Blog do Celio Gomes

Daniel Silveira é o esgoto do bolsonarismo e a cara da “nova política”

  • 18/02/2021 11:49
  • Blog do Celio Gomes

O deputado Daniel Silveira, preso por decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes, pode reivindicar para sua biografia o título de síntese da “nova política”. Ele representa o que a família Bolsonaro prometeu entregar ao Brasil, depois de destruir a “velha política”. Eleito pelo Rio de Janeiro para a Câmara Federal, Daniel Silveira combina vasta ignorância e reacionarismo doentio. Todas as mazelas do bolsonarismo se reúnem na cabecinha oca do marombado que é modelo da “nova direita”. Sim, esse meliante tem uma legião de admiradores no meio político, inclusive entre alagoanos.

A prisão desse idiota está em debate. No meio jurídico as opiniões se dividem quanto à legalidade do ato do ministro Alexandre de Moraes – ratificado no dia seguinte pelo pleno do Supremo. A decisão unânime põe a Câmara em sinuca de bico. Diz a Constituição que cabe ao parlamento a última palavra sobre a detenção de um de seus integrantes. Por isso, a medida do STF será votada no plenário da Casa em voto aberto. E a Câmara não parece disposta a contrariar a instância máxima da Justiça.

Mas como eu ia dizendo, o cara é o modelo da nova política. Insisto nesse ponto porque não é algo irrelevante. Dois anos depois das eleições de 2018, a legião de milagreiros da “renovação” está muito, mas muito pra lá da desmoralização. A família Bolsonaro, meu Deus, vai de associação a milícias aos esquemas de desvio de dinheiro público. Marcelo Crivella. Wilson Witzel. Flávio Bolsonaro. Faz sentido. Da nova política à nova bandidagem.

Quis o destino que a crise caísse no colo de um alagoano. Como presidente da Câmara, Arthur Lira sabe o tamanho da encrenca. Seus movimentos serão anotados. Vamos combinar que, pelo histórico de processos, ele se move em terreno delicado. Fala-se em autonomia e independência dos poderes. Como resolver o impasse?

Existe um dado do qual os deputados não podem esquecer: o personagem central, o tal Silveira, é um rato. Só tem muque provavelmente à base de anabolizante. É um Zé Mané ignorado pela maioria dos parlamentares. Ninguém zela muito pela companhia do sujeito, visto como pouco saudável para o convívio em civilização.

Na defesa de uma tranqueira dessas, ninguém consegue argumentar coisa alguma que não seja facilmente refutado. Silveira é o esgoto do bolsonarismo. Por isso mesmo, está no coração de rapazes que se apresentam como cristãos, conservadores e defensores da família brasileira. São viúvas da ditadura militar e do AI-5.

O vídeo que resultou na prisão do elemento não deixa margem de dúvida. Crime é o que não falta nas palavras do amiguinho de jovens da política alagoana... Juristas se dividem quanto à caracterização do flagrante. É debate para atravessar gerações. Fato é que o STF, ao confirmar a medida por unanimidade, dá robustez à sua tese.

Daniel Silveira é aquele que quebrou a placa de Marielle Franco (foto). A celebração da morte e o desprezo pela vida do outro alimentam almas penadas. Ali está o símbolo da “nova política”. O bolsonarismo rebaixou a vida pública às camadas profundas da lamaceira. A decisão do STF é controversa, mas me parece legal e legítima.

Para terminar, é uma tremenda ironia que os poderes tenham de resolver uma crise gravíssima provocada por uma nulidade em todos os sentidos. No julgamento do STF, Luiz Fux pergunta aos colegas: “É Daniel o quê?”. O parlamento brasileiro tem de se livrar desse verme o mais rápido possível. Não há solução fora desse caminho. 

A Gang da Lava Jato, Lula e Renan Calheiros

  • 12/02/2021 13:55
  • Blog do Celio Gomes

Não restam mais dúvidas, e não é de hoje, quanto ao caráter criminoso dos procuradores que atuaram na Operação Lava Jato. A partir de junho 2019, com o tsunami das conversas no Telegram, a Vaza Jato enterrou a lenda dos heróis que vieram ao mundo para acabar com a corrupção no Brasil. Não, não era nada disso – como aliás escrevo aqui desde que comecei este blog em 2017. Era um projeto de poder, como ficaria escancarado a partir de 2018. Naquele ano, Moro virou cabo eleitoral de Jair Bolsonaro e, fechadas as urnas, tornou-se ministro do delinquente que ajudou a eleger. A Gang de Curitiba nunca teve limites.

Nas últimas semanas, o país tem visto uma nova leva de gravações com conversas entre procuradores da República. Todo o conteúdo é material apreendido na Operação Spoofing, na investigação dos hackers que invadiram os telefones das autoridades e obtiveram essa bomba atômica. Nesta sexta-feira, ficamos sabendo da existência da procuradora Carolina Rezende, que nos dá uma aula de como esses investigadores pensavam em tudo, menos na lei.

A gravação com a procuradora é de março de 2016, um dia após o ex-presidente Lula (foto) ter sido levado coercitivamente para depor à Polícia Federal. Naquele cenário, diante dos fatos gravíssimos – o que exige cuidado e seriedade ao extremo –, Carolina Rezende mostra toda a baixeza que parece ter sido o norte depravado da Lava Jato. Ela deixa evidente o que está em jogo naquele espetáculo de sirenes e buzinas.

Diz a procuradora sobre os objetivos da Lava Jato: “Pessoal, fiquei pensando que precisamos definir melhor o escopo pra nós dos acordos que estão em negociação. Depois de ontem, precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1)”. Com essa pegada, o trabalho de Sergio Moro, o juizinho marginal de Maringá, foi uma moleza. As muitas horas de gravação liberadas evidenciam que “magistrado” e procuradores agiram em conluio.

É por isso que o STF ainda terá de declarar a suspeição desse vagabundo e anular o julgamento sobre o tríplex de Guarujá. O que impediu que isso ocorresse até agora foram as pressões de variadas origens – do Exército sempre golpista aos donos da Globo. O “combate à corrupção” dos rapazes e mocinhas do MPF se resumia a acertar a cabeça do Lula. Que vergonha! E ainda ganharam dinheiro com essa piada de heróis da ética e da honestidade.

No mesmo pacote das conversas dessa procuradora Carol Rezende aparece o senador Renan Calheiros (MDB). As informações foram reveladas pela jornalista Mônica Bergamo, na Folha. E o que se lê confirma igualmente as denúncias que o parlamentar vem fazendo contra a Lava Jato há um bom tempo. Ele também é vítima, sim, dessa quadrilha que destruiu o devido processo legal. As revelações fortalecem o senador em sua guerra particular.

Fala a doutora Carolina: “Pra nós da PGR, acho que o segundo alvo mais relevante seria Renan”. E completa o raciocínio assim: “Aqueles outros (Lula e Renan) temas pra nós hoje são essenciais pra vencermos as batalhas já abertas”. É com esse nível que autoridades do MPF investigam denúncias de crimes? Como se vê, se decide, na largada, quem será “atingido na cabeça” e quem é “essencial” para os fins que interessam. Danem-se os fatos.

Um procurador da turma marginal de Curitiba disse que o Telegram era o “botequim” da Lava jato.  Admite, portanto, a veracidade do conteúdo – o que Moro e Deltan Dallagnol dizem “não reconhecer”. Mas, acrescentam, se verdadeiras as mensagens, nada mostram de errado. São dois pilantras mesmo. Não merecem respeito nenhum. Não importa que ainda tenham alguma popularidade. O preço para isso foi a desmoralização.

Conselhos Regional e Federal de Medicina viram aparelhos do bolsonarismo

  • 08/02/2021 12:57
  • Blog do Celio Gomes

O Conselho Federal de Medicina é um antro de bolsonaristas fanaticamente dedicados à causa. Toda a diretoria da entidade votou em Jair Bolsonaro e atua hoje em dia como se fosse um departamento do Planalto. Com a pandemia de Covid-19, a postura do CFM chamou atenção da imprensa diante das barbaridades cometidas pelo presidente e seu desgoverno. Nenhuma palavra de censura ou repúdio ao delinquente Jair Bolsonaro. Nem poderia. Quem manda no colegiado que deveria, em tese, defender a saúde dos brasileiros atua na contramão da ciência, em defesa do obscurantismo.

E no Conselho Federal de Medicina tem um alagoano muito conhecido por aqui. É o médico Emmanuel Fortes, que foi candidato a vice-prefeito de Maceió em 2020, na chapa com Davi Davino Filho (foto). Dois anos antes, em 2018, ele tentou uma cadeira de deputado federal. Perdeu nas duas ocasiões. Fortes é personagem de uma reportagem no The Intercept Brasil que mostra a militância desses conselheiros. Ele é filiado ao PSL, lixo da extrema-direita “renovada”.

Na reportagem, o site reproduz postagem de Emmanuel Fortes no Facebook. Depois de participar de uma reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o médico alagoano escreveu: “Presentes a Ministra Damares e o Secretário Raphael Câmara onde foi explicitada nova estratégia do MS [Ministério da Saúde] para a abordagem e tratamento precoce do Covid-19. Olha aí a fixação da turma: “tratamento precoce” – que não existe.

Empolgado com as recomendações alinhadas com o governo de seu líder Bolsonaro, Fortes acrescenta: “Na ocasião o CFM/AMB [Associação Brasileira de Medicina] saudaram a nova política reiterando a autonomia do médico para prescrever os medicamentos disponíveis no momento, naturalmente com a concordância formal do paciente. A abordagem precoce pode evitar o agravamento da doença preservando muitas vidas”. Vigarice.

Se o Conselho Federal está todo dominado pelos dogmas da seita bolsonarista, por aqui a coisa não parece muito diferente. Desde o começo da crise sanitária, o nosso Conselho Regional de Medicina de Alagoas foi de uma nulidade assombrosa. Nunca vi nada parecido que eu lembre agora. Silêncio total, omissão deplorável. A única manifestação pública do presidente Fernando Pedrosa foi para tumultuar o trabalho de quem está no batente.

Pedrosa levantou suspeitas sobre os dados da pandemia apresentados pela Secretaria estadual de Saúde. Foi em abril do ano passado. Na época critiquei aqui as palavras irresponsáveis deste senhor. Numa entrevista à Gazeta, ele simplesmente fazia divagações sobre coisas sérias, inventando “denúncias” a partir do nada. O trololó não passava de tentativa de chantagem. Ou de vingança. O vírus da politicagem é infernal.

Uma coisa tem a ver com a outra – as presepadas federais e estaduais. CFM e CRM não se parecem apenas nas siglas e letrinhas. Ligados a um pensamento reacionário, engajados em suas aventuras partidárias, embalados no delírio ideológico, médicos estraçalham a razão a golpes de bisturi e aderem ao negacionismo. É o mesmo que desprezar a vida e celebrar a morte – exatamente como tantas vezes já fez o vagabundo que preside o Brasil.

Que país e que tempos! É ou não é? Alguém sabe como anda o projeto de um vereador de Maceió para tornar a vacinação não obrigatória? Espero que já tenha sido levado ao destino ideal, que é a lata do lixo naturalmente. É por essas e outras que muita gente se pergunta: “Onde foi que erramos?”. A vacina está aí. Muito mais lentamente no Brasil do que precisamos. Tendo até conselhos de medicina como inimigos, vamo se ligar!

Projeto sobre as polícias é ameaça ao Brasil

  • 04/02/2021 18:47
  • Blog do Celio Gomes

Com a eleição de Jair Bolsonaro, a polícia sitiou de vez o território da política. O que sempre existiu, com um peso irrelevante e uma roupagem de tons meramente folclóricos, ganhou, nos tempos recentes, dimensões bem mais preocupantes. Civis e militares, de todos os postos e patentes, bateram todos os recordes na obtenção de mandatos – no Legislativo e no Executivo. Você sabe que basta uma olhada na lista de eleitos em 2018 e 2020 para se constatar o arrastão de sargentos, capitães, tenentes, coronéis... Além, claro, de delegados das polícias Civil e Federal. A turma da bala cresceu e não está de brincadeira. Este ano promete.

Em todos os estados, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais têm hoje mais deputados e vereadores de origem policial como nunca antes na história deste país. Mais ou menos de repente, parece que cada região no Brasil tem sua cota de Cabo Bebeto – não sei se fui claro como deveria. Ou tem a cota de Fábio Costa. Com esse padrão político e intelectual, há um movimento pra tornar as polícias Militar e Civil entidades fora de controle, livres de prestar satisfação a qualquer esfera da República.

É o que haverá na prática caso prosperem no Congresso Nacional dois projetos que mudam tudo na gestão principalmente da PM. Resumindo, a Polícia Militar deixaria de ser subordinada aos governos estaduais e teria autonomia plena. Nem o governo federal, em tese, teria poderes sobre a corporação. Mas Bolsonaro está do lado do projeto. Ele quer transformar as polícias em braço armado e pronto para, se necessário, garantir um golpe.  

Pelo projeto, o comandante-geral da PM não seria mais uma escolha livre do governador. Este teria de escolher um nome a partir de lista tríplice votada entre oficiais. Essa invencionice combina com a louvação permanente de Bolsonaro acerca dessas categorias. O patético presidente não perde uma cerimônia de formação em escolas militares. Tudo calculado desde o princípio do desgoverno. “Golpe militar com Bolsonaro presidente”, lembram?

O slogan vagabundo esteve nas manifestações dos patos amarelos, inclusive nas passeatas em Maceió. E claro que na cabeça oca da tropa – o padrão é esse aí, lamento – Bolsonaro é visto como um Deus, um exemplo. Ou seja, um mito. E em seu nome esses milicos estariam dispostos a matar e morrer. A matar, no caso.

O Congresso tem de barrar essa excrescência. Além do objetivo exclusivamente autoritário, nada no projeto contribui para melhorar a segurança pública. Como se vê, é também uma iniciativa que eleva ao imensurável um corporativismo que é, e sempre foi, uma deformação jamais enfrentada. Essa jogada é um aceno para a barbárie.

Não exagero. Ao lado das tropas policiais, Bolsonaro sonha com uma milícia particular, formada por cidadãos de bem que estão se armando loucamente. Esse é o interesse da família Bolsonaro em passar a boiada sobre as regras de posse de arma de fogo – coisa que também depende do Congresso. O presidente conta com o Centrão.

É trágico para a jovem e frágil democracia brasileira ter de encarar essas ameaças totalitárias de quem foi eleito pelo voto popular. E os malandros que vivem nessa toada dizem falar em defesa da liberdade. Como diria Leonel Brizola, “é tudo filhote da ditadura”. Hoje, digamos, são os netos da ditadura. Essa gentalha tem de ser contida. 

Eleição no Congresso deixa Bolsonaro refém do Centrão

  • 02/02/2021 15:47
  • Blog do Celio Gomes

O Centrão agora comanda o parlamento brasileiro. Mais ou menos por aí. A eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados representa o triunfo do bloco cuja notoriedade não decorre de práticas republicanas. Ao contrário. Segundo ideia consagrada na crônica da nossa política, o Centrão é sinônimo de fisiologismo, clientelismo e jogadas que, com alguma frequência preocupante, estão em desacordo com as leis. A coisa não é nova. Todos os governos lidaram com algo semelhante ao longo das últimas décadas. Mas afinal o que muda a partir de agora com o ambiente político no Brasil da pandemia?

Primeiro é obrigatório registrar a patética postura da turma da “nova política”. Os rapazolas que vibram com o estilo de Jair Bolsonaro, que babam por uma pistola e idolatram torturadores, fingem que nada demais aconteceu. Fingem que Bolsonaro e Centrão estão apenas “construindo pontes” em nome da governabilidade e das reformas estruturais. Até ontem, Bolsonaro e sua turma tratavam o Centrão como um bando de ladrões. 

A prova? Vejam na internet o general Augusto Heleno nas convenções partidárias em 2018. Disse o veterano golpista, cantarolando ao fim de sua fala: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”. O trocadilho, desculpem os detalhes, é com o verso de Reunião de Bacana, gravada pela primeira vez em 1981 pelo grupo Exporta Samba. No original, a palavra “ladrão” substitui o “centrão” da paródia feita pelo velhinho troglodita.

Bolsonaro não dizia coisas mais bonitas sobre esses colegas de Congresso durante tanto tempo. Era um “bando de picaretas” que trocava apoio por cargos e verbas. Era a “velha política” que o capitão acabaria de uma vez por todas. Quem não lembra daquela famosa frase de comédia que dizia assim: “Acabou a mamata”! O mito de fato conquistou a turma que estava ávida por um governo baseado na meritocracia e no combate à corrupção. Sacou?

Nem sei o que é mais repulsivo: se o bolsonarista orgulhoso, assumidamente adepto de grupo de extermínio, ou se o inocente que se diz arrependido. Bolsonaro não enganou ninguém, apenas mobilizou terraplanistas de toda ordem. Há ainda os que fingem normalidade, mesmo com o cavalo de pau no discurso do chefe da gang.

O presidente espera domar o Congresso, também com a simpatia de Rodrigo Pacheco na direção da Casa – embora este seja mais discreto que Arthur Lira. Como já escrevi aqui, Bolsonaro conta com o parlamento para tocar seu único projeto de governo: se manter no mandato e pavimentar a reeleição em 2022. Operação de troca.

Do lado do Centrão, o preço é alto. A gestão técnica de Bolsonaro arreganhou os cofres. Entre emendas e cargos, a conta ultrapassa meio bilhão de reais, segundo reportagem do Estadão. Além da proteção ao presidente criminoso, a tabelinha garante também a votação de projetos da chamada pauta de costumes. Tudo isso na teoria.

Na prática, ninguém garante o que virá amanhã. Desconfio que coisa boa, isso nem adianta esperar. O capitão acha que comprou a salvação, mas pode acontecer o contrário. Podemos estar diante de um clássico abraço da morte. A partir de hoje, o inquilino do Planalto é refém de um grupo implacável. Nas finanças e na ideologia.  

A foto lá em cima é emblemática. Mostra o deputado Eduardo Bolsonaro passando o celular pra Arthur Lira. Era a ligação do pai do Zero Três parabenizando o alagoano após a vitória. É uma imagem pra guardar. Quem diria! Os reis da “renovação política” batem continência para os papas do toma lá dá cá e de esquemas nebulosos.

Vitória de Arthur Lira na Câmara muda o jogo em Alagoas

  • 02/02/2021 01:11
  • Blog do Celio Gomes

Pode-se falar em massacre. O deputado federal Arthur Lira (Progressistas) obteve 302 votos contra 145 do adversário Baleia Rossi (MDB) e é o novo presidente da Câmara. Com o dobro da votação, Lira mostrou que foi competente na costura de alianças, desde o ano passado, quando formalizou a candidatura. E, no balaio de apoiadores de todas as correntes, Jair Bolsonaro foi o cabo eleitoral mais engajado. Atormentado pela assombração de um impeachment, com uma Câmara parceira, o presidente espera uma blindagem incondicional a eventuais pedidos de abertura de processo.

O resultado da eleição apresenta ao Brasil mais um alagoano que chega ao topo da República. Antes dele, o único nome dessas bandas a presidir a Câmara, eleito em 2005, no meio de uma crise daquela época, foi Aldo Rebelo. Mas este fez carreira em São Paulo, sem participação direta na política alagoana. Thomaz Nonô (DEM) foi presidente interino, durante poucos dias, também em 2005. A vitória de Lira, portanto, é feito inédito.

O triunfo do filho de Benedito de Lira provoca agitação e deslocamentos em âmbito nacional, como se sabe. Mas há também as consequências no xadrez do poder em Alagoas. Desde o senador Renan Calheiros (MDB) – nos holofotes há três décadas –, nenhum outro parlamentar estadual havia chegado tão longe. O novo presidente da Câmara entra definitivamente para o grupo dos caciques, aquele com poderes bem acima do chão da fábrica.

“Chão da fábrica” foi a expressão usada por Arthur Lira em discurso após a vitória, ao se referir ao plenário da Câmara. Era a repetição da promessa de que, em sua gestão, vai prevalecer o “nós sobre o eu”. A fala é uma crítica aos supostos métodos centralizadores de seu antecessor, Rodrigo Maia (DEM). E é, em outras palavras, o compromisso de que, a partir de agora, o baixo clero será prestigiado como nunca foi. É algo a se conferir.

De volta a Alagoas, na eleição municipal do ano passado, Lira já deu mostras de sua força. Foi ele o principal patrocinador da candidatura a prefeito do deputado Davi Davino Filho (Progressistas). O candidato foi a grande surpresa na disputa pela prefeitura de Maceió, fechando o primeiro turno em terceiro lugar, mas em empate técnico com os dois primeiros colocados. A força de Lira na campanha se traduziu em verbas e alianças.

Também na batalha eleitoral do ano passado, o partido de Arthur Lira deu um salto no número de prefeituras que comanda no estado. Em 2016, eram 11 municípios administrados pela legenda. Com as urnas de 2020, a sigla está à frente agora de 29 cidades e perde apenas para o MDB. É base partidária de respeito para qualquer aposta.

E qual seria a aposta de Lira em relação a Alagoas, agora com os poderes que tem? É a conclusão mais óbvia, mas precisa ser registrada assim, claramente: ele acaba de se tornar nome de peso para 2022, virtual candidato a governador, na sucessão de Renan Filho (MDB). A eleição federal em Brasília mudou o jogo na arena alagoense.

(A foto lá no alto mostra o alagoano na estreia na cadeira de presidente da Câmara. Assim que assumiu, ele já deu uma pista sobre o que pode vir por aí. Numa canetada, anulou decisão de Rodrigo Maia sobre a formação de blocos partidários para a eleição que acabara de ser encerrada. Chegou atirando. Jair Bolsonaro aplaudiu).

Candidato de Bolsonaro, Arthur Lira está quase lá

  • 29/01/2021 16:42
  • Blog do Celio Gomes

Nas páginas da grande imprensa, o alagoano Arthur Lira (foto), do Progressistas, lidera todos os levantamentos na eleição para presidente da Câmara dos Deputados. No Placar Estadão, por exemplo, ele teria hoje 226 votos contra 130 de Baleia Rossi, do MDB de São Paulo. A encrenca é que 123 parlamentares não declaram o voto – o que torna toda previsão uma aposta no escuro. Para levar no primeiro turno, o candidato precisa obter ao menos 257 votos. Se ninguém alcançar o número mágico, haverá segundo turno. Além de Lira e Baleia, outros sete deputados estão na disputa. 

Mas ninguém vê qualquer chance para ninguém fora os dois principais concorrentes. Para unificar a causa e o discurso, digamos assim, os partidos declaram posição sobre as candidaturas. Mas não é incomum que parte dos filiados rejeite a decisão da cúpula e vote contra a própria legenda. É que o voto é secreto. A traição partidária é uma das marcas registradas da eleição no Legislativo. De todo modo, o alagoano é apontado como favorito.

E esse favoritismo foi até vitaminado pelas ratadas no grupo adversário. Baleia Rossi é o candidato escolhido pelo atual presidente da Casa, Rodrigo Maia. Ocorre que o cacique enfrenta problemas em sua própria legenda, o Democratas. As coisas não combinam direito entre Maia e o baiano ACM Neto, o outro mandachuva no DEM. Nos últimos dias, a turma ficou mais tempo brigando entre os seus – o que expõe a perigosa crise na candidatura.

Do outro lado, mais governista do que nunca, Arthur Lira conta com o rolo compressor da máquina federal. Candidato de Bolsonaro, o parlamentar será um aliado vital do presidente no comando do parlamento. Lembrando o óbvio: para Bolsonaro, Lira é a garantia de blindagem a qualquer ação por impeachment. E preservar o mandato, como a gente tá cansado de saber, é o único projeto deste governo. É o que tá acertado.

Para dar apoio ao alagoano, a turma bolsonarista, espalhada por diferentes partidos, exige a contrapartida em outra moeda. Trata-se da “pauta de costumes”. Caso eleito, Lira deverá agir para passar a boiada de projetos na contramão dos direitos humanos e outras sandices. A ridícula ideia do “Escola sem Partido” voltaria com tudo.

Outro projeto da turma é liberar geral a posse e o porte de armas. Querem tornar a coisa ainda mais depravada do que já é. Pistola e revólver pra todo mundo. Fortunas para as grandes fabricantes de armamento. Lira prometeu que, sob sua presidência, a Mesa vai pautar tudo isso daí. Com essa plataforma, está confiante na vitória. 

Nesta sexta-feira, Bolsonaro deu mais um claro sinal de como está interferindo na eleição do Congresso. Ele cogitou recriar os ministérios da Pesca, o da Cultura e o do Esporte. As três pastas passaram a ser secretarias no atual governo, mas, diante das demandas políticas, tudo muda. São moedas de troca no negócio com Lira.

A eleição para presidente da Câmara ocorre na próxima segunda-feira, primeiro de fevereiro. Tá em cima. Lira é mesmo favorito, mas não pode vacilar. No Senado, parece que a parada está definitivamente resolvida. Vai ganhar o senador mineiro Rodrigo Pacheco (DEM). Também é o candidato de Bolsonaro. Rapaz, que tempos!

Alagoas é vítima de fake news de Bolsonaro: a incrível mentira sobre um repasse bilionário

  • 26/01/2021 15:45
  • Blog do Celio Gomes

Em seu território livre para todo tipo de barbaridade, Bolsonaro soltou o verbo nas redes sociais pra exaltar sua própria gestão. E, dessa vez, ao listar os grandes feitos de seu governo, ele deu um jeito de encaixar Alagoas em uma narrativa de autopromoção. Disse, com a maior naturalidade, que somente no último ano, os cofres federais inundaram nosso estado com repasses que somam mais de 18 bilhões de reais. Bolsonaro ainda detalhou quais seriam em tese os destinos de todo esse volume de recursos. O problema, sendo quem é o presidente, é que estamos diante de uma farsa.

Mais uma vez Jair Messias mente de maneira descarada. É um tremendo pilantra, que não dá um passo, não faz um anúncio, não diz um “bom dia” sem que não esteja assentado em falsidades escandalosas. Como vocês sabem, Bolsonaro é símbolo internacional de fraude e fake news. O elemento já teve até publicações marcadas pelo Twitter como não confiáveis. Como diria Ernesto Araújo, o governo se orgulha de ser pária mundial.

Sobre os 18 bilhões, o presidente foi imediatamente desmentido pelo secretário estadual de Fazenda, George Santoro. De forma didática, Santoro revela que o que Jair Messias trata como repasses extraordinários, algo decidido pelo governo federal, são transferências obrigatórias: verbas do Bolsa Família, FPM, FPE e SUS. Esses programas são anteriores a Bolsonaro. É estupidamente óbvio escrever isso, mas diante das mentiras oficiais...

Vejam a cara de pau: para inventar que faz o que não faz por Alagoas, Bolsonaro frauda até a origem do FPM. Como diz o nome, Fundo de Participação dos Municípios vai para os cofres das cidades, das prefeituras. Não poderia ser creditado na conta do Estado, como faz Bolsonaro, o pior mitômano que a política brasileira já pariu.

É com esse discurso – falacioso e criminoso – que devotos do tacanho Jair atacam instituições e adversários ideológicos. Aqui por Alagoas, entre os seguidores mais perturbados do bolsonarismo estão Davi Maia, Cabo Bebeto, Thomaz Nonô, Fábio Costa e outros mais ou menos engajados, às claras ou ainda no armário.

Toda aliança com Bolsonaro é de ocasião. Desde sempre foi assim. Desesperado à procura da reeleição, claro que o que já era péssimo ficou pessimamente piorado. Ou seja, o meliante nunca teve limites para suas delinquências em três décadas de baixo clero. No comando do país, e disposto a tudo para ficar por lá, danou-se.

O governo de Alagoas tem mantido com a Presidência da República relação que se pode chamar de equilibrada. É o que tem de ser. Diante do desastre que está aí, governadores devem agir com a máxima formalidade. O erro mortal seria embarcar na aventura do miliciano que desonra o cargo desde o primeiro dia no Palácio do Planalto. 

Até o momento em que escrevo, não vi reação do governo federal ao desmentido do secretário Santoro. Vejam bem: um secretário estadual mostra que o presidente mentiu. Nas redes sociais, os doentinhos do pedaço, claro, bajulam o ídolo e atacam o governo alagoano. Mas aí estamos no reino da vigarice. Nem adianta perder tempo.

Fato concreto e definitivo: não, o governo Bolsonaro não repassou 18 bilhões pra Alagoas. O governo federal não “injetou” essa verba extra por aqui – como o ridículo presidente insinua em sua manifestação. Se pudesse, na verdade, ele cortaria repasses a políticas sociais. Como se sabe, “social”, para o bolsonarista, é tiro na cabecinha.

Millane Hora, o namorado senador e a Timbalada

  • 23/01/2021 12:17
  • Blog do Celio Gomes

Millane Fabrícia da Hora Figueiredo Fortes (Arapiraca, 22 de maio de 1985) é uma cantora e compositora brasileira. O que você acaba de ler foi copiado e colado por mim direto da Wikipédia, a autointitulada enciclopédia livre – que todos nós consultamos na internet em busca de socorro imediato para a ignorância sobre o mundo. A alagoana começou a trajetória nos palcos da música ainda criança, lá pelos 13 anos. Muito tempo depois, ela foi bater no The Voice Brasil, da Globo, e numa traumática passagem pela mitológica Timbalada (foto). Agora, vive novo trauma, de outra ordem.

A cantora acaba de postar um vídeo com um desabafo. Ela informa ter desistido do cargo de assessora especial na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Maceió. A nomeação da jovem artista, que também é advogada, provocou duras reações nas redes sociais. É que ela é namorada do senador tucano Rodrigo Cunha, com forte influência sobre o prefeito JHC. Ela teria sido nomeada apenas por esse requisito emocional.

Não podemos, a rigor, fazer tal acusação. O problema nesses casos, e na política especialmente, é a percepção dos fatos. Não adianta o senador fingir que nada tem a ver com a advogada e cantora – e querer que a plateia acredite nessa ética escorregadia, digamos assim. Não. Fica a impressão de coisa meio fora de lugar. A assessora-relâmpago então, diante desse oceano de desconfiança, recusou o convite já materializado em Diário Oficial.

Assim como no episódio da Timbalada, agora Millane tomou um rumo que não era sua escolha livre e voluntária. Na banda de Salvador, o estranhamento foi imediato; a química não rolou, e aí ela ficou apenas sete meses como a principal vocalista do grupo formado e guiado até hoje pelo monstro Carlinhos Brown. Os fãs (e os fanáticos) rejeitaram aquela moça “diferenciada” e exigiram uma escolha com a “cara” da Bahia e dos baianos.

Quando foi forçada a deixar a Timbalada, a cantora publicou texto, tornando pública sua versão. Apesar de não atacar ninguém e exaltar até os orixás, há uma e outra farpa para o ídolo que a decepcionou, o Carlinhos Brown. Hoje, ela recorre a um vídeo de mais de quatro minutos para se explicar sobre a encrenca com o cargo municipal.

O leitor pode conferir o relato de Millane aqui no CM. Ela fala com firmeza, mas o tom é calculado para mostrar que está tudo bem. Nenhuma menção a seu namorado, aquele senador. Ela também tenta emplacar algo como indignação diante da reação contra seu emprego que lhe renderia salário de 11 mil reais. Ela tem personalidade.

A quase assessora da prefeitura revela ainda que trabalha há tempos com pessoas vulneráveis. No cargo, poderia fazer muito mais, como dizem os slogans. Ela afirma ser independente e exalta um de seus traços dos quais se orgulha: encara desafios com “a cara e a coragem”. Ok, ok, mas a sombra do apadrinhamento é pesada.

Por isso, se é difícil acreditar em coincidências e meritocracia nesta nomeação, reconheça-se o gesto de Millane Hora ao desistir do posto. Ela não queria sair, é verdade, mas sabe que não valeria a pena esse fardo – a imagem de quem ganhou emprego via namorado. Mesmo contrariada, tomou a única decisão decente que poderia tomar.

O impeachment de Bolsonaro e as Forças Armadas

  • 23/01/2021 08:56
  • Blog do Celio Gomes

Jair Bolsonaro acusou o golpe e sabe que seu mandato está a perigo. Por isso, dia desses, ele juntou na mesma frase as palavras democracia, ditadura e Forças Armadas. Na imprensa nacional, em editoriais e nas mais diversas vozes de colunistas, só se fala do impedimento para o presidente desqualificado que vai destruindo o Brasil. Defende-se largamente a abertura de processo de impeachment pra dar fim à crise permanente incendiada pela delinquência do miliciano que desonra a Presidência. Crime de responsabilidade é o que não falta. O mais grave de todos: o atentado contra a saúde pública.

São dezenas de pedidos na gaveta de Rodrigo Maia. Na reta final de seu mandato no comando da Câmara, é improvável que ele tome a iniciativa de pautar o assunto. Daí que todo mundo especula sobre o comportamento do futuro presidente da Casa diante do tema. Como se sabe, o alagoano Arthur Lira disputa o cargo com o apoio explícito de Bolsonaro. Seu principal adversário, Baleia Rossi, também não é entusiasta da ideia.

Em dois anos de completo desgoverno, há retrocesso brutal em todas as áreas. Da economia ao meio ambiente, na educação e na saúde, a miséria de resultados é incontestável. As “vitórias” que os devotos da seita celebram são as armas e o desmonte de políticas sociais. Os celerados que seguem cegamente o vagabundo Bolsonaro continuam em guerra contra o globalismo, o comunismo e a ideologia de gênero. É caso para a psiquiatria.

Mas não só isso. Há um dado objetivo que foi se tornando cada vez mais explícito no discurso, na postura e nas ações de Bolsonaro e seu gado: os “liberais conservadores” abominam essa história de combate às desigualdades sociais. A ironia é que o maior representante dessa visão, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é um fracasso estrondoso. De superministro a tosco serviçal de um tiranete, Guedes parecia que jamais rastejaria a esse ponto.

Não que a expectativa fosse lá grande coisa. Mas ele dizia que o jogo seria de seu jeito – ou pegaria o boné e iria embora. Mas não. Viu-se que o cara faz qualquer bagaceira para se manter no posto. Nada do que prometeu chegou nem perto de se concretizar. A pauta liberal – privatizações e reformas estruturais à frente – é pura ficção.

Mas tudo isso, a essa altura, já nem está em debate. Ou melhor, está em debate, mas deixou de ser decisivo para o que é necessário. E o mais urgente, a cada dia, é o país se livrar do criminoso que atazana a vida dos brasileiros. Claro que ele pode seguir adiante e chegar a 2022 pronto para brigar pela reeleição. Está Jogando tudo pra isso.

Nessa hipótese, perfeitamente possível, o país estará em transe. E o resultado da eleição – lembrando Trump nos Estados Unidos –  detonará abalo inédito. Não foi isso o que Bolsonaro já anunciou? Com todas as letras disse que ou tem voto impresso ou será ainda mais grave do que a confusão americana. É uma ameaça de “autogolpe.

Daí porque o desprezível negacionista recorrer à retórica criminosa ao arrastar as Forças Armadas para seu projeto golpista. Com a gestão sitiada por militares – em funções para as quais são incompetentes –, o capitão da tortura aposta nessa base. Há meios formais para frear esse rastaquera, tremendo pária aos olhos do mundo.

Secretariado de JHC tem apadrinhado de Luciano Huck e dois novos “Gabinetes Integrados”

  • 05/01/2021 11:49
  • Blog do Celio Gomes

Finalmente saiu. Passava das 18 horas desta segunda, quatro de janeiro, quando o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PSB), apresentou o secretariado. Aqui no CM o leitor confere a relação com todos os nomes. Mas a identidade dos escolhidos chegou à imprensa antes do anúncio oficial. E, se eu não errei nas contas e na comparação, o vazamento acertou quase tudo. Dos 21 cargos, 16 titulares estão nas duas listas – na anônima e na confirmada pelo prefeito. Sem dúvida, as informações vieram a público antes da hora por obra e interesse de gente do núcleo duro de JHC.

É sinal de guerra no time antes mesmo de começar o trabalho. Os nomes que não bateram foram estes: Mac Lira, Judson Cabral, Alícia Pita, Moacir Teófilo e Marcelo Maia Lima. O caso mais chamativo aí é o do ex-deputado Judson Cabral, ex-petista que se juntou a Lessa no PDT. O nome dele era dado como certo, mas acabou vetado pelo agora vice de JHC. O desencontro confirma a permanente crise pedetista em Alagoas. 

Além disso, a lista que vazou trazia dois nomes, para duas secretarias novas. Uma delas deveria tratar do caso Pinheiro-Braskem; a outra seria para o enfrentamento da Covid-19 na capital. A pasta sobre o Pinheiro estaria reservada para o delegado federal André Costa, que acabou sendo indicado para a SMTT. A de combate à pandemia seria chefiada por Claydson Moura. Na manhã desta terça, pintou novidade sobre essa iniciativa.

A informação sobre a criação das novas secretarias já era de conhecimento público. A pasta para o Pinheiro foi inclusive promessa de campanha do candidato JHC. Mas parece que alguém esqueceu como é que se faz esse tipo de coisa. De fato, cabe ao Poder Executivo a criação de postos e empresas públicas. Mas o caminho único para isso é um projeto de lei a ser levado à Câmara Municipal. Como está esse projeto tão anunciado?

A novidade é que não serão mais secretarias e sim Gabinetes Integrados da Prefeitura, como diz a publicação da assessoria. Ainda é obscuro o que essas invenções vão render de concreto à cidade. Tem todo jeito de improviso para acomodar aliados na máquina. É aconselhável que o prefeito mostre a cara e explique seu secretariado. 

Além do vacilo de levar quatro dias de gestão pra anunciar os secretários – algo provavelmente inédito na história da República –, o prefeito está devendo informações detalhadas. Reparem que agilidade e transparência foram bandeiras de campanha. As duas qualidades, porém, passam longe no começo do mandato e da jornada.

Um dos secretários nomeados é Carlos Jorge, apresentado como “empreendedor social”. Na verdade, ele dirige uma ONG com atuação na orla lagunar de Maceió. Seu negócio deu um grande salto após ser apadrinhado por Luciano Huck. O novo secretário já participou do programa do apresentador da Globo, o Caldeirão, num campeonato para ganhar o prêmio em dinheiro. Esse rapaz vai acumular a ONG e a secretaria? 

Como na tradição globalista, o anúncio do secretariado por JHC foi feito no Instagram, com esta mensagem: O nosso time está escalado! Montamos uma equipe técnica, competente e muito dedicada para contribuir com a mudança que faremos em Maceió. Agora, vamos ao trabalho!. Isso é campanha. A ver como será na vida real.

JHC dá a largada com amadorismo e “vazamento de secretariado”

  • 04/01/2021 16:14
  • Blog do Celio Gomes
Assessoria
JHC

A imagem da foto não combina com os primeiros dias e primeiros lances da gestão JHC. Até o momento em que escrevo este texto, no começo da tarde desta segunda-feira, o novo prefeito de Maceió ainda não anunciou o secretariado. Deve ser caso único no Brasil. A nova gestão começou em primeiro de janeiro sem que João Henrique Caldas cumpra o básico na hora da largada: apresentar a equipe e tocar o trabalho. Como assim? O que houve? Tem alguma confusão, alguma dificuldade? Alguém precisa acordar o prefeito. A “mudança de verdade” começa com jeitão de amadorismo.

Por isso que a foto aí no alto não combina com a realidade. A imagem produzida pela assessoria parece tentar mostrar um gestor “focado”, não é isso? Juventude. Rapaz antenado com o mundo 5G. Sobriedade e decisões rápidas. Na vida real, no quarto dia de sua administração, JHC se complica logo na montagem do time. E olhe que na campanha ele garantiu que não haveria pressões para formar o secretariado. Foi tudo o contrário.

Dois aspectos foram determinantes para a demora de JHC em fechar os nomes. O primeiro é previsível e tem de ser encarado pelo comandante: a cobrança dos aliados. É legítimo que assim seja, diz um dos mandamentos tacitamente aceito como lei em todas as esferas da gestão pública. Cabe ao prefeito (qualquer prefeito) dialogar, ouvir e decidir, com firmeza e transparência. É o que deveria ser feito por JHC. Mas ele se atrapalhou.

É o segundo aspecto que explica a letargia para um simples anúncio de uma equipe de trabalho. No entorno do homem já tem gente achando que ele demonstra “insegurança” nesses primeiros momentos. Não é para menos. A desenvoltura do prefeito nas redes sociais não chegou à sua atuação como parlamentar. JHC terá de mostrar que não foi apenas um falastrão arrumadinho de campanha eleitoral. E assume no meio da crise nacional.

Uma das confusões na montagem do secretariado foi com o PDT, o partido de Ronaldo Lessa, o vice de JHC. (Essa tabelinha tem tudo pra fazer barulho, mas este é outro assunto). Na montagem da aliança com o PSB de JHC, os pedetistas levam duas secretarias. Foi o que o então candidato fechou com seu parceiro de vice. Lessa, disparadamente a maior liderança do PDT alagoano, foi contestado na legenda por sua conduta nesse processo.

Falei de amadorismo. É uma crítica leve, digamos assim. Não há como ser diferente. Até porque o novo prefeito acaba de chegar. A lambança com o anúncio de algo tão prosaico – é só a formação da equipe – não autoriza pancadaria sobre a qualidade do gestor JHC. Dá, sim, uma pista um tanto preocupante sobre sua capacidade de liderança. Mas a ação amadora se completou com o vazamento de nomes que devem ser nomeados.

A lista saiu no começo do dia. Até o meio da tarde desta segunda ninguém da turma do prefeito havia confirmado ou negado a informação. E tem um dado quase de comédia. Eu já vi ocasiões em que dois ou três nomes de uma equipe bem maior são vazados para a imprensa. É a primeira vez que vejo o vazamento de uma equipe inteira, com nome, sobrenome e o cargo a ser ocupado. Isso é quase “vazamento profissional”, com assessoria e tudo.   

Na lista vazada, que o leitor pode conferir em reportagem do CADAMINUTO, há nomes conhecidos e previsíveis. Há também gente de quem nunca ouvi falar. E existe até uma pasta especial para tratar de Covid-19. Outra, criada exclusivamente para gerir o caso Pinheiro-Braskem, já havia sido anunciada por JHC. Porque o secretariado ainda não é oficial, não comento os nomes agora. Vamos esperar a decisão do hesitante prefeito.

As lives e a publicidade. Caetano e Fernanda Montenegro

  • 29/12/2020 10:34
  • Blog do Celio Gomes

E aí está você, estamos nós, em algum momento do dia ou da noite, diante da obrigação de escrever sobre mais um ano que vai terminando. Meu Deus, é a pauta de meio mundo – ou seria de todo mundo? É hora de fazer o tal balanço de 12 meses. O pior são as crônicas, um perigo mortal – pensando no conceito clássico de crônica. A pandemia de Covid-19 faz de 2020 caso único na trajetória da humanidade. É o que dizem por aí, com base nos dados de uma tragédia que, apenas no Brasil, matou até agora mais de 190 mil pessoas. O Ano da Morte poderia ser o título da crônica – naqueles tempos remotos em que havia cronistas, galos e quintais.

O Ano das Lives também. Não vi quase nenhuma, confesso. Acho melancólico que Caetano Veloso tome conta do noticiário com suas apresentações nessa maratona das lives. Nada contra esse monstro da música brasileira. Mas ele toma conta do noticiário faz cinco décadas... Fora isso, associar o cantor e compositor a uma ideia de rebeldia soa teatralmente fraudulento. Ele foi, aliás, desde o começo, o rebelde que dava piscadelas ao status quo.

(Status quo é homenagem aos tempos de Sociologia nos bancos da Ufal, a caminho do Jornalismo). Voltando ao poeta de Santo Amaro, com ele o nepotismo ganhou uma nova representação nos shows bancados pela Globo e pela empresa do publicitário Nizan Guanaes. Os filhos de Caetano (foto), que ninguém conhece, tocaram ao lado do pai, dividindo um palco reservado aos grandes. Mas os garotos não conquistaram aquilo. Foi herança.

Assombrado, leio que um comercial de Fernanda Montenegro causou comoção em milhões. Dizem que ela declama um “lindo texto” sobre a esperança. O acontecimento explodiu nas redes sociais. Até em O Globo, a jornalista Ruth de Aquino exalta o anúncio publicitário e diz que, sim, ela também foi às lágrimas. Nessas horas, você tem direito de achar que não temos salvação. E, pra completar, a peça com a atriz rende “muita polêmica”.

É que a mensagem de Fernanda Montenegro é uma publicidade do banco Itaú – que não exibe a marca durante o comercial. Por isso que o povo entendeu como um vídeo espontâneo da atriz. Aí é demais. Vi o anúncio no dia da estreia, sem saber nada a respeito. Mas entendi na hora que era uma publicidade “disfarçada”, e que logo saberia qual produto estava na moita. Sem surpresa, era um banco. Tem gente se sentindo “enganada”.

Mas a tragédia nessa história é o oba-oba com o texto que a atriz decorou para ganhar um trocado. É uma coleção de frases açucaradas, na medida para reiterar (e reificar) uma não ideia. E é logo sobre “esperança”. A celebração retardada desse substantivo é, vamos dizer assim, um equívoco de origem em nossa formação. Exaltamos algo como se fosse mágico; como se “ter esperança” fosse o passaporte para a realização do sonho.

Eu falei que milhões se sentem enganados? O caso foi bater entre os mais comentados nas redes sociais também por isso. Primeiro, a vertigem com a maravilha “poética” do comercial que o povo pensou que era arte. Depois, a palavra “decepção” bateu recorde nas manifestações – isso após a revelação de que o autor do texto é um redator da agência África, e não a encantadora Fernanda. “Ah, então era tudo por dinheiro?!” Sim, era só isso.

Consequência automática da pandemia, as lives mudaram para sempre o negócio dos shows. É o que dizem estudiosos, críticos e artistas. A saturação é o lado mais complicado de qualquer novidade avassaladora. Como escapar da mesmice que sucede inapelavelmente a invenção? Sobre isso, muitas páginas ainda serão escritas.    

Como você percebe, acabou que o texto tomou outro rumo, sem balanço nenhum de 2020. É muita coisa para dar conta. Nem falei da política, do governo Bolsonaro, da sucessão americana, de Sergio Moro, do Carlinhos Maia...

Não quero saber da sua vida

  • 28/12/2020 01:08
  • Blog do Celio Gomes

Não é que eu não goste de fofocar sobre a vida sexual dos outros. Dou-me a esse vício, mas só em companhia de íntimos, e jamais falaria da minha vida sexual ou da de meus íntimos a estranhos. Não é moralismo. É discrição. Reconheço, mais uma vez, que estou fora de moda. A moda é que perfeitos estranhos (ou estranhas), depois de alguns minutos de papo, passem a contar o que passa nos seus leitos conjugais ou não. A época é de todo mundo contar a vida em público. Essas palavras, que destaquei em itálico, refletem, em alguma medida, os dias atuais? Sem falso moralismo, parece que sim.

Quando a gente pensa nas centenas de subcelebridades que todos os dias contam suas aventuras sexuais, a tendência talvez seja mesmo concordar com a opinião expressa no parágrafo anterior. Eu acho bem exagerado, meio fora de propósito, que o famoso acidental e até artistas de grande sucesso se esforcem tanto para exibir suas intimidades em praça pública. Depois, quando passam algum vexame, exigem “respeito à privacidade”!

Nem vou lembrar que no império das redes sociais essa compulsão moeu os limites. DJs, cantores, cantoras, atrizes e atores, gente de algum talento e, claro, a multidão de falsas celebridades não dão trégua na maratona de revelações sexuais. Uma das obsessões é falar do apetite múltiplo e diverso na hora do sexo. Ficou com dois ao mesmo tempo. Entrou na orgia com garotas e rapazes. Já experimentou assim ou assado... E por aí vai.

Quanto mais exótica é a experiência, e quanto mais escandaloso é o detalhamento do que se passou na gandaia, melhor para a “imprensa especializada”. E melhor também, pensam os protagonistas, para suas carreiras como artistas. Mas as editorias que cuidam exclusivamente do “mundo dos famosos” tratam apenas da vida pessoal, e não do trabalho desses afamados. E assim o círculo vai sendo alimentado de maneira praticamente doentia.

Comecei a escrever este texto depois de um passeio pelo noticiário, vendo os principais veículos de informação do país e os destaques nos sites alagoanos. Em todos, sem exceção, é chocante o quanto esses assuntos, a vida privada, o mais íntimo e pessoal estão nas manchetes. Quem corneou quem. Quem não é de nada na hora H. Qual a posição preferida... Tem de tudo entre as melhores piores chamadas para as “reportagens” a respeito.

Clique no endereço de qualquer site de notícia e você será bombardeado com os títulos mais estúpidos da paróquia. Para ilustrar as chamadas que “quebram a internet”, é um festival de caras, bocas e bundas. E boa parte das fotos pode ser tranquilamente confundida com anúncios de garotas e garotos de programa. Claro que a oferta desse tipo de “notícia” responde a uma demanda sempre em alta. Nem adianta brigar com isso.

Não quero aqui defender a caretice, entende? Longe de mim também qualquer tipo de censura – nem aos falastrões da cama e muito menos à imprensa. Nunca e jamais. Ataco a miséria intelectual (e existencial) nesse tipo de interesse. E acho um tédio o massacrante conjunto de “notícias” sobre esse subcampo antropológico. Nos casos mais insanos, personagens cruzam a linha da vulgaridade com um orgulho constrangedor.

O tema é pré-histórico. É ou não é a força das paixões, dos amores e do sexo o que move o mundo? Mas essa é outra história. Termino com um esclarecimento sobre as linhas em itálico que abrem o texto. Na verdade, foram aquelas palavras que me levaram a escrever. É um trecho de uma coluna de Paulo Francis, publicada na Folha em 1978, com o título que também sequestrei. Está no livro Diário da Corte (2012) e, reparem, não envelheceu nada.

Com Arthur Lira presidente, Câmara seria um puxadinho do Planalto, subserviente a Bolsonaro

  • 27/12/2020 13:48
  • Blog do Celio Gomes

Informa o jornalista Lauro Jardim, em O Globo: Os articuladores políticos de Jair Bolsonaro trabalham com um mapa de 500 cargos federais a serem preenchidos em troca de votos para Arthur Lira, o candidato do governo à presidência da Câmara. O próprio Lira trabalha para dar forma a esse mapa. Sua eleição é a prioridade números um, dois e três do Palácio do Planalto. É por isso que Lira tem chances reais de vitória na eleição marcada para fevereiro. Montado na máquina governista, o alagoano está confiante que leva a parada. Será o homem de Bolsonaro no parlamento brasileiro.

Mas o deputado sabe que não será fácil de jeito maneira. Rodrigo Maia (DEM), que passará o cargo para o sucessor, conseguiu fechar um bloco de peso no apoio ao deputado Baleia Rossi, do MDB de São Paulo. Do modo que as coisas seguiram, ficou claro que na eleição está em jogo a influência de Bolsonaro sobre a Câmara. Ele quer dar as ordens. A temporada de Rodrigo Maia no comando da Casa nunca foi de vida boa para o capitão do Planalto.

É por isso que o discurso de Baleia Rossi é exatamente o de uma Câmara independente – o que não haverá com Lira presidente. O parlamentar do Progressistas, um dos exemplares membros do notório Centrão, terá de entregar a Bolsonaro o que ele quiser. Não fosse assim, o Jair não estaria nesse nível de engajamento. Como já escrevi aqui, o presidente negacionista teme um processo de impeachment – que só anda se a Câmara autorizar.

Na mesa da presidência da Câmara há dezenas de pedidos de impeachment para Bolsonaro. Basta que o comando do parlamento leve um dos casos à pauta. Esse é um poder – exclusivo e descomunal – de quem estiver na presidência da Câmara. A única coisa que interessa a Bolsonaro é proteger seu mandato e blindar sua turma de milicianos, incluindo os três filhos delinquentes. O governo se resumiu a isso – biombo de marginais.

Para obter o apoio dos colegas alagoanos, Lira joga com a ideia de que, uma vez lá no topo, Alagoas será beneficiada. Seus apoiadores por aqui também repetem essa lorota. O prefeito eleito de Maceió, JHC, é uma dessas vozes delirantes. Delírio, sim, porque essa história só engana os que gostam de ser enganados. Não existe relação direta entre uma coisa e outra. Tal discurso, aliás, depõe contra o postulante que pede voto na eleição.

A conversa de que um alagoano em postos de comando significa facilidade para o estado obter recursos e projetos é piada. Uma piada velha, aliás. Lembro que em quase toda eleição para governador, a ladainha se repete: algum candidato vai se apresentar como aliado do presidente de plantão. “Teremos as portas abertas em Brasília”, disseram diferentes candidatos em eleições estaduais. É uma mentira descarada, um insulto.

Bolsonaro casadinho com o Centrão e com Arthur Lira é um presente para a seita, para o Gado, como ficaram conhecidos os patetas de verde e amarelo. Em Alagoas, os rapazes que se apaixonaram pelo jeitão truculento do Jair não sabem o que dizer sobre a “nova política” do ídolo. Todos estão fazendo os maiores malabarismos retóricos para explicar o inexplicável. Os patriotas que se vestem com a bandeira nacional seguem no cabresto.

Falta mais de um mês para a eleição na Câmara. Até lá, imagine o que a máquina de Bolsonaro será capaz de fazer para fortalecer a candidatura de seu apadrinhado. Mas isso pode até ter um efeito contrário. Pelo bem da democracia, tão achincalhada por Bolsonaro e sua gang, seria saudável uma derrota de Arthur Lira. O parlamento é a essência do regime democrático. A Câmara não pode ser subserviente, um puxadinho do Planalto.

Música alagoana no cemitério, a revolta dos “artistas” e a campanha contra o governador

  • 26/12/2020 11:08
  • Blog do Celio Gomes

O governador Renan Filho enfrenta um levante de um grupo de artistas de Alagoas. É o que informa reportagem publicada aqui no CM. Pelo novo decreto estadual, nos próximos 15 dias estão proibidos shows de música ao vivo em bares e restaurantes. Desde a publicação das novas diretrizes, na última quarta-feira 23, o pessoal que trabalha na noite caiu em campo para protestar. Além do veto a apresentações musicais, os estabelecimentos não podem ficar abertos após a meia-noite. A medida do governo decorre do aumento do número de casos de Covid-19. Um quadro mais preocupante.

Mas o pessoal da cantoria e dos instrumentos não aceita o argumento. Houve protesto de rua contra as novas restrições na noite da quarta. E nesta sexta-feira os revoltosos tornaram a se manifestar, agora na praia de Ponta Verde. A categoria alega não ser responsável pelo recrudescimento da pandemia em Alagoas. Na verdade, a chamada segunda onda já ocorre no Brasil e em outras partes do mundo. Isolamento e máscara são essenciais.

O movimento dos trabalhadores da música, digamos assim, tem apoio do pessoal do turismo, dos hotéis e da balada na capital. É compreensível. De fato, a quebradeira desse setor é algo dramático – e ocorreu em todos os estados. Em capitais como Rio e São Paulo, restaurantes tradicionais, com décadas de atividade, cerraram as portas para sempre. Sim, a economia entrou em parafuso. E qualquer previsão não passa de chute e torcida.

De novo aquele velho falso dilema: a escolha entre o mercado e a vida. Sob o governo de um delinquente chamado Jair Bolsonaro, tudo ficou ainda mais grave com as bravatas, as mentiras e as canalhices que o ocupante do Planalto expeliu sobre a pandemia. Para ele só interessa a economia. Todo mundo vai morrer um dia, porra! Diante do recorde de vítimas, ele vocifera: “E daí, quer que eu faça o quê? Eu não sou coveiro”.

Mas eu tenho de falar sobre a campanha dos músicos e artistas na internet contra o governador. Eles decidiram partir com tudo na arena que é hoje o espaço ideal das guerras e guerrilhas: as redes sociais, claro. A foto que ilustra este texto é a reprodução de uma postagem no Instagram. Segundo apurei é apenas um exemplo de vários perfis que estão mobilizados pela causa. A ordem é produzir uma série de peças como esta da foto.

O epitáfio: #LUTO pela música alagoana. É o que se lê na arte reproduzida nas redes, como o leitor confere na mesma foto que reproduzo aqui. Curioso: pela imagem, nossa música já está no cemitério, sepultada com uma viola e uma sanfona. A lápide ainda ostenta a bandeira de Alagoas, que é para não haver dúvida quanto à identidade da falecida. Uma empresa foi contratada para bolar as peças de ataque ao governo e em defesa da anulação do decreto. A ofensiva tende a crescer. É o que sinalizam os líderes da mobilização.

Além do Instagram e Facebook, os organizadores do movimento também criaram um grupo no WhatsApp – o que é quase uma obrigação para qualquer finalidade hoje em dia. Os revoltosos trocam informações e também vídeos e fotos. A ideia é constranger o governador com a exibição de eventos nos quais ele descumpriria regras de isolamento. Um dos vídeos mostra Renan Filho num churrasco, aglomerado, sem máscara.

Eu vi esse vídeo. Não dá pra saber se é atual ou antigo. Portanto, não se pode acusar o governador a partir daquelas imagens. Até o momento em que escrevo, não há notícia de que o governo cogite voltar atrás. É um drama, mas de uma coisa não se pode esquecer: é a saúde das pessoas o que de fato interessa. Não adianta liberar o palco e a cantoria se o preço é ter uma plateia de cadáveres. Uma viola pode ser trocada. Uma vida, não.

Crivella, Witzel e Bolsonaro: a corrupção não tem ideologia

  • 23/12/2020 01:11
  • Blog do Celio Gomes

Wilson Witzel e Marcelo Crivella são dois cidadãos de bem. A dupla representa o que a gente poderia chamar de elite do bolsonarismo e da “direita esclarecida”. É o melhor da política no conceito dos nossos cristãos conservadores. No caso de Witzel, sua filosofia do “tiro na cabecinha” encanta os rapazes que idolatram Bolsonaro. É tudo a mesma coisa, tudo a mesma escória, tudo fã de milícia e de grupo de extermínio. Witzel, esse monumento da honestidade anunciada pela “nova política”, foi afastado do cargo de governador do Rio, acusado de corrupção. O herói não passava de bandido.

Marcelo Crivella, o prefeito da capital carioca, foi preso nesta terça-feira, também acusado de comandar um esquema de propina. A medida foi convertida em prisão domiciliar pelo presidente do STJ, Humberto Martins. Bispo da Igreja Universal, Crivella é um dos arautos da moralidade alheia, assim como Bolsonaro e sua quadrilha. De 2018 pra cá, desde a eleição do desqualificado capitão, exemplares da “renovação política” foram desmoralizados. 

Destaque no time dos enrolados em graves denúncias é o senador Flávio Bolsonaro. A ladroagem patrocinada pelo filho do presidente foi escancarada na investigação. Ele não tem explicação pra nenhum dos seus negócios. A maracutaia da “rachadinha” é apenas uma das frentes de enriquecimento suspeito do rapaz. A ameaça de uma prisão contra Flávio assombra Bolsonaro, dia sim, dia também. Por isso, aliás, o sujeito baixou o tom com o STF.

No ministério, casos de desvio de recursos estão por todos os lados. Um dos mais graves se dá na área da Comunicação, como a Folha demonstrou numa série de reportagens. Não faltam os episódios em que a desonestidade decorre de um impulso patético, digamos assim. É o caso do astronauta que vandaliza o Ministério da Ciência e Tecnologia. Marcos Pontes gasta nosso dinheiro com aventuras amorosas de outra galáxia.

Voltando a Witzel, ele era juiz federal até partir para a missão de “moralizar” a política. Fez alguma fama paroquial, vestido na lenda de implacável com a corrupção e todo tipo de malfeito. Exatamente como Sergio Moro, o pulha que fez do exercício da magistratura o atalho para conquistar poder e ficar milionário. São dois corruptos, cada um no seu estilo particular. A diferença é que Moro ainda está blindado na grande imprensa e no “mercado”.

Outro exemplo de como o governo Bolsonaro age de maneira ilibada está na relação do presidente com as milícias digitais. Trata-se de verdadeira organização criminosa, com servidores pagos para fabricar fake news. Há ainda a turma de Allan dos Santos, aquele delinquente do Terça Livre. Essa gang conquistou seguidores pregando o combate à corrupção. É uma velha estratégia que voltou com tudo a partir de 2014 com a operação Lava Jato.

A Lava Jato, como está demonstrado, serviu pra engrossar a conta bancária de procuradores que viraram estrelas na imprensa. O outro objetivo – o político – foi devidamente alcançado com a prisão de Lula, condenado numa farsa judicial, e com a eleição de Bolsonaro. Taí o saldo do farsesco “combate à corrupção” que historicamente serve para eleger pilantras – os atuais cidadãos de bem. O Brasil sofre desse mal desde tempos remotos.

Crivella, Witzel, Moro, Flávio, Jair Bolsonaro. Em menos de dois anos, estes e outros personagens da República foram expostos em suas estripulias criminosas. O que há de comum entre eles, repito e ressalto, é que todos surfaram no discurso do combate à corrupção “da esquerda”. Na direita, entre os caçadores de globalistas, isso não existia. A desmoralização dessa gentalha nos lembra de algo: bandidagem não tem religião nem ideologia.

(Na foto do alto, o prefeito Marcelo Crivella, preso, chega à delegacia no Rio).

Mediocridade é a marca da gestão Rui Palmeira

  • 22/12/2020 12:08
  • Blog do Celio Gomes

Rui Palmeira (foto) diminuiu de tamanho. E não foi pouca coisa. O singelo fato de estar sem partido expõe a dimensão de seu inferno astral na política. Sem filiação partidária e, a partir de janeiro, sem mandato, o ainda prefeito de Maceió atravessa seu pior momento desde que se elegeu deputado estadual em 2006. Não ficou mais de uma temporada na Assembleia Legislativa; em 2010 ganhou a eleição para deputado federal e partiu para Brasília. Dois anos depois, levou a prefeitura da capital, com o discurso da renovação, da juventude e de modernização da gestão pública.

Quando se reelegeu em 2016, derrotando o ex-prefeito Cícero Almeida, com mais de 60% dos votos no segundo turno, parecia que o filho de Guilherme Palmeira tinha vindo ao mundo pra ganhar, sempre. Mas a gente sabe que a vida não é assim. O prefeito está sabendo disso agora. Mas, lá atrás, achava que seria eleito governador em 2018. Esse era o plano previsível. Mas ele decidiu cumprir os oito anos na prefeitura e recusou a candidatura.

Ali, o vento mudou para o prefeito. Ao rejeitar ser candidato, Rui deixou uma legião de aliados numa enrascada, sem um palanque forte naquela disputa. Resultado: a oposição não fez nem sombra ao governador Renan Filho, que se reelegeu em primeiro turno como se fizesse um passeio. E o prefeito de Maceió adiou para 2022 o sonho de ser governador. Eleger o sucessor agora em 2020 seria uma tremenda largada. Mas aí deu tudo errado.  

Mesmo com a inesperada e quase chocante aliança com o governador, o candidato de ambos, Alfredo Gaspar, perdeu a eleição para JHC. Assim, a máquina municipal troca de mãos, numa clara demonstração de que o eleitor rejeitou a opção apoiada pelo prefeito. “Mudança”. Esse foi o batido bordão que embalou a campanha do vitorioso. Decididamente, a população disse não ao candidato que representava a gestão de Rui Palmeira.

E como foi a gestão do prefeito que está indo embora? Ele apresenta a construção de conjuntos habitacionais e a abertura de avenidas como grandes realizações. Sei não. Com boa vontade para esse tipo de investimento, o melhor do legado, digamos assim, não vai muito além disso. Fazer propaganda de recapeamento e de troca de lâmpadas só pode ser brincadeira! Isso é o básico do obrigatório. Educação e Saúde são um desastre.

Mas o grande carimbo de fracasso da atual administração tem nome e endereço: é o Programa de Frente pra Lagoa, que seria implantado na região da orla lagunar. Em texto neste blog, de quatro de fevereiro deste ano, chamei esse negócio de um dos maiores estelionatos eleitorais da história da cidade. Também escrevi que o candidato do prefeito teria dificuldade com o tema. E, sem querer me gabar, foi exatamente o que aconteceu.

Assim que começou o segundo turno, o guia eleitoral de JHC levou ao ar um vídeo devastador. Na peça – esta sim, uma aula de marketing eleitoral – moradores da beira da lagoa assistiam a um vídeo em que Rui prometia um novo mundo para a região, também conhecida como Dique-Estrada. Na Publicidade, o prefeito fala em apartamentos, avenidas, creches, equipamentos culturais – enfim uma miragem típica do mundo publicitário. 

A reação dos moradores, no vídeo do programa eleitoral, é de repugnância. Enquanto escutam as potocas do prefeito, homens e mulheres falam de Rui Palmeira com uma mistura de revolta e desprezo. E faz sentido. A propaganda sobre o projeto é tão fantasiosa que sempre me pareceu um deboche com as condições dramáticas de vida daquela população. O anúncio de “retomada das obras” – já durante a campanha – foi criminoso.

Não foi o único fracasso do atual prefeito, mas foi o maior, um escândalo. Para fechar, diria que é um tanto desolador constatar algo tão medieval em gestores públicos do século 21: tudo para as “áreas nobres” e nada para as periferias. Tocar uma cidade em todas as suas dimensões! Nessa missão, Rui foi tão medíocre quanto seus últimos antecessores. Vai tarde. Pensando bem, nas últimas duas décadas Maceió não avançou quase nada.

Parece que Davi Maia vai mandar mais na prefeitura do que JHC, o prefeito eleito de Maceió

  • 22/12/2020 00:16
  • Blog do Celio Gomes

Como diria o sambista Jamelão, o deputado estadual Davi Maia (DEM) está mais feliz do que pinto no lixo. O homem acorda todos os dias e anuncia ao mundo: “Quem vai mandar na prefeitura de Maceió a partir de janeiro de 2021 sou eu”. Não estou exagerando. Basta ver o que Maia anda dizendo em todas as esquinas e microfones. Fala mais que o prefeito eleito, João Henrique Caldas. O deputado chegou a dizer que JHC o convidou para ser secretário, mas ele recusou. É a primeira vez que vejo algo assim. Parece óbvio que o anúncio do parlamentar diminui JHC, esnobado publicamente.

E o que é que este representante da “nova política” anda dizendo por aí? Davi Maia, um reacionário formado no Ginásio Luciano Huck, é o coordenador da transição na prefeitura. Como eu ia dizendo, ele anda falando muito. E seu principal assunto nas entrevistas e nas redes sociais tem sido a “revisão de contratos” da gestão Rui Palmeira. De fato, Maia é expert em fechar contratos. Sua experiência no ramo está registrada na própria prefeitura.

É que, até pouco tempo antes da campanha eleitoral, Maia era governista. Aliás, um governista que se deu muito bem galopando a máquina municipal. Ele foi secretário de Meio Ambiente e – seu mapa da mina – chefiou a Slum, a superintendência que cuida da limpeza urbana. Limpeza urbana quer dizer coleta de lixo. E lixo é um troço que sempre rendeu contratos exóticos na prefeitura. Maia vai revisar seus próprios contratos?

O trololó do deputado também sinaliza algo recorrente nas disputas políticas e eleitorais. Como se fosse uma tradição milenar, todo eleito começa a gestão falando de “herança maldita”. O termo ainda não apareceu, assim literalmente, mas a ideia está no ar. Pode ser apenas uma questão de tempo para um gatilho disparar a acusação com todas as letras. Acusar o antecessor pelo próprio fracasso é um clássico nacional. É o que vem aí, aposto.

Além de Davi Maia, outro homem forte na futura gestão é o delegado federal André Costa. Começou a carreira na PF em Maceió e depois virou secretário de Segurança no Ceará, governado pelo petista Camilo Santana. Ele também é “digital influencer”. No Instagram, Costa usa toda sua experiência para faturar uma grana. Ele e um sócio têm um curso que prepara candidatos que sonham virar delegados nas polícias Civil e Federal.

Para vender o talento de professor, André Costa ensina que é preciso ter “foco”! (Onde foi que a gente já ouviu isso?). Nossa imprensa informa que o delegado federal deve ganhar uma nova secretaria. A pasta será criada exclusivamente para cuidar do caso Pinheiro-Braskem. Não parece uma boa iniciativa. Lembra até uma velha piada que diz mais ou menos o seguinte: o meio mais eficaz de não resolver nada é criar uma comissão. É por aí.

O prefeito eleito já ensaia um discurso de chororô com a falta de recursos. Alegações para adiar promessas de campanha já estão na fila. Nesse sentido, outra jogada é despejar a bomba nas costas do governo estadual. Depois de prometer o céu e a terra, por conta e risco, agora JHC e seus rapazes “exigem” compromissos do governador Renan Filho. Caso contrário, dizem, não haverá dinheiro para cumprir as maravilhas da campanha.

Na Câmara Municipal, dois novatos integram essa tropa de choque do prefeito eleito. Lembrando: JHC é “progressista” do PSB e fanzoca de Jair Bolsonaro. É o que explica que ele tenha como fiéis aliados os vereadores eleitos Fábio Costa (mais um delegado) e Leonardo Dias. Uma dupla perfeita, se é que estou sendo claro. Dois fanáticos da extrema-direita mais boçal e histérica. Eles estão preocupados – ainda e sempre – com o kit gay.

A ver o que essa gente aprontará no Executivo e no Legislativo da nossa indefesa capital. Sobre a gestão de Rui Palmeira – se deixa legado de respeito ou uma maldita herança –, direi alguma coisa a respeito no próximo texto. 

(Na foto lá do alto, Davi Maia e JHC: a “renovação” da política alagoana cai na balada).

Por que Bolsonaro se engajou na eleição da Câmara

  • 19/12/2020 08:22
  • Blog do Celio Gomes
Foto: Agência Brasil
Jair Bolsonaro

Sempre tem confusão, mas agora a coisa parece muito mais confusa do que sempre foi. Falo da eleição para presidente da Câmara dos Deputados. Desde a redemocratização, os embates pelo comando do parlamento tiveram, claro, capítulos de tensão, jogadas inesperadas e traições em alguma escala. Na disputa de agora, naturalmente, tudo isso também vai ocorrer em alguma gradação. O que diferencia a eleição de hoje de todas as anteriores é o papel do presidente da República. Nunca houve um presidente – de Collor a Temer – tão engajado numa campanha eleitoral pela presidência da Câmara.

Sim, de Collor a Temer, todos tiveram seus candidatos e atuaram por eles. Não há ineditismo em Bolsonaro tentar emplacar seu favorito. Inédito, arrisco dizer, é a forma como o Capitão Antivacina se mete no assunto. O homem da “nova política” transformou a briga pela Câmara num mercadão em que ele promete tudo e mais alguma coisa aos parlamentares que toparem fechar com seu candidato. É praticamente compra de voto.

Compra de voto, vamos lembrar, é um negócio que não precisa ser feito necessariamente com dinheiro vivo. Um cargo, por exemplo, é uma maravilha. Destravar as verbas de uma emenda é outra forma de sedução. A assinatura de um convênio que está engavetado também pode agradar. Tem gente mesmo à espera de ministérios para declarar voto ao candidato de Bolsonaro. Por tudo isso o deputado Arthur Lira está confiante na vitória.

O alagoano ainda não tem adversário. A turma do atual presidente, Rodrigo Maia, gasta reuniões e palavrório para chegar a um nome de consenso. Mas nesta sexta-feira Maia conseguiu costurar um bloco de partidos que soma 280 deputados. As legendas ao lado de Lira somam 207 parlamentares. Isso não significa que todos de um bloco votam no mesmo candidato. Esse arranjo não define um vencedor. Devemos ter segundo turno.

Mesmo alinhados a um bloco, os partidos vão lançar vários candidatos. Para sair vitorioso de primeira, o concorrente precisa de 257 votos – o que não parece fácil pra nenhum lado. Então, os dois mais votados vão para nova disputa – e aí sim os blocos fechados agora serão decisivos. De todo modo, Maia mostrou força ao atrair PT, PCdoB, PDT, PSB e Rede para seu grupo. Até então, a galera da esquerda não havia escolhido um lado inicial.

Um parêntese. Bolsonarista meio no armário, meio envergonhado, João Henrique Caldas ficou chateado com a decisão de seu partido, o PSB, em se juntar ao bloco de Rodrigo Maia. JHC, prefeito eleito de Maceió, preferia o lado de Arthur Lira – se não por nada, para bajular Bolsonaro. O futuro prefeito é de uma legenda de “esquerda”. É moderninho também. Mas esbanja todos os cacoetes desse primitivismo que o ridículo Bolsonaro sintetiza.

Fechado o parêntese, volto a Brasília e ao Congresso Nacional. O que faz Bolsonaro enfiar suas mãos sujas na eleição da Câmara é a sombra da lei. Ele e sua família de meliantes precisam se blindar. O presidente que desonra o cargo também morre de medo de um processo de impeachment. Crime de responsabilidade – o motivo pra afastamento – tem de sobra. Há dezenas de pedidos na Câmara. Por isso ele precisa de um presidente na coleira.

A investida de Bolsonaro, reitero, não tem precedentes. Nenhum presidente da República precisou tanto e tão desesperadamente de um pau mandado na direção da Câmara dos Deputados. Arthur Lira seria isso? Não sei. Aliás, não é este seu perfil, como todos sabem. Estou dizendo o que Bolsonaro quer. Se vai conseguir ou não, veremos lá adiante. A eleição, que ocorre em primeiro de fevereiro, é crucial para o governo. E para o país.

Com problema na Justiça, Arthur Lira sonha com o topo do poder

  • 11/12/2020 11:42
  • Blog do Celio Gomes
Uol/FolhaPress
Arthur Lira

O cardápio de nomes para a presidência da Câmara dos Deputados mostra a miséria política da atual formação do parlamento brasileiro. São citados como pré-candidatos, entre outros, Agnaldo Ribeiro (PP), Baleia Rossi (MDB), Capitão Augusto (PL), Elmar Nascimento (DEM), Fernando Coelho Filho (DEM), Luciano Bivar (PSL) e Marcos Pereira (Republicanos). Mas nenhum deles é tão favorito para levar a eleição como o alagoano Arthur Lira (PP) – um nome que dispensa apresentações. O deputado aposta no apoio do presidente Bolsonaro, aquele mesmo que ia acabar com a “velha política”.

Ao que parece, as chances de Lira aumentaram depois que o STF enterrou a criminosa tese de reeleição para Rodrigo Maia na Câmara e Davi Alcolumbre no Senado. Mesmo com a proibição explícita nas páginas da Constituição, faltou pouco para que a gambiarra fosse sacramentada. O parlamentar alagoano seria candidato de qualquer jeito, mas, sem Maia na disputa, ele tem certeza que o caminho ficou mais tranquilo. Nem tanto assim, talvez.

A história mostra que as eleições para o comando de Câmara e Senado podem render surpresas – mais entre deputados, dado o tamanho do colégio eleitoral, 513 votos em disputa. Sem dúvida é mais seguro amarrar um acordo com 81 senadores. Na Câmara, com essa multidão de gente, pode pintar de tudo e mais alguma coisa até em cima da hora. Por isso, imaginar vitória antecipada é meio caminho para o fracasso.

Mas Arthur Lira sabe como é o jogo. Como ele pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ingenuidade, está ligado em cada lance durante 25 horas por dia. Tem prometido emendas, cargos, obras, postos na Mesa Diretora, a chefia de comissões relevantes e mais outros mimos em troca do voto dos colegas. Tudo, segundo consta, nos rígidos princípios republicanos. É o que faz também o outro grupo, agora sob a abalada liderança de Maia.

Embora as armadilhas da política na eleição do Congresso sejam uma ameaça constante, o maior temor de Arthur Lira está em outro lugar, mais precisamente na seara da Justiça. Ele é réu no STF, denunciado por corrupção passiva. Ainda será julgado. Em outro caso, se livrou das acusações de desvio de recursos quando era deputado estadual. A inesperada decisão foi do juiz Henrique Pita Duarte.

Bom, Lira e as barras da lei formam uma questão à parte, externa, fora das negociações exclusivamente políticas nos corredores de Brasília. Não depende dele uma novidade por aí. Só lhe resta esperar (e torcer) por outras decisões favoráveis. A escolha do presidente da Câmara ocorre em primeiro de fevereiro. Falta pouco, mas é tempo de sobra para reviravoltas. Pra garantir os apoios necessários, Lira quer, além do Planalto, a esquerda.

A bancada do PT é alvo da sedução de Lira e do candidato que ainda não tem nome a ser apoiado por Rodrigo Maia. Não será fácil para petistas explicarem uma aliança com o nome de Bolsonaro. Teríamos mais uma demonstração da coerência extravagante do mundo da política. Embora o alagoano já tivesse manifestado a intenção de comandar a Casa, a campanha engrenou esta semana no lançamento oficial da candidatura.

Finalmente, Arthur Lira correndo para o topo mexe com a política alagoana. Do nada, o senador Fernando Collor já lançou o parlamentar como candidato a governador em 2022. Alguma sinalização concreta de uma parceria? Fumaça? Por enquanto, ainda não sabemos. Caso chegue lá, Arthur Lira sobe de patamar na esfera nacional e amplia sua influência por aqui. Neste momento, corre atrás de votos e reza por juízes como Pita Duarte.

NOTA - Estive fora do blog por razões profissionais e particulares. Cumprindo acordo com a direção do CADA MINUTO, retorno a partir de hoje.

Senador Rodrigo Cunha, o cacique autoritário

  • 04/09/2020 00:55
  • Blog do Celio Gomes

O tucano Rodrigo Cunha vendeu a imagem de “renovação na política”. Nos últimos anos, os acontecimentos na vida pública brasileira pavimentaram o terreno para esse discurso – que na verdade é tão velho quanto a política. Mas, ainda que não passe de fumaça, elegeu figuras como Cunha. Digo isso, claro, diante da ação do senador pra cima do diretório municipal do PSDB. Como um velho coronel, que trata o partido como propriedade privada, o parlamentar, na condição de presidente do diretório estadual, dissolveu a instância partidária de Maceió. E foi numa canetada, sem consultar ninguém.

Em nota, o senador alega o descumprimento de regras na reunião que elegeu a deputada federal Tereza Nelma como presidente do diretório municipal. Não colou. O texto da cúpula da legenda não deixa claro o que haveria de errado na escolha dos dirigentes do PSDB na capital. Na prática, deu-se o seguinte: Cunha decidiu abater uma concorrente interna pelo protagonismo na eleição para prefeito de Maceió. Sinais de vale-tudo.

Como o CM publicou, a deputada reagiu com uma nota duríssima. Diz um trecho: A decisão isolada do senador Rodrigo Cunha transpira autoritarismo, viola a diretriz central do Estatuto do PSDB, que estabelece claramente o compromisso com a transparência, a democracia interna e o direito de defesa. Chamo atenção para o óbvio: é uma crítica de uma colega de partido e não de um adversário filiado a outro time. A crise está dentro de casa.

Além de classificar o senador como autoritário, a deputada, que também se manifestou por meio de nota, aponta, não sem alguma ironia, para a contradição entre discurso e prática: Em verdade, o senador violou diretamente o Estatuto do PSDB, tomou uma decisão autoritária típica da Velha Política. Nunca deu aos integrantes do Diretório Municipal o constitucional direito de esclarecimento, contraditório e ampla defesa”.

Ao se eleger senador em 2018, Rodrigo Cunha subiu de patamar. Tornou-se presidente do PSDB em Alagoas e rapidamente imprimiu seu estilo de gestão. Estilo que resultou na implosão do partido, cuja ilustração mais notória foi a desfiliação do prefeito Rui Palmeira. A truculência do cacique deve resultar na saída da própria Tereza Nelma. Por essas e outras, o tucanato vai sem rumo por aqui, depois de governar o estado por oito anos.

Falei de protagonismo da eleição em Maceió. Não é de hoje, o senador tucano fechou parceria com o deputado federal João Henrique Caldas, do PSB. A dobradinha passa pelos acordos que levaram Cunha ao Senado. A mãe do deputado é primeira suplente do senador. Mas isso é um detalhe, ainda que relevante. A dupla pensa alto, com projeções para a repetição da tabelinha em 2022. Antes, porém, os dois precisam ganhar agora em 2020.

Pelo que leio em diferentes espaços, em reportagens e blogs da nossa imprensa, a briga entre Cunha e Nelma deve-se à escolha de um nome para vice na chapa com JHC. Ou seja, além de impor o nome do candidato a prefeito, o senador quer decidir sozinho a chapa completa. Sobre isso, a deputada diz que sua candidata seria uma mulher, mas se submeteria à decisão partidária em convenção. Mas nem isso Cunha cogitou permitir.

Tereza Nelma também acusa Cunha de mentir ao “explicar” as razões para dissolver o diretório tucano na capital. Espantados estão os que enxergam no senador de Arapiraca uma voz na contramão do atraso. Até hoje, sua atuação como parlamentar e suas posições sobre os graves temas do país mostram o contrário. Faltava uma demonstração cabal de seus métodos medievais na burocracia da máquina partidária. Agora não falta mais. 

Voltei.  

Germán Efromovich (preso pela Polícia Federal) e os alagoanos “do bem” e “do mal”

  • 19/08/2020 14:22
  • Blog do Celio Gomes

A Polícia Federal prendeu nesta quarta-feira os notórios irmãos Efromovich. Por causa da pandemia de Covid-19, eles ficam em prisão domiciliar. A dupla tem história. Em agosto do ano passado, publiquei o texto que começa a partir do próximo parágrafo. Está nos arquivos do blog. O título foi: “O maior estaleiro das Américas” – dez anos de uma incrível farsa alagoana. Achei pertinente republicar. Confira aí. 

                                                      * * *

Essa é uma história que passa pela categoria dos “Alagoanos do Bem”. Logo adiante falarei um pouco mais sobre a origem e os usos dessa expressão na imprensa estadual. Antes, vamos direto ao ponto: em outubro de 2009, o então governador Teotonio Vilela Filho anunciou aquele que seria o maior projeto de desenvolvimento da história de Alagoas. A boa noticia foi divulgada com estardalhaço – e não era pra menos. Aqui seria construído “o maior estaleiro das Américas”.

A exorbitância que vai entre aspas aí acima estava na propaganda oficial. Segundo o governo, o estado havia fechado o negócio com o megaempresário Germán Efromovich, presidente do Synergy Group, e tido como um craque no ramo. O homem tinha sua assinatura na indústria pesada, mundo afora. O investimento prometido batia na estratosférica cifra de 1 bilhão de reais. Seria a “redenção” da província.

A região de Coruripe, no litoral sul, foi a escolhida para receber o Estaleiro Eisa Alagoas. Sempre de acordo com a publicidade oficial, as obras começariam no ano seguinte, 2010, o que já significava a geração de 4.500 empregos. “Trata-se de um empreendimento histórico para nossa terra, que vira uma página na nossa economia”, festejava o governador Téo Vilela, ao falar sobre a conquista.

O projeto, de tamanha envergadura, abriria diversas frentes de prosperidade, como também explicava o governador naqueles dias: “Além dos empregos diretos, teremos dezenas de fábricas – para acessórios dos navios – que devem ser construídas ao redor do estaleiro. Isso significa emprego, renda, impostos e desenvolvimento”. Eleito em 2006, o tucano estava no primeiro mandato.

Acompanhei de perto tudo isso. Na época, exercia o cargo de editor-geral da Gazeta e, nessa condição, o assunto passou a ser pauta prioritária na minha rotina de trabalho. Como manda o bom jornalismo, era preciso ir além do registro meramente informativo sobre o projeto. Repórteres caíram em campo para buscar detalhes do negócio. Um mistério a esclarecer: quem era o megaempresário?

Pelo que me lembro, o jornalista Davi Soares, então repórter na editoria de política, levantou a biografia de Germán Efromovich. Os dados eram um tanto preocupantes, digamos assim. A vida pregressa do heroico investidor não era exatamente um primor de realizações em suas indústrias, como aparecia na propaganda. O cidadão colecionara acusações e processos por onde passou.

Em reportagem especial, a Gazeta publicou o que havia descoberto sobre o construtor de estaleiros. O governo, é claro, não gostou. Continuamos a cobertura, divulgando o que as autoridades anunciavam, mas sem deixar de lado a atenção aos aspectos nebulosos daquela “obra redentora”. Foi então que alguma alma patriótica atacou nossas reportagens como trabalho de “maus alagoanos”.

O tempo foi passando, e nada de concreto surgia sobre o futuro estaleiro. Ao invés de apresentar respostas reais sobre o atraso, o próprio governador embarcou numa espécie de teoria da conspiração e passou a fantasiar sobre uma guerra entre os que torciam contra e – agora sim – os “Alagoanos do Bem”. Na imprensa, logo surgiram as vozes solidárias com a fantasia chapa-branca.

Em 2010, Téo Vilela se reelegeu e, durante os quatro anos do segundo mandato, continuou fiel à tola (e leviana) narrativa conspiratória. Enquanto isso, no mundo real, os prazos foram sendo adiados, um atrás do outro. Nada. Até que todos pararam de falar no assunto. Como se sabe, estaleiro nenhum está construindo navios e plataformas de petróleo no paraíso de Coruripe (foto lá no alto).

Aliás, a promessa era de que a indústria levantaria “três navios e duas plataformas por ano”. A garantia era do próprio empresário. Embora todas as projeções sempre apontassem para o infinito, o governo foi incompetente até para resolver o básico, que era o licenciamento ambiental. Erros primários e falta de transparência nesse ponto foram jogados na conta dos “alagoanos do mal”.

Essa é uma das grandes coberturas das quais me orgulho de ter participado como jornalista. Não é papel da imprensa exaltar o oba-oba de governo nenhum. A essência do jornalismo é precisamente o contrário: desconfiar sempre, fiscalizar o poder sem medo, revelar a verdade que tanto incomoda.  

E foi isso o que a Gazeta fez em tudo o que publicou sobre o estaleiro que nunca virou realidade. O industrial Efromovich continua enrolado com a Justiça até hoje. E me ocorre o seguinte: cara, o tempo voa mesmo; parece que foi outro dia, mas, neste 2019, aquela incrível farsa completa uma década.

Acusação de doleiro contra os donos da Globo muda o tom da imprensa sobre delações

  • 17/08/2020 01:26
  • Blog do Celio Gomes

Dario Messer, o doleiro dos doleiros, disse em delação premiada que entregava dinheiro vivo aos irmãos Roberto Irineu e João Roberto Marinho. Segundo o delator, os repasses ocorreram ao longo dos anos 90. Messer contou ao Ministério Público Federal no Rio de Janeiro que eram duas ou três remessas todo mês. Os valores variavam entre 50 mil e 300 mil dólares. Na versão do doleiro, funcionários seus levavam a grana, em espécie, até a sede da TV Globo, no histórico endereço do Jardim Botânico. A família Marinho garante que é tudo mentira, fruto da cabeça de um marginal.

No Jornal Nacional, William Bonner leu a notícia durante 1 minuto e 22 segundos. Sem imagem. Apenas uma “nota pelada”, como se diz no jargão exclusivo da turma que trabalha em telejornalismo. O texto do JN ressalta que o doleiro “não apresentou provas”. Informa ainda que o próprio Messer afirma que nunca se encontrou com os irmãos Marinho. Em seu principal telejornal, a Globo foi comedida, tentou abafar a história. 

No site da Veja, que deu a notícia em primeira mão, há um trecho inusitado, incomum na grande imprensa quando noticia cada nova etapa da Operação Lava Jato: “O histórico dos últimos anos de delações na Justiça brasileira recomenda muito cuidado com acusações do tipo, muitas vezes feitas de forma irresponsável pelos réus como uma tentativa desesperada de reduzir a pena”. A revista parece zelosa com o amplo direito de defesa.

A delação de Dario Messer foi homologada. É oficial. Em tese, isso significa que ele teria apresentado elementos com alguma consistência. Se tudo foi feito dentro dos conformes, as autoridades teriam, a partir das revelações do delator, um caminho para chegar a provas dos eventuais crimes. Mas, como se vê no alerta da Veja, temos de ter precaução. Não é qualquer delator que vai destruir reputações inocentes. Parece algo razoável.

A postura da Veja é a mesma nos demais grandes veículos. De repente, bom senso, sobriedade e responsabilidade com a informação caíram sobre a mesa de todos os editores. Que coisa, não? Não era assim até ontem, quando o objetivo das “grandes delações” era pegar Lula, Dilma e a petralhada. Nos últimos cinco anos, os garotões da Lava Jato detonaram como queriam. Defesa, para Sergio Moro, era “showzinho” de advogado.

A Globo e a Veja têm razão. É preciso ter muito, muito cuidado mesmo, com a farra das delações. Quem acompanha o blog sabe o que penso sobre o tema. Num bocado de texto, comento estripulias e delinquências que saíram daquela excrescência chamada de República de Curitiba. Globo e Veja não pregavam nos demais casos de delação o que pregam agora. Para a família Marinho, aliada fiel do lavajatismo, o drama é mais pesado.

Outra notícia do momento parece combinar com o caso Doleiro-Marinhos: a Polícia Federal concluiu que a delação de Antonio Palocci é uma porcaria que nada vale. É o que já se sabia, faltava somente uma assinatura oficial. Agora não falta mais. E o que dizia o ex-ministro? Dizia que Lula era o destinatário de uma fortuna depositada em contas no exterior. A PF diz que as “denuncias” não passam de um apanhado no Google.

A delação do ex-ministro é aquela mesma que o então juiz Moro liberou às vésperas da eleição de 2018. Foi o lance mais ousado do cabo eleitoral que seria ministro da Justiça do presidente eleito. A decisão da PF desmoraliza – um pouco mais – o juizinho parcial de Maringá. O trololó de Palocci já havia sido recusado até pelos bravos rapazes do MPF. Ou seja, parece que, no caso da delação contra Lula, ninguém teve lá “muito cuidado”. 

Como a Lava Jato e Sergio Moro viraram inimigos de ocasião de Bolsonaro, o negócio vai render. O presidente foi às redes sociais e tripudiou com as revelações do doleiro maior sobre a Globo. O capitão disse que estava ansioso para ver o Fantástico deste domingo – queria conferir a reportagem sobre o assunto. Faz sentido. Esse era o padrão global na cobertura das operações que batiam nos endereços durante a madrugada.   

Não, não houve reportagem sobre isso no Fantástico. A Globo deve entender que não há interesse público. Mas e se o doleiro tivesse afirmado que entregava dólares, durante anos, para o senhor Lula da Silva? Como seria a cobertura do Jornal Nacional? Pela fumaça, do ponto de vista legal, Roberto Irineu e João Roberto podem ficar tranquilos. Estão livres dessa. Agora, no mundo da política, as consequências farão algum estrago.