Blog do Celio Gomes

Em reação à fala asquerosa de Bolsonaro, Globo diz que presidente é mentiroso

Na noite desta sexta-feira 19, a apresentadora do Jornal Nacional Renata Vasconcellos leu uma nota de repúdio a declarações de Jair Bolsonaro sobre a jornalista Míriam Leitão. Motivo: em conversa com repórteres estrangeiros, o presidente disse que Míriam mente ao afirmar que foi torturada na ditadura. Uma fala asquerosa, à altura do vagabundo que ocupa o Palácio do Planalto.

O sofrimento pelo qual passou a jornalista é fato incontestável; está em documentos oficiais. Ela foi perseguida e presa, quando tinha 19 anos e estava grávida. Os vermes do regime do terror, no padrão consagrado dos porões, recorreram a métodos brutais contra uma jovem que esperava um filho. Esse é o regime idolatrado por garotões que se arreganham para o “mito” da “nova política”.

O leitor deste blog sabe que Jair Bolsonaro não me surpreende com sua anomalia de caráter. Como sempre digo neste espaço, o país está sob o comando de uma lata de lixo; um sujeito inculto, amante de milícia, que odeia a cultura, a arte, a educação e os direitos humanos. A nota da Globo é uma reação absolutamente necessária. Mentiroso é o Jair, lembra a emissora. Confira.

 

NOTA DA REDE GLOBO

O presidente Jair Bolsonaro recebeu nesta sexta-feira (19) um grupo de jornalistas estrangeiros para um café da manhã. Os jornalistas cobraram do presidente um comentário sobre o ato de intolerância de que foi vítima a jornalista Miriam Leitão, no fim de semana.

Miriam e o marido, Sérgio Abranches, participariam de uma feira literária em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Em redes sociais, foi organizado um movimento de ataques e insultos à jornalista, cuja postura de absoluta independência foi tratada como um posicionamento político de esquerda e de oposição ao governo Bolsonaro.

Em resposta aos correspondentes internacionais, o presidente Jair Bolsonaro disse que sempre foi a favor da liberdade de imprensa e que críticas devem ser aceitas numa democracia.

Mas, depois, afirmou que Miriam Leitão foi presa quando estava indo para a Guerrilha do Araguaia para tentar impor uma ditadura no Brasil e repetiu duas vezes que Miriam mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abuso em instalações militares durante a ditadura militar que governava o país então.

Essas afirmações do presidente causam profunda indignação e merecem absoluto repúdio. Em defesa da verdade histórica e da honra da jornalista Miriam Leitão, é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente.

Miriam Leitão nunca participou ou quis participar da luta armada. À época militante do PC do B, Miriam atuou em atividades de propaganda.

Ela foi presa e torturada, grávida, aos 19 anos, quando estava detida no 38º Batalhão de Infantaria em Vitória. No auge da ditadura de 64, em 1973, Miriam denunciou a tortura perante a 1ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio, enfrentando todos os riscos que isso representava na época.

Narrou seu sofrimento aos militares e ao juiz auditor e esse relato consta dos autos para quem quiser pesquisar.

A jornalista foi julgada e absolvida de todas as acusações formuladas contra ela pela ditadura. A absolvição se deu em todas as instâncias.

É importante ressaltar que Miriam Leitão, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, foi também alvo constante de ataques. Não questionaram, como agora, o sofrimento por que passou na ditadura, mas a ofenderam em sua honra pessoal e profissional em discursos do ex-presidente Lula em palanques, e até mesmo a bordo de avião de carreira, quando Miriam Leitão ouviu insultos e ofensas por parte de militantes petistas, que então a chamavam de neoliberal e direitista.

Esses insultos, no passado como agora, em sinais trocados, apenas demonstram a maior das virtudes de Miriam como profissional: a independência em relação a governos, sejam de esquerda ou de direita ou de qualquer tipo.

A Globo aplaude essa independência, pedra de toque do jornalismo profissional, e se solidariza com Miriam Leitão.

Perto de Jair Bolsonaro, Arthur Lira é estadista

Vejam se isso não é uma tremenda piada. Acabo de descobrir que os garotões e marmanjos da nova direita, esses que se encantaram pelos dotes do Jair, o lixo que preside o país, estão tristinhos porque o capitão se aliou ao deputado alagoano Arthur Lira. No discurso cretino desses alucinados – supostos “conservadores” – não é possível que o pai da “nova política” esteja negociando apoio com o parlamentar alagoano. Aí nem sei se é caso de burrice ou pura safadeza.

Provavelmente, as duas coisas ao mesmo tempo. Uma fonte anônima me envia um texto de uma dessas toupeiras bolsonaristas aqui da província. Na redação analfabeta – que lembra de longe a Língua Portuguesa –, o elemento diz que está incrédulo com a notícia da aliança Bolsonaro-Lira. Afirma ainda o idiota que espera por um pronunciamento do presidente sobre o assunto – e espera que tudo isso não passe de fake news. O que dizer sobre tamanha papagaiada? Difícil.

O seguidor da seita confessa que é uma grande decepção caso a notícia seja verdadeira. Mas é verdade, claro. Diz o adorador do vagabundo Bolsonaro que o acordo com Lira seria levar o governo para o que há de “mais atrasado” na política brasileira. Fala sério, demente! Atraso, retrocesso, reacionarismo e tudo o mais nessa linha é a essência da porcaria bolsonarista.

Não, Arthur Lira não vai tornar o governo um poço de atraso. Pelo menos esse pecado não pode cair na conta do deputado – e a razão é escandalosamente simples: a gang de Jair Bolsonaro é, sempre foi e sempre será o esgoto de um pensamento rasteiro, truculento, medieval. É impossível, portanto, qualquer acréscimo na taxa do retrocesso que hoje está no comando do país.   

Agora mesmo, o marginal que preside o país deu novos exemplos de sua mente doentia. Em solenidades públicas, exaltou o nepotismo em nome do maloqueiro Eduardo Bolsonaro, praticou homofobia e fez ameaças à produção do cinema brasileiro. De novo: pelo conjunto da obra, não será esta ou aquela aliança de ocasião que fará o governo cair no atraso – porque esse é seu DNA.

As forças que apoiam o desgoverno representam os piores métodos e as mais degradantes ideias na vida pública. Marco Feliciano, Major Olímpio, Onyx Lorenzoni, João Doria, Wilson Witzel... Esses são apenas alguns dos delinquentes ao lado do presidente racista e amigo de milicianos. Comparado a essa tropa, periga Arthur Lira reivindicar o título de um moderado esclarecido.

Volto aos “cidadãos de bem” alagoanos (e brasileiros em geral). A excrescência que vocês idolatram – pelas qualidades expostas nos parágrafos acima – não corre o risco de namorar o atraso. Ninguém pode virar aquilo que sempre foi, entendem? Fiquem tranquilos. Quem está à beira de perigosa armadilha é o filho do Benedito. Diante do jurássico Bozo, Arthur Lira é estadista.

Müller acerta na crítica ao CSA e erra ao pedir perdão após histeria de cartolas e torcida

O ex-jogador Müller, hoje comentarista de futebol, enfureceu a torcida do CSA, dirigentes do clube e, claro, nossos valorosos cronistas do esporte em Alagoas. O motivo da revolta foi uma opinião do cara sobre o desempenho do Azulão na derrota de um a zero para o Corinthians. Num programa da TV Gazeta de SP, ele mandou o seguinte: O que o CSA veio fazer na Série A? Um time desse, medíocre... Pelo amor de Deus, vai jogar o tempo todo lá atrás, dando chutão, dando cabeçada.

O tempo fechou, torcedores querem matar o comentarista, e os cartolas do CSA divulgaram nota para repudiar as palavras consideradas ofensivas. Tem até gente acusando Müller de incentivar intolerância e violência. Aí já é demais. Não vejo nada disso no diagnóstico apresentado pelo ex-atleta. Como tudo nesse mundo é “polêmica”, o caso virou notícia de alcance nacional.

Acossado diante da tremenda repercussão do episódio, o próprio Müller se rendeu à histeria dos azulinos em todas as esferas – das arquibancadas às redações da imprensa. É muito barulho por nada, vamos combinar. Nem preciso acrescentar que o tamanho da confusão é coisa típica do ambiente enlouquecido das redes sociais. O comentarista se retratou e pediu “perdão”.

Ele publicou um texto todo choroso, exagerado – na internet, claro –, no qual só faltou anunciar algum tipo de autoflagelação violenta. Agiu como se tivesse cometido um pecado mortal e, por isso, fosse merecedor de medonho castigo. Tão errado quanto o disparatado chilique da turma do CSA é o pedido de desculpas do profissional – que deve opinar com firmeza, sem medo da reação.

Luís Antônio Corrêa da Costa, o Müller, escreveu seu nome no futebol pelo que jogou no São Paulo, nas décadas de 80 e 90 do século passado. Conquistou títulos estaduais, brasileiros e foi campeão mundial de clubes. Com a camisa da Seleção Brasileira, esteve em três Copas do Mundo. Hoje, aos 53 anos de idade, parece ter deixado para trás os dias de pastor encapetado.

Dizer o que se pensa tem um preço. Não raras vezes a censura se dá pela truculência física. O que não falta por aí é mequetrefe disposto a tudo para calar a voz de quem incomoda, seja lá o tema que estiver em pauta. Contra isso há as garantias de liberdade de expressão e de imprensa. Cravar opinião contundente provoca respostas toscas e, aí sim, intolerantes e preconceituosas.

Você pode discordar do comentarista; pode reagir à vontade, desde que apresente argumentos para o que ele pensa sobre o CSA. Pode também bater duro se acha que ele está completamente errado em suas ideias. Agora, choramingar baboseiras e apelar a um teatrinho de indignação, em defesa da honra alagoense, menos! A única bola fora de Müller foi pedir desculpas.

Rio Largo: a terra de prefeitos cassados

É muita comédia! Como vocês sabem, a Câmara Municipal de Rio Largo cassou o mandato do prefeito Gilberto Gonçalves. Segundo a lei, assume o vice. E aí entra o componente de chanchada no enredo político. É que a nova titular no posto será Cristina Gonçalves, que até esta quarta-feira 17 era a vice-prefeita. Ocorre que ela é casada com o prefeito cassado. Assim, fica tudo na mesma.

O Brasil passou as últimas décadas inventando uma reforma político-eleitoral atrás da outra. A cada dois anos, o tema volta ao centro das atenções no Congresso – e a cada temporada temos um pacote de novidades para regular as eleições. Além dos políticos, apita sobre o assunto meio mundo de doutores especialistas na matéria. Sem falar nos togados dos tribunais superiores.

Quando aparece uma notícia como essa de agora, em Rio Largo, somos lembrados então que, apesar do cipoal de artigos, regras, emendas e outras marmotas jurídicas, a esculhambação segue intocada. E nem adianta que autoridades recorram a firulas para justificar tamanha aberração. Como aceitar que o país ainda permita uma chapa formada por marido e mulher numa eleição?

Sabe-se que o Brasil tem uma Justiça Eleitoral como não se vê em nenhum outro lugar do mundo. A estrutura para tocar a rotina desse monstrengo requer um orçamento bilionário. É gente pra todo lado, cargos de todos os tipos e uma burocracia paquidérmica. E qual o resultado disso tudo? Lisura? Racionalidade? Equilíbrio de forças? Que nada! Eleição aqui ainda é arranjo familiar.

Agora vamos falar um pouco sobre o caso concreto. Não fiz pesquisa nenhuma, mas tenho a impressão que, nos últimos vinte anos, Rio Largo deve ser o município com o maior número de prefeitos afastados do cargo, seja pela Câmara ou pela Justiça. É uma sina dos infernos para a população do lugar, já acostumada ao que se vê, outra vez, nos dias atuais. Mudam só os nomes.

Para mim, Gilberto Gonçalves surpreendeu ao vencer a disputa de 2016. Digo isso por se tratar de figura carimbada, com um histórico de peripécias nada republicanas. Quando exerceu o mandato de deputado estadual, ficou marcado por um telefonema que veio a público em 2007, na chamada Operação Taturana, da Polícia Federal: “Eu quero meu dinheiro” entrou para a história.

Ainda assim, a população rio-larguense entendeu ser ele o nome ideal para cuidar dos destinos da cidade – e das finanças municipais. Ou é muita confiança no homem ou ninguém está nem aí para o currículo dos candidatos. A decisão que tira o mandato de Gonçalves – ainda que culpado – está mais ligada a jogadas políticas do que ao zelo pela gestão pública. Ali ninguém se salva.   

Claro que os vereadores se basearam em supostos atos ilegais do prefeito. Pelo que leio na imprensa, ele teria armado um bocado de maneiras para aumentar seu patrimônio. Haveria fraudes em série e nomeações irregulares para cargos na prefeitura. Derrotado por 10 votos a 1, resta evidente que ele perdeu a base na vereança. Difícil é identificar mocinho nesse teatro do absurdo.

Cabo Bebeto & Moreno – a dupla da bala que está de olho na Prefeitura de Maceió

Em Alagoas, a “nova política” anunciada pela tropa do capitão Bolsonaro é literalmente um caso de polícia. Por aqui, o PSL, partido do Jair presidente, elegeu Cabo Bebeto para a gloriosa Assembleia Legislativa do Estado. O valente virou deputado com a bandeira do prendo e arrebento, do ataque a direitos humanos e da demonização de toda e qualquer minoria. Segue a cartilha do grande líder.

Além do militar Bebeto, o PSL em Alagoas é presidido por um agente da Polícia Federal, um certo Flávio Moreno. Ele disputou uma cadeira para o Senado em 2018, mas ficou muito longe do sucesso. Leio agora em nossa imprensa que a dupla parece andar se estranhando. O motivo da encrenca é a eleição para prefeito de Maceió. Os dois se acham candidatos perfeitos ao cargo.

Pelo que entendi, a direção nacional da legenda – sob as ordens de um notório cartola do futebol pernambucano – teve de agir para evitar o avanço de uma crise entre os fanáticos bolsonaristas. Por enquanto, Bebeto é tido como o virtual nome para disputar a cadeira de Rui Palmeira pelo PSL. Ou seja, saiu vitorioso aquele que já detém mandato. Moreno, ao que parece, teme o “fogo amigo”.

Consta que o rapaz da PF percebeu algum movimento para derrubá-lo da presidência do PSL alagoano. Para evitar o baque, correu aos dirigentes nacionais em busca de socorro. Um dos consultados foi Luciano Bivar, o tal cartola que é dono da sigla. (Bivar, até agora, se faz de morto diante do laranjal que seu partido armou nas eleições do ano passado). O clima continua pesado.

Essas duas “novidades” da política em nossa província se enquadram no modelo ideal que derreteu o coração da nova direita. Suas “melhores” credenciais podem ser resumidas na defesa do armamento geral e irrestrito e no ataque aos bandidos do marxismo cultural. Com esse tipo de ideia na cabeça, surfam na onda de obscurantismo que tomou o Brasil de assalto.

Naturalmente, Alagoas não inventou essa filosofia política. O Congresso Nacional que saiu das urnas em outubro do ano passado está abarrotado de capitães, coronéis, sargentos e outras patentes do mundo fardado. Há também os eleitos das polícias Civil e Federal, numa bancada cheia de agentes e delegados. A turma defende a ditadura militar e seus métodos de ação.

Se a coisa tá feia, com esses cidadãos de bem na vanguarda, pode ficar tranquilo: temos tudo pra viver tempos ainda piores. O governo Bolsonaro é um naufrágio desde a estreia – e afunda um pouco mais na lama um dia após o outro. Mas nós, aqui em Maceió, podemos ver uma revolução na gestão pública. Bebeto e Moreno não estão pra brincadeira. De tiroteio, eles entendem.

Gang da Lava Jato

Era um projeto de poder. E era também um grande negócio para encher a pança de dinheiro. Os procuradores da Lava Jato Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon eram praticamente sócios no ramo de palestras. Os dois fazem parte dessa turma curitibana que saiu do anonimato e da irrelevância para a fama repentina. Como mostram os novos diálogos da Vaza Jato, que a Folha divulgou neste domingo 14, os patriotas tramaram uma empresa que teria laranjas como diretores.

Aliás, os dois garotões dizem nos diálogos que as donas de fachada da empresa seriam suas esposas. Seria um jeito de escapar da norma legal que proíbe a procuradores o comando de negócios privados. Os dois também debatem formas de ganhar dinheiro, com rapidez e pagamentos de altos cachês. Dallagnol, como sempre, é o mais degenerado nas conversas.

Entre uma ilegalidade e outra nos casos da operação que ele coordenava sem coordenar – o Moro sempre foi o chefe –, o procurador investia seu tempo faturando com a condição de celebridade que o “combate à corrupção” lhe presenteara. Dallagnol vivia fazendo contas do quanto estava para receber por “aulas” e palestras. Está tudo na Folha e no The Intercept Brasil.

Num dos diálogos, o procurador indica ao então juiz Sergio Moro um potencial cliente para uma palestra – o que daria uma boa grana ao suposto magistrado. Moro agradece, diz que a agenda talvez o impeça, mas acabou sendo contratado para falar no evento sugerido por seu subordinado. O dado escandaloso é que o carnaval da Lava Jato virou o caminho do tesouro para esses rapazes.

Veja como as coisas combinam e vão tecendo um enredo inapelavelmente lógico: em março, bem antes da bomba lançada pelo Intercept, descobriu-se aquela história de uma fundação de caráter privado que estava sendo criada por Dallagnol e patota. Eles queriam comandar a entidade que teria um fundo de 2,5 bilhões de reais, fruto de uma multa paga pela Petrobras após acordo.

Faz cinco anos que essa gang comete crimes em série para forjar o espetáculo de “caça a corruptos”. (Claro, Fernando Henrique Cardoso não poderia ser “melindrado”). Rasgar a Constituição e o Código Penal é apenas um dos variados delitos já revelados. Os doutores dessas instituições na Lava Jato agiram durante todo esse tempo como predadores da ética e do Direito.

Os seguidores da seita Bolsonaro e os fanáticos que veem o juizinho como super-herói devem estar maquinando nova passeata para defender as ações dessas porcarias. É o que resta aos donos da moral alheia, que, sabe-se agora, estavam era de olho na política e no enriquecimento fácil. Após tantas revelações escabrosas, apoiar a gang do Moro é coisa de doido. Ou de pilantra.

A morte de Paulo Henrique Amorim, a vingança da Globo e o ódio entre jornalistas

Na guerra ideológica brasileira, ele é o pai de uma sigla. Paulo Henrique Amorim inventou o PIG – Partido da Imprensa Golpista. A expressão traduzia a postura do jornalista, depois que ele passou a integrar o time da Record TV, a partir de 2003. Ao contrário do que pode pensar algum desavisado, o “golpismo” denunciado por PH é anterior àquele apontado por setores da sociedade e que se materializaria no impeachment de Dilma Rousseff. O jornalista morreu no dia 10/07.

Depois que criou na internet a página Conversa Afiada, PH radicalizou o discurso, sempre com ataques aos grandes veículos da imprensa e a profissionais que trabalhavam nessas empresas. O alvo principal era a Rede Globo, onde Amorim atuou na década de 1990. Nos governos de Lula e Dilma, ele comprou briga com um incrível número de colegas de profissão. Na maioria das vezes, o tom de suas críticas descambava para ilações, à base de grosserias, por motivações pessoais.

Dia desses escrevi aqui sobre o afastamento de PH do Domingo Espetacular, que ele apresentou por 13 anos na Record. Fechada com Bolsonaro, a emissora do bispo Edir Macedo passou a ver no jornalista um problema, uma vez que ele batia sem dó no governo do capitão fã de tortura. Celebrado por gente da esquerda, para bolsonaristas PH era um abominável inimigo a ser abatido.

A chamada grande imprensa quase escondeu a morte de Paulo Henrique Amorim. Sim, saiu em todo canto, mas a verdade é que em alguns veículos o espaço foi praticamente zero. Os jornalões, sobretudo O Globo e Estadão, não foram além de um resumo básico da carreira do jornalista, sem aquela repercussão previsível para uma personalidade conhecida e tão influente.

Nos telejornais da TV Globo, a morte de PH não entrou na escalada – as manchetes das principais notícias que serão apresentadas no decorrer dos programas. Do Bom Dia Brasil ao Jornal da Globo, a informação saiu com o mesmo texto, com duração de inacreditáveis 22 ou 23 segundos. E uma curiosidade: a imagem de PH nem foi exibida no JN – o que no jargão da TV é “nota pelada”.

Não é o caso de comparar a relevância de personagens distintos a partir do trabalho que fizeram na imprensa. Apenas para ajudar nessa reflexão, você deve lembrar como foi a cobertura desses mesmos veículos ao noticiar as mortes de Ricardo Boechat e Clovis Rossi. Na Globo, os dois mereceram reportagens especiais, amplas, com depoimentos de amigos, parentes e autoridades.

Por que Paulo Henrique não teve o mesmo tratamento na mesma Globo? Insisto na emissora dos Marinho. A pobreza de informações ao dar a notícia pareceu um evidente gesto de desprezo pela trajetória do jornalista. Foi como se os 20 segundos do JN – sem imagem – traduzissem uma irrelevância do morto, na versão da TV carioca. Um troco ao inimigo, mesmo depois de sua morte.

E por que a Globo não resistiu à vingança, ainda que seu alvo já não existisse mais? Porque, no Conversa Afiada, e também em palestras e nos livros que escreveu nos últimos anos, PH achincalhava os donos da Globo com uma frequência obsessiva. Tratava os herdeiros de Roberto Marinho como verdadeiros gangsteres. Eram os cabeças do Partido da Imprensa Golpista.

Os donos dos jornais e revistas também não tinham motivos para apreciar o repórter. Com a mesma agressividade destinada aos Marinho, PH atirava nas demais famílias que dominam a imprensa nacional. Foi um caso realmente inusitado no jornalismo brasileiro – o de alguém que conseguiu ferir duramente os dois lados do balcão, cultivando o ódio de patrões e colegas.

Moro & Jair – entre o populismo e a barbárie

Em dois dias seguidos, Veja e Folha publicaram mais uma leva de diálogos que não deixam dúvida sobre as ilegalidades praticadas por Sergio Moro quando juiz da Lava Jato. As conversas entre ele e procuradores do MPF são a prova material de que o suposto magistrado participou de um grave conluio. Era mesmo uma cavalaria indomável na messiânica empreitada por um projeto de poder.

No último domingo o enrolado ministro da Justiça se submeteu, mais uma vez, ao ridículo espetáculo do mais previsível populismo – aquele que pula nos braços da horda na expectativa de emparedar instituições no grito. No caso de Moro, o homem pretende intimidar principalmente o STF, que vai decidir se o ex-juiz foi ou não muito além de suas atribuições na Lava Jato. E foi.

Esqueci de citar que me referia ao jogo Brasil e Peru, pela decisão da Copa América, no Maracanã, quando falei do previsível populismo de Moro e Jair Bolsonaro. Os dois descem a ladeira do Brasil embalados, digamos assim, nessa metodologia ampla de governo. Falam para os seus. Trocam figurinhas com os mais depravados da seita. É, desculpem pelo clichê, pregação a convertidos.

E será cada vez mais desse jeito. Bolsonaristas, em todas as suas vertentes e perversões, darão apoio cego ao Jair e ao ex-juiz que fraudava o estado de direito, sendo um agente duplo no andamento de operações e investigações. Ele atuava como parceiro do Ministério Público Federal, o que é uma postura abominável. O acusado não tinha chance. O juiz era um justiceiro à solta.

Pelo que entendi do noticiário, sem paciência para ir a detalhes em textos insossos, os jogadores da Seleção Brasileira aprovaram a politicagem de Bolsonaro com a taça da Copa América. Foi, é claro, mais uma papagaiada oportunista do presidente – dentro daquela lógica de falar aos fanáticos da causa. E isso inclui jogadores de futebol, como não? A química nesse caso é natural.

A grande incerteza é até que ponto a dupla Jair-Moro vai esticar a corda do apoio das ruas, cada vez mais restrito ao fanatismo boçal e babaca. Pretendem impor ao Supremo a covardia de se fechar os olhos para a antologia de atos ilegais cometidos pelo magistrado que era uma farsa. Não por acaso, nos protestos a favor do governo voltou com tudo o clamor por uma intervenção militar.

Depois de tudo o que já foi revelado nas reportagens sobre Moro e procuradores do MPF no Telegram, simplesmente não é aceitável a impunidade para esses senhores. Agiram como criminosos, e na democracia, como eles tanto defenderam, criminoso tem de pagar por seus crimes. Se escaparem ilesos desse pântano, será a inauguração da barbárie como nunca se viu.

Chefe do Ministério Público de Alagoas repudia “qualquer tipo de jogo político”

O procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, envia ao blog texto de esclarecimento sobre meu post anterior. Diz que exerce suas funções no cargo “de forma ética e responsável”. O chefe do Ministério Público Estadual enfatiza que faz um trabalho “completamente voltado para a defesa da sociedade”. Por fim, ele nega qualquer ligação com partidos e reafirma que no MPE “não há espaço para qualquer tipo de jogo político”. Leia a mensagem completa de Alfredo Mendonça.

Caro Célio Gomes: 

Estou afastado do exercício da Procuradoria-Geral de Justiça porque estou em férias desde 1º de julho. Essa medida administrativa está na página 151 do Diário Oficial do Estado – local onde são divulgadas todas as medidas administrativas de ordem pessoal –, na edição do dia 10 de junho. Portanto, tal afastamento foi, sim, tornado público.

E, embora em férias, continuo sendo presidente do Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNOC), função que possui uma agenda nacional que sigo cumprindo. Uma das pautas dessa agenda é a realização, em Maceió, de um evento da Escola do GNOC para promotores e procuradores no fim deste mês, com a presença de palestrantes do Ministério Público de diversos estados.

Portanto, é necessário destacar que estou focado nas atividades que a função de Procurador-Geral de Justiça exige, exercendo meu segundo mandato neste cargo de forma ética e responsável. Não tenho filiação partidária, nem defendo qualquer partido. Meu trabalho está completamente voltado para a defesa da sociedade.

Repito: meu foco é o Ministério Público e o combate à corrupção. Estamos fiscalizando o uso dos recursos públicos e a prestação dos serviços públicos à sociedade. As ações são amplas e em todo o estado de Alagoas, na capital e no interior. E não há espaço para qualquer tipo de jogo político. 

Como de costume, estou à disposição para esclarecimentos à imprensa, tanto através da assessoria do Ministério Público do Estado, como pelo meu próprio celular. Assim podemos evitar ilações de qualquer natureza e conseguiremos divulgar a informação de modo mais condizente com a realidade dos fatos.

Alfredo Gaspar de Mendonça Neto

O jogo duplo no Ministério Público de Alagoas

O Ministério Público de Alagoas está com um comando interino. Márcio Roberto Tenório de Albuquerque assumiu o lugar do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, que saiu em licença. Em busca de notícia sobre a novidade, fui ao site da instituição. Estranhamente, por lá não há nada sobre a licença do Doutor Alfredo. Para quem vive a cobrar transparência de todo mundo, parece contraditório que o cidadão não seja informado sobre a mudança no órgão.

Como o MPE não conta para nós os motivos da licença do procurador-geral, fui ao velho Google para ver se havia saído alguma notícia da qual eu não tivesse tido conhecimento. Cheguei ao blog do jornalista Edivaldo Júnior na Gazetaweb. Segundo ele, Mendonça foi a Brasília tratar de negociações políticas, de olho na eleição do ano que vem para prefeito de Maceió.

O comandante licenciado está costurando sua filiação partidária. Digamos que ele está num momento de prospecção, em busca do partido que melhor traduza os nobres valores da vida pública. O problema é essa perigosa mistura do trabalho no MP com demandas partidárias de seus integrantes. Hoje em dia, não espanta que assim seja. As coisas estão de cabeça pra baixo.

Alfredo Gaspar de Mendonça quer ser prefeito da capital alagoana. É uma fixação existencial. Seu discurso ao eleitorado, não é segredo pra ninguém, reproduz essa temática única que embala a mesma seita que elegeu Jair Bolsonaro. Numa campanha, o homem vai aparecer como o xerifão que prende e arrebenta. É a salvação do maceioense para combater os bandidos e a corrupção.

O chefe do MP é fã de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, a dupla que trata os códigos legais e a Constituição como entraves para a missão divina da qual se sentem os escolhidos para cumprir na Terra. É tudo gente cansada dessa velha política e que decidiu inaugurar um novo tempo entre nós. A encrenca, reitero, é tocar esse jogo duplo – atuar no MP e negociar candidatura.

Fato é que as eleições ocorrem daqui a um ano e três meses. Se for candidato, Mendonça deve sair do cargo somente já no ano da disputa, seguindo o que determina a Justiça Eleitoral. Até lá, não me parece saudável que tenhamos como procurador-geral alguém que, no cargo, toque duas agendas simultâneas – a do interesse público e a de seus interesses particulares. Aí é conflito.

Na posição que ocupa, Mendonça tem o poder de investigar agentes do mundo da política. Não é incomum que ele apareça falando desse ou daquele político investigados pelo MP, posando de paladino da moralidade, na cola de prefeituras, por exemplo. Tenho a impressão que, na condição de virtual candidato, essa postura fica seriamente prejudicada. Ou ele é político ou é fiscal da lei.

Pra fechar, volto ao site do MP. Até o momento em que escrevo, a principal notícia ali mostra uma foto do procurador-geral no exercício do cargo, Márcio Roberto, ao lado do promotor Flávio Costa. Os dois trajam uma camiseta com dizeres que exaltam, olhem só, o “combate à corrupção”. A mensagem é pura maquinação de marqueteiro eleitoral. A política pauta a agenda dos doutores.

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