Blog do Celio Gomes

Millane Hora, o namorado senador e a Timbalada

  • 23/01/2021 12:17
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Millane Fabrícia da Hora Figueiredo Fortes (Arapiraca, 22 de maio de 1985) é uma cantora e compositora brasileira. O que você acaba de ler foi copiado e colado por mim direto da Wikipédia, a autointitulada enciclopédia livre – que todos nós consultamos na internet em busca de socorro imediato para a ignorância sobre o mundo. A alagoana começou a trajetória nos palcos da música ainda criança, lá pelos 13 anos. Muito tempo depois, ela foi bater no The Voice Brasil, da Globo, e numa traumática passagem pela mitológica Timbalada (foto). Agora, vive novo trauma, de outra ordem.

A cantora acaba de postar um vídeo com um desabafo. Ela informa ter desistido do cargo de assessora especial na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Maceió. A nomeação da jovem artista, que também é advogada, provocou duras reações nas redes sociais. É que ela é namorada do senador tucano Rodrigo Cunha, com forte influência sobre o prefeito JHC. Ela teria sido nomeada apenas por esse requisito emocional.

Não podemos, a rigor, fazer tal acusação. O problema nesses casos, e na política especialmente, é a percepção dos fatos. Não adianta o senador fingir que nada tem a ver com a advogada e cantora – e querer que a plateia acredite nessa ética escorregadia, digamos assim. Não. Fica a impressão de coisa meio fora de lugar. A assessora-relâmpago então, diante desse oceano de desconfiança, recusou o convite já materializado em Diário Oficial.

Assim como no episódio da Timbalada, agora Millane tomou um rumo que não era sua escolha livre e voluntária. Na banda de Salvador, o estranhamento foi imediato; a química não rolou, e aí ela ficou apenas sete meses como a principal vocalista do grupo formado e guiado até hoje pelo monstro Carlinhos Brown. Os fãs (e os fanáticos) rejeitaram aquela moça “diferenciada” e exigiram uma escolha com a “cara” da Bahia e dos baianos.

Quando foi forçada a deixar a Timbalada, a cantora publicou texto, tornando pública sua versão. Apesar de não atacar ninguém e exaltar até os orixás, há uma e outra farpa para o ídolo que a decepcionou, o Carlinhos Brown. Hoje, ela recorre a um vídeo de mais de quatro minutos para se explicar sobre a encrenca com o cargo municipal.

O leitor pode conferir o relato de Millane aqui no CM. Ela fala com firmeza, mas o tom é calculado para mostrar que está tudo bem. Nenhuma menção a seu namorado, aquele senador. Ela também tenta emplacar algo como indignação diante da reação contra seu emprego que lhe renderia salário de 11 mil reais. Ela tem personalidade.

A quase assessora da prefeitura revela ainda que trabalha há tempos com pessoas vulneráveis. No cargo, poderia fazer muito mais, como dizem os slogans. Ela afirma ser independente e exalta um de seus traços dos quais se orgulha: encara desafios com “a cara e a coragem”. Ok, ok, mas a sombra do apadrinhamento é pesada.

Por isso, se é difícil acreditar em coincidências e meritocracia nesta nomeação, reconheça-se o gesto de Millane Hora ao desistir do posto. Ela não queria sair, é verdade, mas sabe que não valeria a pena esse fardo – a imagem de quem ganhou emprego via namorado. Mesmo contrariada, tomou a única decisão decente que poderia tomar.

O impeachment de Bolsonaro e as Forças Armadas

  • 23/01/2021 08:56
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Jair Bolsonaro acusou o golpe e sabe que seu mandato está a perigo. Por isso, dia desses, ele juntou na mesma frase as palavras democracia, ditadura e Forças Armadas. Na imprensa nacional, em editoriais e nas mais diversas vozes de colunistas, só se fala do impedimento para o presidente desqualificado que vai destruindo o Brasil. Defende-se largamente a abertura de processo de impeachment pra dar fim à crise permanente incendiada pela delinquência do miliciano que desonra a Presidência. Crime de responsabilidade é o que não falta. O mais grave de todos: o atentado contra a saúde pública.

São dezenas de pedidos na gaveta de Rodrigo Maia. Na reta final de seu mandato no comando da Câmara, é improvável que ele tome a iniciativa de pautar o assunto. Daí que todo mundo especula sobre o comportamento do futuro presidente da Casa diante do tema. Como se sabe, o alagoano Arthur Lira disputa o cargo com o apoio explícito de Bolsonaro. Seu principal adversário, Baleia Rossi, também não é entusiasta da ideia.

Em dois anos de completo desgoverno, há retrocesso brutal em todas as áreas. Da economia ao meio ambiente, na educação e na saúde, a miséria de resultados é incontestável. As “vitórias” que os devotos da seita celebram são as armas e o desmonte de políticas sociais. Os celerados que seguem cegamente o vagabundo Bolsonaro continuam em guerra contra o globalismo, o comunismo e a ideologia de gênero. É caso para a psiquiatria.

Mas não só isso. Há um dado objetivo que foi se tornando cada vez mais explícito no discurso, na postura e nas ações de Bolsonaro e seu gado: os “liberais conservadores” abominam essa história de combate às desigualdades sociais. A ironia é que o maior representante dessa visão, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é um fracasso estrondoso. De superministro a tosco serviçal de um tiranete, Guedes parecia que jamais rastejaria a esse ponto.

Não que a expectativa fosse lá grande coisa. Mas ele dizia que o jogo seria de seu jeito – ou pegaria o boné e iria embora. Mas não. Viu-se que o cara faz qualquer bagaceira para se manter no posto. Nada do que prometeu chegou nem perto de se concretizar. A pauta liberal – privatizações e reformas estruturais à frente – é pura ficção.

Mas tudo isso, a essa altura, já nem está em debate. Ou melhor, está em debate, mas deixou de ser decisivo para o que é necessário. E o mais urgente, a cada dia, é o país se livrar do criminoso que atazana a vida dos brasileiros. Claro que ele pode seguir adiante e chegar a 2022 pronto para brigar pela reeleição. Está Jogando tudo pra isso.

Nessa hipótese, perfeitamente possível, o país estará em transe. E o resultado da eleição – lembrando Trump nos Estados Unidos –  detonará abalo inédito. Não foi isso o que Bolsonaro já anunciou? Com todas as letras disse que ou tem voto impresso ou será ainda mais grave do que a confusão americana. É uma ameaça de “autogolpe.

Daí porque o desprezível negacionista recorrer à retórica criminosa ao arrastar as Forças Armadas para seu projeto golpista. Com a gestão sitiada por militares – em funções para as quais são incompetentes –, o capitão da tortura aposta nessa base. Há meios formais para frear esse rastaquera, tremendo pária aos olhos do mundo.

Secretariado de JHC tem apadrinhado de Luciano Huck e dois novos “Gabinetes Integrados”

  • 05/01/2021 11:49
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Finalmente saiu. Passava das 18 horas desta segunda, quatro de janeiro, quando o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PSB), apresentou o secretariado. Aqui no CM o leitor confere a relação com todos os nomes. Mas a identidade dos escolhidos chegou à imprensa antes do anúncio oficial. E, se eu não errei nas contas e na comparação, o vazamento acertou quase tudo. Dos 21 cargos, 16 titulares estão nas duas listas – na anônima e na confirmada pelo prefeito. Sem dúvida, as informações vieram a público antes da hora por obra e interesse de gente do núcleo duro de JHC.

É sinal de guerra no time antes mesmo de começar o trabalho. Os nomes que não bateram foram estes: Mac Lira, Judson Cabral, Alícia Pita, Moacir Teófilo e Marcelo Maia Lima. O caso mais chamativo aí é o do ex-deputado Judson Cabral, ex-petista que se juntou a Lessa no PDT. O nome dele era dado como certo, mas acabou vetado pelo agora vice de JHC. O desencontro confirma a permanente crise pedetista em Alagoas. 

Além disso, a lista que vazou trazia dois nomes, para duas secretarias novas. Uma delas deveria tratar do caso Pinheiro-Braskem; a outra seria para o enfrentamento da Covid-19 na capital. A pasta sobre o Pinheiro estaria reservada para o delegado federal André Costa, que acabou sendo indicado para a SMTT. A de combate à pandemia seria chefiada por Claydson Moura. Na manhã desta terça, pintou novidade sobre essa iniciativa.

A informação sobre a criação das novas secretarias já era de conhecimento público. A pasta para o Pinheiro foi inclusive promessa de campanha do candidato JHC. Mas parece que alguém esqueceu como é que se faz esse tipo de coisa. De fato, cabe ao Poder Executivo a criação de postos e empresas públicas. Mas o caminho único para isso é um projeto de lei a ser levado à Câmara Municipal. Como está esse projeto tão anunciado?

A novidade é que não serão mais secretarias e sim Gabinetes Integrados da Prefeitura, como diz a publicação da assessoria. Ainda é obscuro o que essas invenções vão render de concreto à cidade. Tem todo jeito de improviso para acomodar aliados na máquina. É aconselhável que o prefeito mostre a cara e explique seu secretariado. 

Além do vacilo de levar quatro dias de gestão pra anunciar os secretários – algo provavelmente inédito na história da República –, o prefeito está devendo informações detalhadas. Reparem que agilidade e transparência foram bandeiras de campanha. As duas qualidades, porém, passam longe no começo do mandato e da jornada.

Um dos secretários nomeados é Carlos Jorge, apresentado como “empreendedor social”. Na verdade, ele dirige uma ONG com atuação na orla lagunar de Maceió. Seu negócio deu um grande salto após ser apadrinhado por Luciano Huck. O novo secretário já participou do programa do apresentador da Globo, o Caldeirão, num campeonato para ganhar o prêmio em dinheiro. Esse rapaz vai acumular a ONG e a secretaria? 

Como na tradição globalista, o anúncio do secretariado por JHC foi feito no Instagram, com esta mensagem: O nosso time está escalado! Montamos uma equipe técnica, competente e muito dedicada para contribuir com a mudança que faremos em Maceió. Agora, vamos ao trabalho!. Isso é campanha. A ver como será na vida real.

JHC dá a largada com amadorismo e “vazamento de secretariado”

  • 04/01/2021 16:14
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Assessoria
JHC

A imagem da foto não combina com os primeiros dias e primeiros lances da gestão JHC. Até o momento em que escrevo este texto, no começo da tarde desta segunda-feira, o novo prefeito de Maceió ainda não anunciou o secretariado. Deve ser caso único no Brasil. A nova gestão começou em primeiro de janeiro sem que João Henrique Caldas cumpra o básico na hora da largada: apresentar a equipe e tocar o trabalho. Como assim? O que houve? Tem alguma confusão, alguma dificuldade? Alguém precisa acordar o prefeito. A “mudança de verdade” começa com jeitão de amadorismo.

Por isso que a foto aí no alto não combina com a realidade. A imagem produzida pela assessoria parece tentar mostrar um gestor “focado”, não é isso? Juventude. Rapaz antenado com o mundo 5G. Sobriedade e decisões rápidas. Na vida real, no quarto dia de sua administração, JHC se complica logo na montagem do time. E olhe que na campanha ele garantiu que não haveria pressões para formar o secretariado. Foi tudo o contrário.

Dois aspectos foram determinantes para a demora de JHC em fechar os nomes. O primeiro é previsível e tem de ser encarado pelo comandante: a cobrança dos aliados. É legítimo que assim seja, diz um dos mandamentos tacitamente aceito como lei em todas as esferas da gestão pública. Cabe ao prefeito (qualquer prefeito) dialogar, ouvir e decidir, com firmeza e transparência. É o que deveria ser feito por JHC. Mas ele se atrapalhou.

É o segundo aspecto que explica a letargia para um simples anúncio de uma equipe de trabalho. No entorno do homem já tem gente achando que ele demonstra “insegurança” nesses primeiros momentos. Não é para menos. A desenvoltura do prefeito nas redes sociais não chegou à sua atuação como parlamentar. JHC terá de mostrar que não foi apenas um falastrão arrumadinho de campanha eleitoral. E assume no meio da crise nacional.

Uma das confusões na montagem do secretariado foi com o PDT, o partido de Ronaldo Lessa, o vice de JHC. (Essa tabelinha tem tudo pra fazer barulho, mas este é outro assunto). Na montagem da aliança com o PSB de JHC, os pedetistas levam duas secretarias. Foi o que o então candidato fechou com seu parceiro de vice. Lessa, disparadamente a maior liderança do PDT alagoano, foi contestado na legenda por sua conduta nesse processo.

Falei de amadorismo. É uma crítica leve, digamos assim. Não há como ser diferente. Até porque o novo prefeito acaba de chegar. A lambança com o anúncio de algo tão prosaico – é só a formação da equipe – não autoriza pancadaria sobre a qualidade do gestor JHC. Dá, sim, uma pista um tanto preocupante sobre sua capacidade de liderança. Mas a ação amadora se completou com o vazamento de nomes que devem ser nomeados.

A lista saiu no começo do dia. Até o meio da tarde desta segunda ninguém da turma do prefeito havia confirmado ou negado a informação. E tem um dado quase de comédia. Eu já vi ocasiões em que dois ou três nomes de uma equipe bem maior são vazados para a imprensa. É a primeira vez que vejo o vazamento de uma equipe inteira, com nome, sobrenome e o cargo a ser ocupado. Isso é quase “vazamento profissional”, com assessoria e tudo.   

Na lista vazada, que o leitor pode conferir em reportagem do CADAMINUTO, há nomes conhecidos e previsíveis. Há também gente de quem nunca ouvi falar. E existe até uma pasta especial para tratar de Covid-19. Outra, criada exclusivamente para gerir o caso Pinheiro-Braskem, já havia sido anunciada por JHC. Porque o secretariado ainda não é oficial, não comento os nomes agora. Vamos esperar a decisão do hesitante prefeito.

As lives e a publicidade. Caetano e Fernanda Montenegro

  • 29/12/2020 10:34
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E aí está você, estamos nós, em algum momento do dia ou da noite, diante da obrigação de escrever sobre mais um ano que vai terminando. Meu Deus, é a pauta de meio mundo – ou seria de todo mundo? É hora de fazer o tal balanço de 12 meses. O pior são as crônicas, um perigo mortal – pensando no conceito clássico de crônica. A pandemia de Covid-19 faz de 2020 caso único na trajetória da humanidade. É o que dizem por aí, com base nos dados de uma tragédia que, apenas no Brasil, matou até agora mais de 190 mil pessoas. O Ano da Morte poderia ser o título da crônica – naqueles tempos remotos em que havia cronistas, galos e quintais.

O Ano das Lives também. Não vi quase nenhuma, confesso. Acho melancólico que Caetano Veloso tome conta do noticiário com suas apresentações nessa maratona das lives. Nada contra esse monstro da música brasileira. Mas ele toma conta do noticiário faz cinco décadas... Fora isso, associar o cantor e compositor a uma ideia de rebeldia soa teatralmente fraudulento. Ele foi, aliás, desde o começo, o rebelde que dava piscadelas ao status quo.

(Status quo é homenagem aos tempos de Sociologia nos bancos da Ufal, a caminho do Jornalismo). Voltando ao poeta de Santo Amaro, com ele o nepotismo ganhou uma nova representação nos shows bancados pela Globo e pela empresa do publicitário Nizan Guanaes. Os filhos de Caetano (foto), que ninguém conhece, tocaram ao lado do pai, dividindo um palco reservado aos grandes. Mas os garotos não conquistaram aquilo. Foi herança.

Assombrado, leio que um comercial de Fernanda Montenegro causou comoção em milhões. Dizem que ela declama um “lindo texto” sobre a esperança. O acontecimento explodiu nas redes sociais. Até em O Globo, a jornalista Ruth de Aquino exalta o anúncio publicitário e diz que, sim, ela também foi às lágrimas. Nessas horas, você tem direito de achar que não temos salvação. E, pra completar, a peça com a atriz rende “muita polêmica”.

É que a mensagem de Fernanda Montenegro é uma publicidade do banco Itaú – que não exibe a marca durante o comercial. Por isso que o povo entendeu como um vídeo espontâneo da atriz. Aí é demais. Vi o anúncio no dia da estreia, sem saber nada a respeito. Mas entendi na hora que era uma publicidade “disfarçada”, e que logo saberia qual produto estava na moita. Sem surpresa, era um banco. Tem gente se sentindo “enganada”.

Mas a tragédia nessa história é o oba-oba com o texto que a atriz decorou para ganhar um trocado. É uma coleção de frases açucaradas, na medida para reiterar (e reificar) uma não ideia. E é logo sobre “esperança”. A celebração retardada desse substantivo é, vamos dizer assim, um equívoco de origem em nossa formação. Exaltamos algo como se fosse mágico; como se “ter esperança” fosse o passaporte para a realização do sonho.

Eu falei que milhões se sentem enganados? O caso foi bater entre os mais comentados nas redes sociais também por isso. Primeiro, a vertigem com a maravilha “poética” do comercial que o povo pensou que era arte. Depois, a palavra “decepção” bateu recorde nas manifestações – isso após a revelação de que o autor do texto é um redator da agência África, e não a encantadora Fernanda. “Ah, então era tudo por dinheiro?!” Sim, era só isso.

Consequência automática da pandemia, as lives mudaram para sempre o negócio dos shows. É o que dizem estudiosos, críticos e artistas. A saturação é o lado mais complicado de qualquer novidade avassaladora. Como escapar da mesmice que sucede inapelavelmente a invenção? Sobre isso, muitas páginas ainda serão escritas.    

Como você percebe, acabou que o texto tomou outro rumo, sem balanço nenhum de 2020. É muita coisa para dar conta. Nem falei da política, do governo Bolsonaro, da sucessão americana, de Sergio Moro, do Carlinhos Maia...

Não quero saber da sua vida

  • 28/12/2020 01:08
  • Blog do Celio Gomes

Não é que eu não goste de fofocar sobre a vida sexual dos outros. Dou-me a esse vício, mas só em companhia de íntimos, e jamais falaria da minha vida sexual ou da de meus íntimos a estranhos. Não é moralismo. É discrição. Reconheço, mais uma vez, que estou fora de moda. A moda é que perfeitos estranhos (ou estranhas), depois de alguns minutos de papo, passem a contar o que passa nos seus leitos conjugais ou não. A época é de todo mundo contar a vida em público. Essas palavras, que destaquei em itálico, refletem, em alguma medida, os dias atuais? Sem falso moralismo, parece que sim.

Quando a gente pensa nas centenas de subcelebridades que todos os dias contam suas aventuras sexuais, a tendência talvez seja mesmo concordar com a opinião expressa no parágrafo anterior. Eu acho bem exagerado, meio fora de propósito, que o famoso acidental e até artistas de grande sucesso se esforcem tanto para exibir suas intimidades em praça pública. Depois, quando passam algum vexame, exigem “respeito à privacidade”!

Nem vou lembrar que no império das redes sociais essa compulsão moeu os limites. DJs, cantores, cantoras, atrizes e atores, gente de algum talento e, claro, a multidão de falsas celebridades não dão trégua na maratona de revelações sexuais. Uma das obsessões é falar do apetite múltiplo e diverso na hora do sexo. Ficou com dois ao mesmo tempo. Entrou na orgia com garotas e rapazes. Já experimentou assim ou assado... E por aí vai.

Quanto mais exótica é a experiência, e quanto mais escandaloso é o detalhamento do que se passou na gandaia, melhor para a “imprensa especializada”. E melhor também, pensam os protagonistas, para suas carreiras como artistas. Mas as editorias que cuidam exclusivamente do “mundo dos famosos” tratam apenas da vida pessoal, e não do trabalho desses afamados. E assim o círculo vai sendo alimentado de maneira praticamente doentia.

Comecei a escrever este texto depois de um passeio pelo noticiário, vendo os principais veículos de informação do país e os destaques nos sites alagoanos. Em todos, sem exceção, é chocante o quanto esses assuntos, a vida privada, o mais íntimo e pessoal estão nas manchetes. Quem corneou quem. Quem não é de nada na hora H. Qual a posição preferida... Tem de tudo entre as melhores piores chamadas para as “reportagens” a respeito.

Clique no endereço de qualquer site de notícia e você será bombardeado com os títulos mais estúpidos da paróquia. Para ilustrar as chamadas que “quebram a internet”, é um festival de caras, bocas e bundas. E boa parte das fotos pode ser tranquilamente confundida com anúncios de garotas e garotos de programa. Claro que a oferta desse tipo de “notícia” responde a uma demanda sempre em alta. Nem adianta brigar com isso.

Não quero aqui defender a caretice, entende? Longe de mim também qualquer tipo de censura – nem aos falastrões da cama e muito menos à imprensa. Nunca e jamais. Ataco a miséria intelectual (e existencial) nesse tipo de interesse. E acho um tédio o massacrante conjunto de “notícias” sobre esse subcampo antropológico. Nos casos mais insanos, personagens cruzam a linha da vulgaridade com um orgulho constrangedor.

O tema é pré-histórico. É ou não é a força das paixões, dos amores e do sexo o que move o mundo? Mas essa é outra história. Termino com um esclarecimento sobre as linhas em itálico que abrem o texto. Na verdade, foram aquelas palavras que me levaram a escrever. É um trecho de uma coluna de Paulo Francis, publicada na Folha em 1978, com o título que também sequestrei. Está no livro Diário da Corte (2012) e, reparem, não envelheceu nada.

Com Arthur Lira presidente, Câmara seria um puxadinho do Planalto, subserviente a Bolsonaro

  • 27/12/2020 13:48
  • Blog do Celio Gomes

Informa o jornalista Lauro Jardim, em O Globo: Os articuladores políticos de Jair Bolsonaro trabalham com um mapa de 500 cargos federais a serem preenchidos em troca de votos para Arthur Lira, o candidato do governo à presidência da Câmara. O próprio Lira trabalha para dar forma a esse mapa. Sua eleição é a prioridade números um, dois e três do Palácio do Planalto. É por isso que Lira tem chances reais de vitória na eleição marcada para fevereiro. Montado na máquina governista, o alagoano está confiante que leva a parada. Será o homem de Bolsonaro no parlamento brasileiro.

Mas o deputado sabe que não será fácil de jeito maneira. Rodrigo Maia (DEM), que passará o cargo para o sucessor, conseguiu fechar um bloco de peso no apoio ao deputado Baleia Rossi, do MDB de São Paulo. Do modo que as coisas seguiram, ficou claro que na eleição está em jogo a influência de Bolsonaro sobre a Câmara. Ele quer dar as ordens. A temporada de Rodrigo Maia no comando da Casa nunca foi de vida boa para o capitão do Planalto.

É por isso que o discurso de Baleia Rossi é exatamente o de uma Câmara independente – o que não haverá com Lira presidente. O parlamentar do Progressistas, um dos exemplares membros do notório Centrão, terá de entregar a Bolsonaro o que ele quiser. Não fosse assim, o Jair não estaria nesse nível de engajamento. Como já escrevi aqui, o presidente negacionista teme um processo de impeachment – que só anda se a Câmara autorizar.

Na mesa da presidência da Câmara há dezenas de pedidos de impeachment para Bolsonaro. Basta que o comando do parlamento leve um dos casos à pauta. Esse é um poder – exclusivo e descomunal – de quem estiver na presidência da Câmara. A única coisa que interessa a Bolsonaro é proteger seu mandato e blindar sua turma de milicianos, incluindo os três filhos delinquentes. O governo se resumiu a isso – biombo de marginais.

Para obter o apoio dos colegas alagoanos, Lira joga com a ideia de que, uma vez lá no topo, Alagoas será beneficiada. Seus apoiadores por aqui também repetem essa lorota. O prefeito eleito de Maceió, JHC, é uma dessas vozes delirantes. Delírio, sim, porque essa história só engana os que gostam de ser enganados. Não existe relação direta entre uma coisa e outra. Tal discurso, aliás, depõe contra o postulante que pede voto na eleição.

A conversa de que um alagoano em postos de comando significa facilidade para o estado obter recursos e projetos é piada. Uma piada velha, aliás. Lembro que em quase toda eleição para governador, a ladainha se repete: algum candidato vai se apresentar como aliado do presidente de plantão. “Teremos as portas abertas em Brasília”, disseram diferentes candidatos em eleições estaduais. É uma mentira descarada, um insulto.

Bolsonaro casadinho com o Centrão e com Arthur Lira é um presente para a seita, para o Gado, como ficaram conhecidos os patetas de verde e amarelo. Em Alagoas, os rapazes que se apaixonaram pelo jeitão truculento do Jair não sabem o que dizer sobre a “nova política” do ídolo. Todos estão fazendo os maiores malabarismos retóricos para explicar o inexplicável. Os patriotas que se vestem com a bandeira nacional seguem no cabresto.

Falta mais de um mês para a eleição na Câmara. Até lá, imagine o que a máquina de Bolsonaro será capaz de fazer para fortalecer a candidatura de seu apadrinhado. Mas isso pode até ter um efeito contrário. Pelo bem da democracia, tão achincalhada por Bolsonaro e sua gang, seria saudável uma derrota de Arthur Lira. O parlamento é a essência do regime democrático. A Câmara não pode ser subserviente, um puxadinho do Planalto.

Música alagoana no cemitério, a revolta dos “artistas” e a campanha contra o governador

  • 26/12/2020 11:08
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O governador Renan Filho enfrenta um levante de um grupo de artistas de Alagoas. É o que informa reportagem publicada aqui no CM. Pelo novo decreto estadual, nos próximos 15 dias estão proibidos shows de música ao vivo em bares e restaurantes. Desde a publicação das novas diretrizes, na última quarta-feira 23, o pessoal que trabalha na noite caiu em campo para protestar. Além do veto a apresentações musicais, os estabelecimentos não podem ficar abertos após a meia-noite. A medida do governo decorre do aumento do número de casos de Covid-19. Um quadro mais preocupante.

Mas o pessoal da cantoria e dos instrumentos não aceita o argumento. Houve protesto de rua contra as novas restrições na noite da quarta. E nesta sexta-feira os revoltosos tornaram a se manifestar, agora na praia de Ponta Verde. A categoria alega não ser responsável pelo recrudescimento da pandemia em Alagoas. Na verdade, a chamada segunda onda já ocorre no Brasil e em outras partes do mundo. Isolamento e máscara são essenciais.

O movimento dos trabalhadores da música, digamos assim, tem apoio do pessoal do turismo, dos hotéis e da balada na capital. É compreensível. De fato, a quebradeira desse setor é algo dramático – e ocorreu em todos os estados. Em capitais como Rio e São Paulo, restaurantes tradicionais, com décadas de atividade, cerraram as portas para sempre. Sim, a economia entrou em parafuso. E qualquer previsão não passa de chute e torcida.

De novo aquele velho falso dilema: a escolha entre o mercado e a vida. Sob o governo de um delinquente chamado Jair Bolsonaro, tudo ficou ainda mais grave com as bravatas, as mentiras e as canalhices que o ocupante do Planalto expeliu sobre a pandemia. Para ele só interessa a economia. Todo mundo vai morrer um dia, porra! Diante do recorde de vítimas, ele vocifera: “E daí, quer que eu faça o quê? Eu não sou coveiro”.

Mas eu tenho de falar sobre a campanha dos músicos e artistas na internet contra o governador. Eles decidiram partir com tudo na arena que é hoje o espaço ideal das guerras e guerrilhas: as redes sociais, claro. A foto que ilustra este texto é a reprodução de uma postagem no Instagram. Segundo apurei é apenas um exemplo de vários perfis que estão mobilizados pela causa. A ordem é produzir uma série de peças como esta da foto.

O epitáfio: #LUTO pela música alagoana. É o que se lê na arte reproduzida nas redes, como o leitor confere na mesma foto que reproduzo aqui. Curioso: pela imagem, nossa música já está no cemitério, sepultada com uma viola e uma sanfona. A lápide ainda ostenta a bandeira de Alagoas, que é para não haver dúvida quanto à identidade da falecida. Uma empresa foi contratada para bolar as peças de ataque ao governo e em defesa da anulação do decreto. A ofensiva tende a crescer. É o que sinalizam os líderes da mobilização.

Além do Instagram e Facebook, os organizadores do movimento também criaram um grupo no WhatsApp – o que é quase uma obrigação para qualquer finalidade hoje em dia. Os revoltosos trocam informações e também vídeos e fotos. A ideia é constranger o governador com a exibição de eventos nos quais ele descumpriria regras de isolamento. Um dos vídeos mostra Renan Filho num churrasco, aglomerado, sem máscara.

Eu vi esse vídeo. Não dá pra saber se é atual ou antigo. Portanto, não se pode acusar o governador a partir daquelas imagens. Até o momento em que escrevo, não há notícia de que o governo cogite voltar atrás. É um drama, mas de uma coisa não se pode esquecer: é a saúde das pessoas o que de fato interessa. Não adianta liberar o palco e a cantoria se o preço é ter uma plateia de cadáveres. Uma viola pode ser trocada. Uma vida, não.

Crivella, Witzel e Bolsonaro: a corrupção não tem ideologia

  • 23/12/2020 01:11
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Wilson Witzel e Marcelo Crivella são dois cidadãos de bem. A dupla representa o que a gente poderia chamar de elite do bolsonarismo e da “direita esclarecida”. É o melhor da política no conceito dos nossos cristãos conservadores. No caso de Witzel, sua filosofia do “tiro na cabecinha” encanta os rapazes que idolatram Bolsonaro. É tudo a mesma coisa, tudo a mesma escória, tudo fã de milícia e de grupo de extermínio. Witzel, esse monumento da honestidade anunciada pela “nova política”, foi afastado do cargo de governador do Rio, acusado de corrupção. O herói não passava de bandido.

Marcelo Crivella, o prefeito da capital carioca, foi preso nesta terça-feira, também acusado de comandar um esquema de propina. A medida foi convertida em prisão domiciliar pelo presidente do STJ, Humberto Martins. Bispo da Igreja Universal, Crivella é um dos arautos da moralidade alheia, assim como Bolsonaro e sua quadrilha. De 2018 pra cá, desde a eleição do desqualificado capitão, exemplares da “renovação política” foram desmoralizados. 

Destaque no time dos enrolados em graves denúncias é o senador Flávio Bolsonaro. A ladroagem patrocinada pelo filho do presidente foi escancarada na investigação. Ele não tem explicação pra nenhum dos seus negócios. A maracutaia da “rachadinha” é apenas uma das frentes de enriquecimento suspeito do rapaz. A ameaça de uma prisão contra Flávio assombra Bolsonaro, dia sim, dia também. Por isso, aliás, o sujeito baixou o tom com o STF.

No ministério, casos de desvio de recursos estão por todos os lados. Um dos mais graves se dá na área da Comunicação, como a Folha demonstrou numa série de reportagens. Não faltam os episódios em que a desonestidade decorre de um impulso patético, digamos assim. É o caso do astronauta que vandaliza o Ministério da Ciência e Tecnologia. Marcos Pontes gasta nosso dinheiro com aventuras amorosas de outra galáxia.

Voltando a Witzel, ele era juiz federal até partir para a missão de “moralizar” a política. Fez alguma fama paroquial, vestido na lenda de implacável com a corrupção e todo tipo de malfeito. Exatamente como Sergio Moro, o pulha que fez do exercício da magistratura o atalho para conquistar poder e ficar milionário. São dois corruptos, cada um no seu estilo particular. A diferença é que Moro ainda está blindado na grande imprensa e no “mercado”.

Outro exemplo de como o governo Bolsonaro age de maneira ilibada está na relação do presidente com as milícias digitais. Trata-se de verdadeira organização criminosa, com servidores pagos para fabricar fake news. Há ainda a turma de Allan dos Santos, aquele delinquente do Terça Livre. Essa gang conquistou seguidores pregando o combate à corrupção. É uma velha estratégia que voltou com tudo a partir de 2014 com a operação Lava Jato.

A Lava Jato, como está demonstrado, serviu pra engrossar a conta bancária de procuradores que viraram estrelas na imprensa. O outro objetivo – o político – foi devidamente alcançado com a prisão de Lula, condenado numa farsa judicial, e com a eleição de Bolsonaro. Taí o saldo do farsesco “combate à corrupção” que historicamente serve para eleger pilantras – os atuais cidadãos de bem. O Brasil sofre desse mal desde tempos remotos.

Crivella, Witzel, Moro, Flávio, Jair Bolsonaro. Em menos de dois anos, estes e outros personagens da República foram expostos em suas estripulias criminosas. O que há de comum entre eles, repito e ressalto, é que todos surfaram no discurso do combate à corrupção “da esquerda”. Na direita, entre os caçadores de globalistas, isso não existia. A desmoralização dessa gentalha nos lembra de algo: bandidagem não tem religião nem ideologia.

(Na foto do alto, o prefeito Marcelo Crivella, preso, chega à delegacia no Rio).

Mediocridade é a marca da gestão Rui Palmeira

  • 22/12/2020 12:08
  • Blog do Celio Gomes

Rui Palmeira (foto) diminuiu de tamanho. E não foi pouca coisa. O singelo fato de estar sem partido expõe a dimensão de seu inferno astral na política. Sem filiação partidária e, a partir de janeiro, sem mandato, o ainda prefeito de Maceió atravessa seu pior momento desde que se elegeu deputado estadual em 2006. Não ficou mais de uma temporada na Assembleia Legislativa; em 2010 ganhou a eleição para deputado federal e partiu para Brasília. Dois anos depois, levou a prefeitura da capital, com o discurso da renovação, da juventude e de modernização da gestão pública.

Quando se reelegeu em 2016, derrotando o ex-prefeito Cícero Almeida, com mais de 60% dos votos no segundo turno, parecia que o filho de Guilherme Palmeira tinha vindo ao mundo pra ganhar, sempre. Mas a gente sabe que a vida não é assim. O prefeito está sabendo disso agora. Mas, lá atrás, achava que seria eleito governador em 2018. Esse era o plano previsível. Mas ele decidiu cumprir os oito anos na prefeitura e recusou a candidatura.

Ali, o vento mudou para o prefeito. Ao rejeitar ser candidato, Rui deixou uma legião de aliados numa enrascada, sem um palanque forte naquela disputa. Resultado: a oposição não fez nem sombra ao governador Renan Filho, que se reelegeu em primeiro turno como se fizesse um passeio. E o prefeito de Maceió adiou para 2022 o sonho de ser governador. Eleger o sucessor agora em 2020 seria uma tremenda largada. Mas aí deu tudo errado.  

Mesmo com a inesperada e quase chocante aliança com o governador, o candidato de ambos, Alfredo Gaspar, perdeu a eleição para JHC. Assim, a máquina municipal troca de mãos, numa clara demonstração de que o eleitor rejeitou a opção apoiada pelo prefeito. “Mudança”. Esse foi o batido bordão que embalou a campanha do vitorioso. Decididamente, a população disse não ao candidato que representava a gestão de Rui Palmeira.

E como foi a gestão do prefeito que está indo embora? Ele apresenta a construção de conjuntos habitacionais e a abertura de avenidas como grandes realizações. Sei não. Com boa vontade para esse tipo de investimento, o melhor do legado, digamos assim, não vai muito além disso. Fazer propaganda de recapeamento e de troca de lâmpadas só pode ser brincadeira! Isso é o básico do obrigatório. Educação e Saúde são um desastre.

Mas o grande carimbo de fracasso da atual administração tem nome e endereço: é o Programa de Frente pra Lagoa, que seria implantado na região da orla lagunar. Em texto neste blog, de quatro de fevereiro deste ano, chamei esse negócio de um dos maiores estelionatos eleitorais da história da cidade. Também escrevi que o candidato do prefeito teria dificuldade com o tema. E, sem querer me gabar, foi exatamente o que aconteceu.

Assim que começou o segundo turno, o guia eleitoral de JHC levou ao ar um vídeo devastador. Na peça – esta sim, uma aula de marketing eleitoral – moradores da beira da lagoa assistiam a um vídeo em que Rui prometia um novo mundo para a região, também conhecida como Dique-Estrada. Na Publicidade, o prefeito fala em apartamentos, avenidas, creches, equipamentos culturais – enfim uma miragem típica do mundo publicitário. 

A reação dos moradores, no vídeo do programa eleitoral, é de repugnância. Enquanto escutam as potocas do prefeito, homens e mulheres falam de Rui Palmeira com uma mistura de revolta e desprezo. E faz sentido. A propaganda sobre o projeto é tão fantasiosa que sempre me pareceu um deboche com as condições dramáticas de vida daquela população. O anúncio de “retomada das obras” – já durante a campanha – foi criminoso.

Não foi o único fracasso do atual prefeito, mas foi o maior, um escândalo. Para fechar, diria que é um tanto desolador constatar algo tão medieval em gestores públicos do século 21: tudo para as “áreas nobres” e nada para as periferias. Tocar uma cidade em todas as suas dimensões! Nessa missão, Rui foi tão medíocre quanto seus últimos antecessores. Vai tarde. Pensando bem, nas últimas duas décadas Maceió não avançou quase nada.

Parece que Davi Maia vai mandar mais na prefeitura do que JHC, o prefeito eleito de Maceió

  • 22/12/2020 00:16
  • Blog do Celio Gomes

Como diria o sambista Jamelão, o deputado estadual Davi Maia (DEM) está mais feliz do que pinto no lixo. O homem acorda todos os dias e anuncia ao mundo: “Quem vai mandar na prefeitura de Maceió a partir de janeiro de 2021 sou eu”. Não estou exagerando. Basta ver o que Maia anda dizendo em todas as esquinas e microfones. Fala mais que o prefeito eleito, João Henrique Caldas. O deputado chegou a dizer que JHC o convidou para ser secretário, mas ele recusou. É a primeira vez que vejo algo assim. Parece óbvio que o anúncio do parlamentar diminui JHC, esnobado publicamente.

E o que é que este representante da “nova política” anda dizendo por aí? Davi Maia, um reacionário formado no Ginásio Luciano Huck, é o coordenador da transição na prefeitura. Como eu ia dizendo, ele anda falando muito. E seu principal assunto nas entrevistas e nas redes sociais tem sido a “revisão de contratos” da gestão Rui Palmeira. De fato, Maia é expert em fechar contratos. Sua experiência no ramo está registrada na própria prefeitura.

É que, até pouco tempo antes da campanha eleitoral, Maia era governista. Aliás, um governista que se deu muito bem galopando a máquina municipal. Ele foi secretário de Meio Ambiente e – seu mapa da mina – chefiou a Slum, a superintendência que cuida da limpeza urbana. Limpeza urbana quer dizer coleta de lixo. E lixo é um troço que sempre rendeu contratos exóticos na prefeitura. Maia vai revisar seus próprios contratos?

O trololó do deputado também sinaliza algo recorrente nas disputas políticas e eleitorais. Como se fosse uma tradição milenar, todo eleito começa a gestão falando de “herança maldita”. O termo ainda não apareceu, assim literalmente, mas a ideia está no ar. Pode ser apenas uma questão de tempo para um gatilho disparar a acusação com todas as letras. Acusar o antecessor pelo próprio fracasso é um clássico nacional. É o que vem aí, aposto.

Além de Davi Maia, outro homem forte na futura gestão é o delegado federal André Costa. Começou a carreira na PF em Maceió e depois virou secretário de Segurança no Ceará, governado pelo petista Camilo Santana. Ele também é “digital influencer”. No Instagram, Costa usa toda sua experiência para faturar uma grana. Ele e um sócio têm um curso que prepara candidatos que sonham virar delegados nas polícias Civil e Federal.

Para vender o talento de professor, André Costa ensina que é preciso ter “foco”! (Onde foi que a gente já ouviu isso?). Nossa imprensa informa que o delegado federal deve ganhar uma nova secretaria. A pasta será criada exclusivamente para cuidar do caso Pinheiro-Braskem. Não parece uma boa iniciativa. Lembra até uma velha piada que diz mais ou menos o seguinte: o meio mais eficaz de não resolver nada é criar uma comissão. É por aí.

O prefeito eleito já ensaia um discurso de chororô com a falta de recursos. Alegações para adiar promessas de campanha já estão na fila. Nesse sentido, outra jogada é despejar a bomba nas costas do governo estadual. Depois de prometer o céu e a terra, por conta e risco, agora JHC e seus rapazes “exigem” compromissos do governador Renan Filho. Caso contrário, dizem, não haverá dinheiro para cumprir as maravilhas da campanha.

Na Câmara Municipal, dois novatos integram essa tropa de choque do prefeito eleito. Lembrando: JHC é “progressista” do PSB e fanzoca de Jair Bolsonaro. É o que explica que ele tenha como fiéis aliados os vereadores eleitos Fábio Costa (mais um delegado) e Leonardo Dias. Uma dupla perfeita, se é que estou sendo claro. Dois fanáticos da extrema-direita mais boçal e histérica. Eles estão preocupados – ainda e sempre – com o kit gay.

A ver o que essa gente aprontará no Executivo e no Legislativo da nossa indefesa capital. Sobre a gestão de Rui Palmeira – se deixa legado de respeito ou uma maldita herança –, direi alguma coisa a respeito no próximo texto. 

(Na foto lá do alto, Davi Maia e JHC: a “renovação” da política alagoana cai na balada).

Por que Bolsonaro se engajou na eleição da Câmara

  • 19/12/2020 08:22
  • Blog do Celio Gomes
Foto: Agência Brasil
Jair Bolsonaro

Sempre tem confusão, mas agora a coisa parece muito mais confusa do que sempre foi. Falo da eleição para presidente da Câmara dos Deputados. Desde a redemocratização, os embates pelo comando do parlamento tiveram, claro, capítulos de tensão, jogadas inesperadas e traições em alguma escala. Na disputa de agora, naturalmente, tudo isso também vai ocorrer em alguma gradação. O que diferencia a eleição de hoje de todas as anteriores é o papel do presidente da República. Nunca houve um presidente – de Collor a Temer – tão engajado numa campanha eleitoral pela presidência da Câmara.

Sim, de Collor a Temer, todos tiveram seus candidatos e atuaram por eles. Não há ineditismo em Bolsonaro tentar emplacar seu favorito. Inédito, arrisco dizer, é a forma como o Capitão Antivacina se mete no assunto. O homem da “nova política” transformou a briga pela Câmara num mercadão em que ele promete tudo e mais alguma coisa aos parlamentares que toparem fechar com seu candidato. É praticamente compra de voto.

Compra de voto, vamos lembrar, é um negócio que não precisa ser feito necessariamente com dinheiro vivo. Um cargo, por exemplo, é uma maravilha. Destravar as verbas de uma emenda é outra forma de sedução. A assinatura de um convênio que está engavetado também pode agradar. Tem gente mesmo à espera de ministérios para declarar voto ao candidato de Bolsonaro. Por tudo isso o deputado Arthur Lira está confiante na vitória.

O alagoano ainda não tem adversário. A turma do atual presidente, Rodrigo Maia, gasta reuniões e palavrório para chegar a um nome de consenso. Mas nesta sexta-feira Maia conseguiu costurar um bloco de partidos que soma 280 deputados. As legendas ao lado de Lira somam 207 parlamentares. Isso não significa que todos de um bloco votam no mesmo candidato. Esse arranjo não define um vencedor. Devemos ter segundo turno.

Mesmo alinhados a um bloco, os partidos vão lançar vários candidatos. Para sair vitorioso de primeira, o concorrente precisa de 257 votos – o que não parece fácil pra nenhum lado. Então, os dois mais votados vão para nova disputa – e aí sim os blocos fechados agora serão decisivos. De todo modo, Maia mostrou força ao atrair PT, PCdoB, PDT, PSB e Rede para seu grupo. Até então, a galera da esquerda não havia escolhido um lado inicial.

Um parêntese. Bolsonarista meio no armário, meio envergonhado, João Henrique Caldas ficou chateado com a decisão de seu partido, o PSB, em se juntar ao bloco de Rodrigo Maia. JHC, prefeito eleito de Maceió, preferia o lado de Arthur Lira – se não por nada, para bajular Bolsonaro. O futuro prefeito é de uma legenda de “esquerda”. É moderninho também. Mas esbanja todos os cacoetes desse primitivismo que o ridículo Bolsonaro sintetiza.

Fechado o parêntese, volto a Brasília e ao Congresso Nacional. O que faz Bolsonaro enfiar suas mãos sujas na eleição da Câmara é a sombra da lei. Ele e sua família de meliantes precisam se blindar. O presidente que desonra o cargo também morre de medo de um processo de impeachment. Crime de responsabilidade – o motivo pra afastamento – tem de sobra. Há dezenas de pedidos na Câmara. Por isso ele precisa de um presidente na coleira.

A investida de Bolsonaro, reitero, não tem precedentes. Nenhum presidente da República precisou tanto e tão desesperadamente de um pau mandado na direção da Câmara dos Deputados. Arthur Lira seria isso? Não sei. Aliás, não é este seu perfil, como todos sabem. Estou dizendo o que Bolsonaro quer. Se vai conseguir ou não, veremos lá adiante. A eleição, que ocorre em primeiro de fevereiro, é crucial para o governo. E para o país.

Com problema na Justiça, Arthur Lira sonha com o topo do poder

  • 11/12/2020 11:42
  • Blog do Celio Gomes
Uol/FolhaPress
Arthur Lira

O cardápio de nomes para a presidência da Câmara dos Deputados mostra a miséria política da atual formação do parlamento brasileiro. São citados como pré-candidatos, entre outros, Agnaldo Ribeiro (PP), Baleia Rossi (MDB), Capitão Augusto (PL), Elmar Nascimento (DEM), Fernando Coelho Filho (DEM), Luciano Bivar (PSL) e Marcos Pereira (Republicanos). Mas nenhum deles é tão favorito para levar a eleição como o alagoano Arthur Lira (PP) – um nome que dispensa apresentações. O deputado aposta no apoio do presidente Bolsonaro, aquele mesmo que ia acabar com a “velha política”.

Ao que parece, as chances de Lira aumentaram depois que o STF enterrou a criminosa tese de reeleição para Rodrigo Maia na Câmara e Davi Alcolumbre no Senado. Mesmo com a proibição explícita nas páginas da Constituição, faltou pouco para que a gambiarra fosse sacramentada. O parlamentar alagoano seria candidato de qualquer jeito, mas, sem Maia na disputa, ele tem certeza que o caminho ficou mais tranquilo. Nem tanto assim, talvez.

A história mostra que as eleições para o comando de Câmara e Senado podem render surpresas – mais entre deputados, dado o tamanho do colégio eleitoral, 513 votos em disputa. Sem dúvida é mais seguro amarrar um acordo com 81 senadores. Na Câmara, com essa multidão de gente, pode pintar de tudo e mais alguma coisa até em cima da hora. Por isso, imaginar vitória antecipada é meio caminho para o fracasso.

Mas Arthur Lira sabe como é o jogo. Como ele pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ingenuidade, está ligado em cada lance durante 25 horas por dia. Tem prometido emendas, cargos, obras, postos na Mesa Diretora, a chefia de comissões relevantes e mais outros mimos em troca do voto dos colegas. Tudo, segundo consta, nos rígidos princípios republicanos. É o que faz também o outro grupo, agora sob a abalada liderança de Maia.

Embora as armadilhas da política na eleição do Congresso sejam uma ameaça constante, o maior temor de Arthur Lira está em outro lugar, mais precisamente na seara da Justiça. Ele é réu no STF, denunciado por corrupção passiva. Ainda será julgado. Em outro caso, se livrou das acusações de desvio de recursos quando era deputado estadual. A inesperada decisão foi do juiz Henrique Pita Duarte.

Bom, Lira e as barras da lei formam uma questão à parte, externa, fora das negociações exclusivamente políticas nos corredores de Brasília. Não depende dele uma novidade por aí. Só lhe resta esperar (e torcer) por outras decisões favoráveis. A escolha do presidente da Câmara ocorre em primeiro de fevereiro. Falta pouco, mas é tempo de sobra para reviravoltas. Pra garantir os apoios necessários, Lira quer, além do Planalto, a esquerda.

A bancada do PT é alvo da sedução de Lira e do candidato que ainda não tem nome a ser apoiado por Rodrigo Maia. Não será fácil para petistas explicarem uma aliança com o nome de Bolsonaro. Teríamos mais uma demonstração da coerência extravagante do mundo da política. Embora o alagoano já tivesse manifestado a intenção de comandar a Casa, a campanha engrenou esta semana no lançamento oficial da candidatura.

Finalmente, Arthur Lira correndo para o topo mexe com a política alagoana. Do nada, o senador Fernando Collor já lançou o parlamentar como candidato a governador em 2022. Alguma sinalização concreta de uma parceria? Fumaça? Por enquanto, ainda não sabemos. Caso chegue lá, Arthur Lira sobe de patamar na esfera nacional e amplia sua influência por aqui. Neste momento, corre atrás de votos e reza por juízes como Pita Duarte.

NOTA - Estive fora do blog por razões profissionais e particulares. Cumprindo acordo com a direção do CADA MINUTO, retorno a partir de hoje.

Senador Rodrigo Cunha, o cacique autoritário

  • 04/09/2020 00:55
  • Blog do Celio Gomes

O tucano Rodrigo Cunha vendeu a imagem de “renovação na política”. Nos últimos anos, os acontecimentos na vida pública brasileira pavimentaram o terreno para esse discurso – que na verdade é tão velho quanto a política. Mas, ainda que não passe de fumaça, elegeu figuras como Cunha. Digo isso, claro, diante da ação do senador pra cima do diretório municipal do PSDB. Como um velho coronel, que trata o partido como propriedade privada, o parlamentar, na condição de presidente do diretório estadual, dissolveu a instância partidária de Maceió. E foi numa canetada, sem consultar ninguém.

Em nota, o senador alega o descumprimento de regras na reunião que elegeu a deputada federal Tereza Nelma como presidente do diretório municipal. Não colou. O texto da cúpula da legenda não deixa claro o que haveria de errado na escolha dos dirigentes do PSDB na capital. Na prática, deu-se o seguinte: Cunha decidiu abater uma concorrente interna pelo protagonismo na eleição para prefeito de Maceió. Sinais de vale-tudo.

Como o CM publicou, a deputada reagiu com uma nota duríssima. Diz um trecho: A decisão isolada do senador Rodrigo Cunha transpira autoritarismo, viola a diretriz central do Estatuto do PSDB, que estabelece claramente o compromisso com a transparência, a democracia interna e o direito de defesa. Chamo atenção para o óbvio: é uma crítica de uma colega de partido e não de um adversário filiado a outro time. A crise está dentro de casa.

Além de classificar o senador como autoritário, a deputada, que também se manifestou por meio de nota, aponta, não sem alguma ironia, para a contradição entre discurso e prática: Em verdade, o senador violou diretamente o Estatuto do PSDB, tomou uma decisão autoritária típica da Velha Política. Nunca deu aos integrantes do Diretório Municipal o constitucional direito de esclarecimento, contraditório e ampla defesa”.

Ao se eleger senador em 2018, Rodrigo Cunha subiu de patamar. Tornou-se presidente do PSDB em Alagoas e rapidamente imprimiu seu estilo de gestão. Estilo que resultou na implosão do partido, cuja ilustração mais notória foi a desfiliação do prefeito Rui Palmeira. A truculência do cacique deve resultar na saída da própria Tereza Nelma. Por essas e outras, o tucanato vai sem rumo por aqui, depois de governar o estado por oito anos.

Falei de protagonismo da eleição em Maceió. Não é de hoje, o senador tucano fechou parceria com o deputado federal João Henrique Caldas, do PSB. A dobradinha passa pelos acordos que levaram Cunha ao Senado. A mãe do deputado é primeira suplente do senador. Mas isso é um detalhe, ainda que relevante. A dupla pensa alto, com projeções para a repetição da tabelinha em 2022. Antes, porém, os dois precisam ganhar agora em 2020.

Pelo que leio em diferentes espaços, em reportagens e blogs da nossa imprensa, a briga entre Cunha e Nelma deve-se à escolha de um nome para vice na chapa com JHC. Ou seja, além de impor o nome do candidato a prefeito, o senador quer decidir sozinho a chapa completa. Sobre isso, a deputada diz que sua candidata seria uma mulher, mas se submeteria à decisão partidária em convenção. Mas nem isso Cunha cogitou permitir.

Tereza Nelma também acusa Cunha de mentir ao “explicar” as razões para dissolver o diretório tucano na capital. Espantados estão os que enxergam no senador de Arapiraca uma voz na contramão do atraso. Até hoje, sua atuação como parlamentar e suas posições sobre os graves temas do país mostram o contrário. Faltava uma demonstração cabal de seus métodos medievais na burocracia da máquina partidária. Agora não falta mais. 

Voltei.  

Germán Efromovich (preso pela Polícia Federal) e os alagoanos “do bem” e “do mal”

  • 19/08/2020 14:22
  • Blog do Celio Gomes

A Polícia Federal prendeu nesta quarta-feira os notórios irmãos Efromovich. Por causa da pandemia de Covid-19, eles ficam em prisão domiciliar. A dupla tem história. Em agosto do ano passado, publiquei o texto que começa a partir do próximo parágrafo. Está nos arquivos do blog. O título foi: “O maior estaleiro das Américas” – dez anos de uma incrível farsa alagoana. Achei pertinente republicar. Confira aí. 

                                                      * * *

Essa é uma história que passa pela categoria dos “Alagoanos do Bem”. Logo adiante falarei um pouco mais sobre a origem e os usos dessa expressão na imprensa estadual. Antes, vamos direto ao ponto: em outubro de 2009, o então governador Teotonio Vilela Filho anunciou aquele que seria o maior projeto de desenvolvimento da história de Alagoas. A boa noticia foi divulgada com estardalhaço – e não era pra menos. Aqui seria construído “o maior estaleiro das Américas”.

A exorbitância que vai entre aspas aí acima estava na propaganda oficial. Segundo o governo, o estado havia fechado o negócio com o megaempresário Germán Efromovich, presidente do Synergy Group, e tido como um craque no ramo. O homem tinha sua assinatura na indústria pesada, mundo afora. O investimento prometido batia na estratosférica cifra de 1 bilhão de reais. Seria a “redenção” da província.

A região de Coruripe, no litoral sul, foi a escolhida para receber o Estaleiro Eisa Alagoas. Sempre de acordo com a publicidade oficial, as obras começariam no ano seguinte, 2010, o que já significava a geração de 4.500 empregos. “Trata-se de um empreendimento histórico para nossa terra, que vira uma página na nossa economia”, festejava o governador Téo Vilela, ao falar sobre a conquista.

O projeto, de tamanha envergadura, abriria diversas frentes de prosperidade, como também explicava o governador naqueles dias: “Além dos empregos diretos, teremos dezenas de fábricas – para acessórios dos navios – que devem ser construídas ao redor do estaleiro. Isso significa emprego, renda, impostos e desenvolvimento”. Eleito em 2006, o tucano estava no primeiro mandato.

Acompanhei de perto tudo isso. Na época, exercia o cargo de editor-geral da Gazeta e, nessa condição, o assunto passou a ser pauta prioritária na minha rotina de trabalho. Como manda o bom jornalismo, era preciso ir além do registro meramente informativo sobre o projeto. Repórteres caíram em campo para buscar detalhes do negócio. Um mistério a esclarecer: quem era o megaempresário?

Pelo que me lembro, o jornalista Davi Soares, então repórter na editoria de política, levantou a biografia de Germán Efromovich. Os dados eram um tanto preocupantes, digamos assim. A vida pregressa do heroico investidor não era exatamente um primor de realizações em suas indústrias, como aparecia na propaganda. O cidadão colecionara acusações e processos por onde passou.

Em reportagem especial, a Gazeta publicou o que havia descoberto sobre o construtor de estaleiros. O governo, é claro, não gostou. Continuamos a cobertura, divulgando o que as autoridades anunciavam, mas sem deixar de lado a atenção aos aspectos nebulosos daquela “obra redentora”. Foi então que alguma alma patriótica atacou nossas reportagens como trabalho de “maus alagoanos”.

O tempo foi passando, e nada de concreto surgia sobre o futuro estaleiro. Ao invés de apresentar respostas reais sobre o atraso, o próprio governador embarcou numa espécie de teoria da conspiração e passou a fantasiar sobre uma guerra entre os que torciam contra e – agora sim – os “Alagoanos do Bem”. Na imprensa, logo surgiram as vozes solidárias com a fantasia chapa-branca.

Em 2010, Téo Vilela se reelegeu e, durante os quatro anos do segundo mandato, continuou fiel à tola (e leviana) narrativa conspiratória. Enquanto isso, no mundo real, os prazos foram sendo adiados, um atrás do outro. Nada. Até que todos pararam de falar no assunto. Como se sabe, estaleiro nenhum está construindo navios e plataformas de petróleo no paraíso de Coruripe (foto lá no alto).

Aliás, a promessa era de que a indústria levantaria “três navios e duas plataformas por ano”. A garantia era do próprio empresário. Embora todas as projeções sempre apontassem para o infinito, o governo foi incompetente até para resolver o básico, que era o licenciamento ambiental. Erros primários e falta de transparência nesse ponto foram jogados na conta dos “alagoanos do mal”.

Essa é uma das grandes coberturas das quais me orgulho de ter participado como jornalista. Não é papel da imprensa exaltar o oba-oba de governo nenhum. A essência do jornalismo é precisamente o contrário: desconfiar sempre, fiscalizar o poder sem medo, revelar a verdade que tanto incomoda.  

E foi isso o que a Gazeta fez em tudo o que publicou sobre o estaleiro que nunca virou realidade. O industrial Efromovich continua enrolado com a Justiça até hoje. E me ocorre o seguinte: cara, o tempo voa mesmo; parece que foi outro dia, mas, neste 2019, aquela incrível farsa completa uma década.

Acusação de doleiro contra os donos da Globo muda o tom da imprensa sobre delações

  • 17/08/2020 01:26
  • Blog do Celio Gomes

Dario Messer, o doleiro dos doleiros, disse em delação premiada que entregava dinheiro vivo aos irmãos Roberto Irineu e João Roberto Marinho. Segundo o delator, os repasses ocorreram ao longo dos anos 90. Messer contou ao Ministério Público Federal no Rio de Janeiro que eram duas ou três remessas todo mês. Os valores variavam entre 50 mil e 300 mil dólares. Na versão do doleiro, funcionários seus levavam a grana, em espécie, até a sede da TV Globo, no histórico endereço do Jardim Botânico. A família Marinho garante que é tudo mentira, fruto da cabeça de um marginal.

No Jornal Nacional, William Bonner leu a notícia durante 1 minuto e 22 segundos. Sem imagem. Apenas uma “nota pelada”, como se diz no jargão exclusivo da turma que trabalha em telejornalismo. O texto do JN ressalta que o doleiro “não apresentou provas”. Informa ainda que o próprio Messer afirma que nunca se encontrou com os irmãos Marinho. Em seu principal telejornal, a Globo foi comedida, tentou abafar a história. 

No site da Veja, que deu a notícia em primeira mão, há um trecho inusitado, incomum na grande imprensa quando noticia cada nova etapa da Operação Lava Jato: “O histórico dos últimos anos de delações na Justiça brasileira recomenda muito cuidado com acusações do tipo, muitas vezes feitas de forma irresponsável pelos réus como uma tentativa desesperada de reduzir a pena”. A revista parece zelosa com o amplo direito de defesa.

A delação de Dario Messer foi homologada. É oficial. Em tese, isso significa que ele teria apresentado elementos com alguma consistência. Se tudo foi feito dentro dos conformes, as autoridades teriam, a partir das revelações do delator, um caminho para chegar a provas dos eventuais crimes. Mas, como se vê no alerta da Veja, temos de ter precaução. Não é qualquer delator que vai destruir reputações inocentes. Parece algo razoável.

A postura da Veja é a mesma nos demais grandes veículos. De repente, bom senso, sobriedade e responsabilidade com a informação caíram sobre a mesa de todos os editores. Que coisa, não? Não era assim até ontem, quando o objetivo das “grandes delações” era pegar Lula, Dilma e a petralhada. Nos últimos cinco anos, os garotões da Lava Jato detonaram como queriam. Defesa, para Sergio Moro, era “showzinho” de advogado.

A Globo e a Veja têm razão. É preciso ter muito, muito cuidado mesmo, com a farra das delações. Quem acompanha o blog sabe o que penso sobre o tema. Num bocado de texto, comento estripulias e delinquências que saíram daquela excrescência chamada de República de Curitiba. Globo e Veja não pregavam nos demais casos de delação o que pregam agora. Para a família Marinho, aliada fiel do lavajatismo, o drama é mais pesado.

Outra notícia do momento parece combinar com o caso Doleiro-Marinhos: a Polícia Federal concluiu que a delação de Antonio Palocci é uma porcaria que nada vale. É o que já se sabia, faltava somente uma assinatura oficial. Agora não falta mais. E o que dizia o ex-ministro? Dizia que Lula era o destinatário de uma fortuna depositada em contas no exterior. A PF diz que as “denuncias” não passam de um apanhado no Google.

A delação do ex-ministro é aquela mesma que o então juiz Moro liberou às vésperas da eleição de 2018. Foi o lance mais ousado do cabo eleitoral que seria ministro da Justiça do presidente eleito. A decisão da PF desmoraliza – um pouco mais – o juizinho parcial de Maringá. O trololó de Palocci já havia sido recusado até pelos bravos rapazes do MPF. Ou seja, parece que, no caso da delação contra Lula, ninguém teve lá “muito cuidado”. 

Como a Lava Jato e Sergio Moro viraram inimigos de ocasião de Bolsonaro, o negócio vai render. O presidente foi às redes sociais e tripudiou com as revelações do doleiro maior sobre a Globo. O capitão disse que estava ansioso para ver o Fantástico deste domingo – queria conferir a reportagem sobre o assunto. Faz sentido. Esse era o padrão global na cobertura das operações que batiam nos endereços durante a madrugada.   

Não, não houve reportagem sobre isso no Fantástico. A Globo deve entender que não há interesse público. Mas e se o doleiro tivesse afirmado que entregava dólares, durante anos, para o senhor Lula da Silva? Como seria a cobertura do Jornal Nacional? Pela fumaça, do ponto de vista legal, Roberto Irineu e João Roberto podem ficar tranquilos. Estão livres dessa. Agora, no mundo da política, as consequências farão algum estrago.

Nas redes sociais do governo, alagoanos dizem o que pensam sobre a gestão da crise. É conflito!

  • 30/07/2020 15:25
  • Blog do Celio Gomes

O que você acha da atuação das autoridades no combate à pandemia do novo coronavírus? Afinal, quem defende o isolamento máximo? Será que não é melhor algo mais flexível? Ou vamos partir para a reabertura de tudo, de uma vez por todas? Fase vermelha. Ou seria amarela? Quem sabe não seria mais adequado decretar logo a fase laranja? Pouco mais de quatro meses depois de o país mergulhar na pior crise sanitária em um século, ainda predominam as dúvidas e as divergências. Em alguns debates, e sobre alguns pontos específicos, nem adianta tentar a conversa. Não tem acordo sobre nada, é vasta a gritaria, ninguém se entende.

Uso da máscara, o funcionamento da economia, as aglomerações... Os mesmos itens continuam a provocar brigas e até mesmo separações em famílias. O Brasil ganhou o campeonato da tragédia, ali, pau a pau com os Estados Unidos. Mas nem as filas para enterro e as covas coletivas fizeram a população se tocar como um todo. Cada um que diga o que é melhor e pronto. Nos dias atuais, a ciência é confrontada pelo terraplanismo virótico. Se você entra numa arena dessas, já perdeu.

Há dois dias o governo estadual flexibilizou mais um pouco o fechamento de setores da economia. Autorizou-se a reabertura de academias de musculação e a volta do transporte intermunicipal. Ao passar pelo Instagram oficial do governo, que trazia o anúncio da novidade, prestei atenção nos comentários dos leitores. A reação que se vê no conjunto é uma síntese do brasileiro diante da crise. Abaixo uma seleção do que pensa o alagoano. Repara só.

bellaoliveira91 - “É o que Véi? Academias voltando? Pqp, vai morrer muita, muita gente”. 

andreiacavalcantejj - “Quando ele [o governador] mandou abrir os barzinhos, vocês não fizeram esse alarme, ne?”.

elisienepaz - “As pessoas têm q entender que o combate à Covid-19 é uma responsabilidade de todos, não depende só dos governantes não. Somos ­­­­responsáveis por nós e pelo outro. A partir do momento que me cuido, cuido do outro?”.

tenoriojv - “Quem gostou, vamos treinar! Quem não gostou, continua tricotando, costurando máscara, dando de comer ao gato e digitando “fica em casa” nas redes sociais. Só vejo a galera reclamando da reabertura das academias, mas não deixam de ir para os shoppings, para as praias e nem para os bares. Chega de hipocrisia!”.

daianemorais1 - “Abre logo tudo pra morrer todo mundo, irresponsabilidade total desse governador sem noção, não vejo nenhuma fiscalização em NADA e a quantidade de pessoas sem usar máscara é absurda!!”.

fernandaelias - “Se não mudou de fase, não deveria ter antecipado a permissão de academias, mas sim esperar a fase determinada, anteriormente, para tal”.

gleybsonilva0 - “Acabou de passar no Jornal Nacional que Alagoas foi o estado que caiu números de mortes e registro de casos em todo o Brasil! E pq esse governador fica botando medo na população?”.

irenildabritode - “A população só procura culpado e não se olha fazendo o contrário do que é orientado. Tá abrindo, vai quem quer para as aglomerações!!! Povo sem noção, nunca assume as próprias opções e responsabilidades!!”.

a paulinha ap - “Só sedentário vai acha ruim abrir as academias”.

ninho ninho - “Ontem o governador falou em ter de voltar a fechar os estabelecimentos e hoje amplia a flexibilização. Incoerente!”.

flaviana pedagoga - “Transporte intermunicipal em dias alternados? 🤦🏽‍♀️ meu pai do céu”

emanoelamaximo - “Só quero ver a bagaceira no dia dos pais com as churrascarias lotadas” 😓

anarafaelachs - “Isso é um vírus. Nós temos que nos adequar a ele. Tudo fechado não resolve nada. Abre tudo!”. 

faaphaela freitas - “Agora sim... Os casos vão subir igual foguete com a liberação dos transportes intermunicipais. Vocês fizerem nada q preste liberando as lotações. Deus queira q não, mas é bem possível ficar pior agora com a volta dos transportes”.

milenamonitora - “E as creches quando reabrem? Pois para os pais trabalhar precisam ter aonde deixarem os filhos com segurança e cuidados”.

annapespindola - “Isso só pode ser palhaçada!”.

Terremoto na República da Lava Jato

  • 29/07/2020 17:55
  • Blog do Celio Gomes

As palavras do procurador-geral da República, Augusto Aras, produziram um novo terremoto político no país. E, longe de ser algo inédito, a parada é mais explosiva porque joga Judiciário e Ministério Público no coração da bagaceira. Outra vez. Em debate com o grupo Prerrogativas, formado por advogados criminalistas, Aras denunciou que a força-tarefa de Curitiba é uma “caixa de segredos”. Ainda segundo ele, os procuradores recolheram dados de mais de 38 mil pessoas – a partir de critérios desconhecidos – para investigação. A ser verdade, estamos diante de um aparato clandestino.

Aras defendeu com todas as letras que é preciso “acabar com o lavajatismo” – o que nada tem a ver com arrefecer no combate à corrupção. Como se sabe, qualquer crítica aos abusos cometidos pela força-tarefa curitibana é logo tachada de leniência com a bandidagem. É uma tática delinquente que os doutores do MPF e seus defensores adotam para desqualificar as acusações. Quem acompanha o blog sabe o que penso sobre os heróis de toga.

O que o procurador-geral fala agora é o que se sabe há muito tempo. As reportagens do Intercept Brasil estão aí para quem quiser constatar o conjunto de barbaridades que os doutores da Lava Jato aprontaram nos processos que levaram adiante. O atropelo de regras elementares está devidamente registrado nas vergonhosas conversas reveladas na “Vaza Jato”. Deltan Dallagnol e sua patota se veem como intocáveis, acima da lei e da Constituição.

Vejam a pose desses elementos na foto que ilustra o texto. É a imitação do cartaz de Os Intocáveis, aquele do agente Eliot Ness. (Aqui em Alagoas há delegados e outras autoridades, fanzocas de Dallagnol e Sergio Moro, que também querem agir sem prestar contas a nada e a ninguém). Investigadores que recorrem ao delito para provar suas teses são tão bandidos quanto o pior dos corruptos. E isso ocorreu, sem dúvida, na Lava Jato.

Por falar em Sergio Moro... Aquele senhor, que era juiz e, ao mesmo tempo, cabo eleitoral de Jair Bolsonaro, foi um dos que reagiram às palavras de Augusto Aras. Premiado com o posto de ministro da Justiça depois de desonrar a magistratura, Moro já anda espalhando que foi “usado” pelo presidente. Segundo sua fábula de ocasião, Bolsonaro nunca quis, de verdade, enfrentar a corrupção. Era tudo falso, uma tremenda ilusão, como se sabe hoje.

Nossa, que surpresa desagradável! Moro se junta ao exército de inocentes cidadãos de bem que “foram enganados” pelo capitão da tortura. De fato, a trajetória de Bolsonaro revela o quanto ele foi um operoso parlamentar das causas nobres. Contem outra! Um medíocre em estado amplo, especialista em tráfico de influência e rachadinha com salário de servidor, o parlamentar do baixo clero é o mesmo que se elegeu presidente. Ninguém enganou ninguém. Isso é apenas, como se diz, a construção de uma narrativa. 

Ao menos nas primeiras horas após as declarações de Augusto Aras, as reações eram de um alarme de tsunami. Na Globo News, vi jornalistas, juristas e políticos decretarem o fim do mundo. Socorro, querem matar a Lava Jato, essa trincheira de ética, essa ilha de perfeições no meio de um país degenerado! Naturalmente isso é tão somente a reafirmação da propaganda – enganosa – que se faz da Lava Jato desde que a operação está na praça.

Nos processos de Curitiba, Moro orientou a acusação, ou seja, fez tabelinha com o MPF. O juizinho parcial também indicou testemunhas para que os garotões do grupo fossem pegar. Com a blindagem da toga, o sujeito tratava o amplo direito de defesa como “showzinho” de advogados. Tá tudo eternizado nos diálogos do Telegram.

As intenções de Augusto Aras não são muito edificantes. Eleito na onda do lavajatismo, Bolsonaro hoje é inimigo da turminha de Curitiba, Sergio Moro no pacote. Por isso escolheu Aras para o cargo, ignorando a eleição da listra tríplice. (É um direito do presidente da República, está na lei, então não contesto). Aras quer uma vaga no STF.

A barulhenta repercussão das críticas feitas pelo chefe do MPF segue a todo volume enquanto vou terminando o texto que você lê agora. Não dá pra saber se haverá alguma consequência prática e imediata. Provavelmente não. Mas pode-se apostar em efeitos a médio prazo, com forte influência nas eleições de 2022. Mais ou menos por aí.

Jair Bolsonaro, Arthur Lira e o impeachment

  • 29/07/2020 00:11
  • Blog do Celio Gomes

O deputado federal Arthur Lira é o candidato do Palácio do Planalto à presidência da Câmara. A eleição é somente no ano que vem, mas a disputa foi precipitada no calor da crise permanente – que se multiplica e ganha novos capítulos a cada semana. O parlamentar do Progressistas se tornou aliado fiel de Jair Bolsonaro, apresentando-se como alternativa ao grupo sob influência do deputado Rodrigo Maia, o atual presidente da Câmara. Ao longo de seu mandato, Maia foi alvo da fúria de Bolsonaro em diversas ocasiões. Para isso, o capitão se valeu daquele troço chamado gabinete do ódio.

A raia mais fanática do bolsonarismo não se cansa de atirar contra o chefe da Câmara. As passeatas que pedem intervenção militar e o fechamento do Congresso e do STF atacam especialmente Rodrigo Maia. Também mais de uma vez, o deputado perdeu a paciência e bateu pesado no comportamento desvairado do presidente que corteja milicianos, torturadores e grupos de extermínio. A relação jamais transcorreu em paz.

Desde o ano passado, Lira vem crescendo no Legislativo brasileiro. Tornou-se líder de seu partido e foi ampliando a influência sobre seus pares. Foi aí que entrou o Centrão. O histórico bloco é dado a coalizões a partir de interesses paroquiais – para recorrer ao eufemismo. Eleito presidente da Casa, Maia soube agregar essa turma que tem peso decisivo nas votações. A certa altura, Lira se arvorou pra cima do bloco e passou a liderar.

O plano do parlamentar de se tornar o comandante da Câmara ganhou com Bolsonaro um cabo eleitoral forte. É verdade que a posição do presidente é também arriscada, ao ligar seu prestígio a uma guerra a ser travada em outro poder. Nos governos Lula e Dilma, ficou claro que esse engajamento do Planalto pode acabar mal.

É evidente o interesse de Bolsonaro na vitória de Lira. Quem estiver à frente da Câmara a partir do começo de 2021 vai atravessar os dois anos finais do mandato presidencial. Pelo que aprontou até agora, toda noite o presidente tem pesadelo com um impeachment. E o que não falta é pedido formal pra que isso seja detonado.

Uma pessoa, somente uma, tem o poder de mandar adiante ou travar para sempre um pedido de impeachment: sim, o presidente da Câmara. Bolsonaro morre de medo que no comando da Casa apareça seu próprio Eduardo Cunha. Como vocês lembram, foi Cunha que levou à tramitação o processo que viria a derrubar Dilma.

Não há esse papo de que a intenção de Bolsonaro é viabilizar Arthur Lira pra facilitar a aprovação de projetos de interesse do país. A fantasia serve para disfarçar o que de fato está em jogo – para Jair e para o nosso alagoano. O acordo é que a Presidência abra o coração cheio de bondades para Lira. Em troca, não ao impeachment, nunca.

O mandachuva do Progressistas não é bobo, longe disso. Tem experiência de sobra depois de ralar em mandatos da vereança e da Assembleia estadual, até partir para Brasília. Mas Rodrigo Maia parece, digamos assim, ter maior capacidade de articulação nas horas decisivas. O grupo do presidente da Câmara não ia ficar sem fazer nada.

E veio a notícia mais barulhenta dos últimos dias no campo das articulações políticas. MDB e DEM (partido de Maia) anunciaram que estão fora do Centrão. Com isso, reequilibram as forças e reduzem o cacife de Arthur Lira. Para não passar recibo do golpe, ele diz agora que isso já estava previsto. Tenta não apelar, ainda, para o ataque.

A foto que ilustra este texto mostra a dupla de parceiros que se formou repentinamente. A imagem desmonta por completo a tese de que Bolsonaro e seu governo rejeitariam qualquer prosa com a “velha política”. A não ser que alguém veja em Lira o suprassumo da vanguarda na vida pública brasileira. Com a palavra, a “nova direita”.

Após a saída de dois grandes partidos do Centrão, Maia se fortalece e reafirma sua influência nos rumos das negociações. No outro lado, Lira sai enfraquecido e precisa se mexer para que a derrota do momento não seja o fim de seu projeto de presidir a Câmara. Com eleições municipais no meio do caminho, a ver os próximos lances.

Desembargador que ofendeu guardas dará explicações a ministro alagoano do STJ

  • 27/07/2020 19:48
  • Blog do Celio Gomes

Quanto mais a gente revê uma imagem escandalosamente impactante, menos impacto haverá – e o escândalo vai sumindo. Aquilo que é exposto todos os dias para o mesmo público deixa de ser novidade na velocidade da luz. E se não tem novidade, a plateia perde o interesse. Isso ainda não ocorreu com o vídeo que mostra um desembargador de São Paulo num espetáculo – bruto e patético – de abuso de autoridade. Até agora, a cada nova olhada naquelas imagens, o episódio se desdobra, tratado já como a ilustração de fenômeno tipicamente brazuca. Tá na ordem do dia.

O vídeo veio a público no último dia 18/06. Nas imagens vemos o desembargador Eduardo Almeida Prado de Siqueira sendo abordado por guardas municipais. Eles pediam que o magistrado pusesse máscara de proteção, que é obrigatória em Santos, assim como em quase todo o país. A partir daí, começa a sessão de boçalidade e prepotência que o noticiário não para de reexibir. Já se passaram nove dias desde que aquilo foi ao ar pela primeira vez.

O sórdido comportamento do desembargador Eduardo Siqueira agora é alvo de investigação no Conselho Nacional de Justiça. Em pleno domingo, o corregedor nacional, ministro do STJ Humberto Martins (foto), determinou abertura de uma Reclamação Judicial. Ele deu 15 dias para que o integrante do Judiciário paulista explique sua atitude. Siqueira chegou a rasgar a multa que acabara de receber pelo não uso da máscara.

Como mostrou o Fantástico, o histórico do doutor Siqueira não deixa resquício de dúvida sobre o caráter de Sua Excelência. Em 30 anos zanzando nas salas e corredores do TJ-SP, o sujeito nunca escondeu sua inclinação à patifaria. Ao longo desse período respondeu a 42 ações em processos disciplinares. A maioria foi arquivada, mas ele também foi punido mais de uma vez com “censura”. A complicação agora pode ser maior.

O caso do desembargador Siqueira é, de longe, o de maior repercussão a chegar às mãos do alagoano Humberto Eustáquio Martins. Ele é dono de uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça desde 2006. Está no cargo de corregedor no CNJ desde agosto de 2018. Ao ser ouvido pela Globo, reconheceu que o alvo da investigação é alguém cheio de problemas. Com o clamor nacional, o Judiciário não terá como amansar para um dos seus.

Lá no começo eu falei de fenômeno tipicamente brasileiro. É a velha carteirada misturada à lei do mais forte, digamos assim. Sabe com quem está falando? (Todo mundo voltou a Roberto DaMatta). O cargo no topo da hierarquia, com todos os privilégios que isso garante, dá ao cara a asquerosa convicção de que ele está acima de qualquer um. E está acima das leis. Foi assim no passado, é assim no presente. Muda algo daqui pra diante?

Não sabemos. No caso específico do desembargador Siqueira, as imagens são muito eloquentes. Por qualquer ângulo que se olhe, é repulsiva a postura daquele senhor. Por isso, reitero, ele receberá alguma punição mais séria do que as anteriores. Mas isso somente vai ocorrer devido ao flagrante de celular – e pelos novos tempos que, bem ou mal, balançam tradições que pareciam intocáveis para todo o sempre. É por aí.

Ao abusar vergonhosamente da autoridade que tem, o desembargador fanfarrão deveria ser demitido. Pelo que disse o ministro Humberto Martins, as barbaridades anteriores cometidas pelo magistrado serão revistas. Ele já agrediu fisicamente um advogado e usou uma arma de fogo para intimidar participantes de uma audiência. Vamos relembrar: Siqueira apronta há mais de três décadas. Pelo conjunto da obra, não merece perdão.

Para fechar, digo que o caso desse elemento tem um lado pedagógico. Explico: com toda essa repercussão negativa para ele, colegas de profissão devem repensar seus atos e postura no Judiciário. Ou alguém acha que Eduardo Siqueira é apenas uma maçã podre num reino de virtuosos? Tragicamente, como já escrevi neste blog, o mundo das togas flutua noutro sistema solar. O Brasil precisa que esse planeta paralelo volte à realidade.

Tormenta brasileira: as incríveis histórias no livro que resume o governo Bolsonaro

  • 26/07/2020 17:21
  • Blog do Celio Gomes

Em mais um ataque de nervos, desatinado e sem rumo na vida, Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente da República, desaparece sem dar explicações. O pai precisa recorrer aos amigos do rapaz pra tentar localizá-lo. Decorridos muitos dias e muitas noites, ele reaparece – como se esse comportamento fosse o mais tranquilo do mundo. O vereador carioca é o herdeiro mais problemático no clã Bolsonaro. Não vive um dia sem emitir sinais típicos de uma mente à espera de socorro. A ligação entre Carlos e Jair não é coisa para amadores na mesa do bar ou no Twitter. É caso para a ciência.

Os sumiços de Carluxo, como é mais conhecido na sua turma, embora deixem o pai aos pandarecos, fazem parte do lado mais folclórico na rotina presidencial e do governo. Ainda assim, não foram poucas as vezes em que as estripulias do vereador, por meio de ofensas a adversários e aliados, abriram crises políticas e criaram tensão com as instituições. Desde o primeiro dia de mandato, Bolsonaro e o Zero Dois enlouquecem um ao outro.

O vice-presidente Hamilton Mourão e o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, vivem entre o céu e o inferno na relação com o presidente. Mourão apanhou muito mais até agora, sobretudo dos filhos de Bolsonaro, mas também do próprio dono da faixa. Na surdina, o tratamento é na base de palavrões – algo que não ficaria bem reproduzir aqui. Heleno, sem paciência, já chamou Bolsonaro de “despreparado”.

Ele nega o disparo retórico que deixou o presidente furioso. Quem banca a informação é a jornalista Thaís Oyama, no livro Tormenta, que mostra um balanço do primeiro ano de mandato. O subtítulo – O Governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos – resume o cardápio que virá. É jornalismo a quente, em cima dos fatos.

O presidente que emerge das páginas confirma o tipo de gente que hoje manda no país. Bolsonaro vive em clima de paranoia, com medo de ser envenenado ou até de ser alvo de drones e atiradores. Toma decisões de modo improvisado para, logo depois, sem base na lógica, recuar do que acabara de decidir. Um barco à deriva.

A jornalista expõe os bastidores de momentos tensos com os então ministros Sergio Moro, Santos Cruz e Gustavo Bebiano (morto em março deste ano). O livro revela que Bolsonaro decidiu demitir Moro ainda em agosto do ano passado. O motivo era a postura do ministro no caso das rachadinhas de Flávio Bolsonaro, o filho Zero Um. 

Moro sobreviveu ali, depois que Heleno, em conversa dura com o presidente, apelou à retórica dramática: Se demitir o Moro, seu governo acaba. Foi um adiamento. O ex-juiz da Lava Jato foi forçado a se demitir em abril passado. Saiu atirando, acusando o chefe de tentar interferir na Polícia Federal movido por interesses ilegítimos.

O amplamente notório caso Queiroz aparece na obra com detalhes que iluminam situações até então nebulosas. Bolsonaro se empenhou de cabeça na tentativa de matar a história na origem. Meteu-se numa trama, cheia de pontas e personagens, para proteger o que realmente lhe interessa: a própria família. O resto é o governo.

O namoro entre Bolsonaro e o Centrão, hoje na pauta diária da imprensa, já estava engatilhado desde os primeiros meses de gestão. O que levou o presidente em definitivo aos braços dos patriotas de centro foi justamente o medo das investigações sobre os esquemas familiares, com Queiroz no meio. É o curso natural das coisas.

Numa reunião com deputados do PSL, ao cravar um acordo sobre aquela história do Coaf e do Banco Central, Bolsonaro viu a deputada Carla Zambelli cair num choro incontrolável. Ela e outros se sentiam traídos pelo casamento entre governo e Centrão. A tropa de choque cobrou o compromisso “sagrado” sobre a nova política.

Escreve Thaís Oyama: Bolsonaro não cedeu à velha política de uma vez: curvou-se a ela aos pouquinhos. Mas não apenas no caso Queiroz. O presidente recorre aos mais baixos expedientes para obter o que deseja. O livro tem muito mais – com destaque para as estranhas relações do capitão com Dias Toffoli, presidente do STF.

Quando o livro saiu, Bolsonaro veio a público despejar sua diplomacia sobre a autora. Recorreu à misoginia e fez piada com as origens familiares da jornalista. Sinal de que há informações relevantes para o leitor. Redatora-chefe da Veja até 2018, Thaís Oiama escreve com precisão e sobriedade. Sem firula, acerta no alvo.

No combate a fake news, Justiça Eleitoral terá atuação inédita nas eleições municipais

  • 26/07/2020 02:53
  • Blog do Celio Gomes

Em 7 de outubro de 2018, a ministra do STF e então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber, deu uma declaração espantosa ao jornal O Globo. Ao ser questionada sobre a avalanche de fake news na campanha eleitoral daquele ano, ela afirmou o seguinte: Não é que o TSE nada tenha feito. Prevenir fake news, eu não conheço como poderíamos ter atuado nessa área onde temos um princípio maior, da liberdade de expressão. Era a confissão de uma fraqueza desmoralizante. Precisamente naquele 7 de outubro o brasileiro ia às urnas para votar, no primeiro turno das eleições.

A entrevista de Rosa Weber foi um desastre para a Justiça Eleitoral. Nos meses que antecederam a hora da votação, o ministro Luiz Fux repetia seu mantra favorito: candidato que apelasse a fake news estaria ferrado nas barras da lei. Ele era na época o presidente do TSE, cargo que passou à colega Weber no dia 14 de agosto, a menos de dois meses das eleições. A gestão da sucessora, no entanto, nada fez contra a farra das notícias falsas.

Na mesma entrevista ao jornal, Rosa Weber piorava tudo a cada tentativa de explicar a inércia da Justiça. O TSE tem dificuldades para enfrentar esse problema [de fake news e outros crimes], como nós todos temos. Toda colaboração que vier, inclusive da imprensa, será extremamente bem-vinda. Após as palavras constrangedoras, encerrou a conversa com os jornalistas. Está claro por que as milícias virtuais fizeram o que quiseram em 2018.

Este ano será diferente, pode apostar. Da eleição de Jair Bolsonaro pra cá, muita coisa mudou quando o assunto são os esquemas de produção de informações falsas. Dois inquéritos no STF estão na cola de patrocinadores e operadores das redes que distribuem ataques difamatórios contra adversários. Nessas investigações, blogueiros e empresários foram alvos de prisão e de busca e apreensão. Mais ações devem ocorrer nos próximos dias.

Na última sexta-feira, contas do Twitter e do Facebook mantidas por bolsonaristas foram tiradas do ar por decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes. Foi mais um golpe na rapaziada do gabinete do ódio e afins. Em outra frente, dias atrás, as próprias redes sociais desativaram dezenas de perfis da turma que venera o capitão-presidente. E tem ainda, no Congresso, a CPMI que vem apertando o cerco pra cima dos bandidos digitais.

As eleições que estão chegando serão coordenadas pelo ministro Luís Roberto Barroso, que agora preside o TSE. Ele dá sinais de que montará uma estratégia de guerra para barrar, identificar e punir, com rapidez, o candidato flagrado nessas jogadas. Não há outro caminho, diante de tudo o que se sabe que houve na disputa de 2018 – e diante dos fatos vistos desde então. O maior desafio de todos é evitar o uso do WhatsApp para fraudar as urnas.

Dois dias atrás, na Folha de S. Paulo, Barroso deu o tom de como pretende tratar o problema. Ao se referir aos que recorrem às táticas milicianas digitais, ele afirmou: A democracia tem lugar para conservadores, liberais e progressistas. Só não tem lugar para a intolerância, a violência e a tentativa de destruir as instituições. Não são pessoas de bem. São bandidos. Com esse cenário a que chegamos, é certo que o TSE não ficará na bravata.

Não se sabe ainda como o tribunal levará à prática a decisão de identificar propagadores de fake news na campanha eleitoral – e nem como vai agir após o eventual flagrante. Também não sabemos que esquema especial haverá no dia da votação. Mas Roberto Barroso não repetirá a passividade de sua antecessora.

Do outro lado da praça estão políticos e suas equipes. A essa altura, o uso das redes é pauta prioritária na cabeça de marqueteiros – das fortes candidaturas, dos nanicos e dos que pretendem estrear na seara eleitoral. Embora não seja novidade, a caça ao voto pela internet será ainda mais complexa – e explosiva – nesta eleição municipal.

Renda Brasil, Paulo Guedes e o comunismo

  • 25/07/2020 18:52
  • Blog do Celio Gomes

Trocando em miúdos, Bolsonaro está decidido a ganhar o eleitorado pelo bolso. O auxílio de 600 reais para os sem-renda, neste período da pandemia que assola o país, foi a senha definitiva para o capitão perceber a “janela de oportunidade”. A popularidade do elemento até subiu desde que o dinheiro começou a chegar na ponta, na mão de quem estava sem nada. Pesquisas de diferentes institutos atestam que a maioria dos beneficiados vê o socorro oficial como obra e graça de Jair Messias. Mesmo que isso não seja verdade, põe Bolsonaro no pedestal do novo pai dos pobres. Por aí.

Corta para Paulo Guedes, o ministro da Economia que despreza políticas de transferência de renda, vistas por ele como verdadeiro crime de lesa-pátria. É que o ministro, todos sabem, é de uma escola de pensamento na contramão de qualquer ideia que lembre os arredores do chamado Estado de bem-estar social. O cara é dos bancos, é do liberalismo, é da autorregulação do mercado. Assim, é o seguinte: quem tiver lascado que se vire.

Na prática, porém, a coisa não tem sido assim. De repente, Guedes passou a bajular Bolsonaro em público, exaltando exatamente a distribuição de dinheiro para as populações mais carentes. Fala como se a dupla (ele e o presidente) estivesse reinventando a roda, fazendo algo inédito na história do país. Ao farejar o aplauso das ruas, o governo parece disposto a apostar tudo no discurso de assistencialismo direto, com repasse de grana.

Sinal definitivo na inflexão do liberalismo de Guedes – com o qual Bolsonaro se fantasiou – é o anúncio da criação do Renda Brasil. A marca fantasia vai, na verdade, rebatizar o Bolsa Família – criação do governo Lula a partir de programas da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso. Cada um vai acrescentando um tijolinho na arquitetura da antiga construção. Mas tudo mudaria no governo da nova direita, reverente ao Estado mínimo. 

Deu-se o contrário. O Renda Brasil é a aposta de Bolsonaro para avançar no Nordeste. Na região, o presidente já vê sua rejeição começar a diminuir. Na outra ponta, é óbvio, cresceu a aprovação ao governo do capitão da tortura. Vejam que o Bolsa Família era “esmola do PT para comprar os pobres”. É o que dizia Bolsonaro, é o pensamento do ministro. E aí estão os liberais a turbinar uma clássica política com DNA de esquerda.

E como ficam os projetos do “gênio” do mercado? Antes, durante e depois da campanha, Guedes prometia um novo mundo aqui no Brasil. A cada ação do governo, a cada convênio, a cada tratado internacional, a cada pacote de privatizações, 1 trilhão de reais cairia nos cofres da pátria. E toda essa fortuna, jamais vista por aqui, nos daria os investimentos para sermos uma potência da gota serena. China e Estados Unidos deveriam tremer.

Miragem. Fantasia. Estelionato. Enquanto Paulo Guedes não consegue privatizar nem os Correios, Bolsonaro se esbalda na “inauguração” de mais uma etapa do milenar projeto de transposição do rio São Francisco. Lá estava o sujeito, nos trajes do mais mequetrefe populista, “levando água para os sertanejos”. Não era essa a gestão que os liberais na economia e conservadores nos costumes anunciavam a seus seguidores. Mas é o que temos.

Há uma dúvida cruel na cabeça dos donos do dinheiro diante desse desempenho do ministro da Economia. O que está acontecendo com aquele parceiro do grande capital e da ciranda financeira? É ainda confiável para os “investidores”? Para tumultuar ainda mais o panorama, Guedes e Bolsonaro tramam agora uma nova CPMF. Virá com outra sigla, claro, numa tentativa de disfarçar o indisfarçável. Ninguém aposta nada no horizonte.

Outro dia, em entrevista à CNN Brasil, para defender suas fixações, Guedes atirou no Plano Real. É a prova definitiva de quem é o ministro de Bolsonaro. Um ressentido que nunca engoliu o fato de jamais ter chegado nem perto do protagonismo daquela equipe que, lá nos anos 90, mudou a realidade brasileira. Ele tem inveja de Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Armínio Fraga – figuras centrais na vida pública e na academia.

Como vocifera o apoplético historiador Marco Antonio Villa, Guedes nunca escreveu um livro, um ensaio que seja, para expor suas ideias ao debate. Daí sua ojeriza ao pessoal do Plano Real. Não é um pensador, um estudioso de economia. É tão somente um brucutu, cão de guarda na defesa de privilégios dos milionários. Com sua piscadela para um “Estado-babá”, periga atrair a fúria dos caçadores de comunistas. Era só o que faltava. 

O perigoso cargo de secretário de Saúde

  • 24/07/2020 01:36
  • Blog do Celio Gomes

No ano passado, o jornalista Thomas Traumann lançou O Pior Emprego do Mundo, livro em que narra a extraordinária saga de homens e mulheres que ocuparam o cargo de ministro da Fazenda no governo brasileiro. Na obra, o autor afirma: Todo ministro da Fazenda do Brasil dorme com uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça, segura apenas por um fio fino que pode ser rompido a qualquer momento. Aplico a ideia de Traumann ao que se passa com o posto de secretário de Saúde. Este sim, hoje, é um emprego perigosíssimo no país.

Vejam quantas operações policiais já ocorreram desde a explosão da Covid-19. Titulares da Saúde foram acusados de desvios, alguns foram demitidos e houve até prisões. Tudo isso decorre de supostos esquemas para fraudar a aplicação dos recursos destinados ao combate da pandemia. Parece que todo santo dia, alguma nova denúncia vai acabar com a carreira de mais algum secretário Brasil afora. O clima é de tensão – forte e permanente.

Apesar da zoada promovida por algumas figuras em busca de dividendo eleitoral, até agora o governo de Alagoas não engrossou as estatísticas da fraude com a verba da saúde pública. Esperamos que continue assim. No caso da compra de respiradores pelo consórcio dos estados do Nordeste – que se revelou irregular –, o Estado é vítima e não culpado. Sim, a honestidade na condução da coisa pública é uma obrigação, requisito básico em toda área.

Mas, sabe como é, a tentação é um negócio terrível. Por isso, a transparência é regra vital na rotina da gestão pública. Nesse quesito, pelo que sei, o governo tem sido eficaz. Além de todos os dados que qualquer pessoa pode conferir nos canais oficiais pela internet, a secretaria mantém permanente diálogo com o Ministério Público (Estadual e Federal). Tudo é compartilhado com os membros do ente fiscalizador, numa relação sem filtros.      

Na cadeira de secretário estadual de Saúde está o advogado Alexandre Ayres (foto). Foi dele a ideia de fazer conferências semanais com promotores de Justiça e procuradores da República, nas quais expõe todos os dados referentes ao enfretamento da Covid. Nessas reuniões demoradas, Ayres explica as etapas do trabalho, revela números, afasta dúvidas e se submete ao escrutínio do MP. A iniciativa é saudada como exemplo para o país.

A missão já era uma dureza, mas o tamanho do desafio se multiplicou ao infinito depois que veio a pandemia. A nova realidade era um teste de fogo para o titular da pasta. Além de zelar por uma área desde sempre pra lá de complicada, Ayres teve de mostrar a que veio diante do novo inimigo – implacável e imprevisível. Seu desempenho mostra que, até o momento, passou no teste mais difícil que um gestor poderia encarar.

Eis que, no meio da crise sanitária, pintaram rumores de “fritura” pra cima do secretário estadual. Como informou o jornalista Voney Malta, meu colega de blog aqui do lado, servidores estariam inconformados com medidas de ajuste na folha salarial promovidos por Alexandre Ayres. Segundo apurei, o Estado tenta enxugar as despesas, com incentivo à aposentadoria para funcionários com tempo de serviço pra se aposentar. Não há ilegalidade.

Além disso, com as ações sobre a folha, o governo sustenta que abre caminho para concurso público. Essa é, aliás, uma promessa de campanha do governador Renan Filho. Alagoas não realiza concurso na área da Saúde há mais de 15 anos. Não haveria, portanto, perseguição a servidor – como se especula, claro, em aloprados debates de rede social. Então, vejam: em plena guerra contra o coronavírus, tem gente de olho na cadeira de Ayres.

A mínima suspeita sobre qualquer detalhe no trato dos recursos públicos, assim como na gestão como um todo numa secretaria, deve ser fiscalizada com lupa. Mas é crucial separar problemas reais de devaneios produzidos com intenções eleitorais. E claro que, numa hora dessas, maquinar nos bastidores a partir de demandas casuísticas é praticamente crime hediondo. É do jogo político, diga-se, mas continua sendo criminoso.

Não sendo ministro da Fazenda, Alexandre Ayres pode até não estar no pior emprego do mundo. Mas o volume de encrenca a desafiá-lo não é para qualquer um. Até agora, repito, ele passa no teste sem aprontar presepada de nenhuma espécie. É bom que assim seja, afinal para vencer a pandemia é preciso competência e honestidade. Além do mais, estamos tratando da vida de milhões de alagoanos. Que o secretário se mantenha no rumo.