A imprensa noticia esquemas com funcionários fantasmas na gestão pública desde o Império Romano. A prática consagrada atravessou os séculos, virou cláusula pétrea no exercício da política, e nunca deu sinais de arrefecimento. O que ocorre, sim, é apenas o sumiço do assunto da ordem do dia – até o próximo escândalo. O histórico infinito de casos sugere que para tal mazela não existe unguento, nem nunca existirá.

Na sessão desta terça-feira na Câmara Municipal de Maceió, o vereador Rui Palmeira trouxe a debate mais uma situação fantasmagórica de contratação de servidores. Ele foi à tribuna para uma denúncia com potencial de bagaceira. Se haverá consequências à altura da gravidade da coisa, não sei, mas isso não pode ser ignorado.

Para complicar, o alvo do vereador é a direção da própria Câmara. Segundo ele, a Mesa Diretora tem nada menos que 84 funcionários em cargos comissionados à disposição. E boa parte dessa tropa ganha até 17 mil reais sem pegar no batente, sem nunca aparecer nas instalações do parlamento municipal. Assombração não trabalha.

Palmeira citou dois exemplos. Segundo ele, em investigação preliminar, diz que identificou “a esposa de um ex-prefeito do interior que nunca pisou aqui e ganha mais de 17 mil reais”. Por enquanto, afirma que prefere não revelar os nomes que descobriu.

Outro caso é o de uma jovem de 24 anos que reside em Ipioca, “numa rua modesta, sem pavimentação, sem coleta de esgoto”, nas palavras do vereador. E vejam o exotismo: com salário de 15 mil reais, a servidora fantasma recebia o benefício do Bolsa Família.

Rui Palmeira recorreu à ironia ao explicar que, por enquanto, classifica suas descobertas como episódios de “nomeações heterodoxas”. Ele afirmou que pediu explicações ao presidente da Casa, Chico Filho, mas até agora não recebeu retorno do colega.

Uma curiosidade. Ao conferir a sessão da Câmara pelo YouTube, notei que todos os vereadores que falaram à tribuna foram aparteados por alguns de seus pares. Menos Rui Palmeira. Será que o plenário julga que o assunto não tem relevância?

A relação de Palmeira com a Mesa – e com a maioria dos demais vereadores – tem sido conturbada. Porque ele é um dos raros integrantes da Casa na oposição ao prefeito JHC. Chico Filho não estava na sessão. Talvez fale algo nesta quarta-feira.

Seja como for, a denúncia não deveria se desdobrar apenas em guerra política. Os indícios de mutreta parecem eloquentes e merecem investigação pra valer. Mas a tradição aponta para mais um potencial escândalo com prazo de validade. A conferir.