Blog do Celio Gomes

Eleição no Senado e judicialização da política

A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, saiu no meio da madrugada. Numa canetada, o magistrado anulou tudo o que havia sido decidido na sessão do Senado da sexta-feira. Como se sabe, a eleição para o presidente da Casa ficou para este sábado. A sessão começou por volta de 11h. Acompanho ao vivo pela TV os discursos dos oito nomes que se registraram como candidatos. Como se especulava, Fernando Collor entrou na disputa que já tem Renan Calheiros.

Então são dois candidatos alagoanos na disputa pelo comando do Senado. Agora, tenho a impressão, ninguém sabe ao certo o que motivou Collor a entrar nessa. Mas o que acho mesmo desconcertante é que o Senado comece a nova legislatura já sob a marca da chamada judicialização da política. Não se pode, porém, acusar o STF de, nesse caso, invadir prerrogativas do parlamento. Porque, de novo, partiu do próprio Senado a iniciativa de buscar o Supremo pra decidir sobre sua pauta.

Para lembrar: Dias Toffoli derrubou a decisão sobre votação aberta e determinou que o voto é secreto – como está claramente previsto no regimento do Senado. Um Judiciário que acaba legislando no lugar de deputados e senadores, esbravejam nos quatro cantos. O problema é que os revoltados assim se apresentam quando as decisões da Justiça barram seus interesses. Do contrário, beleza.

Se o começo dos trabalhos em Brasília pode sinalizar algumas coisas, uma é que a judicialização vai continuar a todo vapor em 2019. A conferir. E enquanto vou terminando este texto, seguem os discursos dos candidatos à presidência do Senado. Alguns já desistiram, como Alvaro Dias, Major Olímpio e Simone Tebet. É uma ação  em favor de Davi Alcolumbre. As apostas ainda são arriscadas, mas os ventos mudaram para o lado de Renan Calheiros. Ele pode levar. Ao voto.

Na eleição do Senado, Renan e Tasso Jereissati quase saem no tapa

Pega fogo a eleição para presidente do Senado. Depois da posse dos eleitos, a sessão preparatória para se votar nos candidatos virou uma bagunça, com bate-boca, gritos e até “sequestro” de documentos da mesa. Descontente com o fato de o senador Davi Alcolumbre presidir a sessão, sendo ele mesmo postulante na eleição, a senadora Kátia Abreu arrancou a pasta de documentos das mãos do colega, interrompendo os trabalhos, causando um tumulto infernal. Antes, também sob muita confusão, o plenário aprovou o voto aberto – o que prejudica a candidatura de Renan Calheiros.

E por falar no senador alagoano, ele é um dos protagonistas da sessão, que até o momento em que escrevo ainda está em andamento, sem perspectiva de um desfecho rápido. Num dos momentos mais tensos, Renan e Tasso Jereissati quase saem no tapa. O som dos microfones foi cortado na transmissão pela TV Senado. Nas imagens, via-se um Renan bastante alterado, numa troca de impropérios com o colega cearense. A dupla tem um histórico de desavenças. Pela antiguidade da discórdia, é uma relação sem chance de reconciliação. Qualquer coisa ali, sai faísca.

Uma banda do governo Bolsonaro joga pesado na disputa que se dá entre os senadores. Alcolumbre é quase um testa-de-ferro do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Os dois são filiados ao DEM. Essa tabelinha irrita o senador Major Olímpio, governista do PSL que se sente traído em sua própria turma. O caso desmonta a versão de que o governo não iria interferir na escolha do Legislativo. É o que dizem todos os governos, para, na prática, fazerem tudo ao contrário do bonito discurso.    

Durante os vários pronunciamentos, em diferentes momentos da sessão, Renan Calheiros declarou que poderia desistir da candidatura – mas isso ficou sempre parecendo tratar-se de um blefe. De todo modo, ele pode renunciar sim à disputa caso entenda que, com o voto aberto, não terá chance. Mas isso é apenas uma especulação. Como se esperava, é uma guerra de resultados imprevisíveis.

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Eleição será no sábado. Eram 21h15 quando os trabalhos foram encerrados, mas não houve a eleição do novo presidente do Senado. Ficou tudo remarcado para uma sessão que começa às 10h deste sábado, dois de fevereiro. Durante o resto da noite e a madrugada, portanto, as negociações vão continuar de todos os lados. E o futuro do senador Renan Calheiros continua incerto. Vamos esperar.

A posse do parlamento mais ou menos novo

Foto: Thiago Davino /CadaMinuto/Arquivo C9f1189b b683 4b6c 8b2f 6fe30cc77a89 Assembleia Legislativa de Alagoas

Na falta de termos e conceitos mais precisos, sim, toma posse um novo Congresso Nacional com uma inflexão a rigor inédita – conservador, liberal, de direita. Uma interpretação aponta para as manifestações de junho de 2013 a origem, o marco zero do barulhento fenômeno que levou Jair Bolsonaro ao posto de presidente da República. O novo parlamento retrata a transformação do país.

A eleição de estreantes na política que ficaram famosos na militância virtual é um traço no Congresso e também nas Assembleias estaduais. Parte desses eleitos esteve ligada a movimentos organizados que trabalharam pelo impeachment de Dilma Rousseff, como o MBL. A hostilidade ao PT e à esquerda em geral muitas vezes produz declarações e episódios, digamos, constrangedores.

Mas isso tudo, embora a novidade seja algo relevante, é apenas uma parte do todo. Não há como, no sistema brasileiro, uma unidade ampla nessa Câmara dos Deputados. Negociar interesses de 513 políticos é coisa de tiroteio em terra de ninguém. Uma Câmara cheia de caras novas e gente jovem deve ser presidida pelo atual presidente, Rodrigo Maia. Afinal, o que é velho ou renovação?

Um Senado também cheio de estreantes dá posse hoje aos eleitos. Mas, assim como na Câmara, os calouros vão conviver com veteranos em plena forma na disputa permanente de poder. A legislatura começa num clima tenso como não ocorria havia muito tempo. O motivo é a eleição para a presidência da Casa. Com a maior bancada, o MDB confirmou a candidatura de Renan Calheiros.

Foi uma primeira vitória do alagoano, que enfrentou uma adversária dentro de casa, a senadora Simone Tebet. Sem acordo, 12 senadores apelaram ao voto para escolher o nome da legenda na eleição. Renan venceu a rival por sete a cinco. São treze integrantes na bancada, mas o senador Jarbas Vasconcelos faltou à reunião partidária. Não conseguiu explicar claramente por que sumiu.

Seja quem for o eleito, nas duas casas, o que interessa é saber para onde vamos nos debates a serem travados a partir de agora. As primeiras semanas vão dizer, por exemplo, o quanto da agenda será tomada por projetos na área de comportamento e costumes – uma obsessão dos bolsonaristas – e o quanto as reformas terão prioridade. O caso da Previdência é o mais dramático.

Para o ministro Paulo Guedes, um Congresso aliado e disposto a votar é essencial pra tocar as grandes apostas no campo da economia. Tudo o que de fato interessa passa pelo parlamento. Em alguns casos, será necessário um forte apoio para aprovar emendas à Constituição. Haverá ocasiões de sobra em que veremos a qualidade dos representantes do povo – os novos e os resistentes.

Na Assembleia Legislativa de Alagoas, a posse dos eleitos se dá com a eleição de presidente da Casa resolvida. O deputado Marcelo Victor conseguiu costurar um bloco de apoiadores que, fazendo as contas, garante sua vitória. A maior novidade na ALE que saiu das urnas, creio eu, é Cabo Bebeto, legítimo representante do bolsonarismo, filiado ao PSL, o partido do presidente Bolsonaro.

Renan e Collor na eleição do Senado

Há umas duas semanas, vimos o presidente Jair Bolsonaro passando um bilhete ao deputado Rodrigo Maia, com uma pergunta ao presidente da Câmara: “O Collor é candidato?”. Maia fez uma careta e devolveu o pedaço de papel. A suposta candidatura ao comando do Senado não teve maior repercussão, mas pelo visto não é algo a ser descartado. Hoje a Folha garante que nos corredores de Brasília a aventura de Collor é dada como certa. A eleição será nesta sexta-feira (1º).

Em tese os partidos têm até esta quinta para apresentar seus candidatos. Alguma manobra pode adiar essa decisão, assim como a própria votação pode pular de sexta para sábado. Tudo depende da relação de forças e dos interesses de cada grupo em jogo. Como todos sabem, Alagoas tem Renan Calheiros como virtual candidato à presidência do Senado – mas um segundo senador pode entrar.

Se cada estado tem três senadores no Congresso, parece bastante exótico que dois nomes da mesma província sejam candidatos a presidir a Casa. Não que seja proibido, mas não é razoável segundo as tradições da política. De todo modo, a candidatura Collor deve flutuar, misteriosa e extraoficialmente, até em cima da hora. É do estilo do senador, entre a pressão e o suspense.

Já o senador Renan Calheiros chega à reta final desse processo como alvo principal de artilharias diversas. Dos nomes que se apresentam como adversários, nada menos que sete estão atuando em conjunto para inviabilizar a candidatura do alagoano. Para esse grupo, Renan precisa ser barrado como candidato em seu próprio partido, o MDB. Por aí, Simone Tebet seria a alternativa.

A última jogada em favor de Tebet foi a proposta para que ela troque de partido, deixando o MDB para se candidatar por outra legenda. Com isso, ela teria o apoio de adversários que resistem em marchar ao lado do MDB. Parece um caminho um tanto tresloucado, ainda mais com esse jeitão do mais acabado casuísmo. Para quem tenta surfar na onda de combate à “velha política”, pega mal.

Toda eleição no Legislativo é tumultuada. Como estamos no começo de um novo governo, com uma pauta explosiva para votação no Congresso, a disputa atual é ainda mais complexa e cheia de nervosismo. Dependerá dos presidentes da Câmara e do Senado, em larga medida, o ritmo de tramitação dos projetos de reforma do governo Bolsonaro, principalmente na área econômica.  

Embora diga o contrário, a tropa governista está no meio da eleição, fazendo de tudo para garantir um “nome de confiança”. Sabendo disso, Renan Calheiros se reuniu com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e os dois saíram do encontro um cobrindo o outro de elogios. Mas não está fácil para o pai do governador de Alagoas. O Congresso pega fogo agora, enquanto escrevo essas divagações.

A Bancada da Lama

A gente já conhecia a Bancada da Bala, aquela formada por pessoas preocupadas com a segurança pública, dispostas a tudo para turbinar o comércio de armas de fogo. Todos também sabiam da existência da Bancada da Bola, escalada por senhores a serviço das jogadas marginais no futebol brasileiro. E a Bancada da Bíblia, na qual cristãos devotados rezam e legislam em nome da fé.

É tanta bancada temática, que o presidente Bolsonaro sonhou em negociar diretamente com esses grupos, passando por cima dos partidos. Além de não ser um caminho politicamente seguro, a escolha presidencial reitera uma tradição nada saudável. Bancadas reunidas em torno de uma causa não passam de grupos lobistas, sem qualquer outra preocupação que não seja negócio particular.

Temos ainda as patotas em defesa do agronegócio, da construção civil, dos bancos, dos planos de saúde, das empresas de transporte, da indústria cultural, das incontáveis carreiras do serviço público etc. Difícil separar o voto que é dado em projetos no parlamento das demandas instaladas em escritórios do mundo privado e corporativista. A cada votação, lobbys e lobistas substituem o povo.

Até hoje ninguém falava da operante Bancada da Lama. Sabemos agora de sua forte atuação depois da tragédia provocada pelo rompimento da Barragem de Brumadinho. Ficamos sabendo também que, além do Congresso Nacional, a bancada se estende às Assembleias Legislativas nos estados. Em Minas, os lobistas com mandato cumpriram suas obrigações com eloquente desenvoltura.

A Bancada da Lama sempre recebeu doações eleitorais das grandes mineradoras, a Vale à frente. Uma olhada na tramitação de projetos nos últimos anos, no âmbito federal ou em Minas Gerais, e vê-se que deputados estaduais e federais votaram sempre contra o meio ambiente, em favor das mineradoras. Com esse grau de compromisso, Bolsonaro ainda vê “exagero” na fiscalização.

Fiquei pensando que outras bancadas poderiam surgir como novidade, devidamente sintonizadas com os novos tempos no comportamento social. Da Bancada do Cidadão de Bem à Bancada dos Patriotas, teria de haver lugar para a Bancada da #TBT – que esta semana descobri do que se trata.

Nenhuma bancada, porém, conseguirá o batismo fatal que está no nome Bancada da Lama. Nunca um grupo de lobby recebeu denominação tão precisa, sob encomenda para a atividade industrial em questão e para os resultados de um crime planejado. Enquanto isso, o país parece atordoado.

Os Bolsonaro, as milícias e o Senado

Em entrevista à Folha, José Padilha, o diretor de Tropa de Elite, disse que os fanáticos por Jair Bolsonaro votaram no Capitão Nascimento, mas elegeram o Rocha, o policial corrupto que, no filme de Padilha, chefia uma milícia nos morros cariocas. Foi uma boa imagem, diante das revelações que indicam forte amizade entre Flávio Bolsonaro e integrantes desse tipo de grupo criminoso.

Aliás, é obrigatório lembrar sempre que a simpatia a matadores e a grupos de extermínio é um traço na biografia de Jair Bolsonaro, o estadista que hoje preside o país. Em mais de uma oportunidade, ele defendeu a atuação de milicianos, assassinos de aluguel, tratados por Bolsonaro como heróis que “combatem a violência”. Com sua eleição, parece que as milícias se sentem incentivada ao negócio.

Além dos evidentes indícios de corrupção e lavagem de dinheiro, a ligação com milícias é outra encrenca que pode ser associada à conduta do filho do presidente da República. O garoto não mantinha relação com qualquer subordinado no meio da bandidagem, não senhor. Os nomes ligados ao senador eleito estão entre os cabeças do Escritório do Crime, denominação “oficial” da quadrilha.

Está chegando o dia da posse no mandato para deputados e senadores. Será nesta sexta-feira, 1º de fevereiro. Muita gente defende que Flávio deveria renunciar, antes mesmo de assumir o posto, pra afastar do pai a crise em curso. Mas isso não vai ocorrer, é claro. Agora, o que teremos será um senador na lona já a partir do primeiro dia de legislatura. O carimbo de vacilão tá no meio da testa.

Antes do escândalo começar com o hoje notório Fabrício Queiroz, o filho Zero 1 de Bolsonaro já se assanhava para ser candidato a presidente do Senado. Estava certo de que chegaria chegando. Deu tudo errado. Com o cenário que se impôs em decorrência das revelações sobre dinheiro inexplicável e enriquecimento galopante, o parlamentar não tem moral para contestar coisa nenhuma.

Se estava pronto a ocupar espaço com muito poder, Flávio Bolsonaro tem de baixar a cabeça num colegiado cheio de raposas e veteranos na arte da política. A qualquer gesto visto como arrogância, por exemplo, será cobrado a dar explicações sobre os fatos graves, cheios de detalhes sempre obscuros. Situação terrível, comparável à de Aécio Neves, um fantasma com mandato na Câmara.

A situação do filho do presidente acaba sendo mais um fator de influência na eleição para o comando do Senado. Não é por acaso que, mesmo sendo alvo da tropa bolsonarista, Renan Calheiros saiu em defesa de Flávio, distribuindo afeto e conforto ao futuro colega no parlamento. Se a postura sensibilizou o governo, não sabemos. Até sexta, acordos e  pressões estão na praça.

Tragédia e política nos holofotes da imprensa

O acidente na barragem de Brumadinho (MG) reduziu drasticamente a presença do caso Flávio Bolsonaro nas manchetes da imprensa. Aliás, nos telejornais a pauta nem entra na edição, tomada pelas notícias sobre resgates, mortos e desaparecidos entre lama e escombros. É natural que isso ocorra nessas ocasiões de comoção nacional. Um assunto monopoliza meio mundo.

Mas, com o tempo, a cobertura vai diminuindo e voltando à normalidade. Como o escândalo com o filho do presidente já alcançou dimensões cavernosas, não tem mais como sumir dos holofotes sem um desfecho à altura dos fatos. O senador eleito Flávio Bolsonaro esperneou pra todo lado, mas, até agora, não apresentou uma miserável explicação razoável sobre tantas suspeitas.

As atenções desses dias estão fortemente voltadas para as eleições na Câmara e no Senado. A novidade desta terça-feira é a desistência do alagoano Arthur Lira. O deputado federal retirou seu nome da disputa, resultado de um acordo com Rodrigo Maia, o irrelevante dono da cadeira que tenta a reeleição. Se der a lógica, o “Botafogo” da lista da Odebrecht vai garantir mais um mandato.

Ainda não vi manifestação do próprio Arthur Lira sobre sua desistência. Consta que teria acertado com Maia postos na Mesa e a presidência de comissões relevantes no parlamento. É o que todos os partidos estão fazendo, inclusive o PSL do presidente Bolsonaro – a agremiação que ia mudar o jeito de fazer política. Para garantir a vitória, Maia agora é fanático bolsonarista desde criancinha.

No tumulto do Congresso – que ainda está em recesso – segue a candidatura de outro alagoano que sonha presidir a Câmara. Atirando contra os conchavos do partido de Bolsonaro, o deputado JHC briga com a própria legenda, o PSB, para disputar a eleição. É uma guerra perdida, diante dos lances já sacramentados nas negociações. Mas o jovem e voluntarioso parlamentar jura que vai resistir.

Como estamos a três dias da votação, alguma surpresa pode sacudir os dois processos eleitorais – tanto na Câmara como no Senado. É que este é o país das chicanas jurídicas disfarçadas de coisa séria. Sobretudo no Senado, o nome de Renan Calheiros pode atrair alguma bomba de última hora.

Mas comecei isso falando de como a imprensa está mergulhada no caso da barragem mineira – um tipo de escolha que deixa o mundo político menos exposto no noticiário. É temporário, claro, e logo a bagaceira de esquemas suspeitos volta ao topo das notícias. Flávio miliciano deve saber disso.

Uma força-tarefa contra Renan Calheiros

Foto: Senado Federal 10990922 b0e9 4bda b447 d78ddde8f6d9 Renan Calheiros

As eleições para as mesas diretoras na Câmara e no Senado estão previstas para a próxima sexta-feira, primeiro dia de fevereiro. O alagoano Renan Calheiros chega às vésperas da votação com um incrível cartel de inimigos declarados. As cavalarias contra o senador de Murici estão dentro e fora do Congresso, nos partidos rivais e também no seu próprio MDB. Ele ainda não se declara candidato.

O procurador Deltan Dallagnol, que gasta mais tempo fazendo política do que trabalhando no Ministério Público Federal, é cabo eleitoral a favor de qualquer nome capaz de derrotar o experiente Renan. A advogada Janaina Paschoal, deputada estadual eleita por São Paulo, faz campanha contra o pai do governador de Alagoas. Exemplos assim, nesta guerra, fazem barulho nas redes sociais.

Nesta segunda, o Estadão trouxe reportagem com o título “Adversários definem estratégia anti-Renan para votação no Senado”. Confirmando que a candidatura do alagoano atrai uma artilharia de força-tarefa, informa o jornal: “Sete candidatos rivais do senador emedebista vão apoiar que Davi Alcolumbre (DEM) presida sessão preparatória com o objetivo de garantir o voto aberto na disputa”.

Essa informação significa que os adversários não desistiram de alterar as regras do jogo em cima da hora. Isso já foi tentado via STF, mas não há chance de prosperar. O Supremo entendeu que a forma da votação é uma questão interna do Senado. O voto fechado está devidamente previsto no regimento da casa, sem margem de dúvida. O mesmo vale para a eleição na Câmara Federal.

Do jeito que vai a confusão, o desfecho desse processo eleitoral caminha para o imprevisível. No próprio MDB de Renan Calheiros, surgiu o nome da senadora Simone Tebet, vista como alternativa viável ao cacique das Alagoas. O tucano Tasso Jereissati delira com a conquista da cadeira, mas ninguém leva essa hipótese a sério. Major Olímpio, do PSL, é outro nome mais próximo ao folclore.

No balaio de pretendentes a presidir o Senado, aí no meio dos sete rivais de Renan, estão ainda os veteranos Álvaro Dias e Espiridião Amim. Todos eles, é o que se fala na imprensa, sabem que na eleição não têm chances em condições normais. Daí porque união de forças, incluindo a adesão de setores influentes na opinião pública – como MPF, OAB, entidades de classe, alas da imprensa.

Por tudo isso, a eleição para presidir o Senado é algo muito mais sério para Renan Calheiros. Ele certamente nunca enfrentou uma aliança tão ampla contra seus interesses, numa simples escolha para o comando do Legislativo. Há quem diga que um acordo pode levar o senador a desistir da candidatura. Não é o mais provável. Ele agora não sai das redes sociais. Mas a campanha vai além.

Caso Pinheiro testa governo e prefeitura

O texto anterior começa com um registro sobre o domingo de sol fumegante em Maceió. Pois horas depois de publicar o post, a chuva começou, forte e quase sem parar, na madrugada desta segunda-feira – e os estragos são muitos até agora. Se a situação já era dramática no Pinheiro, o temporal fez novos estragos nas ruas e aumentou o medo de desabamento de imóveis naquela região.

Pelo que dá pra entender de longe, a demora para se chegar a um diagnóstico definitivo é uma das coisas mais absurdas. Não que se queira uma mágica repentina para explicar o fenômeno que atinge esse bairro da capital, mas não se tem sequer uma previsão para um laudo conclusivo. Daí porque o barulho daquela declaração de Bolsonaro sobre a “mineração” como causa do problema.

Desde a entrevista do capitão, 48 horas se passaram (até a publicação deste texto), e ninguém explicou o fato de o presidente da República ter revelado uma informação até então negada pelas vias oficiais. Segundo Bolsonaro, seriam as atividades da Braskem que teriam provocado os tremores do solo e as crateras que ameaçam os imóveis. Não houve desmentidos do Planalto.

O prefeito Rui Palmeira e o governador Renan Filho reagiram rapidamente às palavras de Bolsonaro. Rui formalizou pedido de explicações a Brasília; o governador suspendeu as licenças da Braskem para explorar áreas do bairro do Pinheiro. O alcance das iniciativas, em ambos, não vai além do cosmético em termos práticos. Mas é obrigatório marcar uma posição no campo político.

O fenômeno do Pinheiro testa, a cada dia e a cada novo lance, a capacidade dos governos municipal e estadual diante de desafio inédito. Não me lembro de algo dessa magnitude a exigir ações rápidas e eficazes por parte de gestores – sendo que o gravíssimo problema cresce a céu aberto, visto por todos que passem por lá. E atinge alguns milhares de pessoas e famílias, agora expulsas de casa.

O governo federal tem de lidar com a tragédia da barragem de Brumadinho (MG). Não demorou, e já se espalham declarações de autoridades trocando farpas na busca por culpados pelo acidente. Não deveria, mas o componente político é incontrolável nessas ocasiões – o que naturalmente piora tudo. Com os danos expostos à luz do sol ou debaixo de chuva, a política é outra ameaça no caso Pinheiro.

Jair Bolsonaro e o Gabinete de Crise

Domingo de sol brutal em Maceió. Ao longo do dia, as notícias elevam o número de mortos na tragédia de Brumadinho (MG), onde o rompimento de uma barragem deixou dezenas de mortos e muita destruição. Uma das primeiras medidas anunciadas pelo presidente Bolsonaro foi a instalação de um Gabinete de Crise. É algo previsível em ocasiões tomadas por calamidades de qualquer tipo.

Em Alagoas, tivemos um Gabinete de Crise em período de explosão da violência urbana ou depois da enxurrada de 2010, para citar dois eventos de natureza amplamente distinta. Com esse mecanismo, as decisões para enfrentar os muitos problemas ocorrem de modo mais rápido e seguro. Em tese, o fluxo de informação em tempo real é um dos aspectos decisivos na coordenação do caos.

Ainda assim, como ocorre agora em Minas Gerais, há uma boa dose de confusão, forjada no desencontro de dados, o que gera acusações de parentes de vítimas. Acidente que envolve centenas de pessoas não tem como escapar dos momentos de tensão entre os que procuram desaparecidos e a fonte de tudo o que está acontecendo. Com o trauma e as incertezas, é algo automático.  

O ideal seria encontrar por aí um bocado de Comitês de Prevenção. Cuidar, com o máximo rigor, para detectar a tempo as causas de um eventual acidente. Mas é claro que isso é uma verdadeira utopia no país dos desastres anunciados. Acabamos de descobrir, após o arrastão mortal da barragem em Brumadinho, que são milhares de outras barragens um tanto perigosas Brasil adentro.

Medidas preventivas não combinam com a nossa cultura – é o que parece quando se passa em revista a antologia de casos que marcam a história do país. De embarcações aquáticas a edifícios de todas as alturas, acidentes ocorrem com uma frequência inaceitável. E o padrão é sempre o da negligência da véspera aliada à omissão diante das consequências trágicas desses episódios.

Em termos de meio ambiente, como sabem todas as criaturas de todas as florestas, o governo Bolsonaro chega para facilitar as licenças de exploração de vastas áreas. É promessa de campanha, compromisso com os grandes donos do agronegócio, além de outros setores – como justamente as mineradoras. O presidente acha que a fiscalização “xiita” atrapalha o desenvolvimento.

Com o desastre de Minas Gerais, estamos assistindo ao governo tentar readaptar o discurso predatório às demandas de proteção ao meio ambiente. É difícil, mas a vida real impôs o imprevisível. Tenta-se explicar a Bolsonaro que proteger a natureza é afinal de contas uma garantia à vida humana. Por enquanto temos de nos contentar com mais um Gabinete – rodeado por crises, na emergência.

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