No Brasil, houve um tempo no qual não existiam décimo-terceiro salário, pagamento de horas extras, férias remuneradas, seguro-desemprego e bolsa-família. Décadas atrás, não havia o Sistema Único de Saúde – e cada um que se virasse do seu jeito para enfrentar qualquer doença. Iniciativas como auxílio-gás e financiamento para estudantes pobres cursarem universidade, até um dia desses, eram coisas de outro mundo.

No século passado, quando o ex-senador Eduardo Suplicy defendia a criação de um projeto de renda mínima para famílias na extrema pobreza, ninguém levava a sério. Coisa de maluco, diziam os críticos da ideia – ou seja, quase todos. Como é que vamos bancar um troço desses num país como o Brasil? Isso aí é para as nações mais ricas do planeta.

O mesmo tipo de pensamento, com a devida contextualização, resistiu ao fim da escravidão. Afinal, quem iria fazer o trabalho para os barões do agronegócio daquele fim de século? Remunerar a mão de obra de trabalhadores não passava pela cabeça dos donos da casa-grande. Por esse raciocínio, bom mesmo seria a escravidão eterna.

Eu e você mudamos. As ideias mudaram, o mundo mudou. Tudo pode mudar o tempo todo. E, veja que loucura, não é que, em alguma esfera, em algum nível, as coisas podem mudar para melhor!? Aconteceu. Os programas sociais em vigor hoje em dia, neste Brasil do coqueiro que dá coco, representam um evidente salto civilizatório.

Atribui-se a Delfin Netto, czar da economia no período mais nefasto da ditadura militar, o seguinte axioma: tem que esperar o bolo crescer para depois dividi-lo. Para legitimar um sistema de desigualdade, todo regime sistematiza uma base conceitual e ideológica. Após o tempo desmoralizar aquela frase, Delfin passou a negar sua autoria.

É consenso que, da segunda metade do século 20 em diante, a social-democracia imprimiu avanços inéditos na Europa Ocidental. As ações que melhoraram a vida em vários países ganharam a classificação de Estado de bem-estar social. Doidivanas da extrema direita odeiam isso daí. Condenam o que eles chamam de “Estado-babá”.

A “mão do Estado” segue eternamente em debate. Investir em políticas públicas que enfrentem a desigualdade e a pobreza é uma guerra. Mas é viável sim. Está tudo aí, como atesta a lista que você leu parágrafos acima. A histeria do contra é do jogo.

Que venha o fim da escala 6 x 1. O projeto da deputada Erika Hilton está em pauta na Câmara Federal. Que venha a tarifa zero no transporte coletivo, ideia que começa a ser analisada também na Câmara. A História demonstra que avançar é possível.