Renan Filho é de centro-direita, disse o vice-governador Ronaldo Lesa em recente entrevista ao CM. E daí? Téo Vilela e Fernando Collor, de quem Lessa foi aliado por boa temporada, por acaso são de esquerda? Geraldo Alckmin, o vice do presidente Lula, teria migrado da direita para a esquerda? E Ciro Gomes, referência política de Lessa e agora aliado de bolsonaristas no Ceará, onde se enquadra nessa régua ideológica?
Perguntem a bolsonaristas fanáticos como classificam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O sociólogo de formação marxista, que foi expulso da universidade e viveu no exílio, vítima da ditadura militar, virou “neoliberal e entreguista” na avaliação de petistas durante os oito anos de seu governo. Ele apoiou Lula em 2022.
Nesse embalo, teríamos uma lista talvez infindável de figuras sobre as quais pesam a “acusação” de ser de direita ou de esquerda. Vejam aí o caso emblemático de Aldo Rebelo. Tem exemplo mais escrachado do que este quanto a idas e vindas para um lado e para o lado oposto? Como Lessa classificaria também o amigo Rebelo?
Lá atrás, o vice de Lula era José Alencar, megaempresário filiado ao antigo PL, homem do dinheiro, “capitalista selvagem”, defensor de privatizações e tudo o mais. Teria sido ele um comunista disfarçado ou um direitista infiltrado num governo de esquerda? E o próprio Lula é o quê, afinal. A pergunta parece um despropósito? Só na aparência.
Para a mesma turma do bolsonarismo, o presidente é um ultraesquerdista da pior espécie. Para gente como Vladimir Safatle, Jones Manoel e toda a “esquerda revolucionária”, o velho Lula é um legítimo representante da direita liberal que governa para os bancos e o agronegócio. O homem nunca foi comunista, “denunciam”.
Ao contrário do que sugere a sentença de Ronaldo Lessa sobre Renan Filho, não há problema nenhum em ser de centro-direita. Também está tudo ok em ser de direita. Até porque, entre outras coisas, tal classificação não resume a complexidade da atuação política e muito menos a densidade conceitual de tais categorias na filosofia e na ciência.
Lembrei agora que até Tarcísio de Freitas, o submisso ao Jair, “nunca foi de direita”, nas palavras de Eduardo Bolsonaro. Já o PT aponta o governador de São Paulo como um reacionário direitista a ser combatido sem tréguas. Diante de dois vereditos incompatíveis, ou alguém aí fala como farsante ou não sabe o que está falando.
Problema é o extremismo, esse terraplanismo que está resumido na imagem acima. Lessa, os Calheiros, Paulo Dantas e mesmo JHC não foram abduzidos para a extrema direita que emergiu com o marginal Jair Bolsonaro. Ainda bem. Não se pode dizer o mesmo de Thomaz Nonô, que em 2022 abraçou a ultradireita mais depravada. Por aí.










