A oposição mais truculenta promove uma peça de histeria com o samba-enredo que exaltou Lula na Marquês de Sapucaí. Dezenas de ações chegaram ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas, ao TSE e, se bobear, a cartórios, Procons e igrejas. Tudo isso tende a evaporar diante da fragilidade das acusações. É o que dizem professores baseados na letra fria da lei. O aspecto ético da coisa toda não determina o desfecho de possíveis processos. Onde estão as provas? Aí depende de algumas variáveis.

De todo modo, o governo agiu para zerar os riscos de produzir veneno contra si próprio. Vetou ministros e, na última hora, cancelou a presença da primeira-dama, Janja da Silva. Ela estava pronta para mostrar samba no pé, como uma passista da comunidade, no asfalto do sambódromo. O temor e o bom senso, juntos, mudaram o planejado.

Flávio Bolsonaro e a madrasta inimiga se juntaram na “indignação” com o desfile. Bolsonaro aparece como Bozo e presidiário, em representação nada reverente ao capitão da tortura. O filho pré-candidato a presidente anunciou ação na Justiça Eleitoral sobre “os crimes de Lula no Carnaval”. Muita papelada e burocracia pela frente.

Um fator inapelável para esfriar a temperatura e, portanto, tirar essa bandeira dos opositores, é o tempo. Calendário apertado e temas quentes em profusão jogam contra o discurso acusatório de propaganda eleitoral antecipada. Mais improvável ainda é que prospere a tese de abuso de poder econômico. Essas ações vão para o arquivo.

Lula foi consultado sobre a ideia de fazer de sua trajetória o tema da Acadêmicos de Niterói. Em decisão que dividiu petistas no topo do partido e no núcleo duro do governo, o presidente deu aval à aventura. O racha expõe – e explica – o nível da controvérsia.

Uma fala da ministra Carmen Lúcia, ao rejeitar ação do Novo que pedia o cancelamento do desfile da Niterói, foi reveladora. É um recado direto a Lula, quase uma ameaça, quase um voto antecipado sobre as ações que vão tramitar. De novo, o tempo.

Enquanto isso, Lula distribui axé aos eleitores que navegam as redes sociais. Para ele, deu tudo certo no desfile, dentro da lei, com choradeira previsível dos adversários. Se vai ser tão simples assim, veremos. A concorrência de pautas pode decidir a parada.