Blog do Celio Gomes

Senador Rodrigo Cunha, o cacique autoritário

  • 04/09/2020 00:55
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O tucano Rodrigo Cunha vendeu a imagem de “renovação na política”. Nos últimos anos, os acontecimentos na vida pública brasileira pavimentaram o terreno para esse discurso – que na verdade é tão velho quanto a política. Mas, ainda que não passe de fumaça, elegeu figuras como Cunha. Digo isso, claro, diante da ação do senador pra cima do diretório municipal do PSDB. Como um velho coronel, que trata o partido como propriedade privada, o parlamentar, na condição de presidente do diretório estadual, dissolveu a instância partidária de Maceió. E foi numa canetada, sem consultar ninguém.

Em nota, o senador alega o descumprimento de regras na reunião que elegeu a deputada federal Tereza Nelma como presidente do diretório municipal. Não colou. O texto da cúpula da legenda não deixa claro o que haveria de errado na escolha dos dirigentes do PSDB na capital. Na prática, deu-se o seguinte: Cunha decidiu abater uma concorrente interna pelo protagonismo na eleição para prefeito de Maceió. Sinais de vale-tudo.

Como o CM publicou, a deputada reagiu com uma nota duríssima. Diz um trecho: A decisão isolada do senador Rodrigo Cunha transpira autoritarismo, viola a diretriz central do Estatuto do PSDB, que estabelece claramente o compromisso com a transparência, a democracia interna e o direito de defesa. Chamo atenção para o óbvio: é uma crítica de uma colega de partido e não de um adversário filiado a outro time. A crise está dentro de casa.

Além de classificar o senador como autoritário, a deputada, que também se manifestou por meio de nota, aponta, não sem alguma ironia, para a contradição entre discurso e prática: Em verdade, o senador violou diretamente o Estatuto do PSDB, tomou uma decisão autoritária típica da Velha Política. Nunca deu aos integrantes do Diretório Municipal o constitucional direito de esclarecimento, contraditório e ampla defesa”.

Ao se eleger senador em 2018, Rodrigo Cunha subiu de patamar. Tornou-se presidente do PSDB em Alagoas e rapidamente imprimiu seu estilo de gestão. Estilo que resultou na implosão do partido, cuja ilustração mais notória foi a desfiliação do prefeito Rui Palmeira. A truculência do cacique deve resultar na saída da própria Tereza Nelma. Por essas e outras, o tucanato vai sem rumo por aqui, depois de governar o estado por oito anos.

Falei de protagonismo da eleição em Maceió. Não é de hoje, o senador tucano fechou parceria com o deputado federal João Henrique Caldas, do PSB. A dobradinha passa pelos acordos que levaram Cunha ao Senado. A mãe do deputado é primeira suplente do senador. Mas isso é um detalhe, ainda que relevante. A dupla pensa alto, com projeções para a repetição da tabelinha em 2022. Antes, porém, os dois precisam ganhar agora em 2020.

Pelo que leio em diferentes espaços, em reportagens e blogs da nossa imprensa, a briga entre Cunha e Nelma deve-se à escolha de um nome para vice na chapa com JHC. Ou seja, além de impor o nome do candidato a prefeito, o senador quer decidir sozinho a chapa completa. Sobre isso, a deputada diz que sua candidata seria uma mulher, mas se submeteria à decisão partidária em convenção. Mas nem isso Cunha cogitou permitir.

Tereza Nelma também acusa Cunha de mentir ao “explicar” as razões para dissolver o diretório tucano na capital. Espantados estão os que enxergam no senador de Arapiraca uma voz na contramão do atraso. Até hoje, sua atuação como parlamentar e suas posições sobre os graves temas do país mostram o contrário. Faltava uma demonstração cabal de seus métodos medievais na burocracia da máquina partidária. Agora não falta mais. 

Voltei.  

Germán Efromovich (preso pela Polícia Federal) e os alagoanos “do bem” e “do mal”

  • 19/08/2020 14:22
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A Polícia Federal prendeu nesta quarta-feira os notórios irmãos Efromovich. Por causa da pandemia de Covid-19, eles ficam em prisão domiciliar. A dupla tem história. Em agosto do ano passado, publiquei o texto que começa a partir do próximo parágrafo. Está nos arquivos do blog. O título foi: “O maior estaleiro das Américas” – dez anos de uma incrível farsa alagoana. Achei pertinente republicar. Confira aí. 

                                                      * * *

Essa é uma história que passa pela categoria dos “Alagoanos do Bem”. Logo adiante falarei um pouco mais sobre a origem e os usos dessa expressão na imprensa estadual. Antes, vamos direto ao ponto: em outubro de 2009, o então governador Teotonio Vilela Filho anunciou aquele que seria o maior projeto de desenvolvimento da história de Alagoas. A boa noticia foi divulgada com estardalhaço – e não era pra menos. Aqui seria construído “o maior estaleiro das Américas”.

A exorbitância que vai entre aspas aí acima estava na propaganda oficial. Segundo o governo, o estado havia fechado o negócio com o megaempresário Germán Efromovich, presidente do Synergy Group, e tido como um craque no ramo. O homem tinha sua assinatura na indústria pesada, mundo afora. O investimento prometido batia na estratosférica cifra de 1 bilhão de reais. Seria a “redenção” da província.

A região de Coruripe, no litoral sul, foi a escolhida para receber o Estaleiro Eisa Alagoas. Sempre de acordo com a publicidade oficial, as obras começariam no ano seguinte, 2010, o que já significava a geração de 4.500 empregos. “Trata-se de um empreendimento histórico para nossa terra, que vira uma página na nossa economia”, festejava o governador Téo Vilela, ao falar sobre a conquista.

O projeto, de tamanha envergadura, abriria diversas frentes de prosperidade, como também explicava o governador naqueles dias: “Além dos empregos diretos, teremos dezenas de fábricas – para acessórios dos navios – que devem ser construídas ao redor do estaleiro. Isso significa emprego, renda, impostos e desenvolvimento”. Eleito em 2006, o tucano estava no primeiro mandato.

Acompanhei de perto tudo isso. Na época, exercia o cargo de editor-geral da Gazeta e, nessa condição, o assunto passou a ser pauta prioritária na minha rotina de trabalho. Como manda o bom jornalismo, era preciso ir além do registro meramente informativo sobre o projeto. Repórteres caíram em campo para buscar detalhes do negócio. Um mistério a esclarecer: quem era o megaempresário?

Pelo que me lembro, o jornalista Davi Soares, então repórter na editoria de política, levantou a biografia de Germán Efromovich. Os dados eram um tanto preocupantes, digamos assim. A vida pregressa do heroico investidor não era exatamente um primor de realizações em suas indústrias, como aparecia na propaganda. O cidadão colecionara acusações e processos por onde passou.

Em reportagem especial, a Gazeta publicou o que havia descoberto sobre o construtor de estaleiros. O governo, é claro, não gostou. Continuamos a cobertura, divulgando o que as autoridades anunciavam, mas sem deixar de lado a atenção aos aspectos nebulosos daquela “obra redentora”. Foi então que alguma alma patriótica atacou nossas reportagens como trabalho de “maus alagoanos”.

O tempo foi passando, e nada de concreto surgia sobre o futuro estaleiro. Ao invés de apresentar respostas reais sobre o atraso, o próprio governador embarcou numa espécie de teoria da conspiração e passou a fantasiar sobre uma guerra entre os que torciam contra e – agora sim – os “Alagoanos do Bem”. Na imprensa, logo surgiram as vozes solidárias com a fantasia chapa-branca.

Em 2010, Téo Vilela se reelegeu e, durante os quatro anos do segundo mandato, continuou fiel à tola (e leviana) narrativa conspiratória. Enquanto isso, no mundo real, os prazos foram sendo adiados, um atrás do outro. Nada. Até que todos pararam de falar no assunto. Como se sabe, estaleiro nenhum está construindo navios e plataformas de petróleo no paraíso de Coruripe (foto lá no alto).

Aliás, a promessa era de que a indústria levantaria “três navios e duas plataformas por ano”. A garantia era do próprio empresário. Embora todas as projeções sempre apontassem para o infinito, o governo foi incompetente até para resolver o básico, que era o licenciamento ambiental. Erros primários e falta de transparência nesse ponto foram jogados na conta dos “alagoanos do mal”.

Essa é uma das grandes coberturas das quais me orgulho de ter participado como jornalista. Não é papel da imprensa exaltar o oba-oba de governo nenhum. A essência do jornalismo é precisamente o contrário: desconfiar sempre, fiscalizar o poder sem medo, revelar a verdade que tanto incomoda.  

E foi isso o que a Gazeta fez em tudo o que publicou sobre o estaleiro que nunca virou realidade. O industrial Efromovich continua enrolado com a Justiça até hoje. E me ocorre o seguinte: cara, o tempo voa mesmo; parece que foi outro dia, mas, neste 2019, aquela incrível farsa completa uma década.

Acusação de doleiro contra os donos da Globo muda o tom da imprensa sobre delações

  • 17/08/2020 01:26
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Dario Messer, o doleiro dos doleiros, disse em delação premiada que entregava dinheiro vivo aos irmãos Roberto Irineu e João Roberto Marinho. Segundo o delator, os repasses ocorreram ao longo dos anos 90. Messer contou ao Ministério Público Federal no Rio de Janeiro que eram duas ou três remessas todo mês. Os valores variavam entre 50 mil e 300 mil dólares. Na versão do doleiro, funcionários seus levavam a grana, em espécie, até a sede da TV Globo, no histórico endereço do Jardim Botânico. A família Marinho garante que é tudo mentira, fruto da cabeça de um marginal.

No Jornal Nacional, William Bonner leu a notícia durante 1 minuto e 22 segundos. Sem imagem. Apenas uma “nota pelada”, como se diz no jargão exclusivo da turma que trabalha em telejornalismo. O texto do JN ressalta que o doleiro “não apresentou provas”. Informa ainda que o próprio Messer afirma que nunca se encontrou com os irmãos Marinho. Em seu principal telejornal, a Globo foi comedida, tentou abafar a história. 

No site da Veja, que deu a notícia em primeira mão, há um trecho inusitado, incomum na grande imprensa quando noticia cada nova etapa da Operação Lava Jato: “O histórico dos últimos anos de delações na Justiça brasileira recomenda muito cuidado com acusações do tipo, muitas vezes feitas de forma irresponsável pelos réus como uma tentativa desesperada de reduzir a pena”. A revista parece zelosa com o amplo direito de defesa.

A delação de Dario Messer foi homologada. É oficial. Em tese, isso significa que ele teria apresentado elementos com alguma consistência. Se tudo foi feito dentro dos conformes, as autoridades teriam, a partir das revelações do delator, um caminho para chegar a provas dos eventuais crimes. Mas, como se vê no alerta da Veja, temos de ter precaução. Não é qualquer delator que vai destruir reputações inocentes. Parece algo razoável.

A postura da Veja é a mesma nos demais grandes veículos. De repente, bom senso, sobriedade e responsabilidade com a informação caíram sobre a mesa de todos os editores. Que coisa, não? Não era assim até ontem, quando o objetivo das “grandes delações” era pegar Lula, Dilma e a petralhada. Nos últimos cinco anos, os garotões da Lava Jato detonaram como queriam. Defesa, para Sergio Moro, era “showzinho” de advogado.

A Globo e a Veja têm razão. É preciso ter muito, muito cuidado mesmo, com a farra das delações. Quem acompanha o blog sabe o que penso sobre o tema. Num bocado de texto, comento estripulias e delinquências que saíram daquela excrescência chamada de República de Curitiba. Globo e Veja não pregavam nos demais casos de delação o que pregam agora. Para a família Marinho, aliada fiel do lavajatismo, o drama é mais pesado.

Outra notícia do momento parece combinar com o caso Doleiro-Marinhos: a Polícia Federal concluiu que a delação de Antonio Palocci é uma porcaria que nada vale. É o que já se sabia, faltava somente uma assinatura oficial. Agora não falta mais. E o que dizia o ex-ministro? Dizia que Lula era o destinatário de uma fortuna depositada em contas no exterior. A PF diz que as “denuncias” não passam de um apanhado no Google.

A delação do ex-ministro é aquela mesma que o então juiz Moro liberou às vésperas da eleição de 2018. Foi o lance mais ousado do cabo eleitoral que seria ministro da Justiça do presidente eleito. A decisão da PF desmoraliza – um pouco mais – o juizinho parcial de Maringá. O trololó de Palocci já havia sido recusado até pelos bravos rapazes do MPF. Ou seja, parece que, no caso da delação contra Lula, ninguém teve lá “muito cuidado”. 

Como a Lava Jato e Sergio Moro viraram inimigos de ocasião de Bolsonaro, o negócio vai render. O presidente foi às redes sociais e tripudiou com as revelações do doleiro maior sobre a Globo. O capitão disse que estava ansioso para ver o Fantástico deste domingo – queria conferir a reportagem sobre o assunto. Faz sentido. Esse era o padrão global na cobertura das operações que batiam nos endereços durante a madrugada.   

Não, não houve reportagem sobre isso no Fantástico. A Globo deve entender que não há interesse público. Mas e se o doleiro tivesse afirmado que entregava dólares, durante anos, para o senhor Lula da Silva? Como seria a cobertura do Jornal Nacional? Pela fumaça, do ponto de vista legal, Roberto Irineu e João Roberto podem ficar tranquilos. Estão livres dessa. Agora, no mundo da política, as consequências farão algum estrago.

Nas redes sociais do governo, alagoanos dizem o que pensam sobre a gestão da crise. É conflito!

  • 30/07/2020 15:25
  • Blog do Celio Gomes

O que você acha da atuação das autoridades no combate à pandemia do novo coronavírus? Afinal, quem defende o isolamento máximo? Será que não é melhor algo mais flexível? Ou vamos partir para a reabertura de tudo, de uma vez por todas? Fase vermelha. Ou seria amarela? Quem sabe não seria mais adequado decretar logo a fase laranja? Pouco mais de quatro meses depois de o país mergulhar na pior crise sanitária em um século, ainda predominam as dúvidas e as divergências. Em alguns debates, e sobre alguns pontos específicos, nem adianta tentar a conversa. Não tem acordo sobre nada, é vasta a gritaria, ninguém se entende.

Uso da máscara, o funcionamento da economia, as aglomerações... Os mesmos itens continuam a provocar brigas e até mesmo separações em famílias. O Brasil ganhou o campeonato da tragédia, ali, pau a pau com os Estados Unidos. Mas nem as filas para enterro e as covas coletivas fizeram a população se tocar como um todo. Cada um que diga o que é melhor e pronto. Nos dias atuais, a ciência é confrontada pelo terraplanismo virótico. Se você entra numa arena dessas, já perdeu.

Há dois dias o governo estadual flexibilizou mais um pouco o fechamento de setores da economia. Autorizou-se a reabertura de academias de musculação e a volta do transporte intermunicipal. Ao passar pelo Instagram oficial do governo, que trazia o anúncio da novidade, prestei atenção nos comentários dos leitores. A reação que se vê no conjunto é uma síntese do brasileiro diante da crise. Abaixo uma seleção do que pensa o alagoano. Repara só.

bellaoliveira91 - “É o que Véi? Academias voltando? Pqp, vai morrer muita, muita gente”. 

andreiacavalcantejj - “Quando ele [o governador] mandou abrir os barzinhos, vocês não fizeram esse alarme, ne?”.

elisienepaz - “As pessoas têm q entender que o combate à Covid-19 é uma responsabilidade de todos, não depende só dos governantes não. Somos ­­­­responsáveis por nós e pelo outro. A partir do momento que me cuido, cuido do outro?”.

tenoriojv - “Quem gostou, vamos treinar! Quem não gostou, continua tricotando, costurando máscara, dando de comer ao gato e digitando “fica em casa” nas redes sociais. Só vejo a galera reclamando da reabertura das academias, mas não deixam de ir para os shoppings, para as praias e nem para os bares. Chega de hipocrisia!”.

daianemorais1 - “Abre logo tudo pra morrer todo mundo, irresponsabilidade total desse governador sem noção, não vejo nenhuma fiscalização em NADA e a quantidade de pessoas sem usar máscara é absurda!!”.

fernandaelias - “Se não mudou de fase, não deveria ter antecipado a permissão de academias, mas sim esperar a fase determinada, anteriormente, para tal”.

gleybsonilva0 - “Acabou de passar no Jornal Nacional que Alagoas foi o estado que caiu números de mortes e registro de casos em todo o Brasil! E pq esse governador fica botando medo na população?”.

irenildabritode - “A população só procura culpado e não se olha fazendo o contrário do que é orientado. Tá abrindo, vai quem quer para as aglomerações!!! Povo sem noção, nunca assume as próprias opções e responsabilidades!!”.

a paulinha ap - “Só sedentário vai acha ruim abrir as academias”.

ninho ninho - “Ontem o governador falou em ter de voltar a fechar os estabelecimentos e hoje amplia a flexibilização. Incoerente!”.

flaviana pedagoga - “Transporte intermunicipal em dias alternados? 🤦🏽‍♀️ meu pai do céu”

emanoelamaximo - “Só quero ver a bagaceira no dia dos pais com as churrascarias lotadas” 😓

anarafaelachs - “Isso é um vírus. Nós temos que nos adequar a ele. Tudo fechado não resolve nada. Abre tudo!”. 

faaphaela freitas - “Agora sim... Os casos vão subir igual foguete com a liberação dos transportes intermunicipais. Vocês fizerem nada q preste liberando as lotações. Deus queira q não, mas é bem possível ficar pior agora com a volta dos transportes”.

milenamonitora - “E as creches quando reabrem? Pois para os pais trabalhar precisam ter aonde deixarem os filhos com segurança e cuidados”.

annapespindola - “Isso só pode ser palhaçada!”.

Terremoto na República da Lava Jato

  • 29/07/2020 17:55
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As palavras do procurador-geral da República, Augusto Aras, produziram um novo terremoto político no país. E, longe de ser algo inédito, a parada é mais explosiva porque joga Judiciário e Ministério Público no coração da bagaceira. Outra vez. Em debate com o grupo Prerrogativas, formado por advogados criminalistas, Aras denunciou que a força-tarefa de Curitiba é uma “caixa de segredos”. Ainda segundo ele, os procuradores recolheram dados de mais de 38 mil pessoas – a partir de critérios desconhecidos – para investigação. A ser verdade, estamos diante de um aparato clandestino.

Aras defendeu com todas as letras que é preciso “acabar com o lavajatismo” – o que nada tem a ver com arrefecer no combate à corrupção. Como se sabe, qualquer crítica aos abusos cometidos pela força-tarefa curitibana é logo tachada de leniência com a bandidagem. É uma tática delinquente que os doutores do MPF e seus defensores adotam para desqualificar as acusações. Quem acompanha o blog sabe o que penso sobre os heróis de toga.

O que o procurador-geral fala agora é o que se sabe há muito tempo. As reportagens do Intercept Brasil estão aí para quem quiser constatar o conjunto de barbaridades que os doutores da Lava Jato aprontaram nos processos que levaram adiante. O atropelo de regras elementares está devidamente registrado nas vergonhosas conversas reveladas na “Vaza Jato”. Deltan Dallagnol e sua patota se veem como intocáveis, acima da lei e da Constituição.

Vejam a pose desses elementos na foto que ilustra o texto. É a imitação do cartaz de Os Intocáveis, aquele do agente Eliot Ness. (Aqui em Alagoas há delegados e outras autoridades, fanzocas de Dallagnol e Sergio Moro, que também querem agir sem prestar contas a nada e a ninguém). Investigadores que recorrem ao delito para provar suas teses são tão bandidos quanto o pior dos corruptos. E isso ocorreu, sem dúvida, na Lava Jato.

Por falar em Sergio Moro... Aquele senhor, que era juiz e, ao mesmo tempo, cabo eleitoral de Jair Bolsonaro, foi um dos que reagiram às palavras de Augusto Aras. Premiado com o posto de ministro da Justiça depois de desonrar a magistratura, Moro já anda espalhando que foi “usado” pelo presidente. Segundo sua fábula de ocasião, Bolsonaro nunca quis, de verdade, enfrentar a corrupção. Era tudo falso, uma tremenda ilusão, como se sabe hoje.

Nossa, que surpresa desagradável! Moro se junta ao exército de inocentes cidadãos de bem que “foram enganados” pelo capitão da tortura. De fato, a trajetória de Bolsonaro revela o quanto ele foi um operoso parlamentar das causas nobres. Contem outra! Um medíocre em estado amplo, especialista em tráfico de influência e rachadinha com salário de servidor, o parlamentar do baixo clero é o mesmo que se elegeu presidente. Ninguém enganou ninguém. Isso é apenas, como se diz, a construção de uma narrativa. 

Ao menos nas primeiras horas após as declarações de Augusto Aras, as reações eram de um alarme de tsunami. Na Globo News, vi jornalistas, juristas e políticos decretarem o fim do mundo. Socorro, querem matar a Lava Jato, essa trincheira de ética, essa ilha de perfeições no meio de um país degenerado! Naturalmente isso é tão somente a reafirmação da propaganda – enganosa – que se faz da Lava Jato desde que a operação está na praça.

Nos processos de Curitiba, Moro orientou a acusação, ou seja, fez tabelinha com o MPF. O juizinho parcial também indicou testemunhas para que os garotões do grupo fossem pegar. Com a blindagem da toga, o sujeito tratava o amplo direito de defesa como “showzinho” de advogados. Tá tudo eternizado nos diálogos do Telegram.

As intenções de Augusto Aras não são muito edificantes. Eleito na onda do lavajatismo, Bolsonaro hoje é inimigo da turminha de Curitiba, Sergio Moro no pacote. Por isso escolheu Aras para o cargo, ignorando a eleição da listra tríplice. (É um direito do presidente da República, está na lei, então não contesto). Aras quer uma vaga no STF.

A barulhenta repercussão das críticas feitas pelo chefe do MPF segue a todo volume enquanto vou terminando o texto que você lê agora. Não dá pra saber se haverá alguma consequência prática e imediata. Provavelmente não. Mas pode-se apostar em efeitos a médio prazo, com forte influência nas eleições de 2022. Mais ou menos por aí.

Jair Bolsonaro, Arthur Lira e o impeachment

  • 29/07/2020 00:11
  • Blog do Celio Gomes

O deputado federal Arthur Lira é o candidato do Palácio do Planalto à presidência da Câmara. A eleição é somente no ano que vem, mas a disputa foi precipitada no calor da crise permanente – que se multiplica e ganha novos capítulos a cada semana. O parlamentar do Progressistas se tornou aliado fiel de Jair Bolsonaro, apresentando-se como alternativa ao grupo sob influência do deputado Rodrigo Maia, o atual presidente da Câmara. Ao longo de seu mandato, Maia foi alvo da fúria de Bolsonaro em diversas ocasiões. Para isso, o capitão se valeu daquele troço chamado gabinete do ódio.

A raia mais fanática do bolsonarismo não se cansa de atirar contra o chefe da Câmara. As passeatas que pedem intervenção militar e o fechamento do Congresso e do STF atacam especialmente Rodrigo Maia. Também mais de uma vez, o deputado perdeu a paciência e bateu pesado no comportamento desvairado do presidente que corteja milicianos, torturadores e grupos de extermínio. A relação jamais transcorreu em paz.

Desde o ano passado, Lira vem crescendo no Legislativo brasileiro. Tornou-se líder de seu partido e foi ampliando a influência sobre seus pares. Foi aí que entrou o Centrão. O histórico bloco é dado a coalizões a partir de interesses paroquiais – para recorrer ao eufemismo. Eleito presidente da Casa, Maia soube agregar essa turma que tem peso decisivo nas votações. A certa altura, Lira se arvorou pra cima do bloco e passou a liderar.

O plano do parlamentar de se tornar o comandante da Câmara ganhou com Bolsonaro um cabo eleitoral forte. É verdade que a posição do presidente é também arriscada, ao ligar seu prestígio a uma guerra a ser travada em outro poder. Nos governos Lula e Dilma, ficou claro que esse engajamento do Planalto pode acabar mal.

É evidente o interesse de Bolsonaro na vitória de Lira. Quem estiver à frente da Câmara a partir do começo de 2021 vai atravessar os dois anos finais do mandato presidencial. Pelo que aprontou até agora, toda noite o presidente tem pesadelo com um impeachment. E o que não falta é pedido formal pra que isso seja detonado.

Uma pessoa, somente uma, tem o poder de mandar adiante ou travar para sempre um pedido de impeachment: sim, o presidente da Câmara. Bolsonaro morre de medo que no comando da Casa apareça seu próprio Eduardo Cunha. Como vocês lembram, foi Cunha que levou à tramitação o processo que viria a derrubar Dilma.

Não há esse papo de que a intenção de Bolsonaro é viabilizar Arthur Lira pra facilitar a aprovação de projetos de interesse do país. A fantasia serve para disfarçar o que de fato está em jogo – para Jair e para o nosso alagoano. O acordo é que a Presidência abra o coração cheio de bondades para Lira. Em troca, não ao impeachment, nunca.

O mandachuva do Progressistas não é bobo, longe disso. Tem experiência de sobra depois de ralar em mandatos da vereança e da Assembleia estadual, até partir para Brasília. Mas Rodrigo Maia parece, digamos assim, ter maior capacidade de articulação nas horas decisivas. O grupo do presidente da Câmara não ia ficar sem fazer nada.

E veio a notícia mais barulhenta dos últimos dias no campo das articulações políticas. MDB e DEM (partido de Maia) anunciaram que estão fora do Centrão. Com isso, reequilibram as forças e reduzem o cacife de Arthur Lira. Para não passar recibo do golpe, ele diz agora que isso já estava previsto. Tenta não apelar, ainda, para o ataque.

A foto que ilustra este texto mostra a dupla de parceiros que se formou repentinamente. A imagem desmonta por completo a tese de que Bolsonaro e seu governo rejeitariam qualquer prosa com a “velha política”. A não ser que alguém veja em Lira o suprassumo da vanguarda na vida pública brasileira. Com a palavra, a “nova direita”.

Após a saída de dois grandes partidos do Centrão, Maia se fortalece e reafirma sua influência nos rumos das negociações. No outro lado, Lira sai enfraquecido e precisa se mexer para que a derrota do momento não seja o fim de seu projeto de presidir a Câmara. Com eleições municipais no meio do caminho, a ver os próximos lances.

Desembargador que ofendeu guardas dará explicações a ministro alagoano do STJ

  • 27/07/2020 19:48
  • Blog do Celio Gomes

Quanto mais a gente revê uma imagem escandalosamente impactante, menos impacto haverá – e o escândalo vai sumindo. Aquilo que é exposto todos os dias para o mesmo público deixa de ser novidade na velocidade da luz. E se não tem novidade, a plateia perde o interesse. Isso ainda não ocorreu com o vídeo que mostra um desembargador de São Paulo num espetáculo – bruto e patético – de abuso de autoridade. Até agora, a cada nova olhada naquelas imagens, o episódio se desdobra, tratado já como a ilustração de fenômeno tipicamente brazuca. Tá na ordem do dia.

O vídeo veio a público no último dia 18/06. Nas imagens vemos o desembargador Eduardo Almeida Prado de Siqueira sendo abordado por guardas municipais. Eles pediam que o magistrado pusesse máscara de proteção, que é obrigatória em Santos, assim como em quase todo o país. A partir daí, começa a sessão de boçalidade e prepotência que o noticiário não para de reexibir. Já se passaram nove dias desde que aquilo foi ao ar pela primeira vez.

O sórdido comportamento do desembargador Eduardo Siqueira agora é alvo de investigação no Conselho Nacional de Justiça. Em pleno domingo, o corregedor nacional, ministro do STJ Humberto Martins (foto), determinou abertura de uma Reclamação Judicial. Ele deu 15 dias para que o integrante do Judiciário paulista explique sua atitude. Siqueira chegou a rasgar a multa que acabara de receber pelo não uso da máscara.

Como mostrou o Fantástico, o histórico do doutor Siqueira não deixa resquício de dúvida sobre o caráter de Sua Excelência. Em 30 anos zanzando nas salas e corredores do TJ-SP, o sujeito nunca escondeu sua inclinação à patifaria. Ao longo desse período respondeu a 42 ações em processos disciplinares. A maioria foi arquivada, mas ele também foi punido mais de uma vez com “censura”. A complicação agora pode ser maior.

O caso do desembargador Siqueira é, de longe, o de maior repercussão a chegar às mãos do alagoano Humberto Eustáquio Martins. Ele é dono de uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça desde 2006. Está no cargo de corregedor no CNJ desde agosto de 2018. Ao ser ouvido pela Globo, reconheceu que o alvo da investigação é alguém cheio de problemas. Com o clamor nacional, o Judiciário não terá como amansar para um dos seus.

Lá no começo eu falei de fenômeno tipicamente brasileiro. É a velha carteirada misturada à lei do mais forte, digamos assim. Sabe com quem está falando? (Todo mundo voltou a Roberto DaMatta). O cargo no topo da hierarquia, com todos os privilégios que isso garante, dá ao cara a asquerosa convicção de que ele está acima de qualquer um. E está acima das leis. Foi assim no passado, é assim no presente. Muda algo daqui pra diante?

Não sabemos. No caso específico do desembargador Siqueira, as imagens são muito eloquentes. Por qualquer ângulo que se olhe, é repulsiva a postura daquele senhor. Por isso, reitero, ele receberá alguma punição mais séria do que as anteriores. Mas isso somente vai ocorrer devido ao flagrante de celular – e pelos novos tempos que, bem ou mal, balançam tradições que pareciam intocáveis para todo o sempre. É por aí.

Ao abusar vergonhosamente da autoridade que tem, o desembargador fanfarrão deveria ser demitido. Pelo que disse o ministro Humberto Martins, as barbaridades anteriores cometidas pelo magistrado serão revistas. Ele já agrediu fisicamente um advogado e usou uma arma de fogo para intimidar participantes de uma audiência. Vamos relembrar: Siqueira apronta há mais de três décadas. Pelo conjunto da obra, não merece perdão.

Para fechar, digo que o caso desse elemento tem um lado pedagógico. Explico: com toda essa repercussão negativa para ele, colegas de profissão devem repensar seus atos e postura no Judiciário. Ou alguém acha que Eduardo Siqueira é apenas uma maçã podre num reino de virtuosos? Tragicamente, como já escrevi neste blog, o mundo das togas flutua noutro sistema solar. O Brasil precisa que esse planeta paralelo volte à realidade.

Tormenta brasileira: as incríveis histórias no livro que resume o governo Bolsonaro

  • 26/07/2020 17:21
  • Blog do Celio Gomes

Em mais um ataque de nervos, desatinado e sem rumo na vida, Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente da República, desaparece sem dar explicações. O pai precisa recorrer aos amigos do rapaz pra tentar localizá-lo. Decorridos muitos dias e muitas noites, ele reaparece – como se esse comportamento fosse o mais tranquilo do mundo. O vereador carioca é o herdeiro mais problemático no clã Bolsonaro. Não vive um dia sem emitir sinais típicos de uma mente à espera de socorro. A ligação entre Carlos e Jair não é coisa para amadores na mesa do bar ou no Twitter. É caso para a ciência.

Os sumiços de Carluxo, como é mais conhecido na sua turma, embora deixem o pai aos pandarecos, fazem parte do lado mais folclórico na rotina presidencial e do governo. Ainda assim, não foram poucas as vezes em que as estripulias do vereador, por meio de ofensas a adversários e aliados, abriram crises políticas e criaram tensão com as instituições. Desde o primeiro dia de mandato, Bolsonaro e o Zero Dois enlouquecem um ao outro.

O vice-presidente Hamilton Mourão e o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, vivem entre o céu e o inferno na relação com o presidente. Mourão apanhou muito mais até agora, sobretudo dos filhos de Bolsonaro, mas também do próprio dono da faixa. Na surdina, o tratamento é na base de palavrões – algo que não ficaria bem reproduzir aqui. Heleno, sem paciência, já chamou Bolsonaro de “despreparado”.

Ele nega o disparo retórico que deixou o presidente furioso. Quem banca a informação é a jornalista Thaís Oyama, no livro Tormenta, que mostra um balanço do primeiro ano de mandato. O subtítulo – O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos – resume o cardápio que virá. É jornalismo a quente, em cima dos fatos.

O presidente que emerge das páginas confirma o tipo de gente que hoje manda no país. Bolsonaro vive em clima de paranoia, com medo de ser envenenado ou até de ser alvo de drones e atiradores. Toma decisões de modo improvisado para, logo depois, sem base na lógica, recuar do que acabara de decidir. Um barco à deriva.

A jornalista expõe os bastidores de momentos tensos com os então ministros Sergio Moro, Santos Cruz e Gustavo Bebiano (morto em março deste ano). O livro revela que Bolsonaro decidiu demitir Moro ainda em agosto do ano passado. O motivo era a postura do ministro no caso das rachadinhas de Flávio Bolsonaro, o filho Zero Um. 

Moro sobreviveu ali, depois que Heleno, em conversa dura com o presidente, apelou à retórica dramática: Se demitir o Moro, seu governo acaba. Foi um adiamento. O ex-juiz da Lava Jato foi forçado a se demitir em abril passado. Saiu atirando, acusando o chefe de tentar interferir na Polícia Federal movido por interesses ilegítimos.

O amplamente notório caso Queiroz aparece na obra com detalhes que iluminam situações até então nebulosas. Bolsonaro se empenhou de cabeça na tentativa de matar a história na origem. Meteu-se numa trama, cheia de pontas e personagens, para proteger o que realmente lhe interessa: a própria família. O resto é o governo.

O namoro entre Bolsonaro e o Centrão, hoje na pauta diária da imprensa, já estava engatilhado desde os primeiros meses de gestão. O que levou o presidente em definitivo aos braços dos patriotas de centro foi justamente o medo das investigações sobre os esquemas familiares, com Queiroz no meio. É o curso natural das coisas.

Numa reunião com deputados do PSL, ao cravar um acordo sobre aquela história do Coaf e do Banco Central, Bolsonaro viu a deputada Carla Zambelli cair num choro incontrolável. Ela e outros se sentiam traídos pelo casamento entre governo e Centrão. A tropa de choque cobrou o compromisso “sagrado” sobre a nova política.

Escreve Thaís Oyama: Bolsonaro não cedeu à velha política de uma vez: curvou-se a ela aos pouquinhos. Mas não apenas no caso Queiroz. O presidente recorre aos mais baixos expedientes para obter o que deseja. O livro tem muito mais – com destaque para as estranhas relações do capitão com Dias Toffoli, presidente do STF.

Quando o livro saiu, Bolsonaro veio a público despejar sua diplomacia sobre a autora. Recorreu à misoginia e fez piada com as origens familiares da jornalista. Sinal de que há informações relevantes para o leitor. Redatora-chefe da Veja até 2018, Thaís Oiama escreve com precisão e sobriedade. Sem firula, acerta no alvo.

No combate a fake news, Justiça Eleitoral terá atuação inédita nas eleições municipais

  • 26/07/2020 02:53
  • Blog do Celio Gomes

Em 7 de outubro de 2018, a ministra do STF e então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber, deu uma declaração espantosa ao jornal O Globo. Ao ser questionada sobre a avalanche de fake news na campanha eleitoral daquele ano, ela afirmou o seguinte: Não é que o TSE nada tenha feito. Prevenir fake news, eu não conheço como poderíamos ter atuado nessa área onde temos um princípio maior, da liberdade de expressão. Era a confissão de uma fraqueza desmoralizante. Precisamente naquele 7 de outubro o brasileiro ia às urnas para votar, no primeiro turno das eleições.

A entrevista de Rosa Weber foi um desastre para a Justiça Eleitoral. Nos meses que antecederam a hora da votação, o ministro Luiz Fux repetia seu mantra favorito: candidato que apelasse a fake news estaria ferrado nas barras da lei. Ele era na época o presidente do TSE, cargo que passou à colega Weber no dia 14 de agosto, a menos de dois meses das eleições. A gestão da sucessora, no entanto, nada fez contra a farra das notícias falsas.

Na mesma entrevista ao jornal, Rosa Weber piorava tudo a cada tentativa de explicar a inércia da Justiça. O TSE tem dificuldades para enfrentar esse problema [de fake news e outros crimes], como nós todos temos. Toda colaboração que vier, inclusive da imprensa, será extremamente bem-vinda. Após as palavras constrangedoras, encerrou a conversa com os jornalistas. Está claro por que as milícias virtuais fizeram o que quiseram em 2018.

Este ano será diferente, pode apostar. Da eleição de Jair Bolsonaro pra cá, muita coisa mudou quando o assunto são os esquemas de produção de informações falsas. Dois inquéritos no STF estão na cola de patrocinadores e operadores das redes que distribuem ataques difamatórios contra adversários. Nessas investigações, blogueiros e empresários foram alvos de prisão e de busca e apreensão. Mais ações devem ocorrer nos próximos dias.

Na última sexta-feira, contas do Twitter e do Facebook mantidas por bolsonaristas foram tiradas do ar por decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes. Foi mais um golpe na rapaziada do gabinete do ódio e afins. Em outra frente, dias atrás, as próprias redes sociais desativaram dezenas de perfis da turma que venera o capitão-presidente. E tem ainda, no Congresso, a CPMI que vem apertando o cerco pra cima dos bandidos digitais.

As eleições que estão chegando serão coordenadas pelo ministro Luís Roberto Barroso, que agora preside o TSE. Ele dá sinais de que montará uma estratégia de guerra para barrar, identificar e punir, com rapidez, o candidato flagrado nessas jogadas. Não há outro caminho, diante de tudo o que se sabe que houve na disputa de 2018 – e diante dos fatos vistos desde então. O maior desafio de todos é evitar o uso do WhatsApp para fraudar as urnas.

Dois dias atrás, na Folha de S. Paulo, Barroso deu o tom de como pretende tratar o problema. Ao se referir aos que recorrem às táticas milicianas digitais, ele afirmou: A democracia tem lugar para conservadores, liberais e progressistas. Só não tem lugar para a intolerância, a violência e a tentativa de destruir as instituições. Não são pessoas de bem. São bandidos. Com esse cenário a que chegamos, é certo que o TSE não ficará na bravata.

Não se sabe ainda como o tribunal levará à prática a decisão de identificar propagadores de fake news na campanha eleitoral – e nem como vai agir após o eventual flagrante. Também não sabemos que esquema especial haverá no dia da votação. Mas Roberto Barroso não repetirá a passividade de sua antecessora.

Do outro lado da praça estão políticos e suas equipes. A essa altura, o uso das redes é pauta prioritária na cabeça de marqueteiros – das fortes candidaturas, dos nanicos e dos que pretendem estrear na seara eleitoral. Embora não seja novidade, a caça ao voto pela internet será ainda mais complexa – e explosiva – nesta eleição municipal.

Renda Brasil, Paulo Guedes e o comunismo

  • 25/07/2020 18:52
  • Blog do Celio Gomes

Trocando em miúdos, Bolsonaro está decidido a ganhar o eleitorado pelo bolso. O auxílio de 600 reais para os sem-renda, neste período da pandemia que assola o país, foi a senha definitiva para o capitão perceber a “janela de oportunidade”. A popularidade do elemento até subiu desde que o dinheiro começou a chegar na ponta, na mão de quem estava sem nada. Pesquisas de diferentes institutos atestam que a maioria dos beneficiados vê o socorro oficial como obra e graça de Jair Messias. Mesmo que isso não seja verdade, põe Bolsonaro no pedestal do novo pai dos pobres. Por aí.

Corta para Paulo Guedes, o ministro da Economia que despreza políticas de transferência de renda, vistas por ele como verdadeiro crime de lesa-pátria. É que o ministro, todos sabem, é de uma escola de pensamento na contramão de qualquer ideia que lembre os arredores do chamado Estado de bem-estar social. O cara é dos bancos, é do liberalismo, é da autorregulação do mercado. Assim, é o seguinte: quem tiver lascado que se vire.

Na prática, porém, a coisa não tem sido assim. De repente, Guedes passou a bajular Bolsonaro em público, exaltando exatamente a distribuição de dinheiro para as populações mais carentes. Fala como se a dupla (ele e o presidente) estivesse reinventando a roda, fazendo algo inédito na história do país. Ao farejar o aplauso das ruas, o governo parece disposto a apostar tudo no discurso de assistencialismo direto, com repasse de grana.

Sinal definitivo na inflexão do liberalismo de Guedes – com o qual Bolsonaro se fantasiou – é o anúncio da criação do Renda Brasil. A marca fantasia vai, na verdade, rebatizar o Bolsa Família – criação do governo Lula a partir de programas da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso. Cada um vai acrescentando um tijolinho na arquitetura da antiga construção. Mas tudo mudaria no governo da nova direita, reverente ao Estado mínimo. 

Deu-se o contrário. O Renda Brasil é a aposta de Bolsonaro para avançar no Nordeste. Na região, o presidente já vê sua rejeição começar a diminuir. Na outra ponta, é óbvio, cresceu a aprovação ao governo do capitão da tortura. Vejam que o Bolsa Família era “esmola do PT para comprar os pobres”. É o que dizia Bolsonaro, é o pensamento do ministro. E aí estão os liberais a turbinar uma clássica política com DNA de esquerda.

E como ficam os projetos do “gênio” do mercado? Antes, durante e depois da campanha, Guedes prometia um novo mundo aqui no Brasil. A cada ação do governo, a cada convênio, a cada tratado internacional, a cada pacote de privatizações, 1 trilhão de reais cairia nos cofres da pátria. E toda essa fortuna, jamais vista por aqui, nos daria os investimentos para sermos uma potência da gota serena. China e Estados Unidos deveriam tremer.

Miragem. Fantasia. Estelionato. Enquanto Paulo Guedes não consegue privatizar nem os Correios, Bolsonaro se esbalda na “inauguração” de mais uma etapa do milenar projeto de transposição do rio São Francisco. Lá estava o sujeito, nos trajes do mais mequetrefe populista, “levando água para os sertanejos”. Não era essa a gestão que os liberais na economia e conservadores nos costumes anunciavam a seus seguidores. Mas é o que temos.

Há uma dúvida cruel na cabeça dos donos do dinheiro diante desse desempenho do ministro da Economia. O que está acontecendo com aquele parceiro do grande capital e da ciranda financeira? É ainda confiável para os “investidores”? Para tumultuar ainda mais o panorama, Guedes e Bolsonaro tramam agora uma nova CPMF. Virá com outra sigla, claro, numa tentativa de disfarçar o indisfarçável. Ninguém aposta nada no horizonte.

Outro dia, em entrevista à CNN Brasil, para defender suas fixações, Guedes atirou no Plano Real. É a prova definitiva de quem é o ministro de Bolsonaro. Um ressentido que nunca engoliu o fato de jamais ter chegado nem perto do protagonismo daquela equipe que, lá nos anos 90, mudou a realidade brasileira. Ele tem inveja de Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Armínio Fraga – figuras centrais na vida pública e na academia.

Como vocifera o apoplético historiador Marco Antonio Villa, Guedes nunca escreveu um livro, um ensaio que seja, para expor suas ideias ao debate. Daí sua ojeriza ao pessoal do Plano Real. Não é um pensador, um estudioso de economia. É tão somente um brucutu, cão de guarda na defesa de privilégios dos milionários. Com sua piscadela para um “Estado-babá”, periga atrair a fúria dos caçadores de comunistas. Era só o que faltava. 

O perigoso cargo de secretário de Saúde

  • 24/07/2020 01:36
  • Blog do Celio Gomes

No ano passado, o jornalista Thomas Traumann lançou O Pior Emprego do Mundo, livro em que narra a extraordinária saga de homens e mulheres que ocuparam o cargo de ministro da Fazenda no governo brasileiro. Na obra, o autor afirma: Todo ministro da Fazenda do Brasil dorme com uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça, segura apenas por um fio fino que pode ser rompido a qualquer momento. Aplico a ideia de Traumann ao que se passa com o posto de secretário de Saúde. Este sim, hoje, é um emprego perigosíssimo no país.

Vejam quantas operações policiais já ocorreram desde a explosão da Covid-19. Titulares da Saúde foram acusados de desvios, alguns foram demitidos e houve até prisões. Tudo isso decorre de supostos esquemas para fraudar a aplicação dos recursos destinados ao combate da pandemia. Parece que todo santo dia, alguma nova denúncia vai acabar com a carreira de mais algum secretário Brasil afora. O clima é de tensão – forte e permanente.

Apesar da zoada promovida por algumas figuras em busca de dividendo eleitoral, até agora o governo de Alagoas não engrossou as estatísticas da fraude com a verba da saúde pública. Esperamos que continue assim. No caso da compra de respiradores pelo consórcio dos estados do Nordeste – que se revelou irregular –, o Estado é vítima e não culpado. Sim, a honestidade na condução da coisa pública é uma obrigação, requisito básico em toda área.

Mas, sabe como é, a tentação é um negócio terrível. Por isso, a transparência é regra vital na rotina da gestão pública. Nesse quesito, pelo que sei, o governo tem sido eficaz. Além de todos os dados que qualquer pessoa pode conferir nos canais oficiais pela internet, a secretaria mantém permanente diálogo com o Ministério Público (Estadual e Federal). Tudo é compartilhado com os membros do ente fiscalizador, numa relação sem filtros.      

Na cadeira de secretário estadual de Saúde está o advogado Alexandre Ayres (foto). Foi dele a ideia de fazer conferências semanais com promotores de Justiça e procuradores da República, nas quais expõe todos os dados referentes ao enfretamento da Covid. Nessas reuniões demoradas, Ayres explica as etapas do trabalho, revela números, afasta dúvidas e se submete ao escrutínio do MP. A iniciativa é saudada como exemplo para o país.

A missão já era uma dureza, mas o tamanho do desafio se multiplicou ao infinito depois que veio a pandemia. A nova realidade era um teste de fogo para o titular da pasta. Além de zelar por uma área desde sempre pra lá de complicada, Ayres teve de mostrar a que veio diante do novo inimigo – implacável e imprevisível. Seu desempenho mostra que, até o momento, passou no teste mais difícil que um gestor poderia encarar.

Eis que, no meio da crise sanitária, pintaram rumores de “fritura” pra cima do secretário estadual. Como informou o jornalista Voney Malta, meu colega de blog aqui do lado, servidores estariam inconformados com medidas de ajuste na folha salarial promovidos por Alexandre Ayres. Segundo apurei, o Estado tenta enxugar as despesas, com incentivo à aposentadoria para funcionários com tempo de serviço pra se aposentar. Não há ilegalidade.

Além disso, com as ações sobre a folha, o governo sustenta que abre caminho para concurso público. Essa é, aliás, uma promessa de campanha do governador Renan Filho. Alagoas não realiza concurso na área da Saúde há mais de 15 anos. Não haveria, portanto, perseguição a servidor – como se especula, claro, em aloprados debates de rede social. Então, vejam: em plena guerra contra o coronavírus, tem gente de olho na cadeira de Ayres.

A mínima suspeita sobre qualquer detalhe no trato dos recursos públicos, assim como na gestão como um todo numa secretaria, deve ser fiscalizada com lupa. Mas é crucial separar problemas reais de devaneios produzidos com intenções eleitorais. E claro que, numa hora dessas, maquinar nos bastidores a partir de demandas casuísticas é praticamente crime hediondo. É do jogo político, diga-se, mas continua sendo criminoso.

Não sendo ministro da Fazenda, Alexandre Ayres pode até não estar no pior emprego do mundo. Mas o volume de encrenca a desafiá-lo não é para qualquer um. Até agora, repito, ele passa no teste sem aprontar presepada de nenhuma espécie. É bom que assim seja, afinal para vencer a pandemia é preciso competência e honestidade. Além do mais, estamos tratando da vida de milhões de alagoanos. Que o secretário se mantenha no rumo. 

A agonia tucana e a eleição que vem aí

  • 23/07/2020 18:13
  • Blog do Celio Gomes

Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin eram até um dia desses as três figuras mais fortes no tucanato. Não só isso. Também eram, para além de suas filiações políticas, três lideranças de peso, com atuação de alcance nacional. A influência do trio extrapolava, portanto, as demarcações partidárias. Não foi do nada, como é óbvio concluir, que os três já concorreram à Presidência da República (Serra, por duas vezes). Fernando Henrique Cardoso não entra nessa classificação porque, há muito tempo, flutua acima do bem e do mal.

A trágica ironia para os tucanos é que Aécio, Serra e Alckmin vão sendo rifados da vida pública de um jeito que nunca imaginaram – com o carimbo da corrupção. São acusados dos crimes que sempre apontaram nos outros, nos adversários, particularmente na turma do PT. Cada um com sua cruz, os ex-donos da bola na política brasileira vivem agora para tentar escapar de uma cela.

É um desfecho melancólico pra quem parecia livre de aperreações policiais – dessas que estão na imprensa quase todos os dias. Não que eles fossem santos e somente agora tenham capitulado ao mundo dos batedores de carteira. É que ao longo de muitos anos, desde a década de 90 até ontem, a impressão é de que uma blindagem especial garantia o verniz que dava ao PSDB o selo da ética.

Os dois ex-governadores de São Paulo e o ex-governador de Minas Gerais estão enrolados em denúncias da Lava Jato. Mas vamos lembrar: como mostraram as gravações do The Intercept, Sérgio Moro barrou investigação pra cima de FHC. Segundo o ex-juiz – que usou a toga pra fazer politicagem –, os investigadores não deveriam melindrar personalidades que apoiavam a operação. 

Aécio se acabou naquele telefonema com o empresário bandido Joesley Batista. Serra foi flagrado como suposto beneficiário de propina depositada em paraísos fiscais. Alckmin acaba de ser denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção e caixa dois eleitoral. Esses casos, em pauta agora na grande imprensa, estão aí a serviço daquela turminha da Lava Jato, Moro incluído.

Mas a Lava Jato é outro assunto. Devo voltar ao tema depois. Como eu ia dizendo, a quadra é mesmo melancólica para ex-figurões que, depois de tanto poder, hoje têm suas biografias irremediavelmente manchadas. Por isso muita gente já profetiza a morte do PSDB. Claro que não é um processo repentino. Na eleição de 2018, Alckmin não passou nem perto do segundo turno.

Esse talvez tenha sido o sinal mais evidente da decadência brutal que atingiu o partido. A sigla perdeu a condição de alternativa natural ao PT ou a outro eventual polo de ideias. Ignorada por quase cem por cento do eleitorado na disputa de 2018, não se sabe como a legenda pode recuperar protagonismo na parada de 2022. Quem está agitando o ninho com capacidade pra virar o jogo?

Claro que a liderança destinada a salvar a chácara tucana é João Doria, o governador paulista. É o que dizem seus seguidores. Mas, quanto a essa resposta automática, há controvérsias a perder de vista. FHC, lá do alto, contempla a terra desolada, lê uma página de Vargas Llosa e esnoba a elegância fake do governador. E, pra completar, não é de hoje que o ex-presidente acalenta o bom moço Luciano Huck.

Há também, pintando nas quebradas tucanas como um nome de futuro, outro governador. Trata-se de Eduardo Leite, o jovem político que conquistou o eleitorado do Rio Grande do Sul. É uma incógnita. Quem mais? O senador Antônio Anastasia foi derrotado ao disputar o governo de Minas. No parlamento brasileiro, não há um mísero sinal de alguma força com a cara do partido. Assim não dá.

Diante de tudo isso, não vi nenhuma palavra de algum tucano das Alagoas. Por onde anda o ex-senador e ex-governador Teotonio Vilela Filho? O prefeito Rui Palmeira pulou do barco e está sem partido. O senador Rodrigo Cunha também não se manifestou após as notícias de denúncia de corrupção contra Serra e Alckmin. As eleições municipais vão testar a resiliência dessa galera.

Eleição para prefeito: partidos estão na reta final para escolha dos candidatos

  • Redação
  • 10/07/2020 20:57
  • Blog do Celio Gomes

Está chegando a hora da definição das candidaturas a prefeito. Segundo o novo calendário, com datas prorrogadas em decorrência da pandemia do coronavírus, os partidos podem escolher seus nomes entre 20 de julho e 5 de agosto. Daqui a dez dias, portanto, devem ser conhecidos oficialmente alguns dos que pretendem governar nossas cidades. Por aqui, claro, o suspense maior é em torno dos concorrentes à Prefeitura de Maceió. Desde que explodiu a crise na saúde, as eleições quase sumiram do noticiário.

As eleições, como você sabe, foram deslocadas de outubro para 15 de novembro. Nas cidades onde houver necessidade de um segundo turno, o eleitor voltará às urnas em 29 do mesmo mês. As novas datas, aprovadas por emenda à Constituição, enterraram de vez o delírio de muita gente que defendia a prorrogação dos atuais mandatos. Fosse assim, o pleito eleitoral seria jogado para 2022.

A esdrúxula tese atendia exclusivamente aos interesses de gestores municipais que teriam assim seis anos de mandato. Também por essa estranha via, daqui a dois anos haveria eleições unificadas – de vereador a presidente da República, passando por prefeituras, Assembleias estaduais e Congresso Nacional. Antiga, a proposta é válida, mas não pra ser adotada assim, no arrastão, a toque de caixa.

Mas as convenções eleitorais, desta vez, não vão lembrar em nada a tradição que todos conhecemos. Depois de décadas seguidas, não haverá aquelas festanças em grandes clubes e ginásios da capital, com milhares de pessoas, charanga, balões e barulho de estourar os ouvidos. Cada coligação terá de realizar sua convenção de maneira virtual, como recomendam protocolos obrigatórios da medicina.

Suponho que o veto a convenções festivas tem ao menos um ponto positivo: não haverá fortuna sendo investida naquele oba-oba que costuma durar um dia inteiro. Claro que os partidos não estão muito ligados nesse romantismo de economia, afinal o fundo partidário e o fundo eleitoral estão aí para bancar, com folga, todas as despesas. Mas, sem a festa, tem muita gente triste.

E por onde andam os virtuais candidatos? Do começo do ano até março, eles marcavam presença nas páginas e telas da imprensa. Do mesmo modo, apareciam os caciques (e os coadjuvantes) com uma informação e outra sobre costuras e negociações para alianças. De repente, tudo mudou.

A partir de abril a pauta sobre as eleições praticamente desapareceu do dia a dia. Longe dos holofotes, porém, ninguém no meio político deixou o assunto de lado. Isso seria como pedir para você deixar de respirar. As negociações seguiram, mas em outro ritmo, sem publicidade.

E os pré-candidatos, meu amigo? Em Maceió, até um dia desses, com ou sem pandemia, três nomes apareciam com mais destaque – e ainda aparecem: Ronaldo Lessa, João Henrique Caldas e Alfredo Gaspar de Mendonça. São três opções com perfis e trajetórias bastante distintas. Quem é mais forte?

Lessa está nas paradas desde o começo dos anos 80 do século passado. Em tese é, de longe, o mais experiente nas idas, vindas e crises da política. Foi de deputado estadual a governador e hoje é deputado federal. E já exerceu também o cargo que agora pleiteia de novo – foi prefeito de Maceió.

Também deputado federal, JHC tenta outra vez o posto que disputou quatro anos atrás, sendo derrotado por Rui Palmeira, que garantiu sua reeleição. O parlamentar busca colar sua imagem ao discurso festivo de “combate à corrupção”. É um firme entusiasta de Sergio Moro e da Lava Jato.

Alfredo Gaspar de Mendonça nunca foi do ramo – ou seja, ao contrário de Lessa e JHC, estreia agora na política. Para isso, deixou uma carreira vitoriosa no Ministério Público Estadual, onde chegou ao topo como procurador-geral de Justiça. Desde 2018, vem sendo incentivado a buscar um mandato.

Fala-se ainda no deputado estadual Davi Davino Filho como alguém que teria algum apoio para disputar a prefeitura da capital. Não sei. Já o PT decidiu em maio que Ricardo Barbosa será o candidato da sigla. Ele ganhou a disputa interna contra Luciana Caetano, que perdeu atirando.

Apesar do pouco tempo até as convenções – em menos de um mês, tudo estará sacramentado –, alguma novidade ainda pode pintar. É o que acreditam alguns nomes da política estadual. Mas não vejo de onde partiria algo muito diferente do que está na praça, e com força para brigar.

Lembrei: fala-se também no senador Fernando Collor. Mas aí não dá para cravar nada diante dessa eventual possibilidade. Como sempre faz nessas horas, ele deixa a coisa correr, nem nega nem confirma, muito pelo contrário. Decidir aos 45 do segundo tempo é um de seus esportes favoritos.

Nos próximos dias, para todos os nomes citados, a prioridade é ampliar alianças. Ao máximo.

Tô Feliz (Matei o Presidente)

  • Redação
  • 09/07/2020 13:30
  • Blog do Celio Gomes

Na Folha de S. Paulo, o jornalista Hélio Schwartsman escreveu um artigo que está provocando uma zoada e tanto. O título já entrega a ideia-bomba: Por que torço para que Bolsonaro morra. O texto veio após o presidente anunciar que contraiu a Covid-19. O colunista defende a tese de que a morte do capitão faria bem ao país. Segundo o conceito de “consequencialismo”, ele afirma, “ações são valoradas pelos resultados que produzem”. Portanto, “o sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem maior”.

É evidente que não estamos diante de uma tese inofensiva. E é claro que o governo e aliados de Jair Bolsonaro partiram pra cima do integrante da Folha – aliás, um medalhão que assina textos no jornal há umas três décadas. O ministro da Justiça, André Mendonça, um operoso pau-mandado, já acionou a Polícia Federal. O governo quer enquadrar Schwartsman na Lei de Segurança Nacional.

O secretário especial do Ministério das Comunicações, Fábio Wajngarten, respondeu ao jornalista, também com um artigo na própria Folha. Em seu texto, ele acusa Schwartsman de propagar o ódio e agir contra valores da democracia. Sim, na hora de posar de vítima, até bolsonaristas caninos se dizem os mais puros defensores de princípios democráticos. É a ficção disfarçada de realidade.

Não, eu não desejo a morte de ninguém. Bolsonaro deve ficar vivinho da silva para responder por todas as barbaridades que comete no desgoverno que destrói o Brasil. Os males que esse senhor provocou até agora já seriam suficientes, com sobra, para um processo de impeachment. Aliás, esse é um fantasma que assombra o amigão de milícias. O xamego com o Centrão decorre desse temor.

Não gostei do texto de Schwartsman. Como faz com frequência em seus artigos, ele debulha em poucas linhas um arremedo de alguma teoria filosófica para então defender suas ideias. (Ele também é formado em Filosofia). Sempre me parece meio forçado seu estilo, ancorado em elucubrações supostamente eruditas. Não é a primeira vez que ele apela a alguma provocação barata.

A controvérsia lembra um pouco, ao menos para mim, a cantoria de Gabriel O Pensador. No remoto ano de 1992, o ainda desconhecido rapper surgiu no mundo da música com um estrondo: numa fita demo, ele lançou Tô Feliz (Matei o Presidente), com versos em que celebrava ter assassinado Fernando Collor. Naquela altura, os escândalos no governo já sinalizavam um destino fatal.

A música teve imediata repercussão e foi censurada. Mas, no ano seguinte, em 93, abria o primeiro disco do jovem rebelde. O debate ganhou as manchetes nos cadernos culturais, com um detalhe que tornava a coisa mais curiosa: a mãe do Pensador, a jornalista Belisa Ribeiro, havia comandado o marketing na campanha eleitoral de Fernando Collor. Parecia enredo de telenovela.

Em 2017, duas décadas e meia depois, o compositor lançou Tô Feliz (Matei o Presidente) 2. Agora em outro Brasil, o alvo é Michel Temer, o vice que herdou a cadeira de Dilma Rousseff, após outro processo impeachment no país. Apesar da virulência das letras, Collor e Temer passam bem.

Jair Messias foi alvo de facada na campanha de 2018. É um sobrevivente, portanto, de tentativa de assassinato. Não se deve avançar certos limites diante de temas mais complicados. Por isso, entre outros aspectos, o jornalista da Folha pode ter sido imprudente. Mas não cometeu crime nenhum.

Em debate, mais uma vez, a combinação entre direitos fundamentais, como a liberdade de imprensa, e o respeito ao ordenamento jurídico. O governo vê o artigo como uma infração às leis, mas isso é apenas uma jogada conveniente à turma do capitão. O inquérito oficial não deve prosperar.

Como alguém já escreveu por aí, torcer pela morte de Bolsonaro é se igualar a ele, um notório entusiasta da tortura e da ação de grupos de extermínio. Seja como for, na arte ou no jornalismo, censura jamais. Podemos detonar o cara, mas Schwartsman tem direito de escrever o que quiser.

Ricardo Nunes Eletro, um “case de sucesso”

  • Redação
  • 09/07/2020 01:53
  • Blog do Celio Gomes

Na foto ao lado, Ricardo Nunes. Ele ficou famoso como garoto-propaganda de sua rede de lojas – a Ricardo Eletro. Defende o “Estado mínimo”. É um desses “empreendedores” que se vendem como case de sucesso. (Publicitários adoram a expressão). São modelos para todos que desejam subir na vida. O empresário é o tipo que despreza essa história de auxílio disso e daquilo para os mais pobres. Chega de “Estado-babá”, como dizem os indignados cidadãos de bem, conservadores e tementes a Deus.

Ah, o mundo da fantasia... Ricardo Nunes foi preso acusado de sonegação milionária de impostos. Pelo que apontam as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de Minas Gerais, o exemplar homem de negócios sonegou nada menos que 380 milhões de reais em ICMS. Sem dúvida, as cifras estão de acordo com o padrão de competência e meritocracia do mundo “liberal”.

É um caso clássico. O empresário que fazia proselitismo em defesa de políticas reacionárias, posando de herói do capitalismo moderno, estava mesmo era sambando na hipocrisia. É mais ou menos como algumas figuras que vociferam ataques contra a corrupção, mas são flagradas em esquemas tão corruptos quanto o que fingem denunciar. Olhando de perto, descobre-se a verdade.

Em outra dimensão, mas com o mesmo tipo de dissimulação da realidade, está aquele casal que ofendeu fiscais da Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro. Reportagem do Fantástico mostrou um engenheiro e sua mulher fazendo piada com os fiscais que pediam que deixassem um bar que descumpria medidas de controle da pandemia de Covid-19. Os dois agem de forma acintosa.

Dois dias depois da reportagem, uma informação desconcertante veio à tona: o engenheiro – que dizia pagar o salário do fiscal com seus impostos – recebeu o auxílio de 600 reais destinados a pessoas sem renda mínima para sobreviver. Ele confirmou que solicitou o pagamento porque estava desempregado, mas, no meio da pandemia, conseguiu voltar ao mercado de trabalho! Tá certo.

Outro episódio, que parece combinar com o Eletro e o “engenheiro civil formado melhor que você”, tem como protagonista a senhora Bia Dória. A primeira-dama de São Paulo disse a uma colega socialite que não se deve dar marmita aos moradores de rua. Segundo ela, esses malandros não querem outra coisa a não ser vadiagem nas praças, parques e calçadas de nossas capitais.

Se você pesquisar no velho Google, vai encontrar outras situações como essas. O traço comum é exatamente este: o falatório em público, para enganar desavisados, derrete quando se vê a prática até então secreta. Desconfie quando um moralista da conduta alheia parece espumar de raiva “contra os desmandos” de terceiros. Mais cedo que depressa, acaba sendo desmoralizado.

Sim, a ascensão do bolsonarismo tem tudo a ver com essas notícias. Foi montado na ficção do “mudar tudo isso que está aí” que Bolsonaro chegou a presidente. O sujeito das milícias, do Queiroz, da fraude no Imposto de Renda e das rachadinhas virou, para muitos, símbolo de honestidade e pureza política. O resultado, trágico, está aí. Somente fanáticos e negacionistas ignoram.

Em Alagoas, gente graúda da política e do empresariado engrossa a falange dos “empreendedores” fãs de Bolsonaro. São senhores e senhoras que vivem nessas manifestações domingueiras na beira da praia da Ponta Verde. Tenho certeza que se uma investigação pra valer caísse em cima, a imagem de alguns exemplos de honestidade não resistiria a um breve inquérito. Fica a dica às autoridades.

De volta ao âmbito nacional, falta pegar o veio da Havan. Luciano Hang já foi condenado em 2003 por sonegação de contribuição previdenciária de suas empresas. Para escapar do xadrez, fez acordo e pagou o que devia. Agora, responde a outra acusação pelo mesmo crime. Deve 2,5 milhões de reais e está no alvo da Receita Federal. Taí o padrão dos patriotas que “combatem” a corrupção.

Presidente Bolsonaro e a Gang das Fake News

  • Redação
  • 08/07/2020 19:13
  • Blog do Celio Gomes

O Facebook derrubou uma rede de fake news patrocinada pela família Bolsonaro. A notícia saiu na tarde desta quarta-feira 8. Eram mais de 70 páginas e perfis com um único objetivo: espalhar mentiras em favor da gang do capitão da tortura. Como se sabe, essa é a estratégia número um da turma que tomou o Brasil de assalto a partir de janeiro de 2019. A máquina de produzir falsidades foi o principal meio de atuação dos marginais na campanha eleitoral de 2018. A decisão do Facebook, portanto, não surpreende.

Ao contrário. A medida anunciada agora pelo gigante da internet confirma os fatos que sempre estiveram aí. Várias reportagens, em diferentes meios, já mostraram como atuam os tais “robôs” criados pelos farsantes para inventar histórias de todo tipo. A prática é alvo de investigações em diferentes níveis, mas até hoje não surtiu nenhum efeito mais sério para os engajados vigaristas.

Salvo engano, o anúncio do Facebook é inédito – ao menos nessa proporção. Assim, o governo Bolsonaro serve de “exemplo” ao mundo. A novidade eleva em alguns graus a desmoralização de um presidente já amplamente desmoralizado. Somos hoje, como já se disse nos quatro cantos, um país com um governo que se tornou um pária internacional. Ninguém quer ficar perto disso daí.

Um falso moralista, dono de uma honestidade de fachada, Bolsonaro enriqueceu na política – na baixa política. Esta semana, a Folha de S. Paulo revelou evidências de que o tal modelo de “rachadinha” vigorou no gabinete do então deputado federal do baixo clero. Em Brasília, o pai repetia o esquema que os filhos tocavam na Assembleia do Rio e na Câmara Municipal paulista.

Vejam que coisa grave. Parlamentares, eleitos para representar a população, com discurso de defesa da ética e da moralidade pública, não passam de uma fraude em larga escala. Entre os perfis falsos denunciados pelo Facebook estão vários controlados pelos gabinetes do senador Flávio Bolsonaro e do deputado Eduardo Bolsonaro. Os caras são craques na bandidagem pelas redes.

O mais sério de tudo isso é o seguinte: parte dessa teia de páginas e contas virtuais era controlada por servidores instalados no Palácio do Planalto. No núcleo duro do bolsonarismo. No coração do governo. É a confirmação, também, daquela pilantragem que recebeu o nome de Gabinete do Ódio. São funcionários públicos bancados pelo dinheiro do povo para perpetrar crimes a rodo.

Nem precisava, mas o caso expõe ainda que a produção em massa de fake news é a base do PSL. Como você sabe, foi com essa legenda de aluguel que Bolsonaro chegou à Presidência. Deixou o partido porque pretendia ser o dono do pedaço, mas trombou com uma raposa chamada Luciano Bivar, presidente nacional da sigla. Deputados do PSL são especialistas na criação de mentirada.

Vi agora há pouco as primeiras reações de alguns dos atingidos pela decisão do Facebook. Sem surpresa, parlamentares já estão jogando a culpa das safadezas nas costas de funcionários. Agiram sem o conhecimento dos políticos. É uma resposta tão previsível quanto indecente, mas, claro, está de acordo com a filosofia da “nova política”. A ver se as revelações provocam alguma punição séria.

É por tudo isso que a Gang Bolsonaro treme de medo diante do inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal desde o ano passado. É por tudo isso também que bolsonaristas aprontam todas pra sabotar a CPMI das Fake News. Em abril passado, o governo tentou variadas manobras para barrar a prorrogação das investigações. Não conseguiu. Os trabalhos da CPMI vão pelo menos até outubro.

É o Brasil de hoje. É o país governado por uma família, sempre atenta ao “filé mignon”, contra os interesses da população. Como já escrevi aqui mais de uma vez, não espere avanços. Em sentido nenhum. A cada novo capítulo da crise eterna, repito: vai piorar. Enquanto Bolsonaro for presidente, o cenário será o pior dos mundos. A mentira como método é só uma fotografia do desastre.

Vamos invadir hospitais e redações?!

  • Redação
  • 17/06/2020 16:19
  • Blog do Celio Gomes

Como será o trabalho dos jornalistas dentro de uma redação (foto)? Como agem em busca de informações para suas reportagens? Esses profissionais da imprensa zelam pela ética na condução de suas investigações? Ou será que um e outro, aqui e acolá, por diferentes motivações, recorrem a meios moralmente discutíveis para obter o que querem? Com essas dúvidas a esclarecer, sugiro que os leitores compareçam a sites, jornais, rádios e emissoras de TV – celular não mão para gravar tudo –, e tirem tudo isso a limpo!

Como você percebe, estou usando a lógica e os métodos de Jair Bolsonaro. Vamos ver de perto, pelo lado de dentro, como, quando e por que nasce uma notícia. O leitor precisa apenas ter cuidado na invasão – porque é disso que se trata, vocês invadirão o local de trabalho dessa categoria profissional. Suponho que os jornalistas consideram tal proposta uma violência, uma aberração, um crime, até.

Os últimos atos e declarações do presidente e de seguidores no topo da República reafirmam o de sempre. O barulho, a bagunça e o confronto, em tempo integral, alimentam o projeto da família Bolsonaro. Nesse rascunho de governo, um amontoado de ministros finge que trabalha enquanto o buraco engole o país um pouco mais. Só faltava mesmo a quadrilha de invasores de hospitais.

Não falta mais. Agora que isso já existe, a única certeza é que uma nova delinquência logo será lançada pelo capitão miliciano, superando a delinquência anterior. É da alma da turma que tomou o país de assalto. E é esse o sentimento que move cidadãos de bem a sair por aí levando à prática o pensamento do mestre, o mito Bolsonaro. O caso virou investigação na Procuradoria da República.

No domingo, a polícia prendeu em Brasília um meliante chamado Renan Sena. Na segunda-feira, foi a vez de Sara Winter ser alvo de prisão pela PF. A dupla demonstra sinais de desequilíbrio mental. Além disso, é claro que estamos diante de dois farsantes a serviço de um grupo partidário. Afora o aspecto legal, a cadeia para os dois é também um recado das instituições para Messias Bolsonaro.

Depois que um bando de celerados invadiu hospitais, obedecendo, repita-se, ao presidente miliciano, lembrei daqueles vídeos que mostram o hospital de campanha montado no centro de convenções de Maceió. Foram produzidos por gente que defende o fim do STF e o fechamento do Congresso. Esses vídeos, que distorcem a realidade, chegaram a ser reproduzidos por vários políticos.

Quando se trata de tais estripulias, o deputado Cabo Bebeto e o aspirante a vereador Flávio Moreno estão sempre na dianteira. A dupla é a melhor tradução da “nova política”. Os dois reproduzem e endossam, na internet, todo e qualquer trambique intelectual bolsonarista. Com esse tipo de “liderança”, na largada de um eventual debate, a gente já desanima. Sujeira pra todo lado!

Um parêntese. Já usei o verso do roqueiro em algum texto por aqui. Sinal de que repito ideias. Sinal de que não é de hoje que os tempos estão pesados. Pensando bem, esse é um dos perigos que sempre estão rondando a esquina e o terreiro da casa. O nosso dia a dia não pode ser capturado por uma agenda imposta por figurinhas acanalhadas. Mas, como já falei aqui, a situação vai piorar.

Enquanto escrevo, entre uma pausa e outra navego pelos sites, lendo manchetes, atropelando notícias. E vou zapeando os canais de informação na TV – Globo News, Band News e CNN Brasil –, olhando a crise (e a vida) ao vivo. Mais ou menos assim. O tema de todos os debates televisivos é o ministro Abraham Weintraub. Aí não dá. Essa pauta – dominante – revela o quanto o país tá lascado.

Para completar o lixão de bizarrices, estão aí os militares emporcalhando, mais uma vez, a trajetória das Forças Armadas. Sem surpresa. Bolsonaro despertou na tropa, do recruta ao general, aquele desejo diabólico de ganhar o poder pelo caminho mais fácil e definitivo – o caminho da força bruta. Disso daí, os patriotas de coturno entendem. Eis um tema para um texto exclusivo. Fica pra depois.

Termino com um alerta e uma recomendação sobre a proposta de invadir redações, aqui em Alagoas, para flagrar as atividades comunistas da velha imprensa. O alerta é: cuidado com o marxismo globalista que se infiltrou nas equipes de reportagem, chefiadas por editores fanáticos por Lenin e Che Guevara! E aos colegas de ofício recomendo precaução no diálogo com a brigada.

Volto mais tarde, com algumas palavras sobre reabertura da economia alagoana!

Lives, golpe militar e “novo normal”: o que a pandemia mudará para sempre?

  • Redação
  • 15/06/2020 04:00
  • Blog do Celio Gomes

Segunda-feira, 15 de junho de 2020. A pandemia de Covid-19 vai completar quatro meses no Brasil. O primeiro caso do novo coronavírus no país foi registrado em 26 de fevereiro. Em 20 de março, o governo de Alagoas decretou situação de emergência. Nesse intervalo de tempo, muita coisa mudou. Quase tudo mudou. E, como consequência inescapável, a vida nunca mais será a mesma – na profecia mais recorrente na caótica produção de ideias sobre a crise mundial. Mas não é sobre isso que escreverei agora.

Quer dizer, talvez seja sobre isso mesmo que vou escrever agora. Porque a pandemia parece alterar a realidade minuto a minuto, tudo está contaminado pelo tema único nos debates públicos e nos dramas privados. Da construção civil à cadeia produtiva do teatro, todas as profissões e atividades de sobrevivência humana estão afetadas. E todos os profissionais (uns mais, outros menos) têm medo.

Não sei. A sentença que fecha o parágrafo acima é apenas um chute. Quando foi que toda a imprensa tratou de um único assunto do jeito que faz hoje com a pandemia? Nunca vimos algo nem parecido. Desde o início, se entendeu que os sinais eram de que o estrago seria forte. Um erro. Não houve um estrago. Produzimos um desastre, uma calamidade em escala mundial. O preço é terrível.

E o mais terrível de tudo é o número de mortes. Concordam as maiores autoridades na medicina que muitas vidas poderiam ter sido salvas se o governo brasileiro tivesse adotado medidas com a urgência que a situação exigia. Sem surpresas, o governo Bolsonaro seguiu o padrão que o distingue: boçalidade, ignorância e falsidades de toda ordem para sabotar o combate à crise sem precedentes.

Isolamento social e quarentena. Para muita gente, taí uma combinação de termos já inscrita na categoria das maldições. Alguns têm a pegada meditação, contemplação, zen-budismo, olhar para dentro... Outro grupo (antigamente falava-se “tribo”) ataca de professor de tarefas domésticas. É a “descoberta” da própria casa! Outros atacam de ativistas, a alma aglomerada de raiva e resignação.

Músicos, cantores e poetas fazem música e poesia pelas redes sociais. O negócio tomou dimensões para além do suportável. É a piada que já virou lugar-comum, de tão repetida em todos os canais de comunicação, do papel ao imparável WhatsApp. Não vi quase nada dessa onda. Mas duas lives muito acima da média foram: 1) Wado & Mopho (João Paulo e Dinho Zampier) e 2) André Abujamra.

Eu falei do lugar-comum em que se transformou a piada com a overdose de lives. Mas o clichê imbatível mesmo, aquele que jamais será superado por nenhuma das expressões da hora, é novo normal. Onze entre dez analistas repetem o termo com uma gravidade digna dos melhores canastrões da dramaturgia. Nas divisões formadas estão, de novo, os céticos e os festivos.

As empresas e os negócios reabrem, em diferentes níveis, a depender de cada pedaço do país. As pressões da economia dobram gestores, não importa a ideologia de cada um deles. Chama atenção a insegurança nas decisões tomadas. Prova disso é o recuo que se viu em algumas cidades que, após flexibilizar o isolamento, fecharam tudo outra vez. Mesmo com a ciência, prevalece a incerteza.

Na pátria do negacionismo – sim, somos nós –, é natural que tenhamos chegado ao topo das ocorrências fatais com a pandemia. A presepada bolsonarista terá mais esse legado de morte para julgamento da História. Não fosse, ao que parece, a postura da maioria dos governadores, o quadro seria muito pior. Agora é o desafio da “retomada”, ainda que isso soe estranho diante do panorama.

Novo normal, no Brasil, é você acordar sem saber se os tanques estarão nas ruas. Afinal, temos ou não o perigo de um golpe – com Bolsonaro presidente, como querem os doentes de sua seita? Não há dúvida: é o sonho na cabeça do brucutu, dessa porcaria que suja a Presidência da República. Mas eu não queria perder mais tempo com o capitão da tortura e sua gang. Por isso o texto termina aqui.

Pandemia: a tortura dos números no governo Bolsonaro! (E Davi Maia & Cabo Bebeto)

  • Redação
  • 08/06/2020 19:22
  • Blog do Celio Gomes

Esconder, maquiar e finalmente fraudar os dados objetivos da realidade. O governo Bolsonaro, mais uma vez, põe em prática o que se pode chamar de princípios da nova política. Se o capitão miliciano terminar o mandato, teremos, durante quatro anos, esse exercício permanente de barbaridade. Nada mais natural para uma gestão em que a mentira tem status de política de Estado. Ainda assim, mascarar os números da pandemia do coronavírus no Brasil é tão tosco e autoritário que surpreendeu o mundo inteiro.

E, desde o governo Bolsonaro, toda vez que o mundo se surpreende com o Brasil, significa mais isolamento global para o país. Como já escrevi aqui, a condição de pária é a que melhor define a irrelevância brazuca sob o comando da gang bolsonarista. Como se vê, o desqualificado presidente repete os métodos típicos dos regimes ditatoriais. Esse arrivista tem de ser barrado.

Em Alagoas, seguidores de Bolsonaro usam caixões e cadáveres para fazer campanha eleitoral. Os deputados Davi Maia (foto) e Cabo Bebeto – dois sintomas graves da pandemia de BozoCovid-17 – estão na dianteira desse descalabro de ordem moral. Para a dupla, a tragédia que já matou mais de 600 pessoas em Alagoas é uma “janela de oportunidades”. Falam até em CPI da Covid-19.

Maia faz o tipo caçador de corruptos e de malfeitores. Ele é do Renova Brasil, a escolinha do Luciano Huck especializada em formar “novos políticos”. Vejam como as coisas se cruzam. É tudo fã de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Todo mundo aí combate a ameaça do marxismo globalista, entendem? São ao mesmo tempo causa e consequência do conjunto da obra que é Bolsonaro. É pra se danar!

Bebeto é a outra ponta da milícia ideológica, por assim dizer. Enquanto Maia apela ao ilusionismo de algum verniz técnico em suas falácias, Bebeto atira primeiro e pergunta depois. É do tipo que cumpre ordem que nem um fanático disposto a qualquer coisa em nome do líder. Uma cabeça oca e uma índole miliciana nunca resultarão em algo saudável. E não existe vacina para esse modelo bacteriano.

Mas, pensando bem, tudo isso é como se fosse a fachada da fachada – porque no fim das contas o que eles fazem mesmo é a velha politicagem. De novo, com outras palavras: esses dois representantes do povo afrontam famílias que foram devastadas pela pandemia. De olho exclusivamente em dividendos políticos, pregam o tumulto e a desinformação. Casuísmo e hipocrisia.

Eu comecei falando sobre Bolsonaro no fundo do poço. Digo fundo do poço porque torturar números e praticar assédio moral contra a matemática é, simbolicamente, um tipo de degradação fatal. É a confissão involuntária da falência geral de um governo. Depois disso, só falta mesmo a ordem para os tanques invadirem as ruas. É o casamento perfeito entre farsa política e fiasco administrativo.

Sim, o regime ideal para Bolsonaro e sua seita é o regime de força, a ditadura clássica, com fechamento do Congresso e censura à imprensa. No clima atual, o ódio do governo e seguidores ao STF é sinal dos tempos. Se Bolsonaro pudesse, o chamado autogolpe já estaria sacramentado. E com o apoio de alguém aí perto de você – um advogado, um delegado, um jornalista... A fauna é diversa.

Volto à Bancada Coronavírus de Alagoas, liderada por Davi Maia e Cabo Bebeto. Ia esquecendo de listar Flávio Moreno, aspirante a um mandato de vereador em Maceió. Bolsonarista de raiz – ou seja, perigosamente perturbado –, o carioca Moreno é agente da Polícia Federal. “Liderança” do PSL de Maceió, ele aproveita o drama dos alagoanos pra farejar votos que o levem ao reino da vereança.

Vi alguns vídeos de Flávio Moreno fazendo “denúncias” contra o governo estadual. O negócio é tão fantasioso que ele deveria ser preso em flagrante. Ainda que essa turma – além de outros tipos espalhados nas redes sociais – mostre uma conduta repugnante, é também triste assistir ao que inventam. Poderiam se controlar um pouco, poderiam mostrar alguma réstia de dignidade.

Entre tantos valores incompatíveis com o bolsonarismo está justamente a dignidade. O presidente zomba das vidas que se foram pelo coronavírus. Faz isso a cada vez que abre sua bocarra imunda para falar sobre os números da tragédia que ele subestima. Não importa o tema, parece que o adepto da nova direita está sempre disposto à tática da fraude e da bala na cabeça.

Politicagem. Pandemia. Fake news. Mais de 36 mil mortes no país. Entre Brasília, a doença do bolsonarismo e Alagoas, misturei as pautas e aproximei tranqueiras da vida pública. No domingo as ruas deram sinal de vida. Bolsonaro vai enfrentar protestos em dimensões gigantescas – é questão de tempo. Até lá, ele pode apelar à força bruta. Por enquanto, é bater em todo tipo de pilantragem.

A tragédia da pandemia em nossas vidas

  • Redação
  • 01/06/2020 00:19
  • Blog do Celio Gomes

Foi a pandemia do novo coronavírus que me fez deixar o blog com atualização irregular nas últimas semanas. De forma bastante aguda, digamos assim, a Covid-19, a doença que mata milhares de pessoas no Brasil, fez um estrago infernal em minha casa. E ainda vi pessoas conhecidas, algumas muito próximas, enfrentarem o mesmo drama. Quando isso tudo começou parecia que, em Alagoas, a coisa não seria tão grave. Mas, como de resto no país inteiro, a crise se espalhou no vento – e deixa o sistema de saúde à beira do colapso.

Mas a vida segue. No meio da volta à rotina possível, as pequenas obrigações do dia a dia e as demandas do imprevisível se misturam a memórias recorrentes. Um dado marcante para as famílias que perderam parentes é a convivência – inescapável – com as circunstâncias da perda. Porque afinal o noticiário está aí para ninguém esquecer o que aconteceu. Só se fala em pandemia.

Ou quase. Como jornalista que pretensiosamente escreve sobre tudo, incluindo a política, neste espaço tenho de me ocupar, por exemplo, de Bolsonaro e sua reunião ministerial que mais parecia um seminário de milicianos. (Essas coisas fazem o Brasil de hoje virar piada mundial). De todo modo, portanto, tenho que dar atenção, talvez com prioridade, ao que chamamos de realidade factual.

Suponho não configurar exagero alardear que a pauta factual do agora está dividida em dois grandes grupos. 1) O pacote de notícias sobre a tragédia na saúde. 2) O pacote de notícias sobre a tragédia na política. A primeira tragédia se mistura à segunda como raras vezes terá ocorrido na história do país. Uma e outra, inapelavelmente, repartem os venenos prescritos para uma imensa destruição.

Vidas destruídas. Enquanto escrevo, são mais de 28 mil os mortos pela Covid-19 no país. E enquanto você lê este texto, a democracia no Brasil enfrenta, sim, ameaças destrutivas. Os últimos lances do embate entre os poderes Executivo e Judiciário atestam o perigo instalado no Palácio do Planalto. A gang chefiada pelo presidente arreganha os dentes e cospe fogo. A escumalha se assanha.

Desde a redemocratização, há mais de trinta anos, jamais houve algo parecido com o atual panorama. De Collor a Temer, a sombra de ruptura institucional simplesmente nunca existiu. Crises foram muitas, e graves, é claro, mas sempre com o percurso e o desfecho pelos caminhos do Estado de Direito. Hoje não. É de estarrecer o retrocesso a sujar tudo – da enseada ao horizonte.

A sujeira está naquilo que brincalhões chamaram um dia de nova política. A “renovação” nos deu Bolsonaro, Weintraub, Ricardo Salles, Zambelli e outros insetos do mesmo esgoto. Chamar essa corja de extrema-direita é elogio. No topo do poder estão reacionários de causar repulsa – além dos citados, veja-se o chefe da diplomacia, o bisonho Ernesto Araújo. O país não aguenta isso.

Em todas as esferas da vida brasileira o clima é de perplexidade e apreensão. Parece que a qualquer momento outra bomba vai estourar, e o terremoto de amanhã é tão certo quanto o de hoje – com estragos ainda mais devastadores. Quando e como as crises vão passar é mais que uma dúvida em projeções. Com atos e discursos delinquentes, Bolsonaro e quadrilha apostam no impasse.

Neste domingo, manifestações pelo Brasil acabaram em confusão e conflitos com a polícia, sobretudo em São Paulo. O marginal que ocupa a Presidência da República voltou às ruas, agora em cima de um cavalo – caso raro de um quadrúpede galopando sobre outro. É mais um dia a nos avisar que o acirramento da crise generalizada se torna cada vez mais perigoso. A barbárie parece iminente.

Por aqui, o governo estadual acaba de prorrogar o decreto que impõe o isolamento social e outras medidas em decorrência da pandemia. Ainda não foi desta vez que o governador Renan Filho decidiu por alguma flexibilização que permitisse a reabertura de setores da economia. É mais ou menos o que ocorre nos demais estados do país. O fim do isolamento é visto como muito arriscado.

Volto ao relato particular – espero que sem exageros. Enquanto cuidava de questões como atestado de óbito em cartório, documentação pra liberar o corpo no hospital, telefonemas do plano funeral, pagamento de taxa para o sepultamento – enquanto fazia o que tinha de fazer, repito, os sinais da pandemia continuavam a interferir em tudo. Toda ação obedece a restrições decorrentes da doença.

Da unidade hospitalar ao cemitério, a nova paisagem imposta pela pandemia é mais evidente – e parece nos alertar que enfrentamos um inimigo cruel, implacável. As luvas, as máscaras, as roupas especiais para quem está na chamada linha de frente – do médico ao coveiro –, tudo forma um cenário que jamais imaginamos. Poderia ser um filme. Mas está aí, num realismo bruto, sem filtro.

Estive em central de triagem para teste da Covid-19; acompanhei uma paciente em ambientes hospitalares e procurei uma UPA na madrugada; falei com médicos e enfermeiros; fui informado que não poderia acompanhar a pessoa internada devido ao perigo de contágio. Falei com a paciente pela última vez por telefone. Depois vieram a UTI e os boletins preocupantes... E depois o fim.

Para reconhecer o corpo, quem perde um parente para a Covid-19 precisa tomar cuidados essenciais. O pessoal do hospital e da funerária trata de garantir a segurança nessa hora inexplicável. No sepultamento, uma fila de carros funerários e caixões. Sem aglomeração. Cada enterro tem apenas poucas pessoas ali naquele ritual. Em alguns casos, duas ou três testemunhas na última despedida.

Para as famílias atingidas diretamente pela pandemia, a perda se dá no âmbito mais íntimo e pessoal – em outras palavras, como se diz, é a tragédia na própria pele. Mas, além disso, cada um dos milhares de nós tem de encarar a dor num contexto de convulsão nacional, de sinais de loucura pra todo lado. A pandemia combina com o Brasil de Bolsonaro. Duas maldições em nossas vidas.

Fechando. Escrever sobre experiência pessoal não é das melhores coisas para um jornalista e para o jornalismo. Os riscos são variados e estão em cada esquina do pensamento e das palavras. O mais grave, deplorável mesmo, é o sentimentalismo. Sendo algo no campo do drama, então, expressões e frases apelativas querem invadir a tela a cada batucada no teclado. Tentei escapar dessa armadilha.

Bom dia!

Carlos Mendonça – um brasileiro honrado – influenciou a política e a imprensa em Alagoas

  • Redação
  • 17/05/2020 01:25
  • Blog do Celio Gomes

Na Organização Arnon de Mello, durante as últimas cinco décadas, Carlos Mendonça (foto) teve mais poder do que incontáveis diretores que ele viu passar pelas empresas da família do senador Fernando Collor. Doutor Carlos, como era chamado nos corredores da TV, da rádio e da Gazeta de Alagoas, foi o mais importante conselheiro de Arnon de Mello – e acabou exercendo o mesmo papel junto a Fernando Collor, filho do fundador da OAM. Ele morreu na quarta-feira 13, aos 82 anos de idade, vítima da pandemia de Covid-19.

Conheci Carlos Mendonça em algum dia de 1991, nos meus primeiros tempos de editor na TV Gazeta. Ele aparecia com alguma frequência naquele ambiente de temperatura gelada que são as ilhas de edição. Nunca estava mal-humorado e cultivava uma gentileza que era, arrisco dizer, marca peculiar em sua personalidade. Gostava de piada e, não poucas vezes, mandava muito bem na ironia.

Mudei de função ao longo dos anos na TV Gazeta. Vi a queda de diretores e a chegada de novos nomes para comandar as empresas. Não importava o panorama – fosse de calmaria ou de crise –, Mendonça estava lá, com a mesma postura, intocável por aclamação, digamos assim. Executivos iam e vinham, arrastados pelas circunstâncias. Ele, ao contrário, era imune a solavancos de ocasião.

Eu disse que ele tinha poder. Isso não é muito fácil de explicar. Não se tratava de alguém que dava ordens no dia a dia das Gazetas. Essa atribuição ordinária era para executivos, superintendentes, diretores e gerentes. A prateleira do Doutor Carlos estava acima desses patamares. Sua influência vinha da ligação inabalável com a família Collor de Mello. Havia admiração e respeito mútuos.

O advogado Carlos Mendonça, que exerceu, entre outros, os postos de consultor-geral e secretário do Gabinete Civil do Estado, era também uma testemunha da história política de Alagoas e do Brasil. Esteve no núcleo duro das campanhas eleitorais de Arnon de Mello e Fernando Collor. Além de orientar os passos do candidato, também podia botar a mão na massa e redigir o discurso.

Para quem ficou por tanto tempo no mesmo lugar, com as mesmas atribuições, o conselheiro da OAM viu de perto abalos na política estadual – às vezes terremotos. Nessas horas, se Arnon ou o filho Fernando estavam no meio dos eventos, Doutor Carlos era a voz a ser ouvida, porque afinal dele se esperava ponderação e ideias valiosas. Ele cuidava desses temas com afinco, zelo e discrição.

Deixei a TV Gazeta em 2001. Mas em janeiro de 2004, menos de três anos depois, assumi a editoria de política da Gazeta. E reencontro Carlos Mendonça, agora em minha nova rotina do jornalismo impresso. Assim como fazia na TV, mas com maior frequência, em alguma parte do dia ele marcava presença na redação. Comentava o noticiário e distribuía elogios aos jornalistas no batente.

A partir de janeiro de 2005, a Gazeta passa por uma mudança importante. Virei o editor-geral, e Carlos Mendonça se tornou presidente do novo Conselho Estratégico da OAM. Ao menos uma vez por mês participava da reunião do conselho que, naquela época, tinha entre seus membros o engenheiro Vinicius Maia Nobre, a museóloga Carmem Lúcia Dantas e o empresário Álvaro Vasconcelos.

Também havia as reuniões semanais da diretoria da OAM. Toda segunda-feira, a partir de oito da manhã, começava o falatório que poderia durar até umas três horas. Ali todos se portavam com mais seriedade no momento de ouvir o Doutor Carlos. Sentado ao meu lado estava sempre o então coordenador-editorial da OAM, jornalista Ênio Lins, hoje secretário de Comunicação do Estado.

Carlos Mendonça usava sempre terno e gravata, o que parecia reforçar a imagem de um homem que zelava pela sobriedade e pelo respeito à liturgia. Essa rotina durou quase uma década pra mim. Naqueles tempos agitados, de longas jornadas na redação, com Doutor Carlos tive inúmeras e boas conversas. No diálogo, ele acabava sempre por expor sua preocupação com a realidade alagoana.

Falta dizer que ele também foi ao mesmo tempo testemunha e personagem (quase sempre nos bastidores) da história da imprensa em Alagoas. Embora antenado com as novidades digitais, era fanático pelo jornal impresso. Recusava-se a abrir, na véspera, a edição de domingo – que saía no sábado – porque não via sentido em antecipar o sagrado ritual da leitura. Era o que ele me dizia.

Carlos Mendonça é uma das mais de 15 mil vítimas (até agora) do novo coronavírus no Brasil. Seu filho Alfredo Gaspar, ex-procurador-geral de Justiça, também contraiu a doença e faz tratamento. Além da minha solidariedade pela terrível perda, torço por sua plena recuperação. E que leve adiante, na vida pessoal e na trajetória profissional, as lições e os valores do pai – um brasileiro culto e honrado.

Pandemia: a angústia de familiares em esperar pelo telefonema de um hospital

  • Redação
  • 13/05/2020 02:45
  • Blog do Celio Gomes

Você vai receber um telefonema do hospital, diariamente, a partir das quatro da tarde, com um boletim sobre o quadro da paciente. Quem diz isso é a atendente de uma unidade hospitalar da rede privada em Maceió. Ela fala com os filhos de uma senhora que acaba de ser internada, mais uma vítima do novo coronavírus. Além disso, não há muito a dizer naquele contato. A atendente acrescenta que o telefonema pode atrasar um pouco, mas não deixará de ocorrer. De repente, uma espera angustiante como nunca houve.

No dia seguinte à internação, o primeiro telefonema, com o boletim, não se deu às quatro da tarde, mas quando já eram quase dez da noite. A médica fala com calma, sem pressa, com atenção e cuidado. Parece medir cada palavra. Pergunta se está sendo clara, se o parente da pessoa internada está entendendo tudo. O quadro é estável. Não é possível fazer qualquer tipo de previsão.

Se o primeiro boletim chegou à família com atraso, vieram dois dias sem notícia. A partir das 16 horas, a cada momento o celular é checado. 18 horas, 19h... Familiares ligam para o hospital, mas não conseguem informações. O contato direto com a paciente é possível, também por celular, claro. Mas, no caso aqui, no segundo dia sem notícia do hospital, a paciente parou de atender ao telefone.

Finalmente uma ligação do hospital. Mais de 48h com uma tensão elevada. A médica vai explicar o quadro da paciente – que tem 70 anos e já enfrentou um câncer. As notícias não são boas. A situação dos pulmões se agravou bastante. Ela sentia muito desconforto. Tivemos que proceder a sedação, colocamos ela pra dormir. Ela não sente dor, não se preocupe. Está entubada, na UTI.

No quinto dia de internação, uma ligação do hospital no começo da tarde. Fora de hora. Estranhamente mais cedo. Era uma psicóloga. Quem atende leva um susto diante dessas duas inesperadas novidades – o telefonema antecipado e uma psicóloga do outro lado da linha. Ela então explica que, dada a gravidade do caso, seu contato é parte do serviço de apoio do hospital à família.

Essa é a rotina que invadiu a vida de milhares de famílias no Brasil, desde a explosão da pandemia de Covid-19. Não sei, acho que ninguém sabe, como tal realidade afeta cada um dos que enfrentam a parada na própria pele. Sei apenas dos efeitos mais óbvios, aquilo que bate em todo mundo que vê a mãe ou o pai, ou um filho, ameaçados pela doença: na incerteza, uma agonia em tempo integral.

A professora aposentada de quem falo aqui foi primeiro levada à emergência do hospital de seu plano de saúde. Ela entrou por volta de três da tarde. Somente perto das dez da noite vieram as primeiras informações. E a família soube que haveria internação imediata. Mas os leitos para casos de Covid-19, ali, estavam todos ocupados. Foram quase 24 horas pra resolver esse drama.

Mas aquilo já não é nada dramático diante do que veio depois – como falei, o agravamento do quadro clínico. Não há o que fazer. Não se pensa em outra coisa. Amigos e familiares, de perto e de longe, pedem notícias, mandam força, dizem que é preciso ter fé, que estão rezando, essas coisas a que a maioria de nós se aferra. Os filhos deixam o trabalho, se isolam. O dia a dia é todo absurdo.

Além do boletim diário, qualquer mudança importante no quadro, a gente avisa imediatamente, informa a médica que deu o último telefonema. Ela confidencia que os “plantões estão numa grande correria”. Os números de casos confirmados e de mortes não param de subir. Há risco de colapso, tanto no setor público quanto nos hospitais privados. E, com isso, mais sofrimento vem junto.

Exatamente agora, milhares de pessoas compartilham desses sentimentos – uma aflição, um desassossego com o imprevisível. É a experiência pesada de encarar um inimigo, uma ameaça letal, em condições precárias, adversas. Um inimigo que tantas vidas já levou. Aos que estão na batalha – famílias, pacientes, pessoal médico –, é torcer para que o próximo telefonema alivie a barra.

Pandemia: na Central de Triagem para teste de Covid-19, cansaço, tensão e medo

  • Redação
  • 10/05/2020 12:59
  • Blog do Celio Gomes

Chega gente de todos os tipos, de todas as idades, homens e mulheres, adolescentes, jovens e velhos. Alguns estão sozinhos, mas a maioria está acompanhada de outro parente ou de algum amigo. Sou um acompanhante. Aparecem casais, o pai e o filho, a mãe e a filha, o irmão mais novo com o mais velho, talvez o sobrinho e o tio. Durante as 24 horas do dia, o movimento não para na Central de Triagem para teste de Covid-19 em Maceió (foto). Conto aqui o que vi ao longo de 7 horas – praticamente no coração da pandemia.

Cheguei ao Ginásio do Sesi, no bairro do Trapiche, por volta das três da tarde do sábado. Saí às dez da noite. É assim mesmo. É demorado e cansativo pra todo mundo que vai até ali. A central foi montada pelo governo estadual como estratégia no enfrentamento à crise que assola o país. É uma iniciativa que de fato cumpre papel decisivo na guerra contra a doença. Uma ação necessária.

Uma segunda unidade está sendo montada no Benedito Bentes – o que vai desafogar o Sesi e facilitar o acesso ao serviço para moradores da parte alta da capital. A Secretaria de Saúde prometeu a inauguração para esta semana. A central do Trapiche começou a atender em 14 de abril. E a procura não para de aumentar. O governo precisa atacar o tempo de espera. Dá pra fazer.

Com o noticiário sobre o avanço da pandemia, o clima está mais pesado em todo canto. Com jeitão de que está disseminada no Brasil, a ameaça fica mais perto de todos nós. Pode chegar a qualquer um, a qualquer momento. Até um dia desses a coisa parecia distante, algo remoto que atinge os outros. Hoje, o vendaval de números e de curvas estatísticas nos arremessa ao centro da tragédia.

Eu falei que o clima está pesado em todo canto. Mas na central de triagem isso ganha uma variedade de rostos – ainda que parcialmente escondidos atrás de uma máscara. A gente vê os olhos. E o olhar revela, em cada um, de um modo particular, a surpresa, o espanto, numa escala que vai da preocupação ao medo repentino. A incerteza alimenta o temor quanto ao futuro imediato.

Ao chegar, uma pessoa que apresente algum dos sintomas da Covid-19 recebe uma ficha das atendentes que fazem esse primeiro contato. A partir daí, começa a maratona de espera – primeiro ainda na entrada do ginásio, ao lado da rampa que dá acesso às arquibancadas. Depois de chamado, o paciente ficará mais algumas horas lá dentro, onde foi montada a estrutura para realizar os exames.

Enquanto estive ali, um incidente assustou as dezenas de pessoas que aguardavam a chamada: um homem que também estava na fila para a consulta desmaiou entre as cadeiras. Quem estava mais próximo se afastou meio assustado. As servidoras da recepção acionaram uma equipe médica da central, claro, e o socorro foi feito. O “diagnóstico” instantâneo foi de abuso alcóolico.

Duas ambulâncias estão prontas para os casos de necessidade de internação. Das 15h às 22h, duas pessoas deixaram o local diretamente para leitos hospitalares – o que significa que testaram positivo, com sintomas fortes da doença. Um era idoso, a outra era uma mulher talvez na casa dos quarenta anos. A maioria dos que passam por exames volta pra casa – mesmo que o teste dê positivo. 

Foi o que aconteceu com a pessoa que eu acompanhava. A notícia ruim é que está confirmada a contaminação. O alívio é que os sintomas são leves, com grandes chances de recuperação sem a necessidade de tratamento hospitalar. O único medicamento receitado foi analgésico à base de dipirona. Mas claro que não se pode vacilar. Agora é quarentena absoluta por duas semanas.

Todos que testam positivo – mas podem voltar pra casa – recebem como documento oficial uma “Declaração”, assinada por um médico – no caso que relato aqui foi uma médica. Não vou citar o nome da profissional para evitar uma exposição desnecessária. Brasil afora, esses profissionais têm sido vítimas de preconceito. Até casos de agressão física já ocorreram, como mostrou a imprensa.

Transcrevo agora o que diz o documento (a Declaração) que o paciente recebe após ser diagnosticado com a Covid-19, sem necessidade de internação: “Declaro, para os devidos fins, que o paciente (...) foi atendido no Sesi no dia de hoje. Realizou teste rápido para Covid-19, que deu positivo, necessitando de isolamento domiciliar por 14 dias: do dia 09/05/2020 ao dia 23/05/2020”.

Minha fonte (sob o impacto da notícia de ter contraído a Covid-19) confirmou que, lá dentro, a demora continua na mesma toada. Finalmente começa o atendimento. Após a conversa com a médica – que apura tudo, de modo amplo e detalhado, com objetividade e clareza –, os procedimentos são realizados. E agora sim, há, segundo a paciente, “agilidade, profissionalismo e organização”.

O Brasil ultrapassou a marca de 10 mil mortos. Chegamos rápido ao grupo dos países com maiores taxas de contágio e de óbitos. Um desalento que, descrito assim, em dados e projeções, periga ser subestimado. Na vida de cada um dos milhares de contaminados, e para as famílias de todos eles, porém, tudo pode ser devastador. Na central de triagem para testes, vi isso bem mais de perto.

Regina Duarte confundiu jornalistas da CNN Brasil com Ratinho e José Luiz Datena

  • Redação
  • 08/05/2020 03:05
  • Blog do Celio Gomes

Regina Duarte misturou as bolas. Ela topou uma entrevista ao vivo à CNN Brasil, mas pensou que teria o mesmo tratamento que Luiz Datena e Ratinho dispensam aos ministros do governo e ao próprio presidente. Como se sabe, esses dois elementos são porta-vozes do bolsonarismo e do governismo mais escancarados. A bajulação da dupla ao presidente também é fonte de renda para as emissoras em que trabalham, no caso a BAND e o SBT. Nos programas de Ratinho e Datena, a gang do Planalto diz e faz o que bem quer.  

A CNN chegou ao Brasil sob forte desconfiança. Desde o anúncio de sua estreia, a TV deu pistas de que poderia cair nos braços do governo Bolsonaro. Não como o SBT ou a Record, cuja adesão é incondicional. Mas poderia tentar um lustre técnico para uma defesa mais, digamos, qualificada do governismo. Até agora não foi exatamente isso o que se viu na cobertura das crises do momento.

Embora tente marcar uma diferença em relação à Globonews, em tom mais moderado ao tratar das presepadas governistas, a CNN Brasil não pode ser acusada de fazer jornalismo chapa branca. Passa longe disso. Seria de fato um suicídio em termos de credibilidade caso a emissora caísse nessa armadilha. E foi por isso que a secretária nacional de Cultura, dona Regina Duarte, se deu muito mal.

A essa altura vocês sabem o que houve. Nesta quinta-feira, a atriz deu um chilique dos diabos, em entrevista ao vivo, quando percebeu que não fora convidada para fazer propaganda, discursar e ser aplaudida. Como disse, confundiu os jornalistas da CNN com a canalhada do tipo Datena e Ratinho. “Não estava combinado isso”, repetia a secretária, de novo revelando sua desorientação.

Ela queria tudo “combinado”. Queria perguntas confortáveis, nada de contraditório, nada de questões que causem qualquer incômodo. E aí, começou a falar num atropelo geral, com um raciocínio que acaba por exibi-la de modo triste. Como essa pessoa chegou a tal situação depois de uma trajetória de consagração total? Melancolicamente, taí um caso clássico de fuzilamento da própria biografia.

Mas tão ou mais terríveis do que a performance da atriz e secretária foram suas palavras. Ela teve coragem de minimizar a prática de tortura e as mortes na ditadura de 64. Ironizou o noticiário sobre as vidas que se perdem com a pandemia de Covid-19. E mostrou desprezo, vejam que coisa, aos próprios colegas do mundo da arte. A mulher que deu vida à viúva Porcina parece caso de interdição.

O entreato grotesco de Regina na CNN ocorre num momento em que o presidente miliciano – esse lixo que agride a democracia diariamente – volta a atacar a imprensa violentamente. Também ocorre no clima das agressões que doentes do bolsonarismo fizeram contra jornalistas e enfermeiros. Tudo no meio da rua, a céu aberto, com apoio evidente do capitão da tortura. A indignidade não vai parar.

A secretária de Cultura, a maluquete que decidiu enfiar a cara, e sua própria história, no lamaçal do governo Bolsonaro, surpreende, sim – mas não completamente. Porque está claro que ela não pensa o que pensa apenas desde ontem. Foi sempre uma reacionária de instinto raivoso. Eis que o Brasil deu a ela – e a tantos outros bichos em fúria – a chance de botar pra fora a ferocidade total.

O episódio com a atriz na CNN foi bom para a emissora. Primeiro porque, claro, virou assunto de forte repercussão no falatório nacional (até eu estou escrevendo sobre o caso) e deve render audiência à nova TV. A disputa sobretudo com a Globonews é o grande desafio da casa de William Waack. Emplacar a imagem de independência nesse panorama é o ouro que a CNN Brasil cavouca.

E finalmente o caso serve pra toda imprensa. É mais uma oportunidade para se refletir sobre o papel do jornalismo. Para uma democracia real, de fato e de direito, a imprensa é requisito incontornável. A direita extrema e bolsonarista – essa vanguarda do reacionarismo brucutu – joga na contramão desse entendimento. Para essa gentalha, os valores são outros: censura, tortura e arbítrio acima de tudo.