Pensando besteiras

Nenhum pensamento chega pronto, resoluto e acabado. Simultaneamente, somos assaltados pelo que há de mais fragmentário e efêmero, sem que nada se imponha como um todo, articulado em etapas, deduções e teses conclusivas. É a hora fatal do aforismo inconsequente, despretensioso ou apenas oportunista. Você escolhe.   

 

1. Domingo, primeiro de outubro de 2017. Faltam 92 dias para o ano acabar. Aqui, nessa parte da cidade, perto da lagoa Manguaba, a quentura confirma o mormaço típico do Nordeste do país.

 

2. Maceió é um conjunto de fotografias da memória. É o que Lêdo Ivo traduziu na vastidão de sua poesia. Afinal, é para isso – também – que existe a grande literatura.

 

3. Os acontecimentos estão à espreita. Um emaranhado de nuances reveste a aparente calmaria ou a alucinação de um espanto. Nada de novo sob o sol do Eclesiastes – mas quem é que sabe?

 

4. Nas casas e na rua; nas metrópoles e nos povoados; nas multidões ou na rotina de um solitário qualquer: o mundo como ideia, na palavra e no silêncio. Tudo o mais é o que vamos escrevendo.

 

5. Na regularidade das tarefas, nos habituamos facilmente a modelos e convenções. Cercados pela caretice que nos estimula à ordem, gostamos de ver certezas absolutas onde pulsa até o inominável.

 

6. Exigem que você tenha foco, persistência, organização e destino de empreendedor. Coisa do capeta e sua equipe. É a receita para o milagre do sucesso e da felicidade. Ou se enquadra ou é a danação.

 

7. Jacobino, uma palavra que ameaça a supremacia de fascismo, invadiu todas as crônicas, seminários e palestras. Serve para encaixar erudição nas explicações sobre o mundo. Até os botecos se renderam.

 

8. Quem fala em jacobinos, a depender da conveniência, reclama da guilhotina sobre sua cabeça ou pretende guilhotinar o pescoço alheio. Porque a vida é dialética.

 

9. Nostalgia. O valor da experiência. A mercadoria da humildade como disfarce da soberba. O desapego fingido. As citações como argumento de autoridade. Quantas páginas nos desafiam com a potência da inutilidade.

 

10. Comecei a lista com uma data e um cenário, mas o tempo e o lugar se desdobram. O vento bate numa janela. Alguém atravessa uma ponte. Você dispara um xingamento. Um livro se perdeu. Tratamos o mistério com displicência.

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A bola na rede e o voto na urna

Falta um ano para o campeonato eleitoral de 2018. E, nos acontecimentos com data marcada no calendário, as eleições só perdem em importância, na cabeça do brasileiro, é claro, para a Copa do Mundo de Futebol, na Rússia. Antes do voto na urna, a bola vai rolar, como se sabe, no mês de junho. E entre ganhar o hexa e eleger o futuro presidente, a torcida mata e morre, mesmo, é pela seleção do professor Tite.

 

Saturados de certezas quanto aos onze titulares da seleção, nada podemos apostar sobre os adversários que vão disputar a preferência de 146 milhões de eleitores. Nunca houve uma distância tão ampla entre a luminosidade do sistema tático, de um lado, e o sombrio panorama de coligações, de outro. Ao contrário do plantel do treinador, o cartão vermelho ameaça barrar a escalação de meio mundo nas agremiações partidárias.

 

Na prancheta do técnico do Brasil, as coisas aparecem tão harmonizadas, num imenso deserto de impasses, que até certo clima de tédio generalizado paira sobre o sempre inflamado espírito do torcedor. Ninguém exige a escalação de um nome na ponta esquerda, não há um cabeça de bagre como volante, nenhuma voz aponta burrices no esquema de jogo. Nelson Rodrigues ficaria assombrado com a unanimidade acachapante.

 

A regularidade na equipe, desde que Dunga foi dispensado, já faz o torcedor citar os titulares, com uma, no máximo duas alternativas à formação definitiva. Não há contestações entre os escolhidos, tirante alguma ressalva sobre o goleiro, o que não conta praticamente nada. Já quando se vê a lista dos pré-candidatos nos partidos, ninguém arrisca um nome irreversível na bagunça geral.

 

No campo da esquerda, pelo PT, a sorte de Lula está pelo tapetão judicial. Entre os tucanos, Alckmin e Dória trocam bordoadas, e até José Serra ainda se mexe em tramas subterrâneas. Ciro Gomes atira em todas as direções e não acerta nenhum alvo. Marina Silva é a novidade que envelheceu após duas derrotas traumáticas. Bolsonaro faz barulho, mas, na hora do jogo, espera-se que o país despreze o ideal da escória.   

 

Todos os nomes cogitados para a urna eleitoral podem mudar. Variáveis de toda ordem podem abater qualquer um. Para vestir a camisa amarela, como titular absoluto, aí a coisa muda. Alisson, Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Marcelo; Casemiro, Paulinho, Renato Augusto e Philippi Coutinho; Gabriel Jesus e Neymar são os caras. Somente uma tragédia tira algum desses da Copa. 

 

É mais ou menos por aí. No banco de reservas da seleção, a lista também está definida. Quanto às eleições, se já é um drama pensar nos titulares, imagine as opções que temos na vitrine. Hoje em dia, não há diálogo nem tabela entre a vida pública destroçada e a pátria em chuteiras. Talvez sempre tenha sido assim. Mas cada época é uma época; e cada jogo é outro jogo.

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O centenário do Rei do Jabá

José Abelardo Barbosa de Medeiros, o homem que arremessava bacalhau para seu auditório, nasceu há cem anos, num 30 de setembro como hoje, em 1917. No Brasil, é um centenário mais festejado que o da revolução bolchevique na velha Rússia. Foi na década de 1950 que o país começaria a conhecer aquele que se transformaria no mitológico Chacrinha, o Velho Guerreiro.

 

Reza a lenda que a ideia de jogar bacalhau na cabeça dos que formavam a plateia de seus programas nasceu por uma demanda publicitária. A casa que comercializava o produto estava em crise, com as vendas em baixa. O gesto, à altura das tradições mais bizarras da TV brasileira, deu resultado. As vendas explodiram e o apresentador garantiu a grana do patrocínio.

 

A jogada mercadológica de Chacrinha não foi a primeira nem a última. Ele era o rei do jabá, o termo que serviu para definir – no submundo das emissoras de rádio – uma prática até hoje reproduzida como verdadeiro dogma. Resumindo, sem enfeite, é o seguinte: para tocar a música, tem de pagar um dinheirinho. O suborno entrou para o organograma das gravadoras de disco.

 

No Cassino do Chacrinha, o jabá se materializava de modos variados. Para brilhar no palco mais cobiçado da televisão, cantores e bandas não precisavam necessariamente pagar à vista; podiam fazer um acordo para tocar, sem cachê, nos shows que o apresentador organizava fora da TV. Ou entrava na chantagem ou não cantava para a massacrante audiência televisiva. Poucos resistiam.

 

Episódios desse capítulo pouco nobre da televisão, envolvendo um bocado de artistas, estão em livros de nomes como Paulo César de Araújo, André Midani, Nelson Motta e Lobão. Também se conta sobre isso no imperdível documentário Alô, Alô Terezinha!, de 2009, dirigido por Nelson Hoineff. É um coquetel de insanidades. O cara que veio para confundir, e não para explicar, saiu do ar em 1988.

 

Dizem que Chacrinha foi revolucionário. Até pode ser. Reinou durante três décadas e, durante esse período, incrementou trajetórias, inventou novidades e foi decisivo para vender milhões de discos. Seus herdeiros estão em todos os canais, distribuindo macaquices pra todo lado. Mas é incontornável que se diga, com o vocabulário atual, que era alguém de práticas pouco republicanas.

 

Quanto à filosofia do jabaculê, mesmo com a internet, segue inatacável na TV e FMs da vida. Mudou apenas a metodologia da malandragem. Por isso, jamais acredite nas paradas de sucesso. A máquina se move segundo a melodia da propina. Quem não suborna, se trumbica.

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Uma ação tresloucada do MPF

Vai ficando cada vez melhor. Uma notícia que chega do Sul reafirma algo que já ninguém mais pode duvidar. Estamos diante de um fenômeno que merece um estudo dos mais aprofundados, uma verdadeira tese de doutorado, quem sabe. Refiro-me, é claro, a mais uma iniciativa tresloucada do Ministério Público Federal. A soberba alucinou alguns procuradores.

 

Eis a inesperada manchete que me intimou a escrever: MPF recomenda “imediata reabertura” de exposição de arte em Porto Alegre. É aquele caso em que o banco Santander encerrou uma mostra, antes do prazo previsto, depois de protestos pela suposta promoção de pedofilia e zoofilia. A presepada não para de produzir inusitadas consequências.

 

A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do MPF do Rio Grande do Sul, publicou sua resolução e deu prazo de 24 horas para ter uma resposta do Santander Cultural. O banco informou que não atenderá à recomendação. Parece escandalosamente óbvio que o MPF não tem qualquer respaldo legal para uma exigência descabida como esta.

 

O autor da ridícula peça é o procurador Fabiano de Moraes. Ele é criativo. Além de cobrar a reabertura da exposição Queermuseu, o homem também recomenda ao Santander que promova outra mostra, semelhante à que foi interrompida. E chega a prescrever a temática e o período dessa nova exposição. Ou seja, a gente não sabia, mas nos quadros do MPF tem até curador de arte.

 

Em suas alegações para exigir o que uma entidade privada deve fazer, é claro que o procurador recorre ao pensamento mais panfletário de hoje no modismo das ideias feitas. Aponta para o perigo de perseguição à arte como ocorreu na Alemanha nazista. É duro. Ainda bem que o Santander não se curvou ao evidente abuso de autoridade, bastante típico em procuradores pelo Brasil afora. 

 

De onde vem tamanha valentia para inventar o que não lhe cabe? Já escrevi aqui. O procurador do Sul tem inspiração precisa. Depois de figuras como Rodrigo Janot e Deltan Dallagnol, tudo é permitido no Ministério Público Federal.

 

Ninguém segura os rapazes que se arvoram como paradigmas da moralidade, senhores absolutos da consciência nacional. Querem borrar tudo com suas piores idiossincrasias. A coisa bateu num grau de tanto descontrole, que perderam até a noção da patetice.

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Politicagem na universidade brasileira

Leio aqui no CADAMINUTO que a Universidade Estadual de Alagoas vive uma guerra aberta entre reitor e vice-reitor. Jairo Campos da Costa e Clébio Correia de Araújo romperam no meio do mandato e hoje trocam acusações. Pelo que entendi, no centro estão interesses de ordem política. Aliás, o reitor já manifestou mais de uma vez a intenção de ser candidato nas eleições de 2018. Cogita uma cadeira de deputado estadual na Assembleia Legislativa.

 

Mas não me interessa aqui debater as razões da dupla. Além do mais, não conheço detalhes da desavença entre os dois acadêmicos. O caso, no entanto, expõe uma realidade que é bem mais comum do que se noticia sobre o cotidiano de nossas universidades públicas. O que deveria ser um espaço para pesquisa, ensino e produção de conhecimento, vive tomado pela mais baixa politicagem.

 

Assim é também nas universidades federais, transformadas em palanques para militantes a granel. Com estabilidade infinita no emprego, professores se valem de cargos e prerrogativas para atuar em nome de legendas partidárias, o que nada tem a ver com educação. É uma praga estabelecida e, desgraçadamente, irreversível. Enfrentar essa distorção é um perigo para qualquer um.

 

Mestres e doutores, todos os dias, vomitam em sala de aula a mais escancarada propaganda política, sem qualquer preocupação com os assuntos previstos em suas disciplinas. Na outra ponta dessa operação, estão aqueles que simplesmente usam a universidade para fazer carreira na política partidária. Tratam as faculdades como uma célula de seus partidos.

 

Há exemplos de professores que transformaram a universidade em “bico”. Passam uma temporada com mandato eletivo, ou como secretários em prefeituras e governos estaduais, e reassumem a cadeira acadêmica quando estão em baixa no circo da política – ou seja, quando são desalojados da mamata partidária. Aí, retornam à mamata universitária.

 

Falo de um fenômeno nacional. E essa é a realidade por aqui também, naturalmente. A Universidade Federal de Alagoas e a Uneal estão mergulhadas nesse ambiente degradado de militância escancarada e guerra suja pelo poder. Faz tempo. A trombada entre reitor e vice, nos corredores de nossa universidade estadual, é apenas um sintoma da tragédia na educação superior do país. Caso perdido.

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OAB-Alagoas defende a censura

A Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas acaba de escrever uma das piores páginas em sua história de 85 anos de existência. Numa mensagem enviada aos veículos de comunicação nesta quinta-feira 28, a entidade pede, sem qualquer eufemismo, que não seja publicada uma informação sobre a prisão de um advogado, no município de Palmeira dos Índios.

 

O advogado detido numa operação policial se chama Igor Gonçalves Ferro. Seu nome foi divulgado pelos delegados da Polícia Civil que comandaram a operação nas primeiras horas do dia. Segundo a polícia, ele faz parte de um grupo envolvido em diversos crimes no Agreste. Outras seis pessoas também foram detidas. Com eles, os policiais encontraram armas e drogas. 

 

Os mandados judiciais foram expedidos pela 17ª Vara Criminal da Capital, especializada no combate ao crime organizado. A direção da Polícia Civil informou que dará detalhes do caso durante esta sexta-feira. Não entro, é claro, no mérito das acusações apontadas pelas autoridades. As investigações devem apresentar ao Ministério Público as provas que eventualmente sejam levantadas.

 

Antes de tudo isso, porém, a OAB alagoana se antecipa e comete um gesto de censura explícita, ao praticamente exigir da imprensa que esconda a identidade do advogado suspeito – e preso. O trecho mais revelador no documento oficial da entidade deixa evidente um tom de intimidação, quase uma ameaça. Transcrevo essa parte, em destaque:

 

“Como temos a absoluta certeza de que a intenção dos meios de comunicação não é o de violar princípios constitucionais e que o direito de imprensa, liberdade de expressão e inibição à censura devem andar juntos com os princípios da presunção de inocência e proteção à intimidade, requer esta Diretoria que não seja divulgado o nome do advogado preso, nem que sejam divulgadas imagens do mesmo”

 

Essas palavras, que fazem parte de uma peça que já é histórica, são assinadas por Juliana Marques Modesto Leahy, secretária-geral da Diretoria de Prerrogativas e Valorização do Advogado da OAB-AL. Mas é claro que a autoritária iniciativa partiu da cúpula da entidade. A presidente da OAB é Fernanda Marinela de Sousa Santos. Por que ela não assina o documento? Algum constrangimento, talvez?

 

O respeito à presunção da inocência é o argumento central nas alegações para a censura que se deseja impor. Todos os dias, porém, operações policiais prendem dezenas de pessoas em nossas cidades. Não se conhecem manifestações semelhantes da OAB em defesa do alegado princípio que agora é usado para proteger um advogado. Porque não é disso que se trata. A motivação da Ordem é puramente corporativista. E pelo interesse de sua turma, e da corporação, vale tudo.

 

A OAB tem um poder descomunal no país. Atua com ferocidade política o tempo todo. Não reluta em pedir a cabeça de qualquer um – de ministro do STF a presidente da República. Por isso, sente-se à vontade para, agindo exclusivamente em nome dos interesses de uma categoria, decidir o que a imprensa pode ou não pode publicar. 

 

No discurso, a OAB tem como uma de suas bandeiras a defesa incondicional das liberdades individuais e de expressão. Na vida real, como se vê, apela aos piores caminhos do arbítrio e do abuso contra um direito sagrado de todos nós.

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O abuso do STF contra o Senado

Afinal, o Senado pode ou não rever a decisão do STF que afastou do mandato o senador Aécio Neves? Como vocês viram, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu, por três votos a dois, que o parlamentar perde suas funções e deve se recolher à noite, sem direito è liberdade depois que o dia escurece. Eu diria que avaliar o ato do STF é ao mesmo tempo um direito e uma obrigação do Senado.

 

Mas, antes de defender meu ponto de vista, a memória do caso. Em conversa com o açougueiro Joesley Batista, Aécio pede 2 milhões de reais para resolver demandas de campanha. Dias depois da linha direta por telefone, um homem do senador aparece recebendo uma mala com o dinheiro. Parece grave? Sim, gravíssimo. Os lances apontam para propina e corrupção.

 

Ocorre que qualquer punição ao senador só é possível como consequência de um processo legal. E isso não é matéria de dúvida nem campo para opiniões da cabeça de um juiz do Supremo ou de ninguém. É o que está nos textos das leis e da Constituição. Um suspeito não é réu automaticamente; logo, não pode ser alvo da sanha antecipatória de tribunal nenhum.

 

Pelas manifestações dos senhores togados, estamos diante de um movimento populista, que pretende dar uma resposta imediata à sociedade, ainda que para isso sejam atropeladas as regras elementares previstas no ordenamento jurídico. É o que vem ocorrendo não apenas no exemplo de agora, mas em inúmeras situações desde que passamos a idolatrar juízes e procuradores.

 

Luiz Fux e Roberto Barroso, que votaram contra o senador, são as duas figurinhas mais exóticas hoje no STF. Onde houver holofotes berrando por linchamentos sumários, eles batem ponto, sambando sob as capas esvoaçantes e a bordo de salto alto. Mais uma vez, temos aí um tipo de abuso que extrapola o caso específico e viola o direito de todos. Um precedente para ilegalidade ganha status de parâmetro geral, de alcance coletivo.

 

Não bastasse o argumento de ordem estritamente legal, a decisão do STF é um claro desrespeito ao princípio de independência entre os poderes da República. Mas, como disse Lula naquele telefonema vazado criminosamente por Sergio Moro, parece que todo mundo está acovardado. A decisão do STF é uma ilegalidade e não pode vigorar como se fosse algo natural.

 

Pelo noticiário de hoje, talvez o próprio Supremo, em votação com os onze ministros, anule, nos próximos dias, a aberração da Primeira Turma. Ou é isso ou o Senado terá de fazê-lo. É um direito incontestável do parlamento. Mas é também uma imposição moral. Caso contrário, seria melhor fechar a casa.

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Um jogo de futebol e algumas ideias

Suspeito que nem todo mundo sabe, mas houve um tempo em que o centroavante de pouca habilidade era chamado de trombador. Sem aviso nem explicações, como tudo na vida, ou quase tudo, isso mudou para sempre. Hoje em dia, misteriosamente, o mesmo tipo de jogador é elogiado por uma de suas “principais qualidades”: o cara é um especialista em fazer a parede.  

 

Alguns trombadores me ocorrem agora. Dadá Maravilha, Beijoca, Serginho Chulapa, Viola, Joãozinho Paulista e Dentinho foram modelares. Com alguma licença poética, muitos poderiam citar Nunes e Roberto Dinamite, mas eu discordo. Um legítimo trombador distribui a esmo caneladas e pontapés, corre olhando para baixo, chuta pra todos os lados e reza por um cruzamento pelo alto.  

 

Mas não vou aqui cometer uma resenha, ainda que precise explicar melhor o espanto diante do fenômeno que chamarei de um deslocamento de princípios no futebol. O que temos, com a nova nomenclatura, é mais um caso em que as palavras parecem nos revelar – sem que os cronistas se deem conta – uma reelaboração de conceitos, valores e paradigmas. Renomear o trombador para pivô muda o jogo que se joga fora de campo.

 

No cenário brasileiro atual, os dois pivôs mais elogiados por comentaristas de todas as tendências são Jô (Corinthians) e Guerrero (Flamengo). Além de fazer a parede, de costas para os zagueiros adversários, dominam como ninguém a arte de flutuar na entrada da área. Quando vemos a dupla em ação, cada um por seu time e com suas particularidades, os velhos e autênticos trombadores nos dizem algo inquietante, algo que se foi e que retorna.

 

Se você não gosta de futebol, ou é indiferente a esse esporte, talvez não entenda tamanha atenção a um irrelevante jogo de bola. Naturalmente, meu assunto aqui não é a disputa de uma partida ou a rivalidade entre dois times. Também não cuido de idolatria por sujeitos afamados como craques. E, principalmente, não estou interessado se um time perde ou vence de goleada.

 

Berrar, brigar ou chorar, na vitória ou na derrota, são apenas manifestações banais e tediosas, diante de um teatro único e imprevisível. Gostar de futebol e torcer por um time são coisas diferentes. Desconheço o que chamam por aí de time do coração. Livre do fanatismo, que nunca experimentei, o jogo se expande sem parar, em significados e perplexidades.

 

Talvez por isso, e não por torcer por um clube – o que não faço –, tenha assistido, nas últimas horas, a duas partidas de futebol. Em cada lance, da mais extrema inventividade ou da mais inacreditável presepada, é o pensamento que está em jogo. Sempre. O torcedor apaixonado e o centroavante discordam, mas o gol é só um detalhe. O drama é outro, mais amplo e muito mais profundo. 

 

Mas se você considera todo esse amontado de palavras uma bola fora, está tudo certo. Pode me chamar de perna de pau.

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A Globo e os bancos querem um mundo melhor. Sim, eles podem!

Para escapar de certas armadilhas intelectuais, ou simplesmente para não cair em golpes publicitários, basta ficar um pouco mais alerta. É comum que essas duas ameaças apareçam combinadas e casadinhas em eventos apresentados como de alto nível, para capturar sua atenção – e seu dinheiro.

 

Tenho certeza que algum evento caça-níquel, como o que acabo de descrever acima, está marcado para ocorrer agora mesmo, em algum auditório perto de você. Vender baboseiras como se fossem pensamentos profundos, numa embalagem de slogans modernosos, é uma das indústrias mais lucrativas no mercadão das ideias feitas.

 

Os seminários e palestras que prometem transformar a vida e redimensionar a quadratura do círculo se espalham pelo Brasil. Dos confins da floresta amazônica à beira da praia ensolarada de Maragogi, por exemplo, um gênio que tudo sabe vai começar a falar. Plateias ávidas por fórmulas mirabolantes de sucesso estão prontas para acreditar em tudo, até em milagres.

 

Escrevo tudo isso porque vejo o anúncio da palestra mais aguardada pelo Brasil em todos os tempos. Barack Obama, o guru que foi presidente dos Estados Unidos durante oito anos, vem aí com suas lições para salvar o país e o planeta. O homem é o convidado especial de um convescote promovido pelo banco Santander em parceria com o jornal Valor Econômico.

 

Veja se isso faz algum sentido. O tema da palestra de Obama é Mudar o mundo? Sim você pode! Para aprender como concretizar a façanha do americano, o ingresso mais barato custa 5 mil reais. Isso mesmo. Se quiser ouvir a mágica de um assento mais favorável, o preço sobe para 7 mil e 500 reais. Repare que o negócio é uma tabelinha entre um banco e um jornal das Organizações Globo.

 

Aí você pensa: quem mais estaria preocupado em mudar o mundo, para melhor é claro, se não um banco e a família Marinho? É perfeito. O título da palestra repete o slogan da primeira campanha presidencial de Obama, lá de 2008. Nove anos depois, ele continua ensinando o segredo, e multidões continuam a pagar – caro – pelo manual exclusivo e infalível.

 

O slogan de Obama é um miserável lugar-comum, com toda a fachada de originalidade e nenhuma essência de verdade. (Tratei disso no texto anterior). Sua palavra de ordem para vender o que não existe resume-se a uma sem-vergonhice publicitária, típica do ideário dominante em nossos dias e, ao mesmo tempo, idêntica às pilantragens marqueteiras de todas as épocas.

  

O que explica o triunfo de tamanha fraude intelectual, exibida com desassombro em cartazes, meios eletrônicos e letreiros luminosos? No caso específico de Obama, o poder descomunal do cargo que exerceu e a fama planetária são fatores decisivos. Não importa o que ele diga, a besteira grandiloquente será recebida como peça fundamental do conhecimento nos auditórios amestrados.

 

É assim que funciona a indústria da ignorância globalizada. Não esqueça. Um banco (que representa o setor mais lucrativo da economia) e a família mais rica do país querem um mundo melhor para todos. Quem duvida? Para nos convencer de suas intenções altruístas, fazem qualquer esforço pelo povo – e recorrem a um mito contemporâneo.

 

Neste mundo ou em qualquer outro, quando tudo estiver transformado, os mercadores de ilusões estarão por aí a mercadejar. Mas não adianta. Nada, nenhuma credencial, por mais festiva e barulhenta, será capaz de pingar substância onde só há embuste e falsificações. Caia fora.

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Vida e morte em nossas palavras

Tudo está à beira do lugar-comum. Tudo mesmo, inclusive a frase que acabo de escrever na abertura do texto que você está lendo agora. E por que isso tem alguma importância em nossas vidas? Porque tudo em volta se articula, antes e inapelavelmente, na forma de discurso. E o instrumento inescapável na construção de um discurso – para a defesa de uma ideia – será, sempre, cedo ou tarde, um conjunto de lugares-comuns.

 

Sustentar um ponto de vista, com alguma originalidade e consistência, é o que poderíamos chamar de tarefa infernal. Para qualquer paisagem que se olhe, somos arrastados pelo turbilhão de frases feitas, como se aquelas frases nos dessem as soluções incontestáveis aos dramas e mistérios da vida – por mais terríveis e insondáveis que sejam aquilo que é dramático e aquilo que é misterioso.

 

Cedo ou tarde, no primeiro parágrafo, e tarefa infernal, no segundo, são os dois lugares-comuns mais visíveis que usei até aqui. Você pode identificar outros, ou nenhum, a depender de seu repertório, da sua visão de mundo e da sua paciência. É automático. É compulsivo. O que antes tantas vezes já foi dito reaparece a cada ímpeto por alguma explicação, e o velho se impõe como novo. Uma armadilha para o espírito a cada esquina, a cada opinião.

 

Destrinchar a fala recorrente que atravessa os tempos está fora do alcance de qualquer um. Da Bíblia ao manifesto das vanguardas, a redundância assombra a linguagem. Do primeiro filósofo ao homem anônimo do agora e do futuro, a solução verbal que um dia arejou a realidade estará, ao fim e ao cabo, no catálogo infinito das repetições. O índice de uso e reuso será a única diferença. No grau máximo da perversão repetitiva, significado nenhum sobrevive à morte da palavra.

  

Agora mesmo – para não ficarmos na pura divagação, longe da vida real – uma artilharia de lugares-comuns aponta para nós. O Rio de Janeiro vive uma escalada da violência; os editoriais na imprensa, claro, exigem: Basta!. A crise generalizada levou o país a um aparente beco sem saída. Vivemos um problema tão desesperador, e inédito, que não resta dúvida quanto ao diagnóstico teatral: é caso de vida ou morte.

 

Numa espiral interminável e fatalista, o pensamento modela nosso texto e nossa fala – e o que escrevemos modela o que pensamos. Quando os termos desse movimento cobrem todas as situações, leves ou pesadas, perigosas ou inofensivas, íntimas ou universais, então aqueles termos nada mais têm a nos dizer sobre a leveza e o fardo, o perigo e o destemor, a intimidade e o infinito das coisas e dos sentimentos.

 

Na vida pública, especialmente na política, está o mais deletério e degradado laboratório de lugares-comuns. Faz sentido. Para conquistar a adesão da maioria, a retórica da autoridade e da ordem se estrutura essencialmente na repetição de clichês e no apelo das frases de efeito. O resultado previsível é a consagração do consenso rasteiro e a eliminação de qualquer divergência. Temos aqui uma das regras absolutas do poder.

 

A literatura, ainda que tantas vezes contaminada por abusos e vícios da palavra, é nossa barricada para resistência ao colapso definitivo. Só não digo que cada um deve fazer a sua parte porque isso não quer dizer absolutamente nada – nem ontem, nem nunca. Nossa sobrevivência depende de algo mais radical, que pode até parecer um delírio, mas, acredite: precisamos defender a linguagem.

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