Blog do Celio Gomes

Contra o Brasil racista e excludente, Zumbi dos Palmares no Dia da Consciência Negra

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Um desses miseráveis de espírito que se elegeram para o parlamento brasileiro pelo PSL aprontou mais uma. Um tal de deputado Coronel Tadeu, que representa São Paulo na Câmara Federal, destruiu um painel que fazia parte de uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra. O gesto infame ocorreu em pleno espaço do Congresso Nacional. Ele não gostou da imagem que mostrava um jovem negro morto por um policial militar. O partido pelo qual Bolsonaro foi eleito é um amontoado dessas espécies asquerosas.

Jovem negro assassinado é uma categoria no Brasil. Dados oficiais atestam a verdade dramática. É a população que mais sofre a repressão do Estado. Qual o motivo da revolta do verme que praticou o atentado em Brasília? É aquele tipo de gente que, diante da realidade incontestável, apela para a violência. Não há surpresa nenhuma no gesto criminoso do representante dos “cidadãos de bem”.

O quadro atacado pelo deputado traduz o que se passa diariamente nas cidades brasileiras, de ponta a ponta do mapa. São negros e favelados os alvos preferidos das forças policiais. Aqui mesmo em Alagoas é o que ocorre desde sempre. Para os excluídos, não tem mandado judicial, não tem direito de defesa, não tem conversa. É a botina na porta do barraco. É tortura. É bala na cabeça.

Acabo de ler que os patriotas do bolsonarismo “não reconhecem” Zumbi dos Palmares como símbolo nacional. Querem negar o legado, a história e o significado de uma figura central no debate sobre os rumos de um povo. Como nos regimes mais abrutalhados da humanidade, rastaqueras como o próprio Bolsonaro deliram com a possibilidade de reescrever a História. Apesar da fúria, é inútil.

A atitude vergonhosa do parlamentar que faz parte da “nova política” é reveladora de onde chegamos com a eleição de 2018. O triunfo do capitão da tortura, como já escrevi aqui, destampou a panela do capeta e liberou geral o ânimo doente de uma parte do país. O coronezinho, que até então acalentava suas taras abjetas sob a farda, agora se sente legitimado para arreganhar os dentes.

Bolsonaro é racista. E grande parte de sua seita finalmente conta com o aval da Presidência da República para reproduzir o racismo – sem constrangimento, sem disfarce, com a mais depravada das convicções. A receita do sujeito homem para combater os índices de miséria é o extermínio. É a turma que saiu do armário, lá entre os patos da Fiesp, e veio bater na “área nobre” da Ponta Verde.

Outro dia, numa emissora de TV alagoana, vi um delegado da Polícia Federal fazendo ironia com a ideia clássica que define o perfil do contingente carcerário no país. Sim, refiro-me à “política” de repressão que tem como alvo os Três Pês. Cadeia é para “preto, pobre e puta”. O xerife da PF fez cara de enjoo ao tratar da verdade incômoda, mas comprovada nas estatísticas à vista de todos.

O deputado vigarista que atacou a exposição sobre este 20 de novembro deveria ser punido por seu crime. Mas isso não ocorrerá. O sujeito certamente vai se agarrar na imunidade que lhe garante a liberdade de expressão – ainda que isso signifique o insulto à dignidade humana. Que ele seja exposto em sua baixeza moral, e que receba o desprezo como resposta à ignomínia perpetrada.

Hoje é dia de subir a serra. A Serra da Barriga, o pedaço de terra na geografia de Alagoas que é sinônimo de resistência, de luta por liberdade e por direitos dos perseguidos pelos donos do poder. É desconcertante que – mais de três séculos após o Quilombo dos Palmares – o Brasil tenha de conviver com tamanho descalabro, que é a violência contra seu próprio povo. Não aprendemos nada.

Quando Joaquim Nabuco escreveu que a escravidão, mesmo extinta oficialmente, seria uma maldição que atormentaria o país ao longo do tempo, não imaginava que a profecia se concretizasse de modo tão abominável. 20 de novembro é muito mais que uma data festiva. Resume o que podemos ter de melhor: a energia criativa, a insubmissão, o respeito pelo outro.

A falsa polarização: Bolsonaro não representa o pensamento conservador

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Na manhã de hoje ouvi de um interlocutor acidental um relevante ponto de vista sobre as “afinidades” entre Bolsonaro e o pensamento conservador no Brasil. Segundo minha fonte inesperada, os “verdadeiros conservadores” querem distância de toda essa calamidade pública que é o conjunto ideológico do bolsonarismo. O conservador “tem vergonha” de se ver associado à escória da política, ao que há de mais obscuro nos debates que tocam fogo no país. O presidente é só um populista adepto da prática de tortura.

Sendo assim, portanto, não é cabível falar em afinidades entre Jair e os princípios e valores da chamada direita clássica. Que eu saiba, ser conservador nunca foi sinônimo de atos e falas ultrajantes, como a celebração de chacinas e o desprezo a minorias e a movimentos sociais. O que um mequetrefe que exalta assassinos e milicianos tem a ver com correntes intelectuais da política?

É isso aí. O discurso da tal polarização de que tanto se fala no Brasil de hoje tem uma boa dose de falácia. Quando Lula saiu da prisão e atacou as ligações perigosas do presidente com o universo das milícias, ao contrário do que berrou a grande imprensa, não houve na fala do petista nada de “radicalização”. Ninguém está pregando ódio nenhum ao apontar essas investidas autoritárias.

Bater nas ideias criminosas de Bolsonaro está longe de ser uma postura de radicalismo semelhante ao que pensam e dizem os brucutus da ultradireita. Se existe polarização, é o confronto entre civilização e ímpetos totalitários. Não por acaso, o inquilino do Planalto lança seu próprio partido, com um manifesto que é mais tacanho do que os ideais da Arena, a legenda da ditadura militar.

Os ministérios foram distribuídos a uma tropa escandalosamente medíocre. A “meritocracia” que levou essa gente ao poder é toda baseada num reacionarismo que beira a patologia. Os caras conseguem uma combinação horrenda entre ignorância e desprezo pelos valores mais caros à democracia. Mais uma vez, condenar tudo isso não pode ser confundido com postura intolerante.

Forçar a barra para igualar Lula a Bolsonaro é o jogo de boa parte da imprensa – que fez o diabo a quatro para tomar a Presidência na marra, com um processo de impeachment cheio de exotismos e pirotecnia retórica. Apesar de toda a operação arrasadora, o sapo barbudo está de volta, como a maior liderança de oposição ao governo do capitão desqualificado. Fora disso, é torturar os fatos.

Em entrevista publicada pela Folha, o filósofo Mangabeira Unger foi direto ao ponto. Professor de Harvard, ele faz uma análise que me parece precisa sobre o que o país tem hoje no comando e o tipo de casamento entre governo e elite. Qual o papel de Bolsonaro no jogo do poder jogado pela turma do alto da pirâmide? O que esse ex-deputado do baixíssimo clero entrega aos donos do dinheiro?  

Atenção para a resposta do pensador brasileiro na Folha: Um banqueiro com doutorado em economia não vai se eleger presidente da República. A elite não consegue que a maioria das pessoas vote nele, então tem que arranjar um laranja. Para que o laranja seja eleito e entregue o poder de fato ao banqueiro e ao tecnocrata. Como diriam dez entre dez jornalistas: simples assim.

Em outras palavras, acrescenta este blogueiro, Bolsonaro não foi o candidato dos conservadores. Ele foi o candidato dos rentistas, do mercado financeiro, dos especuladores, dos banqueiros, dos imperadores da agiotagem multinacional. Esse papo de família, bons costumes e moralidade é diversão para doentinhos que seguem a seita. São fanáticos, usados pra atacar instituições.

A quadra do bolsonarismo duro é o lado extremo da extrema direita, o fundo do esgoto tomado por faniquitos fascistoides. Com um conservador – direi o óbvio – conversamos eu, você e qualquer um. Com uma gentalha que festeja assassinatos, como o da vereadora Marielle Franco, aí não. Porque isso não tem nada a ver com ideologia. É apenas o sinal definitivo de uma degradação sem remédio.

O Partido de Bolsonaro e o dilema dos aliados que vão disputar as eleições em 2020

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As três ou quatro figuras de “destaque” no PSL de Alagoas estão um tanto desnorteadas com a criação de uma nova legenda, anunciada por Jair Bolsonaro. O deputado Cabo Bebeto e o agente da Polícia Federal Flávio Moreno esperam os próximos lances da jogada política para decidir sobre o rumo a ser seguido. A dupla já avisou que a fidelidade canina ao capitão da tortura é o que interessa. Se o homem der a ordem, os dois obedecem. Mas, como ninguém é bobo nesse negócio, não dizem se saem ou ficam no PSL.

O dilema dos valentes, assim como de outros aventureiros menos conhecidos, são as eleições do ano que vem. Já estão negociando tudo e mais alguma coisa para garantir uma candidatura. Alguns sonham estrear na vida pública com uma cadeira nas Câmaras Municipais. Em Maceió, meia dúzia de bolsonaristas mais alucinados quer tomar de assalto o parlamento da capital. E há as prefeituras.

O dilema a que me referi decorre justamente da novidade que é o virtual partido do Jair. Acordos já encaminhados, favores devidamente anotados para o acerto lá na frente, essas coisas da nova política – agora está tudo meio indefinido. Os diálogos republicanos foram suspensos no tranco. Os obscuros movimentos de Jair e seus filhotes maloqueiros atrapalham até os mais chegados.

Um dos problemas no projeto para a criação da Aliança pelo Brasil – o nome da futura agremiação – é o calendário. Tudo tem de estar nos conformes até março de 2020. É o prazo definido pelas regras da Justiça Eleitoral. A exigência de 500 mil assinaturas é apenas uma ponta da burocracia. Com essas dúvidas na cabeça, os perturbados seguidores do governo andam agoniados à espera de uma luz.

Para Bolsonaro, tanto faz. Ou quase isso. É que ele não precisa desesperadamente de uma sigla para o próximo ano. O que interessa ao amigo das milícias é a eleição de 2022, quando tentará renovar seu mandato. Mas, e os aliados, como ficam diante desse cenário? Precisam, reitero, de uma definição o mais rápido possível. Ocorre que Bolsonaro já provou que ele é tudo, menos confiável. Dureza!

A turma que está no PSL, e pretende disputar o cargo de prefeito Brasil afora, não tem como aguardar no escuro pela oficialização da nova sigla. Se houver uma encrenca burocrática de última hora, como é que ficam aqueles com candidaturas na praça? A História mostra que o risco é concreto. Nesses casos, a descoberta de eventual falha acaba sendo mortal – por falta de tempo pra corrigir.

Foi o que ocorreu com a criação da Rede em 2014. Com muito mais prazo para organizar o partido, a então senadora Marina Silva viu seu projeto desmoronar quando o TSE apontou erros e problemas na documentação apresentada. Ela acabou saindo como vice na chapa de Eduardo Campos.

Como tudo o que se passa na seita bolsonariana, não há como cravar nada baseado na lógica e nos fatos. Variável única a decidir as coisas é a vontade do presidente. Por isso, reitero, os garotões que se apaixonaram pelo “mito” estão meio perdidos agora. Afinal, tocam a vida no PSL ou caem fora logo?

Uma observação final sobre a invenção de Bolsonaro. Pelo “manifesto” rascunhado por esses reacionários – fãs de torturadores e de ditaduras sangrentas –, a sigla é uma presepada pior do que a Arena, a legenda que sustentava o regime militar. A escória da política brazuca terá nova casa própria.

A vida secreta dos anarquistas em Alagoas

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Quem são os anarquistas que conspiram pela iconoclastia política e existencial em Maceió? O que pensam, como vivem e onde se escondem? Pergunto porque, ao desandar pela cidade, você encontra pistas de que eles são reais. A prova? Basta prestar atenção nos muros, nas fachadas e até em bancos de praça. Em diferentes bairros da capital, essa tribo deixa sua mensagem subversiva em pichações, com desenhos, manchas, rabiscos e palavras de ordem. O teor é meio raivoso, uma declaração de guerra ao sistema.

Nos meus tempos de universidade, lá pelos anos 80 do século 20, havia um casal de estudantes que pregava os mandamentos da filosofia anarquista. O rapaz e a garota se mostravam radicais quanto ao que defendiam. Nas aulas de Jornalismo, lembro de alguns embates um tanto exóticos, para dizer o mínimo, entre eles e professores. Tudo era motivo de forte controvérsia, sem acordo sobre nada.

Uma das discussões mais inusitadas era sobre a relevância de livros e autores consagrados em estudos de Sociologia, por exemplo. Para nossos anarquistas, naquela Ufal de mais de três décadas atrás, ler as obras recomendadas era um tipo de concessão ao status quo. O professor alegava que, para criticar o texto, que ao menos houvesse a leitura. Para a dupla, porém, isso era uma falácia.

O rapaz e a moça não foram além do primeiro ano do curso, que eu lembre. Não sei que destino tomaram na vida, nem se continuaram com os ideais que cultivavam. Queriam um “mundo novo”, sem regras, sem obediência a nada que está aí desde que triunfaram a Razão, a Ciência e a Lógica. Pela postura contra tudo – tudo mesmo –, a utopia pra valer era a destruição do nosso modo de vida.

Do folclore juvenil para a História. O maior teórico do Anarquismo, como se sabe, é o russo Mikhail Bakunin. No século 19, virou inimigo do regime czarista e teve de partir para o exílio. Com ele, nem capitalismo nem comunismo nem qualquer outro modo de produção. Segundo sua visão, as únicas leis a seguir eram as da Natureza. Todos os códigos sociais, sem exceção, deveriam ser desprezados.

Religiões e partidos políticos, para o anarquista maior, não passavam de modos de tolher a liberdade plena dos indivíduos. Estado, governos, autoridades e elites, forjados sob qualquer orientação, representavam igualmente formas de opressão e barbárie. Bakunin não reconhecia classes sociais e repudiava todo o tipo de privilégio: o privilegiado é um “depravado” no coração e no pensamento.

Corta para janeiro, 1987. No auge da convulsão que tomava conta do país, o então presidente José Sarney resolveu criticar os empresários. No programa Conversa ao Pé do Rádio, que ocorria semanalmente em rede nacional, o rei do Maranhão disse que os poderosos da indústria sabotavam seu governo, agindo como verdadeiros anarquistas. O programa era a “live” daqueles dias.

Vale a pena revisitar as palavras inacreditáveis de Sarney: Dirigentes empresariais, num momento em que se procura consolidar o Estado de Direito no Brasil, pregam a desobediência civil e a anarquia, e passam a ser aliados daquela coisa do século passado, que é Bakunin. É um atentado intelectual. Eu só não escrevo que o teórico se revirou no túmulo porque seria um lugar-comum.

De volta a Alagoas. Para quem pensa que os ideais extremos do Anarquismo por aqui são coisas do punk contemporâneo, nada mais errado. O estado deu ao Brasil um anarquista de peso – há mais de cem anos. Elysio de Carvalho nasceu em Penedo, em 1880, e se tornou uma voz influente, dentro e fora do país. Com sólida formação, escreveu livro até em francês e publicou obras mundo afora.

Mas o alagoano deu um cavalo de pau no rumo da vida e, um dia, renegou as ideias libertárias que defendera com tanto vigor. Não só isso. Levou sua erudição para o mundo da polícia e passou a estudar o crime e as formas de combater a criminalidade. Virou um representante do mais feroz conservadorismo. Vítima de tuberculose, morreu na Suíça, com apenas 45 anos de idade.

Não sei se os pichadores anarquistas que deixam suas mensagens nos muros da Maceió de hoje conhecem o precursor Elysio de Carvalho. Como falei, o cara foi influente e chegou a participar até da Semana de Arte Moderna de 1922. Também desconheço se outros nomes servem de inspiração aos militantes de agora. Como não mostram a cara, tudo o que sabemos é o que rabiscam na sombra.

Três parágrafos antes, me referi ao punk. Explico: nas pichações é comum a aliança entre o Anarquismo e o estilo musical que mistura porrada sonora e revolta contra tudo. Anarcopunk é palavra recorrente nessas manifestações. Apesar da virulência grafitada, ninguém se assusta com os rebeldes desconhecidos. Talvez sejam apenas diletantes, em busca de uma ideologia pra viver.

Alvo de operação combinada, Coaracy Fonseca desafia a máquina do poder

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O promotor Coaracy Fonseca (foto), que já esteve no topo do Ministério Público Estadual, como procurador-geral de Justiça, está na mira de sua própria instituição. Ele enfrenta também uma investida da Defensoria Pública. Em ação coordenada, os chefes dessas entidades tentam levar o colega do mesmo ramo para a cadeia. É o que noticiou o CADAMINUTO a partir de ações movidas contra o promotor junto ao Tribunal de Justiça. É uma guerra entre pesos pesados raramente vista por aqui, ao menos nesses termos.

Não lembro de outra ocasião em que algo dessa natureza tenha sido registrado. Mas o que afinal está por trás dessa confusão inédita entre doutores de toga? É nebuloso. As notícias informam que Fonseca virou alvo do MP e da Defensoria depois de apontar ilegalidades em atos do governo estadual, com respingos para os órgãos citados. Os fatos, no entanto, carecem de esclarecimentos.

Pelo que entendi do que foi publicado até aqui, três nomes estão entre os principais algozes do promotor rebelde. São eles: Alfredo Gaspar de Mendonça (o atual chefe do MP), Eduardo Tavares Mendes (ex-procurador-geral) e Ricardo Melro (o mandachuva na Defensoria). O trio se diz vítima de ataques desferidos por Fonseca nas redes sociais. A reação mostra que o grupo partiu para o ataque.

O promotor será acusado do crime de prevaricação, que é quando o servidor público usa o cargo para obter benefício pessoal. Essa denúncia foi formalizada junto ao TJ por iniciativa do chefe do MP, após “inquérito administrativo” conduzido pela Defensoria. Como falei, é a operação combinada. E pretende asfixiar o denunciado – porque encarar uma “força-tarefa” não é brincadeira.

Vejam como a coisa é pesada: em outra tacada dos atingidos por atos e falas de Fonseca, o procurador Eduardo Tavares pede que o MP atue para obrigar o promotor a se submeter a um exame de sanidade mental. Com isso, MP e Defensoria querem, por enquanto, um atestado de loucura para o desafeto e, se possível, que ele passe uma temporada atrás das grades. Estão mesmo enfurecidos.

De acordo ainda com o que este site divulgou, Ricardo Melro pediu ao MP que Coaracy Fonseca seja declarado suspeito em casos judiciais em que ele (Melro) e a Defensoria sejam partes. O autor da ação alega que o promotor age motivado por “circunstâncias ocorridas em sua vida privada”. Aí o caldo entorna mais. Ninguém sabe o que se passou nos ambientes restritos a esses senhores.

O agora inimigo de uma coleção de poderosos já está cumprindo uma punição desde setembro. Ele foi afastado das funções por decisão do Colégio de Procuradores do MP. A suspensão de 60 dias está para terminar. Como não se emendou desde então, enfrenta a nova rodada de ataques. É o que suponho, ligando os pontos ente A e B. O que vem por aí tem tudo pra tumultuar a vida de Fonseca.

Por que digo isso? É que em sua metralhadora giratória, o homem acerta, além de MP e Defensoria, no Poder Judiciário e no governador Renan Filho. Entre outras acusações, ele já escreveu que a instituição da qual faz parte protege o governo ao fechar os olhos para estripulias na área de segurança. É muita frente de batalha para uma única pessoa. Coaracy Fonseca parece enrascado.

O mundo reacionário do futebol e a aliança entre Jair Bolsonaro e Renato Gaúcho

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Renato Gaúcho, o treinador do Grêmio, diz que o presidente Jair Bolsonaro “faz um excelente trabalho”. Do alto de sua envergadura moral e intelectual, o boleiro acrescenta o seguinte: “Ele vai dar jeito no Brasil, ele vai mudar o Brasil”. As declarações foram dadas durante entrevista coletiva nesta sexta-feira 15, ocasião em que o técnico disse ter conversado por telefone com o capitão parceiro de milicianos. A postura do ex-jogador faz todo sentido, combina com o mundo da bola, esse antro de estúpido reacionarismo.

Ainda bem que o argentino Jorge Sampaoli pensa exatamente o contrário do analfabeto político brasileiro. Segundo leio no site da Veja, o treinador do Santos é “avesso ao governo” do adorador de torturadores. Bolsonaro afirma que vai ao jogo entre o time da Vila Belmiro e o São Paulo. Sampaoli avisou que não pretende ter contato nenhum com o desqualificado que ocupa o Planalto.

Ainda segundo a imprensa, a torcida santista também se manifestou contra a presença do pai do Carluxo na Vila. O repúdio de torcedores ao presidente-porcaria subiu no Twitter a hashtag #BolsonaronaVilaNão. O marginal que tomou o país de assalto, com uma gang de aliados e uma tropa de fanáticos, usa o esporte mais popular do país para se promover. Repete os ditadores de 64.

Mas eu falei do universo futebolístico como antro de reacionários. É uma lamentável tradição nacional. Os anos passam, mas as coisas ficam ainda piores. Vendo os jogos do Brasileirão pela TV, é comum notar o gesto degradante de tantos e tantos jogadores na hora de comemorar um gol: correm “atirando” com as patas, no gesto clássico do imbecil presidente. Que bela mensagem!

Conhecemos Renato Gaúcho há quase 40 anos. Dentro e fora das quatro linhas, o sujeito sempre foi um exemplo das piores mazelas de caráter. Grosseiro, vastamente inculto, dono de uma boçalidade que transborda até nos cabelos, é o típico “sujeito homem” que os cidadãos de bem celebram. Tem mesmo de rastejar pelo capitão. É a essência de um pensamento cretino e desonesto.

Antes de seguir sobre, digamos, a Ideologia da Bola, levanto uma variável adicional que pode explicar essa declaração de amor feita pelo treinador do Grêmio a Bolsonaro. Renato quer derrubar Tite do comando da Seleção Brasileira. Ele só pensa em tomar o lugar do atual “professor”. Já a CBF está aboletada no governo do Jair. Uma tabelinha infernal. Trocando passes, é só cruzar na grande área.

Nas entrevistas, o tal Renato é pródigo em agressões a colegas de trabalho, a torcedores e aos adversários. Vive dizendo que é o melhor treinador do país e que seu time é igualmente o que há de mais incrível nos gramados. Este ano de 2019, porém, sua tosca verborragia não bateu com os resultados dos jogos. Ele dançou na Copa do Brasil, na Libertadores da América e no Brasileirão.

É mesmo lastimável o nível mental de nossos atletas da bola. Isso vale para os medalhões no topo da carreira, com salários abusivos e privilégios que fazem deles uma casta. Pense em Neymar Júnior e Daniel Alves. Essa dupla tem tudo a ver com o técnico gremista, resume um padrão. É tudo cabra macho – macheza pra sonegar imposto, fantasiar contusão, fraudar contratos e bater em mulher.

Um pouco de História. Para arredondar e fazer a ultrapassagem na linha de fundo, uma lembrança saudável: penso na Democracia Corinthiana. O oposto do bolsonarismo. Salve Doutor Sócrates, Casagrande, Zenon e Wladimir, os criadores de um movimento que estremeceu o autoritarismo no futebol brasileiro. Foi no alvorecer dos anos 1980. É, andamos para trás, nessa chuva de gol contra.

Jair Bolsonaro, a embaixada e o príncipe

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No governo miliciano de Jair Bolsonaro nem as sedes de embaixadas estão seguras em território brasileiro. O que houve com a invasão da Embaixada da Venezuela, em Brasília, é uma das maiores presepadas já vistas em termos de diplomacia e relações internacionais. Nem durante a ditadura militar ocorreu alguma coisa semelhante a esse desatino de agora. Ao perceber o perigo de incentivar ações absurdas como essa, Bolsonaro recuou e apareceu com discurso em defesa da soberania dos países.

Já o maloqueiro Eduardo, o Zero Três da família que reverencia torturadores, teve a ousadia de defender a invasão da embaixada. Era esse animal que pretendia nada menos que o posto de embaixador brazuca nos Estados Unidos. Alguém já o batizou de Diplomata Viúva Porcina, aquele que foi sem nunca ter sido. (Os mais jovens devem procurar no Google por Roque Santeiro, a novela).

A última bomba no meio bolsonarista surgiu após uma revelação do deputado Alexandre Frota. Depois de pular fora da aventura governista, o parlamentar se tornou um dos inimigos mortais do capitão da tortura. Segundo ele, Bolsonaro queria como seu vice na chapa Luiz Philippe de Orleans e Bragança. Mas desistiu após descobrir informações acerca da vida particular do príncipe reacionário.

Que informações seriam essas? Aí é que está. Não era nada sobre conduta política ou qualquer suspeita quanto à honestidade do rapaz. Para não variar, jamais, o amigão das milícias havia fuçado a vida privada de Luiz Philippe e descobrira coisas cabeludas, de ordem sexual. Bolsonaro perguntou a Frota se “o príncipe era gay”, segundo palavras do deputado. Diálogos republicanos para a História.

É comovente ver os garotões bolsonaristas ostentarem o discurso de quem leva a sério os princípios de governo. A confusão com o PSL, com a criação de um novo partido para a família que governa o país, está fervendo. Em nome do poder e da grana, os pilantras partiram para inventar uma nova legenda que abrigue a quadrilha. Eduardo, a Porcina, é o grande estrategista das armações.

Enquanto isso, entre os doentinhos do bolsonarismo em Alagoas, tudo certo com as maracutaias do chefe. Em entrevista ao grande Lula Vilar, meu colega de blog aqui do lado, Cabo Bebeto e Flávio Moreno dizem que estarão sempre alinhados com o capitão da tortura, não importam as barbaridades que ele venha a cometer. Entendo. “Fidelidade” é o que interessa, dizem os valentes.

O deputado Bebeto e o presidente do PSL estadual, Moreno, devem concordar com o fim do Dpvat, aquele seguro obrigatório para indenizar vítimas de acidentes de trânsito. Por que essa Medida Provisória presidencial com essa iniciativa? Preocupação com o povo? De jeito maneira! É tudo para atingir Luciano Bivar, o cacique do PSL. Ele é do ramo de seguradoras e vai perder a fonte de renda.

É assim que o governo brasileiro toma medidas que mexem com a vida de milhões de pessoas. Se é do interesse do líder da seita, não há limites para as bandidagens. Bolsonaro conta exatamente com o apoio cego e incondicional de gente como Bebeto e Moreno. Estou esperando a próxima passeata de apoio ao capitão miliciano em Maceió. A última foi uma mostra perfeita dessa porcalhada.

Os Bolsonaro e os novos partidos no Brasil! Vamos bater um recorde mundial

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Não chega a ser nenhuma surpresa, mas é preciso registrar que a criação de mais um partido era tudo o que arautos da “nova política” condenavam até um dia desses. Mudaram de ideia, como se vê com o anúncio do presidente miliciano Jair Bolsonaro. É aquela história: todo mundo é muito crítico quanto à farra de siglas partidárias no país. Todos reprovam a situação, todos defendem a bendita reforma que finalmente dê um basta em tal maluquice. Mas, quando chega nossa vez, danem-se crenças e princípios.

Segundo consta no site do Tribunal Superior Eleitoral, em texto de janeiro deste ano, o país tem hoje 35 partidos registrados oficialmente. É um número inacreditável. Não é possível que haja toda essa multiplicidade de ideais republicanos e ideologias. Não é razoável crer na proliferação de legendas como algo que ajude na melhoria de nossas vidas. Grana e poder. É o que está em jogo.

O mesmo TSE informa que existem – vejam a loucura! – nada menos que 75 partidos em processo de formação. Você leu certo. Assim, se aprovados todos esses monumentos à honestidade e à ética, em breve poderemos contar com 110 agremiações partidárias. Embora não tenha feito pesquisa, suspeito que bateremos um recorde mundial. É um retrato único do Brasil Pandeiro, de ontem e de hoje.

Depois de negociar o aluguel do PSL para se eleger, o presidente se envolve diretamente na marmota de inventar uma nova sigla. É inédito na história do país. E é claro que, quando o chefe do Executivo se mete em jogadas de tal natureza, boa coisa não virá. É a prova de que a politicagem é o que norteia um governo desqualificado. Imaginem o que está ocorrendo nos subterrâneos!

No caso do PSL, não se pode esquecer de todas as particularidades que marcam esse processo. São os filhos do presidente que movem as peças do xadrez, porque afinal temos no poder um governo sob os ditames de um clã. É o triunfo do atraso, do que há de mais deplorável na vida pública.

Para viabilizar seus propósitos, a turma miliciana enfia as patas no lamaçal. É um festival de ameaças, com direito a dossiê sobre a vida de Luciano Bivar, o homem que manda no partido presidencial, mas que se tornou inimigo mortal do capitão da tortura. A guerra suja ainda produzirá estragos em série.

A revista Veja revelou que a família Bolsonaro partiu para cima de Bivar com sangue nos olhos. Os jagunços do governo foram ao Recife e desencavaram um caso policial de 1982. Pelo que se publicou, o objetivo é acusar o cacique do PSL por um homicídio registrado naquela época.

É com esse tipo de investida que os Bolsonaro armam seu novo biombo eleitoral. Outro aspecto bizarro é o papel de Eduardo, o Zero Três, como ponta de lança nas tratativas para viabilizar a legenda. O próprio presidente anunciou em rede social o nome da futura gang: “Aliança pelo Brasil”.

Mas por que o troglodita do Planalto decidiu se separar dos antigos sócios no PSL? Mudaram de opinião sobre as grandes causas do Brasil? São políticos que agora têm conceitos divergentes quanto à democracia, por exemplo? Nada disso. De novo: é briga por dinheiro e controle do esquema.

Há três décadas o país fala na urgência de uma reforma política. Como disse acima, é voz corrente que precisamos dar um freio nessa esculhambação – e a maioria concorda com a tese. Vê-se, porém, que é melhor não contar com isso no horizonte. Vamos bater o recorde dos 110. Pode festejar.

A imprensa e os bandidos na TV

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Um apresentador de programa policial na televisão vira fenômeno de audiência. A emissora está longe dos padrões globais, com estrutura mambembe e métodos nada ortodoxos no exercício do “jornalismo”. Seria apenas mais um desses casos típicos em que o sensacionalismo mais bruto serve de escada para a ascensão de uma nova liderança política. Essa é a história de Francisco Wallace Cavalcante de Souza, criador e estrela do Canal Livre, exibido por vários anos na então TV Rio Negro, sediada em Manaus.

A linha do programa, que estreou em 1996, reproduzia o modelo consagrado no que há de pior nesse tipo de atração televisiva. O chamado mundo cão, ali, aparecia inteiro e sem maquiagem. Chacinas, sangue, cabeças cortadas e corpos carbonizados faziam a festa do público, que transformou o apresentador em celebridade amazônica. O sucesso levou Wallace Souza à política.

Ele se elegeu deputado estadual no Amazonas, como campeão de votos em três eleições consecutivas, nas disputas de 1998, 2002 e 2006. De carona, elegeu dois irmãos, um vereador e outro deputado federal. A insanidade disfarçada de jornalismo popular deu à família Souza um poder que geralmente é exclusividade dos caciques profissionais. O plano era alçar voos ainda maiores.

A casa começou cair em 2008, com a prisão de um traficante chamado Moacir Jorge Pereira da Costa, ex-policial militar que trocara a farda pela bandidagem. Ao ser preso, Moa, como era conhecido, revelou uma bomba aos agentes que o pegaram: cometia assassinatos a mando de Wallace Souza, ele mesmo, o paladino que combatia o crime no Canal Livre. Parecia coisa de ficção.

Segundo Moa, o apresentador encomendava homicídios para aumentar a audiência do programa. Como ele mesmo seria o mandante dos crimes, naturalmente suas equipes de reportagem chegavam sempre primeiro aos locais de desova. Tinha sempre material exclusivo, com detalhes que a concorrência jamais poderia descobrir. Após a denúncia, a vida de Souza virou de cabeça pra baixo.

A incrível história que abalou o Amazonas pode ser vista na série Bandidos na TV, produzida pela Netflix. O depoimento do traficante que acusou o deputado deflagrou uma onda de fatos que fazem deste caso, no fim das contas, um mistério sem esclarecimento definitivo. Uma força-tarefa fez de tudo para provar a culpa do apresentador e político, mas acabou sob suspeita de várias ilegalidades.

A polícia usou e abusou de métodos truculentos para obter confissões. Houve prisões claramente ilegais, além de evidências de tortura, até em pessoas sem ligação com qualquer delito. Parentes de investigados, por exemplo, foram submetidos a pressão psicológica e também levados à cadeia.

Num dos lances mais absurdos da força-tarefa, a polícia prendeu uma jornalista que havia trabalhado como produtora, editora e diretora do Canal Livre. Ela ficou mais de três meses num presídio. Era uma forma de obrigá-la a incriminar Wallace Souza. A investigação não conseguiu provar nada contra ela.

No curso das apurações, testemunhas foram mortas após prestarem depoimento. Em outra ponta, no jogo político, a Assembleia Legislativa abriu processo contra o parlamentar. Quando a TV Globo exibiu reportagem no Fantástico sobre o caso, com repercussão internacional, ele perdeu o mandato.

Sem a blindagem da imunidade, Wallace Souza foi preso em 2009. Doente, foi levado a São Paulo para tratamento e acabou morrendo em 2010, aos 52 anos. Moa, que detonou a bagaceira, e depois negou tudo no Tribunal do Júri, morreu em 2017, no massacre ocorrido num presídio de Manaus.

Wallace Souza mandava matar para ganhar audiência na TV? Não sabemos. A polícia não conseguiu provar a escabrosa tese. Pelo que mostra a série, de fato havia bandidos na televisão do Amazonas, mas parte deles estava do lado oficial, incluindo lideranças políticas rivais do apresentador.

Para fechar, ressalto que uma das melhores coisas da série é provocar uma reflexão sobre o trabalho da imprensa. Resta claro que, no desembesto de obter informações, coleguinhas embarcaram na versão policial, sem questionar a pororoca de contradições naquilo tudo. Um perigo mortal.

Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação!

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Nunca se falou tanto em Constituição quanto se fala nos dias atuais. A brigalhada política da hora é sobre presunção de inocência, prisão após sentença de segunda instância, respeito a direitos fundamentais. São princípios consagrados na chamada lei maior. Nem quando se elaborava a atual Carta, promulgada em 1988, o tema explodia em paixões e desvarios como ocorre no Brasil do século 21. Todo mundo tem uma opinião certeira e definitiva sobre o emaranhado de capítulos, incisos, parágrafos e emendas.

O título deste texto, como você percebeu, saiu da letra de uma música das antigas. Quando escreveu os versos de Que País é Este, megassucesso da Legião Urbana há trinta anos, Renato Russo vivia no Brasil que ainda respirava a poluição da ditadura militar. Embora o disco seja de 1987 – é o terceiro do grupo –, a canção foi composta em 1978. É muito anterior, portanto, à atual Constituição.

Mas, como é da natureza da arte, a despeito das intenções do artista, a criação ganha vida própria, se desgarra das circunstâncias, expõe novas camadas de significado e amplia limites de interpretação. É por isso que, ao revisitar uma obra do passado, por variadas razões pode-se ter a impressão imediata de que aquilo tudo é mais atual do que nunca. A letra de Que País é Este confirma essa teoria.

Parece estranho que o roqueiro de Brasília tenha criticado o desrespeito à Constituição que vigorava nos governos dos generais brucutus. Curiosa também é a coincidência de a música aparecer no disco de 87, quando o Congresso tocava os trabalhos da Constituinte que nos daria a Carta que temos aí. Três décadas após virar hit, e 41 anos depois de escrita, a letra de Renato fala de hoje.

Quando “indignados” e justiceiros vão às ruas exigir o fechamento do Supremo Tribunal Federal, numa demonstração de estúpida ignorância e desprezo à democracia, é a Constituição que primeiro está sendo agredida. O mesmo ocorre quando mentecaptos disparam ataques ao parlamento. Também é assim quando se pretende, como quer Sérgio Moro, dar às polícias licença para matar.

Se ninguém respeitava a Carta Magna no fim dos anos 1970, a Legião cantava a mesma verdade na reta final dos 80. E nos tempos de agora, à beira de mais uma virada de década, a canção traduz semelhante realidade. É o caso de ressaltar que tudo mudou, mas nem tanto assim, como prova a delinquência de um Capitão Augusto, o deputado do PSL que jogou nossa Constituição na privada.

Exibindo as qualidades de um poeta ao mesmo tempo popular e refinado, Renato Russo recorre à sutileza de um paradoxo para radiografar a tragédia: não, nenhuma nação terá um futuro saudável se “ninguém respeita a Constituição”. O compositor diz uma coisa para dizer o seu oposto.

Esse é o traço dominante na letra da música, além, é claro, da mensagem de protesto. “No Nordeste tudo em paz”, canta Renato sobre a região cuja maior guerra é contra os degradantes indicadores sociais. Do primeiro ao último verso, a canção faz um retrato do Brasil deste louco 2019.

“O Brasil vai ficar rico” e “vamos faturar um milhão”. É o que escreve o compositor, sob o signo da ironia que atravessa toda a letra. O preço da riqueza será o extermínio da nossa cultura de origem, “quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”. É ou não é o país agora?

Renato Russo não pretendia gravar a música naquele disco de 87. Ele achava que o tema estaria datado em pouco tempo, com um possível avanço das condições de vida da população. Como se vê, estava errado. Que país é este, afinal? Não tenho resposta, mas isto é certo: é “sujeira pra todo lado”.

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