Blog do Celio Gomes

Sentença de prisão contra Danilo Gentili é aberração! Lembra um caso de Alagoas

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A sentença de seis meses de prisão em regime semiaberto para o humorista Danilo Gentili é uma aberração inaceitável. Ele foi condenado pela juíza Maria Isabel do Prado, da 5ª Vara Federal Criminal de São Paulo, pelo crime de injúria contra a deputada federal Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul. Em rede social, Gentili chamou a parlamentar de “cínica”, “falsa” e “nojenta”. Os dois têm histórico de troca de insultos, na tal polarização que tomou conta do país nos últimos anos.

A forte reação contrária à decisão da magistrada é o que realmente tem de ocorrer nesses casos. Bem ou mal, vivemos sob uma democracia, com uma Constituição que garante o sagrado direito à liberdade de expressão e de imprensa. A doutora atropela um paradigma que existe exatamente para impedir abusos contra qualquer cidadão. Prisão é medida extrema, uma estupidez em casos assim.

Na internet, é claro, existem também incontáveis manifestações de apoio à sentença. Muita gente comemora a gravíssima punição a Gentili. Mas esses que se refestelam com a decisão traduzem apenas suas preferências partidárias. Agem com uma lógica tão perversa quanto errada: contra meus adversários, todo o castigo possível, não importa que isso signifique agressão inominável à liberdade.

Comemorar a visão autoritária da juíza é um equívoco brutal. Uma decisão como essa não atinge apenas seu alvo circunstancial – é uma truculência contra todos. Não existe censura boa; não existe um abuso tolerável. Qualquer iniciativa como a sentença contra Gentili é repugnante e assim tem de ser tratada. Nessas horas, o que está em jogo nada tem a ver com filiação partidária. É tão claro.

Do mesmo modo, é preciso registrar que muitos que saíram em defesa do humorista estão movidos apenas por simpatia política. É o caso do tosco presidente da República e seus filhotes imbecis, que vieram a público se solidarizar com Gentili apenas porque ele virou um antipetista celerado. Fosse uma situação com sinal partidário contrário, estariam dizendo o oposto do que dizem agora.

Um gancho com Alagoas. Assim que li a notícia, lembrei de um episódio que ocorreu por essas bandas, há quase um ano. Em abril de 2018, a jornalista Maria Aparecida de Oliveira, de 68 anos, foi presa por decisão da Justiça, numa obscura ação movida pelo chefe do Ministério Público Estadual, Alfredo Gaspar de Mendonça. Seu crime: suposta prática de injúria e difamação contra o doutor.

Neste blog – enquanto alguns bambas na imprensa alagoana tratavam o caso com falinha mansa, para não magoar o procurador-geral de Justiça –, chamei a prisão da jornalista de jogo bruto, e cobrei esclarecimentos imediatos das autoridades. (Quem quiser, pode conferir os textos do dia 24 de abril do ano passado). Sem explicações para a arbitrariedade, a Justiça revogou a prisão um dia depois.

O caso da jornalista alagoana foi ainda mais grave do que o de Danilo Gentili, porque sequer havia uma sentença. Ela foi encarcerada sumariamente por aperrear poderosos com suas palavras num blog pessoal. Por aqui, meu amigo, se a gente bobear, essas firulas legais são varridas pelos que se sentem donos da vida e da morte de todos nós. Por isso, democracia é o melhor dos regimes, certo?

Reitero, para fechar, que a sentença da juíza contra o humorista é um escândalo que não pode prosperar. Sua decisão terá de ser anulada pelas instâncias superiores do Judiciário. O tempo de cerceamento das liberdades, de prisões abusivas e de tortura é aquele das ditaduras, como a que o Brasil viveu de 1964 a 1985, que os doentes do bolsonarismo celebram – com ignorância e vigarice.

Bolsonaro, Braskem e a negação da realidade

Uma das marcas registradas de praticamente todo e qualquer governo é o apego à manipulação de números oficiais e estatísticas. A vagabundagem consiste em dar interpretação enviesada aos dados objetivos da realidade. Aqui mesmo em Alagoas, ao longo das décadas, autoridades brigam a vida inteira contra os índices de analfabetismo, mortalidade infantil, homicídios, projetos anunciados e não cumpridos, e vai por aí. A tática é agredir as fontes de onde saem esses estudos inconvenientes.

Escrevo tudo isso depois de reações no governo brasileiro a dois tipos de levantamentos publicados nos últimos dias. Primeiro, foi Jair Bolsonaro, o desqualificado e amoral presidente, que, diante dos índices de desemprego, partiu pra cima do IBGE, responsável pela pesquisa. De novo, o velho exemplo da autoridade cretina que, sem resposta à mensagem ruim, atira no mensageiro.

O segundo caso ocorreu nesta quinta-feira 11/04, por parte do ministro Sergio Moro, aquele intelectual cheio de ideias para a relação entre “conges”. O Datafolha acaba de revelar que a maioria da população rejeita medidas que formam o eixo central do projetinho anticrime saído da cabeça do ex-juiz bolsonarista. Segundo ele, a pesquisa foi “mal feita”. Só porque ele quer que assim seja.

Como falei, não temos novidade nessa estratégia. Quando os doutores não têm argumentos frente à dura verdade, então dane-se a verdade. Os donos do poder têm essa mania de fingir acreditar em suas próprias mentiras. Fico imaginando o que eles pretendem com essa forma de reagir aos fatos. Nos dias de hoje, com as redes sociais, fica mais fácil para políticos espalharem suas fantasias.

A encrenca é que não se muda a feia realidade com maquiagem chapa-branca. Mas é claro que ninguém deve esperar qualquer autocrítica ou reconhecimento de equívocos de quem está apenas a serviço de um projeto político. O presidente idiota, que já é rejeitado pela maioria com apenas cem dias de governo, também dispara sua verborragia escrota sobre a pesquisa Datafolha.

Agora vamos a outro tipo de guerra entre vida real e o desejo dos poderosos. Refiro-me ao caso do Pinheiro, o bairro que está afundando em Maceió. Embora não exista um laudo definitivo, sobram evidências de que o trabalho da Braskem tem tudo para ser o grande responsável pelo drama que atinge milhares de famílias. A empresa contesta de maneira veemente. Jura que isso não procede.   

A contestação da Braskem, porém, não está baseada em qualquer estudo apresentado ao Ministério Público ou à Defensoria Pública, as duas instâncias mais engajadas na busca por solução do caso. Sobre os eloquentes indícios contra a multinacional, nenhuma palavra de seus diretores. O que eles fizeram foi irrigar as emissoras de TV com uma fortuna pela publicação de publicidade.

Nos últimos dias, nota oficial da empresa vem sendo divulgada no chamado horário nobre televisivo. É uma festa para os departamentos comerciais – muito preocupados em amparar os atingidos, se é que me faço entender. No meio da verdadeira tragédia, a batalha de informações e de narrativas é tão delicada quanto a investigação das causas do problema. Bom teste para o jornalismo.

Misturei governo Bolsonaro e Braskem porque, no tema aqui, ressalto que achincalhar os fatos em nome de enredos fantasiosos é traço comum de dois mundos – o público e o privado. A pilantragem de um está à altura da delinquência do outro. Não espere nada acima desse nojento padrão.

O “jornalismo” contra os trabalhadores

Sempre atrasado em relação ao ritmo da vida real, o jornalismo da TV Gazeta, filiada à Rede Globo, mostra espanto diante de camelôs e ambulantes nas ruas do centro de Maceió. Segundo o texto da reportagem no ALTV1 desta quinta-feira 11/04, os calçadões do comércio central da capital “voltaram a ser ocupados por ambulantes – até com vendedores de peixe”. E isso começou agora, foi?

Bom, que eu saiba, esse comércio informal está por ali há pelo menos uns dois anos, desde a última “ocupação”. Com bastante frequência, ando por aquelas bandas. Como já escrevi aqui, ao contrário do que diz a TV Gazeta sobre os consumidores que vão ao Centro, não vejo incômodo nenhum com a presença desses batalhadores. Aliás, acho que a paisagem fica mais vibrante com essa diversidade.

A apresentadora do telejornal parece incomodada. A jovem chamou a situação vista na reportagem de “novela mexicana do ordenamento do centro de Maceió”. Descontando a originalidade na comparação, percebe-se o engajamento da TV Gazeta em pressionar a prefeitura a resolver o “problema”. Ao vivo, no estúdio, um secretário municipal foi praticamente linchado pela “âncora”.

A investida da TV Gazeta sobre os trabalhadores que vendem suas mercadorias em carrinhos e bancas pelas ruas contou ainda com o depoimento do presidente da Aliança Comercial de Maceió, Guido Junior. Segundo ele, “a confusão” dos vendedores ao ar livre “espanta os clientes das lojas”. Na melhor das hipóteses, é uma meia verdade. Testemunha ocular do quadro, não vejo isso.

Para quem conhece um pouco como funcionam certas coisas na imprensa, digo com convicção o seguinte: essa pauta do ALTV certamente não teve origem na redação. Aposto que foi uma demanda do departamento comercial, preocupado em dar uma força aos grandes lojistas – e isso por uma razão elementar: empresários são anunciantes. Essa é a preocupação do jornalismo de ficção.

Espero que a Prefeitura de Maceió não embarque na campanha de caça aos trabalhadores do Centro – como defendem a TV e seus parceiros comerciais. Quando isso ocorre, a única coisa que temos é o uso da força bruta, como tantas vezes já ocorreu. Sugiro que os órgãos oficiais invistam energia em combater ilegalidades de outros patamares, como sonegação de IPTU e outros impostos municipais.

Agora vou dar uma volta entre a Senador Mendonça, a Moreira Lima, a Boa Vista e a rua do Sol, entre outras. Tem sempre um caldo de cana para refrescar enquanto você observa o vai e vem de humanos de todos os tipos. Aproveitando o passeio, talvez garanta um quilo de macaxeira, para o café, e algumas frutas, para a sobremesa. A variedade é um dos pontos fortes naquele comércio.

Bolsonarianos trocam ciência por milagres

Esqueça essa conversa fiada de ciência. O que determina os rumos de uma pessoa, de um grupo ou de um país é o milagre. É o que nos ensinam agora os sábios da seita bolsonariana. Pare de vacinar seus filhos. Fume duas ou três carteiras de cigarro por dia. Beba, até desmaiar, litros e litros de cachaça das boas. Ao contrário do que você pensava até hoje, nada disso faz mal ao corpo. Você só acreditava nessas lendas por força das mentiras espalhadas por cientistas do marxismo cultural.

Agora que você está sendo libertado das forças malditas da ciência comunista, aproveite e cancele seu plano de saúde. Suponho que os rapazes da nova direita já fizeram isso. Como cidadãos de bem do cristianismo, esses ilustres intelectuais da nova era resolvem todos os males, de pereba no pé a câncer no pâncreas, com um milagre de Jesus. Como dizem eles mesmos, simples assim. As teses geniais dos seguidores do presidente Bolsonaro já chegaram ao cinema.

Não podemos esquecer também de outro absurdo espalhado pela ciência, sempre a serviço do desgraçado marxismo globalista: aquecimento do planeta não existe, tá sabendo? Preocupação com o clima não passa de invenção de tubarões do comunismo que pretendem lhe deixar para sempre refém da Matrix. Ainda bem que os mestres da ordem bolsonarista estão aí para finalmente acabar com toda essa mistificação. Sugiro fechar os departamentos de ciência nas universidades.

Lembro que esse sopro de inteligência nos rumos do conhecimento no Brasil têm patronos específicos: Ernesto Araújo (o Beato Salu) e Eduardo Bolsonaro estão entre os baluartes que ditam as novas regras da Filosofia do Milagre. O Brasil atual, como já escrevi aqui, apresenta ao mundo uma verdadeira revolução no pensamento e nas ideologias. Estamos a meio metro de desmoralizar séculos de empulhação promovida por pensadores esquerdistas como Newton e Einstein.

Enquanto isso, no parque de diversões de aloprados olavetes, cai o ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez, aquele que sequer fala portugês inteligível. Mas os garotões da direita podem ficar tranquilos: o presidente trocou um antiglobalista por outro. O sujeito que vai assumir o posto reza na mesma cartilha milagrosa do antecessor. Portanto, se você espera algum projeto para fortalecer escolas, relaxe: a meta continua sendo eliminar a famigerada ideologia de gênero e afins.

O país tá uma beleza. Se você crê em milagre, fique aí rezando, que a vida será ainda mais incrível.

Os Trapalhões na Educação

Na próxima segunda-feira o presidente Jair Bolsonaro deve demitir Ricardo Vélez Rodriguez, o colombiano maluquete que assumiu o Ministério da Educação por indicação do filósofo Olavo de Carvalho. Foi o próprio Bolsonaro que sinalizou a mudança, ao afirmar que falta gestão na pasta. Passados quase cem dias de governo, uma das áreas mais importantes na máquina pública é palco de presepadas inspiradas na ideologia de caça a comunistas. Não havia perigo de dar certo.

O mais engraçado nisso tudo é a contradição mortal entre discurso e prática por parte do presidente e sua turma. Não haverá nomeações com viés ideológico, repetiam os arautos da nova política. Os seguidores do bolsonarismo, tão obedientes ao chefe da seita, também se agarram nessa historinha sobrenatural. Como se sabe, a regra era apenas mais uma estripulia retórica de um sujeito, Bolsonaro, que passou a vida a produzir mistificações tão grosseiras quanto cretinas. E mantém o padrão.

No atual governo dos caçadores de marxistas e globalistas, o MEC se transformou num circo de aberrações. A última do ministro Vélez foi anunciar que os livros didáticos de História teriam o conteúdo alterado para informar que o Brasil nunca teve golpe e ditadura a partir de 1964. O ridículo e a delinquência da coisa lembram o stalinismo. Sim, as porcarias se encontram e se harmonizam nos extremos. Direita e esquerda se equivalem na destruição do fato em nome da ficção chapa-branca.

Outro dado curioso são as nomeações para os cargos de segundo e terceiro escalões no MEC. Um amontoado de desqualificados ocupa os postos a partir de um critério único: a fidelidade à cartilha do professor Olavo. O resultado é que os chamados olavetes saíram batendo cabeça entre eles mesmos e abrindo guerra contra qualquer um que não demonstrasse o mesmo grau de fanatismo. Preocupados com kit gay e cantoria do Hino Nacional, esses incríveis intelectuais resumem a piada.

Agora, piada mesmo foi a demissão de Bruno Garschagen, um dos olavetes mais badalados entre os garotões da nova direita. O homem era Assessor Especial do ministro Vélez, tido como uma escolha do núcleo duro da seita. Caiu em meio à bagunça generalizada que tomou conta do ministério. Atenção: o ex-assessor é autor do livro Pare de Acreditar no Governo. Parece que ele não leu a própria obra. Ou melhor: ele deve ser um descrente de todo o governo que não o convide para uma boquinha. Se lhe garantirem uma mamata, o radical ceticismo vira confiança infinita.

Pensando bem, nem sei se a demissão de Vélez Rodriguez é boa coisa. Sem ele, o governo fica menos engraçado. Vai ser difícil encontrar um trapalhão à altura. No mercado, quem poderia suprir essa baixa na comédia já está no governo, no cargo de ministro das Relações Exteriores. Espero que o Beato Salu, que se disfarça de Ernesto Araújo, continue no picadeiro fazendo números tão hilários quanto ensinar aos alemães que o nazismo é de esquerda. Haja pilantragem e palhaçada!

Documentário sobre 1964 é uma enganação

Acabo de assistir ao documentário 1964 - O Brasil entre Armas e Livros, um filme anunciado como uma releitura do golpe militar que instaurou a ditadura que durou 21 anos no país. Produzida pelo Brasil Paralelo, espécie de organização que pretende uma revisão geral da História nacional sob a narrativa de uma direita esclarecida, a obra é decepcionante. A propaganda anterior ao lançamento prometia revelações demolidoras, mas isso não ocorre nas duas horas de imagens e entrevistas.

A turma de Bolsonaro fez o maior labafero sobre o filme. Os filhos do presidente se empenharam na publicidade, vendendo a ideia de que se trata de algo verdadeiramente inédito na produção cultural brasileira. Balela. Tudo o que está lá é conhecido. O grande mérito seria a apresentação de documentos obtidos nos serviços secretos da antiga República Tcheca. A papelada comprovaria a interferência do então bloco soviético sobre ações da esquerda no Brasil. Mas o que aparece são alguns papéis, mostrados com certa correria e superficialidade. Diria que forçaram a barra.

Além do mais, essa ligação entre partidos de esquerda e governos comunistas do Leste Europeu também é conhecida há muito tempo. Como cinema propriamente dito, o documentário não significa nada: é cansativamente convencional do primeiro ao último acorde de uma trilha sonora que lembra marcha militar. Um dos maiores pecados é a narração em off, em tom quase solene, um recurso que demonstra a visão quadrada dos diretores. Numa medida exata, a criatividade é zero. 

São vinte e quatro entrevistas, com algumas caras recorrentes em nossa imprensa nos últimos anos, como Willian Waack, Luiz Felipe Pondé e, claro, Olavo de Carvalho. É muito falatório, o que acaba produzindo também a recorrência de ideias nos depoimentos - outro erro grave. Insisto: não há nada de novo no material, nenhuma informação inédita que autorize uma reinterpretação do golpe de 64. É até frustrante, diante do barulho que se fez antes do lançamento. Praticamente um estelionato.  

Duas teses são repetidas exausitvamente ao longo de todo o filme: a primeira é a de que o golpe foi uma resposta ao iminente golpe da esquerda para instaurar a ditadura do proletariado; a segunda diz que os militares cometeram o erro de deixar a hegemonia sobre o campo cultural com setores da esquerda, que dominaram a universidade, a imprensa e o showbiz. Ocorre que essas ideias também já foram amplamente divulgadas. Ficamos sabendo que os caras da direita têm verdadeira fixação em Antonio Gramsci, o pensador da guerra cultural. Involuntariamente, é até engraçado.

A exibição do filme causou confusão em algumas cidades do país. Uma rede de cinema chegou a divulgar nota afirmando que a exibição foi um equívoco. Aí, não! Tratar o documentário como algo a ser banido, que seria um crime contra a democracia e coisa e tal, não passa de estupidez. É a mesma reação lastimável que houve contra outro documentário, o ótimo O Jardim das Aflições, sobre o filósofo Olavo de Carvalho. Censura prévia nas artes, jamais, nem à direita nem à esquerda. 

Quer ver um documentário sobre a ditadura militar, com uma pegada crítica sobre a narrativa da esquerda para aqueles fatos? Então veja Reparação, do cineasta Daniel Moreno. Está no YouTube. Lançado em 2010, este sim, é um filme com informações que merecem uma reflexão séria. Passa longe do carnaval da obra do Brasil Paralelo. Ao contrário, se vale da sobriedade para ir fundo em episódios dramáticos. O resultado é uma das melhores produções do nosso cinema sobre 64, um denso painel que ilumina a História. O filme não teve a repercussão merecida quando apareceu.

Quanto a 1964 - O Brasil entre Armas e Livros, ficamos com um amontoado de velhas imagens, todas vastamente já exibidas, e com um trololó que pouco ou nada acrescenta ao que está consagrado na historiografia brasileira. Os meninos da nova direita, que estão descobrindo o mundo agora, ao que parece estão adorando. Faz sentido. Desinformados ficam surpresos com qualquer besteira, com qualquer enganação travestida de grande coisa. No mais, é pregação para bobos convertidos.

Briga entre SMTT e Arsal mistura politicagem e interesses econômicos

A ação intempestiva e até meio truculenta da Prefeitura de Maceió pegou todo mundo de surpresa. De uma hora pra outra, sem aviso prévio, sem negociação em qualquer nível, uma portaria autorizou a SMTT a barrar a circulação de veículos que fazem transporte intermunicipal de passageiros. A partir de agora, as vans teriam de despejar os viajantes nos extremos da capital, tipo a Forene - para quem chega a Maceió por aquela geografia. Deu-se uma confusão dos diabos. A portaria acabou suspensa pela Justiça após reação barulhenta da Arsal, a Agência Reguladora estadual. Temos aí, no resumo da coisa, para além da trombada administrativa, uma briga política misturada ao explosivo componente do interesse financeiro. Nenhum ineditismo por aí. Infelizmente.

Como se sabe, a SMTT, segundo as explicações do mauricinho que chefia o órgão, agiu motivada pela necessidade de evitar a ilegalidade que representa a circulação das vans pela cidade. Afiinal, se o serviço é intermunicipal, os carros não podem pegar passageiros nas ruas de Maceió. Era essa a acusação aberta feita pela prefeitura aos motoristas dos alternativos. E o município está tão convicto de suas prerrogativas, que saiu destruindo os pontos de ônibus destinados ao desembarque de passageiros que viajam do interior para a capital. Fez isso também sem qualquer informação prévia ou esclarecimento sobre suas decisões. Por isso falei de truculência na abertura do texto. Que virulência é essa? Foi algo fora dos padrões, que realmente chamou atenção pelo rompante.

Sim, preciso explicar o negócio do interesse financeiro. É simples. A espalhafatosa investida da prefeitura da capital decorre de conchavo com empresários de ônibus que exploram o transporte coletivo na cidade. Esse é um dos setores do campo privado, digamos assim, mais enganchados com a esfera pública. Concessões, contratos, tarifas, planilhas - tudo isso está sempre em certa ebulição. O lado mais deletério dessa tradição fica por conta do engajamento das empresas em campanhas eleitorais. É esse histórico de tabelinha entre público e privado que explica a extravagante ação de agora da SMTT. O município de Maceió agiu para defender não o passageiro da capital, mas o patrimônio financeiro de empresas de ônibus. Falta a mesma dedicação em outras áreas.

Do outro lado da briga, a engrenagem da Arsal não é lá nenhum exemplo de transparência. Aliás, o mandachuva da agência estava outro dia no meio de uma fogueira, apontado como demissionário. É outro setor, este no governo do Estado, a trocar a gestão técnica por maquinações em função de presepadas políticas. Seja como for, nesse caso, a lógica aparente dos fatos põe a Arsal do lado que seria o certo. É difícil defender o carnaval demolidor da SMTT. E, no fim das contas, o episódio despeja gasolina na briga entre o governador Renan Filho e o prefeito Rui Palmeira. Os dois vão se enfrentar no ano que vem, cada um com seu candidato à prefeitura da cidade. Também por isso, qualquer faísca aumenta a temperatura da guerra. O futuro próximo tende ao acirramento.

Voltando ao tumulto concreto com o transporte intermunicipal, por enquanto está tudo como era antes da portaria da SMTT. Mas a prefeitura garante que não tem acordo com a Arsal. Vai continuar brigando para banir os veículos que deixam os passageiros do interior em algumas áreas da capital. Repito: a causa que explica essa determinação vigorosa são os interesses econômicos de um setor específico, o empresariado do transporte coletivo. Ao recorrer a marretadas para demolir pontos de ônibus, o município acaba por revelar que estamos diante de um casamento pra lá de bem amarrado. Agora é esperar pra ver se haverá algum desfecho que tenha como maior beneficiado Sua Excelência, o cidadão. Porque fora disso, meu amigo, não passa de uma briga suja.

O Brasil, o nazismo e o governo Bolsonaro

1. O Brasil está prestes a ensinar ao mundo o que afinal é o nazismo. Quem imaginaria que, em 2019, nós estaríamos aqui a dar lições para redimensionar a história universal da infâmia! É o que estão fazendo ministros de Estado, intelectuais, jornalistas e, claro, o presidente Jair Bolsonaro. O grande pensador que lidera esse movimento não poderia ser outro que não o chanceler Beato Salu, também conhecido como Ernesto Araújo. Devo reconhecer a incrível dedicação dos rapazes que descobriram a nova direita - e acham que isso representa algum avanço no modo de vida brasileiro. A insanidade e a vigarice não param de avançar. Nesse projeto, há sites e blogs bancados pelo Erário.

2. A extrema direita (ou o nome que se queira dar a esse lixo) tenta emparedar as instituições, sobretudo o Supremo Tribunal Federal. O governo desqualificado de Bolsonaro aposta nesse caminho para impor suas ideias. Para isso conta com a adesão dos militantes convictos da causa, mas também se vale dos sempre na praça inocentes úteis. Estes embarcam em qualquer onda que reproduza a filosofa do prendo e arrebento. Nessa toada, não importam os fatos, mas o discurso da moralidade de fachada. Os heróis dessa turma são juizinhos de quinta, como Bretas e Moro, dois brucutus bolsonaristas com verniz de grandes juristas. A dupla sonha com voos mais altos.

3. Bolsonaro não tem qualquer projeto para o Brasil. Basta ver como ele trata a reforma da Previdência, tida como a prioridade das prioridades pela tropa governista. Ao menos é esse o discurso repetido todos os dias não apenas pelo ministro Paulo Guedes, mas por gente de amplos setores da sociedade, dentro e fora do governo. Todos defendem a reforma; meio mundo escreve sobre a urgência de mudar as regras para aposentadoria, afinal o sistema está quebrado. Mas nem Bolsonaro nem seus filhos idiotas tratam do tema. Eles só falam de pornografia, globalismo, caça a comunistas e pilantragens afins. Apesar da bizarrice, nenhuma surpresa diante do quadro.

4. Bolsonaro e seus filhotes continuam com a tática da campanha: alimentar sua horda de fanáticos com os mesmos temas diversionistas de sempre. Por aí, o que interessa pra eles é esculhambar a esquerda, incentivar a tara por uma pistola, atacar qualquer voz em defesa dos direitos humanos, patrocinar todo tipo de preconceito, demonizar a escola e professores, pregar lições carolas de um cristianismo de ficção, espalhar mistificações pelas redes sociais. Se tirar o Twitter do presidente e dos garotões, acho que o governo cai de vez. Os patetas não fazem outra coisa a não ser batucar mentiras sem parar. Não se pode esperar nada além disso quando cretinos se apresentam. 

5. A reportagem de capa da Veja desta semana acerta em cheio ao radiografar o que a publicação chama de incrível baderna na Educação. O governo como um todo é uma porcaria, mas a Educação traduz de modo perfeito o nível dos governantes que estão no poder há apenas três meses. Nunca houve um governo que, em tão pouco tempo, tenha demonstrado tanta incompetência em todas as áreas. Este é Jair Messias, o mito feito de areia, alguém cujas qualidades só existem para os doentinhos daquela nova direita. Aliás, o ministro colombiano está no cargo, mas já caiu. 

6. Um dado que não se pode negligenciar sobre o governo Bolsonaro é o desmedido ódio contra a imprensa. Ao lado da caça aos comunistas, do messianismo religioso e do desprezo pelo universo intelectual, atacar o jornalismo profissional e sério é um princípio de atuação dessa turma. E aqui, mais uma vez, o governo conta com os dementes (os idiotas úteis) que acreditam mesmo que informação de verdade está nas redes sociais. É tudo o que qualquer tiranete bostinha espera obter - uma legião de desinformados, no cabresto das twitadas. A responsabilidade da imprensa é gigante.

(Michel Temer preso e solto. 1964 e a ditadura que bolsonaristas adoram. O prefeito do Rio sob ameaça de impeachment. Lula e a prisão após condenação em segunda instância. Em Alagoas, a popularidde do governador Renan Filho e do prefeito Rui Palmeira. Em Maceió, o drama no bairro do Pinheiro e o perigoso populismo de certas autoridades que começam a surfar no desespero que afeta milhares de famílias. São temas sobre os quais precisamos conversar. Espero voltar logo. A demora desde o últmo texto se deveu a encrencas tecnológicas e a demandas pessoais. Até já).

“Esse país maravilhoso”!

Nunca antes na história do Brasil um presidente da República foi tão ridículo diante do mundo. A frase do título é de Jair Bolsonaro, pronunciada por ele durante jantar com irrelevantes figuras da extrema direita dos Estados Unidos. Ao expor suas ideias inúteis, ele assim se referiu para bajular seu ídolo Donald Trump. Uma viagem que é criticada por todos os lados, até por líderes conservadores.

É até difícil saber o que é mais deplorável na visita do presidente brasileiro à pátria do Tio Patinhas e do Pateta. Tem a criminosa defesa de uma invasão militar à Venezuela; tem o ataque delinquente aos imigrantes que trabalham duro e honestamente; tem o falatório típico de palanques, como se ainda estivesse em campanha eleitoral; tem a baboseira de anunciar guerra ao “comunismo”. É cansativo.

Para não restar dúvida quanto à mediocridade de sua mente perturbada, Bolsonaro fala em discurso que “não é homofóbico”. Ao lembrar um de seus traços de personalidade, o sujeito deu risada, como se isso fosse normal. Se der uma olhada na imprensa mundial, ele verá que além da homofobia também está consagrado como racista, misógino, truculento e adepto de grupos de extermínio.

Naturalmente existe método nessa patacoada. Bolsonaro tem certeza que, apelando a temas diversionistas, por meio de ações e gestos grosseiros, ele mantém na coleira os garotões da direita maluquete e os cidadãos de bem que batem em mulher e adoram uma pistola. Esse é, digamos assim, o núcleo duro do eleitorado que jogou o Brasil nas mãos de um vagabundo do baixo clero.

Leio na imprensa nacional que o assunto “Bolsonaro envergonha o Brasil” é o mais comentado no Twitter durante a manhã desta terça-feira. É a marca de um governante que tem como norte a perseguição a todos os que discordem de suas ideias – além de expor a vasta ignorância do líder de um país das dimensões do Brasil. E olhe que o elemento ainda vai se encontrar com o ídolo Trump.

No terceiro mês do governo amigo de milicianos, o padrão é um vexame atrás do outro, um abuso a cada clique nas redes sociais, uma pilantragem a cada ato do presidente ou de seus filhotes. Nesse ritmo, o retrocesso brasileiro entrará para o livro dos recordes. Para bolsonaristas, tudo bem. Eles se orgulham do chefe pateticamente deslumbrado com o país maravilha. Dias bem piores vêm aí.

A comédia brasileira e a nova política

1. Novos governadores, eleitos em 2018, fizeram campanha pregando mudança radical nas práticas políticas. Mas, como revelou a Folha de S. Paulo, a revolução que prometiam acabou no dia da posse e nas primeiras nomeações para os cargos de confiança. De norte a sul, é uma farra familiar à altura dos piores padrões da vida pública no Brasil. A reportagem da Folha mostra que os mais vorazes são justamente nomes do PSL, partido veio ao mundo para inaugurar no Brasil o paraíso da ética.      

2. Nossa imprensa informa que está sendo criado na Assembleia Legislativa um troço chamado Frente pela Liberdade, de inspiração “liberal”. Segundo dizem os mentores, a ideia é propor projetos na contramão da ideologia de esquerda. Fazem parte do grupo, entre outros, os deputados Davi Maia, Bruno Toledo e Cabo Bebeto – três bolsonaristas caetés. Uma das brilhantes pautas da Frente deve ser o apoio ao armamento da população. A tara por uma pistola nunca foi tão badalada.

Suponho que a frente liberal da Assembleia também deve propor iniciativas de combate ao perigo do comunismo. Para missão tão relevante, deve contar com o apoio de setores católicos e evangélicos. Entre uma oração e outra, a prioridade é a guerra à ameaça vermelha que assombra a seita liderada por Bolsonaro. Aliás, é o que o presidente está fazendo nos Estados Unidos.

3. Eduardo Bolsonaro, um dos trombadinhas criados pelo presidente, disse que brasileiros ilegais nos Estados Unidos “envergonham” o Brasil. Como se sabe, para o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, somos um bando de “canibais” e “ladrões”. Ou seja, o novo governo tem um conceito bastante elevado do povo que o elegeu. É a tradução perfeita do pensamento dessa gang.

4. Na passagem pelos Estados Unidos, Bolsonaro e o filho Eduardo foram conhecer a CIA, a agência americana de espionagem. O ministro Sergio Moro também acompanhou o chefe. Detalhe: a turma manteve a visita fora da agenda oficial, ao que parece numa tentativa de esconder a presepada. Certamente o Brasil tem muito a ganhar com as técnicas de arapongas que fuçam a vida de todos.

5. Na onda de fanatismo dos bolsonaristas, o senador Major Olímpio apresentou uma ideia e tanto para prevenir massacres como o que houve na escola de Suzano, em São Paulo: uma arma para cada professor. É uma iniciativa pueril, burra e ofensiva, diante da tragédia que destroçou tantas famílias. Mas nada que surpreenda. A mentalidade dos atuais donos do poder não vai além disso daí.

6. A nova secretária-executiva do Ministério da Educação, Iolene Lima, já disse a que veio. A número dois do MEC pensa o seguinte sobre políticas públicas para o ensino de milhões de estudantes: “O aluno aprende que o autor da História é Deus. O realizador da Geografia é Deus. Deus fez os relevos, fez o clima. O maior matemático é Deus”. Muito bom! Os cristãos da direita criacionista, que rezam no catecismo da cruz e da bala, estão vibrando com essa pedagogia baseada no sobrenatural.

7. Estou ansioso pra ver o bolsonarismo em ação por aqui. Onde estão a turma do PSL e seus aliados nas Câmaras Municipais e na Assembleia Legislativa? Ninguém ainda propôs que o governo estadual contrate snipers para agir nas periferias? Ninguém ainda defendeu o canto do Hino de Alagoas nas escolas, creches e redações? Assim tá muito sem graça. Tem de turbinar a comédia.

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