Blog do Celio Gomes

A ofensiva dos intolerantes contra a liberdade de imprensa

  • 28/05/2021 17:37
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Numa decisão de primeira instância, a justiça estadual decidiu por censurar este blog. Com surpreendente aval de representante do Ministério Público Estadual, o magistrado que assina a liminar determinou que fossem retirados quatro textos que escrevi entre o fim de 2019 e começo de 2020. Os detalhes da patacoada já foram divulgados pelo Cada Minuto. O juiz acatou ação movida pelo deputado estadual bolsonarista Cabo Bebeto, insatisfeito com as críticas que recebeu nos artigos agora censurados. Não sou caso isolado. A ofensiva judicial contra a imprensa assola o país.

Não cabe aqui discutir a decisão da Justiça. Trato do assunto porque o episódio deve servir pra reflexão sobre práticas autoritárias que, por meio da intimidação, tentam ameaçar o exercício do jornalismo livre. Se a coisa vira rotina, como diria aquele ministro, os caras vão passar a boiada. Não custa lembrar que a vítima principal aqui não é o jornalista. Quando algo assim ocorre, o alvo é a liberdade de imprensa – cláusula pétrea na democracia.

Registro que a Tribuna Independente publicou ampla e esclarecedora reportagem sobre o caso. O jornal tratou do assunto com destaque, deixando claro que estamos diante de censura descabida, um ataque ao que estabelece a Constituição. A reportagem ouve o Sindicato dos Jornalistas, que repudia o ato. “Mais uma vez a Justiça faz o papel de censor, descumprindo o que diz a Constituição”, diz Izaías Barbosa, presidente do Sindjornal. 

A Federação Nacional dos Jornalistas também falou à Tribuna sobre os fatos. “Infelizmente, não é a primeira vez que o Judiciário tem essa conduta de censor”, diz a jornalista Valdice Gomes, diretora da Fenaj em Alagoas. Ela acrescenta que “no caso de alguém que se sinta atingido, caluniado, há outras formas que não a censura para a reparação”. É isso. Aos intolerantes o que interessa é impor a lei da mordaça. A ofensiva é bem mais ampla.   

Em seu blog na Gazetaweb, o jornalista Edivaldo Junior se manifestou de forma contundente contra a censura. “As tentativas de calar a imprensa se repetem a cada dia. E algumas infelizmente encontram eco na Justiça”, escreve. E acrescenta, sobre o direito da imprensa no exercício da crítica a figuras públicas: “Quem vai para a chuva não pode ter medo de se molhar. O recado serve para Cabo Bebeto e outros agentes públicos”.

Cito essas manifestações específicas porque vi publicadas em nossa imprensa. Outros tantos profissionais trataram do assunto nas redes sociais, com troca de informações e protestos pelo gesto de força contra o Cada Minuto e este blogueiro. Também recebi diretamente manifestações de apoio. Agradeço a todos. Eis o Brasil destes tempos estranhos, como diria aquele outro ministro, o do STF. E tudo o que eu faço é escrever.

Realidades paralelas e “coisa de internet”

  • 25/05/2021 17:23
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Devo levar a sério o que você escreve numa rede social? Essa pergunta é velha. Essa pergunta não parece ter muito sentido. Mas, agora, o sem-sentido ficou ainda mais gelatinoso em sua consistência já ferozmente duvidosa. Desde que o mundo é o mundo da internet, sempre houve os casos de negação do que fora publicado. Depois de escrever mais alguma baboseira, a repercussão faz com que o autor se defenda mais ou menos assim: ali é uma rede social, é a minha opinião como cidadão comum, é para seguidores e amigos. A tese instala a distinção de “realidades” ontologicamente indissociáveis. Por aí.

Negar o que escreveu e publicou, para reagir a uma crítica, para se defender de alguma lambança ou para atacar alguém, é estratégia de todo mundo. Anônimos, celebridades, mequetrefes da vida pública, na cultura e na política – todo mundo faz isso, repito. De ator a jornalista, de funkeiro a advogado, quando a treta toma dimensões mais graves, os falastrões afinam. Desmentem a si próprios e acabam até em brigas judiciais.

Pois alguma coisa se mexeu no epicentro desse panorama social-psicológico, digamos assim. A novidade tem consequências inéditas – virão outras – e alcança a operação mental e ideológica dos indivíduos na engrenagem das instituições. A novidade sobre isso é obra de um general e de uma época. O general Pazuello recorreu ao já histórico “coisa de internet” pra tentar escapar das perguntas na CPI da Pandemia (foto). Virou um clássico.

A época Bolsonaro. Um general sem qualquer constrangimento a repetir frases idiotas, como um retardado, na tentativa de defender a existência de mundos paralelos. É como se ele dissesse que tem o delinquente da internet e tem o estadista – eis o pensamento de um ministro de Estado. Governistas fingem que a piada é séria.

É paradoxal que bolsonaristas atuantes nas redes sociais defendam esse ponto de vista. Logo essa turma que se leva tão a sério na missão de combater o globalismo comunista via internet!? Mas o que temos de ressaltar aqui é a constatação de como o método miliciano do baixo-clero e das quebradas seduziu a Presidência da República.

Bolsonaro mente feito um canalha sem compromisso com nada nem ninguém, a não ser com sua quadrilha. Mas, diriam o Pazuello e certos jornalistas, é coisa de internet, é rede social, é o presidente autêntico... Não é um espanto? Esse raciocínio trata como corriqueiro o que é uma degeneração inédita no campo da política.

Sem escapatória. O Exército não tem alternativa a isto: ou pune Pazuello ou assina a própria desmoralização. O militar praticou uma imoralidade ao subir no palanque para exaltar o miliciano do Planalto. Diz a imprensa que a cúpula da tropa considera uma “aberração” a atitude de seu subordinado. O elemento virou reles cabo eleitoral.

O vandalismo de Pazuello com o decoro, as instituições e as regras da democracia anima seguidores da seita espalhados nas forças policiais. É daí que surgem delegados e militares, alguns com mandato, na vanguarda do reacionarismo. É tudo adepto de grupo de extermínio e de tortura como “técnica de investigação”. Gentalha!

Um dia de domingo para festejar a morte

  • 23/05/2021 15:48
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O presidente do Brasil aproveitou o domingo para comemorar. Jair Messias montou numa motocicleta e saiu pelas ruas do Rio carioca seguido por uma horda de motoqueiros. Jair queria festejar uma marca numérica – o país passou de 448 mil mortes por Covid-19. E claro que isso não poderia passar em branco para quem não se cansa de celebrar a tragédia e o caos na vida brasileira. Vendo as imagens do desfile patético na TV, não se cogita outro desfecho possível que não seja a derrocada eleitoral do presidente que adora tortura e torturadores. Bolsonaro monta armadilhas pra ele mesmo.

O detalhe mais sujo na festa da morte com motoqueiros foi a presença de Eduardo Pazuello. O generalzinho de chumbo, ex-ministro da Saúde, subiu num palanque e grunhiu loas ao marginal do Planalto (foto). O militar, que expõe a si mesmo e ao Exército ao ridículo, despejou uma caçamba de mentiras ao depor à CPI da Pandemia. O gesto de acompanhar o motoqueiro das trevas resume e reafirma o homem Pazuello: ele só “obedece”.

Nunca a expressão “suicídio político” foi tão adequada. Ao que parece, guiado pelo gabinete do ódio, Jair acredita ser capaz de manter os súditos eternamente no cabresto. Mas se é errado, ao crítico, considerar o eleitor de Bolsonaro como “gado”, erro maior comete o próprio “mito” ao agir como se acreditasse na mesma coisa.

Ele acredita. Daí as operações em que afia a veia suicida. Bolsonaro não terá o apoio que teve para se eleger. Ficará refém dos mais doentinhos da cabeça. Com essa frente de celerados, terá o voto dos mais sanguinários – tipo Augusto Nunes e Alexandre Garcia. De motoca, o miliciano perdeu votos neste domingão. Tenho certeza.   

Tremei, Alagoas! O deputado Antônio Albuquerque ameaça sair candidato a governador em 2022. Numa curiosa e reveladora entrevista a Gabriela Flores, aqui no Cada Minuto, o parlamentar parece decidido. Albuquerque é “conservador”, em sua própria definição. Ele está muito preocupado com os “valores da família”. Ele também é um incansável caçador de comunistas, essa raça que tanto mal causa ao Brasil. O deputado apoia Bolsonaro.

O mandachuva do agreste alagoano sonha com um salto ornamental inédito em sua provinciana trajetória na política. O mais longe que chegou até hoje foi ser presidente da Assembleia Legislativa. Aliás, da primeira vez que conseguiu isso, deu uma dor de cabeça infernal ao então governador Ronaldo Lessa. Saía faísca!

Embora tenha garantido um mandato de deputado federal ao filho Nivaldo Albuquerque, dando mostras de sua força como cabo eleitoral, nosso personagem sabe que não está entre os caciques. Sempre foi coadjuvante entre os blocos maiores, chefiados pelos mestres da magia. AA, como gosta de ser chamado, tá querendo mais.

O discurso do candidato combina com o pensamento de dois colegas na ALE. Cabo Bebeto e Davi Maia pensam como Albuquerque. Com uma leve variante na forma, o trio sintetiza o que prega o núcleo duro da filosofia bolsonarista: eles parecem almas penadas do tempo da guerra fria, cinco décadas atrás. Não sei se fui claro.

Lula e FHC: retrato de um Brasil mais saudável

  • 21/05/2021 17:10
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A imagem corre o mundo. A repercussão internacional confirma que estamos diante de um fato da maior relevância. Para um amigo, que me enviou mensagem sobre o retrato, é muito mais: trata-se do acontecimento político mais importante do país nos últimos anos. Lula e FHC se encontraram para uma conversa sobre democracia e rumos do Brasil. Os dois ex-presidentes bateram um papo na casa de Nelson Jobim, ex-ministro da Justiça e ex-ministro do STF. A notícia ocupou o topo de todos os veículos e virou pauta obrigatória em entrevistas, debates, videoconferências, tretas e podcasts. 

E por que a conversa entre o petista e o tucano tem toda essa importância? Parece fácil entender. O Brasil não tem como aguentar mais quatro anos dessa tragédia que está aí. O governo miliciano é aberração incompatível com valores básicos de uma democracia. Apesar de tudo, aos trancos e topadas, a Constituição barrou todas as investidas do delinquente Jair. Ele baba e rosna, afia as patas no meio-fio, mas fica por aí, fraco, desdentado.

A reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso deve ser elogiada porque celebra o diálogo. A imagem dos dois, lado a lado, fazendo o cumprimento típico desses tempos, com máscara e tudo, transmite serenidade e respeito – e estamos falando de dois adversários históricos. Para os “conservadores” que caíram no colo de Bolsonaro, respeito é “fuzilar a petralhada”. Foi o “projeto” que o Brasil elegeu em 2018.

Nesta sexta-feira, o pária internacional passou recibo de sua agonia com o encontro entre Lula e FHC. Em seu habitual idioma, cuspiu aqueles impropérios que, ironicamente, cabem perfeitamente para ele próprio. “Canalha”, “vagabundo”, “ladrão” são classificações sob medida para o Jair. Sem ter o que mostrar de realização, a aposta do sujeito será a chamada guerra suja – com o perdão do velho clichê. E o panorama vai se agravar.

Acuado pela CPI e pelas pesquisas eleitorais que mostram Lula isolado na liderança, Bolsonaro apela ao que resta em sua frente de batalha: os insetos do bolsonarismo de raiz, aqueles elementos que vão até o fim com o capitão da tortura. Com a realidade cada vez mais hostil a sua gestão e a seus modos, resta ao pai do Carluxo e do Flávio Rachadinha o reino assombrado das fake news. Orçamento secreto e tratoraço também ajudam muito. 

A semana termina com mais encrenca para o governo na CPI da Pandemia. Os depoimentos até agora atestaram o descaso com que o presidente tratou a crise sanitária. Ao longo de meses, enquanto milhares de brasileiros perdiam a vida, Bolsonaro fazia uma piada atrás da outra: quem não lembra da cloroquina versus tubaína? 

Piada. Foi assim que Bolsonaro tratou a tragédia da Covid-19. Com a sabotagem a propostas de compra de vacina, estamos atrás da maioria dos países que fizeram o que deveriam fazer. Enquanto isso, o miliciano incentiva passeatas em nome da família e do voto impresso. Chocante é ver o gado na rua com tais bandeiras.

Voltando à fotografia de Lula e FHC, o encontro chacoalha todos os campos do espectro político, com especial estrago à turma do centro-tucano, digamos assim. Ciro, Doria e afins não gostaram nada da reaproximação entre os velhos rivais. Os que guerreiam para se viabilizar como a “terceira via” tentam igualar Lula e Bolsonaro.

Falsa polarização, fantasia a serviço de palanque eleitoral. É cedo para previsões sobre 2022. Mas num ponto, a essa altura de 2021, a maioria dos brasileiros parece concordar: temos de nos livrar do miliciano que avacalha o país e celebra a morte. Naquela moldura virtual, Lula e FHC representam um Brasil muito mais saudável. 

A audiência da CPI que inferniza Bolsonaro

  • 20/05/2021 00:42
  • Blog do Celio Gomes

Uma Comissão Parlamentar de Inquérito é geralmente cansativa pra todo mundo. Além disso, o resultado nem sempre corresponde às melhores expectativas. É o contrário. A tradição é de desfechos frustrantes, muito longe dos objetivos incontornáveis de uma CPI. Toda investigação deveria resultar em esclarecimento da verdade, correção de erros e produção de dados que pudessem, no âmbito do Ministério Público, gerar ações na Justiça. Com isso, pode-se chegar a julgamentos e a punições de eventuais culpados por crimes cometidos. Mais ou menos por aí.

Modorrentas na rotina de depoimentos, as CPIs viram notícia na largada e, de um dia para o outro, desaparecem do noticiário. Sem novidade, deixam rapidamente de interessar aos jornalistas, à imprensa de modo geral. A coisa volta a esquentar quando surge algum fato novo, alguma estripulia extraordinária de um depoente, algum acontecimento fora da normalidade. Sem isso, do holofote inicial, a CPI tende a morrer no esquecimento.

Nos últimos anos foram instaladas, entre outras, a CPI da Previdência, a CPI Mista da JBS, a CPI do BNDES e a CPI dos Maus-Tratos contra Animais. Houve ainda a instalação da CPI de Brumadinho, a CPI das Fake News e a CPI do Acidente da Chapecoense. Afora as comissões devidamente criadas, há ainda as propostas que vão a debate, mas acabam no meio do caminho, sem assinaturas suficientes – caso da CPI dos Tribunais Superiores. 

A ideia de criar uma CPI para fuçar a atuação de ministros na cúpula da Justiça tem as digitais de Bolsonaro. Foi uma tentativa de emparedar sobretudo os integrantes do Supremo Tribunal Federal. Não há fato determinado para tal investigação, apenas a intenção de intimidar as instituições e agitar o gado verde e amarelo.

A CPI da Pandemia é diferente. Tem audiência. Todo mundo quer acompanhar. Por isso, numa decisão editorial incomum na cobertura das comissões, as quatro TVs com jornalismo 24 horas transmitem os depoimentos em tempo real. Globonews, Band News, Record News e CNN Brasil mostram ao vivo todos os lances da novela.

Nesta quarta-feira foi a vez do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello falar aos senadores (foto). Como Fábio Wajngarten e Ernesto Araújo, dois sabujos bolsonaristas que já depuseram, foi um festival de evasivas, distorções e mentiras. Mais de uma vez, o general obtuso foi repreendido pelo relator, o senador Renan Calheiros. 

O ex-ministro saiu do depoimento com fama de omisso e mentiroso. Pazuello é o primeiro a depor que terá de ser ouvido em outra sessão. Por conflito de horário com o Senado, a presidência da CPI encerrou os trabalhos, com mais de vinte senadores ainda inscritos pra fazer perguntas. Por isso, o ex-ministro volta nesta quinta-feira.

A essa altura, a CPI é trágica pra Bolsonaro e sua turma. O relator, que sempre abre a maratona de perguntas, tem sido implacável diante dos depoentes. Renan pediu até a prisão de Wajngarten, o que foi negado pelo presidente Omar Aziz. A tropa governista busca desesperadamente uma via pra atingir o relator. Não deu certo até agora.

Caçar governadores e prefeitos de oposição é o foco dos governistas. A gang de bolsonaristas alagoanos busca munição para alimentar a CPI e atingir o governo de Alagoas. Pegar Renan Filho seria o troféu dos sonhos pra Bolsonaro. A ofensiva fracassa. A Comissão apavora mesmo os bandidos do Planalto e seus cúmplices.

O golpismo de Bolsonaro e o avanço da CPI da Pandemia

  • 18/05/2021 01:59
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O tempo passa. O governo se arrasta. E a ideia de autogolpe segue na cabeça de Bolsonaro, o medíocre e corrupto presidente. No fim de semana, o sujeito voltou a insinuar que pode recorrer a medidas extremas para impor suas decisões tresloucadas. É, de novo, a retórica do “meu Exército”, a ameaça mequetrefe de partir pra uma ditadura e ponto final. É o que pedem os súditos em faixas, slogans e urros. A passeata da família, no último sábado, de apoio ao golpista Bolsonaro, foi um perfeito fiasco. Em Maceió, a carreata tinha dez carros, no máximo. Efeito zero nas ruas do país. Um sinal evidente de irrelevância.

Em Brasília, o espetáculo triste se repetiu: Bolsonaro, um quadrúpede inigualável, montou sobre outro animal de quatro patas, um cavalo, e saiu em sua pregação de arruaceiro contra as instituições e os valores da democracia (foto). Foi seguido pela escória de seu ministério, de Braga Netto a Ricardo Salles, passando por Tereza Cristina. As cenas são patéticas, um troço meio farsesco. De tão repetido, o espetáculo já nem causa espanto.

Com medo de Lula, o delinquente do Planalto está disposto a tudo para sabotar o processo eleitoral do ano que vem. É o que ele pretende com essa história de voto impresso. Esse é um tema que não tem importância para o Brasil. O sistema de votação está consolidado há mais de duas décadas. Aliás, Bolsonaro disse que mostraria provas de que ele ganhou a eleição no primeiro turno de 2018. Uma fraude garantiu o segundo turno.

Quando falou de fraude na eleição de 2018, Bolsonaro afirmou que apresentaria provas “nos próximos dias”. A ameaça já tem mais de um ano. A bravata do presidente desmoralizado foi em março de 2020. Até agora, ele não trouxe a público nenhuma “prova” que disse ter em mãos. É somente mais uma do maior mentiroso do mundo.

Nesta terça-feira a CPI da Pandemia retoma os depoimentos. Os senadores interrogam Beato Salu, conhecido como Ernesto Araújo. No posto de ministro das Relações Exteriores, esse desmiolado isolou o Brasil do mundo civilizado. Em vez de trabalhar por vacinas, Araújo rodou o planeta atrás de cloroquina. Deu no que deu.

A semana ainda terá na CPI o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, aquele do imortal “um manda e o outro obedece”. Li por aí o seguinte: a gente sabe como esse militar chegou a ministro de Bolsonaro; mas como ele conseguiu chegar ao generalato? Pazuello põe em xeque a fama de qualidade das academias militares. 

Por aqui, Collor, Arthur Lira e JHC prestigiam o presidente. Há os dissimulados, como o senador Rodrigo Cunha, que rezam na cartilha bolsonarista mas fingem “independência”. Mas isso é outra história. Com delinquências oficiais espalhadas nos quatro cantos, a vida de Bolsonaro vai piorar a cada passo na CPI. Não tem mais volta.   

Os velhinhos extremistas (e decadentes) da imprensa brasileira

  • 15/05/2021 15:14
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Nunca se viu nada parecido no jornalismo brasileiro. Leda Nagle apaga dezenas de vídeos em seu canal no YouTube. Alexandre Garcia (foto) faz o mesmo. Augusto Nunes acaba de ser condenado a pagar 30 mil reais a deputada federal Gleisi Hoffmann, presidente do PT. A sentença do Tribunal de Justiça do Distrito Federal afirma que a parlamentar foi alvo de um ataque “carregado de conteúdo misógino e sexista”. Em novembro de 2019, o mesmo Augusto Nunes partiu pra agressão física contra o jornalista Glen Greenwald, durante entrevista ao vivo na rádio Jovem Pan. Está na História da Imprensa Brazuca.

Também em 2019, José Roberto Guzzo deixou a Veja depois de décadas na revista. Pediu pra sair porque a direção da Abril se recusou a publicar um texto em que o então colunista desferia ofensas sobre o STF e seus ministros. Se Bolsonaro encomendasse o artigo, Guzzo não faria melhor. Era mais uma peça a serviço da onda de ataques às instituições e ao Supremo em particular. Uma especialidade do autor. Uma fixação do bolsonarismo.

Diogo Mainardi teve de pedir demissão da bancada do Manhattan Connection, três meses após a estreia do programa na TV Cultura. O motivo foi uma ofensa de baixo calão contra o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, que era convidado do programa. O advogado é um duro crítico do ex-juiz Sergio Moro, o parcial. Mainardi é um fanático lavajatista e virou amigo do ex-magistrado que desonrou a magistratura.

Essa é uma breve lista de casos nos quais temos veteranos e consagrados jornalistas passando vergonha em nome de uma causa política. Leda Nagle está no ar há mais de 40 anos. Na remota década de 1980, virou a cara do Jornal Hoje, na Globo. Depois se “reinventou” no Sem Censura, na TV Cultura. E agora? Parece uma velhinha biruta em sua militância bolsonarista. Aderiu até a fake news. É adorada pelo capitão da tortura e seus filhotes.

Já o jornalista Augusto Nunes, notório reacionário, vestiu com tanto engajamento a camisa do extremismo pró-Bolsonaro, que até a Veja achou demais. Hoje, ele se abriga nos lugares adequados à sua alma de caçador de comunistas: segue na Pan e virou diretor na TV do Edir Macedo. Trocou o jornalismo pela milícia cristã.

Vídeos que os jornalistas apagaram divulgavam remédio ineficaz para o tratamento de Covid-19. Um dos casos, como disse, é o de Alexandre Garcia. Apagam os vídeos por medo da CPI da Pandemia que corre no Senado. Como está demonstrado, o governo gastou dinheiro com cloroquina enquanto faltava oxigênio em Manaus.

Em defesa de Bolsonaro, e na eterna guerra a Lula e ao PT, Garcia, que foi porta-voz do último ditador, não hesita em recorrer a falsidades. Dispensado pela Globo, virou youtuber bolsonarista e se tornou comentarista na CNN Brasil. Sua atuação já compromete a seriedade do jornalismo da emissora que, afinal, tem um nome a zelar.

Demissões e brigas nas redações dos grandes veículos por causa da bagaceira política revelam um panorama que me parece inédito. As notícias nesse sentido ocorrem com uma frequência até pouco tempo incomum. Demitida pelo SBT, Rachel Sheherazade é mais um exemplo. Profissionais brigam entre si e com as próprias empresas. Os causos com os velhinhos Nagle, Nunes e Guzzo ilustram um quadro melancólico de fim de carreira.

E tudo pra defender Bolsonaro, santo Deus! Os que romperam com a porcaria do presidente rezam na dissidência morista da seita, após o racha provocado pela demissão do canalha Sergio Moro. Na essência, portanto, pregam a mesma cartilha do autoritarismo mais bruto e do achincalhe aos valores da democracia. Todos em decadência. 

Orçamento secreto e Bolsonaro decadente

  • 14/05/2021 00:03
  • Blog do Celio Gomes

A nova pesquisa Datafolha traz um coquetel de péssimas notícias para o delinquente do Planalto (foto). Além de ver Lula flutuando na liderança da corrida para 2022, Bolsonaro amarga o mais baixo índice de aprovação desde o começo de seu governo. A gestão do tresloucado é considerada ótima ou boa por 24% do eleitorado. Em março, o apoio era de 30%. Já o percentual dos que consideram o governo ruim ou péssimo bate nos 45%. Outros 30% dizem que a gestão é regular. Junte-se a isso a rejeição de 54% do eleitorado – mais da metade afirma não votar em Bolsonaro sob nenhuma hipótese.

Mas o sujeito não está acabado, é claro; afinal, como ele mesmo diz, tem a caneta na mão. E a caneta na mão, no caso de Bolsonaro, significa “emendas invisíveis” ao orçamento secreto – o escândalo revelado pelo Estadão. Nesse esquema, o governo escolheu os parlamentares amigos para garantir uma “verba extra”, além das emendas regulares. Cada um tem direito ao mesmo valor de 8 milhões de reais. No paralelo, a coisa inflaciona.

Cito o exemplo do deputado Arthur Lira, o alagoano que preside a Câmara e que assumiu o posto de amigo, cão de guarda e aliado radical de Bolsonaro. Revela o Estadão: “Lira ganhou no ano passado o direito de encaminhar, conforme seus próprios interesses, R$ 114,6 milhões para obras e compras de máquinas pesadas”. Ele “ganhou”, nos termos do jornal, porque determinou ao Ministério do Desenvolvimento o destino de toda a dinheirama.

O problema é que esse presente não foi pra todo mundo. Levou quem está fechado com a blindagem ao presidente negacionista. Colunistas espalhados na imprensa já comparam o caso ao mensalão do PT. O fato é que o desenho lembra bastante uma antiga fórmula de garantir a base no Congresso. Além disso, as eleições para as presidências da Câmara e do Senado têm tudo a ver com esse acordo de cavalheiros. Parece bem previsível. 

Comecei falando do Datafolha que mostra Bolsonaro com forte reprovação a seu governo e bem atrás de Lula na corrida eleitoral. A combinação desses fatores deixa o chefe da seita e seus fiéis à beira da convulsão. A reação será cada vez mais a que se viu nesta quinta em Maceió: chilique, baba espumando, insultos a adversários.

Em visita a Alagoas, o pária aproveitou pra ofender o senador Renan Calheiros e o ex-presidente Lula. A vulgaridade, marca registrada na depravada trajetória de Bolsonaro, expõe a aposta na confusão, na bagunça, na briga de rua. Bolsonaro quer reviver o ódio antipetista e a demonização da esquerda. É guerra ao globalismo!

Sério problema pra essa gang é que o discurso não tem o mesmo poder de 2018. A “nova política” é o que sempre foi, mistura de piada e vigarice retórica. O “combate à corrupção” nunca passou de uma espécie de udenismo – sem o verniz das ideias e com a fedentina do golpismo. Como tudo se encaixa, tinha a Lava Jato no pacote.

Com o cerco se fechando na CPI, é certo que o marginal na Presidência vai aprontar tudo o que puder no jogo rasteiro. A lama é sua zona de conforto. (Antes de fechar, faltou uma informação sobre o orçamento secreto de Bolsonaro e aliados: o valor total para a farra entre amigos é de 3 bilhões de reais. Dá pra fazer um belo estrago).

Jair Bolsonaro, o presidente que derreteu

  • 13/05/2021 07:14
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Foto: Reuters
Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro tem 62% de rejeição do eleitorado nordestino. No país, o índice é de 54%. Ou seja, em cada 10 eleitores do Nordeste, seis dizem que não votam em Bolsonaro de jeito nenhum no primeiro turno das eleições em 2022. Levando-se em conta o Brasil inteiro, o desqualificado presidente é rejeitado por mais da metade da população que vai às urnas daqui a pouco mais de um ano e meio. Os dados estão na mais recente pesquisa Datafolha. Os números gerais são avassaladores sobre o capitão da tortura e elevam seu desespero. O resultado indica que o projeto de reeleição está a perigo.

Divulgada pela Folha na noite desta quarta-feira, a pesquisa revela a intenção do eleitor para a disputa presidencial. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a corrida com folga. Tem 41% das preferências contra 23% de Bolsonaro, que aparece num distante segundo lugar. São 18 pontos de dianteira a favor do petista. Bem mais atrás aparece Sergio Moro, aquele juiz parcial especialista em violações ao devido processo legal. Ele fica com 7% das intenções.

Segundo o Datafolha, Ciro Gomes tem 6% das intenções de voto. Luciano Huck (4%), João Doria (3%), Henrique Mandetta (2%) e João Amoêdo (2%) fecham a lista dos pré-candidatos citados no levantamento. Embora difícil, os números assombram Bolsonaro com a possibilidade de Lula ganhar a parada ainda no primeiro turno. Os 41% do petista ficam a apenas seis pontos da soma total de todos os adversários, que é de 47%.

No cenário de segundo turno, Lula também bate o desqualificado presidente com larga vantagem. O petista obtém 55% do eleitorado contra 32% de Bolsonaro, numa diferença de 23 pontos percentuais. O amigo de milicianos também é batido por Ciro Gomes num eventual confronto de segundo turno. Em todos os cenários e projeções, a pesquisa não traz nenhum dado favorável a Bolsonaro. O sujeito derrete em praça pública.  

O levantamento do Datafolha é o primeiro depois da decisão do STF que anulou os processos contra Lula em Curitiba. E também capta a intenção do eleitor após a confirmação de que Sergio Moro foi um juiz parcial, que praticou crimes ao condenar Lula sem apresentar uma prova sequer. O veredito sobre o ex-juiz marginal também veio do STF. Ao que parece, a percepção de boa parte da população mudou em relação ao ex-presidente Lula.

É a tempestade perfeita contra o projeto totalitário da turma que tomou o Planalto de assalto e vandaliza a vida pública: Bolsonaro derrete e Lula avança até sobre redutos tidos como fiéis seguidores do presidente. O Datafolha informa que o atual mandatário tem 34% das intenções entre os evangélicos. Lula aparece com 35%, um ponto à frente, em empate técnico. Aliás, um dado pra lá de relevante é que o petista ganha em todas as regiões.

O presidente desembarca em Alagoas para patrocinar um oba-oba com inaugurações de obras já inauguradas. Deu azar. A visita coincide com o pior momento de sua administração. Nem precisava, mas a CPI da Pandemia vai atestando que Bolsonaro contribuiu fartamente para o número de mortes – mais de 420 mil até esta quinta.

O Datafolha espelha um sentimento cada vez mais amplo. Demorou, mas as bravatas estúpidas do delinquente Bolsonaro são ignoradas por todo mundo; ninguém leva a sério um mentiroso compulsivo, adepto a fake news. As insinuações de que poderia usar o Exército para um autogolpe alegram tão somente aquele velho gado.

Mais fraco do que nunca, tendo que recorrer a expedientes subterrâneos para se manter no poder, este é o presidente que chega por aqui. O decadente inquilino do Planalto será recepcionado por figuras que, pensando bem, estão à altura do visitante. Apesar desse pântano, taí a pesquisa pra mostrar que nem tudo está perdido.

Voltei!

Daniel Silveira é o esgoto do bolsonarismo e a cara da “nova política”

  • 18/02/2021 11:49
  • Blog do Celio Gomes

O deputado Daniel Silveira, preso por decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes, pode reivindicar para sua biografia o título de síntese da “nova política”. Ele representa o que a família Bolsonaro prometeu entregar ao Brasil, depois de destruir a “velha política”. Eleito pelo Rio de Janeiro para a Câmara Federal, Daniel Silveira combina vasta ignorância e reacionarismo doentio. Todas as mazelas do bolsonarismo se reúnem na cabecinha oca do marombado que é modelo da “nova direita”. Sim, esse meliante tem uma legião de admiradores no meio político, inclusive entre alagoanos.

A prisão desse idiota está em debate. No meio jurídico as opiniões se dividem quanto à legalidade do ato do ministro Alexandre de Moraes – ratificado no dia seguinte pelo pleno do Supremo. A decisão unânime põe a Câmara em sinuca de bico. Diz a Constituição que cabe ao parlamento a última palavra sobre a detenção de um de seus integrantes. Por isso, a medida do STF será votada no plenário da Casa em voto aberto. E a Câmara não parece disposta a contrariar a instância máxima da Justiça.

Mas como eu ia dizendo, o cara é o modelo da nova política. Insisto nesse ponto porque não é algo irrelevante. Dois anos depois das eleições de 2018, a legião de milagreiros da “renovação” está muito, mas muito pra lá da desmoralização. A família Bolsonaro, meu Deus, vai de associação a milícias aos esquemas de desvio de dinheiro público. Marcelo Crivella. Wilson Witzel. Flávio Bolsonaro. Faz sentido. Da nova política à nova bandidagem.

Quis o destino que a crise caísse no colo de um alagoano. Como presidente da Câmara, Arthur Lira sabe o tamanho da encrenca. Seus movimentos serão anotados. Vamos combinar que, pelo histórico de processos, ele se move em terreno delicado. Fala-se em autonomia e independência dos poderes. Como resolver o impasse?

Existe um dado do qual os deputados não podem esquecer: o personagem central, o tal Silveira, é um rato. Só tem muque provavelmente à base de anabolizante. É um Zé Mané ignorado pela maioria dos parlamentares. Ninguém zela muito pela companhia do sujeito, visto como pouco saudável para o convívio em civilização.

Na defesa de uma tranqueira dessas, ninguém consegue argumentar coisa alguma que não seja facilmente refutado. Silveira é o esgoto do bolsonarismo. Por isso mesmo, está no coração de rapazes que se apresentam como cristãos, conservadores e defensores da família brasileira. São viúvas da ditadura militar e do AI-5.

O vídeo que resultou na prisão do elemento não deixa margem de dúvida. Crime é o que não falta nas palavras do amiguinho de jovens da política alagoana... Juristas se dividem quanto à caracterização do flagrante. É debate para atravessar gerações. Fato é que o STF, ao confirmar a medida por unanimidade, dá robustez à sua tese.

Daniel Silveira é aquele que quebrou a placa de Marielle Franco (foto). A celebração da morte e o desprezo pela vida do outro alimentam almas penadas. Ali está o símbolo da “nova política”. O bolsonarismo rebaixou a vida pública às camadas profundas da lamaceira. A decisão do STF é controversa, mas me parece legal e legítima.

Para terminar, é uma tremenda ironia que os poderes tenham de resolver uma crise gravíssima provocada por uma nulidade em todos os sentidos. No julgamento do STF, Luiz Fux pergunta aos colegas: “É Daniel o quê?”. O parlamento brasileiro tem de se livrar desse verme o mais rápido possível. Não há solução fora desse caminho. 

A Gang da Lava Jato, Lula e Renan Calheiros

  • 12/02/2021 13:55
  • Blog do Celio Gomes

Não restam mais dúvidas, e não é de hoje, quanto ao caráter criminoso dos procuradores que atuaram na Operação Lava Jato. A partir de junho 2019, com o tsunami das conversas no Telegram, a Vaza Jato enterrou a lenda dos heróis que vieram ao mundo para acabar com a corrupção no Brasil. Não, não era nada disso – como aliás escrevo aqui desde que comecei este blog em 2017. Era um projeto de poder, como ficaria escancarado a partir de 2018. Naquele ano, Moro virou cabo eleitoral de Jair Bolsonaro e, fechadas as urnas, tornou-se ministro do delinquente que ajudou a eleger. A Gang de Curitiba nunca teve limites.

Nas últimas semanas, o país tem visto uma nova leva de gravações com conversas entre procuradores da República. Todo o conteúdo é material apreendido na Operação Spoofing, na investigação dos hackers que invadiram os telefones das autoridades e obtiveram essa bomba atômica. Nesta sexta-feira, ficamos sabendo da existência da procuradora Carolina Rezende, que nos dá uma aula de como esses investigadores pensavam em tudo, menos na lei.

A gravação com a procuradora é de março de 2016, um dia após o ex-presidente Lula (foto) ter sido levado coercitivamente para depor à Polícia Federal. Naquele cenário, diante dos fatos gravíssimos – o que exige cuidado e seriedade ao extremo –, Carolina Rezende mostra toda a baixeza que parece ter sido o norte depravado da Lava Jato. Ela deixa evidente o que está em jogo naquele espetáculo de sirenes e buzinas.

Diz a procuradora sobre os objetivos da Lava Jato: “Pessoal, fiquei pensando que precisamos definir melhor o escopo pra nós dos acordos que estão em negociação. Depois de ontem, precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1)”. Com essa pegada, o trabalho de Sergio Moro, o juizinho marginal de Maringá, foi uma moleza. As muitas horas de gravação liberadas evidenciam que “magistrado” e procuradores agiram em conluio.

É por isso que o STF ainda terá de declarar a suspeição desse vagabundo e anular o julgamento sobre o tríplex de Guarujá. O que impediu que isso ocorresse até agora foram as pressões de variadas origens – do Exército sempre golpista aos donos da Globo. O “combate à corrupção” dos rapazes e mocinhas do MPF se resumia a acertar a cabeça do Lula. Que vergonha! E ainda ganharam dinheiro com essa piada de heróis da ética e da honestidade.

No mesmo pacote das conversas dessa procuradora Carol Rezende aparece o senador Renan Calheiros (MDB). As informações foram reveladas pela jornalista Mônica Bergamo, na Folha. E o que se lê confirma igualmente as denúncias que o parlamentar vem fazendo contra a Lava Jato há um bom tempo. Ele também é vítima, sim, dessa quadrilha que destruiu o devido processo legal. As revelações fortalecem o senador em sua guerra particular.

Fala a doutora Carolina: “Pra nós da PGR, acho que o segundo alvo mais relevante seria Renan”. E completa o raciocínio assim: “Aqueles outros (Lula e Renan) temas pra nós hoje são essenciais pra vencermos as batalhas já abertas”. É com esse nível que autoridades do MPF investigam denúncias de crimes? Como se vê, se decide, na largada, quem será “atingido na cabeça” e quem é “essencial” para os fins que interessam. Danem-se os fatos.

Um procurador da turma marginal de Curitiba disse que o Telegram era o “botequim” da Lava jato.  Admite, portanto, a veracidade do conteúdo – o que Moro e Deltan Dallagnol dizem “não reconhecer”. Mas, acrescentam, se verdadeiras as mensagens, nada mostram de errado. São dois pilantras mesmo. Não merecem respeito nenhum. Não importa que ainda tenham alguma popularidade. O preço para isso foi a desmoralização.

Conselhos Regional e Federal de Medicina viram aparelhos do bolsonarismo

  • 08/02/2021 12:57
  • Blog do Celio Gomes

O Conselho Federal de Medicina é um antro de bolsonaristas fanaticamente dedicados à causa. Toda a diretoria da entidade votou em Jair Bolsonaro e atua hoje em dia como se fosse um departamento do Planalto. Com a pandemia de Covid-19, a postura do CFM chamou atenção da imprensa diante das barbaridades cometidas pelo presidente e seu desgoverno. Nenhuma palavra de censura ou repúdio ao delinquente Jair Bolsonaro. Nem poderia. Quem manda no colegiado que deveria, em tese, defender a saúde dos brasileiros atua na contramão da ciência, em defesa do obscurantismo.

E no Conselho Federal de Medicina tem um alagoano muito conhecido por aqui. É o médico Emmanuel Fortes, que foi candidato a vice-prefeito de Maceió em 2020, na chapa com Davi Davino Filho (foto). Dois anos antes, em 2018, ele tentou uma cadeira de deputado federal. Perdeu nas duas ocasiões. Fortes é personagem de uma reportagem no The Intercept Brasil que mostra a militância desses conselheiros. Ele é filiado ao PSL, lixo da extrema-direita “renovada”.

Na reportagem, o site reproduz postagem de Emmanuel Fortes no Facebook. Depois de participar de uma reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o médico alagoano escreveu: “Presentes a Ministra Damares e o Secretário Raphael Câmara onde foi explicitada nova estratégia do MS [Ministério da Saúde] para a abordagem e tratamento precoce do Covid-19. Olha aí a fixação da turma: “tratamento precoce” – que não existe.

Empolgado com as recomendações alinhadas com o governo de seu líder Bolsonaro, Fortes acrescenta: “Na ocasião o CFM/AMB [Associação Brasileira de Medicina] saudaram a nova política reiterando a autonomia do médico para prescrever os medicamentos disponíveis no momento, naturalmente com a concordância formal do paciente. A abordagem precoce pode evitar o agravamento da doença preservando muitas vidas”. Vigarice.

Se o Conselho Federal está todo dominado pelos dogmas da seita bolsonarista, por aqui a coisa não parece muito diferente. Desde o começo da crise sanitária, o nosso Conselho Regional de Medicina de Alagoas foi de uma nulidade assombrosa. Nunca vi nada parecido que eu lembre agora. Silêncio total, omissão deplorável. A única manifestação pública do presidente Fernando Pedrosa foi para tumultuar o trabalho de quem está no batente.

Pedrosa levantou suspeitas sobre os dados da pandemia apresentados pela Secretaria estadual de Saúde. Foi em abril do ano passado. Na época critiquei aqui as palavras irresponsáveis deste senhor. Numa entrevista à Gazeta, ele simplesmente fazia divagações sobre coisas sérias, inventando “denúncias” a partir do nada. O trololó não passava de tentativa de chantagem. Ou de vingança. O vírus da politicagem é infernal.

Uma coisa tem a ver com a outra – as presepadas federais e estaduais. CFM e CRM não se parecem apenas nas siglas e letrinhas. Ligados a um pensamento reacionário, engajados em suas aventuras partidárias, embalados no delírio ideológico, médicos estraçalham a razão a golpes de bisturi e aderem ao negacionismo. É o mesmo que desprezar a vida e celebrar a morte – exatamente como tantas vezes já fez o vagabundo que preside o Brasil.

Que país e que tempos! É ou não é? Alguém sabe como anda o projeto de um vereador de Maceió para tornar a vacinação não obrigatória? Espero que já tenha sido levado ao destino ideal, que é a lata do lixo naturalmente. É por essas e outras que muita gente se pergunta: “Onde foi que erramos?”. A vacina está aí. Muito mais lentamente no Brasil do que precisamos. Tendo até conselhos de medicina como inimigos, vamo se ligar!

Projeto sobre as polícias é ameaça ao Brasil

  • 04/02/2021 18:47
  • Blog do Celio Gomes

Com a eleição de Jair Bolsonaro, a polícia sitiou de vez o território da política. O que sempre existiu, com um peso irrelevante e uma roupagem de tons meramente folclóricos, ganhou, nos tempos recentes, dimensões bem mais preocupantes. Civis e militares, de todos os postos e patentes, bateram todos os recordes na obtenção de mandatos – no Legislativo e no Executivo. Você sabe que basta uma olhada na lista de eleitos em 2018 e 2020 para se constatar o arrastão de sargentos, capitães, tenentes, coronéis... Além, claro, de delegados das polícias Civil e Federal. A turma da bala cresceu e não está de brincadeira. Este ano promete.

Em todos os estados, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais têm hoje mais deputados e vereadores de origem policial como nunca antes na história deste país. Mais ou menos de repente, parece que cada região no Brasil tem sua cota de Cabo Bebeto – não sei se fui claro como deveria. Ou tem a cota de Fábio Costa. Com esse padrão político e intelectual, há um movimento pra tornar as polícias Militar e Civil entidades fora de controle, livres de prestar satisfação a qualquer esfera da República.

É o que haverá na prática caso prosperem no Congresso Nacional dois projetos que mudam tudo na gestão principalmente da PM. Resumindo, a Polícia Militar deixaria de ser subordinada aos governos estaduais e teria autonomia plena. Nem o governo federal, em tese, teria poderes sobre a corporação. Mas Bolsonaro está do lado do projeto. Ele quer transformar as polícias em braço armado e pronto para, se necessário, garantir um golpe.  

Pelo projeto, o comandante-geral da PM não seria mais uma escolha livre do governador. Este teria de escolher um nome a partir de lista tríplice votada entre oficiais. Essa invencionice combina com a louvação permanente de Bolsonaro acerca dessas categorias. O patético presidente não perde uma cerimônia de formação em escolas militares. Tudo calculado desde o princípio do desgoverno. “Golpe militar com Bolsonaro presidente”, lembram?

O slogan vagabundo esteve nas manifestações dos patos amarelos, inclusive nas passeatas em Maceió. E claro que na cabeça oca da tropa – o padrão é esse aí, lamento – Bolsonaro é visto como um Deus, um exemplo. Ou seja, um mito. E em seu nome esses milicos estariam dispostos a matar e morrer. A matar, no caso.

O Congresso tem de barrar essa excrescência. Além do objetivo exclusivamente autoritário, nada no projeto contribui para melhorar a segurança pública. Como se vê, é também uma iniciativa que eleva ao imensurável um corporativismo que é, e sempre foi, uma deformação jamais enfrentada. Essa jogada é um aceno para a barbárie.

Não exagero. Ao lado das tropas policiais, Bolsonaro sonha com uma milícia particular, formada por cidadãos de bem que estão se armando loucamente. Esse é o interesse da família Bolsonaro em passar a boiada sobre as regras de posse de arma de fogo – coisa que também depende do Congresso. O presidente conta com o Centrão.

É trágico para a jovem e frágil democracia brasileira ter de encarar essas ameaças totalitárias de quem foi eleito pelo voto popular. E os malandros que vivem nessa toada dizem falar em defesa da liberdade. Como diria Leonel Brizola, “é tudo filhote da ditadura”. Hoje, digamos, são os netos da ditadura. Essa gentalha tem de ser contida. 

Eleição no Congresso deixa Bolsonaro refém do Centrão

  • 02/02/2021 15:47
  • Blog do Celio Gomes

O Centrão agora comanda o parlamento brasileiro. Mais ou menos por aí. A eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados representa o triunfo do bloco cuja notoriedade não decorre de práticas republicanas. Ao contrário. Segundo ideia consagrada na crônica da nossa política, o Centrão é sinônimo de fisiologismo, clientelismo e jogadas que, com alguma frequência preocupante, estão em desacordo com as leis. A coisa não é nova. Todos os governos lidaram com algo semelhante ao longo das últimas décadas. Mas afinal o que muda a partir de agora com o ambiente político no Brasil da pandemia?

Primeiro é obrigatório registrar a patética postura da turma da “nova política”. Os rapazolas que vibram com o estilo de Jair Bolsonaro, que babam por uma pistola e idolatram torturadores, fingem que nada demais aconteceu. Fingem que Bolsonaro e Centrão estão apenas “construindo pontes” em nome da governabilidade e das reformas estruturais. Até ontem, Bolsonaro e sua turma tratavam o Centrão como um bando de ladrões. 

A prova? Vejam na internet o general Augusto Heleno nas convenções partidárias em 2018. Disse o veterano golpista, cantarolando ao fim de sua fala: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”. O trocadilho, desculpem os detalhes, é com o verso de Reunião de Bacana, gravada pela primeira vez em 1981 pelo grupo Exporta Samba. No original, a palavra “ladrão” substitui o “centrão” da paródia feita pelo velhinho troglodita.

Bolsonaro não dizia coisas mais bonitas sobre esses colegas de Congresso durante tanto tempo. Era um “bando de picaretas” que trocava apoio por cargos e verbas. Era a “velha política” que o capitão acabaria de uma vez por todas. Quem não lembra daquela famosa frase de comédia que dizia assim: “Acabou a mamata”! O mito de fato conquistou a turma que estava ávida por um governo baseado na meritocracia e no combate à corrupção. Sacou?

Nem sei o que é mais repulsivo: se o bolsonarista orgulhoso, assumidamente adepto de grupo de extermínio, ou se o inocente que se diz arrependido. Bolsonaro não enganou ninguém, apenas mobilizou terraplanistas de toda ordem. Há ainda os que fingem normalidade, mesmo com o cavalo de pau no discurso do chefe da gang.

O presidente espera domar o Congresso, também com a simpatia de Rodrigo Pacheco na direção da Casa – embora este seja mais discreto que Arthur Lira. Como já escrevi aqui, Bolsonaro conta com o parlamento para tocar seu único projeto de governo: se manter no mandato e pavimentar a reeleição em 2022. Operação de troca.

Do lado do Centrão, o preço é alto. A gestão técnica de Bolsonaro arreganhou os cofres. Entre emendas e cargos, a conta ultrapassa meio bilhão de reais, segundo reportagem do Estadão. Além da proteção ao presidente criminoso, a tabelinha garante também a votação de projetos da chamada pauta de costumes. Tudo isso na teoria.

Na prática, ninguém garante o que virá amanhã. Desconfio que coisa boa, isso nem adianta esperar. O capitão acha que comprou a salvação, mas pode acontecer o contrário. Podemos estar diante de um clássico abraço da morte. A partir de hoje, o inquilino do Planalto é refém de um grupo implacável. Nas finanças e na ideologia.  

A foto lá em cima é emblemática. Mostra o deputado Eduardo Bolsonaro passando o celular pra Arthur Lira. Era a ligação do pai do Zero Três parabenizando o alagoano após a vitória. É uma imagem pra guardar. Quem diria! Os reis da “renovação política” batem continência para os papas do toma lá dá cá e de esquemas nebulosos.

Vitória de Arthur Lira na Câmara muda o jogo em Alagoas

  • 02/02/2021 01:11
  • Blog do Celio Gomes

Pode-se falar em massacre. O deputado federal Arthur Lira (Progressistas) obteve 302 votos contra 145 do adversário Baleia Rossi (MDB) e é o novo presidente da Câmara. Com o dobro da votação, Lira mostrou que foi competente na costura de alianças, desde o ano passado, quando formalizou a candidatura. E, no balaio de apoiadores de todas as correntes, Jair Bolsonaro foi o cabo eleitoral mais engajado. Atormentado pela assombração de um impeachment, com uma Câmara parceira, o presidente espera uma blindagem incondicional a eventuais pedidos de abertura de processo.

O resultado da eleição apresenta ao Brasil mais um alagoano que chega ao topo da República. Antes dele, o único nome dessas bandas a presidir a Câmara, eleito em 2005, no meio de uma crise daquela época, foi Aldo Rebelo. Mas este fez carreira em São Paulo, sem participação direta na política alagoana. Thomaz Nonô (DEM) foi presidente interino, durante poucos dias, também em 2005. A vitória de Lira, portanto, é feito inédito.

O triunfo do filho de Benedito de Lira provoca agitação e deslocamentos em âmbito nacional, como se sabe. Mas há também as consequências no xadrez do poder em Alagoas. Desde o senador Renan Calheiros (MDB) – nos holofotes há três décadas –, nenhum outro parlamentar estadual havia chegado tão longe. O novo presidente da Câmara entra definitivamente para o grupo dos caciques, aquele com poderes bem acima do chão da fábrica.

“Chão da fábrica” foi a expressão usada por Arthur Lira em discurso após a vitória, ao se referir ao plenário da Câmara. Era a repetição da promessa de que, em sua gestão, vai prevalecer o “nós sobre o eu”. A fala é uma crítica aos supostos métodos centralizadores de seu antecessor, Rodrigo Maia (DEM). E é, em outras palavras, o compromisso de que, a partir de agora, o baixo clero será prestigiado como nunca foi. É algo a se conferir.

De volta a Alagoas, na eleição municipal do ano passado, Lira já deu mostras de sua força. Foi ele o principal patrocinador da candidatura a prefeito do deputado Davi Davino Filho (Progressistas). O candidato foi a grande surpresa na disputa pela prefeitura de Maceió, fechando o primeiro turno em terceiro lugar, mas em empate técnico com os dois primeiros colocados. A força de Lira na campanha se traduziu em verbas e alianças.

Também na batalha eleitoral do ano passado, o partido de Arthur Lira deu um salto no número de prefeituras que comanda no estado. Em 2016, eram 11 municípios administrados pela legenda. Com as urnas de 2020, a sigla está à frente agora de 29 cidades e perde apenas para o MDB. É base partidária de respeito para qualquer aposta.

E qual seria a aposta de Lira em relação a Alagoas, agora com os poderes que tem? É a conclusão mais óbvia, mas precisa ser registrada assim, claramente: ele acaba de se tornar nome de peso para 2022, virtual candidato a governador, na sucessão de Renan Filho (MDB). A eleição federal em Brasília mudou o jogo na arena alagoense.

(A foto lá no alto mostra o alagoano na estreia na cadeira de presidente da Câmara. Assim que assumiu, ele já deu uma pista sobre o que pode vir por aí. Numa canetada, anulou decisão de Rodrigo Maia sobre a formação de blocos partidários para a eleição que acabara de ser encerrada. Chegou atirando. Jair Bolsonaro aplaudiu).

Candidato de Bolsonaro, Arthur Lira está quase lá

  • 29/01/2021 16:42
  • Blog do Celio Gomes

Nas páginas da grande imprensa, o alagoano Arthur Lira (foto), do Progressistas, lidera todos os levantamentos na eleição para presidente da Câmara dos Deputados. No Placar Estadão, por exemplo, ele teria hoje 226 votos contra 130 de Baleia Rossi, do MDB de São Paulo. A encrenca é que 123 parlamentares não declaram o voto – o que torna toda previsão uma aposta no escuro. Para levar no primeiro turno, o candidato precisa obter ao menos 257 votos. Se ninguém alcançar o número mágico, haverá segundo turno. Além de Lira e Baleia, outros sete deputados estão na disputa. 

Mas ninguém vê qualquer chance para ninguém fora os dois principais concorrentes. Para unificar a causa e o discurso, digamos assim, os partidos declaram posição sobre as candidaturas. Mas não é incomum que parte dos filiados rejeite a decisão da cúpula e vote contra a própria legenda. É que o voto é secreto. A traição partidária é uma das marcas registradas da eleição no Legislativo. De todo modo, o alagoano é apontado como favorito.

E esse favoritismo foi até vitaminado pelas ratadas no grupo adversário. Baleia Rossi é o candidato escolhido pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia. Ocorre que o cacique enfrenta problemas em sua própria legenda, o Democratas. As coisas não combinam direito entre Maia e o baiano ACM Neto, o outro mandachuva no DEM. Nos últimos dias, a turma ficou mais tempo brigando entre os seus – o que expõe a perigosa crise na candidatura.

Do outro lado, mais governista do que nunca, Arthur Lira conta com o rolo compressor da máquina federal. Candidato de Bolsonaro, o parlamentar será um aliado vital do presidente no comando do parlamento. Lembrando o óbvio: para Bolsonaro, Lira é a garantia de blindagem a qualquer ação por impeachment. E preservar o mandato, como a gente tá cansado de saber, é o único projeto deste governo. É o que tá acertado.

Para dar apoio ao alagoano, a turma bolsonarista, espalhada por diferentes partidos, exige a contrapartida em outra moeda. Trata-se da “pauta de costumes”. Caso eleito, Lira deverá agir para passar a boiada de projetos na contramão dos direitos humanos e outras sandices. A ridícula ideia do “Escola sem Partido” voltaria com tudo.

Outro projeto da turma é liberar geral a posse e o porte de armas. Querem tornar a coisa ainda mais depravada do que já é. Pistola e revólver pra todo mundo. Fortunas para as grandes fabricantes de armamento. Lira prometeu que, sob sua presidência, a Mesa vai pautar tudo isso daí. Com essa plataforma, está confiante na vitória. 

Nesta sexta-feira, Bolsonaro deu mais um claro sinal de como está interferindo na eleição do Congresso. Ele cogitou recriar os ministérios da Pesca, o da Cultura e o do Esporte. As três pastas passaram a ser secretarias no atual governo, mas, diante das demandas políticas, tudo muda. São moedas de troca no negócio com Lira.

A eleição para presidente da Câmara ocorre na próxima segunda-feira, primeiro de fevereiro. Tá em cima. Lira é mesmo favorito, mas não pode vacilar. No Senado, parece que a parada está definitivamente resolvida. Vai ganhar o senador mineiro Rodrigo Pacheco (DEM). Também é o candidato de Bolsonaro. Rapaz, que tempos!

Alagoas é vítima de fake news de Bolsonaro: a incrível mentira sobre um repasse bilionário

  • 26/01/2021 15:45
  • Blog do Celio Gomes

Em seu território livre para todo tipo de barbaridade, Bolsonaro soltou o verbo nas redes sociais pra exaltar sua própria gestão. E, dessa vez, ao listar os grandes feitos de seu governo, ele deu um jeito de encaixar Alagoas em uma narrativa de autopromoção. Disse, com a maior naturalidade, que somente no último ano, os cofres federais inundaram nosso estado com repasses que somam mais de 18 bilhões de reais. Bolsonaro ainda detalhou quais seriam em tese os destinos de todo esse volume de recursos. O problema, sendo quem é o presidente, é que estamos diante de uma farsa.

Mais uma vez Jair Messias mente de maneira descarada. É um tremendo pilantra, que não dá um passo, não faz um anúncio, não diz um “bom dia” sem que não esteja assentado em falsidades escandalosas. Como vocês sabem, Bolsonaro é símbolo internacional de fraude e fake news. O elemento já teve até publicações marcadas pelo Twitter como não confiáveis. Como diria Ernesto Araújo, o governo se orgulha de ser pária mundial.

Sobre os 18 bilhões, o presidente foi imediatamente desmentido pelo secretário estadual de Fazenda, George Santoro. De forma didática, Santoro revela que o que Jair Messias trata como repasses extraordinários, algo decidido pelo governo federal, são transferências obrigatórias: verbas do Bolsa Família, FPM, FPE e SUS. Esses programas são anteriores a Bolsonaro. É estupidamente óbvio escrever isso, mas diante das mentiras oficiais...

Vejam a cara de pau: para inventar que faz o que não faz por Alagoas, Bolsonaro frauda até a origem do FPM. Como diz o nome, Fundo de Participação dos Municípios vai para os cofres das cidades, das prefeituras. Não poderia ser creditado na conta do Estado, como faz Bolsonaro, o pior mitômano que a política brasileira já pariu.

É com esse discurso – falacioso e criminoso – que devotos do tacanho Jair atacam instituições e adversários ideológicos. Aqui por Alagoas, entre os seguidores mais perturbados do bolsonarismo estão Davi Maia, Cabo Bebeto, Thomaz Nonô, Fábio Costa e outros mais ou menos engajados, às claras ou ainda no armário.

Toda aliança com Bolsonaro é de ocasião. Desde sempre foi assim. Desesperado à procura da reeleição, claro que o que já era péssimo ficou pessimamente piorado. Ou seja, o meliante nunca teve limites para suas delinquências em três décadas de baixo clero. No comando do país, e disposto a tudo para ficar por lá, danou-se.

O governo de Alagoas tem mantido com a Presidência da República relação que se pode chamar de equilibrada. É o que tem de ser. Diante do desastre que está aí, governadores devem agir com a máxima formalidade. O erro mortal seria embarcar na aventura do miliciano que desonra o cargo desde o primeiro dia no Palácio do Planalto. 

Até o momento em que escrevo, não vi reação do governo federal ao desmentido do secretário Santoro. Vejam bem: um secretário estadual mostra que o presidente mentiu. Nas redes sociais, os doentinhos do pedaço, claro, bajulam o ídolo e atacam o governo alagoano. Mas aí estamos no reino da vigarice. Nem adianta perder tempo.

Fato concreto e definitivo: não, o governo Bolsonaro não repassou 18 bilhões pra Alagoas. O governo federal não “injetou” essa verba extra por aqui – como o ridículo presidente insinua em sua manifestação. Se pudesse, na verdade, ele cortaria repasses a políticas sociais. Como se sabe, “social”, para o bolsonarista, é tiro na cabecinha.

Millane Hora, o namorado senador e a Timbalada

  • 23/01/2021 12:17
  • Blog do Celio Gomes

Millane Fabrícia da Hora Figueiredo Fortes (Arapiraca, 22 de maio de 1985) é uma cantora e compositora brasileira. O que você acaba de ler foi copiado e colado por mim direto da Wikipédia, a autointitulada enciclopédia livre – que todos nós consultamos na internet em busca de socorro imediato para a ignorância sobre o mundo. A alagoana começou a trajetória nos palcos da música ainda criança, lá pelos 13 anos. Muito tempo depois, ela foi bater no The Voice Brasil, da Globo, e numa traumática passagem pela mitológica Timbalada (foto). Agora, vive novo trauma, de outra ordem.

A cantora acaba de postar um vídeo com um desabafo. Ela informa ter desistido do cargo de assessora especial na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Maceió. A nomeação da jovem artista, que também é advogada, provocou duras reações nas redes sociais. É que ela é namorada do senador tucano Rodrigo Cunha, com forte influência sobre o prefeito JHC. Ela teria sido nomeada apenas por esse requisito emocional.

Não podemos, a rigor, fazer tal acusação. O problema nesses casos, e na política especialmente, é a percepção dos fatos. Não adianta o senador fingir que nada tem a ver com a advogada e cantora – e querer que a plateia acredite nessa ética escorregadia, digamos assim. Não. Fica a impressão de coisa meio fora de lugar. A assessora-relâmpago então, diante desse oceano de desconfiança, recusou o convite já materializado em Diário Oficial.

Assim como no episódio da Timbalada, agora Millane tomou um rumo que não era sua escolha livre e voluntária. Na banda de Salvador, o estranhamento foi imediato; a química não rolou, e aí ela ficou apenas sete meses como a principal vocalista do grupo formado e guiado até hoje pelo monstro Carlinhos Brown. Os fãs (e os fanáticos) rejeitaram aquela moça “diferenciada” e exigiram uma escolha com a “cara” da Bahia e dos baianos.

Quando foi forçada a deixar a Timbalada, a cantora publicou texto, tornando pública sua versão. Apesar de não atacar ninguém e exaltar até os orixás, há uma e outra farpa para o ídolo que a decepcionou, o Carlinhos Brown. Hoje, ela recorre a um vídeo de mais de quatro minutos para se explicar sobre a encrenca com o cargo municipal.

O leitor pode conferir o relato de Millane aqui no CM. Ela fala com firmeza, mas o tom é calculado para mostrar que está tudo bem. Nenhuma menção a seu namorado, aquele senador. Ela também tenta emplacar algo como indignação diante da reação contra seu emprego que lhe renderia salário de 11 mil reais. Ela tem personalidade.

A quase assessora da prefeitura revela ainda que trabalha há tempos com pessoas vulneráveis. No cargo, poderia fazer muito mais, como dizem os slogans. Ela afirma ser independente e exalta um de seus traços dos quais se orgulha: encara desafios com “a cara e a coragem”. Ok, ok, mas a sombra do apadrinhamento é pesada.

Por isso, se é difícil acreditar em coincidências e meritocracia nesta nomeação, reconheça-se o gesto de Millane Hora ao desistir do posto. Ela não queria sair, é verdade, mas sabe que não valeria a pena esse fardo – a imagem de quem ganhou emprego via namorado. Mesmo contrariada, tomou a única decisão decente que poderia tomar.

O impeachment de Bolsonaro e as Forças Armadas

  • 23/01/2021 08:56
  • Blog do Celio Gomes

Jair Bolsonaro acusou o golpe e sabe que seu mandato está a perigo. Por isso, dia desses, ele juntou na mesma frase as palavras democracia, ditadura e Forças Armadas. Na imprensa nacional, em editoriais e nas mais diversas vozes de colunistas, só se fala do impedimento para o presidente desqualificado que vai destruindo o Brasil. Defende-se largamente a abertura de processo de impeachment pra dar fim à crise permanente incendiada pela delinquência do miliciano que desonra a Presidência. Crime de responsabilidade é o que não falta. O mais grave de todos: o atentado contra a saúde pública.

São dezenas de pedidos na gaveta de Rodrigo Maia. Na reta final de seu mandato no comando da Câmara, é improvável que ele tome a iniciativa de pautar o assunto. Daí que todo mundo especula sobre o comportamento do futuro presidente da Casa diante do tema. Como se sabe, o alagoano Arthur Lira disputa o cargo com o apoio explícito de Bolsonaro. Seu principal adversário, Baleia Rossi, também não é entusiasta da ideia.

Em dois anos de completo desgoverno, há retrocesso brutal em todas as áreas. Da economia ao meio ambiente, na educação e na saúde, a miséria de resultados é incontestável. As “vitórias” que os devotos da seita celebram são as armas e o desmonte de políticas sociais. Os celerados que seguem cegamente o vagabundo Bolsonaro continuam em guerra contra o globalismo, o comunismo e a ideologia de gênero. É caso para a psiquiatria.

Mas não só isso. Há um dado objetivo que foi se tornando cada vez mais explícito no discurso, na postura e nas ações de Bolsonaro e seu gado: os “liberais conservadores” abominam essa história de combate às desigualdades sociais. A ironia é que o maior representante dessa visão, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é um fracasso estrondoso. De superministro a tosco serviçal de um tiranete, Guedes parecia que jamais rastejaria a esse ponto.

Não que a expectativa fosse lá grande coisa. Mas ele dizia que o jogo seria de seu jeito – ou pegaria o boné e iria embora. Mas não. Viu-se que o cara faz qualquer bagaceira para se manter no posto. Nada do que prometeu chegou nem perto de se concretizar. A pauta liberal – privatizações e reformas estruturais à frente – é pura ficção.

Mas tudo isso, a essa altura, já nem está em debate. Ou melhor, está em debate, mas deixou de ser decisivo para o que é necessário. E o mais urgente, a cada dia, é o país se livrar do criminoso que atazana a vida dos brasileiros. Claro que ele pode seguir adiante e chegar a 2022 pronto para brigar pela reeleição. Está Jogando tudo pra isso.

Nessa hipótese, perfeitamente possível, o país estará em transe. E o resultado da eleição – lembrando Trump nos Estados Unidos –  detonará abalo inédito. Não foi isso o que Bolsonaro já anunciou? Com todas as letras disse que ou tem voto impresso ou será ainda mais grave do que a confusão americana. É uma ameaça de “autogolpe.

Daí porque o desprezível negacionista recorrer à retórica criminosa ao arrastar as Forças Armadas para seu projeto golpista. Com a gestão sitiada por militares – em funções para as quais são incompetentes –, o capitão da tortura aposta nessa base. Há meios formais para frear esse rastaquera, tremendo pária aos olhos do mundo.

Secretariado de JHC tem apadrinhado de Luciano Huck e dois novos “Gabinetes Integrados”

  • 05/01/2021 11:49
  • Blog do Celio Gomes

Finalmente saiu. Passava das 18 horas desta segunda, quatro de janeiro, quando o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PSB), apresentou o secretariado. Aqui no CM o leitor confere a relação com todos os nomes. Mas a identidade dos escolhidos chegou à imprensa antes do anúncio oficial. E, se eu não errei nas contas e na comparação, o vazamento acertou quase tudo. Dos 21 cargos, 16 titulares estão nas duas listas – na anônima e na confirmada pelo prefeito. Sem dúvida, as informações vieram a público antes da hora por obra e interesse de gente do núcleo duro de JHC.

É sinal de guerra no time antes mesmo de começar o trabalho. Os nomes que não bateram foram estes: Mac Lira, Judson Cabral, Alícia Pita, Moacir Teófilo e Marcelo Maia Lima. O caso mais chamativo aí é o do ex-deputado Judson Cabral, ex-petista que se juntou a Lessa no PDT. O nome dele era dado como certo, mas acabou vetado pelo agora vice de JHC. O desencontro confirma a permanente crise pedetista em Alagoas. 

Além disso, a lista que vazou trazia dois nomes, para duas secretarias novas. Uma delas deveria tratar do caso Pinheiro-Braskem; a outra seria para o enfrentamento da Covid-19 na capital. A pasta sobre o Pinheiro estaria reservada para o delegado federal André Costa, que acabou sendo indicado para a SMTT. A de combate à pandemia seria chefiada por Claydson Moura. Na manhã desta terça, pintou novidade sobre essa iniciativa.

A informação sobre a criação das novas secretarias já era de conhecimento público. A pasta para o Pinheiro foi inclusive promessa de campanha do candidato JHC. Mas parece que alguém esqueceu como é que se faz esse tipo de coisa. De fato, cabe ao Poder Executivo a criação de postos e empresas públicas. Mas o caminho único para isso é um projeto de lei a ser levado à Câmara Municipal. Como está esse projeto tão anunciado?

A novidade é que não serão mais secretarias e sim Gabinetes Integrados da Prefeitura, como diz a publicação da assessoria. Ainda é obscuro o que essas invenções vão render de concreto à cidade. Tem todo jeito de improviso para acomodar aliados na máquina. É aconselhável que o prefeito mostre a cara e explique seu secretariado. 

Além do vacilo de levar quatro dias de gestão pra anunciar os secretários – algo provavelmente inédito na história da República –, o prefeito está devendo informações detalhadas. Reparem que agilidade e transparência foram bandeiras de campanha. As duas qualidades, porém, passam longe no começo do mandato e da jornada.

Um dos secretários nomeados é Carlos Jorge, apresentado como “empreendedor social”. Na verdade, ele dirige uma ONG com atuação na orla lagunar de Maceió. Seu negócio deu um grande salto após ser apadrinhado por Luciano Huck. O novo secretário já participou do programa do apresentador da Globo, o Caldeirão, num campeonato para ganhar o prêmio em dinheiro. Esse rapaz vai acumular a ONG e a secretaria? 

Como na tradição globalista, o anúncio do secretariado por JHC foi feito no Instagram, com esta mensagem: O nosso time está escalado! Montamos uma equipe técnica, competente e muito dedicada para contribuir com a mudança que faremos em Maceió. Agora, vamos ao trabalho!. Isso é campanha. A ver como será na vida real.

JHC dá a largada com amadorismo e “vazamento de secretariado”

  • 04/01/2021 16:14
  • Blog do Celio Gomes
Assessoria
JHC

A imagem da foto não combina com os primeiros dias e primeiros lances da gestão JHC. Até o momento em que escrevo este texto, no começo da tarde desta segunda-feira, o novo prefeito de Maceió ainda não anunciou o secretariado. Deve ser caso único no Brasil. A nova gestão começou em primeiro de janeiro sem que João Henrique Caldas cumpra o básico na hora da largada: apresentar a equipe e tocar o trabalho. Como assim? O que houve? Tem alguma confusão, alguma dificuldade? Alguém precisa acordar o prefeito. A “mudança de verdade” começa com jeitão de amadorismo.

Por isso que a foto aí no alto não combina com a realidade. A imagem produzida pela assessoria parece tentar mostrar um gestor “focado”, não é isso? Juventude. Rapaz antenado com o mundo 5G. Sobriedade e decisões rápidas. Na vida real, no quarto dia de sua administração, JHC se complica logo na montagem do time. E olhe que na campanha ele garantiu que não haveria pressões para formar o secretariado. Foi tudo o contrário.

Dois aspectos foram determinantes para a demora de JHC em fechar os nomes. O primeiro é previsível e tem de ser encarado pelo comandante: a cobrança dos aliados. É legítimo que assim seja, diz um dos mandamentos tacitamente aceito como lei em todas as esferas da gestão pública. Cabe ao prefeito (qualquer prefeito) dialogar, ouvir e decidir, com firmeza e transparência. É o que deveria ser feito por JHC. Mas ele se atrapalhou.

É o segundo aspecto que explica a letargia para um simples anúncio de uma equipe de trabalho. No entorno do homem já tem gente achando que ele demonstra “insegurança” nesses primeiros momentos. Não é para menos. A desenvoltura do prefeito nas redes sociais não chegou à sua atuação como parlamentar. JHC terá de mostrar que não foi apenas um falastrão arrumadinho de campanha eleitoral. E assume no meio da crise nacional.

Uma das confusões na montagem do secretariado foi com o PDT, o partido de Ronaldo Lessa, o vice de JHC. (Essa tabelinha tem tudo pra fazer barulho, mas este é outro assunto). Na montagem da aliança com o PSB de JHC, os pedetistas levam duas secretarias. Foi o que o então candidato fechou com seu parceiro de vice. Lessa, disparadamente a maior liderança do PDT alagoano, foi contestado na legenda por sua conduta nesse processo.

Falei de amadorismo. É uma crítica leve, digamos assim. Não há como ser diferente. Até porque o novo prefeito acaba de chegar. A lambança com o anúncio de algo tão prosaico – é só a formação da equipe – não autoriza pancadaria sobre a qualidade do gestor JHC. Dá, sim, uma pista um tanto preocupante sobre sua capacidade de liderança. Mas a ação amadora se completou com o vazamento de nomes que devem ser nomeados.

A lista saiu no começo do dia. Até o meio da tarde desta segunda ninguém da turma do prefeito havia confirmado ou negado a informação. E tem um dado quase de comédia. Eu já vi ocasiões em que dois ou três nomes de uma equipe bem maior são vazados para a imprensa. É a primeira vez que vejo o vazamento de uma equipe inteira, com nome, sobrenome e o cargo a ser ocupado. Isso é quase “vazamento profissional”, com assessoria e tudo.   

Na lista vazada, que o leitor pode conferir em reportagem do CADAMINUTO, há nomes conhecidos e previsíveis. Há também gente de quem nunca ouvi falar. E existe até uma pasta especial para tratar de Covid-19. Outra, criada exclusivamente para gerir o caso Pinheiro-Braskem, já havia sido anunciada por JHC. Porque o secretariado ainda não é oficial, não comento os nomes agora. Vamos esperar a decisão do hesitante prefeito.

As lives e a publicidade. Caetano e Fernanda Montenegro

  • 29/12/2020 10:34
  • Blog do Celio Gomes

E aí está você, estamos nós, em algum momento do dia ou da noite, diante da obrigação de escrever sobre mais um ano que vai terminando. Meu Deus, é a pauta de meio mundo – ou seria de todo mundo? É hora de fazer o tal balanço de 12 meses. O pior são as crônicas, um perigo mortal – pensando no conceito clássico de crônica. A pandemia de Covid-19 faz de 2020 caso único na trajetória da humanidade. É o que dizem por aí, com base nos dados de uma tragédia que, apenas no Brasil, matou até agora mais de 190 mil pessoas. O Ano da Morte poderia ser o título da crônica – naqueles tempos remotos em que havia cronistas, galos e quintais.

O Ano das Lives também. Não vi quase nenhuma, confesso. Acho melancólico que Caetano Veloso tome conta do noticiário com suas apresentações nessa maratona das lives. Nada contra esse monstro da música brasileira. Mas ele toma conta do noticiário faz cinco décadas... Fora isso, associar o cantor e compositor a uma ideia de rebeldia soa teatralmente fraudulento. Ele foi, aliás, desde o começo, o rebelde que dava piscadelas ao status quo.

(Status quo é homenagem aos tempos de Sociologia nos bancos da Ufal, a caminho do Jornalismo). Voltando ao poeta de Santo Amaro, com ele o nepotismo ganhou uma nova representação nos shows bancados pela Globo e pela empresa do publicitário Nizan Guanaes. Os filhos de Caetano (foto), que ninguém conhece, tocaram ao lado do pai, dividindo um palco reservado aos grandes. Mas os garotos não conquistaram aquilo. Foi herança.

Assombrado, leio que um comercial de Fernanda Montenegro causou comoção em milhões. Dizem que ela declama um “lindo texto” sobre a esperança. O acontecimento explodiu nas redes sociais. Até em O Globo, a jornalista Ruth de Aquino exalta o anúncio publicitário e diz que, sim, ela também foi às lágrimas. Nessas horas, você tem direito de achar que não temos salvação. E, pra completar, a peça com a atriz rende “muita polêmica”.

É que a mensagem de Fernanda Montenegro é uma publicidade do banco Itaú – que não exibe a marca durante o comercial. Por isso que o povo entendeu como um vídeo espontâneo da atriz. Aí é demais. Vi o anúncio no dia da estreia, sem saber nada a respeito. Mas entendi na hora que era uma publicidade “disfarçada”, e que logo saberia qual produto estava na moita. Sem surpresa, era um banco. Tem gente se sentindo “enganada”.

Mas a tragédia nessa história é o oba-oba com o texto que a atriz decorou para ganhar um trocado. É uma coleção de frases açucaradas, na medida para reiterar (e reificar) uma não ideia. E é logo sobre “esperança”. A celebração retardada desse substantivo é, vamos dizer assim, um equívoco de origem em nossa formação. Exaltamos algo como se fosse mágico; como se “ter esperança” fosse o passaporte para a realização do sonho.

Eu falei que milhões se sentem enganados? O caso foi bater entre os mais comentados nas redes sociais também por isso. Primeiro, a vertigem com a maravilha “poética” do comercial que o povo pensou que era arte. Depois, a palavra “decepção” bateu recorde nas manifestações – isso após a revelação de que o autor do texto é um redator da agência África, e não a encantadora Fernanda. “Ah, então era tudo por dinheiro?!” Sim, era só isso.

Consequência automática da pandemia, as lives mudaram para sempre o negócio dos shows. É o que dizem estudiosos, críticos e artistas. A saturação é o lado mais complicado de qualquer novidade avassaladora. Como escapar da mesmice que sucede inapelavelmente a invenção? Sobre isso, muitas páginas ainda serão escritas.    

Como você percebe, acabou que o texto tomou outro rumo, sem balanço nenhum de 2020. É muita coisa para dar conta. Nem falei da política, do governo Bolsonaro, da sucessão americana, de Sergio Moro, do Carlinhos Maia...

Não quero saber da sua vida

  • 28/12/2020 01:08
  • Blog do Celio Gomes

Não é que eu não goste de fofocar sobre a vida sexual dos outros. Dou-me a esse vício, mas só em companhia de íntimos, e jamais falaria da minha vida sexual ou da de meus íntimos a estranhos. Não é moralismo. É discrição. Reconheço, mais uma vez, que estou fora de moda. A moda é que perfeitos estranhos (ou estranhas), depois de alguns minutos de papo, passem a contar o que passa nos seus leitos conjugais ou não. A época é de todo mundo contar a vida em público. Essas palavras, que destaquei em itálico, refletem, em alguma medida, os dias atuais? Sem falso moralismo, parece que sim.

Quando a gente pensa nas centenas de subcelebridades que todos os dias contam suas aventuras sexuais, a tendência talvez seja mesmo concordar com a opinião expressa no parágrafo anterior. Eu acho bem exagerado, meio fora de propósito, que o famoso acidental e até artistas de grande sucesso se esforcem tanto para exibir suas intimidades em praça pública. Depois, quando passam algum vexame, exigem “respeito à privacidade”!

Nem vou lembrar que no império das redes sociais essa compulsão moeu os limites. DJs, cantores, cantoras, atrizes e atores, gente de algum talento e, claro, a multidão de falsas celebridades não dão trégua na maratona de revelações sexuais. Uma das obsessões é falar do apetite múltiplo e diverso na hora do sexo. Ficou com dois ao mesmo tempo. Entrou na orgia com garotas e rapazes. Já experimentou assim ou assado... E por aí vai.

Quanto mais exótica é a experiência, e quanto mais escandaloso é o detalhamento do que se passou na gandaia, melhor para a “imprensa especializada”. E melhor também, pensam os protagonistas, para suas carreiras como artistas. Mas as editorias que cuidam exclusivamente do “mundo dos famosos” tratam apenas da vida pessoal, e não do trabalho desses afamados. E assim o círculo vai sendo alimentado de maneira praticamente doentia.

Comecei a escrever este texto depois de um passeio pelo noticiário, vendo os principais veículos de informação do país e os destaques nos sites alagoanos. Em todos, sem exceção, é chocante o quanto esses assuntos, a vida privada, o mais íntimo e pessoal estão nas manchetes. Quem corneou quem. Quem não é de nada na hora H. Qual a posição preferida... Tem de tudo entre as melhores piores chamadas para as “reportagens” a respeito.

Clique no endereço de qualquer site de notícia e você será bombardeado com os títulos mais estúpidos da paróquia. Para ilustrar as chamadas que “quebram a internet”, é um festival de caras, bocas e bundas. E boa parte das fotos pode ser tranquilamente confundida com anúncios de garotas e garotos de programa. Claro que a oferta desse tipo de “notícia” responde a uma demanda sempre em alta. Nem adianta brigar com isso.

Não quero aqui defender a caretice, entende? Longe de mim também qualquer tipo de censura – nem aos falastrões da cama e muito menos à imprensa. Nunca e jamais. Ataco a miséria intelectual (e existencial) nesse tipo de interesse. E acho um tédio o massacrante conjunto de “notícias” sobre esse subcampo antropológico. Nos casos mais insanos, personagens cruzam a linha da vulgaridade com um orgulho constrangedor.

O tema é pré-histórico. É ou não é a força das paixões, dos amores e do sexo o que move o mundo? Mas essa é outra história. Termino com um esclarecimento sobre as linhas em itálico que abrem o texto. Na verdade, foram aquelas palavras que me levaram a escrever. É um trecho de uma coluna de Paulo Francis, publicada na Folha em 1978, com o título que também sequestrei. Está no livro Diário da Corte (2012) e, reparem, não envelheceu nada.

Com Arthur Lira presidente, Câmara seria um puxadinho do Planalto, subserviente a Bolsonaro

  • 27/12/2020 13:48
  • Blog do Celio Gomes

Informa o jornalista Lauro Jardim, em O Globo: Os articuladores políticos de Jair Bolsonaro trabalham com um mapa de 500 cargos federais a serem preenchidos em troca de votos para Arthur Lira, o candidato do governo à presidência da Câmara. O próprio Lira trabalha para dar forma a esse mapa. Sua eleição é a prioridade números um, dois e três do Palácio do Planalto. É por isso que Lira tem chances reais de vitória na eleição marcada para fevereiro. Montado na máquina governista, o alagoano está confiante que leva a parada. Será o homem de Bolsonaro no parlamento brasileiro.

Mas o deputado sabe que não será fácil de jeito maneira. Rodrigo Maia (DEM), que passará o cargo para o sucessor, conseguiu fechar um bloco de peso no apoio ao deputado Baleia Rossi, do MDB de São Paulo. Do modo que as coisas seguiram, ficou claro que na eleição está em jogo a influência de Bolsonaro sobre a Câmara. Ele quer dar as ordens. A temporada de Rodrigo Maia no comando da Casa nunca foi de vida boa para o capitão do Planalto.

É por isso que o discurso de Baleia Rossi é exatamente o de uma Câmara independente – o que não haverá com Lira presidente. O parlamentar do Progressistas, um dos exemplares membros do notório Centrão, terá de entregar a Bolsonaro o que ele quiser. Não fosse assim, o Jair não estaria nesse nível de engajamento. Como já escrevi aqui, o presidente negacionista teme um processo de impeachment – que só anda se a Câmara autorizar.

Na mesa da presidência da Câmara há dezenas de pedidos de impeachment para Bolsonaro. Basta que o comando do parlamento leve um dos casos à pauta. Esse é um poder – exclusivo e descomunal – de quem estiver na presidência da Câmara. A única coisa que interessa a Bolsonaro é proteger seu mandato e blindar sua turma de milicianos, incluindo os três filhos delinquentes. O governo se resumiu a isso – biombo de marginais.

Para obter o apoio dos colegas alagoanos, Lira joga com a ideia de que, uma vez lá no topo, Alagoas será beneficiada. Seus apoiadores por aqui também repetem essa lorota. O prefeito eleito de Maceió, JHC, é uma dessas vozes delirantes. Delírio, sim, porque essa história só engana os que gostam de ser enganados. Não existe relação direta entre uma coisa e outra. Tal discurso, aliás, depõe contra o postulante que pede voto na eleição.

A conversa de que um alagoano em postos de comando significa facilidade para o estado obter recursos e projetos é piada. Uma piada velha, aliás. Lembro que em quase toda eleição para governador, a ladainha se repete: algum candidato vai se apresentar como aliado do presidente de plantão. “Teremos as portas abertas em Brasília”, disseram diferentes candidatos em eleições estaduais. É uma mentira descarada, um insulto.

Bolsonaro casadinho com o Centrão e com Arthur Lira é um presente para a seita, para o Gado, como ficaram conhecidos os patetas de verde e amarelo. Em Alagoas, os rapazes que se apaixonaram pelo jeitão truculento do Jair não sabem o que dizer sobre a “nova política” do ídolo. Todos estão fazendo os maiores malabarismos retóricos para explicar o inexplicável. Os patriotas que se vestem com a bandeira nacional seguem no cabresto.

Falta mais de um mês para a eleição na Câmara. Até lá, imagine o que a máquina de Bolsonaro será capaz de fazer para fortalecer a candidatura de seu apadrinhado. Mas isso pode até ter um efeito contrário. Pelo bem da democracia, tão achincalhada por Bolsonaro e sua gang, seria saudável uma derrota de Arthur Lira. O parlamento é a essência do regime democrático. A Câmara não pode ser subserviente, um puxadinho do Planalto.