Blog do Celio Gomes

A tragédia da pandemia em nossas vidas

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Foi a pandemia do novo coronavírus que me fez deixar o blog com atualização irregular nas últimas semanas. De forma bastante aguda, digamos assim, a Covid-19, a doença que mata milhares de pessoas no Brasil, fez um estrago infernal em minha casa. E ainda vi pessoas conhecidas, algumas muito próximas, enfrentarem o mesmo drama. Quando isso tudo começou parecia que, em Alagoas, a coisa não seria tão grave. Mas, como de resto no país inteiro, a crise se espalhou no vento – e deixa o sistema de saúde à beira do colapso.

Mas a vida segue. No meio da volta à rotina possível, as pequenas obrigações do dia a dia e as demandas do imprevisível se misturam a memórias recorrentes. Um dado marcante para as famílias que perderam parentes é a convivência – inescapável – com as circunstâncias da perda. Porque afinal o noticiário está aí para ninguém esquecer o que aconteceu. Só se fala em pandemia.

Ou quase. Como jornalista que pretensiosamente escreve sobre tudo, incluindo a política, neste espaço tenho de me ocupar, por exemplo, de Bolsonaro e sua reunião ministerial que mais parecia um seminário de milicianos. (Essas coisas fazem o Brasil de hoje virar piada mundial). De todo modo, portanto, tenho que dar atenção, talvez com prioridade, ao que chamamos de realidade factual.

Suponho não configurar exagero alardear que a pauta factual do agora está dividida em dois grandes grupos. 1) O pacote de notícias sobre a tragédia na saúde. 2) O pacote de notícias sobre a tragédia na política. A primeira tragédia se mistura à segunda como raras vezes terá ocorrido na história do país. Uma e outra, inapelavelmente, repartem os venenos prescritos para uma imensa destruição.

Vidas destruídas. Enquanto escrevo, são mais de 28 mil os mortos pela Covid-19 no país. E enquanto você lê este texto, a democracia no Brasil enfrenta, sim, ameaças destrutivas. Os últimos lances do embate entre os poderes Executivo e Judiciário atestam o perigo instalado no Palácio do Planalto. A gang chefiada pelo presidente arreganha os dentes e cospe fogo. A escumalha se assanha.

Desde a redemocratização, há mais de trinta anos, jamais houve algo parecido com o atual panorama. De Collor a Temer, a sombra de ruptura institucional simplesmente nunca existiu. Crises foram muitas, e graves, é claro, mas sempre com o percurso e o desfecho pelos caminhos do Estado de Direito. Hoje não. É de estarrecer o retrocesso a sujar tudo – da enseada ao horizonte.

A sujeira está naquilo que brincalhões chamaram um dia de nova política. A “renovação” nos deu Bolsonaro, Weintraub, Ricardo Salles, Zambelli e outros insetos do mesmo esgoto. Chamar essa corja de extrema-direita é elogio. No topo do poder estão reacionários de causar repulsa – além dos citados, veja-se o chefe da diplomacia, o bisonho Ernesto Araújo. O país não aguenta isso.

Em todas as esferas da vida brasileira o clima é de perplexidade e apreensão. Parece que a qualquer momento outra bomba vai estourar, e o terremoto de amanhã é tão certo quanto o de hoje – com estragos ainda mais devastadores. Quando e como as crises vão passar é mais que uma dúvida em projeções. Com atos e discursos delinquentes, Bolsonaro e quadrilha apostam no impasse.

Neste domingo, manifestações pelo Brasil acabaram em confusão e conflitos com a polícia, sobretudo em São Paulo. O marginal que ocupa a Presidência da República voltou às ruas, agora em cima de um cavalo – caso raro de um quadrúpede galopando sobre outro. É mais um dia a nos avisar que o acirramento da crise generalizada se torna cada vez mais perigoso. A barbárie parece iminente.

Por aqui, o governo estadual acaba de prorrogar o decreto que impõe o isolamento social e outras medidas em decorrência da pandemia. Ainda não foi desta vez que o governador Renan Filho decidiu por alguma flexibilização que permitisse a reabertura de setores da economia. É mais ou menos o que ocorre nos demais estados do país. O fim do isolamento é visto como muito arriscado.

Volto ao relato particular – espero que sem exageros. Enquanto cuidava de questões como atestado de óbito em cartório, documentação pra liberar o corpo no hospital, telefonemas do plano funeral, pagamento de taxa para o sepultamento – enquanto fazia o que tinha de fazer, repito, os sinais da pandemia continuavam a interferir em tudo. Toda ação obedece a restrições decorrentes da doença.

Da unidade hospitalar ao cemitério, a nova paisagem imposta pela pandemia é mais evidente – e parece nos alertar que enfrentamos um inimigo cruel, implacável. As luvas, as máscaras, as roupas especiais para quem está na chamada linha de frente – do médico ao coveiro –, tudo forma um cenário que jamais imaginamos. Poderia ser um filme. Mas está aí, num realismo bruto, sem filtro.

Estive em central de triagem para teste da Covid-19; acompanhei uma paciente em ambientes hospitalares e procurei uma UPA na madrugada; falei com médicos e enfermeiros; fui informado que não poderia acompanhar a pessoa internada devido ao perigo de contágio. Falei com a paciente pela última vez por telefone. Depois vieram a UTI e os boletins preocupantes... E depois o fim.

Para reconhecer o corpo, quem perde um parente para a Covid-19 precisa tomar cuidados essenciais. O pessoal do hospital e da funerária trata de garantir a segurança nessa hora inexplicável. No sepultamento, uma fila de carros funerários e caixões. Sem aglomeração. Cada enterro tem apenas poucas pessoas ali naquele ritual. Em alguns casos, duas ou três testemunhas na última despedida.

Para as famílias atingidas diretamente pela pandemia, a perda se dá no âmbito mais íntimo e pessoal – em outras palavras, como se diz, é a tragédia na própria pele. Mas, além disso, cada um dos milhares de nós tem de encarar a dor num contexto de convulsão nacional, de sinais de loucura pra todo lado. A pandemia combina com o Brasil de Bolsonaro. Duas maldições em nossas vidas.

Fechando. Escrever sobre experiência pessoal não é das melhores coisas para um jornalista e para o jornalismo. Os riscos são variados e estão em cada esquina do pensamento e das palavras. O mais grave, deplorável mesmo, é o sentimentalismo. Sendo algo no campo do drama, então, expressões e frases apelativas querem invadir a tela a cada batucada no teclado. Tentei escapar dessa armadilha.

Bom dia!

Carlos Mendonça – um brasileiro honrado – influenciou a política e a imprensa em Alagoas

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Na Organização Arnon de Mello, durante as últimas cinco décadas, Carlos Mendonça (foto) teve mais poder do que incontáveis diretores que ele viu passar pelas empresas da família do senador Fernando Collor. Doutor Carlos, como era chamado nos corredores da TV, da rádio e da Gazeta de Alagoas, foi o mais importante conselheiro de Arnon de Mello – e acabou exercendo o mesmo papel junto a Fernando Collor, filho do fundador da OAM. Ele morreu na quarta-feira 13, aos 82 anos de idade, vítima da pandemia de Covid-19.

Conheci Carlos Mendonça em algum dia de 1991, nos meus primeiros tempos de editor na TV Gazeta. Ele aparecia com alguma frequência naquele ambiente de temperatura gelada que são as ilhas de edição. Nunca estava mal-humorado e cultivava uma gentileza que era, arrisco dizer, marca peculiar em sua personalidade. Gostava de piada e, não poucas vezes, mandava muito bem na ironia.

Mudei de função ao longo dos anos na TV Gazeta. Vi a queda de diretores e a chegada de novos nomes para comandar as empresas. Não importava o panorama – fosse de calmaria ou de crise –, Mendonça estava lá, com a mesma postura, intocável por aclamação, digamos assim. Executivos iam e vinham, arrastados pelas circunstâncias. Ele, ao contrário, era imune a solavancos de ocasião.

Eu disse que ele tinha poder. Isso não é muito fácil de explicar. Não se tratava de alguém que dava ordens no dia a dia das Gazetas. Essa atribuição ordinária era para executivos, superintendentes, diretores e gerentes. A prateleira do Doutor Carlos estava acima desses patamares. Sua influência vinha da ligação inabalável com a família Collor de Mello. Havia admiração e respeito mútuos.

O advogado Carlos Mendonça, que exerceu, entre outros, os postos de consultor-geral e secretário do Gabinete Civil do Estado, era também uma testemunha da história política de Alagoas e do Brasil. Esteve no núcleo duro das campanhas eleitorais de Arnon de Mello e Fernando Collor. Além de orientar os passos do candidato, também podia botar a mão na massa e redigir o discurso.

Para quem ficou por tanto tempo no mesmo lugar, com as mesmas atribuições, o conselheiro da OAM viu de perto abalos na política estadual – às vezes terremotos. Nessas horas, se Arnon ou o filho Fernando estavam no meio dos eventos, Doutor Carlos era a voz a ser ouvida, porque afinal dele se esperava ponderação e ideias valiosas. Ele cuidava desses temas com afinco, zelo e discrição.

Deixei a TV Gazeta em 2001. Mas em janeiro de 2004, menos de três anos depois, assumi a editoria de política da Gazeta. E reencontro Carlos Mendonça, agora em minha nova rotina do jornalismo impresso. Assim como fazia na TV, mas com maior frequência, em alguma parte do dia ele marcava presença na redação. Comentava o noticiário e distribuía elogios aos jornalistas no batente.

A partir de janeiro de 2005, a Gazeta passa por uma mudança importante. Virei o editor-geral, e Carlos Mendonça se tornou presidente do novo Conselho Estratégico da OAM. Ao menos uma vez por mês participava da reunião do conselho que, naquela época, tinha entre seus membros o engenheiro Vinicius Maia Nobre, a museóloga Carmem Lúcia Dantas e o empresário Álvaro Vasconcelos.

Também havia as reuniões semanais da diretoria da OAM. Toda segunda-feira, a partir de oito da manhã, começava o falatório que poderia durar até umas três horas. Ali todos se portavam com mais seriedade no momento de ouvir o Doutor Carlos. Sentado ao meu lado estava sempre o então coordenador-editorial da OAM, jornalista Ênio Lins, hoje secretário de Comunicação do Estado.

Carlos Mendonça usava sempre terno e gravata, o que parecia reforçar a imagem de um homem que zelava pela sobriedade e pelo respeito à liturgia. Essa rotina durou quase uma década pra mim. Naqueles tempos agitados, de longas jornadas na redação, com Doutor Carlos tive inúmeras e boas conversas. No diálogo, ele acabava sempre por expor sua preocupação com a realidade alagoana.

Falta dizer que ele também foi ao mesmo tempo testemunha e personagem (quase sempre nos bastidores) da história da imprensa em Alagoas. Embora antenado com as novidades digitais, era fanático pelo jornal impresso. Recusava-se a abrir, na véspera, a edição de domingo – que saía no sábado – porque não via sentido em antecipar o sagrado ritual da leitura. Era o que ele me dizia.

Carlos Mendonça é uma das mais de 15 mil vítimas (até agora) do novo coronavírus no Brasil. Seu filho Alfredo Gaspar, ex-procurador-geral de Justiça, também contraiu a doença e faz tratamento. Além da minha solidariedade pela terrível perda, torço por sua plena recuperação. E que leve adiante, na vida pessoal e na trajetória profissional, as lições e os valores do pai – um brasileiro culto e honrado.

Pandemia: a angústia de familiares em esperar pelo telefonema de um hospital

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Você vai receber um telefonema do hospital, diariamente, a partir das quatro da tarde, com um boletim sobre o quadro da paciente. Quem diz isso é a atendente de uma unidade hospitalar da rede privada em Maceió. Ela fala com os filhos de uma senhora que acaba de ser internada, mais uma vítima do novo coronavírus. Além disso, não há muito a dizer naquele contato. A atendente acrescenta que o telefonema pode atrasar um pouco, mas não deixará de ocorrer. De repente, uma espera angustiante como nunca houve.

No dia seguinte à internação, o primeiro telefonema, com o boletim, não se deu às quatro da tarde, mas quando já eram quase dez da noite. A médica fala com calma, sem pressa, com atenção e cuidado. Parece medir cada palavra. Pergunta se está sendo clara, se o parente da pessoa internada está entendendo tudo. O quadro é estável. Não é possível fazer qualquer tipo de previsão.

Se o primeiro boletim chegou à família com atraso, vieram dois dias sem notícia. A partir das 16 horas, a cada momento o celular é checado. 18 horas, 19h... Familiares ligam para o hospital, mas não conseguem informações. O contato direto com a paciente é possível, também por celular, claro. Mas, no caso aqui, no segundo dia sem notícia do hospital, a paciente parou de atender ao telefone.

Finalmente uma ligação do hospital. Mais de 48h com uma tensão elevada. A médica vai explicar o quadro da paciente – que tem 70 anos e já enfrentou um câncer. As notícias não são boas. A situação dos pulmões se agravou bastante. Ela sentia muito desconforto. Tivemos que proceder a sedação, colocamos ela pra dormir. Ela não sente dor, não se preocupe. Está entubada, na UTI.

No quinto dia de internação, uma ligação do hospital no começo da tarde. Fora de hora. Estranhamente mais cedo. Era uma psicóloga. Quem atende leva um susto diante dessas duas inesperadas novidades – o telefonema antecipado e uma psicóloga do outro lado da linha. Ela então explica que, dada a gravidade do caso, seu contato é parte do serviço de apoio do hospital à família.

Essa é a rotina que invadiu a vida de milhares de famílias no Brasil, desde a explosão da pandemia de Covid-19. Não sei, acho que ninguém sabe, como tal realidade afeta cada um dos que enfrentam a parada na própria pele. Sei apenas dos efeitos mais óbvios, aquilo que bate em todo mundo que vê a mãe ou o pai, ou um filho, ameaçados pela doença: na incerteza, uma agonia em tempo integral.

A professora aposentada de quem falo aqui foi primeiro levada à emergência do hospital de seu plano de saúde. Ela entrou por volta de três da tarde. Somente perto das dez da noite vieram as primeiras informações. E a família soube que haveria internação imediata. Mas os leitos para casos de Covid-19, ali, estavam todos ocupados. Foram quase 24 horas pra resolver esse drama.

Mas aquilo já não é nada dramático diante do que veio depois – como falei, o agravamento do quadro clínico. Não há o que fazer. Não se pensa em outra coisa. Amigos e familiares, de perto e de longe, pedem notícias, mandam força, dizem que é preciso ter fé, que estão rezando, essas coisas a que a maioria de nós se aferra. Os filhos deixam o trabalho, se isolam. O dia a dia é todo absurdo.

Além do boletim diário, qualquer mudança importante no quadro, a gente avisa imediatamente, informa a médica que deu o último telefonema. Ela confidencia que os “plantões estão numa grande correria”. Os números de casos confirmados e de mortes não param de subir. Há risco de colapso, tanto no setor público quanto nos hospitais privados. E, com isso, mais sofrimento vem junto.

Exatamente agora, milhares de pessoas compartilham desses sentimentos – uma aflição, um desassossego com o imprevisível. É a experiência pesada de encarar um inimigo, uma ameaça letal, em condições precárias, adversas. Um inimigo que tantas vidas já levou. Aos que estão na batalha – famílias, pacientes, pessoal médico –, é torcer para que o próximo telefonema alivie a barra.

Pandemia: na Central de Triagem para teste de Covid-19, cansaço, tensão e medo

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Chega gente de todos os tipos, de todas as idades, homens e mulheres, adolescentes, jovens e velhos. Alguns estão sozinhos, mas a maioria está acompanhada de outro parente ou de algum amigo. Sou um acompanhante. Aparecem casais, o pai e o filho, a mãe e a filha, o irmão mais novo com o mais velho, talvez o sobrinho e o tio. Durante as 24 horas do dia, o movimento não para na Central de Triagem para teste de Covid-19 em Maceió (foto). Conto aqui o que vi ao longo de 7 horas – praticamente no coração da pandemia.

Cheguei ao Ginásio do Sesi, no bairro do Trapiche, por volta das três da tarde do sábado. Saí às dez da noite. É assim mesmo. É demorado e cansativo pra todo mundo que vai até ali. A central foi montada pelo governo estadual como estratégia no enfrentamento à crise que assola o país. É uma iniciativa que de fato cumpre papel decisivo na guerra contra a doença. Uma ação necessária.

Uma segunda unidade está sendo montada no Benedito Bentes – o que vai desafogar o Sesi e facilitar o acesso ao serviço para moradores da parte alta da capital. A Secretaria de Saúde prometeu a inauguração para esta semana. A central do Trapiche começou a atender em 14 de abril. E a procura não para de aumentar. O governo precisa atacar o tempo de espera. Dá pra fazer.

Com o noticiário sobre o avanço da pandemia, o clima está mais pesado em todo canto. Com jeitão de que está disseminada no Brasil, a ameaça fica mais perto de todos nós. Pode chegar a qualquer um, a qualquer momento. Até um dia desses a coisa parecia distante, algo remoto que atinge os outros. Hoje, o vendaval de números e de curvas estatísticas nos arremessa ao centro da tragédia.

Eu falei que o clima está pesado em todo canto. Mas na central de triagem isso ganha uma variedade de rostos – ainda que parcialmente escondidos atrás de uma máscara. A gente vê os olhos. E o olhar revela, em cada um, de um modo particular, a surpresa, o espanto, numa escala que vai da preocupação ao medo repentino. A incerteza alimenta o temor quanto ao futuro imediato.

Ao chegar, uma pessoa que apresente algum dos sintomas da Covid-19 recebe uma ficha das atendentes que fazem esse primeiro contato. A partir daí, começa a maratona de espera – primeiro ainda na entrada do ginásio, ao lado da rampa que dá acesso às arquibancadas. Depois de chamado, o paciente ficará mais algumas horas lá dentro, onde foi montada a estrutura para realizar os exames.

Enquanto estive ali, um incidente assustou as dezenas de pessoas que aguardavam a chamada: um homem que também estava na fila para a consulta desmaiou entre as cadeiras. Quem estava mais próximo se afastou meio assustado. As servidoras da recepção acionaram uma equipe médica da central, claro, e o socorro foi feito. O “diagnóstico” instantâneo foi de abuso alcóolico.

Duas ambulâncias estão prontas para os casos de necessidade de internação. Das 15h às 22h, duas pessoas deixaram o local diretamente para leitos hospitalares – o que significa que testaram positivo, com sintomas fortes da doença. Um era idoso, a outra era uma mulher talvez na casa dos quarenta anos. A maioria dos que passam por exames volta pra casa – mesmo que o teste dê positivo. 

Foi o que aconteceu com a pessoa que eu acompanhava. A notícia ruim é que está confirmada a contaminação. O alívio é que os sintomas são leves, com grandes chances de recuperação sem a necessidade de tratamento hospitalar. O único medicamento receitado foi analgésico à base de dipirona. Mas claro que não se pode vacilar. Agora é quarentena absoluta por duas semanas.

Todos que testam positivo – mas podem voltar pra casa – recebem como documento oficial uma “Declaração”, assinada por um médico – no caso que relato aqui foi uma médica. Não vou citar o nome da profissional para evitar uma exposição desnecessária. Brasil afora, esses profissionais têm sido vítimas de preconceito. Até casos de agressão física já ocorreram, como mostrou a imprensa.

Transcrevo agora o que diz o documento (a Declaração) que o paciente recebe após ser diagnosticado com a Covid-19, sem necessidade de internação: “Declaro, para os devidos fins, que o paciente (...) foi atendido no Sesi no dia de hoje. Realizou teste rápido para Covid-19, que deu positivo, necessitando de isolamento domiciliar por 14 dias: do dia 09/05/2020 ao dia 23/05/2020”.

Minha fonte (sob o impacto da notícia de ter contraído a Covid-19) confirmou que, lá dentro, a demora continua na mesma toada. Finalmente começa o atendimento. Após a conversa com a médica – que apura tudo, de modo amplo e detalhado, com objetividade e clareza –, os procedimentos são realizados. E agora sim, há, segundo a paciente, “agilidade, profissionalismo e organização”.

O Brasil ultrapassou a marca de 10 mil mortos. Chegamos rápido ao grupo dos países com maiores taxas de contágio e de óbitos. Um desalento que, descrito assim, em dados e projeções, periga ser subestimado. Na vida de cada um dos milhares de contaminados, e para as famílias de todos eles, porém, tudo pode ser devastador. Na central de triagem para testes, vi isso bem mais de perto.

Regina Duarte confundiu jornalistas da CNN Brasil com Ratinho e José Luiz Datena

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Regina Duarte misturou as bolas. Ela topou uma entrevista ao vivo à CNN Brasil, mas pensou que teria o mesmo tratamento que Luiz Datena e Ratinho dispensam aos ministros do governo e ao próprio presidente. Como se sabe, esses dois elementos são porta-vozes do bolsonarismo e do governismo mais escancarados. A bajulação da dupla ao presidente também é fonte de renda para as emissoras em que trabalham, no caso a BAND e o SBT. Nos programas de Ratinho e Datena, a gang do Planalto diz e faz o que bem quer.  

A CNN chegou ao Brasil sob forte desconfiança. Desde o anúncio de sua estreia, a TV deu pistas de que poderia cair nos braços do governo Bolsonaro. Não como o SBT ou a Record, cuja adesão é incondicional. Mas poderia tentar um lustre técnico para uma defesa mais, digamos, qualificada do governismo. Até agora não foi exatamente isso o que se viu na cobertura das crises do momento.

Embora tente marcar uma diferença em relação à Globonews, em tom mais moderado ao tratar das presepadas governistas, a CNN Brasil não pode ser acusada de fazer jornalismo chapa branca. Passa longe disso. Seria de fato um suicídio em termos de credibilidade caso a emissora caísse nessa armadilha. E foi por isso que a secretária nacional de Cultura, dona Regina Duarte, se deu muito mal.

A essa altura vocês sabem o que houve. Nesta quinta-feira, a atriz deu um chilique dos diabos, em entrevista ao vivo, quando percebeu que não fora convidada para fazer propaganda, discursar e ser aplaudida. Como disse, confundiu os jornalistas da CNN com a canalhada do tipo Datena e Ratinho. “Não estava combinado isso”, repetia a secretária, de novo revelando sua desorientação.

Ela queria tudo “combinado”. Queria perguntas confortáveis, nada de contraditório, nada de questões que causem qualquer incômodo. E aí, começou a falar num atropelo geral, com um raciocínio que acaba por exibi-la de modo triste. Como essa pessoa chegou a tal situação depois de uma trajetória de consagração total? Melancolicamente, taí um caso clássico de fuzilamento da própria biografia.

Mas tão ou mais terríveis do que a performance da atriz e secretária foram suas palavras. Ela teve coragem de minimizar a prática de tortura e as mortes na ditadura de 64. Ironizou o noticiário sobre as vidas que se perdem com a pandemia de Covid-19. E mostrou desprezo, vejam que coisa, aos próprios colegas do mundo da arte. A mulher que deu vida à viúva Porcina parece caso de interdição.

O entreato grotesco de Regina na CNN ocorre num momento em que o presidente miliciano – esse lixo que agride a democracia diariamente – volta a atacar a imprensa violentamente. Também ocorre no clima das agressões que doentes do bolsonarismo fizeram contra jornalistas e enfermeiros. Tudo no meio da rua, a céu aberto, com apoio evidente do capitão da tortura. A indignidade não vai parar.

A secretária de Cultura, a maluquete que decidiu enfiar a cara, e sua própria história, no lamaçal do governo Bolsonaro, surpreende, sim – mas não completamente. Porque está claro que ela não pensa o que pensa apenas desde ontem. Foi sempre uma reacionária de instinto raivoso. Eis que o Brasil deu a ela – e a tantos outros bichos em fúria – a chance de botar pra fora a ferocidade total.

O episódio com a atriz na CNN foi bom para a emissora. Primeiro porque, claro, virou assunto de forte repercussão no falatório nacional (até eu estou escrevendo sobre o caso) e deve render audiência à nova TV. A disputa sobretudo com a Globonews é o grande desafio da casa de William Waack. Emplacar a imagem de independência nesse panorama é o ouro que a CNN Brasil cavouca.

E finalmente o caso serve pra toda imprensa. É mais uma oportunidade para se refletir sobre o papel do jornalismo. Para uma democracia real, de fato e de direito, a imprensa é requisito incontornável. A direita extrema e bolsonarista – essa vanguarda do reacionarismo brucutu – joga na contramão desse entendimento. Para essa gentalha, os valores são outros: censura, tortura e arbítrio acima de tudo.

Bolsonaro e Paulo Cintura: o bordão de um governo que é uma piada e um perigo

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Jair Bolsonaro é um caso perdido. Não de hoje. Não porque tenha, agora e mais uma vez, exposto as tripas de seu autoritarismo em praça pública. Bolsonaro é esse lixo desde os tempos do Exército, um mau militar que foi, como provam documentos oficiais. A tragédia, para o Brasil, é que esse lixo virou presidente da República. No último domingo, ele cruzou mais uma divisa na sua delinquente aventura de afrontar as instituições e a democracia. Falando na manifestação armada para seu gado, ele ameaçou os outros dois Poderes.

Ligado a milícias cariocas, o capitão da tortura insinuou que não vai mais respeitar eventuais decisões do Supremo Tribunal Federal. “Acabou a paciência. Chegamos no limite. Não tem mais conversa”. Com esses relinchos, Bolsonaro partiu pra cima do Congresso e de ministros do STF, de novo em agressão aberta ao Legislativo e ao Judiciário. É também a velha tática de apostar no caos.

Vendo as imagens do presidente miliciano na ultrajante papagaiada de fanáticos apoiadores, resta uma dúvida atroz: de um lado e outro daquele cercado na frente do Palácio do Planalto, não sei quem é mais doente – se Bolsonaro, se a plateia. É um páreo difícil, um dilema dos mais cavernosos, uma escolha bastante temerária. Eles se completam numa iniquidade inquietantemente orgulhosa.

Os bolsonarianos legítimos, os de raiz, exibem um tremendo orgulho ao exercer sua beligerante boçalidade. Há sempre um estímulo à violência nessas manifestações. Bolsonaro, na condição de chefe da gang, de líder da seita, parece reunir – em seus modos, hábitos e ideias – uma síntese de todas as depravações que vê em seus fiéis. Na cerca diante do palácio, um lado é o espelho do outro.

A turma do meliante que desonra o cargo de presidente do país é a ponta final de um extremismo que prega até o extermínio do adversário político. Essa corja defende nada menos que a volta do AI-5 – ou seja, a volta da tortura e do assassinato como políticas de Estado. Isso não decorre de divergências ideológicas. É apenas abjeto, além de caracterizar um crime hediondo.

No ato infame do domingo, enquanto insuflava os perigosos debiloides que pediam o fechamento do STF e do Congresso, Bolsonaro reconheceu um artista que ele admira. Era Paulo Cintura (foto), um dos tantos tipos que, décadas atrás, estavam na Escolinha do Professor Raimundo, do gênio Chico Anysio. Paulo Cintura é, pois, a criatura que se apossou da alma do ator Paulo Cesar Rocha.

Sem querer superestimar o caso Cintura, gastarei mais algumas linhas e algumas palavras com ele. Já havia trombado com notícias sobre o humorista. Vive reclamando da Globo e, em entrevistas, ensaia reivindicar algum reconhecimento e mesmo compensação material por seu “imortal” papel na TV. Isso é apenas sinal de desajuste mental. Além do mais, Paulo Cintura não tinha graça nenhuma.

Bolsonaro se identifica com Paulo Cintura. Na patuscada domingueira, o personagem faz um trocadilho com sua fala na Escolinha. O original “saúde é o que interessa” virou “Bolsonaro é o que interessa”! É idiota e violento, a síntese de tudo nos movimentos do capitão: golpista, autocrático, inimigo da democracia. É Bolsonaro – devastado e resumido numa piada, num bordão de comédia.

Horas depois de sua mais nova demonstração de desprezo pelos valores democráticos, Jair Messias foi alvo de umas trinta notas de repúdio. De todos os lados vieram as reações – da OAB a entidades que representam a imprensa brasileira. Mas a afronta de Bolsonaro à Constituição, às leis e ao Brasil vai ficar por aí até quando? Notas, palavras, retórica... É urgente uma resposta definitiva.

É o que defendem setores na política, na imprensa e nas instituições. Rumo ao impeachment. Mas os doentes da cachola e do caráter continuarão nas ruas pregando ditadura com Bolsonaro. São os dois caminhos que existem agora. De uma coisa tenho certeza: a crise política vai se aprofundar.   

Enquanto o impedimento não vem – ou enquanto Jair não detona o golpe como pretende –, o circo vai pegando fogo. O problema é que estamos debaixo da mesma lona. Fazer o quê? Só me ocorre o seguinte: é defender a democracia e varrer esse lixo, esse pulha que chefia um governo avacalhado.

Na pandemia, o isolamento total em Alagoas

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Alagoas está a um passo de entrar em lockdown – o isolamento total por causa do novo coronavírus. Em entrevista à TV Gazeta na noite deste sábado, ao vivo, o governador Renan Filho praticamente confirmou que a medida radical será adotada no começo desta semana. Ele vai prorrogar os efeitos do decreto que restringe as atividades da economia e o deslocamento de pessoas. E, pelo que disse, a restrição vai aumentar. A decisão decorre da previsão de subida nos casos da doença e no número de mortes.

O temor mais forte é de colapso na capacidade de hospitais e unidades que atendem os pacientes com a Covid-19. Disse o governador ao ALTV: Nós estamos vivendo no estado de Alagoas uma situação muito delicada... Nós vamos endurecer as medidas para que, até o dia 15 de maio, o estado esteja pronto para oferecer mais leitos, oferecendo ao cidadão a condição de se tratar.  

O repórter Douglas França perguntou diretamente sobre um eventual fechamento total. Renan Filho não cravou, como disse antes, mas deu pista segura de que essa possibilidade está na mesa: Há possibilidade de fechamento completo, de lockdown. Mas nós estamos ouvindo a todos neste momento. Ele citou o prefeito Rui Palmeira e a comunidade médica como interlocutores.

É certo portanto que teremos medidas mais fortes no monitoramento da população e das atividades econômicas. No fim da entrevista, o governador deixa isso claro e reforça a intenção de ampliar o alcance do decreto estadual: O que é fundamental dizer é que o estado precisa ampliar o isolamento social para a gente oferecer mais leitos e estar mais preparados para atender o cidadão.

O governador lembrou ainda que, caso as medidas não sejam adotadas, em escala maior do que atualmente, Alagoas corre o risco de passar pela situação que outros estados já vivenciam. Ele não citou, mas poderia ter citado o panorama no Amazonas, no Pará e no Maranhão. Nessas regiões do país, as cenas são pavorosas, numa calamidade que também afeta a dignidade de vítimas e famílias.

O aperto no controle das ruas, digamos assim, se dá após a flexibilização adotada duas semanas atrás. Lojas de veículos, livrarias, bancas de revistas e alguns outros negócios foram liberados – sob a obediência de regras. O fechamento total, suponho, anula a tolerância com os setores que haviam sido reabertos. A ver como reagirá o empresariado, desde sempre na pressão para reabrir tudo.

Penso que a decisão do governador parece combinar com as melhores recomendações da ciência e da medicina. A pandemia, ao contrário do que pensam Bolsonaro e sua seita, é uma terrível ameaça a todos nós. Os governantes responsáveis seguem o que vem sendo adotado praticamente em todos os lugares do mundo. No Brasil, o governo federal atrapalha o tempo todo, sem um minuto de trégua.

Aliás, é uma desgraça que o país seja caso único no mundo no meio da crise sanitária que mata milhares de pessoas. Somente aqui a delinquência de políticos – e até de autoridades de saúde – se mete desse jeito no meio do drama de uma pandemia. O governador, como não poderia deixar de ser, até agora passa longe dessa presepada – ainda que seja alvo de ataques nada republicanos.

Apesar de tamanha mobilização nos quatro cantos do planeta, a verdade é que ninguém sabe quando e como tudo isso vai acabar. O desafio é inédito desde a grande gripe de 1918. Também por essa razão é inaceitável, além de criminosa, a postura dos negacionistas – que vão de alienados a lideranças políticas como o próprio Bolsonaro. Por esse atalho diabólico, chega-se ao cemitério.

Se tentamos manter a paz diante da estranha experiência de ficar em casa – compulsoriamente –, então vamos precisar um pouco mais de paciência. As dicas estão na internet, na TV, no jornal e no rádio. De meditação a música na janela lateral, tem de tudo pra você barrar o tédio e viajar. O importante é pensar e agir com responsabilidade  em nome da sua vida e da vida do outro.

“Mito” versus “Herói” – o conflito que é uma fraude entre Bolsonaro e Sergio Moro

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Sergio Moro depõe à Polícia Federal no inquérito que investiga a conduta de Jair Bolsonaro, acusado pelo ex-ministro de tentar interferir justamente nos trabalhos da PF. Segundo Moro, o presidente o pressionava havia séculos para demitir o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo. Como vocês sabem, a troca acabou ocorrendo mesmo. Moro saiu do governo que ajudou a eleger e agora – dando sequência um tanto inesperada nesse enredo acanalhado – investe contra seu igual, Bolsonaro. Como já escrevi, são dois bandidos.

No ritmo alucinado de confusões políticas que marcam o governo desde a estreia, sem dúvida temos um capítulo de bastante gravidade. É o presidente sendo alvo de uma investigação comandada pelo Supremo Tribunal Federal. O depoimento deste sábado foi determinado pelo ministro Celso de Mello, relator do caso. A tensão predomina na expectativa de um desfecho. O que pode acontecer afinal?

A sombra do impeachment ficará mais pesada se o andamento das investigações deixar exposto, de forma irrefutável, um ato do presidente que caracterize crime de responsabilidade. Vejam que coisa maluca: na verdade, isso, o crime presidencial, já existe de sobra, desde que ele tomou posse. Em cada “polêmica” que se meteu, Bolsonaro praticou bandidagem. Mas falta um componente essencial.

Falta o clima de fim de festa geral. Isso ocorre somente quando a popularidade do mandatário despenca pra valer, ficando ali no máximo em 10%. Com sua seita na casa dos 30% – e sabendo que essa turma é mesmo doente por ele –, Jair Messias vai ficando. E vai ficando assim, cada vez mais degenerado – uma degeneração compartilhada com as áreas mais importantes da máquina pública.

Voltando a Moro. Ele é um pilar de tudo o que temos de pior nos dias de hoje, com Bolsonaro e a gang dos cidadãos de bem. Como juiz, Moro é o exemplo perfeito de tudo o que um juiz não deve fazer no estrito cumprimento de suas funções. Moro foi um pistoleiro da lei e de todos os códigos. É curioso vê-lo no papel de simples investigado – sem a proteção formal de uma corporação.

Nessa presepada de Moro contra Bolsonaro, voltamos a ver na televisão, ao vivo, a fachada da PF da República de Curitiba, epicentro da Operação Lava Jato. Foi ali, na capital do Paraná, que o ex-presidente Lula esteve preso em decorrência da fraude processual levada a cabo por Sergio Moro. Ali também tivemos o espetáculo diário de embates entre manifestantes petistas e da “nova política”.

Pois também isso voltou a ocorrer no dia do depoimento de Moro à PF em Curitiba. Que coisa! Mas com uma diferença crucial. Desta vez, tivemos a troca de palavrões e tentativa de agressão entre bolsonaristas e moristas. O detalhe é que essas duas falanges eram, até ontem, a mesma coisa, estavam do mesmo lado. São maluquetes e cretinos contra cretinos e maluquetes! Eita Brasil louco!   

Capa da Veja, o ex-ministro da Justiça insinua que tem provas definitivas contra seu ex-chefe. Bem, se suas “provas” forem tão consistentes quanto as que ele arranjou no processo do triplex, Bolsonaro já pode comemorar. A não ser que o STF se porte como fez, no caso Lula, o Tribunal Federal de Porto Alegre. Mas aí temos de lembrar daquele ingrediente todo político. O capitão ainda tem apoio.

O “Mito” versus o “Herói” é o conflito mais fraudulento da paróquia nos tempos de pandemia e quebradeira econômica. O país tem uma tremenda crise para atravessar. Há quem defenda que não estamos nem no meio do caminho na direção da bagaceira maior. Enquanto isso, perdemos tempo com essas duas fraudes, Moro e Bolsonaro. Sem dúvida, estão à altura do pântano que representam.

Chego ao último parágrafo, e Moro ainda está na sede da PF curitibana. Vamos ver o que ele terá dito, e entregue, ao pessoal que investiga sua denúncia contra o presidente. Se não provar o que disse, o especialista em driblar as regras da lei quando “magistrado” pode responder por denunciação caluniosa. Nem sei o que é mais degradante nessa porcalhada toda. A conferir. Na janela.

Quando a “denúncia grave” é fake news

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Aos gritos, com uma papelada em mãos, a mulher nos informa que acaba de perder a mãe, uma senhora que morreu no Hospital Geral do Estado. Como se estivesse na pele de uma personagem, a mulher esbraveja contra o HGE. “Denuncia” que uma funcionária da unidade teria forjado o diagnóstico de Covid-19 – sabe-se lá por que razão. Essa “narrativa” está num vídeo que dura bem uns cinco minutos – ao menos na versão que recebi. É mais uma dessas “notícias” bombásticas que circulam via WhatsApp.

Tudo falso. Tudo mentira. Mais uma fake news, como aliás já noticiou o CADAMINUTO. É uma praga inescapável. É quase uma calamidade paralela à crise sanitária propriamente dita. As invencionices de todo o tipo que rodam de tela em tela têm diferentes fontes e motivações. Pode ser alguém completamente sem noção da vida, desocupado, que acha divertido tirar onda com o drama real.

A motivação nesse caso é a piada pela piada, digamos assim. E a fonte da fake news acha que não faz mal a ninguém ao espalhar falsidades sobre qualquer coisa. Se flagrado em suas investidas ilegais, certamente vestirá o figurino de vítima, além, é claro, de inocente quanto a qualquer acusação. Há muito de idiotia nessa prática de fraudar a realidade – o que, no fim, agride pessoas.

A senhora do vídeo que recebi (e que é notícia no CM) conta uma história fantasiosa – cabalmente desmentida pela direção do HGE. Não um desmentido retórico, mas com dados e informações concretas. Ao contrário do que “denuncia” a filha, ninguém no hospital disse que sua mãe teria sido vítima do novo coronavírus. Isso simplesmente nunca existiu, a não ser na encenação para o celular.

Ocorre que uma mentira tem potencial de estrago avassalador. E é muito mais animado acreditar na teoria da conspiração do que no andamento lógico e natural da vida. Por isso, mesmo que o receptor de uma mensagem como esse vídeo do HGE veja o esclarecimento oficial, preto no branco, ainda assim acalenta a fábula do absurdo. E nem se importa que o emissor tenha banca de criminoso.

Mas eu falei de fontes e motivações diferentes na disseminação de notícias fraudulentas. O mais grave são os pilantras que passam adiante uma falsificação porque estão engajados numa causa. Grosso modo, é a causa do negacionismo combinado aos “valores” do presidente Bolsonaro. Com essa ideia doente na cachola, é grande o número dos que atuam na campanha de mentiras.

Aqui por Alagoas, bandoleiros do negacionismo agem com a desenvoltura das mais depravadas. Os que rezam na seita de Bolsonaro e fazem oposição ao governo estadual estão na linha de frente das fake news. A turma alimenta os devotos com uma boataria sem fim, com presepadas sobre todos os setores que trabalham no combate à pandemia. Um ataque à saúde pública por jogada política.

Nesse embalo, aparecem certas autoridades com ilações irresponsáveis sobre a crise que aflige o país. Acontece aqui nas Alagoas, com tranqueiras parlamentares, e acontece lá fora, de modo explosivo com o presidente e seus vassalos mais repugnantes. São velhas táticas de criar tumulto em horas difíceis, com foco único nos dividendos eleitoreiros. E são todos da “nova política”.

Já escrevi aqui sobre a pandemia de fake news. Volto ao tema porque, como todo mundo pode constatar com facilidade, esse é um desalento sem fim de nossos dias. Será sempre necessário manter atenção em estado de alerta. Um vacilo, e um malandro qualquer pode nos vender uma safadeza embrulhada em “denúncia grave”. É na crise que o bandido explora as oportunidades.

Segundo a secretaria estadual e o Ministério da Saúde, até esta quarta-feira 29 de abril, Alagoas registrava 957 casos confirmados de Covid-19 e 41 mortes. No Brasil, o número de óbitos é de quase 6 mil. A tragédia é real. A ameaça está na rua e todos correm perigo. Isolamento e distanciamento são regras que salvam vidas. Picaretagem e fake news, ao contrário, são venenos que podem matar.

O governo Bolsonaro no fundo do poço

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Nos tempos em que não havia o politicamente correto, eu poderia começar o texto afirmando que o governo Bolsonaro é o samba do crioulo doido. No meio de uma pandemia, o presidente troca o ministro da Saúde. Logo depois, demite o ministro da Justiça. E entre uma demissão e outra, balança o ministro da Economia. Três setores de peso, vitais para o êxito de uma gestão, são atropelados pela ignorância e pelo casuísmo das demandas do mandatário da República. Muita doideira pra um só governo – e para um Brasil apenas.

Nesta segunda-feira, em mais uma daquelas entrevistas coletivas improvisadas, o presidente apareceu ao lado justamente do ministro Guedes. Foi uma forma de acalmar o tal mercado, bastante nervoso nos últimos dias com a suspeita de que o governo dê uma guinada em sua agenda econômica. Seria o derretimento de um dos “pilares” que sustentam a aventura bolsonariana.

Paulo Guedes ficou numa situação estranhíssima após o governo anunciar uma espécie de pacote de investimentos – sem a presença do ministro. Quem manda agora na parada é o general Braga Neto, o milico linha dura que assumiu a Casa Civil. De fato, foi um troço sem explicação lógica. Zeloso de sua vaidade que só ele, é ainda mais inexplicável que o sempre irascível Guedes aceite a humilhação.

Sem aviso prévio, o governo do agora mandachuva Braga Neto lançou o PAC do Bolsonaro – no caso, se chama Pró Brasil. Na apresentação do que deveria ser o detalhamento dos projetos, tivemos mesmo um desastre. O chefe da Casa Civil não conseguiu esclarecer coisas básicas, como as fontes para bancar as maravilhas prometidas. Até agora ninguém entendeu nada. E Guedes reapareceu.

Ao falar ao lado do presidente durante a manhã desta segunda, ele fez de conta que não existe crise nenhuma, que logo ali teremos a bonança e, o principal, exaltou a firmeza do comando presidencial. Ou seja, tratou de bajular o chefe ali, ao vivo, olho no olho, pessoalmente. É um tanto melancólico ver o sempre aguerrido economista preocupado em se garantir no cargo. Que houve nos bastidores?

O presidente ainda não anunciou o novo ministro da Justiça. Do mesmo modo, não confirmou quem assumirá a direção-geral da Polícia Federal. É sintomático que assim seja: vacância de quase três dias em dois dos mais relevantes postos na máquina pública. A engrenagem dá todas as pistas de fracasso desde o início do governo, mas não deixa de ser surpreendente a rapidez da falência.

Enquanto Bolsonaro insulta as instituições e toca fogo na relação com o Congresso, outros ministros tratam de manter o nível de esculhambação generalizada. É o caso, naturalmente, de Ernesto Araújo e Abraham Weintraub. O titular das Relações Exteriores e o da Educação patrocinam uma vergonha atrás da outra, com seus atos e declarações abjetos. Pústulas e incompetentes, estão à solta.

Diante de tudo isso, até esquecemos de Ricardo Sales, Damares Alves e Regina Duarte. Com uma pandemia sanitária em meio à crise econômica, a agenda é toda dominada por dois segmentos. Mas a farra continua correndo solta nas demais áreas do governo. No Meio Ambiente, a ordem do senhor Sales é de queimada geral, invasão de terras indígenas, anistia para grileiros etc. No buraco.

As últimas notícias dão conta de que Regina Duarte já está de saída. Parece que – sendo ela mesma uma mocinha inocente – pode ter sido picada pelo mosquito dos “arrependidos”. É coisa de fábula, mas ela aceitou o cargo de secretária de Cultura por enxergar em Jair Bolsonaro qualidades de um estadista. Na vida real do trabalho, Regina não manda em nada. Ela também foi “enganada”.

Ah, sim, e ainda tem o centrão. E no meio do centrão tem o alagoano Arthur Lira. O deputado federal é citado como um dos cabeças do grupo que agora dará sustentação definitiva ao presidente Bolsonaro. É a velha troca de cargos e verbas por garantia no parlamento. Garantia do quê? Fechado com o centrão, nenhum pedido de impeachment vai adiante. O centrão garante a cadeira ao capitão.

São muitas confusões, espalhadas em diversas frentes, tudo com muito barulho e ao mesmo tempo – e num país com demandas urgentes. O governo Bolsonaro vai ficando cada vez mais parecido com as ratazanas que estão no topo da gang do planalto. Deu a lógica. As patetices e as bandidagens seguem o ritmo frenético da “nova política” e da “nova direita”. É tudo vigarice na seita do Messias!

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