Blog do Celio Gomes

TV, redes sociais e eleições: o que é mais decisivo na guerra pelo voto?

O tucano Geraldo Alckmin fechou aliança com o tal do Centrão e, com isso, garantiu o maior tempo de TV na propaganda eleitoral. Ciro Gomes, ao contrário, está isolado com o seu PDT e, sendo assim, terá míseros segundos para vender seu peixe também na televisão. Situação semelhante é a de Marina Silva e Jair Bolsonaro. Isso será mesmo decisivo na guerra pelo voto do eleitorado?

Nas eleições do passado, a pergunta acima não teria cabimento nenhum. Afinal, o brasileiro, rezam a lenda e os fatos, sempre decidiu o voto a partir do que pintava no chamado Guia Eleitoral na TV e também no rádio. Dizem os marqueteiros que o horário televisivo, principalmente, tinha força o bastante para consagrar um candidato – ou, pela mesma força, destroçar uma candidatura.

Para não ir muito longe, dois exemplos rápidos: Lula em 2002 e Marina em 2014. No primeiro caso, Duda Mendonça reinventou o sapo barbudo, segundo consta em tudo o que se escreveu sobre aquela eleição. E no segundo caso, João Santana, marqueteiro de Dilma, transformou Marina num monstro perverso que mataria o brasileiro de fome. Doze anos separam os dois episódios citados.

Nesse intervalo de tempo, as redes sociais explodiram na Internet. Aí virou clichê sustentar que essa nova realidade mudou tudo no jeito de fazer propaganda eleitoral. Sai a TV, entra o avassalador poder da comunicação virtual – ainda mais com a conexão via telefone celular. Se já era assim quatro anos atrás, agora em 2018 será bem mais relevante a atuação por todas as redes.

Abro um parêntesis. A paralisação dos caminhoneiros, em maio passado, deu mostras do que a potência das redes é capaz de fazer. Como se viu naqueles dias, a troca de mensagens pelo WhatsApp atropelou não apenas o governo, mas também a imprensa tradicional. Ficou claro que a greve ganhou uma dimensão inesperada pela mobilização a partir de mensagens instantâneas.

De volta às urnas. O que teremos então na briga pelo voto, num ambiente tomado pela tecnologia que está ao alcance de quase todos? A lógica aponta para uma transformação no jogo da propaganda que os candidatos precisam jogar. Difícil é encontrar quem esclareça, para além de generalidades, como fazer para que a Internet seja tão crucial como tem sido até hoje a velha TV.

Quando a gente observa – agora – os partidos mergulhados no mesmo leilão de alianças, para obter mais tempo no Guia Eleitoral televisivo, parece que estamos na era anterior às redes sociais. Poque se a eleição pode ser decidida pela forma de se comunicar com o eleitor, isso se dará pela Internet ou pelos modorrentos programas do rádio e da TV? Uma coisa não bate com a outra.

Não é razoável pensar que o eleitor ficará sentado diante da televisão, à espera da fala dos candidatos, para somente aí fazer sua escolha. Não tenho respostas para nada disso, apenas palpites. Já os presidenciáveis, tudo indica, ainda jogam suas fichas na propaganda do passado. Comemoram aqueles que garantiram mais tempo na TV; lamentam os que não terão quase nada.

Por tudo isso, ninguém pode cravar o que será mesmo definitivo para o eleitor formar sua convicção. Nunca houve tanto suspense acerca do resultado que as urnas vão produzir logo adiante.

O “candidato da usina” ainda existe?

Dois dias atrás, o CADAMINUTO deu como manchete a seguinte notícia: “Publicado decreto que reduz carga tributária para setor sucroalcooleiro de Alagoas”. O governador Renan Filho justificou a medida dizendo que isso vai aumentar a arrecadação do Estado. Disse também que, com o decreto, haverá “a manutenção e a geração de milhares de postos de trabalho”.

De longe, não sei como se dá a feitiçaria de elevar a arrecadação ao mesmo tempo em que se abre mão de receita de ICMS. Achei curioso também que o anúncio não tenha recebido nenhuma crítica, sequer um questionamento de outros setores da economia, de sindicatos ou de vozes da imprensa alagoana. E olhe que estamos falando de algo delicadíssimo para os rumos de Alagoas.

Falo da tradição de socorro a usinas e usineiros. É a nossa “elite” de formação, os emblemáticos senhores de engenho, de ontem e de hoje. Eles perderam muita força, é verdade, mas o apetite pela grilagem sobre a coisa pública segue em níveis pantagruélicos. Com DNA autoritário, sua marca registrada, essa turma se habituou a mandar no estado como se fosse o terreiro de suas fazendas.

Sobre o novo decreto de isenção de ICMS, outro aspecto relevante, e ainda bem mais estranho, é a coincidência do calendário. A decisão de impacto nas finanças estaduais ocorre justamente à beira das eleições, com o atual governador tentando renovar o mandato. Vamos acreditar que, como disse, tudo não passe mesmo de uma inocente coincidência. Que venham os empregos.

O poder e a influência dos usineiros no processo eleitoral formam um capítulo crucial em nossa história. Lá no passado, quando eu andava ali pela paisagem dos canaviais, cortando estradas de terra entre Atalaia, Viçosa e Chã Preta, passando por Capela, Cajueiro e arredores, todos conheciam uma sentença fatal: “Quem vai ganhar a eleição é o candidato da usina”. Não dava outra.

E como os latifundiários e moedores de cana garantiam a vitória de seus candidatos? Na base da mais pura intimidação dos milhares de trabalhadores de suas empresas. Nos grandes pátios, reunia-se a multidão de cortadores e outros funcionários, e se anunciava a ordem: “Ou vocês votam em quem estamos apresentando, ou o emprego de todos aqui estará mais que ameaçado”.

E assim seria eleito mais um pau-mandado, um serviçal dos salões açucareiros. A equação se fechava com o escolhido governando como queriam seus patrocinadores. Se você pensou em algo como coronelismo, é exatamente essa a ideia que está na base de toda a engrenagem.

E hoje, ainda existem os nomes favoritos dos usineiros? Para quem será destinado o famoso voto de cabresto na região canavieira? Será que ainda ocorrem aquelas reuniões com os cortadores de cana, para obrigá-los a votar neste ou naquele? Ou os velhos métodos agora estão mais sofisticados?

Sim, o mundo mudou bastante desde aqueles tempos. E é certo que a decadência do setor já não permite mais o poder imperial sobre a vida e a morte de homens e mulheres. Mas os herdeiros dessa cultura estão por aí, arrogantes, agora com a maquiagem e o reboco de filhotes “liberais”.

O velho Neymar Jr.

Neymar Junior é uma simulação até quando se manifesta para supostamente pedir desculpas pelas simulações. É perfeito que, para isso, ele conte com a falsidade inerente à propaganda. Neymar, o indivíduo, não existe. É um produto comercial em tempo integral. O texto que ele mal consegue soletrar é um modelo sem retoques do pensamento que norteia os poetas do mundo publicitário.

Eu sei que quase tudo já foi dito sobre o anúncio estrelado pelo craque da cabeça oca. Li na imprensa, e vi nos debates televisivos, avaliações como “vergonha alheia”, “completa falsidade”, “desfaçatez”, “prepotência”, “ideia de jerico”, “tiro no pé”, entre tantas classificações para o que se vê na tela. É tudo isso mesmo. Nada se salva na armação mercadológica do “menino”.

Mas há aqueles que, embora critiquem o fato de o jogador recorrer a um comercial para “pedir desculpas”, vejam qualidades no texto. Pelo que entendi, basta que a coisa seja produto de redatores e marqueteiros, para que se ateste a suposta consistência daquelas palavras. Não é nada disso, porém, o que se tem ali. A peça é uma enxurrada de baboseiras e nenhuma originalidade.

“A real é que eu sofro dentro de campo. Agora, na boa, você não imagina o que eu passo fora dele”. Esse é um dos trechos gaguejados pelo atacante. Ao contrário do que escreveram os redatores, todo mundo sabe o que Neymar vive fora dos gramados – afinal, ele conta toda a sua rotina nas redes sociais. Seu padrão de vida é a futilidade que rege o cotidiano de famosos doentes pela aparência.

O momento alto (ou seja, o mais baixo) é quando ele diz que “demorou para se olhar no espelho”, mas agora ele é “um novo homem”. Na sequência afirma que “agora, está de cara limpa, de peito aberto”. E fecha, com a boçalidade extrema: “Quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo”. Bom, os “parças” devem ter adorado a mensagem para eles, sem dúvida.

O anúncio deveria traduzir uma postura de autocrítica e humildade – ao menos seria esse o grande objetivo. Mas está claro que o texto diz exatamente o contrário. Neymar acha que é o centro do Brasil. Todos estamos aqui esperando por ele para, com seu exemplo, também nos levantarmos e tocar o dia. É realmente de uma prepotência sem limite. E esse “de cara limpa”?

Se existe algo que jamais ocorre numa mensagem publicitária é alguém de “peito aberto”. Tudo na publicidade é maquiagem, dissimulação, verniz para encobrir os fatos reais. Um anúncio quer vender, existe para despejar dinheiro na conta bancária de alguém. E uma equipe inteira de marqueteiros e assessores quer nos convencer que existe alguma autenticidade nessa piada. Chega a ser ofensivo.

Depois de ver o “desabafo” que rendeu ao “novo homem” alguns milhões de dólares, temos uma certeza incontornável: ele não mudou nada, não aprendeu nada, continua sem nada dentro dessa cabecinha de bagre. A iniciativa publicitária é só uma porcaria que celebra o velho Neymar Junior.

Advogado que pede a prisão de artista é bolsonarista que apoia torturador

O assunto está na imprensa alagoana e você pode ver mais detalhes em reportagem do CADAMINUTO. Um advogado quer a prisão do cantor pernambucano Johnny Hooker por causa de um show no Festival de Inverno de Garanhuns. No palco, o artista puxou o coro “Jesus é travesti”, o que deixou o rapaz muito irritadinho. Ele é cristão e se sentiu ofendido com a fala de Hooker.

Numa rápida pesquisa pela internet, descobri o que já era uma quase certeza assim que vi a notícia sobre o celerado advogado, que, segundo as informações, é um alagoano que vive pelas bandas pernambucanas. Estamos diante de um típico bolsonarista. O sujeito vive exaltando as figuras mais truculentas da ditadura militar, com elogios a assassinos e torturadores. É um caso perdido.

Sua iniciativa de entrar com uma queixa-crime contra o cantor não renderá coisa nenhuma, a não ser piada. Claro que ele tem o apoio da “nova direita” – essa que ama Jair Bolsonaro e pretende resolver os problemas brasileiros com rajadas de fuzil. Também está claro que não passa de uma tentativa de atrair holofotes sobre sua mente atordoada. Está na moda esse tipo de caçada.

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre essa história de arrastar Jesus e Nosso Senhor para a guerra ideológica que toma conta do país. De repente, dizer-se “cristão” e defensor dos “valores” da sagrada família ganhou status de manifestação política. Nessa toada, é uma presepada atrás da outra. Vemos assim a ignorância localizada num abraço da morte com o fanatismo em geral.

Quem defende torturador e destila ódio contra mulheres, gays e negros, entre outras barbaridades, não tem moral para querer enquadrar a conduta de ninguém. Estes sim, bolsonaristas desmiolados e perigosos, é que precisam de tratamento urgente. A postura do advogado tem tudo a ver com o texto que escrevi, antes deste aqui, sobre a Polícia Federal. É tudo farinha da mesma encomenda.

Os jumentos querem fechar museus, impedir exibição de filmes, barrar seminários, censurar letras de música, tirar novelas do ar e mais o que eles acharem que ofende os mandamentos do cristianismo. A coisa é tão bisonha que nem dá para brigar com esse tipo de “cidadão de bem”. Quanto mais notícia recebemos dessas vozes tenebrosas, mais certeza temos do erro que representam.

O advogado e outros do mesmo nível mental não vão entender, mas vou registrar um último aspecto. Arte e artista, desculpem, não podem ser alcançados por nenhuma forma de veto à expressão do pensamento e de suas criações. O palco é território livre e nada pode cercear o que ali o artista pretenda apresentar. Você não precisa concordar, mas querer a censura, jamais.

E, além do mais, esse caso do advogado alagoano é tão patético, que nem merece esse debate todo. Antigamente, quando um tipo desses aparecia, o povo ainda mais antigo costumava resumir assim o desocupado: “Tá precisando arrumar um bom lavado de roupa”. Fica a dica para essa besta.

No Brasil da Lava Jato, Polícia Federal comete abusos contra a democracia

O obscurantismo avança. A Polícia Federal em Santa Catarina toca uma investigação sobre um ato ocorrido na Universidade Federal daquele estado. Os alvos são a Reitoria e professores que fizeram uma homenagem ao ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, que cometeu suicídio após ser acusado na Operação Ouvidos Mocos, da PF. A operação foi deflagrada em setembro do ano passado.

Até hoje, não apareceu uma miserável prova que sustente as acusações da PF contra Cancellier. Ele deixou um bilhete no qual defende sua inocência e culpa a operação policial por seu gesto de desespero. Agora, as autoridades em SC, responsáveis pelo lixo com o qual tentaram desonrar o então reitor, querem também amordaçar as vozes críticas na universidade.

O pretexto da investigação contra os professores é de que houve ataque à dignidade da delegada que chefiou a Ouvidos Mocos. Ela e outros elementos da PF se sentiram ofendidos, vejam só, com a livre manifestação de representantes da comunidade universitária. Na verdade, o que temos é uma investida para intimidar aqueles que ousaram defender a trajetória do reitor Cancellier. 

É o espírito desses tempos. É a demonstração cabal de como essa turma aderiu escancaradamente ao abuso sobre os direitos básicos de qualquer cidadão. É o Brasil da Lava Jato, de Sérgio Moro e de Jair Bolsonaro. É o Brasil em que Rambos da PF e xerifões do Ministério Público pretendem o poder absoluto, sem obediência à Constituição, atropelando princípios básicos da democracia.   

Ora, todo santo dia, algum promotor, agente federal ou delegado vai às redes sociais para vomitar insultos contra incontáveis autoridades, em todas as esferas da República. Basta que alguém faça qualquer restrição aos atos desses heróis, e pronto: será achincalhado até a quinta geração. Eles acham que podem tudo. E acham que estão acima de qualquer crítica, como reis intocáveis. Piada.

Ainda que houvesse alguma prova contra Cancellier, o ato na UFSC seria inequivocamente legítimo. Mas, vou repetir, é bom que fique claro: não há nada, nem uma vírgula que desabone sua conduta, segundo a investigação bosta feita pela PF. A operação foi uma mentira, um carnaval grotesco, que inventou números e cifras, toscamente fantasiosas, para incriminar um homem inocente.

A iniciativa de agora da PF, tão ridícula quanto arbitrária, ao menos serve para algo positivo: expor de modo cristalino, além do autoritarismo, as ilegalidades a rodo que estão sendo cometidas no país nos últimos anos. Criminosa, isto sim, é uma apuração que se orienta por fatos inexistentes e falsidades que afrontam o Estado de Direito. Contra essa aberração, todos os protestos. Sempre.

Professores de universidades públicas partem atrás de voto nas eleições

Todo ano de eleição é a mesma coisa. Um bocado de professores de universidades públicas larga o trabalho acadêmico e embarca na aventura das urnas. Aí eu fico me perguntando o que esses caras pensam do ensino superior, da produção de conhecimento, da formação em sala de aula, dos estudos e da pesquisa em geral. Porque política partidária nada tem a ver com tudo isso.

Sabe por que vigora esse tipo de promiscuidade? Porque esses caras sabem que podem sambar pra todo lado, a hora que bem entendem, que a sinecura universitária está garantida para sempre. O sujeito abandona as atividades para as quais foi contratado, sem qualquer preocupação com nada nem ninguém, a não ser com seus próprios interesses e de seus partidos políticos.

No caso de derrota nas eleições, os perdedores voltam aos departamentos e às aulas depois de alguns meses. Sendo eleitos, aí serão alguns anos longe do mundo acadêmico, sem previsão de retorno. Talvez demore uma década, vai saber. De uma coisa eles têm certeza: seja lá quando for, a universidade estará sempre ali, prontinha para recebê-los de volta – até a próxima aventura.

Não levo a sério esse tipo de “pensador”, “acadêmico”, “intelectual” ou sei lá o quê. São apenas militantes de cartilhas partidárias, que se valem de uma instituição para repetir as porcarias do mais puro proselitismo, em nome de causas particulares. Isso não tem qualquer relação com a universidade, com a educação. É uma absurda distorção das finalidades do mundo do ensino.

Natural. Estamos falando da coisa pública. E se é público, dane-se o zelo com o trabalho. Como disse, o que interessa é que esses mestres-candidatos têm cadeira cativa no lugar que é tratado com desprezo por eles mesmos. E o país permite isso, incentivando que, a cada eleição, outros e outros sigam o mesmo caminho degenerado. Depois reclamam de crise na universidade. É demais.

Se querem entrar para a carreira política; se pretendem servir a um partido, a uma patota, a uma suposta ideologia qualquer, então caiam fora da universidade de uma vez por todas. Deixem a vida acadêmica para quem leva sua vocação a sério. Mas não. Quem vai dispensar uma boquinha dessas? Os doutores-candidatos estão seguros de que podem tratar a educação como “bico”.

Em vários cursos da Universidade Federal de Alagoas e da Uneal (a universidade pública do Estado), os estudantes reclamam da falta de professores. Procurem nos partidos, procurem nas secretarias e demais cargos dos governos e das prefeituras. Eles estão por aí, ostentando com empáfia o título de especialistas em áreas de conhecimento para as quais nada fazem.

Professor universitário com filiação partidária, que faz do espaço do livre pensamento uma extensão de suas idiossincrasias politiqueiras, é uma dessas pilantragens que o Brasil consagrou. Não há dúvida de que está aí uma das chaves para explicar nosso raquítico desempenho acadêmico frente às universidades estrangeiras. As eleições de agora reafirmam esse modelo destinado ao abismo.

Educação? Desenvolvimento científico? Conhecimento? Esqueça. Eles querem é voto, dinheiro e poder. Nota zero aos doutores cuja única especialidade que dominam é a fraude intelectual.

A eleição e a escolha do vice

A procura por um candidato a vice-presidente provoca tumultos e revela a essência – despudorada – do jogo político brasileiro. Até agora, quase nenhum dos presidenciáveis apresentou o parceiro na chapa eleitoral. As negociações entre as lideranças partidárias trazem a público as maiores bizarrices, com alternativas que mais parecem com aquilo que costumamos chamar de piada pronta.

Jair Bolsonaro, por exemplo, já teve quatro opções cogitadas por sua turma para ocupar a vaga de vice: o senador Magno Malta, o general da reserva Augusto Heleno, a advogada Janaína Paschoal e, finalmente, Marcos Pontes, ele mesmo, o astronauta tupiniquim. É ou não é uma patacoada sem retoques? Está claro que não se pode levar a sério o que não passa de pilantragem.

Enquanto um candidato aponta um possível parceiro a cada 24 horas, também já tivemos um quase vice para muitos postulantes ao Planalto. É o empresário Josué Gomes da Silva, filho do falecido José Alencar, que exerceu dois mandatos como vice do ex-presidente Lula. Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e o PT tentaram atrair Josué para suas aventuras. Após algum suspense, ele desistiu de todos.

A escolha é pautada pelo escancarado oportunismo. Vejam o caso do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que há anos se aproveita da entidade privada para fazer campanha fora de época, muito antes do período de eleições. Candidato a governador de São Paulo, ele escolheu para vice a tenente-coronel da PM Carla Basson. Casou o militarismo com o empoderamento feminino. Tá na moda.

Em Alagoas, a coisa anda mais estranha do que nunca. O governador Renan Filho, como se sabe, não repetirá o companheiro de chapa da disputa de quatro anos atrás. Mas ainda não se conhece quem ocupará o lugar de Luciano Barbosa. A última especulação indica o deputado Maurício Quintella. Por trás dessa estratégia para 2018 já estão os planos para as eleições municipais de 2020.

É assim. Enquanto o desavisado eleitor delira em acreditar que os caciques e legendas estão preocupados com projetos, eles miram o poder não apenas agora, mas pelas próximas gerações. Já o barco de oposição a Renanzinho não tem sequer a cabeça de chapa, que dirá o conjunto completo. Os tucanos juram que daqui a pouco vai pintar o adversário capaz de brigar pra valer. Quem será?

O vice tem história na tradição nacional. Quando a gente menos espera, eles acabam assumindo o lugar do titular com uma frequência inquietante. José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer são os casos mais emblemáticos – mas não os únicos. A pouco mais de dois meses para a hora do voto, vemos o velho espetáculo de sempre: trapaça e hipocrisia por demagogos e fanfarrões.

E ainda querem me fazer acreditar em mudança e novos tempos. Fala sério! Escuto essa brincadeira desde que o mundo é mundo. O Brasil caminha para as urnas sob o mesmo padrão da velha política – porque seus protagonistas são tão medievais como sempre foram. Como ainda cantam por aí os dinossauros, que país é este? Mas se você é um patriota e crê em milagres, eu digo: boa sorte.

Lua de sangue

O juiz Sergio Moro disse, em seminário do jornal O Estado de S. Paulo, que o resultado da eleição que vem aí pode representar uma “ameaça” ao trabalho da Operação Lava Jato. Nem original na presepada esse projeto de tiranete consegue ser. O procuradorzinho de “bochechas rosadas”, Deltan Dallagnol, vive cacarejando a mesma cretinice desde o ano passado. E a imprensa continua jogando sobre eles todos os holofotes, como se fossem dois heróis a serviço do Brasil.

Outro magistrado especialista em delinquência intelectual, Marcelo Bretas defendeu, durante debate na Flip, que o Brasil adote a “pena de morte política” para os crimes de corrupção. Para ele, oito anos de inelegibilidade não bastam. Tem de banir para sempre o político que se corrompeu. Bretas não falou se, para juizinho e desembargador que vendem sentença, ele também imagina algum tipo de pena capital. Nada explicou também sobre a imoralidade da farra com o auxílio-moradia.

A coisa anda tão esculhambada no país, que até em evento de literatura somos obrigados a ouvir esse festival de demagogia. Bretas é apenas um deslumbrado que vive nas redes sociais, despejando um amontoado de frases idiotas, para reproduzir ideias igualmente idiotas. É venerado pela “nova direita” – que aliás está devidamente representada em Alagoas por patetas que se pretendem intelectuais. São os pensadores do Twitter e do Facebook. Ah, sim, eles amam Bolsonaro.

Por falar no especialista em boçalidade e truculência em geral, há uma crise em sua candidatura, que não consegue costurar apoios de outros partidos. A procura de um nome para vice na chapa já provocou um festival de piadas – para o espetáculo ficar bem de acordo com o perfil do tosco personagem. Bolsonaro tem tudo a ver com a sanha justiceira dos fanáticos que adoram Moro, Bretas e assemelhados. Toda essa gente sonha com um país governado sob as ordens de um brucutu.

Entramos nessa onda tenebrosa: de um lado, as peripécias jurídicas patrocinadas por togados; de outro, as bandidagens retóricas de salvadores da pátria – uma velharia que se repete com nova maquiagem. Um dado relevante nesse cenário é que ideias assim tão primárias atraem mais os jovens e os mais ricos. É o que mostram várias pesquisas publicadas, ao longo dos últimos meses, pelo Datafolha, por exemplo. E ainda há quem acredite que tudo isso é “renovação”.

Aliás, todo mundo, em todos os cantos, procura o tal do novo. É uma lorota atrás da outra nessa conversa furada. Por aqui, tem um monte de jovens chegando na vida partidária. Filhotes de coronéis – que dominam paróquias alagoenses desde o Brasil Colônia – vendem a imagem de “mudança” e “transformação”. É muita comédia. (E hoje é sábado, um dia depois da lua de sangue!).

Na Folha de S. Paulo, mulheres denunciam caça às “bruxas” de Maceió

A pergunta que se faz aqui é: na contemporaneidade haveria caça pública de mulheres do tipo bruxa? Tudo indica que em Maceió, capital das Alagoas, em pleno nordeste brasileiro, sim. Você acaba de ler uma pequena parte de um texto publicado no site da Folha de S. Paulo, assinado por quatro mulheres que integram uma ONG feminista sediada na capital alagoana.

O blog da Folha AgoraÉQueSãoElas apresenta as autoras assim: Ana Antunes (atriz), Bruna Teixeira (educadora social e empreendedora criativa), Juliana Barreto (antropóloga) e Ticiane Simões (atriz). O texto critica uma investigação anunciada pela prefeitura de Maceió, para identificar a autoria de pichações na Praça do Skate, na Ponta Verde. Parece que isso tocou fogo nas redes sociais.

As ativistas denunciam “machismo institucional e lesbofobia”. As autoras também condenam a abordagem do assunto na imprensa alagoana, que tratou as pichações como “vandalismo”. Sem citar nenhuma emissora, apontam para o preconceito exposto “no principal telejornal do Estado”. Suponho que seja uma referência ao ALTV, exibido diariamente, em duas edições, na TV Gazeta.

As pichações na praça trazem frases que exaltam pautas feministas, como a descriminalização do aborto. Há também imagens que traduzem relacionamento afetivo entre garotas. Por isso, as autoridades estariam agindo de forma tão contundente ao decidir “caçar” as mulheres pichadoras em Maceió. É o que acusam as ativistas que agora dão visibilidade nacional ao caso.

Diante da reação contra o pixo, as autoras do texto decidiram assumir a criação coletiva das mensagens. Daí surgiu uma espécie de campanha, a #QuemFezEssePixoFuiEu. Se as autoridades municipais querem prender as garotas, terão de procurar por todas elas, em todos os lugares. Sem dúvida, com esse verdadeiro manifesto, elas chamam atenção para o debate da hora.

Ainda segundo a Folha, as ativistas que assinam o texto “são fundadoras e associadas” da Ambrosina – Ateliê para Igualdade de Gênero e Empoderamento de Mulheres. Afirma o blog que, após reivindicarem a autoria coletiva das pichações, “hoje, as bruxas autoras dos pixos são incontáveis em Maceió”. Imagino que nossos gestores não esperavam por essa repercussão tão ampla.

Gostei do texto publicado pelas quatro integrantes da Ambrosina. Merece ser lido. Recomendo que o leitor dê uma olhada no site da Folha e confira as ideias que estão ali. Elas falam do “silenciamento das mulheres” na terra dos marechais. Faz todo sentido. O que mais tem por aí, em nossas belas instituições, é valentão adepto da filosofia do prendo & arrebento, como já escrevi aqui.

A violência contra a mulher é uma das maiores barbaridades no país. Esse é o pano de fundo e, ao mesmo tempo, o centro da questão na denúncia que fazem as autoras no texto publicado pela Folha de S. Paulo. Tomara que o episódio sirva para conter o ânimo autoritário dos detentores de cargos públicos. E, sim, nossa imprensa precisa pensar além da palavra de ordem oficial.

Ativismo, conhecimento e arte! Um passeio pela Reunião da SBPC

A Reunião da SBPC em Maceió começou, no último dia 22, com uma saraivada de ataques ao governo Michel Temer. Foi o que se viu na cerimônia de abertura, com as presenças de dois ministros. Eles ouviram os acadêmicos criticarem o corte de verba para pesquisas, o que teria provocado a morte de muitos projetos. A choradeira é uma das marcas desse encontro da entidade.

O clima de insatisfação e protesto parece ter contaminado boa parte do evento. Isso estava claro em debates que vi durante a última quarta-feira, quando visitei o campus da Ufal, onde o encontro ocorre até sábado. Numa espécie de mesa redonda organizada pela Associação de Pós-Graduandos, a mesma reclamação sobre carência de recursos era a questão central entre os falantes.

Mais adiante, em outra roda de debatedores, o tema em jogo era o avanço do “neoliberalismo”. Pelo que entendi, cientistas sociais estavam determinados a demonstrar que este é um dos males que estão destruindo a ciência brasileira. O tom da palestra lembrava a militância, o proselitismo tão comum na guerra política nossa de todos os dias. Faltou originalidade aos doutores.

Paro em outra tenda, desta vez para ouvir as vozes que militam em favor da diversidade de gênero e pela valorização da cultura afro-brasileira. Embora não sejam novidades, são temas hoje na moda e mais que obrigatórios num evento como a Reunião da SBPC. Ao lado, lembrando os velhos hippies, aquelas banquinhas que oferecem anéis, pulseiras, brincos e colares, produtos do mundo artesanal.

Com todo o respeito aos mestres da tecnologia e da robótica, dispensei o convite para ver aquelas invenções e geringonças que fazem a festa dos jornalistas de televisão. É uma das atrações mais procuradas. Nossos repórteres investigativos se divertem pra danar com as maravilhas do mundo científico. Aliás, na TV Gazeta, o encontro da SBPC foi tratado como se fosse um parque infantil.

Da ciência para a arte. Numa das salas da Faculdade de Direito, estive num bate-papo com o cantor e compositor Wado. Múltiplo artista, ele acaba de lançar o livro Água do Mar nos Olhos, que reúne todas as suas letras acompanhadas por desenhos também de sua autoria. A mesa foi mediada pela jornalista Patrycia Monteiro, coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

O livro do Wado, que foi selecionado em edital da Imprensa Oficial, é, além do conteúdo poético-visual, um objeto de arte em si mesmo. E isso deve ser creditado ao talento de Fernando Rizzotto, um dos maiores designers do país. Ele assina o projeto gráfico, a capa e a diagramação da obra. O resultado é irretocável. Wado falou sobre escrita, criação, parcerias, referências e delírios.

Quando caiu a noite, palco e passarela deram lugar à música e à dança de origem africana. Depois, o próprio Wado apresentou seu show no espaço principal dedicado a nomes da produção musical em Alagoas. Até a reitora Valéria Correia caiu no balanço, ao som do catarinense que escolheu Maceió para brilhar aos olhos do mundo. E assim terminou meu dia na 70ª Reunião Anual da SBPC.

Para quem não foi até lá, garanto que vale a pena. Ainda dá tempo.

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