

A eleição em Alagoas está na primeira página da Folha de S. Paulo desta segunda-feira. O jornal chama atenção para o tamanho da coligação que apoia o governador Renan Filho, que tenta renovar o mandato. Ele conseguiu reunir nada menos que 19 partidos na aliança que vai enfrentar o senador Fernando Collor, seu principal adversário na disputa. Collor tem o apoio de oito legendas.

É muito partido. Ao lado de Renanzinho estão forças aparentemente opostas no campo ideológico – se isso existisse de fato no Brasil. Estão com o atual governador, por exemplo, siglas como PR e o Solidariedade, que convivem pacificamente com PC do B e PT. (E ainda querem fazer barulho por causa da aliança entre Collor e o PSDB do prefeito Rui Palmeira e do ex-governador Téo Vilela).

Outro exemplo de exotismo com a ideologia – mas, de novo, somente na aparência – ocorre no Maranhão. Lá o comunista Flávio Dino, que busca a reeleição, conta com 16 partidos em sua campanha, entre eles PT e DEM, num casamento que é a cara da política brasileira. Ou seja, após o impeachment de Dilma, bastou uma eleição para golpistas e lulistas se abraçarem na gandaia.

O panorama é assim por todo o país. Dos pampas aos seringais, como diria o tropicalista, a esculhambação do sistema político-partidário mostra sua caveira. A explosão de agremiações, com receitas sensacionais para a vida nacional, é ao mesmo tempo causa e efeito das barbaridades que assolam a rotina do brasileiro. E assim vamos com esse padrão para mais uma aventura eleitoral.

Participam das eleições, agora em 2018, 35 siglas. A maioria, como se sabe desde antigamente, veio ao mundo para mamar no dinheiro público, com repasses milionários a partir do tal fundo partidário. Lembra da expressão, também antiga, “legendas de aluguel”? É disso que se trata. Ao contrário das oscilações no setor imobiliário, aqui há sempre inquilinos e corretores fechando negócio.

A coisa não vai ficar por aí, não. Em janeiro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral informou que, além dos atuais 35 no feirão partidário, há simplesmente 73 novos partidos na fila para oficializar o registro. Sim, você leu certo: daqui a pouco teremos mais de 100 legendas pedindo voto na praça.

Vejam como anda a criatividade de patriotas dispostos a trabalhar duro pelo Brasil. Estão chegando por aí, entre tantos, o Partido das Sete Causas (PSETE), o Igualdade (IDE) e o Muda Brasil (MD). Eu imagino que, com o mundo plural e cheio de ideias, o número de ideologias cresce sem fim.

Num cenário estupidamente fragmentado como este, não passa de piada a conversa de reforma política, para reduzir a quantidade dessas quadrilhas. Talvez um dia isso até venha a ocorrer, mas certamente terá como motivação o consagrado “instinto de sobrevivência” dos donos do poder.

“É só fuxico. É só conchavo. É só rasteira”. Um dia desses, o presidenciável Ciro Gomes recorreu a esse trio de substantivos para acusar o que chamou de falta de escrúpulos na seara política. Se já é assim com 35 legendas, pense como será no futuro próximo. É por isso que sou um otimista.

Política e eleição desde sempre

As coisas mudam o tempo todo, mas não é bem assim. A cada eleição, por exemplo, a gente reencontra os mesmos temas, embalados na mesma dissimulação, numa reiterada forma de fazer a velha política. Basta ver as entrevistas e os debates com os candidatos. É quase desesperador aguentar jornalistas fazendo surradas perguntas como se fossem uma incrível novidade.

Se a imprensa, em tantas ocasiões, não escapa da mesmice, os políticos à caça de votos são imbatíveis nesse quesito. Impossível catalogar tudo. O exemplo mais urgente que me ocorre agora é a seguinte questão: pergunta-se ao candidato a presidente se, caso eleito, ele nomeará para os ministérios gente da área, técnicos, ou vai escolher indicados pelos partidos da coligação.

Essa discussão é um verdadeiro clássico em campanhas eleitorais. A resposta costuma ser mais ou menos assim, na fala do postulante: comigo, vai acabar essa tradição de apadrinhados nos órgãos de governo; não se pode usar um ministério como “boquinha” para os amigos. É com esse discurso que todos garantem um governo absolutamente armado sob o exclusivo critério da meritocracia.

Quando acaba a eleição, e o vitorioso anuncia sua equipe, a lorota da qualidade técnica cede lugar ao pré-histórico pragmatismo das alianças partidárias – tudo em nome, claro, da tão almejada “governabilidade”. Diante do estelionato, não adianta cobrar coerência dos novos governantes. A reação será a fantasia retórica, tão antiga quanto todas as promessas que serão descumpridas.

Isso vale também, naturalmente, para os governos estaduais e prefeituras. Por aqui, se você olhar em volta, vai constatar o quanto nossos gestores seguem à risca esse padrão escandaloso. É claro que os partidos poderiam oferecer quadros de talento para ocupar os cargos de comando, mas isso fica mesmo no plano das divagações. Os nomeados, muitas vezes, parecem aptos só a bandalheiras.

E olhe que nem falei ainda do nepotismo, que continua bizarramente na moda pelo país. Em governos e prefeituras, é infernal a tropa de mães, irmãos, sobrinhos, marido e mulher, parentes e contraparentes. Sim, nepotismo é proibido por lei, mas e daí? É para isso que há “brechas jurídicas”.

Sei que existe, aqui e ali, algum milagre como exceção. Infelizmente, quase nada perto da manada de incapazes e delinquentes que domina os postos vitais na gestão da coisa pública. Sempre foi assim. Continua assim. E assim continuará após o resultado das eleições neste 2018, no século 21.

Pessimismo, frustração e desencanto com a política? Nada disso. Não escrevo sobre essas escamas metafísicas que mobilizam os espíritos patriotas que vagam por aí. Minha pauta é a vida real. Vamos a uma escolha tão simples como sempre foi: nas urnas, nossa tarefa é eleger o menos ruim.

Rui Palmeira entra com tudo na campanha de Collor ao governo

Não sabemos nada sobre como se armou a coligação que apresenta Fernando Collor para candidato a governador de Alagoas; no máximo, temos explicações protocolares. Até o anúncio da candidatura, não li sequer uma especulação sobre eventual aliança entre o senador e o tucanato estadual. Mesmo com tantos craques em nossa imprensa, tenho a impressão de que ninguém cantou essa bola.

Uma candidatura de Collor, sim, estava dentro das possibilidades normais. Mas tendo um nome do PSDB como vice, e com o forte apoio do prefeito de Maceió, aí não. Por fora dos bastidores da política, para mim foi algo pra lá de inesperado. Lembro que o próprio Rui Palmeira seria o candidato da oposição para enfrentar Renan Filho, mas ele preferiu cumprir o segundo mandato até o fim.

Com sete partidos coligados, além do PSDB também se juntaram a Collor o PP de Benedito de Lira e o DEM de Thomaz Nonô. Suponho que estas siglas (e seus caciques) jogaram papel decisivo para um acordo que, até ontem, não aparecia como possível. Conhecido o desfecho, pintaram as reações de alguns insatisfeitos, precisamente o deputado Rodrigo Cunha e o ex-governador Téo Vilela.

A situação de Cunha é a mais inusitada. Após a desistência de Rui na disputa ao governo, o deputado era o nome virtualmente escolhido, mas ele também pulou fora da briga, optando por tentar uma cadeira de senador. Pelo visto, tocará a campanha fantasiado de rebelde sem causa.  

Também não vi, até agora, nenhuma declaração de Thomaz Nonô sobre o candidato a governador apoiado por seu partido. O dono do DEM alagoano tem uma história de tapas e beijos com Collor. A situação de hoje, no entanto, não é inédita entre ambos. Já se abraçaram nos palanques da vida.

Em 2002, Nonô pediu votos para Collor na disputa pelo governo. Naquele ano, o então governador Ronaldo Lessa ganhou a disputa e se reelegeu. A relação se estremeceu, outra vez, quatro anos depois, quando Nonô foi candidato ao Senado em 2006. Fernando Collor levou a única vaga em jogo.

Já o ex-governador Téo Vilela também deu sinais de acabrunhamento com a aliança de seu partido. Se entendi bem o que foi publicado por aí, o tucano se nega a fazer campanha para Collor e já declarou que seu voto não será do candidato. É outro com discurso de rebeldia meio fantasioso.

Enquanto isso, aparentemente alheio à encenação de seus partidários, Rui Palmeira entra com tudo na campanha de Collor. Já segue o candidato em caminhadas pelas ruas, distribuindo abraços, apertos de mão, sorrisos e promessas. E esta é a maior novidade das eleições em Alagoas.

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