Uma das situações mais comuns na política é a briga entre o chefe do Poder Executivo e seu vice. Lula é uma exceção à regra, segundo ele mesmo reconhece. Neste sábado, durante discurso em Salvador, no evento que comemorava o aniversário do PT, o presidente disse que ninguém teve tanta sorte quanto ele na relação com o escolhido para companheiro de chapa. Diante da realidade eloquente, não há como discordar.
Nos dois primeiros mandatos de Lula, o empresário mineiro José Alencar Gomes da Silva foi o vice ideal. A relação entre o titular do Planalto e seu número dois atravessou oito anos de poder sem turbulência, sem brigas, sem qualquer crise. O megaempresário e o ex-torneiro mecânico se entrosaram bem no batente e na vida pessoal.
De volta à Presidência, numa tacada que surpreendeu todo mundo, Lula achou em Geraldo Alckmin a melhor solução para a disputa de 2022. No quarto ano do mandato, o vice, com o perdão pelo clichê, saiu melhor do que a encomenda. Lealdade, discrição e uma indiscutível capacidade de trabalho explicam o sucesso do ex-tucano.
Mas a regra definitivamente não é essa. Direto a casos concretos, décadas antes de Michel Temer, o vice traíra de Dilma Rousseff, houve Getúlio Vargas e Café Filho, João Figueiredo e Aureliano Chaves, entre outros episódios remotos. Em comum, o titular encarava o “parceiro” como potencial traidor, de olho em assumir a cadeira principal.
Fernando Collor e Itamar Franco se afastaram logo no começo do governo, em 1990. Deixaram até de se falar. No âmbito estadual, Ronaldo Lessa e seu vice Geraldo Sampaio, também no século passado, só faltaram sair aos tapas. Na capital, o então prefeito Cícero Almeida e Lourdinha Lyra brigaram do começo ao fim do mandato.
Para além das brigas, a rigor, vice é um cargo praticamente decorativo. Não há funções específicas para quem ocupa esse lugar, salvo substituir o chefe em decorrência de viagens, por exemplo. Repare que é comum o vice acumular o cargo de secretário – ou ministro, no caso da Presidência. Alckmin comanda o Ministério da Indústria e Comércio.
Aliás, foi como ministro, e não como vice-presidente, que Alckmin arrebentou no golpe do tarifaço dos Estados Unidos contra os produtos brasileiros. Brasil afora, centenas de vices, em prefeituras e governos estaduais, são também secretários de alguma área. É assim com Rodrigo Cunha em Maceió, vice de JHC e secretário de Infraestrutura.
Atuar como secretário prova que o vice não tem o que fazer no mandato para o qual foi eleito. Manter esse modelo é jogar dinheiro público pela janela. No fim das contas, a existência de tal posto serve exclusivamente para negociações e jogadas políticas. E é por isso que essa inutilidade segue firme. O cargo de vice precisa ser extinto.










