Blog do Celio Gomes

A pureza de Maria é real? Há controvérsia

Parece que os padres da Igreja Católica andam trocando as orações pelas novelas na TV. Chego a essa conclusão ao ler reportagem na Veja.com sobre a revolta de católicos contra Jesus, o folhetim exibido pela Record. A indignação que veste batina decorre da versão que a história televisiva apresenta sobre Maria, a mãe do Filho de Deus. Afinal, ela se manteve virgem por toda a vida?

De acordo com a trama da novela, não. E isso foi representado, segundo a Veja, numa cena em que Maria e o carpinteiro José aparecem com três crianças – Jesus e dois irmãos. A encrenca é que essa versão é a favorita dos evangélicos. Foi o bastante para uma verdadeira declaração de guerra santa nas redes sociais. Seguidores do catolicismo defendem fogueira para os roteiristas da obra.

Um exército de padres e até um bispo – Dom Henrique Soares da Costa – denunciam o que consideram um insulto à imagem de Maria. Eles garantem que as duas crianças são na verdade primos do messias mirim, e não irmãos. Segundo esses porta-vozes do além e da História, José nunca tocou em sua mulher, que nasceu virgem e assim continuou por toda a existência. É o mito.

Sobrou para o também autodenominado bispo Macedo, inimigo mortal dos cristãos católicos. Fala Dom Henrique, o bispo noveleiro da Igreja Romana: “Aquele Jesus é o Jesus da Universal, não é o Jesus das Escrituras; é o Evangelho segundo Edir Macedo e seus espúrios interesses”. Essas palavras, também segundo a matéria da Veja, foram publicadas na página pessoal do religioso no Facebook.

Não perderei tempo com especulações sobre os interesses de nenhum dos lados. Li o suficiente para conhecer vastos capítulos acerca de ideias e ações – espúrias e nada legítimas – que enredam santidades católicas, evangélicas e esotéricas. É o mundo da fé, dominado pelo dogma e intolerante a toda e qualquer divergência. Se você discorda, já está condenado sumariamente.

Como um típico militante, em carta aberta no Facebook, também segundo a reportagem, Dom Henrique vê na história da Record as digitais do Satanás. Diz o sábio homem: “Um católico que assiste àquilo peca gravemente”. Suponho que ele deve estar agora pagando alguma penitência por dar atenção às aventuras novelescas do casal José e Maria. O pregador precisa ser o bom exemplo.

Só falta agora a direita cristã alagoana recorrer ao Ministério Público, para banir a novela da programação da TV. Do jeito que anda o Brasil, certamente haverá alguma autoridade de prontidão, rezando pelo bem da humanidade, disposta a levar adiante uma causa tão relevante para nossas vidas. E você aí preocupado com seu emprego e com seu time no Brasileirão. Acorde!

Eu falei sobre como anda o Brasil? Como diz aquela moda de viola, nem Jesus dá jeito.

A “viagem lisérgica” das eleições! Um dia alucinado na política nacional

Um sábado muito louco na política brasileira. Virtualmente inelegível, Luiz Inácio Lula da Silva teve sua candidatura presidencial confirmada em convenção do PT. Nos discursos, as lideranças da sigla dizem que não pode haver eleição sem o ex-presidente e que haverá “luta até o fim” para manter seu nome na urna. Mas todos sabem que isso não tem chance nenhuma de ocorrer.

Durante a convenção, os presentes ouviram uma mensagem, que foi lida no palanque, enviada por Lula diretamente da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde o petista está preso desde o dia 7 de abril. Para alguns analistas, a insistência de Lula e do PT é uma tática suicida. Acabou isolando a legenda numa aposta que não tem futuro ao invés de viabilizar aliança com outro nome.

Nessa lógica, seria o caso de o PT fechar com Ciro Gomes como candidato, por exemplo, indicando o vice na chapa. Era o sonho do ex-ministro e ex-governador do Ceará. Mas deu tudo errado. Lula não apenas repudia essa alternativa como ainda trabalhou para sabotar uma quase certa aliança entre o PDT de Ciro e o PSB. Sai todo mundo perdendo e adversários em comum festejam.

Na convenção do PDT, também hoje, Ciro partiu para o ataque dizendo que “a cúpula do PT está numa viagem lisérgica”, deixando claro o tamanho do estrago entre as partes. Aquela velha história de frente de esquerda, que nunca foi lá uma possibilidade pra valer, está morta. Sem falar que Ciro, também ele um camaleão, correu atrás da direita, mas acabou sendo igualmente descartado.

Em outra praia, Janaina Paschoal, a advogada do impeachment de Dilma, anunciou que não será a vice na chapa de Jair Bolsonaro. Alegou que sua família não poderia se mudar para Brasília no caso de vitória do candidato. Usando as redes sociais, ela fez questão de reafirmar seu apoio ao nome do PSL, jurando que ele não é machista nem autoritário. A recusa provocou irritação entre bolsonaristas.

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin também foi confirmado em convenção com um balaio de partidos. Além do seu PSDB, formam a aliança outras oito legendas, entre elas o PP, de onde saiu a senadora Ana Amélia para vice. No encontro, tucanos se disseram “apaixonados” por ela, a “vice dos sonhos”. Amélia foi tratada como a “cereja do bolo” na aventura rumo ao Planalto.

O sábado também foi dia de convenção para Marina Silva (Rede), Álvaro Dias (Podemos) e João Amoêdo (Novo). No lançamento da candidatura de Dias, ele veio com uma brincadeira. Disse celebrar a República de Curitiba e anunciou que, se eleito, convidará o juiz Sérgio Moro para ministro da Justiça. Procurado pela Folha, o magistrado informou que não iria comentar a piada.

Nas convenções estaduais, o senador Romário foi confirmado como candidato a governador pelo Rio de Janeiro. Já em Belo Horizonte, acabou em pancadaria o encontro do PSB para lançar Márcio Lacerda ao governo de Minas, vetado pela própria cúpula do partido após aquele acordo com o PT.

Para fechar essa resenha da política brasileira, um detalhe sobre a convenção de Alckmin: uma das atrações foi Tiririca. Ele havia anunciado que, após dois mandatos como deputado federal, não disputaria as eleições. Mudou de ideia em nome de um país melhor. Tenha fé, que o Brasil avança.

Jair Bolsonaro e o jornalismo brasileiro

Sem querer, o presidenciável Jair Bolsonaro provocou um certo debate sobre o jornalismo e a grande imprensa brasileira. O falatório foi consequência da entrevista que ele deu ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira. Segundo muita gente, os entrevistadores foram parciais e levaram a conversa para temas batidos. Digamos que o candidato deu um baile.

De fato, alguns dos jornalistas foram repetitivos e insistentes em questões já respondidas. Também houve, mais de uma vez, demonstração de pura rabugice contra as opiniões de Bolsonaro. Sobretudo na primeira meia-hora de programa, assuntos ligados à ditadura militar, tortura e homofobia dominaram a sabatina além da conta. Entrevistadores pecaram pela redundância.

Ricardo Lessa, o âncora que assumiu o Roda Viva em abril passado, após a saída de Augusto Nunes, tem sido um desastre. E assim foi mais uma vez com Bolsonaro. O mediador parece o tempo todo fora do ar, tropeça nas perguntas desde o começo e não consegue dar ritmo ao andamento do programa. Não é o caso, mas passa a impressão de que estamos vendo um principiante.

Já escrevi, várias vezes, o que penso da candidatura de Bolsonaro – o que sempre me rende alguns “elogios” de seus simpatizantes. Não é este o ponto aqui, claro. Quero falar dos jornalistas. Estavam lá estrelas dos maiores veículos: Folha, Estadão, O Globo, Veja e Valor Econômico. Em alguns textos sobre o programa, houve quem considerasse o desempenho do time até “pavoroso”.   

Foi tanta pancadaria, que fui rever o programa antes de escrever o que você está lendo agora. (É para isso que serve o YouTube). Estou certo de que o resultado não foi essa desgraceira tão alardeada. Apesar de excessos e equívocos, é uma distorção dos fatos tratar a participação dos entrevistadores, incluindo o âncora, como um bloco completamente errado e sem variação de temas.

Em boa medida, parte das avaliações negativas está sob suspeita; ainda que tentem disfarçar, muitos dos que atacaram a bancada, na verdade, torcem por Bolsonaro, mas não confessam essa simpatia. Logo, as severas críticas perdem bastante em credibilidade. O que essas vozes supostamente rigorosas com a imprensa fizeram foi repetir a postura do candidato. Ele se sente “perseguido”.

Dos cinco profissionais convidados do programa, o realmente problemático foi o representante do Estadão. Sua ideia fixa eram os tais arquivos da ditadura. Acho que ele voltou umas seis ou sete vezes ao tema, sem qualquer noção de bom senso. E, insistindo nisso, fez o jogo do candidato. Esse tipo de pauta é a praia de Bolsonaro – tem posições já conhecidas e ele não esconde o que pensa.

Para a torcida do candidato, ele deu um baile, como escrevi lá no começo. É exagero. Não chegou a tanto, mas, sob sua lógica e a de seus aliados, foi esse o entendimento do público. A repercussão da entrevista expôs, sim, uma imprensa que comete falhas graves e precisa estar preparada diante de alguém que lidera a corrida eleitoral. Subestimá-lo é a via mais perigosa na hora da entrevista.

Na noite desta sexta-feira, encarei mais uma sabatina com Bolsonaro. Foram duas horas de conversa na Globonews. Para não variar, ele acabou gerando outro momento de tensão com a imprensa ao citar um editorial assinado por Roberto Marinho, em 1984, com elogios ao golpe de 64. A referência levou o Grupo Globo a divulgar uma nota de esclarecimento, lida no fim do programa.

No encontro com os jornalistas da Globonews, nenhuma surpresa sobre as ideias do candidato, nem sobre a forma como expressa seus pensamentos. Dizer que ele defende barbaridades é apenas – recorrendo ao velho lugar-comum – chover no molhado. A imprensa deve pegar no seu pé, como tem obrigação de fazer o mesmo com todos os demais presidenciáveis. Isso é jornalismo.

O transporte clandestino em Maceió e a caixa-preta das empresas

As empresas de ônibus que fazem o transporte coletivo em Maceió despejaram hoje um coquetel de números e cifras, para acusar a concorrência desleal do serviço clandestino, realizado, na maioria dos casos, por taxistas devidamente credenciados pela prefeitura. É claro que o objetivo é pintar um panorama alarmista e, com isso, justificar a baixa qualidade no desempenho dessas empresas.

As informações dos empresários estão publicadas em todos os sites de Alagoas, e o leitor pode conferir tudo aqui no CADAMINUTO. Eles alegam que a cidade está tomada por veículos que operam a chamada “lotação”, o que faz com que o setor tenha prejuízo com a queda no número de passageiros. É uma forma de pressionar os gestores municipais, quase uma chantagem à luz do sol.

Afirma o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros que os condutores irregulares carregam 3 mil pessoas por dia na capital, 90 mil por mês, com faturamento de 3,6 milhões de reais por ano. Nossa, que tragédia! Não devemos esquecer que esse levantamento todo não é oficial, uma vez que foi feito por uma entidade privada, sem o crivo de qualquer esfera pública.

Já o faturamento e a tal planilha de custos dessas empresas são – e sempre foram – um mistério mais profundo que a existência do sobrenatural. Não por acaso, o impasse sobre o preço da tarifa costuma bater na justiça com uma frequência quase corriqueira. Não lembro, ao longo das últimas décadas, quando foi que esse segmento andou na linha como deve ser. O histórico não é nada bom.

Devemos lembrar também que o contrato de concessão do transporte coletivo está sob intervenção da prefeitura, depois que a medida foi recomendada pelo Ministério Público Estadual e pelo Ministério Público de Contas. A decisão decorre das falhas na prestação do serviço, o que significa descumprimento dos termos do contrato. É por isso que as empresas estão fazendo zoada.

Durante anos e anos, é fato consumado, o setor se meteu na política, com o financiamento de campanhas – o que piora muito as coisas. Pelo que sei, a atual gestão na prefeitura decidiu espanar uma relação que sempre foi pra lá de obscura. Não é fácil. É o que explica a intervenção em vigor. As peripécias pela catraca são tão antigas quanto o cadeado da caixa-preta nas contas das empresas.

Pelo conjunto da obra, a gritaria dos donos das linhas de ônibus não me comove nem um pouco – nem me convence sobre suas boas intenções e o padrão do serviço que oferecem. Dito isto, vou ali no centro de Maceió, a bordo de um táxi-lotação. Sou velho conhecido dos camaradas do volante.

Papa Capim, eleições em Alagoas e a renovação da política

Leio na imprensa que Carlinhos Maia, o youtuber alagoano que faz sucesso na Internet, ficou em segundo lugar na categoria não sei o quê do Instagram. Ele é um “influenciador digital”. O talento do rapaz já o transformou em amigo de infância de celebridades nacionais. Depois de aparecer em programa da Globo, ninguém mais duvida de seu potencial para contar piadas.

Outra personalidade que balança as redes sociais por aqui atende pelo nome de Papa Capim. A repercussão de seus vídeos também o levou a um programa da Record TV. Agora, ele acaba de se lançar candidato a deputado estadual. É apadrinhado por pesos pesados da política de Alagoas – o que dá a exata medida de nossas principais lideranças na vida pública.

Tomei conhecimento desses dois fenômenos porque, como disse, eles estão em destaque no noticiário; são pautas obrigatórias em todos os veículos. A figura do influenciador mobiliza a imprensa mundial. Se alguém arrasta uma multidão de seguidores e “curtidas”, imediatamente chama atenção de jornalistas. Não importa o que ele faz, será tratado como uma arrebatadora maravilha.

Desesperada com a perda de audiência em todos os horários, e entre todos os segmentos de público, a TV rasteja por qualquer coisa que, supostamente, garanta alguns pontinhos no Ibope. Reafirmando sua vocação de origem, vale tudo para tentar conquistar o telespectador. Não importa que seja a mais desvairada aberração, vamos levar ao palco e espremer até o bagaço.

Nessa busca alucinada por gente popular na Internet, a televisão vem recorrendo cada vez mais a Felipe Neto, que já pode ser considerado um verdadeiro clássico de bizarrice no YouTube. Campeão de seguidores, sem nada na cabeça, ele é convidado de tudo o que é programa, em todas as redes abertas e emissoras por assinatura, para falar de qualquer coisa. Vale um estudo de caso.

Não adianta brigar com a realidade. Esse tipo de novo comunicador, por assim dizer, surgido diretamente da Internet, vai dominar o mundo. Se não tanto, estará cada vez mais presente nas páginas da imprensa e nos programas de auditório das televisões. Se você preferir, pode chamá-los de os novos formadores de opinião. Não pensam, mas são craques na milenar arte do grotesco.

E sendo assim, nada mais natural que os políticos, muito preocupados com a renovação na vida partidária, decidam abraçar esse fenômeno, para elevar o nível de nossos representantes. Papa Capim está à altura de nossos maiores caciques na esfera pública. Vejam: ele tem o apoio de nada menos que dois ex-ministros de Estado. Sejamos otimistas. O mundo fica cada vez melhor.

TV, redes sociais e eleições: o que é mais decisivo na guerra pelo voto?

O tucano Geraldo Alckmin fechou aliança com o tal do Centrão e, com isso, garantiu o maior tempo de TV na propaganda eleitoral. Ciro Gomes, ao contrário, está isolado com o seu PDT e, sendo assim, terá míseros segundos para vender seu peixe também na televisão. Situação semelhante é a de Marina Silva e Jair Bolsonaro. Isso será mesmo decisivo na guerra pelo voto do eleitorado?

Nas eleições do passado, a pergunta acima não teria cabimento nenhum. Afinal, o brasileiro, rezam a lenda e os fatos, sempre decidiu o voto a partir do que pintava no chamado Guia Eleitoral na TV e também no rádio. Dizem os marqueteiros que o horário televisivo, principalmente, tinha força o bastante para consagrar um candidato – ou, pela mesma força, destroçar uma candidatura.

Para não ir muito longe, dois exemplos rápidos: Lula em 2002 e Marina em 2014. No primeiro caso, Duda Mendonça reinventou o sapo barbudo, segundo consta em tudo o que se escreveu sobre aquela eleição. E no segundo caso, João Santana, marqueteiro de Dilma, transformou Marina num monstro perverso que mataria o brasileiro de fome. Doze anos separam os dois episódios citados.

Nesse intervalo de tempo, as redes sociais explodiram na Internet. Aí virou clichê sustentar que essa nova realidade mudou tudo no jeito de fazer propaganda eleitoral. Sai a TV, entra o avassalador poder da comunicação virtual – ainda mais com a conexão via telefone celular. Se já era assim quatro anos atrás, agora em 2018 será bem mais relevante a atuação por todas as redes.

Abro um parêntesis. A paralisação dos caminhoneiros, em maio passado, deu mostras do que a potência das redes é capaz de fazer. Como se viu naqueles dias, a troca de mensagens pelo WhatsApp atropelou não apenas o governo, mas também a imprensa tradicional. Ficou claro que a greve ganhou uma dimensão inesperada pela mobilização a partir de mensagens instantâneas.

De volta às urnas. O que teremos então na briga pelo voto, num ambiente tomado pela tecnologia que está ao alcance de quase todos? A lógica aponta para uma transformação no jogo da propaganda que os candidatos precisam jogar. Difícil é encontrar quem esclareça, para além de generalidades, como fazer para que a Internet seja tão crucial como tem sido até hoje a velha TV.

Quando a gente observa – agora – os partidos mergulhados no mesmo leilão de alianças, para obter mais tempo no Guia Eleitoral televisivo, parece que estamos na era anterior às redes sociais. Poque se a eleição pode ser decidida pela forma de se comunicar com o eleitor, isso se dará pela Internet ou pelos modorrentos programas do rádio e da TV? Uma coisa não bate com a outra.

Não é razoável pensar que o eleitor ficará sentado diante da televisão, à espera da fala dos candidatos, para somente aí fazer sua escolha. Não tenho respostas para nada disso, apenas palpites. Já os presidenciáveis, tudo indica, ainda jogam suas fichas na propaganda do passado. Comemoram aqueles que garantiram mais tempo na TV; lamentam os que não terão quase nada.

Por tudo isso, ninguém pode cravar o que será mesmo definitivo para o eleitor formar sua convicção. Nunca houve tanto suspense acerca do resultado que as urnas vão produzir logo adiante.

O “candidato da usina” ainda existe?

Dois dias atrás, o CADAMINUTO deu como manchete a seguinte notícia: “Publicado decreto que reduz carga tributária para setor sucroalcooleiro de Alagoas”. O governador Renan Filho justificou a medida dizendo que isso vai aumentar a arrecadação do Estado. Disse também que, com o decreto, haverá “a manutenção e a geração de milhares de postos de trabalho”.

De longe, não sei como se dá a feitiçaria de elevar a arrecadação ao mesmo tempo em que se abre mão de receita de ICMS. Achei curioso também que o anúncio não tenha recebido nenhuma crítica, sequer um questionamento de outros setores da economia, de sindicatos ou de vozes da imprensa alagoana. E olhe que estamos falando de algo delicadíssimo para os rumos de Alagoas.

Falo da tradição de socorro a usinas e usineiros. É a nossa “elite” de formação, os emblemáticos senhores de engenho, de ontem e de hoje. Eles perderam muita força, é verdade, mas o apetite pela grilagem sobre a coisa pública segue em níveis pantagruélicos. Com DNA autoritário, sua marca registrada, essa turma se habituou a mandar no estado como se fosse o terreiro de suas fazendas.

Sobre o novo decreto de isenção de ICMS, outro aspecto relevante, e ainda bem mais estranho, é a coincidência do calendário. A decisão de impacto nas finanças estaduais ocorre justamente à beira das eleições, com o atual governador tentando renovar o mandato. Vamos acreditar que, como disse, tudo não passe mesmo de uma inocente coincidência. Que venham os empregos.

O poder e a influência dos usineiros no processo eleitoral formam um capítulo crucial em nossa história. Lá no passado, quando eu andava ali pela paisagem dos canaviais, cortando estradas de terra entre Atalaia, Viçosa e Chã Preta, passando por Capela, Cajueiro e arredores, todos conheciam uma sentença fatal: “Quem vai ganhar a eleição é o candidato da usina”. Não dava outra.

E como os latifundiários e moedores de cana garantiam a vitória de seus candidatos? Na base da mais pura intimidação dos milhares de trabalhadores de suas empresas. Nos grandes pátios, reunia-se a multidão de cortadores e outros funcionários, e se anunciava a ordem: “Ou vocês votam em quem estamos apresentando, ou o emprego de todos aqui estará mais que ameaçado”.

E assim seria eleito mais um pau-mandado, um serviçal dos salões açucareiros. A equação se fechava com o escolhido governando como queriam seus patrocinadores. Se você pensou em algo como coronelismo, é exatamente essa a ideia que está na base de toda a engrenagem.

E hoje, ainda existem os nomes favoritos dos usineiros? Para quem será destinado o famoso voto de cabresto na região canavieira? Será que ainda ocorrem aquelas reuniões com os cortadores de cana, para obrigá-los a votar neste ou naquele? Ou os velhos métodos agora estão mais sofisticados?

Sim, o mundo mudou bastante desde aqueles tempos. E é certo que a decadência do setor já não permite mais o poder imperial sobre a vida e a morte de homens e mulheres. Mas os herdeiros dessa cultura estão por aí, arrogantes, agora com a maquiagem e o reboco de filhotes “liberais”.

O velho Neymar Jr.

Neymar Junior é uma simulação até quando se manifesta para supostamente pedir desculpas pelas simulações. É perfeito que, para isso, ele conte com a falsidade inerente à propaganda. Neymar, o indivíduo, não existe. É um produto comercial em tempo integral. O texto que ele mal consegue soletrar é um modelo sem retoques do pensamento que norteia os poetas do mundo publicitário.

Eu sei que quase tudo já foi dito sobre o anúncio estrelado pelo craque da cabeça oca. Li na imprensa, e vi nos debates televisivos, avaliações como “vergonha alheia”, “completa falsidade”, “desfaçatez”, “prepotência”, “ideia de jerico”, “tiro no pé”, entre tantas classificações para o que se vê na tela. É tudo isso mesmo. Nada se salva na armação mercadológica do “menino”.

Mas há aqueles que, embora critiquem o fato de o jogador recorrer a um comercial para “pedir desculpas”, vejam qualidades no texto. Pelo que entendi, basta que a coisa seja produto de redatores e marqueteiros, para que se ateste a suposta consistência daquelas palavras. Não é nada disso, porém, o que se tem ali. A peça é uma enxurrada de baboseiras e nenhuma originalidade.

“A real é que eu sofro dentro de campo. Agora, na boa, você não imagina o que eu passo fora dele”. Esse é um dos trechos gaguejados pelo atacante. Ao contrário do que escreveram os redatores, todo mundo sabe o que Neymar vive fora dos gramados – afinal, ele conta toda a sua rotina nas redes sociais. Seu padrão de vida é a futilidade que rege o cotidiano de famosos doentes pela aparência.

O momento alto (ou seja, o mais baixo) é quando ele diz que “demorou para se olhar no espelho”, mas agora ele é “um novo homem”. Na sequência afirma que “agora, está de cara limpa, de peito aberto”. E fecha, com a boçalidade extrema: “Quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo”. Bom, os “parças” devem ter adorado a mensagem para eles, sem dúvida.

O anúncio deveria traduzir uma postura de autocrítica e humildade – ao menos seria esse o grande objetivo. Mas está claro que o texto diz exatamente o contrário. Neymar acha que é o centro do Brasil. Todos estamos aqui esperando por ele para, com seu exemplo, também nos levantarmos e tocar o dia. É realmente de uma prepotência sem limite. E esse “de cara limpa”?

Se existe algo que jamais ocorre numa mensagem publicitária é alguém de “peito aberto”. Tudo na publicidade é maquiagem, dissimulação, verniz para encobrir os fatos reais. Um anúncio quer vender, existe para despejar dinheiro na conta bancária de alguém. E uma equipe inteira de marqueteiros e assessores quer nos convencer que existe alguma autenticidade nessa piada. Chega a ser ofensivo.

Depois de ver o “desabafo” que rendeu ao “novo homem” alguns milhões de dólares, temos uma certeza incontornável: ele não mudou nada, não aprendeu nada, continua sem nada dentro dessa cabecinha de bagre. A iniciativa publicitária é só uma porcaria que celebra o velho Neymar Junior.

Advogado que pede a prisão de artista é bolsonarista que apoia torturador

O assunto está na imprensa alagoana e você pode ver mais detalhes em reportagem do CADAMINUTO. Um advogado quer a prisão do cantor pernambucano Johnny Hooker por causa de um show no Festival de Inverno de Garanhuns. No palco, o artista puxou o coro “Jesus é travesti”, o que deixou o rapaz muito irritadinho. Ele é cristão e se sentiu ofendido com a fala de Hooker.

Numa rápida pesquisa pela internet, descobri o que já era uma quase certeza assim que vi a notícia sobre o celerado advogado, que, segundo as informações, é um alagoano que vive pelas bandas pernambucanas. Estamos diante de um típico bolsonarista. O sujeito vive exaltando as figuras mais truculentas da ditadura militar, com elogios a assassinos e torturadores. É um caso perdido.

Sua iniciativa de entrar com uma queixa-crime contra o cantor não renderá coisa nenhuma, a não ser piada. Claro que ele tem o apoio da “nova direita” – essa que ama Jair Bolsonaro e pretende resolver os problemas brasileiros com rajadas de fuzil. Também está claro que não passa de uma tentativa de atrair holofotes sobre sua mente atordoada. Está na moda esse tipo de caçada.

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre essa história de arrastar Jesus e Nosso Senhor para a guerra ideológica que toma conta do país. De repente, dizer-se “cristão” e defensor dos “valores” da sagrada família ganhou status de manifestação política. Nessa toada, é uma presepada atrás da outra. Vemos assim a ignorância localizada num abraço da morte com o fanatismo em geral.

Quem defende torturador e destila ódio contra mulheres, gays e negros, entre outras barbaridades, não tem moral para querer enquadrar a conduta de ninguém. Estes sim, bolsonaristas desmiolados e perigosos, é que precisam de tratamento urgente. A postura do advogado tem tudo a ver com o texto que escrevi, antes deste aqui, sobre a Polícia Federal. É tudo farinha da mesma encomenda.

Os jumentos querem fechar museus, impedir exibição de filmes, barrar seminários, censurar letras de música, tirar novelas do ar e mais o que eles acharem que ofende os mandamentos do cristianismo. A coisa é tão bisonha que nem dá para brigar com esse tipo de “cidadão de bem”. Quanto mais notícia recebemos dessas vozes tenebrosas, mais certeza temos do erro que representam.

O advogado e outros do mesmo nível mental não vão entender, mas vou registrar um último aspecto. Arte e artista, desculpem, não podem ser alcançados por nenhuma forma de veto à expressão do pensamento e de suas criações. O palco é território livre e nada pode cercear o que ali o artista pretenda apresentar. Você não precisa concordar, mas querer a censura, jamais.

E, além do mais, esse caso do advogado alagoano é tão patético, que nem merece esse debate todo. Antigamente, quando um tipo desses aparecia, o povo ainda mais antigo costumava resumir assim o desocupado: “Tá precisando arrumar um bom lavado de roupa”. Fica a dica para essa besta.

No Brasil da Lava Jato, Polícia Federal comete abusos contra a democracia

O obscurantismo avança. A Polícia Federal em Santa Catarina toca uma investigação sobre um ato ocorrido na Universidade Federal daquele estado. Os alvos são a Reitoria e professores que fizeram uma homenagem ao ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, que cometeu suicídio após ser acusado na Operação Ouvidos Mocos, da PF. A operação foi deflagrada em setembro do ano passado.

Até hoje, não apareceu uma miserável prova que sustente as acusações da PF contra Cancellier. Ele deixou um bilhete no qual defende sua inocência e culpa a operação policial por seu gesto de desespero. Agora, as autoridades em SC, responsáveis pelo lixo com o qual tentaram desonrar o então reitor, querem também amordaçar as vozes críticas na universidade.

O pretexto da investigação contra os professores é de que houve ataque à dignidade da delegada que chefiou a Ouvidos Mocos. Ela e outros elementos da PF se sentiram ofendidos, vejam só, com a livre manifestação de representantes da comunidade universitária. Na verdade, o que temos é uma investida para intimidar aqueles que ousaram defender a trajetória do reitor Cancellier. 

É o espírito desses tempos. É a demonstração cabal de como essa turma aderiu escancaradamente ao abuso sobre os direitos básicos de qualquer cidadão. É o Brasil da Lava Jato, de Sérgio Moro e de Jair Bolsonaro. É o Brasil em que Rambos da PF e xerifões do Ministério Público pretendem o poder absoluto, sem obediência à Constituição, atropelando princípios básicos da democracia.   

Ora, todo santo dia, algum promotor, agente federal ou delegado vai às redes sociais para vomitar insultos contra incontáveis autoridades, em todas as esferas da República. Basta que alguém faça qualquer restrição aos atos desses heróis, e pronto: será achincalhado até a quinta geração. Eles acham que podem tudo. E acham que estão acima de qualquer crítica, como reis intocáveis. Piada.

Ainda que houvesse alguma prova contra Cancellier, o ato na UFSC seria inequivocamente legítimo. Mas, vou repetir, é bom que fique claro: não há nada, nem uma vírgula que desabone sua conduta, segundo a investigação bosta feita pela PF. A operação foi uma mentira, um carnaval grotesco, que inventou números e cifras, toscamente fantasiosas, para incriminar um homem inocente.

A iniciativa de agora da PF, tão ridícula quanto arbitrária, ao menos serve para algo positivo: expor de modo cristalino, além do autoritarismo, as ilegalidades a rodo que estão sendo cometidas no país nos últimos anos. Criminosa, isto sim, é uma apuração que se orienta por fatos inexistentes e falsidades que afrontam o Estado de Direito. Contra essa aberração, todos os protestos. Sempre.

Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com