Blog do Celio Gomes

Ao negociar o mando de campo, CSA reabre um debate no futebol brasileiro

O presidente do CSA, Rafael Tenório, acusou o golpe. Alvo de pancadaria não apenas pelas redes sociais mas também na imprensa nacional, após vender o mando de campo do jogo com o Flamengo, Tenório se afastou do clube. Segundo ele, deixa a direção do time por 90 dias e não descarta a possibilidade de renunciar de vez ao cargo. Tudo por causa da avalanche de críticas.

Comentei o caso em texto anterior. Nesta quarta-feira, em programas e mesas redondas nos canais de esporte na TV, a decisão do CSA foi duramente atacada praticamente por todos os comentaristas e apresentadores do mundo da bola. Como enfatizei ao tratar do assunto, a jogada de venda de mando acaba por desequilibrar o campeonato. É algo suspeito sob qualquer ângulo por onde se veja.

Embora não seja novidade, a notícia envolvendo o time alagoano e o clube carioca tirou a pauta das gavetas e reinstalou o debate sobre a prática. Pelo que sei, a CBF proíbe a negociação do mando somente a partir da reta final da disputa, lá pelas últimas cinco ou quatro rodadas. É uma brincadeira. São 38 rodadas, o que torna o comércio dos locais de jogo um meio potencialmente fatal ao título.

O episódio tirou Rafael Tenório da aprazível “zona de conforto” na relação com a torcida do CSA. Até agora, o homem era visto como um verdadeiro Deus, o cara que levou o time a uma trajetória fulminante nos últimos anos, sendo o acesso à primeira divisão o momento da consagração. Bastou uma escolha vista como equivocada, para que tudo mudasse. O humor da massa é bipolar.

O que mais pega na encrenca é que isso mexe com noções de respeito, ética, jogo limpo, valores acima do dinheiro... Os torcedores se sentem insultados com a decisão do clube. Muita gente também considera ser um gesto na contramão da promoção do esporte em Alagoas – ou seja, é depreciativo também para o estado. Veja quanta coisa! A cartolagem subestimou as consequências.

Ainda que existam manifestações de apoio ao cartola azulino, é algo longe de se contrapor à artilharia sobre o mandachuva e seus auxiliares no Mutange. Além disso, me parece que o gesto repentino do presidente precisa ser melhor compreendido – talvez com mais informações do próprio dirigente, entre outras coisas. Por que não enfrentar o episódio? Sair correndo é esquisito. 

A repercussão do arranjo financeiro com a partida entre CSA e Flamengo pode provocar intervenção direta da CBF nas regras para a competição em 2020. A venda do mando, defendem profissionais do futebol, deve ser proibida em definitivo. É o que a Confederação pode decidir depois do barulho atual que surgiu em Alagoas. Nada muda por agora, e para o CSA (e Tenório) o estrago está feito.

O povo nas ruas! Ou seriam “idiotas”?

A quarta-feira, 15 de maio de 2019, fica registrada como a data da primeira grande manifestação popular contra o governo de Jair Bolsonaro. Milhares de pessoas foram às ruas, por todo o país, no Dia Nacional em Defesa da Educação. O protesto repudia o anunciado corte de 30% nos recursos destinados às universidades e institutos federais. É o grande plano do Jair para um setor estratégico.

A investida de Bolsonaro sobre as universidades é consequência do ressentimento e do ódio. A turma dos adoradores de torturador cultiva um ridículo desprezo ao mundo intelectual, ao campo do conhecimento, a tudo o que lembre arte e cultura. Não por acaso o ministro da Educação, Abraham Weintraub, é só um pilantra analfabeto, desses que fingem erudição para plateias amestradas.

O ministro já deu várias provas de sua formação altamente refinada. Mas a citação de “Kafta” é acachapante, insuperável enquanto atestado de qualificação. Esse é o nível dos olavetes – os caras que nunca leram nada na vida e hoje se apresentam como “pensadores”. No meio da esculhambação e da politicagem, a gestão do MEC revela que o caminho escolhido é o do desmonte no setor.

Mas tudo isso é pra falar das manifestações de hoje. O presidente Bolsonaro viaja pelos Estados Unidos. Lá, falou com a imprensa sobre os protestos. Naquele jeitão rasteiro, mentiu como sempre e ofendeu os brasileiros que discordam de suas medidas tresloucadas. Para o capitão, os que saíram em passeatas não passam de “idiotas úteis”, são usados como “massa de manobra”, são “imbecis”.

O presidente que representa a “nova direita” no Brasil também justificou os baixos índices da educação dizendo que a culpa é do PT e dos comunistas. Como explicar as multidões nas ruas e praças contra o governo? Ele mostra convicção quanto ao tipo de gente nos protestos: “Não têm nada na cabeça”, decretou o pai do Carluxo. A tentativa é de minimizar o tamanho dos atos.

A raiva de Bolsonaro e bolsonaristas com o povo nas ruas é previsível e sintomática. A história recente do país não deixa dúvida sobre a força dessa variável no jogo político. Aliás, a turma do presidente se valeu de mobilização de tal natureza para o triunfo de suas ideias. Chegaram ao poder recorrendo àquela militância que precisava dos movimentos pelas cidades. Agora isso não serve.

Como presidente, Bolsonaro repete a mais tacanha postura diante de protestos populares e legítimos. Sem ter o que responder frente às evidências de bagunça e de critérios ideológicos no MEC em particular e no governo em geral, apela ao de sempre – rebaixa o debate ao subsolo. Bolsonaro sabe que não pode brincar com certas coisas. Por isso, agora, esbraveja contra a voz rouca.

Venda do mando de campo irrita as torcidas e desequilibra o Brasileirão

Foto: Leonardo Cedrim Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true CSA

A torcida do CSA foi barrada para o jogo de seu time contra o Flamengo pelo Brasileiro da Série A. Por tudo o que sabemos sobre futebol, o confronto com o time carioca era o mais aguardado pela galera que torce pelo Azulão. O clube alagoano vendeu o mando de campo e levará a partida para o estádio Mané Garrincha, em Brasília. O duelo ocorre em 12 de junho, bem longe do Trapichão.

Para explicar a decisão, a diretoria do CSA falou o óbvio. Os cartolas azulinos fizeram o que todos os cartolas, de todas as cores no país, fazem. Tudo dentro das regras, de acordo com o que prevê o regulamento da competição. Reforçar o caixa com cifras extraordinárias, com uma simples troca do local do jogo, é uma oportunidade imperdível. A grana preta compensa o desgaste com a massa.

Nas redes sociais, como não poderia deixar de ser, há gente esbravejando contra a presidência do time. Isso é uma tremenda novidade. Rafael Tenório vive uma lua de mel com os torcedores, salvo engano, desde que virou presidente. Ele disse que haverá solução para os casos de sócios que teriam direito ao ingresso da partida, até então prevista para ocorrer em Maceió. É pra conferir.

A venda do mando de campo não é exclusividade dos times menos badalados, distantes da elite financeira. É uma prática generalizada. Um dia desses, pela Copa do Brasil, Vasco e Corinthians voaram até Manaus para um duelo na arena construída para a Copa do Mundo de 2014.

Em anos anteriores, treinadores como Cuca, Mano Menezes e Luxemburgo estiveram no centro desse debate. Afinal, é razoável, em troca de dinheiro, deixar sua própria torcida na mão? Há quem veja na iniciativa boa dose de desrespeito. E como fica o princípio da isonomia na disputa pelo título?

Por essa linha, o fator dinheiro interfere – nesses casos de maneira insofismável – decisivamente nos rumos da tabela de classificação. No exemplo concreto, em Brasília o “mando” será do Flamengo – afinal o estádio ficará entupido de flamenguistas. O mercantilismo de ocasião desequilibra as forças.  

Rafael Tenório – que já se aborreceu ao ser chamado de “político” por um blogueiro – não apresentou números, não detalhou as formas de pagamento, não disse afinal quanto entrará nos cofres da agremiação. Mas, num jeito enviesado, deu pistas sólidas que autorizam especulações.

Não vou repetir aqui o palavrório do presidente, que vi na TV, na noite desta terça-feira. Resumindo, baseado na comparação que ele fez com os jogos anteriores em casa (contra Palmeiras e Santos), podemos chutar o seguinte: o CSA está levando cerca de 2 milhões de reais. E bola pro mato.

Acordos do tempo da velha política

Jair Bolsonaro e Sergio Moro fecharam um “compromisso” segundo o qual o ex-juiz da Lava Jato será nomeado para o STF pelo presidente da República. O ministro da Justiça parece não ter gostado muito dessa informação. Em palestra nesta segunda-feira, o chefiado desmentiu o chefe. Moro garante que não impôs condições, muito menos uma eventual nomeação ao Supremo, ao aceitar o convite para integrar o governo. Dizem não haver hoje muita sintonia entre o capitão e o xerife.

Ao que parece, Moro viu a declaração intempestiva de Bolsonaro como fator de complicação para seus planos. Os projetos do cabo eleitoral que usou a toga para interferir na disputa em 2018 são dois. O mais modesto é mesmo a tal cadeira entre os 11 da nossa corte máxima da Justiça. Mas o grande sonho do homem é a cadeira do próprio Bolsonaro. Depois de tudo o que ocorreu (ou deixou de ocorrer) em sua superestimada gestão, Moro teme pelo fracasso ainda tão cedo. Está tudo em casa.

A política é assim. Os magistrados, as lideranças nacionais, o grande empresariado, os mais diversos setores e corporações, todos travam negociações permanentes. A base da coisa balança às vezes para um lado, depois para outro, mas a essência não muda nunca. Existe, claro, a influência natural das circunstâncias. Novidades, algumas pra valer, outras meramente cosméticas, interferem nos acordos e decisões. Mas o acordado e o decidido nunca desmentem o DNA desse mundo.

O senador Flávio Bolsonaro, o filhote do presidente flagrado naquelas operações criminosas com o emblemático Queiroz, “denuncia” ser alvo de perseguição política por parte do Ministério Público. Vejam que esse tipo de defesa é o mesmo sacado por petistas nos casos da Lava Jato. E é o mesmo comportamento que bolsonaristas sempre apontaram como típico de corruptos que não têm como se defender.  Flávio não quer esclarecer nada – ele quer arquivar as investigações. Nova política.

Muita zoada em quatro meses de governo dos cidadãos de bem. Entre outras coisas, o presidente declarou guerra aos radares em rodovias e aos fiscais do Ibama. Ele também decidiu explodir as universidades públicas, cheias de orgia e balbúrdia de maconheiros. O Ministério do Meio Ambiente quer devastar florestas para destravar o nosso desenvolvimento. Escola boa é escola sem partido e com polícia no pescoço de professores e estudantes – tudo para evitar a proliferação do comunismo.

Tem ainda a paixonite por uma pistola no Brasil das milícias. Misturo os dados, os ambientes e os atores do grande circo nada místico da política. É só um recorte. A sensação quanto ao imediatismo brasileiro é de um cenário um tanto tedioso, apesar daquela zoada. Um dos fatores que explicam essa (in)disposição, como franco atirador, é o nível dos caciques e pajés nas tabas. Entre os mais toscos estão os de elevados cargos, no topo decisório. “Bando de maluco” é elogio pra tudo isso daí.

Jornalistas – perigosos e, agora, armados

O presidente Jair Bolsonaro deu uma de João sem braço. Como se estivesse fazendo a coisa mais simplória do mundo, assinou um decreto que, na prática, avacalha as regras e os critérios para a concessão do porte de arma. Pela decisão, os requisitos pra demonstrar real necessidade de portar um revólver, por exemplo, agora são todos subjetivos. Mais uma confusão no meio da crise.

Sabemos que este será mais um tema a ser judicializado. O Supremo Tribunal Federal já analisa uma ação que tenta anular o decreto de Bolsonaro. A ministra Rosa Weber deu prazo de cinco dias para que o presidente preste informações. Mas o que eu quero falar mesmo é das categorias profissionais que, se ficarem valendo as novidades, passam a ter direito ao porte. Jornalistas foram contemplados.

Sim, eu mesmo posso alegar necessidade de uma pistola, para me defender de eventuais balas perdidas. O decreto de Bolsonaro diz que o jornalista que atua com o noticiário do mundo policial tem direito automático a andar armado. Eu desconfio que nossos âncoras consagrados nesse segmento não esperaram por autorização legal. Podem regularizar a situação nos próximos dias.

Fato é que o presidente decidiu dar uma força à turma da imprensa que ele mais admira – de Datena a Ratinho. Por uma dessas coincidências da vida, esse perfil de jornalista reza nos mesmos valores da bíblia bolsonariana. São os mesmos que fizeram campanha para o capitão da tortura e hoje, com adesão rasteira, bajulam o eleito em tudo. É o jornalismo chapa-branca e sócio do governismo.

Como basta o sujeito declarar que exerce a atividade “perigosa”, qualquer profissional da imprensa pode se apresentar como parte do “jornalismo policial”. Com essa facilidade, será que teremos, num futuro próximo, a rotina de ver repórteres flanando pela cidade, entre uma pauta e outra, com uma arma na cintura? Só o fato de haver tal possibilidade diz muito sobre como afundamos.

Além da esfera judicial, o decreto do faroeste será alvo da Câmara e do Senado. Os termos do que foi publicado são escandalosamente exclusivos do parlamento. Bolsonaro invade e atropela as prerrogativas do Congresso. É de se esperar, inclusive pelas reações imediatas, que o decreto seja derrubado. A coisa é tão especialmente abusiva que nem dentro do governo existe consenso.

Seja como for, é mais uma medida sob encomenda pra alimentar os fanáticos das ideias defendidas pelo presidente. É uma “bandeira” dos cristãos conservadores o sagrado direito de mandar bala em vagabundos. Por isso muitos já fazem as economias para adquirir sua potente arma de fogo. Como o povão não tem nem pra comer, pode pintar a “Bolsa Pistola”, na ironia do jornalista Voney Malta.

Se jornalista já não tem lá boa fama, imagine a partir de agora, com a virtual autorização para portar um revólver 38 ou coisa de maior calibre. Somos vistos como arrogantes, donos da verdade, geralmente longe de se importar de fato com as pessoas. Pensando em alguém desse modelito, não parece adequado autorizar que saia às ruas com uma pistola sempre que assim desejar. Não dá.

E os militantes que ameaçam e matam todo e qualquer desafeto pelas redes sociais?! Muitos desses milicianos virtuais, ressalto, são jornalistas. Devidamente armados, como esses valentões agiriam no meio de um “debate” real, cara a cara, com adversários ideológicos? Na primeira treta, aposto que sacariam o revólver. Já imagino colegas de profissão marcando duelos ao cair do sol.

De Salgema a Braskem, história da empresa em Alagoas é controversa desde a origem

Nos anos 70 do século passado, quando aquela indústria se instalou à beira-mar de Maceió, a Braskem de hoje se chamava Salgema. Chegou por aqui ainda nos tempos do “milagre econômico”, termo usado pela ditadura para exaltar os feitos do regime. Desde a inauguração, uma controvérsia colou para sempre na história da empresa: a localização foi um erro inaceitável, verdadeiro gesto de sabotagem contra a cidade. Toda uma região foi como que marginalizada pelo vizinho sujeira.

Ao longo de quatro décadas, sem exagero, ouvimos uma narrativa consagrada em Maceió: a instalação da Salgema matou o litoral sul da capital. Afugentou todo o tipo de investimento a partir da praia da Avenida até o Pontal. Para usar um termo hoje na moda, no meio do paraíso o monstrengo sempre foi uma presença “tóxica”. Essa imagem persegue a empresa desde os primórdios.

Pelo fim dos anos 80 e começo da década de 1990, o marketing da Salgema aposta no “cinturão verde”, um negócio que até hoje está por lá. Seria uma espécie de proteção à natureza, potencialmente devastada pela intervenção no Pontal da Barra. A cada temporada, o departamento comercial e a assessoria de imprensa se acertam na divulgação das ações “preventivas”.

Uma dessas ações é a simulação de uma grande explosão nas instalações da Braskem, com feridos tanto dentro da empresa quanto entre os moradores dos arredores. Até onde sei, esse evento ocorre anualmente e mobiliza dezenas de pessoas que atuam como se fossem atores. A atividade é uma mão na roda para o jornalismo de TV, sempre desesperado por agito, correria e... simulação.

Nesses mais de 40 anos de exploração do solo alagoano pela Braskem, nunca houve um acidente nas proporções em que o treinamento simula. Mas também é verdade que houve, ao longo das décadas, casos de explosões em maquinário, turbinas e tanques, que resultaram em mortes. Nessas ocasiões, aliás, a empresa nunca ajudava muito em termos de transparência com os fatos.

Voltando ao impacto que a Salgema provocou naquela parte de Maceió, a praia da Avenida, a mais bonita e badalada da capital até meados dos 70, perdeu essa primazia e foi praticamente esquecida. O aparato oficial nem considera aquele trecho do litoral digno de uma rápida visita de turistas. Hotéis e pousadas correram do pedaço e se instalaram no circuito Pajuçara/Ponta Verde/Jatiúca.   

Ainda sobre acidentes, reais e imaginários: a ironia é que, enquanto a Braskem fazia propaganda de sua política de prevenção a tragédias – com “espetáculos midiáticos” no entorno da empresa –, a verdadeira tragédia corroía o futuro de milhares de moradores do outro lado de Maceió. Sem alarde nem fumaça, as escavações minaram a estrutura de prédios e casas e levaram vidas ao abismo.

No meio do barulhento caso de agora, com repercussão fortemente negativa para e empresa – como nunca houve –, volta-se a falar no fechamento da Braskem em Alagoas. Definitivamente, não é o que está em pauta; não porque se deva defender a indústria, mas porque em nada ajuda no principal: uma solução para os moradores. Sem perda de tempo, é aí que devemos todos nos concentrar.

Recorrer ao clichê pra classificar de “amor e ódio” o tipo de relação dos alagoanos com a Braskem é um exagero – por causa do “amor”. Alguns defendem que se trata de uma potência da economia, essencial ao estado. Tenho dúvidas, mas, reitero, não estamos num debate sobre macroeconomia brasileira. O ponto a ser atacado em relação ao Pinheiro é viabilizar o recomeço pra seus habitantes.

Prêmio Braskem de Jornalismo é afronta às famílias do Pinheiro. Tem de acabar

A imprensa alagoana tem uma ligação histórica com a Braskem. Talvez o mais preciso fosse dizer que essa relação é forte mesmo entre a empresa e o Sindicato dos Jornalistas. O Prêmio Braskem de Jornalismo é o fruto mais eloquente da parceria. A escolha dos melhores trabalhos publicados durante o ano pelos veículos de comunicação virou uma tradição. Isso tem mais de duas décadas.

Agora a Braskem está no centro de uma tragédia que afeta diretamente milhares de pessoas. Segundo o laudo oficial divulgado esta semana, as atividades da indústria foram determinantes para o que ocorre nas ruas e nos prédios que racham no Pinheiro. E o jornalismo com isso? A ligação entre uma coisa e outra pode soar inusitada, mas não me parece que deva ser subestimada. Tá certo isso?

Com inscrições a partir do mês de setembro, a premiação costuma ocorrer em novembro. Pelo regulamento são entregues troféus a dezenas de contemplados. Os três primeiros em cada editoria ou área de cobertura recebem também um valor em dinheiro. O prêmio – que durante alguns anos foi promovido pelo Banco do Brasil – é o maior evento ligado aos profissionais dessa área.

Se não estiver enganado, a maioria das festas de entrega do prêmio em anos anteriores ocorreu em algum endereço de Jaraguá – naqueles galpões que abrigam casas de show. Haverá clima este ano para tal confraternização entre jornalistas e a cúpula da Braskem? Além disso, e bem mais relevante, é o aspecto ético. O mais sensato é a categoria não reeditar o evento festivo. Soa até como afronta.

Aliás, para as famílias que encaram a dramática realidade será mesmo uma agressão. Afinal de contas, como um jornalista pode justificar a essas vítimas um oba-oba, com premiação e tudo, numa farra financiada pelo dinheiro da Braskem? Fica legal um enredo como esse? Não vejo razão para que tudo fique do jeito que está. Suponho que o mal-estar esteja produzindo alguma reflexão.

Também não podemos esquecer que estamos diante de um grande anunciante. No meio da crise que precisa encarar, esse anunciante tem interesse estratégico no uso de informações. Se a nova circunstância afeta o nível de contato no campo comercial, para as redações o mais saudável é sempre manter distância. É mais um fator que torna o prêmio um despropósito a partir de agora.

Dei uma olhada no site do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas. Por ironia, assim que você acessa a página, dá de cara com uma vistosa propaganda do Prêmio Braskem de Jornalismo 2018! O evento é tratado como prioridade absoluta pela entidade. Ouvi uns dois jornalistas que me disseram que sindicato e empresa devem manter o prêmio. É loucura. Tem de ser cancelado, é claro.

“Fora Braskem! Fora Braskem! Fora Braskem!”

Finalmente saiu o tão esperado laudo sobre o bairro do Pinheiro. E, como parecia claríssimo para noventa e nove por cento dos habitantes de Maceió e de Alagoas inteira, o grande vilão é mesmo a Braskem. Falando claro – mas baseado no que ouvimos dos técnicos na audiência pública desta quarta-feira –, a exploração do solo durante décadas foi determinante para essa tragédia.

A palavra de ordem que está no título do texto foi gritada no auditório onde o laudo foi apresentado, na sede da Justiça Federal, no bairro da Serraria. Quando uma das autoridades em Geologia confirmou a principal causa do afundamento do Pinheiro, dezenas de moradores que acompanhavam o anúncio soltaram a voz: “Fora Braskem! Fora Braskem! Fora Braskem”!

A reação das famílias que agora vivem uma situação dramática traduz da melhor maneira o tamanho do problema. Os gritos contra a empresa na verdade são uma vigorosa cobrança por uma solução pra valer – séria, adequada e o mais rápido possível. Nesse sentido, o papel do Ministério Público e da Defensoria Pública é crucial. Até agora, me parece, as instituições agem da maneira que deve ser.

Se a coisa for bater no Judiciário – o que é quase uma certeza absoluta –, que o andamento de eventual ação se dê segundo os interesses da população. Mas, antes disso, a prefeitura e o governo estadual precisam fazer muito mais do que fizeram até hoje. Ao longo dos últimos dozes meses, a troca de farpas entre secretários dos dois lados foi uma estupidez recorrente. É muita falta de noção.

O governador Renan Filho e o prefeito Rui Palmeira devem zelar para que a trivial patifaria da miudeza política não envenene o trabalho a ser feito. Para isso, entre outras coisas, devem conter os impulsos de seus entornos, sempre contaminados por um ou outro mais depravado no drible a parâmetros éticos. Os senhores serão cobrados pelo modo como agirem. Prova de fogo é isso aí.

Antes mesmo da divulgação do laudo visto como conclusivo e, tudo indica, definitivo, Defensoria e MPE já haviam recorrido à Justiça para bloquear 6,7 bilhões de reais da empresa. Se não me engano, até agora isso não se consolidou. É apenas uma primeira etapa em termos de decisões judiciais envolvendo valores para indenização. A multinacional não quer nem ouvir falar nisso.

A direção da Braskem se manifestou, a meu ver, de modo enviesado. Foi pouco transparente e deixou uma mensagem bastante discutível em palavras cheias de ambuiguidade. Pela voz do vice-presidente Marcelo Cerqueira, pode-se deduzir que a indústria vai contestar formalmente o laudo que a condena. Ainda que seja uma postura previsível, não deixa de causar alguma perplexidade.

Digo isso porque, ainda que seja falante, o vice da Braskem reitera uma única ideia, central e definitiva para os interesses da empresa: estamos à disposição... Mas esse laudo aí não é bem assim. O homem fala em retorno dos moradores aos imóveis com uma singeleza que não combina com a realidade objetiva. Como voltar para ruas abertas ao meio e prédios sob ameaça de desabamento?  

Ressalto também os vários depoimentos de moradores que vi pela TV. Estavam usando camisa preta com palavras de incentivo à mobilização e com cobrança de solução do problema. Declarações que saem do trololó oportunista ou cheio de platitudes de um bocado de gente por aí. São vozes que precisam ser mais ouvidas, sobretudo pelas instituições que trabalham com poder de fogo.

Ter de abandonar a casa – assim como ocorre com essas pessoas – marca a sua alma, disse uma moradora do Pinheiro numa entrevista à TV Gazeta. Não é carnaval pra cima da Braskem, não é pressão indevida. O fato é que temos um laudo científico cuja conclusão é cristalina, com dados elucidativos. E temos, na contramão, uma gigante transnacional no ensaio de uma farsa. Olho neles!

Pela cidade, descaso, política e rebelião

1. Uma cidade entregue praticamente à bagaceira. Entre promessas, desculpas e ações de meia-sola, boa parte de Maceió sofre com uma prefeitura que anda meio perdida. Toda a orla lagunar da capital, ali na região entre os bairros da Cambona e do Trapiche, continua tomada por um verdadeiro lixão. Como se sabe, existe um megaprojeto de revitalização da área, mas isso ainda está mais para uma miragem do que para algo concreto. Após interdição de uma das vias, a realidade ficou pior.

2. Em entrevista ao grande Lula Vilar, meu colega de blog aqui do lado, o vice-prefeito de Maceió, Marcelo Palmeira, bateu no governo do Estado por, segundo ele, não ter “ação efetiva” no bairro do Pinheiro. Achei estranho. Aquela parte da capital vive um drama sem precedentes na história da cidade. Vidas inteiras estão sendo duramente afetadas pelo afundamento do solo – o que forçou a expulsão das famílias. Tudo o que não precisamos nesse caso é de proselitismo e jogada eleitoreira.

3. A sede do Comando Geral da Polícia Militar de Alagoas cai aos pedaços, literalmente. Com medo de uma tragédia, o governo estadual acaba de interditar uma rua lateral ao prédio. Na verdade, a PM precisa mudar logo de endereço, antes que seja tarde demais. Pelas informações de um laudo oficial – revelado pela TV Gazeta –, a velha construção está condenada. Um antigo motel foi alugado, o aluguel está sendo pago há vários meses – e nem sinal da transferência. Brincam com o perigo.

4. Reportagem no CADAMINUTO informa que o procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, move ação para anular uma lei de São José da Tapera que garante pensão a viúvas de ex-prefeitos. Certíssimo! Algo assim é uma afronta à população alagoana. Preocupado com princípios republicanos, o Ministério Público Estadual bem que poderia atacar os casos de nepotismo cruzado. A proliferação dessa anomalia por aqui rendeu até ampla reportagem na Folha de S. Paulo. A ver.

5. Para acertar algumas contas, como água, luz e telefone, acabo visitando casas lotéricas no centro de Maceió. É sempre uma experiência inusitada: existem seis ou sete caixas, mas nunca, nunca mesmo, estão todos abertos ao público. No máximo você encontra funcionários em três daquelas cabines, e olhe lá. E os caras ainda expõem o número do Procon, para o caso de reclamação dos clientes... Fico pensando se o órgão de defesa do consumidor já viu tal situação. A vida é uma piada.

6. Uma noite dessas, por iniciativa do camarada Coelho, corremos ruas e pontes pra visitar o velho roqueiro Miro, amigo nosso que mora no bucólico Riacho Doce. Naquele recanto, que já apareceu na dramaturgia da Globo, vejo que as muitas vias que margeiam a avenida (algumas ladeiras) estão abandonadas pelo poder público. Soube que a maioria consta na prefeitura como asfaltada, mas o que se vê é pau, é pedra, é buraco e é lama. Moradores esperam por serviços há décadas.

7. Por falar no litoral norte de Maceió, aquela região é alvo da mais violenta especulação imobiliária de Alagoas. As construções de prédios residenciais avançam pela areia das praias, o que deixa em pânico os mais antigos habitantes. Além desses, tribos poeticamente antenadas, por assim dizer, estão mobilizadas para barrar o negócio do cimento e do concreto. A galera mais aguerrida parece estar na mitológica Garça Torta. A meta é tornar o bairro patrimônio histórico. Na paz, é guerra!

8. Perambulando aqui pelo bairro, à procura de um lugar para comprar algum elixir psicodélico, paro numa pequena mercearia, devidamente protegida por grades. Enquanto espero minha vez para ser atendido, vejo o rapaz vender duas carteiras de cigarro de marcas que até então não conhecia. Descubro rapidamente que são os famosos “importados do Paraguai” – um tipo de comércio que autoridades deliram que podem combater. A vida real, nas quebradas, é mosaico de rebeliões.

Tiro no meio da testa! O Brasil “avança”

Mais uma importante iniciativa do presidente Bolsonaro prova que o governo brasileiro tem mesmo grandes projetos para o desenvolvimento do país. Se você ainda tem dúvida sobre isso, fique sabendo que nesta terça-feira o homem assinou um decreto que facilita a vida dos fanáticos por dar tiros a esmo – de preferência na cabeça de marginais que infelicitam os “cidadãos de bem”. Aqui em Alagoas tem um batalhão de gente dando pulinhos de alegria pela novidade. E é só o começo.

Pelo que entendi do que foi noticiado, os marmanjos tarados por uma pistola agora podem andar pra cima e pra baixo carregando suas armas e munição até estandes e clubes de tiro. O decreto também aumentou “o limite da quantidade de cartuchos de calibres restritos para atirador, caçador e colecionador” – como informa o site de Veja. Ninguém tinha pensando nisso até hoje?

Como o Brasil tem um índice de violência quase zero, coisa de dar inveja aos países mais avançados do planeta, nada mais natural que incentivar o tiroteio recreativo para os cristãos. Emprego pra milhões de desalentados? Educação como fator de desenvolvimento? Saúde pra quem não recebe nem xarope no posto? Calma! Primeiro, o que é prioridade. Depois, a gente vê o resto.

A retórica armamentista é uma das fixações na erudita direita brazuca. Que nível! Basta ver o que dizem e fazem dois pilantras que viraram governadores nas eleições do ano passado. No Rio de Janeiro, Wilson Witzel voa de helicóptero para “ver de perto” a ação de seus snipers sobre as periferias cariocas. Em São Paulo, João Dória prega a matança geral como estratégia de segurança.

Mas eu disse que o decreto de agora é só o começo. Sim, porque se depender do presidente e seus filhotes trombadinhas, vamos chegar rapidamente ao estágio de faroeste. Na semana que passou, Bolsonaro afirmou que sua meta é liberar a execução sumária no campo brasileiro, como proteção aos produtores do agronegócio. O fazendeiro pode matar quando quiser, sem medo da lei.

De tão estúpida, a ideia do capitão da tortura assustou até a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Ela se apressou em dizer que a licença para matar não está entre as medidas que considera necessárias para esse segmento da economia. Se a ministra for um pouquinho mais enfática na opinião, a seita dos garotões da direita vai exigir seu pescoço. A histeria é uma marca dessa turma.

O próximo passo do governo é liberar geral o porte de armas. Pense nos efeitos de algo assim nas cidades brasileiras. E não podemos esquecer o ministro da Justiça, Sergio Moro. No projeto enviado ao Congresso, ele também incentiva, e como, a matança de inocentes. Policial pode detonar à vontade e não responderá por nada. É só dizer que agiu por “medo” e sob “forte emoção”.

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