A oposição despeja uma bateria de acusações contra a homenagem a Lula na Marquês de Sapucaí. O presidente é o tema da Acadêmicos de Niterói, que estreia este ano no grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro. No domingo, dia 15, a estreante abre o desfile com o enredo Do Alto do Mulungu Surge a Esperança – Lula, o Operário do Brasil. Adversários do petista denunciam propaganda eleitoral antecipada.

De Damares Alves a Sóstenes Cavalcante, bolsonaristas recorrem ao Ministério Público, ao Judiciário e até ao Tribunal de Contas para tirar o patrocínio da agremiação que homenageia Lula. A alegação é de que tem dinheiro público na folia – o que é verdade. Ocorre que todas as escolas recebem os recursos dentro da legalidade.

A Liga das Escolas de Samba tem acesso a patrocínio da Embratur (governo federal), prefeitura carioca (grana municipal) e governo do Rio (cofre estadual). Já a acusação de crime eleitoral especificamente, em tese não existe. Lula está sendo homenageado por uma escola de samba, um ente privado que não pode ser alvo de censura.

O eventual delito eleitoreiro pode se configurar a depender do que aconteça durante o desfile. É o que dizem juristas ouvidos pela Veja, que levou o assunto à capa de sua última edição. O controverso repique no samba exaltação a Lula, é claro, não poderia escapar da artilharia de vários lados. A avenida é um inegável palanque para ele.

O samba é um dos mais bonitos entre as 12 escolas. A letra sintetiza a trajetória do retirante que vai da fome ao topo do poder, com reconhecimento internacional. Os autores dão conta do factual, com citação à resistência do país ao tarifaço americano e à soberania brasileira. Sobre a tentativa de golpe, lá está a palavra de ordem “sem anistia”.

Tem filho de pobre virando doutor, e a comida está na mesa dos trabalhadores, cantam os intérpretes, fechando o refrão com “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. O Missão, partido do MBL, move ação no TSE na qual pede que a escola seja impedida de cantar essa parte da letra. Não vai colar, mas é outra ilustração na guerra política dos tamborins.

O carnaval de Lula no Sambódromo não deixa de ser uma operação arriscada. Mas o personagem e seu entorno não acreditam em revés na Justiça. Rende voto? Não sei. Dito isso tudo, desfile em homenagem a um presidente no exercício do cargo – fato inédito – é uma extravagância pra lá de descabida. É claramente antiético e não deveria acontecer.