Blog do Celio Gomes

A fúria de Bolsonaro contra a imprensa livre

Jair Messias Bolsonaro é hoje o que era ontem e o que sempre será. Pode-se debater o que o futuro   governo fará na economia. O mar de analistas pode especular sobre a formação do ministério ou a postura do Planalto na eleição das presidências da Câmara e do Senado. Há um panorama de total incerteza sobre as primeiras medidas do governo eleito, ainda agora na fase inicial de transição.

Nada disso, porém, é tão relevante quanto o debate sobre as liberdades em geral e a liberdade de imprensa em particular. E isso está claro depois das entrevistas que Bolsonaro deu na noite desta segunda-feira. Em todas as emissoras, ele deixou claro que não tem nada de discurso de pacificação – é o contrário. Mau vencedor, o messias das redes sociais mostra que está com a faca nos dentes.

A mais importante das entrevistas foi ao Jornal Nacional. O presidente da direita extrema cometeu uma patética ameaça à Folha de S. Paulo – que há pouco mais de três décadas se transformou no mais influente e respeitado jornal da imprensa brasileira. Bolsonaro, coitado, é daqueles casos que acreditam na mudança da realidade só porque ele exige que as coisas sejam do jeito que ele quer.

“Por si só, esse jornal se acabou”, disse o capitão da tortura, ao mostrar sua raiva com a postura da Folha durante a campanha. O jornal fez reportagens que mostram diferentes traquinagens na conduta do eleito. Acabar com o jornal é a vontade acalentada na cabecinha dodói do truculento e inculto Bolsonaro. Mas ele sabe que a verdade é exatamente o oposto de sua pregação.

É preciso que se ressalte a postura do jornalista Willian Bonner diante das palavras estúpidas do eleito que exalta a ditadura. O editor-chefe do JN deu uma tacada certeira ao afirmar que “a Folha é um jornal sério e tem um papel essencial” na defesa das liberdades e dos valores da democracia. Bolsonaro não reagiu. Calou-se. Foi uma noite que entrou para a história da imprensa brasileira.

Na edição da segunda-feira, com a cobertura sobre a vitória de Bolsonaro nas urnas, a Folha trouxe um editorial na primeira página. Leitura obrigatória. Mais que reafirmar a posição do jornal, sem salamaleques ao novo poderoso no pedaço, o texto é um compromisso com o Brasil. De Fernando Collor a Michel Temer, presidentes jamais tiveram boa vida nas páginas da Folha. É sua grande marca.

Se o homem ainda nem tomou posse, e já solta as garras do autoritarismo – em harmonia com os momentos mais baixos da campanha –, quando tiver a caneta entre as patas, o pior será sempre a alternativa imediata. Elegemos um sujeito que não tem qualquer convivência com regras civilizadas. E esse padrão será levado ao governo, com desdobramentos imprevisíveis. Isso é Bolsonaro.

Por isso tudo, não tem conversa sobre metas na economia ou planos sobre Mercosul, ou ideias sobre privatização e alianças no Congresso – o que vai pegar mesmo é a linha de ação autoritária de um governante boçal. Como não acredito em milagre, tenho certeza que o ambiente tem tudo para piorar nesse campo dos direitos individuais. É da alma bolsonarista, se é que me entendem.

Vocês não acham sintomático que, no dia seguinte à vitória, no momento de celebração, o eleito defenda a extinção de um jornal e insulte o papel da imprensa? Isso não ocorreu por acaso. É assim que Bolsonaro entende o mundo. Se pudesse, mandaria fechar a Folha hoje mesmo. E deve ficar numa agonia tremenda ao tentar entender por que ele, mesmo presidente, não pode tudo.

Ao dizer que veículo que conta “mentiras” não terá publicidade do governo, Bolsonaro parece até que fez um cursinho sobre o assunto aqui em Alagoas. Mas isso é uma divagação. Para encerrar, só os fiéis da seita ou os rapazes da “nova direita” defendem uma “normalidade” nas palavras do capitão da tortura. Bolsonaro não muda. Contra sua fúria antidemocrática, a imprensa livre será crucial.

Entre o muito ruim e o péssimo

Os brasileiros escolheram democraticamente o discurso classificado como extrema direita – ou pelo menos a forma como essa ideia é entendida mundo afora. Nas entrevistas que concedeu a telejornais na noite desta segunda-feira, o presidente eleito Jair Bolsonaro reiterou ataques a minorias e, sobretudo, à liberdade de imprensa. Vou falar desse ponto específico num próximo texto. Antes, uma geral sobre o panorama que se confirma depois das urnas. O país passa por uma novidade e tanto.

Pela primeira vez desde a volta das eleições diretas para o Planalto, há três décadas, temos um grupo no poder com ideias que até agora habitavam o submundo da política. Intolerância geral é marca registrada do bolsonarismo. O Brasil elegeu um presidente que apoia a tortura e nega a existência de uma ditadura no país. Veremos em breve como isso vai se combinar com o governo.

Um dado preocupante, a reforçar a suspeita de um governo autoritário, é que Bolsonaro não desceu do palanque. A eleição acabou, mas ele continua no ataque, atirando em todas as direções. Falou do Mercosul; falou do MST e do MTST; tratou das minorias, que aliás voltou a ironizar; especulou sobre a oposição etc. Quando se refere a tudo isso, o presidente eleito reafirma intenções descabidas.

Ao contrário do eleito, que declarou na campanha a disposição de não reconhecer outro resultado das urnas que não fosse sua vitória, lembro que sua conquista é legítima, se deu dentro das regras e consagra a vontade da maioria absoluta dos eleitores. Dito o óbvio, a maioria do povo não escolheu Bolsonaro – preferiu Fernando Haddad, anulou o voto, deu branco ou não compareceu.  

Agora, ele vai governar. Ao lado das trombadas com essa agenda que passa pelos direitos da sociedade, a pauta na área da economia é uma bomba. As brigas que devem ocorrer com o Congresso já ocorrem na equipe do futuro governo. Previdência e privatizações, dois temas dos mais incendiários, dividem opiniões e abrem fissuras entre alas da equipe e o próprio Bolsonaro.

E tem essa reveladora lua de mel com Sergio Moro, o juiz da Lava Jato que os fanáticos seguidores de Bolsonaro elegeram como herói dos cidadãos de bem. O presidente que toma posse em primeiro de janeiro confirmou que ou indicará Moro ao STF ou nomeará o doutor para comandar o Ministério da Justiça. Do jeito que Bolsonaro fala, o togado pode escolher a cadeira que prefeir. Está feito.

De tudo o que li sobre a eleição de Jair Messias, juntando com o que o presidente eleito disse nas últimas 24 horas, e juntando ainda com o que penso sobre os fatos, a conclusão é a seguinte: foi mesmo um grande salto num imenso escuro. Sobre o futuro governo, temos de esperar pra ver qual é. Já Bolsonaro, um dia após a eleição, teve desempenho entre o muito ruim e o péssimo.

A relação de Bolsonaro com a imprensa será um capítulo à parte. Durante toda a campanha, ele deu mostras do que pensa sobre jornalismo e liberdade de expressão. É conflito. Nesse ponto específico, o Trump brasileiro admira os métodos do presidente americano. Trato disso num próximo texto.

Voto em defesa da vida e da liberdade

Quando o Brasil reencontrou a democracia, no remoto ano de 1989, eu estava lá na minha primeira eleição para presidente da República. Naquele tempo, internet era ficção científica. Telefone celular também. Computador era coisa de rico. Lá fora, o mundo passava por um terremoto político que mais lembrava coisa de cinema. Desmoronava a União Soviética. Foi destruído o Muro de Berlim.

Com o fim da ditadura militar, e depois da frustração com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, em 1984 – que previa eleição presidencial direta no ano seguinte –, finalmente o brasileiro poderia escolher o comandante do país. Soa até como brincadeira, mas nada menos que 22 nomes se apresentaram como candidatos em 1989. Silvio Santos, a 23ª candidatura, foi barrado na Justiça.

Lendas da política nacional pediam votos numa incomparável campanha eleitoral. Entre os candidatos estavam Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Mario Covas e Fernando Gabeira. Também concorriam Paulo Maluf, Aureliano Chaves, Roberto Freire e Ronaldo Caiado. E havia o candidato bordão “Meu nome é Enéas!” – que fez história e, digamos assim, inaugurou um estilo.

Dos 22 personagens daquela disputa, alguns já partiram na viagem definitiva que um dia todos faremos. Outros se aposentaram da batalha por votos, como Guilherme Afif Domingos e o citado Gabeira. E alguns ainda estão aí, vitoriosos ou derrotados nas eleições de agora, como Roberto Freire e Ronaldo Caiado. Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva foram ao segundo turno.

O “caçador de marajás”, eleito governador de Alagoas em 1986, colou no peito a bandeira do Brasil, para dizer nos debates e palanques: “Nossas cores são o verde e o amarelo”. Porque nem tudo muda, também ali uma campanha prometia varrer do país a ameaça vermelha. Lula, o sapo barbudo, era o inimigo dos patriotas e da Rede Globo. O eleito cairia antes de completar três anos no cargo.

Vieram então os tempos de hegemonia dos chamados tucanos, com dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Depois de FHC, o que em 1989 era quase uma miragem virou realidade com a chegada de Lula e do PT ao Palácio do Planalto. Mas isso foi um dia desses. Com tantas eleições seguidas, o voto direto hoje parece algo que sempre esteve aí. Mas foi uma dura conquista.

Nenhuma eleição chegou nem perto de tudo o que se vê na disputa atual. Nunca houve um clima de tamanho acirramento – entre candidatos e eleitores. Velhas amizades acabaram até em meio a ameaças. O ambiente de trabalho foi envenenado. Engolidas pelo fanatismo do ódio, famílias estão rachadas, e o ressentimento se instala entre pais e filhos, primos e irmãos. Houve até assassinatos.

Nunca fui engajado. Nunca fui a passeatas em defesa de candidatos a nada. Mas aprendi, não sei quando nem como, a cultivar algumas obsessões. A liberdade plena, sem concessões ou ressalvas, é uma dessas obsessões. Outra é o repúdio a todo tipo de violência. Jamais relativizarei o desprezo ao semelhante e a tolerância à tortura, essa prática inominável que nos transforma em selvagens.

Por isso, em nome desses valores inegociáveis, voto em Fernando Haddad.

A voz e o voto de um mestre

Serei panfletário. Enquanto penso no que escrever sobre este domingo no Brasil, passo a bola para Paulinho da Viola. Na tarde do sábado, ele foi a uma rede social e explicou por que vota em Fernando Haddad para presidente. O cantor e compositor fala com sobriedade e clareza desconcertantes – aliás, dois traços que marcam sua grandiosa obra. É a voz do samba. É a vez do morro. Porque mesmo quando o sinal está fechado, passa um rio em nossas vidas. Sobre o que realmente interessa, agora e sempre, vamos ouvir um mestre:

Há tempos resolvi não mais declarar meu voto, por motivos que não caberiam neste espaço. Porém, o momento que vivemos é diferente. Sinto a necessidade de juntar a minha voz a de inúmeros colegas, artistas, intelectuais e demais cidadãos brasileiros que acreditam na importância de valores fundamentais para a nossa sociedade e para a nossa democracia. Não podemos pensar um futuro sem valores básicos.

Não devemos ignorar as ideias que ganharam força nesta eleição. Entendo que tais ideias ganharam este espaço por causa da frustração de muitos brasileiros com o rumo recente do nosso país.

Contudo, não podemos abrir mão do sonho de um Brasil onde se respeitem mulheres, negros, gays, nordestinos e pobres. Negro não se mede em arroba, se mede em batuques, versos, melodias, pinturas e livros – apenas para ficar no mundo das artes. A tortura é absolutamente inaceitável. A maioria deve estender a mão à minoria. A voz de todos deve ser ouvida. A imprensa deve ser livre. É por isso que, hoje, decido abrir meu voto.

Amanhã, votarei em Fernando Haddad.

Cidadãos de bem caçam comunistas

Parece que juízes eleitorais em vários estados do país entraram com tudo na reta final da campanha. Como vocês sabem, ao menos 30 universidades foram alvo de ações abusivas por parte de nossos gloriosos magistrados. De norte a sul, diferentes tipos de manifestações em defesa da democracia foram impedidos por togados. Eles alegam que os atos seriam propaganda eleitoral para o PT.

Vejam o que a Folha de S. Paulo publicou na noite desta sexta-feira: “Juiz que proibiu ato contra fascismo em universidade tem rede social antipetista”. A reportagem conta detalhes sobre o valente homem da lei que é militante bolsonarista em tempo integral e, nas horas vagas, dá expediente no TRE do Mato Grosso do Sul. Ouvido pelo jornal, ele acha tudo muito normal e sério.

Ainda bem que a reação de reitores, professores e estudantes surtiu efeito claro e imediato entre as autoridades que estão no comando das instituições brasileiras. Ministros dos tribunais superiores, a Procuradoria Geral da República e a OAB, entre outros, repudiaram as tentativas de invasão da autonomia universitária e, mais que isso, o claro atentado à livre expressão de pensamento.

Houve situações que lembram a ditadura. E a comparação nada tem de exagero. Em vários casos dessas presepadas nas universidades, os juízes agiram, segundo eles mesmos contaram, a partir de denúncias anônimas. Num dos casos, uma aluna que se sentiu incomodada com as palavras de um professor sobre fake news nas eleições ligou para o pai, um delegado, que logo acionou um juiz!

O que tudo isso significa? Não tenho dúvida: essa tropa de doutores mal esperou a eleição terminar, e já atua como se estivesse cumprindo ordens de Jair Bolsonaro. Com eles é assim: ou cala a boca ou a polícia vai arrombar a porta e botar ordem na casa. O que prega o capitão da tortura a seus fanáticos seguidores? Se discordar do dono do pedaço, ou vai preso ou será expulso do país sumariamente.

Os “cidadãos de bem”, aqui mesmo em Alagoas, já andam fuçando escolas – vejam que sensacional! – para caçar professores “comunistas”. Santa Direita Liberal, Batman! Só não é uma piada completa porque representa algo realmente perigoso para todos nós. Babando ódio a cada frase, é esse ambiente poluído por arroubos de autoritarismo que Bolsonaro incentiva com devotada obsessão.

No regime militar, que torturou e assassinou homens e mulheres, a coisa começou assim. Em 1964, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade reunia exatamente as “pessoas de bem”, muito preocupadas com a ameaça vermelha. O resultado foram duas décadas de censura, violência e morte. Hoje temos algo repaginado, nestes termos: Brasil acima de Tudo, Deus acima de Todos.

Portanto, por essa filosofia patriota, cuidado com o que você anda falando nas esquinas. Um honrado pai de família, nos arredores, pode denunciá-lo como perigoso subversivo. Nas redes sociais, a caça aos monstros comunistas já começou faz tempo. Tem até gente denunciando a formação de guerrilheiros mirins nas escolas do ensino fundamental! No século XXI, viva a Pré-História!

Vereador Lobão – a voz da periferia – acerta em cheio sobre Haddad e Bolsonaro

Thomaz Nonô gravou um vídeo na varanda de seu apartamento milionário (à beira-mar, claro) com uma patética celebração a Bolsonaro, o capitão da tortura. Aos berros, parecia a ponto de uma síncope, tamanho o frenesi em exaltar a figura tosca que ameaça a democracia brasileira. Nonô também prega a extinção do PT e da esquerda. Está tudo na gravação que rodou as redes sociais.

João Henrique Caldas informa que se manterá “neutro” no segundo turno. Deputado federal, ele é o que alguns brincalhões chamam por aí de renovação na política alagoana. Embora não tenha coragem de revelar sua escolha, o rapaz dá uma pista sobre seu voto: ele lançou uma bizarra enquete para descobrir quem deseja ver o juiz Sergio Moro no STF. A presepada fala por si.

O tucano Rodrigo Cunha, senador eleito, também se saiu com essa piada de “neutralidade”. Defensor intransigente dos direitos humanos e da ética na política, ele diz candidamente: “Bolsonaro e Haddad não me representam”. A omissão covarde do jovem iguala duas visões de mundo contrárias. Pelo que entendi, não quer magoar os eleitores de um e de outro. Bem pragmático, prefere as sombras.

O também tucano Rui Palmeira, prefeito de Maceió, vota em Jair Bolsonaro. Agora vejam que pensamento luminoso: ele diz que não gosta de nenhum dos candidatos e que o segundo turno entre Haddad e o capitão da tortura é “bisonho”. Mesmo assim, ele tem uma queda pelo discurso do troglodita. Com essa visão crítica, prova que sua escolha é, por assim dizer, mais que bisonha.

Finalmente, chegamos ao vereador do Vergel, bairro da legítima periferia da capital alagoana – um pedaço da cidade que os bacanas gostariam que nem existisse. Anivaldo da Silva, o Lobão, o mais votado em 2016 para a Câmara Municipal, fez um discurso contundente, papo reto mesmo, sobre as diferenças entre Haddad e Bolsonaro. Chamou o milico de tudo e mais um pouco. Acertou em cheio.

Na terra de Nonô, JHC, Cunha e Palmeira – um quarteto do topo da pirâmide –, foi preciso que um vereador das quebradas soltasse o verbo sobre o que está em jogo nas eleições. Lobão denuncia o discurso racista e violento de Bolsonaro, e pede que o eleitor compare os dois nomes, para além dos partidos que representam. É isso mesmo. Vamos escolher entre a democracia e o obscurantismo.

Universo natural da hipocrisia, da dissimulação e da desonestidade, de vez em quando a política ainda surpreende. Figurões recorrem a malabarismos retóricos para justificar escolhas acanalhadas. É o que muitos fazem agora. Já outros tentam disfarçar, com tortuosas peripécias mentais, a atração pelo autoritarismo. Lobão vai na contracorrente. E mostra coragem. Está do lado certo da História.

Nova pesquisa Datafolha: Bolsonaro cai, Haddad sobe – e tudo pode acontecer

A nova pesquisa Datafolha, divulgada na noite desta quinta-feira, revela algo muito importante sobre o Brasil que sairá das urnas no próximo domingo – seja quem for o eleito. É o seguinte: a disputa será acirrada, ao contrário do que pensavam Jair Bolsonaro e sua tropa de fanáticos seguidores. O capitão da tortura caiu, Fernando Haddad subiu, e a diferença entre ambos agora é de 12 pontos nos votos válidos. Nos votos totais, a distância é de 10 pontos. O eleitor se mexe e provoca suspense.

Há uma semana, Bolsonaro estava 18 pontos à frente. O saudosista da ditadura militar e do arbítrio continua favorito? Segundo os números, sim. Mas ele e seu entorno ficaram angustiados com o retrato do Datafolha. Mantida a tendência detectada na pesquisa, essa diferença tem tudo para diminuir até o domingo. Para uma virada, como sonha Haddad, talvez não dê tempo, mas isso não pode ser descartado. Ao contrário. Seja como for, repito, o resultado das urnas será apertado.

Mas eu disse que esse quadro é importante. Explico melhor agora. O acirramento da corrida na reta final revela que o discurso truculento, racista e de desprezo aos direitos humanos não arrastou o país inteiro. Milhões e milhões de brasileiros estão dispostos a barrar essa aberração chamada Bolsonaro. Ainda que saia vencedor, o adorador de torturadores terá uma oposição cheia de votos.

É uma boa notícia para quem defende os valores sagrados da democracia. Afinal, estamos às vésperas de eleger um presidente, não um ditadorzinho desprezível que afirma abertamente o desejo de prender ou expulsar opositores. Foi o que ele disse em discurso a sua turma. Com essa ideia tosca na cabeça, Bolsonaro atualiza o bordão da ditadura, aquele hediondo “ame-o ou deixe-o”.

Para o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, as falas de autoritarismo escancarado explicam a mudança no eleitorado. Bolsonaro não quer apenas ganhar a eleição; ele quer “varrer” da nação todos aqueles que rejeitam seus muitos princípios depravados. Não é possível que tal postura tenha o apoio massivo da população brasileira. É isso que acho mais relevante no novo Datafolha.

Voltando aos números, pelos votos válidos o capitão da tortura tem 56% contra 44% de Haddad. Lembrando que o candidato do PSL está em movimento de queda enquanto o candidato do PT aparece num embalo de crescimento. Por isso, instalou-se o pânico no comitê bolsonarista.

Hoje deveria ocorrer o debate na Globo, mas o valentão amarelou. A coragem dele é para insultar mulheres... Dois dias até a hora da votação. É logo ali. A missão para Fernando Haddad, claro, é duríssima. Mas o que parecia liquidado, atesta a pesquisa, ainda está em aberto. Melhor assim.

Bolsonaro, Bancada da Bala e guilhotina

Jair Bolsonaro já negocia a destruição do Estatuto do Desarmamento. Quer liberar a posse de arma para todo mundo. Como ele acha que já está eleito, discute com sua corja de celerados vários planos que pretende levar a cabo na hipótese de sair vitorioso. E, claro, como o país tem problemas gravíssimos pra todo lado, uma prioridade, vejam só, é armar o “cidadão de bem”. Apontar! Fogo!

Essa tara, essa fixação insana em portar um 38 ou uma pistola, está inteiramente de acordo com a cabeça perturbada do sujeito que passou a vida toda defendendo grupo de extermínio, torturador e censura à liberdade de imprensa. E isso é só um brevíssimo resumo das criminosas ideias do candidato. Bolsonaro não tem proposta de combate à violência – a não ser incentivar mais violência.

Decidido a emplacar seus planos de um revólver para cada pessoa, o parlamentar do eterno baixo clero escalou um grupo para negociar com Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados que pretende garantir mais dois anos no comando do Congresso. Maia prometeu aos patriotas que vai levar à pauta da Casa projeto que desfigura por completo o citado Estatuto do Desarmamento.

Ou seja: para ver o sonho da pistola liberada pra tudo mundo, Bolsonaro precisa dos votos dos congressistas. E como ele é o “novo”, o nome do “antissistema”, que vai mudar tudo isso que está aí, está tramando com a Bancada da Bala. Bolsonaro apoia a reeleição de Maia, e Maia detona a lei que regula a posse e o porte de arma no país. Quanta novidade no jeito de fazer política, não é mesmo?

Não é deveras desolador que alguém que se diz “com a mão na faixa” dê prioridade a algo dessa natureza?! Ele não está antecipando negociações sobre projetos na área de educação, da saúde, da geração de emprego etc. Nada disso. Decisivo mesmo para mudar o Brasil é garantir a bandalheira do armamento amplo, geral e irrestrito. Isso sim é uma sinalização em favor da vida e da democracia.

E o toma-lá-dá-cá? Esse candidato das milícias e dos amantes da tortura diz que, com ele, vai acabar a troca de favores e a política dos conchavos. Ocorre que, nem eleito foi, e já pratica o oposto do que prega. Importante: nenhuma surpresa nesse comportamento. Só os ingênuos (ou os cúmplices) acreditam nas boas intenções de um sujeito que celebra a morte e ofende vítimas da ditadura.

As negociações entre Maia e Bolsonaro estão sendo costuradas por Alberto Fraga, deputado do DEM de Brasília, derrotado na eleição para governador do Distrito Federal. Esse cretino virou notícia nacional ao espalhar na internet calúnias sobre a vereadora Marielle Franco, assassinada em março no Rio de Janeiro. Fraga já se vende como futuro ministro de qualquer coisa. Combinam em tudo.

Para fechar, lembro que o candidato da “renovação” é o queridinho dos bancos e das agências de especulação financeira. É aquele pessoal que adora os pobres, você sabe. Sim, o voto é livre e vivemos num regime democrático. O eleitor tem plena liberdade de escolha. Defendo esse direito sagrado – ainda que a escolha de tantos seja, bovinamente, botar o próprio pescoço na guilhotina.

Bajuladores do capitão da tortura

Caciques decadentes na política alagoana se agarram às botas do capitão da tortura. Sem votos, sem mandato, tentam beliscar alguma fatia na mesa farta que esperam ver instalada no eventual governo do “liberal-conservador” Jair Bolsonaro. Alguns desses nomes em fim de carreira ainda mamam em cargos públicos – ocupados por eles mesmos ou por seus testas de ferro. Sempre agiram assim.

Naturalmente não existe essa conversa de afinidades ideológicas. Os carreiristas varridos pelas urnas nos últimos tempos buscam apenas uma boquinha a partir de janeiro de 2019, quando o virtual governo dos cidadãos de bem estiver instalado. A velharada perde poder, mas nunca o faro capaz de identificar a benesse na próxima esquina da pilantragem verde & amarela. Muito ético e republicano.

As movimentações que tomam conta do circo já nos informam o quanto teremos de renovação na política. Afinal, como se sabe, os patriotas dizem que vão tomar o poder para banir todas as práticas deletérias da vida pública. Quem duvida? Honradas lideranças, que até um dia desses bajulavam os governos do PT, agora defendem a extinção da “petralhada”. Querem um país livre e decente.

Não sei o que é mais desavergonhado nessa encenação toda – se a demagogia mais rasteira ou a desonestidade intelectual dessa gentalha. Do outro lado do balcão, os prepostos do presidenciável recebem todas as demandas com naturalidade previsível. É o jogo de sempre consagrado nas negociações por cargos e vantagens de toda ordem. Sem dúvida, vem por aí um Brasil muito melhor.

Não cito nomes para não cometer “injustiças”. Explicando melhor: não conseguiria listar todos os que estão na fila, com o bico aberto, à espera do alpiste patriótico. Mas o leitor pode conferir no noticiário as recentes declarações de apoio a Bolsonaro que partiram de vários medalhões do cenário alagoano. Alguns passam até pelo ridículo de gravar vídeos dando pinotes de excitação.

Enquanto isso, Bolsonaro continua na ofensiva à liberdade de imprensa, com declarações estúpidas e que incitam a violência contra jornalistas. A Folha pediu que a Polícia Federal investigue casos de ataques a profissionais do jornal. O candidato elevou o tom após a revelação do caixa 2 via WhatsApp. A reação do milico candidato prova, mais uma vez, seu desejo de sufocar a crítica.

Mas esse e outros pontos do desprezível discurso bolsonarista merecem um texto específico – porque o ódio pela imprensa livre é um dos traços mais explícitos dessa turma. Voltarei ao tema adiante. Por enquanto, registro ainda que vários casos de agressão a pessoas continuam ocorrendo, em diferentes partes do país. Quem não rezar pela cartilha do fanatismo corre imenso perigo.

A velha tradição da Indústria da Seca

O governador Renan Filho reuniu prefeitos do Sertão e do Agreste para dar a eles uma ótima notícia: haverá um investimento de 8 milhões de reais para enfrentar os efeitos da seca que atinge os municípios. Pelo que entendi, os gestores estão agoniados com o problemão da estiagem. O dinheiro será do Estado e do governo federal, segundo divulgado em concorrida entrevista coletiva.

Quase fiquei comovido com o drama das autoridades. Estranhamente, pelas imagens vistas na TV o encontro no Palácio República dos Palmares parecia uma festa. A animação estava no semblante de cada um dos presentes ao evento. Imagino que deve ser pela satisfação em poder ajudar as populações vitimadas pela falta de chuva. Nada como cumprir uma missão tão necessária.

Agora podemos ficar mais tranquilos. Com a grana liberada, as prefeituras certamente aplicarão cada centavo para socorrer os sertanejos. Só uma coisa não combina muito com tudo isso. Se não estiver enganado, na campanha eleitoral vimos o governo estadual mostrando as maravilhas da atual gestão que serviram para levar água a essas regiões da seca. Na publicidade, acabou o sofrimento.

Na propaganda eleitoral, era adutora pra todo lado, Canal do Sertão abastecendo milhares de residências, poços e cisternas garantindo o cultivo da agricultura familiar – uma verdadeira revolução no interior alagoano. Duas semanas depois da eleição, com o governador reeleito, descobre-se que o clima esquentou, com temperaturas terríveis, e a seca ameaça dizimar pessoas e plantações.

Dos 38 municípios que receberão uma boa grana para salvar o povo da estiagem, alguns estão à beira do São Francisco, mas é como se não houvesse rio nenhum na região. Já nos arredores de outras tantas cidades, corre límpida e transparente a água do já citado Canal do Sertão. Mas ainda assim a terrível seca não dá trégua. O jeito é ação emergencial, claro, de repasse aos prefeitos. 

Para fazer justiça, devemos ressaltar o óbvio – que o governo Renan Filho não inaugurou esse modelo arrojado de enfrentar a recorrente estiagem nos sertões alagoanos. Seria atribuir ao atual governador a primazia de algo que, sabemos, é uma das intocáveis tradições brasileiras. Já era assim desde a Velha República, avançou pelas décadas e, pelo visto, terá um interminável futuro.   

A expressão é antiga, bem remota mesmo, mas resiste ao tempo, como tantas outras na política nacional: estamos diante da famigerada Indústria da Seca, cujo principal produto é o voto do cidadão. Enquanto essa lógica prevalecer, nem que desabe um dilúvio, o drama da falta de água chegará ao fim. Ainda bem que temos essa eficiente política pública de mandar dinheiro extra a prefeituras.

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