Antes, durante e depois do desfile na Marquês de Sapucaí, uma escola de samba invadiu o topo do noticiário – mas não o noticiário sobre o Carnaval, e sim sobre política. A combinação de alguns fatores deu à oposição a Lula um novo pretexto, uma nova janela de oportunidade na brigalhada eleitoral. A enxurrada de notícias não parece combinar com o panorama geral brasileiro. Por que tanto frevo para um episódio como este?

É uma chatice atravessar quilômetros de reportagens, entrevistas, colunas de opinião e até editoriais na velha imprensa. A parada começou a esquentar mesmo quando faltava uma semana para o desfile no Sambódromo do Rio de Janeiro. Uns 18 partidos à procura de uma bandeira moveram ações em todas as instâncias do Judiciário.

Os celerados queriam a proibição do desfile da agremiação que trouxe o enredo em homenagem ao presidente. Ainda bem que no julgamento do TSE, embora com algumas falas enviesadas, os ministros negaram a pretensão de censura. Liberdade de expressão é princípio que todos defendem – mas todos calibrados no casuísmo.

Domingo foi o desfile. Nas cinzas da quarta-feira saiu o resultado da competição. A Acadêmicos de Niterói caiu de divisão – algo que todos sabiam ser o mais provável. Enquanto escrevo, já estamos a caminho do fim de semana, mas nos destaques dos grandes veículos o assunto segue como prioridade. Não faz sentido. Mas é o que temos.

Chamam isso daí de “guerra cultural”. Na última década, como se sabe, a direita e suas facções elegeram o campo de batalha, as armas e as causas dessa disputa política. Nada de economia. Direto ao ponto, lembram da “mamadeira de piroca”?

No desembesto incivilizado a partir de 2018, o bolsonarismo e a extrema direita resolveram atacar artistas, exposições, filmes, livros e programas de humor. Direto ao ponto (parte dois), lembram do conceito de “arte degenerada”? Tem tudo a ver.

Moral pública. Cidadãos de bem que frequentam a igreja e os templos. A tradicional família brasileira em perigo. Patriotas em defesa dos nossos valores. Etc. Toda essa baboseira demagógica está no centro da “polêmica” com a escola de samba.

O estandarte ultrarreacionário não vai mudar. O desafio nesse fim dos tempos é defender ideias e propostas que de fato respondam a demandas reais do país. Tá difícil.