Blog do Celio Gomes

O Brasil que mata inocente e exalta miliciano

Os primeiros dois meses e alguns dias de 2019 registraram diversos casos de abuso por parte de policiais militares, em diferentes regiões do país. Os episódios estão na internet para quem quiser conferir mais detalhes. O mais recente exemplo da truculência policial – com escandalosa afronta à lei – foi exibido neste sábado por emissoras de TV. Dois PMs do Maranhão levaram para uma delegacia dois meninos presos, acusados de tentativa de furto por moradores de um bairro.

O que mais chama atenção, além da ação ilegal dos militares, é a idade dos suspeitos. São duas crianças de nove anos de idade! Ainda assim, com as mãos amarradas, os garotos foram jogados na parte de trás de uma viatura, tratados como bandidos de facção altamente ameaçadora. Mesmo que tivessem cometido qualquer delito, jamais poderiam passar pelo que passaram nas mãos do aparato oficial. A dupla de PM, esta sim, cometeu crimes em série, previstos em códigos e estatutos.

Acertou em cheio aquele que pensou aí em alguma conexão entre esse tipo de ocorrência e Jair Bolsonaro. É uma ligação automática. Como todos sabem, temos um presidente que idolatra torturador e defende que policial tenha licença para matar impunemente. Os garotões da “nova direita” também seguem o guru nessas ideias vigaristas. A matança legalizada é o que prevê o projeto de Sérgio Moro, o juiz bolsonarista que virou ministro. Por aí, o PM na rua vai mandar bala.

Foi assim na ditadura instalada pelo golpe de 1964. A história famosa lembra que quando o chefe libera geral, o subordinado vai à guerra com autoridade para detonar, certo de que está legitimado pelos superiores. Ora, se todo dia o presidente prega violência, naturalmente haverá consequências em harmonia com a ordem do chefe. O Brasil bolsonariano despreza diretos humanos – isso é coisa de esquerdista corrupto que defende o Lula. Respeito à vida de todos? É mimimi de comunista.

Podem anotar: os casos de violência policial vão aumentar ao longo dos meses. Não bastasse um presidente adepto à prática abominável de tortura, governadores como os do Rio e de São Paulo agem para incrementar o banho de sangue – sempre, é claro, nas periferias, onde estão os suspeitos de sempre, pobres e negros. As eleições de 2018 consagraram as piores tranqueiras da política. Empolgados com o cheque em branco das urnas, estão doidinhos para puxar gatilhos a esmo.

Como já escrevi aqui, para gestores da área de segurança, planejamento e estratégia se resumem a sinônimos de extermínio. E estou falando, agora, de Alagoas. Embora seja especialista em produzir fumaça marketeira, o atual governo estadual repete, tediosamente, a mesmíssima “política” dos governos anteriores. No lugar de estrategistas ligados em Inteligência, comandantes da PM e secretários são escolhidos entre os “melhores” brucutus das corporações. O resultado está aí.

Numa situação dessas, a sociedade precisa contar com instituições como OAB e Ministério Público. O problema é que boa parte desses ambientes também parece seduzida pela ideologia da tortura e do fuzilamento – Bolsonaro tirou muito cidadão de bem do armário. Enquanto essa lógica do arbítrio não for atacada, os números da violência continuarão nas alturas. Pelas escolhas das últimas eleições, tragicamente vamos continuar matando inocentes e protegendo milicianos. É o novo Brasil.

Bolsonaro, Carnaval e novela

São muitos os temas dos últimos dias sobre os quais não escrevi ainda, mas sobre os quais ainda posso escrever, a qualquer hora, para, quando menos, registrar uma opinião, um modo de ver as coisas – alguma palavra para além, digamos assim, da superfície factual. Sendo inevitável, o cerco da realidade, integralmente cerrado nas 24 horas de um dia, sugere pautas que ou não ajudam muito ou desafiam demais. Entre uma impressão e outra, vamos do jogo do poder ao bloco carnavalesco.

Para entrar nos debates que invadem a imprensa e a internet, teria de escrever, logo na largada, sobre Bolsonaro e seu mais novo ato de exibicionismo de um caráter indecente. O mundialmente famoso vídeo do Carnaval divulgado pelo presidente da República apenas reafirma o que é notório desde sempre. Sobre o ritual que para o país anualmente, a leitura de Carnavais, Malandros e Heróis, de Roberto DaMatta, continua lição valiosa – e original – pra entender o fenômeno brasileiríssimo.

Antes de mais uma crise no âmbito da política – essa crise do presidente pornográfico durante o Carnaval –, o país quase parou com a descoberta do caso Marina Rui Barbosa & José Loreto. O tanto de material produzido pela imprensa oferece algo valioso para quem pretenda investigar a fundo as relações afetivas, hoje inapelavelmente subordinadas ao redemoinho de pensamentos envenenados das redes sociais. Traições, mentiras e todo o tipo de golpe baixo eletrizam o povaréu.

Pelo que vi de longe, Jesus Cristo tomou uma tremenda sova do Capeta – em espetáculo visto por um público formado por milhões de pessoas em todo o Brasil. Acho que foi a escola de samba Gaviões da Fiel que teve a ideia de encenar o duelo durante o desfile na avenida paulistana. Tem gente espumando de ódio até hoje. Salvo engano, um deputado alagoano propõe nota de repúdio por considerar o desfile da escola uma agressão aos valores da família cristã. Besteirol oco e tedioso.

As manifestações do presidente Bolsonaro pelas redes sociais cavam o esgoto cada vez mais fundo.  Especula-se por aí se tal comportamento não se trata na verdade de uma estratégia. Mantendo na ordem do dia as demandas escatológicas de sua mente desordeira, o capitão distrai a turba, que assim deixa de lado o que realmente interessa ao país. No terceiro mês de gestão, o governo inexiste – a não ser na produção de vexames por parte do presidente e ministros prontinhos para o hospício.

O presidente também resolveu disputar prestígio com Caetano Veloso e Daniela Mercury.  Incomodado com a música Proibido o Carnaval, Bolsonaro foi ao Twitter, claro, para repetir a velha acusação de uso ilegal da Lei Rouanet. Imediatamente, retardados que o idolatram nas redes passaram a repetir a pilantragem intelectual. Ou seja, bisonhamente o homem tenta o impossível: elevar-se acima de um rito nacional (a festa) e de uma lenda viva da cultura brasileira, Caetano.

Uma das versões correntes sobre o Brasil de agora garante que os militares tomaram conta do governo pra valer. Quem manda são eles. Os generais toleram as manifestações indecorosas do presidente porque, afinal, sabem que isso não tem cura mesmo. O sujeito é apenas um ser do baixo clero, eternamente. Sendo assim, a vulgaridade será o padrão permanente, em atos e palavras, de Bolsonaro e dos filhos trombadinhas. Reformas, propostas e projetos ao país, nada disso daí!

(Com bastante exagero, digamos que falei de quase tudo e quase nada. Temas e aspectos do texto podem ser abordados em posts específicos. E ainda tem a fala de Bolsonaro sobre democracia e as vontades das Forças Armadas. O drama que envolve Marina Rui Barbosa e Débora Nascimento também mereceria análise mais demorada. É a História em nossa frente, ao vivo!).

Mais uma papagaiada do autoritarismo

O Brasil tem hoje como ministro da Educação um trapalhão idiota, e que é também um exemplar representante do pensamento abrutalhado que norteia o governo do capitão da tortura. Ricardo Vélez Rodriguez, o colombiano que fala com dificuldade o idioma de Vieira e João Cabral, acaba de acrescentar uma vigarice em sua incrível coleção de abusos. Desta vez queria obrigar escolas a filmar alunos cantando o Hino Nacional e repetindo o slogan do governo. Nem na ditadura!

Mas este governo da nova direita, dos garotões conservadores, do liberalismo avançado etc. etc. não tinha como missão tirar o Estado das costas do cidadão? Este governo não é aquele da Escola sem Partido? Este governo não é aquele em que a gestão da coisa pública deveria ocorrer “sem viés ideológico”? É o que cacarejam até hoje os intelectuais de araque tonificados pelas redes sociais, excitados com as mensagens de Bolsonaro e seus três filhotes – os vira-latas marombados.

Os fanáticos acreditaram. Ou fingiram acreditar. Ou pensam exatamente como o ídolo. O ministro reproduz os valores deploráveis do chefe e de tudo o que ele representa. O mais grave na mensagem pilantra de Vélez Rodriguez é a recomendação para que a garotada repita o slogan de campanha e do governo Bolsonaro – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Isso é crime sob mais de um critério. Fere os Códigos Penal e Eleitoral, o Estatuto da Criança e a Constituição.

O ministro da Educação – que nada sabe sobre educação – acha que o brasileiro é “canibal” e “ladrão”. Suponho que os meninos bolsonaristas, que idolatram Carluxo e adoram uma pistola, devem concordar com ele. Vejam o nível de quem foi escolhido para tratar de um setor simplesmente estratégico para o desenvolvimento do país. Qual é a surpresa diante desse espetáculo deplorável? Nenhuma. Tudo em harmonia com o palhaço que governa o país. Vélez Rodriguez tinha de cair fora.

Diante da repercussão, o imbecil voltou atrás. Segundo a imprensa, ele admite que sua brilhante ideia foi um “erro”. Errado é tudo o que sai das cabecinhas doentes que integram esse ajuntamento que forma o desgoverno. Como já escrevi aqui, com Jair Messias, o Brasil ensina ao mundo como é que se faz para produzir um retrocesso aos padrões do medievalismo. Estamos na vanguarda do atraso.

Reitero que algo com tamanho grau de estupidez e evidente autoritarismo não foi praticado entre nós nem pela ditadura instalada em 1964. Mas essa é a alma do governo que o país escolheu em outubro de 2018, num surto psicótico que traduziu ao mesmo tempo as demandas dos privilegiados e de outros nem tanto. Em tempo recorde, o governo Bolsonaro expõe uma mediocridade chocante.

E não! Porque reitero também que não vejo surpresa na papagaiada do ministro. Ordenar a leitura do slogan da campanha eleitoral é caso de prisão em flagrante! Esse Zé Mané não tem condições de administrar coisa nenhuma – quanto mais comandar as políticas públicas para a educação brasileira. Ainda bem que deu tudo errado. Resta mais um vexame ao arquivo que tem tudo para explodir.

O governo de Alagoas e outros estados reagiram à determinação do ministério. E reagiram afirmando que não iriam seguir a ordem idiota do governo federal. A gestão Bolsonaro é desmoralizada pelo menos uma vez a cada vinte e quatro horas.Não sei se isso já foi registrado na História do Brasil. A julgar por essas relevantes medidas, pode manter seu otimismo todo aquele que assim quiser.

Campanha do Conselho de Psicologia sobre drogas é arrojada e correta. Parabéns!

O mundo é careta. A ordem é reacionária. O pensamento dominante é atrasado. Não importa o tipo de ideologia, não importa o credo religioso, não interessa a seita que arraste fanáticos para este ou aquele sistema de crendices – o que prevalece é o mais tacanho obscurantismo, um pântano brutalmente hostil a tudo o que possa lembrar um pingo de vida inteligente. Como canta o maldito Jards Macalé, num clássico instantâneo que ele acaba de jogar na praça: Chegamos ao limite da água mais funda. Trevas!. Foi isso o que pensei após o caso do panfleto sobre uso de drogas.

Nas redes sociais, o Conselho Regional de Psicologia de Alagoas entrou na mira dos snipers que defendem os valores da família e da pátria. Tudo por causa de um panfleto produzido pela Comissão de Direitos Humanos do CRP-AL. O material orienta como usar de maneira segura substâncias ilícitas – maconha, cocaína e LSD, por exemplo. Os cidadãos de bem tiveram um ataque de nervos!

Na verdade, a reação foi histérica. O trabalho de profissionais foi tratado com termos chulos, depravados, de baixíssimo calão – perfeitamente de acordo com o nível mental dos senhores que se acham o suprassumo dos bons costumes. É o tipo de postura que alia ignorância, preconceito e violência. O ódio destilado contra a iniciativa do Conselho também esconde boa dose de hipocrisia.

É bom lembrar que o CRP-AL não inventou nada. Esse tipo de abordagem – que acertadamente aposta na informação transparente – está longe do ineditismo. Mundo afora, várias campanhas ensinam, sim, como usar de modo seguro – com intenções recreativas – algum tipo de droga proibida por lei. Isso não é incentivo ao consumo, como falsificam os detratores da campanha.

O mundo perdeu a “guerra contra as drogas”. Só os idiotas e os cretinos não admitem. A repressão jamais, em tempo algum, em lugar nenhum do planeta, arrefeceu a curtição de um baseado, a viagem numa carreira de pó, a vertigem num comprimido colorido, a visita a outras dimensões depois de um copo de chá... A lista é imensa. Mas continuamos o mesmo combate – burro e inútil.

O discurso vagabundo de “combate sem tréguas” ao tráfico de drogas tem como única serventia aparecer em slogan de desqualificados da política. A segurança pública nessa área é pura ficção. A cada espetáculo de quilos de maconha incinerados, toneladas e toneladas abastecem o mercado – pra ficar no produto mais básico. A piada harmoniza governos, traficantes e a sociedade.       

O que eu penso da campanha do Conselho de Psicologia para orientar foliões no carnaval? Parabenizo pelo arrojo e pela corajosa iniciativa – e espero que os profissionais responsáveis pela campanha não recuem, não se deixem intimidar pelas trombetas dos que só conhecem a linguagem do pega pra capar. Enfrentar tradições, por mais bisonhas que sejam, sempre será arriscado.

Experiência alagoana, 17ª Vara Criminal pode ser implantada em todo o Brasil

A experiência alagoana com a 17ª Vara Criminal da Capital – quem diria! – pode ser copiada no Brasil inteiro. É o que pretende o Conselho Nacional de Justiça, segundo reportagem da Folha de S. Paulo. O colegiado estadual foi criado em 2007 pra jugar exclusivamente casos considerados ações de organizações criminosas. São três juízes que decidem, sem que o voto individual seja revelado.

A existência da 17ª Vara nunca foi consenso por aqui. Em sua origem está o fim do chamado juiz natural e o triunfo do “juiz sem rosto” – o que fere o direito de defesa. Com base nesse entendimento, a OAB tentou dissolver a lei alagoana que criou a instância especial. O caso foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 2012. Os ministros decidiram pela legalidade da inovação jurídica.

No julgamento no STF, alguns artigos da lei que sustenta a vara especial foram anulados, mas o eixo principal foi mantido. No geral, os ministros concordaram que a única instância a ser beneficiada com a eventual extinção da 17ª seria o crime organizado. Assim, sete anos atrás, acabou a insegurança jurídica que ainda rondava a criação do Judiciário alagoano. Agora, a coisa ganha mais força.

A implantação de varas colegiadas, para julgar o crime organizado, será tema de encontro que o CNJ promove na segunda e na terça-feira, dias 25 e 26, em Brasília. O principal defensor do modelo é o ministro do STF Alexandre de Moraes. Ele é o coordenador do Grupo de Segurança Pública do CNJ. No Brasil desesperado por medidas nesse campo, há quem aposte que seja um avanço.

A pretensão do Conselho Nacional, pelo que entendi, é apresentar a ideia aos Tribunais de Justiça de todos os estados. Como em Alagoas, suponho que cada Assembleia Legislativa local teria de aprovar uma lei instituindo a novidade. Com o aval preliminar da cúpula do Judiciário, não deve haver maior resistência para a viabilização do projeto. O prazo pra entrar em vigor fica por conta da burocracia.

Foram muitas as trombadas entre advogados e a 17ª ao longo desses anos em Alagoas. Sem citar casos e nomes, as situações variaram muito sobre quem parecia estar do lado certo. Todo poder aos julgadores nunca é boa coisa. Restrição ao direito de defesa, por mínima que seja, é sempre uma fresta a eventuais abusos. Como conciliar o combate ao crime sem atropelar direitos?

É isso que o tempo todo está no centro da aplicação da lei. Que sejam criados mecanismos para apertar o cerco contra o crime organizado, tudo certo. Mas sem vedar ao réu o menor dos recursos que seja – garantido na defesa de quem é acusado por algum delito. Isso não é proteger bandido. É uma das condições para que a gente possa viver de modo civilizado. Do contrário, é faroeste, é selva.

Laranjal é a prova de fraude na eleição 2018

O festival de candidaturas de fachada nas eleições de 2018 deixa uma lição definitiva: as regras do processo eleitoral foram miseravelmente desmoralizadas – mais uma vez. E olhe que a disputa do ano passado ocorreu sob uma legislação teoricamente mais rigorosa com o uso de verba pública. A retórica das autoridades, sobretudo de ministros do TSE, era de que tudo iria ocorrer dentro de parâmetros rígidos, com muito mais transparência. Sabe-se agora que não foi assim.

Foi tudo ao contrário. Pelo visto, todos os partidos – e não apenas o PSL de Jair Bolsonaro – driblaram as regras do jogo de maneira criminosa. Todos os dias a imprensa traz novos exemplos de que o laranjal de candidaturas foi o maior fenômeno eleitoral de 2018. A cota para mulheres deve ser a obrigatoriedade mais violada na história das eleições brasileiras. As legendas forjaram concorrentes que receberam fortunas para campanhas que simplesmente nunca existiram pra valer.

O saldo atesta que, em boa medida, portanto, há uma multidão de eleitos sob suspeita. O caso do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) é apenas o de maior repercussão, dada a visibilidade do personagem. Mas não faltam situações idênticas pelo país afora. Sempre atentos às oportunidades para se dar bem pelos caminhos mais fáceis, é claro que políticos e legendas iriam recorrer ao “mecanismo” dos laranjas. Diante dos esquemas já revelados, a coleção de explicações é descarada.

Sobrou justamente para a suposta camisa de força da cota feminina. Os caciques partidários reclamam da exigência de 30% das vagas para garotas e senhoras. O deputado Luciano Bivar, presidente nacional do PSL, foi o mais cínico ao apelar para esse “problema” como justificativa à safadeza. Segundo esse homem público exemplar, mulher não tem vocação para a política. O que deveria fortalecer a diversidade na representação partidária acabou sendo usado para burlar a lei.

Apesar de todos os casos que a imprensa já trouxe a público, não vi ninguém defender alguma forma de combater a pilantragem nas eleições municipais do ano que vem. Sim, porque se nada for modificado, a safra de laranjas tende a explodir em 2020. Fico pensando se a Justiça Eleitoral vai ficar assistindo a todo esse escândalo, sem apontar para nenhuma solução. Desse jeito não pode ficar.

A presepada é pedagógica também em outro aspecto crucial: fica provado, uma vez mais, a distância entre a discurseira engalanada dos doutores togados e a vida concreta. Quem não lembra de Luiz Fux, Carmen Lúcia e outros, cheios de empáfia, dando garantias de que teríamos eleições limpas no ano que passou! Diziam que o TSE seria implacável no combate a malfeitores da urna.

Era tudo balela. Vivendo numa dimensão estranha ao Brasil real, esses vultos da República foram engolidos pelos fatos do mundo verdadeiro. É o que sempre acontece. Quanto mais badulaques e balangandãs na retórica extravagante, maior o vexame diante do preto no branco. É insofismável que as eleições foram fraudadas em níveis pantagruélicos. Tem de mudar tudo para 2020.

Pinto da Madrugada – por que Alagoas desmoraliza conceito de “patrimônio cultural”

Em abril de 2013, uma receita de camarão do Bar das Ostras ganhou oficialmente o registro de patrimônio imaterial e cultural de Alagoas. A iniciativa nasceu no então governo de Teotonio Vilela Filho e foi sacramentada pelo Conselho Estadual de Cultura. Dois anos antes, o bloco carnavalesco Pinto da Madrugada já havia sido homenageado com a mesma distinção. Nos dois casos, a esfera pública contemplou interesses de grupos privados que vivem na órbita de qualquer governo.

O que eu penso é que Alagoas desmoralizou o conceito de “patrimônio cultural”. Nem o prato de camarão nem o bloco carnavalesco têm qualquer vínculo com a chamada cultura popular. São duas invenções de endinheirados que fizeram lobby por seus negócios junto ao setor público. A única serventia do registro concedido é turbinar os cofres de empresas que lucram com seus produtos.

No caso da culinária, foi reconhecido o valor simbólico de uma iguaria destinada à nossa gloriosa elite analfabeta, voraz e oportunista. O Bar das Ostras fez sucesso entre os poderosos que batiam ponto no restaurante exclusivo para ricaços. Exaltado por aqui, o afamado camarão ganhou fãs além de nossas divisas, atraindo celebridades à caça de holofotes e almoço grátis. O povo fica de fora.

No caso do bloco, vejo como tremenda presepada tratar isso como uma “tradição alagoana”. O Pinto é uma festa criada por um grupo de médicos e diretores da Santa Casa de Maceió. Sempre viveu à base de dinheiro público, ainda que seja uma fonte de grana para seus donos. Além do comércio de camisas pra quem deseja estar na folia da avenida, vende-se de tudo com a marca do bloco.

Desde 1999, primeiro ano em que o Pinto foi às ruas nas prévias carnavalescas da capital, Estado e prefeitura de Maceió abrem as portas – e os cofres – para dar uma força à “manifestação cultural” tipicamente alagoana. A cada ano, os organizadores querem mais. Ao menor sinal de resistência do gestor, eles ameaçam cancelar a festa, alegando “falta de apoio”. É uma chantagem escancarada.

Em 2017, os donos do Pinto cancelaram o desfile justamente por não conseguirem o repasse que exigiam do governo estadual. No ano seguinte, com um novo comando na empresa, os bons tempos voltaram. Na verdade, a “nova” diretoria é formada por filhos dos médicos fundadores. Os garotos decidiram profissionalizar de vez a fonte de renda. Para isso, ampliaram as investidas no lobby.

A maior novidade para 2019 é a chegada da Rede Globo à avenida. Como vocês viram, o evento entrou pela primeira vez na programação da emissora – que vai transmitir ao vivo parte do desfile que ocorre neste sábado 23. Certamente o bloco fechou uma bela parceria com a TV Gazeta, a afiliada global no estado. E é claro que a verba pública continua como grande passista no frevo.

Cada um com suas mágicas para faturar dividendos. E cada um que decida por uma agremiação carnavalesca para dar pinotes no meio da rua. Não tenho nada a ver com as escolhas de ninguém. O problema é transformar uma empreitada particular numa espécie de monumento a ser reverenciado pelo povo. Isso é, por assim dizer, um tipo de fraude intelectual. Alagoas esculhamba até o imaterial.

Governador vai trocar secretários do Paraíso

Leio em nossa imprensa que o governador Renan Filho prepara um troca-troca de colaboradores em sua gestão. Fala-se em até quatro ou cinco novos nomes no secretariado. As mudanças, como sempre, passam longe das demandas por melhores serviços ao distinto público. Os critérios e as motivações para mudar se resumem ao jogo político, aos interesses partidários na paróquia.

Durante o mês de janeiro, o governador mudou titulares das pastas movido pelas mesmas razões. Como se sabe, ao tentar impor seu próprio tio – o deputado Olavo Calheiros – como presidente da Assembleia Legislativa, Renanzinho saiu degolando cabeças para tentar viabilizar seus planos de eleger o parente. Deu tudo errado. Marcelo Victor fechou amplo acordo e venceu a disputa.

Aliás, quando sentiu que a derrota estava sacramentada, Olavo desistiu da candidatura e voltou ao seu mundo particular – distante, indiferente e um tanto sombrio. Foi um processo traumático, que resultou inclusive na demissão de Melina Freitas, até então a intocável secretária de Cultura. Especula-se que, passado aquele terremoto, ela teria tudo pra reassumir o cargo. Não sei.

Uma janela por onde pode entrar um novo secretário é a negociação para que um deputado federal aceite trocar Brasília por Maceió. Assim, o ex-governador Ronaldo Lessa, que ficou como suplente na eleição de 2018, assumiria o mandato. O governador também negocia um posto para o experiente Maurício Quintella, derrotado na disputa para o Senado. Vê-se que são várias as opções.

É claro que não se pode condenar o governante por formar uma equipe com aliados. Com inimigos é que não pode ser. É da política. O drama é quando se constata que esse tipo de arranjo é o único interesse levado em conta para eventual reforma num secretariado. Sendo esse o padrão exclusivo das escolhas, é fácil entender a precariedade no trabalho que deveria ser desenvolvido. Batata!

Tudo isso, na lógica estupidamente óbvia, tem como finalidade pavimentar atalhos a futuras disputas eleitorais. É por aí que se move a caneta do governador. Mais que as metas de realização de projetos necessários à população, os grandes objetivos são as eleições de 2020 e de 2022. Pela cronologia, a preocupação maior agora é a prefeitura de Maceió. O grupo de Rui Palmeira que se cuide.

Enquanto isso, a sede do comando da Polícia Militar está literalmente caindo aos pedaços. Unidades de saúde não têm medicamentos básicos. Crimes de homicídio ficam sem investigação. Servidores de várias categorias reclamam de sucateamento em suas áreas e preparam greves. Vítimas de calote estatal, produtores de leite jogam a produção no lixo. E obras se arrastam indefinidamente.  

Mas o governo vende a imagem de um estado que, na propaganda, rivaliza com o paraíso perfeito. Vivemos numa Alagoas sem problemas. Tem-se a impressão de que os marqueteiros produzem suas peças a partir de alguma distante Ilha da Fantasia. Depois do carnaval, novos secretários darão continuidade ao conjunto da obra de ficção. Em nome do poder, a realidade não pode atrapalhar.

Bolsonaro, o roqueiro Lobão e a direita

1. Mais uma conversa entre o presidente Jair Bolsonaro e um ministro chega ao conhecimento da imprensa, por meio de vazamento, desta vez com uma dose a mais de exotismo: o diálogo teria chegado ao jornal O Globo por um “telefonema acidental” disparado por Onyx Lorenzoni. O conteúdo, de novo, é apenas degradante. A dupla se mostra preocupada com uma possível ação de Gustavo Bebianno para receber honorários por serviços prestados a Bolsonaro como advogado.

Demitido pelo pitbull vira-lata Carlos Bolsonaro, o ex-ministro Bebianno é o defensor do presidente em ações que correm na Justiça. O capitão teme uma eventual cobrança financeira por isso, e solta uma pérola, à altura de um estadista: “Se ele me cobrar individualmente o mínimo, eu tô fodido. Tem que vender uma casa minha no Rio para pagar”. Ouve-se uma gargalhada após a fala.

2. O ex-juizinho Sergio Moro dizia até ontem que caixa dois era um crime terrível, tão grave quanto a corrupção. Agora, entrosado com a filosofia do governo Bolsonaro, o xerife mudou de opinião, afinou o discurso para obedecer às ordens do chefe. Este é o ético ministro da Justiça, o carreirista que espera, mais adiante, ser nomeado para o STF. É o mesmo sujeito que dá à polícia licença pra matar.

3. Bolsonaristas de todos os matizes estão alucinados, na imprensa e principalmente nas redes sociais, na defesa do presidente desqualificado. Para eles, não interessam os fatos, mas a proteção do “mito” diante dos “sabotadores” do governo – na oposição e nas próprias fileiras aliadas. A paranoia tem tudo pra ser uma das marcas dessa gestão baseada na caça a malditos comunistas do século 21.

4. Sobrou para o senador tucano Rodrigo Cunha. Ele está sendo metralhado – por enquanto metaforicamente – por fanáticos seguidores da seita bolsonariana. Tudo porque o parlamentar defendeu o convite para que o ex-ministro Bebianno compareça à Comissão de Transparência e Fiscalização do Senado, para falar do laranjal de candidaturas do PSL. Cunha preside a Comissão.

5. A cada dia a situação do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, piora um pouco mais. Ele também é um campeão no esquema de laranjas na eleição de 2018 em Minas Gerais. Na verdade, é um caso mais grave que o de Bebianno. Até parlamentares governistas no Congresso defendem a demissão do rapaz. Entre uma papagaiada e outra no Twitter, Jair Messias vai segurando o ministro.

6. Bolsonaro não tem uma base aliada no Congresso. Tem um ajuntamento de aventureiros do PSL que beliscaram um mandato na onda medonha que elegeu o presidente. O partido de aluguel é o que há de mais atrasado na política brasileira, travestido de renovação. Não funciona nem como piada. É com esses representantes do “republicanismo” que o governo salvará o Brasil.

7. Decepcionado com as escolhas de Lobão – o outrora respeitável Vida Bandida do rock brasileiro –, meu camarada Coelho me envia um vídeo grotesco do elemento. Lobão também está preocupado com a imagem do capitão presidente. No vídeo, ele dá conselhos bizarros à “nova direita” patriota, como se fosse um graduado guru dos doentinhos antiglobalistas. A guitarra desafinou!

Jornalista da TV Gazeta é alvo de fúria nas redes sociais após fantasia sobre o Pinheiro

Acontece todos os dias. Se você adora postar fotos e mensagens em suas redes sociais, imagino que sabe o risco que isso pode representar. Mesmo que você não faça nada de errado, basta um vacilo, um movimento mal calculado, e o Tribunal da Internet pode condená-lo sumariamente a um linchamento em praça pública. O jornalista Filipe Toledo, chefe de redação e apresentador na TV Gazeta, parece que aprendeu a lição do jeito mais cabuloso. Mais um a passar por um aperreio assim.

Em seu espaço no Instagram, ele resolveu fazer uma espécie de protesto pela situação do Pinheiro, o bairro de Maceió que sofre com afundamento do solo e ameaça de desabamento de imóveis. O problema foi a forma que o jornalista encontrou para espalhar sua indignação. Ele postou uma foto em que aparece com uma fantasia de carnaval, simulando ser um operário de mineração.

Na imagem, Filipe Toledo tinha uma picareta em mãos – e estava sorridente como um alienado folião carnavalesco. Se o motivo era fazer uma crítica ao poder público pelo que ocorre no bairro, convenhamos que a ideia não foi lá algo brilhante. E se os amigos do rapaz entenderam tudo com naturalidade, muita gente – sobretudo no Pinheiro – não viu graça nenhuma. Nem protesto.

Os internautas mais raivosos não perdoaram. Para eles, o drama vivido por milhares de pessoas no bairro ameaçado não combina com fantasias carnavalescas – ou com qualquer outro tipo de gracejo. Mas o jornalista também foi defendido por seguidores, que atestam sua conduta como profissional e gente boa. Não o conheço, mas é evidente que sua intenção não era fazer piada com a calamidade.

Minha hipótese é outra. Filipe Toledo, feito milhões de navegadores viciados em exibir seus dotes e qualidades no mundo virtual, vez por outra talvez perca a noção da realidade. Fica parecendo que vale qualquer vexame para o que chamam por aí de “momento lacração”. A síndrome é mais perigosa na bolhinha mágica da televisão – pior quando se trata de funcionário de afiliadas da TV Globo.

Após a repercussão da disparatada fantasia, Toledo reconheceu a lambança. Apagou a foto no Instagram, diz ter aprendido a lição e deixou mensagem na qual se desculpa. É o que ele escreve no texto que reproduzo abaixo, publicado na mesma rede social em que a confusão explodiu.

Acredito que a fantasia de carnaval é também uma forma de manifesto. Associar a mineração ao bairro Pinheiro foi uma forma de protestar. Não tive intenção de ofender! ABSOLUTAMENTE!!! Passei parte da minha infância no Pinheiro e ainda tenho amigos lá – inclusive na área de risco. Quando somos guiados por um coração sem maldades corremos o risco de ingenuamente não prever algumas consequências. Minhas sinceras desculpas aos moradores do Pinheiro. (Filipe Toledo).

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