Um ministro da corte máxima da Justiça do país capturado em flagrante fazendo arapongagem. Araponga é o servidor público que atua com gravações e escutas clandestinas, à revelia do devido processo legal. Este é o nível da coisa agora no Supremo Tribunal Federal. Não bastasse a dimensão da crise, Dias Toffoli, ao que tudo indica, gravou a reunião que deveria ser secreta entre os juízes. É o que chamam de ponto de não retorno. Por esta, de fato, ninguém esperava. Mas aconteceu.

A quebra de confiança, nesse caso, soa como irreparável. Um dos onze do Supremo agindo de modo sorrateiro contra os próprios integrantes do colegiado! Nunca, antes, em tempo algum da República houve algo dessa natureza. Terá sido a primeira vez que Toffoli aprontou algo semelhante? Quem vai acreditar nas explicações do suspeito?

Para não ficar “fora do contexto”, as fortíssimas suspeitas de que Toffoli gravou os colegas surgiram após reportagem do Poder-360, com a reprodução de falas da reunião. Ministros se disseram “perplexos” após reconhecer algumas de suas declarações – letra por letra, com todas as vírgulas. Dias Toffoli negou a autoria de eventual gravação.

Além da fidelidade total ao que foi dito, o material publicado é todo favorável ao aparentemente aloprado ministro. Isso revela que houve, está claro, vazamento seletivo e edição cirúrgica do material. Submeta-se um conjunto de fatos a um raciocínio de lógica elementar, e pode-se prever Toffoli a caminho do paredão. Corre perigo pra valer.

A gravação clandestina, com esse teor explosivo, também expôs uma má vontade de ministros com a atuação da Polícia Federal. Flávio Dino, logo ele, bate duro na PF. Os togados acham que os federais investigaram Toffoli – o que seria uma tremenda ilegalidade, dada a prerrogativa de foro. A PF nega, mas a relação está trincada. 

O papel do Palácio do Planalto ainda não está claro, definido. Declarações de Lula, citando Toffoli diretamente, não foram bem recebidas na corte. O infalível corporativismo aqui se apresenta em toda a sua degradação. Primeiro, salvar os nossos, nossa patota.

Estamos no meio do Carnaval. De quebra, Lula vai ao sambódromo na Sapucaí. Até a ressaca de cinzas, o noticiário pode aliviar a barra para todos os encrencados. Mas, pelo clima generalizado, nada de crise debelada. E, logo ali, Copa do Mundo e eleições!