Parlamentarismo numa hora dessa?!

Enquanto o país sofre com uma crise que parece interminável, a presidente do STF, Carmen Lúcia, pautou para 20 de junho o julgamento de uma ação que contesta a prerrogativa do Congresso para instituir o regime parlamentarista por meio de emenda constitucional. Provando, mais uma vez, o ritmo vertiginoso do Judiciário, o caso a ser julgado chegou ao Supremo em 1997. Agora, 21 anos depois, com o Brasil quase paralisado, o STF acha de trazer à tona um tema dos mais controversos.

 

Os ministros devem dizer se uma PEC é um caminho legal para mudar o regime de governo. O entendimento corrente é o de que isso só pode ocorrer pela via da consulta direta à população. Foi justamente assim que, num plebiscito em 1993, os brasileiros rejeitaram o parlamentarismo. É o que prevê a Constituição. Mas, como virou moda, todo dia algum juiz dá uma canetada para atropelar princípios constitucionais. Se prevalecer a lógica, o Supremo vai barrar a proposta no Congresso.

 

No mundo das especulações republicanas, a iniciativa da presidente do STF causou bastante surpresa. Por que isso agora? É o que perguntam analistas, consultores, jornalistas e políticos. Seria esta uma saída emergencial para o drama brasileiro? Não parece ter o menor sentido – a não ser que existam fatores e motivações desconhecidas de todos nós. Com o histórico recente de marmotas na corte máxima da Justiça, um movimento inusitado provoca algum susto.

 

Sem contar que nossa última experiência de parlamentarismo se deu no meio da gigantesca crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros, lá nos primórdios da década de 1960. Foi uma medida de puro casuísmo, fabricada sob encomenda para tirar poderes de João Goulart, o vice que assumiria a cadeira de Jânio. Após a redemocratização, a partir dos anos 1980, o parlamentarismo vai e volta à agenda pública, sempre no rastro de fases de turbulência social. É o caso nos dias que correm.

 

Assim que a notícia do julgamento no STF saiu, começaram as acusações de conspiração para tirar do brasileiro o direito de escolher seus governantes. Não chega a tanto, afinal seria uma maluquice extrema alguma jogada, a essa altura, para suspender as eleições de outubro. De todo modo, o Supremo conseguiu abrir uma nova frente de bate-boca entre as tropas eleitorais em disputa.

 

E tudo isso para responder a uma demanda judicial de 20 anos atrás. Os protagonistas daquela discussão na Câmara dos Deputados nem lembravam mais que ainda haveria julgamento. Em condições normais de civilidade, tamanho despropósito não seria levado a sério. Mas seguimos no padrão nosso de cada dia. A Justiça brasileira tarda, falha e ainda provoca tumultos.

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Os presidenciáveis não param de falar

Não será por falta de exposição na imprensa que os candidatos a presidente deixarão de apresentar suas ideias ao eleitorado. Pelo contrário. Há algumas semanas, o que não falta é todo o tipo de entrevista, sabatina, debate e seminário para fazer perguntas aos que disputam o voto na eleição para presidente. No rádio, na TV e na internet, já temos um cardápio de horas e horas de variados programas em que ouvimos os presidenciáveis. Duração e formatos variam, mas não muito.

 

Para citar alguns exemplos, no YouTube você pode ver entrevistas e sabatinas organizadas pelo UOL, Folha de S. Paulo e STB. Podemos também checar as ideias dos concorrentes no Roda Viva, da TV Cultura. O eleitor pode assistir também ao Canal Livre, na Band. E contamos, para que ninguém reclame de escassez de informação, com longas entrevistas em páginas virtuais comandadas por jornalistas profissionais, sem militância partidária. Citei só alguns exemplos do falatório geral.

 

Embora ostensiva, essa presença dos candidatos nos meios de comunicação não significa uma profusão de verdades, clareza absoluta de ideias e projetos detalhados para o país. Falando para um público aparentemente um tanto restrito, muito do que se diz tem vida curta, serve para esse ambiente de debate, mas será descartado como inadequado para o palanque. Ao povo, que decide quem será eleito, não adianta falar de tamanho do Estado, câmbio flutuante, contratos e ajuste fiscal.

 

Mesmo os candidatos nanicos, alguns até estreantes na política, são convidados a participar de incontáveis eventos organizados para conhecer cada um dos que se lançaram na corrida ao Planalto. Não sei qual o nível de interesse na eleição que alguém demonstra a essa altura. Se tiver disposição para ver e ouvir os candidatos falando de tudo (ou quase tudo), isso você encontra fácil e até demais. E esse também dever ser um fator hoje mais forte que na eleição de 2014. A oferta cresceu.

 

Estou falando, reitero, de oferta de informação. Mas a gente pode se perguntar o seguinte: quanto, do eleitorado que já desenvolveu paixonite por qualquer um dos presidenciáveis, terá disposição para escutar outros concorrentes? O índice, vamos ser realistas, deve estar perto de 0%. Porque, e isso é um dado científico, queremos cada vez mais tudo o que reafirma nosso pensamento e preferências.

 

O que ressalto é o grande número de opções disponíveis para conhecermos melhor os candidatos a presidente. Todos eles. Aliás, devido a essa proliferação de espaços para os políticos falarem o que quiserem, se explicarem sobre qualquer coisa e criticarem adversários, ninguém pode alegar ignorância acerca de nenhum deles. Mas a audiência a esse show de palavras parece baixa.

 

Qual o peso particular de tamanha exposição prévia nos meios de imprensa? Não sei. Pode até não ajudar os candidatos. Mas têm potencial de repercussão a depender de uma ou outra resposta que escape do controle prévio de marqueteiros. Seja como for, os presidenciáveis falam sem parar.

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Bolsonaro se vende como novo, mas prova que sua política é caquética

Vigarice, hipocrisia, demagogia e mais o que o leitor quiser. Nem era preciso isso para demonstrar a retidão de princípios de Jair Bolsonaro, o herói de certa "direita esclarecida". Mas a Folha de S. Paulo publica reportagem bastante reveladora sobre o elemento. Reproduzo abaixo o texto da Folha.  

Autor de uma mensagem nas redes sociais prometendo revogar qualquer multa aplicada a caminhoneiros pelo governo de Michel Temer, Jair Bolsonaro (PSL) é autor de projeto que, em sentido contrário, pune com até quatro anos de cadeia aqueles que impedirem ou dificultarem o trânsito de veículos e pedestres nas vias públicas. O projeto foi apresentado em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados.

A proposição é pautada na necessária preservação dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos, vítimas de ações irresponsáveis daqueles que desprezam as liberdades do outro quando da busca de suas demandas sociais, escreveu Bolsonaro na justificativa do projeto.

O texto estabelece que “impedir ou dificultar o trânsito de veículos e pedestres, sem autorização prévia da autoridade competente” resulta em “reclusão, de um a três anos”, pena agravada em um terço caso o ato prejudique o funcionamento de serviços de emergência.

Pré-candidato à Presidência, o deputado se apressou em ir às redes sociais apoiar a atual greve dos caminhoneiros, mas nas manifestações iniciais criticou a obstrução de vias. 

“Caminhoneiros, parabéns, vocês estão fazendo algo muito mais importante até do que uma eleição. Só peço uma coisa, não bloqueiem a estrada. Com toda a certeza, onde por ventura esteja havendo bloqueio tem algum infiltrado do PT, do MST, da CUT”, afirmou em vídeo divulgado na sexta (25).

Bolsonaro é crítico recorrente de manifestações em vias públicas promovidas por grupos de esquerda. Neste domingo, porém, o presidenciável publicou em sua conta no Twitter: “Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer/Jungmann será revogada por um futuro presidente honesto/patriota”.

A Folha encaminhou perguntas para sua assessoria de imprensa e para o presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, mas ainda não houve resposta.

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Um botijão de gás por 80 reais!

Para ajudar minha cabeça na reflexão sobre a situação do país, e quem sabe achar alguma pauta para o blog, fui ali na esquina tomar um caldo de cana na Lanchonete da Zezé. É sempre bom dar um tempo no consumo de coisas mais pesadas – como o noticiário. Quando parei na calçada com o carrinho e o maquinário que espreme a cana, Seu Antônio, outro comerciante, estava chateado.

 

Ele narrava, entre o vai e vem de clientes que frequenta seu mercadinho, que o gás de cozinha de sua casa acabou. E, para piorar a situação, Dona Vânia, que comercializa o produto bem na outra esquina, estava com o estoque zerado. Não demorou para que um vizinho informasse a ele o número de telefone de um ponto de venda que, segundo soube, ainda está bem abastecido.

 

Seu Antônio sacou o celular decidido a pedir um botijão e garantir o preparo do café. Mas não esperava ouvir a proposta absurda do outro lado. O diálogo foi tenso. Ele ainda tentou argumentar com o atendente, mas não teve jeito. A cada resposta que ouvia, ficava mais irritado com a conversa. Vou reproduzir, de memória, a cena protagonizada por meu vizinho, na vã tentativa de obter o gás.

 

Alô! Tem gás aí pra vender? Rapaz, que bom. Eu vou querer um botijão, aqui no conjunto. Tá quanto o botijão? Quanto?! 80 reais! Que é isso meu amigo? Esse que acabou eu comprei a 60. Baixa isso aí, meu amigo, assim é exploração. Não, não, 80 reais é demais. Deixe pra lá. Vou querer não.

 

Encerrada a frustrante negociação, alguém apresentou mais um número de telefone. Mais uma alternativa. Seu Antônio repetiu a dose, mas recebeu a mesma pancada, com um agravante. Pela distância (esse endereço era mais longe), o produto não seria entregue por menos de 85 reais.

 

Meu vizinho explicou às testemunhas que jamais se submeteria ao repentino e absurdo índice inflacionário do gás de cozinha. Perguntei como ia fazer no jantar. Esquento água no micro-ondas e uso Nescafé. Pra comer, faço tapioca na grelha elétrica. E amanhã vejo como é que resolvo.

 

A vida real num bairro qualquer de Maceió. Os caras reajustaram o gás em pelo menos 20 reais. Isso se você encontrar o produto para comprar. A gasolina já voltou aos postos, mas o combustível para o fogão ainda não. (Tomei o caldo de cana e voltei pra casa. Terminei achando uma pauta).

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Os alagoanos que pregam golpe militar

Precisamos lembrar dos erros do passado, pois somente assim evitaremos que se repitam no presente. Você já ouviu isso incontáveis vezes. É uma dessas ideias feitas que os mais apressados sacam de primeira ao analisar, por exemplo, qualquer crise que se abate sobre o país. Se tal formulação tem algum fundo de verdade, parece que muita gente não entendeu nada de história.

 

Digo isso diante do protesto que fechou parte da avenida Fernandes Lima, em Maceió, durante a manhã desta segunda-feira. Os manifestantes se concentraram em frente ao quartel do Exército em Alagoas. A escolha do local não se deu por acaso. Pegando carona na paralisação de caminhoneiros, os indignados que foram às ruas exibiam faixas pregando “intervenção militar já”. Que remédio!

 

Ao falar com a imprensa, os que engrossavam a manifestação deram uma explicação singela para a medida radical que defendem. Segundo eles, ninguém ali pretende uma ditadura fardada. “Queremos só uma intervenção para resolver a crise”. Ah, bom. Então podemos ficar tranquilos. A lógica é a seguinte: os militares tomam o poder, eliminam a bagunça e, depois, voltam para casa.

 

Isso é apenas ingenuidade, desinformação ou o DNA autoritário na alma do cidadão de bem? Provavelmente uma combinação explosiva dos três fatores e mais alguma coisa. Alguém precisa avisar aos patriotas alagoanos que foi exatamente assim que as coisas se deram em 1964. A porrada militarista era só um remédio a curto prazo. Logo depois o poder voltaria para a sociedade civil.

 

Como se sabe, o golpe “cirúrgico” instalou uma tenebrosa ditadura que durou nada menos que 21 anos. Para debelar a ameaça comunista, os heróis de farda torturaram e assassinaram centenas de brasileiros, sendo que muitas famílias procuram seus parentes desaparecidos até hoje. É patético, mas é fácil hoje em dia ver gente negando esses fatos, por mais escandalosos que sejam.

 

O mais grave é que a ideia insana de intervenção dos quartéis não é exclusividade das camadas populares, de pessoas sem instrução. Nos tais movimentos de direita que proliferam por aí, há uma ostensiva exaltação da força bruta para supostamente enfrentar os problemas da sociedade. Somente assim, na visão torta dos ideólogos do prendo e arrebento, o Brasil tem jeito.

 

Os integrantes dessa presepada cultivam um bizarro fanatismo pela bandeira do país, pelo verde e amarelo, por símbolos do mundo militar e, claro, por uma potente arma na mão. Atuam e escrevem nas redes sociais como seguidores de uma seita, histericamente engajada na difusão de suas ideias. Vomitam ódio para eventuais contestadores e repetem platitudes para os convertidos.

 

Insisto num ponto. Não é um pensamento restrito a gente sem formação. É uma desgraça que empresários, professores, “artistas” e também jornalistas engrossem esse coro de dementes. Eles estão por aí, até bem perto de você. Apesar de tudo, até agora – e isso dá um certo alívio –, creio que as instituições se mantêm imunes aos apelos do obscurantismo. É assim na velha e boa democracia.  

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O caos e os candidatos a presidente

Em ano de eleição presidencial, marcada para daqui a pouco mais de quatro meses, quais forças políticas saem no lucro com a greve dos caminhoneiros que parou o país? A primeira resposta é também a mais óbvia e imediata: claro que é a oposição ao governo. Mas, por uma razão elementar, isso não esclarece nada, porque o que mais existe é candidato que se declara adversário da gestão Michel Temer. Ninguém é maluco de se apresentar em defesa do Vampirão do Planalto.

 

Aí o quadro vira uma misturada cheia de nuances, com posições variando entre a hipocrisia, vozes incendiárias e declarações reticentes por receio de desagradar a uns e a outros. Lendo declarações de lideranças partidárias na imprensa, além de muitos vídeos pelas redes sociais, parece inevitável cravar que a crise fortalece, sobretudo, o petismo e a turma de Jair Bolsonaro. Faz bastante sentido.

 

Muitos caciques do PT não perderam tempo em expor o seguinte raciocínio: então foi para isso que derrubaram a Dilma e prenderam o Lula? A ideia não é novidade; vem sendo usada como um mantra diante de qualquer notícia negativa na economia. Mas agora, com a loucura de bloqueios em todo o país, o argumento do partido tem um apelo fortíssimo que nunca houve. É incontestável.

 

Repare que coisa. Já antes dessa crise dos caminhões e dos combustíveis, pesquisas revelaram que a ex-presidente Dilma Rousseff lidera a corrida para o Senado em Minas Gerais. Vai se apresentar, no palanque, como uma mulher que sofreu um processo de impeachment cuja legitimidade nunca foi consensual. Longe disso. No Brasil – e no mundo – o afastamento de Dilma rachou a plateia.

 

Imagino que o marqueteiro do PT deve considerar o atual cenário um negócio dos sonhos. Lula, o pai dos pobres e do bolsa-família, foi trancafiado depois de uma sentença que não apresenta uma miserável prova do crime a ele atribuído. E não adianta gritinho em favor de Moro, o herói patriota de Curitiba. Também não serve o Power Point do afetado procurador de bochechas rosadinhas.

 

Além dos fatores Lula preso sem provas e Dilma vítima de uma trama num Parlamento sem moral, temos a variável econômica. E, convenhamos, com desemprego nas alturas e uma inflação baixa que o povo assim não reconhece, qual seria uma conclusão lógica na cabeça do eleitor? Com o PT era muito melhor. A continuar do jeito que vai, se é que não vai piorar, o discurso está pronto e acabado.

 

Com esse desenho, é perfeitamente natural que Lula, na hora certa, aponte o Plano B de seu partido com chances reais de garantir a vitória nas urnas. Por enquanto vai levar sua própria candidatura ao limite dos prazos legais. E não será necessário ceder a vaga para um não petista, como Ciro Gomes. Este, naturalmente, se mexe para surfar a onda dos que prometem mudar tudo o que está ruim.  

 

Também como oposição, digamos que Marina Silva corre por fora. Ela igualmente se beneficia do quadro armado nos dias atuais. Mas terá dificuldades extras para encaixar o discurso de alternativa aos que representam o mesmo campo e atiram no governismo. Seu caso é mais imprevisível.

 

Quanto a Jair Bolsonaro, aqui entramos no planeta das aberrações. Mas é claro, como já disse, que o engarrafamento de postos e estradas também beneficia essa tranqueira. Aliás, sua claque alucinada conseguiu juntar, no mesmo alarido, vivas ao candidato e torcida por uma ditadura militar.

 

Outros candidatos, como Geraldo Alckmin, Henrique Meireles e Álvaro Dias, fazem parte de um bloco que até agora tem tudo para sucumbir num belo naufrágio. O caso mais desesperador é o do tucano Alckmin. O PSDB periga, depois de seis eleições no topo, ficar fora do segundo turno.

 

No calor dos acontecimentos, tudo isso que escrevo pode ser um bocado de coisa, inclusive o contrário ou quase nada. É o risco de avaliar o agora. Porque a história continua no próximo minuto.

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Terra plana, política e juízes do Brasil

Não quero gastar muitas linhas com o ministro Luis Roberto Barroso, hoje o mais populista dos onze integrantes do Supremo Tribunal Federal. O homem veio passear em Maceió, a pretexto de palestrar no convescote que reuniu mais de mil magistrados de todo o país, no congresso anual da categoria. Mais Barroso do que nunca, com aquela voz que Deus lhe deu, pontuou seu demagógico discurso com homenagens aos “bravos juízes de primeiro grau”. Recebeu aplausos ruidosos. Previsível.

 

Como faz todo santo dia, mais preocupado com holofotes e bajulação, veio aqui anunciar que o país não tolera mais político corrupto. Muito original! Por isso mesmo, disse que lamenta decisões que concedem liberdade para acusados de práticas desonestas. Foi uma tentativa de atacar o ministro Gilmar Mendes. Mas Barroso – e isso diz muito sobre sua personalidade – não cita nomes. Como posso classificar tal postura? Covardia? Trapaça intelectual? Malandragem envernizada?

 

Talvez tudo isso junto. Mas deixo de lado esse político que age com o disfarce da toga e sob a proteção da Justiça. O que houve em Maceió ao longo desse encontro da juizada brasileira não foi debate nenhum. Isso é apenas fachada, coisa para ilustrar cartazes e enfeitar material de marketing. Todos ali estavam determinados a reproduzir a onda de protagonismo que embala o Judiciário.

 

E como isso pode ser verificado? Exatamente por essa conversa fiada de que o Poder Judiciário é a grande esperança para nos livrar dos maus políticos. Magistrados vieram aqui reafirmar que a única coisa que presta no Brasil de hoje é a Lava Jato e tudo o que daí decorre. Como já comentei em outro texto, é o arrastão do PJ, o Partido da Justiça, na expressão do sociólogo André Singer.

 

Você não acha um tanto esquisito que juízes realizem um encontro nacional para debater política? Eu considero uma piada. Até parece que o sistema judiciário brasileiro é um exemplo para o mundo. Está tudo tão perfeito nos tribunais e comarcas, que os senhores e senhoras da Justiça resolvem pregar sobre os rumos do sistema partidário. Querem ensinar sobre técnicas especiais de eficiência!

 

A bordo de suas carreiras acintosamente contempladas por todos os tipos de privilégio, juízes deveriam debater caminhos para alcançar qualidade em suas atividades. Processos que se arrastam por muitos anos são apenas um dos descalabros no Judiciário. Primeiro, o dever de casa, a obrigação elementar. Mas não. Eles têm outras prioridades, temas mais urgentes na agenda. 

 

Sendo assim, sugiro que, no próximo congresso da magistratura, suas excelências poderiam debater sobre pós-verdade e empoderamento do funk. Ou ainda, quem sabe, podem esmiuçar a polêmica universal sobre a Terra plana. São temas à altura de um poder historicamente tido como irretocável.

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Em noite de sábado, motoristas e motoqueiros correm a posto de combustível

Os postos de combustíveis em Maceió começaram a ser reabastecidos em plena noite deste sábado (26). Isso ocorre depois que os manifestantes liberaram a entrada e saída de veículos no porto da capital. Como já foi noticiado, o motorista já não encontrava gasolina e etanol nas bombas desde a sexta-feira – ao menos em muitos pontos da capital e do interior do estado. A situação começa a mudar. Pelo menos é o que todos esperam. No Brasil afora, muitos bloqueios continuam.

 

Com a normalização do estoque nos postos, o motorista não perdeu tempo. Há uma corrida para encher o tanque de carros e motos em vários bairros. É o que vi, por exemplo num dos postos mais antigos da capital, o Posto Neno, no bairro da Ponta Grossa. Na verdade, passei por lá por acaso a caminho de uma missão doméstica, digamos assim. Acabei num engarrafamento inesperado.

 

 

Saí de carro (abastecido no começo da semana, antes da deflagração da greve). Por volta de 22h, quando girava pelos arredores da Rua Cabo Reis, tive de pegar a Rua Formosa. E então dei de cara com a fila de carros que se estendia por muitos metros numa das faixas. Logo descobri que se tratava de dezenas de motoristas ansiosos para garantir o tanque cheio. Aquilo ia demorar.

 

Além da fila de carros, chamava atenção ainda a grande quantidade de motos e motoqueiros ocupando toda a área do posto, todos também com pressa para reabastecer. Mesmo com a garantia das autoridades de que a situação caminha para a normalização, tem gente desconfiada. Entre as motos, alguns condutores também levavam galões para adquirir uma quantidade extra de gasolina.

 

 

(Com esta postagem, o blog faz uma troca rápida – o texto de opinião pelo registro de um fato. Como disse, não é um repórter à caça da notícia. Na verdade, foi o contrário. O acaso me levou à notícia, e não tive escapatória. As fotos, feitas pelo jornalista Taynã Melo, registram o que vi).

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O locaute de empresas e da política

Acostumados nos últimos anos a uma crise atrás da outra, a novidade deste momento para os brasileiros é a consagração de uma palavra que explicaria, em parte, o descalabro em curso. Para o governo, somos vítimas de um locaute. O termo define a ação deliberada de empresários, que se valem de demandas legítimas de trabalhadores para alimentar uma greve. Tal prática é crime e, por isso, o governo anunciou que a Polícia Federal já pediu a prisão de alguns donos de empresas.

 

Em entrevista coletiva na manhã deste sábado, ministros confirmaram a investigação sobre a articulação criminosa, mas não revelaram nomes de suspeitos; não se sabe até agora quais seriam os alvos dos mandados de prisão. Nas redes sociais, alguns vídeos de lideranças do setor de transporte indicam, quando menos, o incentivo dos patrões à radicalização da greve. É algo que está longe de ser uma novidade na história do país. O difícil é levantar provas para demonstrar o delito.

 

Nas últimas décadas, umas das ofensivas mais destrambelhadas de autoridades contra homens de negócio foi durante o governo Sarney. Após congelamento de preços, em poucas semanas todo tipo de produto sumiu do mercado. Bem ao estilo daqueles tempos loucos – os anos 1980 –, diretores e gerentes de empresas foram presos; e até fazendas foram invadidas pela polícia para “resgatar” rebanhos bovinos e, assim, garantir o bife no almoço da população. A loucura voltou.

 

É claro que as circunstâncias eram outras – e o Brasil também era outro país. Também mudaram aspectos essenciais da economia, local e globalmente. Mas algumas coisas, como está evidente agora, não mudam nunca. Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Esse princípio de sobrevivência parece capaz de perpetrar qualquer ação por mais insana que venha a ser.

 

E olhe que estamos falando de gasolina para encher o tanque de um carro. Sim, porque ainda não vi nenhum ato de desespero por falta de produtos na feira ou no supermercado. Mas já podemos ver cenas de pancadaria entre muitos senhores para garantir alguns litros de combustível. Por essas imagens, até poderíamos pensar que os dias de hoje repetem a maluquice de 30 anos atrás.

 

A outra velharia nessa crise absurda, é claro, é a qualidade dos nossos políticos, de todos os lados, no governo e na oposição. Quando olhamos para o cenário geral, não resta dúvida de que avançamos pouco, ou quase nada. Pensando bem, ampliando o conceito e relativizando a semântica, o crime de locaute pode ser atribuído aos dois lados – à turma da política e a setores do empresariado. Vamos ver como resolverão a degradação combinada. Até agora erram todos, muito e mais um pouco.

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Caminhões, direita, esquerda, eleição! Tudo junto na demagogia geral

O medíocre Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, também veio a Maceió para o convescote dos togados, oficialmente conhecido como Congresso Brasileiro de Magistrados. Mas voltou correndo para Brasília diante do agravamento da paralisação dos caminhoneiros. Esta semana ele virou motivo de piada após tentativa de uma jogada demagógica na votação de projeto para reduzir impostos do setor de transporte de cargas. Era uma piada eleitoreira.

 

No meio da bagunça generalizada, Maia sacou o projeto inesperado, mas errou nas contas. Resumindo, a ideia ignorava um buraco de 8 bilhões de reais na arrecadação federal, caso a estripulia fosse adiante. Segundo li, além de oportunista, a iniciativa era apenas burra. A coisa foi tão bizarra, que o deputado virou meme nas redes sociais, sendo alvo de chacota entre economistas e gente do mundo financeiro. Foi mais um tiro no pé dessa figura tosca que é pré-candidato a presidente!

 

Já o presidente do Senado, Eunício Oliveira, também abreviou sua viagem não sei por onde, e retornou depressa à capital federal. Chegou logo atirando no colega que chefia a outra casa do parlamento. Cobrou responsabilidade dos homens públicos. Parece brincadeira, mas foi isso mesmo. É um cretino batendo forte no outro. E o senador tucano Cássio Cunha Lima pediu a cabeça do presidente da Petrobras, Pedro Parente, num gesto que nada mais é além de, de novo, demagogia.

 

Tudo errado. Com o Poder Executivo na lona, não há como alimentar otimismo com o Legislativo. Se Michel Temer é um presidente anulado pelo conjunto da obra, de deputados e senadores nada se pode esperar em termos de ideias para conter a crise. Pelo contrário, os que se manifestam contribuem fortemente para agravar o abismo. E os alagoanos por lá? Desses, não se escuta um pio.

 

Como a bagaceira sempre pode se complicar mais um pouco, o quadro fortalece o discurso que aposta na degradação, no tal do quanto pior melhor. Evidência escancarada disso é que notórios da direita e da esquerda esbravejam a mesmíssima mistura de oportunismo e ignorância. Podem vasculhar a internet e comprovem: petistas e bolsonaristas repetem as mesmas ideias.

 

A harmonia entre as forças que se dizem inimigas mortais mostra o tamanho da encrenca. Esses atores da vida pública brasileira agem de olho lá na frente, no mês de outubro, quando terão um encontro com as urnas. É o combustível extra que incendeia o país. Que o voto acabe com eles.

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