Blog do Celio Gomes

Eleição é coisa de família

Primeiro, o plano da ficção. No jogo da política, e das eleições em particular, a gente imagina que as lideranças partidárias debatem a formação de alianças a partir de afinidades ideológicas – ainda que ninguém saiba exatamente o que isso significa. Na escolha de aliados, também se leva em conta o conjunto de propostas que cada um tem a apresentar aos eleitores. Na expressão que virou moda, candidatos discutem acordos segundo os mais nobres princípios “republicanos”. É bonito!

Agora, a vida como ela é. Na hora de selar acordos para uma disputa eleitoral, o que realmente pesa são coisas assim: apoio financeiro, tempo de TV na propaganda, veto a nomes tidos como inimigos, cargos na futura gestão etc. Mas há algo tão ou mais importante quanto todas essas variáveis. Refiro-me às relações entre famílias que se revezam no comando de prefeituras e governos estaduais.

Escrevo sobre essa tradição brasileira após encontrar no YouTube, por acidente, uma entrevista do prefeito de Santana do Ipanema, Isnaldo Bulhões. Ele explica ao jornalista Fernando Valões por que decidiu apoiar o governador Renan Filho, e não o senador Fernando Collor na eleição para o governo. (Para evitar ruídos, sabemos todos que Collor desistiu da candidatura há uma semana).   

Para quem não sabe, Collor e Bulhões são aliados históricos. Renilde Bulhões, mulher do prefeito de Santana, é a primeira suplente do senador. As duas famílias sempre estiveram juntas nas disputas pelo poder em Alagoas. Em 1990, Collor, então na Presidência da República, foi o cabo eleitoral decisivo para eleger Geraldo Bulhões, irmão de Isnaldo, governador do estado. A ligação é forte.  

Mas em 2018, o destino separou os dois. Ao justificar sua escolha, sem querer o prefeito de Santana dá uma aula sobre como se faz política por aqui. Diz ele: Infelizmente a política tem desses desencontros. E ele [Collor] resolveu sair candidato a governador, num direito que ele tinha, que pode ser justo, mas pegou a nós da família já com compromisso, que vinha marchando.

Nos quase cinco minutos da entrevista, Isnaldo Bulhões revela dois sentimentos opostos: lamenta a separação do antigo aliado, mas é enfático em garantir o pleno apoio a Renan Filho. Mesmo assim, a amizade entre as famílias continua. Bulhões é esclarecedor: Quem sabe se daqui a quatro anos a gente não se encontra de novo, com o Collor, com o Renan, com todo mundo junto

Compromisso familiar acima da esfera pública. Acordo entre os clãs. A força do parentesco. Essas ideias, que as ciências sociais tanto estudaram, continuam tão sólidas como nos tempos dos coronéis e dos engenhos. É essa visão de mundo que Isnaldo Bulhões expõe com uma naturalidade desconcertante. Seu jeito de falar é quase pedagógico – isto é a política, aqui é o Brasil.

E vamos nessa toada, pelo país afora, vendo um desfile de sobrenomes eternos, eternamente no poder. No próximo dia 7 de outubro, os de sempre estarão comemorando a vitória nas urnas – para fazer durante o mandato, vejam só, a “mudança de verdade”. Nosso voto ajuda a manter a tradição.

Farra de pesquisas interfere na eleição

Hoje tem pesquisa? Provavelmente sim. Embora desconheça dados estatísticos, com precisão matemática, arrisco dizer que jamais houve tantas pesquisas sobre eleição presidencial como ocorre em 2018. Sem exagero, suponho que, em média, saem pelo menos dois levantamentos por semana. Somente nos últimos dias, tivemos o Ibope e o Datafolha, cada um, com duas rodadas de consulta ao eleitorado. Há quem considere um exagero, sem nada que justifique tanto pesquisador em campo.

Desde que voltamos a escolher o presidente da República em eleição direta, lá em 1989, a realização de pesquisas se tornou algo de peso no processo eleitoral. Tão comum quanto a sondagem do eleitor é a desconfiança sobre os resultados apresentados pelos institutos. Motivos para suspeita existem de sobra. Ao longo da história, não foram poucas as eleições cujo desfecho desmentiu por completo as previsões de todas as pesquisas. Incompetência ou fraude? Nunca saberemos.

Falar em fraude, ou algo por aí, está mais para reação de candidato que fica para trás na intenção de votos. Mas isso não explica o tanto de disparate que costumamos ver a cada ano de eleição. De fato, as diferenças entre a tal “fotografia do momento” e a realidade das urnas, muitas vezes, estão acima do razoavelmente aceitável. Por isso a avalanche de acusações está logo ali, pronta para desabar.

Os mais contrariados querem a proibição pura e simples de pesquisas durante toda a campanha. Outros, menos radicais, defendem que haja um limite no calendário – divulgação somente até três ou duas semanas antes da votação, por exemplo. Esse tipo de ideia já andou pelo Congresso Nacional, na cabeça de parlamentares que pretendiam emplacar projeto de lei nesse sentido. Não deu.

Com tantos institutos na praça, trabalhando para vários clientes, seria natural que houvesse um debate mais sério sobre o tema. Se existe alguma coisa com forte poder de influência sobre os eleitores, então isso não pode correr de modo tão solto. É claro que há a Justiça Eleitoral, mas ninguém sabe ao certo como se verifica a consistência de uma pesquisa. E isso é possível?

É claro que as empresas que realizam esse trabalho garantem que tudo é feito com transparência e critérios científicos. O cidadão comum, no entanto, passa longe desse suposto cientificismo todo. O dato essencial é: pesquisa interfere sim na decisão do eleitor. Agora mesmo vê-se forte discussão sobre o tal voto útil. Esse voto só existe em decorrência do que mostram as pesquisas.

Outro dado que parece mais presente na atual campanha é a quantidade de pesquisas encomendadas por bancos e empresas de consultoria financeira. Quando divulgam esses números, os contratantes avançam na projeção de cenários que seriam de interesse de seus clientes. Assim, tais pesquisas mostrariam quem são os candidatos que podem melhorar o seu bolso.

Convenhamos que os motivos dos bancos e financeiras passam longe de interesses patrióticos. Num ambiente com esse foco, é até natural que haja alguma desconfiança quanto aos resultados. Afinal, na lógica do mercado, relevante mesmo é garantir a multiplicação do dinheiro – não necessariamente o nosso. Pior é a tabelinha do mercado com empresas de jornalismo. É conflito.

Para ficarmos com as marcas mais tradicionais nesse ramo, Ibope, Datafolha, Vox Populi, Gallup, Sensus e Ipsos já tiveram de explicar, mais de uma vez, as discrepâncias entre suas aferições e a vontade do eleitor que sai das urnas. E nem se fale nas gritantes diferenças entre números levantados num mesmo período, por institutos diferentes. Explicação singela: métodos desiguais.

Na eleição presidencial deste ano, o Instituto Parará entrou no seleto grupo dos que fazem pesquisa para clientes poderosos. A mais recente foi encomendada pela Empiricus, uma espécie de agência de especulação financeira, parceira do site O Antagonista, criado por egressos da revista Veja. Na página da Empiricus se lê isto: “Como você pode triplicar o seu dinheiro até 31 de janeiro de 2018”.

O assunto não é irrelevante. Vários países impõem restrições à divulgação de estudos sobre o voto dos cidadãos. Em alguns casos, é proibida a publicação a poucas semanas do dia do voto. No Brasil, apesar de raivosas pressões, em diferentes épocas, a prática está liberada até na véspera da votação – sem falar na consulta em boca de urna. Uma verdadeira indústria na fabricação de pesquisas.

A praga de pesquisas certamente provoca distorções, muitas na contramão de fatos de maneira inexplicável. E uma vez publicadas, o estrago se impõe de forma tão ampla, que nada mais consegue mudar o retrato devastador. Fazer o quê? Se existem encrencas, é urgente a criação de mecanismos de freios, de elementos capazes de evitar a manipulação deliberada da realidade.

Sem querer esticar e já esticando, pense ainda na cabalística “margem de erro, para mais ou para menos”. Taí um perigo nas mãos de quem eventualmente pretenda dar um jeitinho nos dados, puxando para baixo o índice de um candidato, e soprando para cima outro concorrente. Quanto maior a margem de erro, mais ampla a margem para um troca-troca entre o líder e o segundo lugar.

Como jornalista, mas não apenas por essa contingência discutível da vida, defendo a publicação das pesquisas. Mesmo contraditórias, mesmo com alguns resultados claramente distantes do mundo real, sou contra qualquer restrição à publicação de informações. Num país de tantos momentos em que vivemos sob a mordaça, o pior caminho é o da sonegação de dados ao eleitor.

E, pensando bem, na bagaceira em que o país vive nos últimos anos, o menor dos problemas é a opinião do eleitorado diante de um questionário nas mãos de um pesquisador. Afinal, até um dia desses, a única opinião levada em conta era o do mitológico Roberto Marinho. Não deixa de ser um avanço. Seja como for, redobre a atenção sobre as pesquisas – e na hora de cravar sua escolha.  

Na reta final, o vale-tudo na eleição

A campanha do tucano Geraldo Alckmin trouxe a Venezuela para a eleição brasileira. No programa da TV, o candidato a presidente diz que, nas mãos do PT, o Brasil pode se tornar um país como o do incontrolável Nicolás Maduro. No quartel do PSDB, bateu a ordem para pegar pesado no discurso de ataque a Lula e ao petismo. A tentativa é atrair, em forma de votos, apoio de quem não aguenta ouvir falar em Fernando Haddad eleito ao Planalto. Em debate e entrevista, Alckmin segue por aí.

Muita gente acredita que boa parte dos votos em Jair Bolsonaro representa os raivosos contra o PT.  Ao vestir a farda antipetista, ele garantiu esse patamar que ostenta hoje nas pesquisas. O tucanato, apesar da bagunça interna, alimenta a esperança de operar uma guinada nesse entendimento. Acha que o eleitor que odeia o PT ainda pode mudar de posição e abraçar a candidatura de Alckmin. É uma corrida também contra o tempo, a pouco mais de praticamente duas semana de irmos às urnas.

Alckmin também mira Bolsonaro, acusando-o de incentivar o clima de intolerância que se espalhou pelo país. Não se resolve nada na bala ou na faca, eis a frase que resume a ofensiva sobre o tipo de candidato que é Bolsonaro. Nada disso, até agora, afetou o desempenho nas pesquisas do militar reformado. Nem o atentado que sofreu alterou pra valer o rumo da campanha. Sua liderança é firme.

Se bater no PT, e especialmente no governo Dilma, é o caminho de gente como Bolsonaro, Álvaro Dias, Marina Silva e até Ciro Gomes, há um malabarismo, desse mesmo pessoal, para preservar um tanto o nome de Lula. A razão é bem simples. Preso desde abril, após uma sentença mequetrefe, o ex-presidente é um manancial de votos capaz de decidir uma eleição – e isso é algo incontestável.

De ontem para hoje, a imprensa noticia uma crise, ainda que incipiente, no núcleo duro da campanha de Bolsonaro, ou seja, entre ele e seu Posto Ipiranga, o economista Paulo Guedes. Pelo que entendi do que se noticia, o guru do ultraliberalismo andou falando demais – defendendo ideias perigosas – sobre criação de impostos. É tudo o que atormenta os apóstolos do sobrenatural "mercado”.            

Marina Silva, como nas eleições de 2010 e principalmente na disputa de 2014, parece experimentar o mesmo martírio de vislumbrar o horizonte do segundo turno, para, rapidamente, desabar na simpatia do eleitorado. O problema, entre outras especulações, é que a candidata não consegue fidelizar sua filosofia em nomes aliados a causas perenes – mesmo surfando as mitológicaa águas da pororoca.

Eleição é um fenômeno sem escrúpulos. Dito isto, desculpem pelo originalíssimo diagnóstico, mas tem certas coisas, por mais duradouras que sejam, que resistem sob blindagem indevassável. Ficamos assim: Alckmin atira em petista e Bolsonaro; Ciro dispara sobre o PT e seu candidato ungido pelo grande líder – mas insiste na preservação de Lula. Nada de errado com isso, prova a história.

Veja que mirabolante. Chegamos em 2018, com a mais inusitada desde as eleições de 1989. É a primeira disputa antes da polarização que passaria a dominar todas as disputas entre 1994 até 2014, com PT e PSDB arrastando o voto que elegia o presidente. A sequência foi interrompida no tapetão com o processo de impeachment contra Dilma. De 2013 a 2018, mergulhamos numa aventura sem rumo. A consequência virá agora, com lances que ainda podem surpreender.

Para além das jogatinas pelo arrastão de votos, ainda temos de aturar a ladainha dos profetas do caos. Chega a dar urticária as profecias que decretam que estamos à beira da morte da democracia. Não passa um dia na imprensa sem que leia mais um artigo em desespero, quase em prantos, anunciando aos incautos que você, um perfeito Zé Mané, adere ao obscurantismo.

Não bastassem os conchavos, típicos nos submundos partidários, ainda temos uma patota do Ministério Público emporcalhando a campanha com denúncias casuísticas e rasteiras. É mais ou menos nessa encruzilhada do capeta que tentam nos meter em 7 de outubro. Resistamos!

Os novos números do Ibope para o Senado. E o clima vai esquentar

Divulgação F62b9f1a 916d 48af 88d5 41e5659a817b Renan Calheiros e Rodrigo Cunha

Você sabe, dois senadores tentam renovar o mandato este ano em Alagoas. Segundo a pesquisa do Ibope divulgada pela TV Gazeta nesta quinta-feira, Renan Calheiros pode sonhar com a vitória nas urnas. Ele aparece em primeiro lugar com 39% das intenções de voto. Seu colega de bancada Benedito de Lira tem uma parada mais dura. Ele perdeu o segundo lugar para o deputado estadual Rodrigo Cunha, que tem 37% da preferência. Biu é apenas o terceiro colocado com 23% das citações.

Com 18% das intenções do eleitorado, o deputado federal Maurício Quintella fica na quarta posição. Nunca é demais lembrar que vamos votar em dois nomes para o Senado. O resultado é excepcional para Cunha. Na pesquisa anterior do Ibope, ele tinha 19% e estava embolado na briga pela segunda cadeira. Agora, num crescimento de 18 pontos, abre diferença enorme de Benedito e Quintella.

Se prevalecerem os números da pesquisa, a aliança governista em torno de Renan Filho elege um senador; e a oposição, mesmo caindo pelas tabelas na disputa ao governo, garante a outra vaga. Naturalmente deve-se manter a prudência e esperar o andamento da campanha. Dizem que na última semana o eleitor pode surpreender com movimentos até então inesperados. Vamos ver.

O levantamento também atesta, mais uma vez, a resistência política do senador Renan Calheiros. A força da máquina ajuda, assim como o velho discurso das “grandes obras” no interior do estado. Sua atuação ostensiva consegue superar o noticiário francamente desfavorável para ele ao longo dos últimos anos. Alvo de várias denúncias, está sempre às voltas com casos de repercussão nacional.

E foi logo nesse campo que Renan, por ironia do destino, recebeu a melhor notícia na campanha: foi absolvido pelo STF da acusação feita em 2007 sobre pagamento de pensão familiar. No julgamento, ministros do Supremo ressaltaram a evidente fragilidade da denúncia feita pelo Ministério Público Federal. Pra variar, muito barulho e nada de prova. Foi uma vitória e tanto para o senador alagoano.

Voltando ao Ibope, a grande novidade mesmo é Rodrigo Cunha. É ele também o que tem tudo para festejar – talvez mais do que esperasse nesta altura da corrida eleitoral. Com uma campanha de poucos recursos, recorrendo à história pessoal, com destaque para a tragédia familiar, o deputado parece ter emplacado a imagem de “novidade”. A briga esquenta a partir de agora, pode apostar.

Veremos os sinais de acirramento nos próximos programas de rádio e TV. Basta observar que agora mesmo concorrentes ao Senado andam se elogiando, um chamando o outro de “velhaco”. Os vídeos estão na internet, como o CADAMINUTO informou. Olho na propaganda que vem aí!

TV Gazeta, Ibope e pesquisa de ficção

A TV Gazeta divulgou na noite desta quinta-feira nova pesquisa Ibope sobre a eleição para governador de Alagoas. Como não poderia ser diferente, Renan Filho está disparado em primeiro lugar, com impressionantes 65% das intenções de voto. No levantamento anterior, ele tinha 46%. A liderança se consolidou de forma definitiva. Os três outros candidatos – Josan Leite, Basile Christopoulos e Melquezedeque Farias somam juntos 10%. Mas tem um problema sério aí.

Os pesquisadores foram a campo entre os dias 17 e 19 (da última segunda-feira até ontem, quarta). Ocorre que neste período já existia um novo candidato ao governo estadual. Como se sabe, o delegado Pinto de Luna entrou na corrida após a desistência do senador Fernando Collor. A TV Gazeta explica que o nome de Luna não foi apresentado ao eleitor porque a candidatura ainda não havia sido registrada. Não é bem assim. Essa informação não combina com as datas do Ibope.

Collor renunciou no fim de semana. Na segunda, Luna já apareceu na imprensa confirmando que era o novo candidato da coligação. Na terça-feira ele já fazia campanha. Na quarta, o novo candidato apareceu durante alguns minutos, nas duas faixas do horário eleitoral na TV, e nas inserções ao longo do dia. Mesmo assim, a equipe do Ibope continuou nas ruas, ouvindo eleitores sobre uma eleição do passado, com uma lista incompleta de candidatos. Mais loucura do que isso, não sei o que seria.

Acho estranho que os contratantes da pesquisa, no caso a Globo e a TV Gazeta, tenham mantido a divulgação de um resultado que distorce, de saída, a realidade elementar. Tudo bem que todos já consideram a parada resolvida, com a virtual reeleição de Renan Filho. Mas pesquisa é pesquisa. E jornalismo é jornalismo. Não se trata de contestar o cenário da disputa, por favor. Mas não tenho dúvida: a divulgação do Ibope, por falsear a verdade dos fatos, foi apenas um erro. A pesquisa é nula.

Tenho cá pra mim que adversários, sobretudo Pinto de Luna, poderiam entrar com algum tipo de ação contra os responsáveis pela publicação dos números do Ibope. Pode chamar de fake news. Talvez caiba até um direito de resposta. Bem, isso fica para os advogados das campanhas.

Que o Ibope e a TV Gazeta pisaram na bola, não resta pingo de dúvida. Deveriam ter cancelado a coleta em andamento, para voltar a campo nos dias seguintes, com a lista precisa de candidatos. Suponho que questões econômicas foram decisivas para embarcar numa pesquisa de pura ficção.

Também saiu o novo panorama na disputa pelo Senado. Aqui, parece que não houve erro de metodologia no Ibope. Vou comentar os números de Renan Calheiros, Rodrigo Cunha, Benedito de Lira e Maurício Quintella. O quadro mudou. Mas esta briga é o assunto do próximo texto.

Ibope e Datafolha divergem sobre Ciro e Haddad – e tudo é conspiração

Nas últimas horas, desde a noite desta quarta-feira, mais um debate sanguinolento tomou conta dos corredores da imprensa, dos sites de notícia, dos textos de opinião e, claro, de todas as redes sociais. A confusão do momento envolve a última pesquisa Datafolha, divulgada quase na madrugada de hoje. (Aliás, o horário de divulgação dos dados é um dos fatores citados nas teorias de conspiração).

Que conspiração? Resposta: haveria um movimento para turbinar a candidatura de Ciro Gomes, porque Fernando Haddad seria o inimigo número um da Globo e do sistema (Desculpem o palavreado). É que na terça-feira, véspera da pesquisa do Datafolha, o Ibope mostrou um cenário com o petista isolado em segundo lugar, e o pedetista quase descartado neste primeiro turno.

O Ibope e o Datafolha apontam Jair Bolsonaro na liderança com 28% das intenções de voto. Ou seja, aqui os dois institutos combinam, sem nenhuma polêmica. Mas a coisa muda bastante com o segundo e o terceiro lugares. No Ibope, Haddad tem 19% e Ciro fica bem longe, com 11%. Já no Datafolha, o petista tem 16%, enquanto o ex-governador do Ceará aparece com 13%.

Valendo a fotografia de um instituto, teremos segundo turno entre Haddad e Bolsonaro. Seguindo a foto do outro instituto, Ciro está no páreo, em empate técnico com o candidato do PT. Sendo assim, pode ser ele, o quase cearense, a garantir um lugar na etapa final da eleição. Teremos de acompanhar cada pesquisa a caminho, nesse ritmo de ao menos duas novas rodadas por semana.

Tudo isso já seria o bastante para o carnaval de especulações e chutes acerca dos próximos lances de campanha. Nada demais. Mas como estamos falando de conspiração, poder e sistema, o debate que empolga mesmo tem de estimular as piores motivações e as mais sombrias previsões. Por isso, não adianta a Folha e o Ibope tentarem explicar seus números e projeções. É claro que aí tem.

Na quadra alagoana, houve debate na TV Ponta Verde nesta quarta-feira. O governador Renan Filho não compareceu. Virtualmente reeleito para o segundo mandato, ele não tem interesse de se expor em circunstâncias e ambientes nos quais nada teria a ganhar. Aos adversários, cabe fazer barulho para mostrar que a eleição não acabou. (Agora vou ali, esperar a próxima pesquisa).

Pinto de Luna, o novo candidato

Uma eleição sem precedentes. Acabo de ver o primeiro programa do delegado Pinto de Luna no horário eleitoral da TV. Como se sabe, o ex-superintendente da Polícia Federal em Alagoas topou a aventura quase inclassificável de ser candidato a governador. Foi o nome escolhido pela coligação para substituir o senador Fernando Collor. Luna, que era petista, hoje está filiado ao Pros.

No programa de estreia, o novo candidato apostou num discurso que se vale de sua trajetória como chefe da PF. Falou de seriedade e independência, condenou os políticos tradicionais alagoanos e disse que o estado precisa se livrar do domínio eterno dos “poderosos”. Apesar de enfático, o candidato não citou nomes para ilustrar suas críticas aos caciques estaduais. Ficou meio genérico.

Pinto de Luna é agora a aposta da oposição, que junta PSDB, DEM e PP entre as principais siglas na aliança. A 18 dias da votação, o êxito do novo candidato seria a maior reviravolta na história das eleições alagoanas. Não se fala em outra coisa a não ser numa vitória de Renan Filho, e com votação recorde. Claro que ninguém deve cantar a glória antes do tempo, com as urnas ainda desligadas.

Se a parada ao governo tem tudo para estar definida, resta o suspense quanto à disputa pelo Senado. Não temos pesquisas atualizadas sobre as intenções do eleitorado. Renan Calheiros e Benedito de Lira, em lados opostos, tentam renovar o mandato. Maurício Quintella e Rodrigo Cunha, também separados em campos rivais, brigam para desbancar os atuais donos das cadeiras.

No mais, como já escrevi por aqui, renovação mesmo será quase nada. As urnas vão reafirmar caciques, famílias e grupos partidários de longa trajetória nesse negócio. O discurso de Pinto de Luna contempla essa realidade. Mas parece deslocado, no improviso – como não poderia deixar de ser numa candidatura jamais planejada. Bem que a campanha podia ficar mais animada.

No cenário nacional, as opiniões pela imprensa ainda estão sob o impacto do crescimento de Fernando Haddad, como atestou o Ibope. Espera-se, com forte expectativa, cada lance na campanha dos presidenciáveis. O pouco tempo que resta requer atenção máxima principalmente para não errar. É para isso que existem os marqueteiros, com suas ideias inovadoras no universo da ficção.

Ibope confirma forte crescimento de Fernando Haddad

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Agora é a nova pesquisa do Ibope. Números divulgados na noite desta terça-feira confirmam a tendência de crescimento do petista Fernando Haddad. Ele se desgarrou do bloco no qual estava embolado com Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva. Com 19% das intenções de voto, o ex-prefeito de São Paulo avançou 11 pontos em relação ao Ibope de uma semana atrás.

Jair Bolsonaro oscilou dois pontos e continua firme na liderança com 28%. Firme, pode ser, mas não com capacidade para ampliar seu índice além da casa dos 30% neste primeiro turno. É o que mostra a sucessão de pesquisas ao longo dos meses. Ao contrário do candidato do PSL, Haddad vive momento de aparente avanço no eleitorado, com sinais de que a onda vai continuar em alta.  

E é claro que o êxito na campanha do presidenciável petista se explica em parte pela esperada transferência de votos de Lula para seu escolhido. Parece que veio mais rápido do que se poderia imaginar. Muita gente do próprio PT festeja o que considera um resultado surpreendente, em período tão curto de tempo. O forte desempenho acaba por reforçar a militância e a campanha.

O programa do PT no horário eleitoral na televisão cumpre papel decisivo na missão de tentar eleger Haddad. A coordenação da propaganda parece ter encaixado da melhor maneira o fator Lula nas narrativas apresentadas. A imagem do ex-presidente e o texto em sua voz combinam com a mensagem que se pretende emplacar. Até agora, saiu melhor que a encomenda para o petismo.

Se Bolsonaro segue na mesma, e Haddad comemora a melhor fase em sua campanha, as notícias vão ficando cada vez mais devastadoras para quem, até um dia desses, sonhava com lugar certo no segundo turno. No Ibope que acaba de sair, Ciro estacionou com 11%; Alckmin caiu para 7%, e Marina também recuou, e agora tem 6%. É uma mudança e tanto em relação ao início da corrida. 

Diante desse cenário, as candidaturas de Bolsonaro e de Haddad ficam na mira de uma pancadaria maior. Natural. Ciro e Alckmin têm menos de três semanas para virar o jogo – mas isso hoje está mais no campo das coisas remotas. A pesquisa Ibope reforça a tendência já captada em levantamentos anteriores. Estamos mesmo perto de um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad.

Nada pode ser dado como definitivo, ainda mais numa fase da vida brasileira em que a Constituição é atropelada todo dia. Problema sério é que parte do Judiciário e do Ministério Público tem tudo a ver com esse ataque às leis. Vamos torcer. Na eleição, apesar de tudo e de tantas ressalvas, manda a vontade do eleitor. É o voto direto que muda governo e parlamento. Mudança com legitimidade.

Bolsonaro e Haddad no segundo turno

Nova pesquisa CNT/MDA, divulgada nesta segunda-feira, projeta um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Traduzido em números, é a primeira vez que tal cenário é captado num levantamento sobre a intenção de voto do eleitorado. Bolsonaro lidera com 28,2%; o petista Haddad vem em seguida com 17,6%; Ciro Gomes tem 10,8%; Geraldo Alckmin aparece com 6,1%, e Marina Silva fecha o grupo dos cinco primeiros com 4,1%. O desfecho pode ficar com esse desenho.

O quadro revelado por CNT/MDA vinha sendo cantado desde a semana passada. Haddad foi confirmado como candidato pra valer na terça-feira 11. Nos dias seguintes, Ibope e Datafolha publicaram pesquisas que já indicavam a tendência de o petista avançar na preferência do eleitor. Os dados de hoje, portanto, reforçam tal impressão. A continuar por aí, vamos a uma final com o novo nome da direita, Bolsonaro, contra o novo poste da esquerda, Haddad. Sem querer bancar profecias.

Como já escrevi por aqui, a situação ficou mais difícil para Ciro Gomes, porque ele briga, em tese, pelo mesmo eleitor de Haddad. A hipótese de um segundo turno entre o petista e o pedetista só existe no campo da abstração científica. No caso de Alckmin, precisaria tirar votos de Bolsonaro, que teria atraído tucanos desiludidos. Até agora, no entanto, essa estratégia não deu resultados. E a facada no candidato do PSL criou problema para o discurso agressivo do tucano sobre uma vítima.

Leio na imprensa que a candidatura Haddad já procura partidos adversários para conversar sobre a eleição do segundo turno. As negociações para ampliar o palanque contra Bolsonaro começaram antes do resultado das urnas neste primeiro turno. Como a soberba não é recomendável em nenhum jogo, também na política deve-se adotar a precaução – para não atropelar os fatos e estragar tudo. Mas é da alma do negócio especular e apostar o tempo todo. Ainda mais baseado em pesquisas.

Bolsonaro continua no hospital. Gravou um vídeo. Na mensagem, ele chora, ataca o PT e aponta uma conspiração contra sua vitória nas urnas. Pelo que entendi, o presidenciável acredita que as eleições serão fraudadas, porque poderosos não querem o capitão no poder. Enquanto isso, a campanha vai num tipo de cápsula, na rotina de um quarto. Fora das ruas, o tiroteio é todo nas redes sociais.

Alagoas. O delegado Pinto de Luna, que foi superintendente da Polícia Federal no estado, é o novo candidato a governador, em substituição ao senador Fernando Collor. É muita onda. Luna construiu uma imagem de seriedade como servidor público e, depois, na militância política. Quando falo em muita onda estou pensando nas surpresas e reviravoltas que podem arrastar uma candidatura.

De volta ao Brasil. Se não houver uma reviravolta, em três semanas, as urnas podem eleger, em 7 de outubro, Bolsonaro e Haddad para uma final que era, até um dia desses, bastante improvável. Mas dizem também que, em três semanas, tudo pode acontecer, e tudo pode mudar profundamente. Não é o que sinalizam os números, vistos em todas as variáveis e cruzamentos feitos por pesquisadores.

(Há quem ainda acredite num segundo turno entre Haddad e Alckmin. Mas tal hipótese, além de enfurecer o eleitor de Bolsonaro, seria conversa para mais um post. Voltarei em seguida, mas não necessariamente com a referida ideia como pauta. Tem uma loucura, um assunto, a cada travessa).

O voto do Nordeste, ontem e hoje

O Partido dos Trabalhadores nasceu abraçado com intelectuais renomados, espalhados por universidades e outros espaços do pensamento, digamos assim. O PT também veio ao mundo sob o aplauso das artes e com o engajamento de artistas. A simpatia de amplos setores da imprensa é um dado irrefutável. Muito bem. Com essa origem, o PT de Lula foi, desde o começo e por muitos anos, opção política para os mais escolarizados e os mais ricos. Hoje está tudo de cabeça pra baixo.

Ao longo da década de 1980, a força de Lula e do PT não alcançava o povão, não significava quase nada no Nordeste. O discurso de representante, direto e legítimo, das demandas dos trabalhadores não seduzia os alvos daquele petismo. O voto dos mais pobres era da velharia do PDS e trepeças de semelhante padrão. Era mais ou menos isso. Taí um dilema historicamente ligado às esquerdas.

Em várias partes do mundo foi assim. A vasta literatura trata do tema com diversos autores e abordagens – em diferentes épocas, países e circunstâncias históricas. O drama é como fazer o alto pensamento dos ideólogos do partido se entrosar à realidade da feira e do meio da praça. Lula se referiu a isso tudo várias vezes, desde as origens do partido. Aí chegamos em 2002.

A eleição de Lula mudaria para sempre a relação do PT com o topo e com a base da pirâmide. Em dois mandatos do ex-sapo barbudo, o emblemático Nordeste dos coronéis foi tomado pelo carisma do presidente – e mais o Bolsa Família, é claro. A região que até o fim da década de 1990 desprezava o petista mudou de lado. É por isso que, entre os nordestinos, Fernando Haddad terá mais votos.

Pensei nisso aí ao ler por toda a imprensa, depois de mais uma pesquisa eleitoral, que o PT lidera a corrida presidencial entre os mais pobres e os menos escolarizados – o contrário de quando tudo começou, em 1980. Hoje parece óbvio, nada de tão estranho; mas, com a memória de 20, 30 anos, parece estranhíssimo; a impressão é de que foi quase uma revolução na política do país.

E assim, com a realidade que se cristalizou nos últimos anos, somos nós, os nordestinos, a bola da vez, o voto mais cobiçado entre os principais candidatos a presidente. São mais de 39 milhões de eleitores, 26% do eleitorado nacional. Não por acaso, acabo de ver na propagada na TV, na noite deste sábado, Haddad e Ciro Gomes em campanha pelo Sertão e pelas águas do rio São Francisco.

A propósito, Jair Bolsonaro tem mais voto entre os ricos e os altamente escolarizados. A paranoia da violência explicaria em grande medida essa inusitada preferência. Com tudo isso, podemos perguntar: afinal, o brasileiro não sabia votar antes ou não sabe votar agora? Ou seria simplório pensar o cenário por aí? Pode ser. De todo modo, minha pauta era apenas esta: o Nordeste, um espanto.

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