A bilionária caixa preta da OAB

Baluartes do mundo jurídico já estão de armas prontas para defender a causa própria. Leio na Folha de S. Paulo que o Tribunal de Contas da União pretende “abrir a caixa preta da OAB”. A ideia faz todo sentido. Você sabe quanto a entidade nacional arrecadou somente em 2017? Nada menos que 1,3 bilhão de reais. É, com todas letras, uma associação profissional bilionária. Cadê toda essa fortuna?

 

A Ordem dos Advogados do Brasil capta a dinheirama pela contribuição obrigatória de seus filiados. Atrasou um dia, a carteirinha pode ser cassada. O problema é que nunca houve prestação de contas sobre o destino dos recursos. O que se sabe é que dirigentes e conselheiros federais vivem como reis, voando pelo Brasil e o mundo, às custas da contribuição compulsória dos bravos advogados.

 

Sobre o padrão de luxo na vida dos donos da OAB, recomendo a leitura da coluna do jornalista Elio Gaspari, na edição da Folha desta quarta-feira. Entre outras coisas, ele lembra que a cúpula da Ordem prometeu, lá em 2014, que publicaria as contas na internet, inaugurando uma era de transparência jamais vista por ali. Quatro anos depois, a conversa ficou só na promessa.  

       

Sempre firme para cobrar moralidade e retidão ética na conduta alheia, essa definitivamente não é a postura adotada para dentro de casa. Para reforçar sua imagem de santidade, a corporação se vende como guardiã dos valores republicanos. Em seus corredores e subsolos, como sabem muitos advogados, a realidade é bastante diversa da fantasia levada às vitrines. Tem até caixa preta.

 

Sei que há muita gente que acredita ser a OAB uma área do setor público; outros pensam que se trata de uma instância do Judiciário. Assim é porque a principal marca de sua atividade é dar palpite em todos os assuntos do mundo. Tal histórico tem muito de interesse político e corporativista. Lembro o óbvio: OAB é somente uma espécie de sindicato brigando em nome de uma categoria.

 

Seria realmente saudável que a entidade agisse com plena transparência, que desse o bom exemplo, deixando claro que nada tem a esconder. Afinal, não é isso que os valentes conselheiros da Ordem exigem de todos? Para quem assina até pedido de impeachment de presidentes da República, não pode pairar sombra de suspeita. Advogados deveriam apoiar a ideia de auditoria geral.

 

A iniciativa do TCU ainda vai provocar reações “indignadas” dos chefões da OAB, pode apostar. Já estou vendo uma daquelas passeatas, com doutores formando fileiras em marcha unida, braços entrelaçados uns aos outros. Nesse tipo de carnaval, a Ordem é especialista. A ironia é o Tribunal de Contas cobrando transparência. Temos aí um clássico, um verdadeiro duelo de titãs.

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Gasolina incendeia o debate amalucado

A cada vez que você vai ao noticiário, de uma coisa pode estar certo: haverá um novo combustível aumentando o incêndio sobre as diferenças políticas no país. A tal da polarização (ou o FLA-FLU das ideias) se alimenta de toda e qualquer tolice. Agora, é a própria gasolina que serve para enlouquecer, mais um pouco, os inimigos mortais – a esquerda e a direita, os petralhas e os patos.

 

Quem denuncia o “golpe” despeja todos os impropérios sobre os “paneleiros” dos tempos de Dilma Rousseff. Cadê os idiotas que protestavam pelo preço da gasolina a 3 reais, e hoje estão calados, pagando 5 reais nos postos? É o que leio em diferentes sites; é o que vejo em vídeos pelo YouTube. Aí começam os contra-ataques, o tiroteio se intensifica em palavrões, e a guerra continua.

 

Se você, que tem um carro, não estiver na rua agora mesmo, se esgoelando num protesto contra esse governo golpista que inflacionou o custo para encher o tanque, então você votou no Aécio, é um tucano fdp. (Menos a direita alagoana, que é mais avançada e prefere o Bolsonaro). Eu falei em debate, mas isso é força de expressão; o que temos mesmo é uma ensandecida troca de insultos.

 

Não vai além disso. Não sei como alguém se sente motivado a repetir todo santo dia a mesma ideia, sacando os mesmos argumentos, pelo simples desejo de atacar um suposto inimigo mortal, que merece toda essa energia. É como se o sujeito acreditasse, mesmo, que sua histeria particular tem tudo para influenciar o rumo dos acontecimentos. Gira, roda, berra pra todo lado, e volta ao ponto.

 

Por essa mesma lógica, há quem assegure que o clima da Copa ainda não contagiou as ruas porque o amarelo é a cor do golpe. Afinal, os cretinos reacionários se vestiram nas cores da bandeira, naquelas passeatas contra Lula, Dilma e o PT. Como torcer então pela seleção de Tite e Neymar?

 

Ainda não vi opiniões por uma torcida contra o Brasil na Rússia. Nem a ala xiita dos vermelhos prega, por enquanto, um boicote à campanha pelo hexa. Será mais uma Copa em que as diferenças ficarão em segundo plano, quando a bola começar a rolar. O coração fala mais alto diante do sagrado.

 

De todo modo, os jogos só começam na metade de junho. É logo ali, mas, como a maluquice ideológica é diária, minuto a minuto, é muito tempo para novas batalhas incendiárias. E não há chance para uma trégua na pancadaria generalizada. Todos estão perigosamente do lado certo.

 

Voltando ao preço da gasolina e à Patolândia amarela, daqui a pouco essa pauta estará esquecida. Porque ninguém perde tempo com nenhum assunto, especialmente os mais engajados na “guerra cultural de narrativas”. Uma inutilidade derrete a outra, com um novo combustível na fogueira.

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Ministro de Collor tinha razão: cachorro também é ser humano

O mundo dá muitas voltas, camarada Coelho. Isto sim é uma pauta para seminários, mesas redondas e debates acalorados. E estou falando sério. A disputa pela guarda de uma cachorrinha foi bater no Superior Tribunal de Justiça. Eu falei guarda, e não posse. Porque hoje em dia, aos olhos da filosofia do direito, o animal de estimação deixou de ser um bem, para se transformar num ente da família.

 

Que muita gente trate o bicho como uma pessoa, isso é até comum. Mas agora a Justiça brasileira começa a reconhecer esse status pós-selvagem. Tudo começou em 2004, em São Paulo, quando um casal desfez o casamento. Durante a relação, marido e mulher adquiriram uma cadela – adotaram, deveria dizer. Na separação, a moça ficou com o animal. Mas nada estava resolvido.

 

O ex-marido, um cara sensível, até aceitou o fim da história com a garota. Mas sofreu demais com a saudade da cadelinha Kimi – esse é o nome dela. A ex-mulher, aparentemente egoísta, barrou as visitas do ex para rever a Kimi, ao menos uma vez por semana. Ele queria o mesmo tipo de acordo que ocorre para se resolver a guarda dos filhos após as separações. Com a palavra a Vara de Família.

 

Daqui a pouco falo do ministro do governo Collor. Antes, fui pesquisar um pouco sobre tudo isso. Cães, gatos, iguanas, jaguatiricas e outros bichos de estimação, aos olhos da lei, são tratados como coisa, objeto. Os casais decidem com quem eles ficarão, ao fim dos casamentos, como se decide sobre o carro, o violão e os discos dos Beatles. Não mais. A vida real muda as teorias.

 

No caso que comento, o Tribunal de Justiça de SP deu razão ao maridão. Reconheceu o direito de visitas a sua inestimável cadelinha. Para isso, os desembargadores aplicaram, por analogia, princípios previstos no Direito de Família. Assim, o cara conquistou a guarda compartilhada do animal. Mas a ex-mulher não se conformou e recorreu da decisão. Por isso, a disputa chega agora ao STJ.

 

Em 1989, Antônio Rogério Magri era presidente da Central Geral dos Trabalhadores, a CGT, maior rival da CUT, a Central Única dos Trabalhadores. Na eleição presidencial que levou Fernando Collor e Lula ao segundo turno, Magri declarou apoio ao ex-governador de Alagoas. Eleito presidente, Collor nomeou Magri para ministro do Trabalho e da Previdência – era pasta unificada naquela época.

 

No cargo, o titular do ministério se notabilizou por declarações, digamos, inusitadamente criativas. Disse, por exemplo, que o salário do trabalhador era “imexível”. Depois usou o mesmo termo para se referir à sua própria condição no cargo. Mas a declaração definitiva foi esta: “Cachorro também é ser humano”. Foi sua explicação para o fato de usar carro oficial para o transporte de sua cadela.

 

Ele justificou sua conduta alegando a situação delicada, de urgência mesmo. Orca, era seu nome, estava prenha, pesava 90 quilos, precisava ser conduzida à clínica para a realização do parto. Não dava para recorrer a um táxi, explicaria Magri ao recordar o assunto, anos depois. Foi nesse contexto que afirmou, como um pai zeloso: “Lá em casa é assim. Todos são tratados do mesmo jeito”.

 

Magri ficou no cargo até 1992, ano do impeachment. Naqueles dias da pré-história brasileira, não havia ongs em defesa de todos os seres que Deus criou. A gente era cruel. Tudo mudou, e o tempo, como se vê, deu razão ao ex-ministro. Como gestor, seu legado é duvidoso; mas, como pensador e profeta, acertou na mosca. Sim, o cachorro é, como um filho, um típico ser humano. 

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Esquerda e direita, essas cretinices!

Jair Bolsonaro dispensa apresentações. Todo mundo sabe das qualidades do elemento. Mas, ainda assim, não importa que suas ideias, sobre qualquer coisa, sejam nada além que rasteiras, “luminares” da direita celebram a biografia do homem. Afinal, se ele é contra a “ameaça comunista” e o “marxismo cultural” (Santo Deus!), então os liberais sentam para dialogar. Bonito.

 

Donald Trump é quem é; e também não requer apresentação de currículo. Um cretino que reúne o que há de pior num político despreparado para tudo, ainda assim recebe tratamento semelhante ao demente brasileiro do parágrafo anterior. Ditos conservadores e liberais enxergam ali bons modos e modernos projetos para o futuro da humanidade. O que importa é derrotar o mal do esquerdismo.

 

Na Venezuela, Nicolás Maduro, o demente tiranete que bate papo com passarinho, acaba de renovar o mandato de 6 anos, numa eleição que só não é exclusivamente uma piada porque é, primeiro, uma fraude escandalosa. O processo eleitoral faz parte de um modelo de democracia de fachada. A votação do último domingo se deu em condições absurdas, com zero por cento de credibilidade.

 

A população abandona o país. 800 venezuelanos chegam por dia ao Brasil, fugindo da tragédia capitaneada por Maduro. Hoje, estima-se em mais de 50 mil o número de pessoas que vieram para Roraima. É um contingente que não para de crescer. Elas fogem do desemprego, da fome e de uma inflação de inacreditáveis 16.000%. De quem é a culpa? Depende de quem responde.

 

Parece uma mentira de outro mundo, mas historiadores, sociólogos, políticos e, é claro, jornalistas juram que todo esse colapso tem de ser debitado na conta do imperialismo americano. É tudo uma obra detalhadamente arquitetada para destruir o farol da revolução socialista que um dia nos levará à utopia. Assim como a direita, a esquerda vê o que quer, quando lhe é conveniente.

 

O que acho espantoso é a convicção na defesa de argumentos, de lado a lado, do que me parece escandalosamente indefensável. Para salvar Bolsonaro ou Trump, a direita (ou algo assim) pratica a mesma espécie de contorcionismo retórico da esquerda (ou algo assim) para salvar Maduro. Por que isso ocorre? Porque o que importa é sustentar minha “convicção ideológica”.

 

Essa insanidade geral, desculpem pelo óbvio ululante, foi turbinada por esse frenesi da militância virtual, na troca de informações que, no fundo, apenas reforça a opinião da minha preferência. Falando o tempo todo para sua patota, um idiota (ou um cretino) vai se tornando ainda mais cretino (ou idiota). É assim que vejo a defesa passional de Trump ou de Maduro. Aqui os dois empatam.

 

Não quero dar lição a ninguém – por completa falta de qualidades para isso, mas sobretudo por intenção zero de ensinar seja lá o que seja. Também não estou preocupado com a defesa de teses de nenhuma tendência de pensamento. Me livrei de qualquer motivação militante desde sempre. Escrevo – vamos dizer assim – para atacar ideias prontas e o que me parece besteiras consensuais.

 

Escrevo também para testar limites, para experimentar a liberdade de bater em qualquer patetice que se apresenta como monumento. E finalmente porque, assim, exponho minha coleção particular de besteiras. Não quero ter razão. As únicas coisas que me movem aqui são duas patas e uma cabeça um tanto (ou muito) perturbada. No mais, o leitor está livre para esculhambar.

 

Tais princípios já representam uma motivação e tanto. Esquerda, direita, Bolsonaro, Maduro – essas marmotas não têm importância nenhuma na vida de um indivíduo. Mais ou menos por aí. Bom dia! 

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Pense o que você quiser pensar

Assediado pela revolução permanente na língua culta, na fala do povo e na escrita em todas as plataformas, o sujeito, que vive pescando palavras, no delírio de produzir poemas, me parou no meio da rua e exigiu minha audiência para sua mais nova criação. Após tentativas inúteis de escapar, tive de ouvir as estrofes abaixo, em respeito à liberdade de expressão e à pluralidade estética. Disse-me, aquele trovador anônimo, que seus versos celebram esses “tempos sombrios”. Não tive saída. Lá vai.

 

Pertencimento

Lugar de fala

Outra narrativa

Política identitária

 

Igualdade de gênero

Manifestação fascista

Empoderamento

Moral sexista

 

Discurso de ódio

Marxismo cultural

Escola sem partido

Banalidade do mal

 

Estamento burocrático

Estado intervencionista

Estado mínimo

Refundação da política

 

Força e superação

Empreendedorismo

Uma nova polêmica

O neoliberalismo

 

Pós-verdade

Indignação seletiva

A era das fake news

Democracia inclusiva

 

#Lula livre

#Lula marginal

#Simples assim

#Pronto falei

 

Só sei que

nada sei

de tudo

 

sobre

o nada

que pensei

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Poli dance vai para Corregedoria da PM

O relevante caso do policial militar que postou vídeos de poli dance para festejar a suspensão dos pardais no trânsito teve hoje um novo capítulo. O Conselho Estadual de Segurança se reuniu para tratar do assunto que abalou Alagoas na última semana. Ao que parece, tem gente que perdeu o sono após a performance do PM sem noção. O cara virou o inimigo número um dos cidadãos de bem.

 

O policial Kleverton Pinheiro de Oliveira compareceu nesta segunda-feira diante do conselho. O momento mais grave da sessão, digamos assim, foi a exibição dos vídeos para os conselheiros. Resultado concreto: por 7 votos a 5, ficou decidido que cabe à Corregedoria da Polícia Militar investigar o delito e apresentar um veredito. Estamos todos ansiosos pelo desfecho.

 

Na TV Gazeta, falando ao vivo, o vice-presidente do Conseg, Antônio Carlos Gouveia, fez questão de demonstrar sua contrariedade com a decisão. Em tom de lamento, ele informou ter sido voto vencido na apreciação do episódio. Por sua proposta, que acabou derrotada, o infrator deveria ser julgado no próprio conselho, dada a gravidade da situação. Gouveia parecia mesmo bastante chateado.

  

A julgar por algumas manifestações acerca do acontecido, há quem defenda a expulsão do PM dos quadros da corporação. Vozes mais extremas querem até a prisão sumária do agente da lei. Não minimizo a presepada do Ferreti, como ele é conhecido, mas estou longe de querer seu enforcamento em praça pública, sob o aplauso dos indignados e dos puros de coração.

 

Ainda bem que o Conseg tomou a decisão certa. Prevaleceram a lógica, o bom senso e a inteligência. Transformar essa encrenca num processo a ser julgado no colegiado, desculpem, seria apenas algo irracional. Como escrevi antes, não falta pauta realmente grave para os conselheiros. É só querer.

 

Tudo isso, não devemos esquecer de tal detalhe, ocorre devido ao carnaval das redes sociais. Hoje em dia, como sabemos de sobra, para desencadear uma revolução, basta a zoada virtual de uma besteira. É por isso que tantos agem como intrépidos guardiões da moral alheia.

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Caixa 2 e mala preta nas eleições

Em 2014, a coligação que elegeu a presidente Dilma Rousseff declarou gastos de incríveis 318 milhões de reais. O segundo colocado na disputa, o senador Aécio Neves, registrou despesas que ficaram em 217 milhões de reais. Toda essa fortuna foi devidamente informada ao Tribunal Superior Eleitoral. Os dois lados garantem que não houve um tostão além do que foi declarado à justiça.

 

As regras de financiamento de candidaturas mudaram em 2015. Esta será a primeira eleição presidencial sem a participação dos bancos e grandes empresas – até então a fonte principal dos partidos. A doação de empresas foi banida do sistema, no embalo das pressões sobre o Congresso Nacional. Os congressistas aprovaram a extinção do financiamento privado na guerra pelo voto.

 

Para substituir a grana de empresários patriotas e banqueiros ufanistas, criou-se um fundo especial (com dinheiro público) para as campanhas. O valor total é de 1,7 bilhão de reais. É permitida a doação de pessoa física, que pode entregar a um partido até 10% de seus rendimentos declarados em 2017. Agora, repare isso: em 2014, as empresas doaram nada menos que 3,6 bilhões de reais.

 

Outra novidade é o teto de gastos. Há um valor estabelecido para cada cargo em disputa – são cinco nas eleições gerais. Um candidato a deputado estadual não pode usar mais de 1 milhão de reais. Para quem concorre a presidente, o teto é de 70 milhões. Dilma e Aécio torraram um valor quatro a cinco vezes acima do que agora prevê a regra. Teremos uma campanha mais pobre em 2018?

 

No ano passado, mais uma vez, o país ensaiou uma reforma política necessária, mas ficamos mesmo com um arremedo que nada resolve. Além de destinar uma dinheirama dos cofres públicos para aventureiros, ninguém acredita que isso tenha algum efeito capaz de reduzir a corrupção e o caixa 2. Há quem aposte no contrário, ou seja, numa farra ainda maior de “recursos não contabilizados”.

 

Outro aspecto controverso no modelo é a divisão do bolo, a fatia a que cada um terá direito no fundo de campanha. O critério adotado foi a representatividade no Congresso. O resultado concreto disso é o reforço das velhas legendas e dos mesmos caciques. Ganha mais quem já é grande.

 

Como qualquer um pode verificar, as informações oficiais do TSE mostram que mais de 70% daquele 1,7 bilhão de reais serão divididos pelos dez maiores partidos do país. A principal crítica é que essa modalidade cria barreiras para que vozes alternativas possam entrar no jogo político.

 

Mas se engana quem pensa que os nanicos estejam muito tristes. A instituição do fundo de campanha mantém todos com um belo repasse – além do fundo partidário (não confundir os dois), que é permanente. Criar e manter uma sigla de aluguel continua sendo um rentável meio de vida.

 

A disputa pelo voto, de novo, será também uma guerra nos subterrâneos por onde voam malas, sacos e sacolas de dinheiro. A verdade é que o sistema parece desenhado especialmente para incentivar a fraude e a compra da eleição. Tem tudo para acabar em novos (e explosivos) escândalos.

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Reitoria da Ufal precisa se explicar

As universidades federias têm autonomia plena. Em seus quadros, como se sabe, a regra no corpo docente é a crítica ácida ao – com o perdão do lugar-comum – sistema dominante. Reitores e professores estão sempre a postos para a denúncia sobre os desmandos e desvios na gestão pública. Falta o mesmo engajamento para enfrentar as próprias mazelas que se acumulam.

 

Comento reportagem publicada aqui no CADAMINUTO, que o leitor pode conferir no site em todos os detalhes. Segundo texto assinado por Luciana Beder, um prédio gigantesco erguido para ser o restaurante universitário da Ufal em Arapiraca está abandonado há mais de dois anos. Construído em 2015, o local até hoje continua desativado. O mesmo ocorre no campus de Delmiro Gouveia.

 

Alunos contam que, em Arapiraca, um espaço no RU que não funciona está sendo usado como auditório, porque o teto do auditório original desabou no ano passado – entre outros problemas na estrutura física. Estudantes reclamam de vários outros descalabros nas dependências do campus arapiraquense da Universidade Federal de Alagoas.

 

Recentemente a reitoria da universidade soltou até nota oficial para explicar os casos de obras paradas no campus de Maceió. Mesmo diante de imagens incontestáveis, o comando da Ufal se nega a admitir a realidade evidente. Para a gestão, está tudo dentro dos prazos legais, em cronograma sem qualquer entrave no andamento das obras. Ainda que essa versão pareça um enredo ficcional. Por aí, as coisas ficam longe de melhor esclarecimento.

 

O que vemos aí, infelizmente, é o mesmo padrão da política profissional, onde gestores inventam desculpas para justificar o colapso em obras e projetos. Sem falar que é pouco transparente a postura da reitoria, que prefere, como sempre, jogar a culpa de todos os males no Ministério da Educação. Seja qual for a encrenca, os donos da universidade querem mais dinheiro.

 

Como disse na lá no começo, a universidade atua com plena autonomia administrativa, política e financeira. Essa condição faz daquele universo paralelo, em muitas situações, um ambiente ainda mais isolado do que já é naturalmente. Prestação de contas não é o forte por essas quebradas.

 

Diante dos fatos sobre os restaurantes que não funcionam – há mais de dois anos, repito –, a reitoria da Ufal de novo não explicou nada. A Secretaria de Infraestrutura da universidade joga a responsabilidade na construtora. Espera por ajustes da empresa, após notificação do problema.

 

E nada além disso a acrescentar? É muito pouco para o tamanho do problema. Precisa mais.

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Hat trick?! A imprensa não toma jeito

Não sei quando começou, mas, de repente, parece que todos os editores de esporte na imprensa descobriram uma fórmula verbal mágica para classificar um feito não muito comum numa partida de futebol: três gols de um mesmo jogador. Um belo dia, algum jornalista antenado com as novidades sapecou o tal do hat trick. Foi a danação. O vírus contaminou todas as redações do planeta.

 

Nós, é claro, enfiamos o pé na jaca e passamos a macaquear a expressão – uma das maiores idiotices que já vi desde que acompanho futebol e leio notícias sobre o jogo de bola. Fui procurar informações sobre a origem do troço, e não entendi até agora por que todo redator hoje em dia não vive sem o seu hat trick particular. Pela adesão unânime, deve ser uma regra obrigatória.

 

Semanas atrás, algum atacante do CRB marcou três vezes durante um desses duelos mortais no gramado, e cá estava, nas manchetes alagoanas, a nova expressão que seduziu repórteres, comentaristas e narradores. Já não bastava o gol contra de pedir música no Fantástico, agora sou obrigado a ler, sobre o resultado do jogo, textos que não podem dispensar essa presepada.

 

E se o cara marcar não três, mas quatro ou cinco gols, como é que fica? É possível, afinal, você sabe, o futebol é aquela caixinha... Jesus de Belém! É por essas e outras que nós, os jornalistas, não temos jeito mesmo. E ainda queremos posar de a turma do senso crítico, donos de uma consciência afiada, sempre com a faca nos dentes, para enquadrar os alienados, os desinformados, a gentalha.

 

Como? Reproduzindo feito papagaio qualquer marmota, venha de onde vier, como se fosse a última das maravilhas da linguagem? Não dá, galera. Este é o país dos geraldinos, da bola na gaveta, do tirambaço do meio de campo, do centroavante trombador, do escanteio de mangas curtas, do juiz ladrão. Há toda uma longa história, uma vasta tradição em jogo, entende?

 

Lembro quando o verbo “detonar” entrou na moda, lá nos anos 90, e foi bater na escalada, ou seja, na abertura do Jornal Nacional. Ficou tão manjado que, um dia, na TV Gazeta, baixou um fax da Globo revogando a expressão. A partir daquele momento, ficava proibido o uso do termo nas reportagens. Como já escrevi aqui, tudo, tudo mesmo, está condenado a virar lugar-comum.   

 

Essa novidade, que descobri há pouco, já é uma velharia completamente sem sentido. Se você escreve isso, está somente pensando no piloto automático – o que é a morte na arte de escrever. Fico imaginando o que Nelson Rodrigues diria sobre esse atentado à linguagem e ao futebol. Peço aos colegas das editorias de esporte que repensem a vida. Deixemos a retranca e vamos ao ataque.

 

Pensar e escrever são duas atividades que formam uma tabelinha virtualmente infernal. Muitas vezes, o resultado pode se traduzir numa jogada imprevisível. E é verdade que, a qualquer momento, o esquema tático pode ser destruído num lance que parecia perdido. Mas é vencer ou vencer. Como dizia Jardel, o artilheiro-pensador do Grêmio, clássico é clássico – e vice-versa.

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Manhã de sábado. A 200 por hora

Todos os bispos do Chile renunciaram após acusação de pedofilia. O pedido de “demissão coletiva” será analisado pelo Papa Francisco. A Igreja Católica chilena enfrenta a maior crise de sua história. Agora pense nos fiéis que durante toda a vida confiaram na santidade desses homens do Senhor. Mundo afora, a sucessão de escândalos sexuais, sob a proteção de Deus, não é de hoje.

 

Naturalmente, ficamos sabendo apenas dos casos que rompem a barreira de proteção que parece ser a regra entre os senhores de batina. E ficamos sabendo porque hoje os tempos são outros, com a revolução dos meios tecnológicos de informação. Durante séculos nada disso veio à tona. Até um dia desses, qualquer denúncia sobre desvios na Igreja era derretida nas fogueiras divinas.

 

Violência e medo. Essa é a dupla temática que pode dominar o debate eleitoral na eleição para presidente. O noticiário em geral embarcou na vertiginosa pauta que arrasta a família brasileira. E é claro que Jair Bolsonaro nada com desenvoltura nessa praia de insanidade, com o proselitismo barato que defende a solução simplória de armar todo mundo. Vamos às urnas para um duelo.

 

Nesta sexta-feira, Geraldo Alckmin deu uma piscadela para os ansiosos cidadãos de bem que exigem um Brasil com jeitão de faroeste. Falando para gigantes do agronegócio, o candidato tucano afirmou que o porte legal no campo deve ser uma alternativa a se considerar. E como impedir que o fazendeiro venha à cidade com sua arma legalizada? Avançamos, bastante, para trás.

 

Na campanha eleitoral, tão urgente quanto falar de segurança pública é a retórica de combate à corrupção. Parece uma novidade, não é? Afinal, nunca o país esteve tão conflagrado por tantos casos de assalto aos cofres públicos. Que nada. Jânio Quadros se elegeu presidente, quase 60 anos atrás, usando uma vassoura como símbolo. Prometia varrer a bandalheira para sempre.

 

O jornalismo brasileiro também anda para trás, com desassombro e voracidade. É o que constato diante do frenesi com essa porcaria de casamento real britânico. Tem até especialista para comentários nas grandes redes de TV. No momento em que escrevo, os maiores portais tratam o assunto nas manchetes. Os termos e trejeitos de jornalistas atestam que estamos perdidos.

 

O mundo é maluco mesmo. Se, como dizem os bacanas do pensamento dominante, acabou a velha família; se pai, mãe e filho são coisas do passado, por que essa reverência despudorada a um monumento à caretice? Pelo visto, as meninas querem mesmo é ser princesas – depois, é claro, de encontrarem o encantado príncipe. Cadê o novo homem e o empoderamento feminino?

 

José Dirceu voltou à cadeia e diz que jamais fará delação. A imagem de sua rotina de condenado por corrupção fica ainda mais desconcertante quando se pensa na biografia lançada em 2013 pelo jornalista Otávio Cabral. Ali, vê-se o personagem ávido pelo poder desde a militância de adolescente. De aprendiz de guerrilheiro em Cuba a compulsivo triturador de aliados, fez de tudo para subir.

 

Com Neymar tatuado pela imagem de mercenário, arrogante e desmiolado, o mundo da publicidade elegeu Tite como seu perfeito garoto-propaganda. O modelo ideal de vendedor da Copa é o professor. Por isso somos obrigados a ver o homem a proferir uma coleção de baboseiras, com ares de pensador. E milhões de jovens dispostos a “empreender” deliram com receitas sobre o nada!

 

Manhã de sábado, 19 de maio de 2018. Aqui, nessa parte da cidade, bate o mormaço, cai um chuvisco passageiro, o sol vai e volta, a vizinha estende roupa no barbante esticado entre um poste e outro, e na esquina, um quarteto divide a meiota, e da caixa de som na calçada, eu vou voando pela vida... sem destino algum, e agora sem os pardais, vou sem saber pra onde... estou só, a 200 por hora.

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