O prefeito com a faca no pescoço

Um dos problemas do Brasil é que vivemos em permanente clima eleitoral. É uma eleição a cada dois anos. E no ano em que não há disputa por voto, como este 2017, o mesmo clima toma conta de tudo a partir do segundo semestre. Ou seja, a expectativa pela eleição do ano seguinte contamina os dias atuais, como se todos fossem às urnas já amanhã.

 

O resultado dessa loucura coletiva no meio político é que gestores passam a agir exclusivamente em função da competição eleitoral – mais de um ano antes da data marcada para as urnas. Vejam o que ocorre com o prefeito de Maceió, Rui Palmeira. O homem está sendo praticamente torturado em praça pública para assumir – agora – a candidatura a governador.

 

O detalhe dramático é que a pressão sobre o prefeito vem dos aliados. Pelo menos em tese. Tem gente dando entrevista todo dia na imprensa, forçando a barra sem limites. Outros, é claro, recorrem às redes sociais e gravam vídeos para fazer a mesma cobrança. É como se fosse uma questão de vida ou morte ter uma decisão de Rui Palmeira, de preferência, para ontem.

 

Com variações de estilo e gradações na ênfase dos apelos, o tom das manifestações tem um padrão. No geral, pode-se dizer que o prefeito é alvo de uma ostensiva chantagem emocional. Virtuais candidatos a cargos no legislativo jogam nas costas de Rui o destino de todo um grupo. Daí porque alguns recorrem a apelos quase desesperados, do tipo “ou decide logo ou partimos pra outra”.

 

Já no governo estadual, que terá Renan Filho em busca da reeleição, a pressão é por reforma no secretariado e mudanças onde for possível mudar. Ou seja, tem-se um frenético carnaval de cadeiras em que a moeda de troca – valiosíssima – são os cargos em todos os escalões. E aí também o governador se torna refém das demandas eleitorais, com uma antecedência absurda.

 

Como já escrevi em texto anterior, penso que Rui Palmeira deveria completar seu mandato na prefeitura, que se encerra em 31 de dezembro de 2020. A disputa pelo governo em 2018 me parece uma aventura com todos os ingredientes para dar errado. Suspeito que o mais racional seria ter um pouco de paciência e esperar 2022 para disputar o comando do Estado.    

 

Mas não será assim, a julgar por tudo o que se fala entre os interessados em ter o prefeito como candidato já em 2018. O certo é que ele está com a faca no pescoço, sendo praticamente obrigado a mergulhar na candidatura a governador. Pode dar certo, sim, mas a perspectiva é de um páreo duríssimo. É uma aposta bem alta – e imprevisível. E o prefeito sabe disso.

 

A situação é tão tensa que, talvez por essa razão, suponho que Rui evite o assunto. Fala o menos possível – e quando não há escapatória. Seja como for, temos aí a máquina estadual e os rumos do município atrelados a uma fixação insana no calendário eleitoral. E tudo isso num ano em que o calendário não prevê eleições. É ou não é uma dessas loucuras tipicamente brasileiras? 

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A morte anunciada da imprensa

Todos os dias alguém decreta a morte da “velha imprensa”. A expressão entre aspas que acabo de usar aparece em debates, mesas redondas, entrevistas e textos de cronistas de variadas cores e tendências. A profecia de morte anunciada, é claro, começou com o surgimento da internet – primeiro com a força dos blogs e, logo em seguida, com a explosão das redes sociais.

 

A vastidão do tema é inquietante. Estamos falando de informação numa era de novidades que o homem jamais imaginou – nem nos filmes e na literatura de ficção científica. Não bastasse a complexidade intrínseca ao assunto, o fator político (ou ideológico) torna uma avaliação sobre o cenário atual praticamente uma guerra de versões. E a velha imprensa virou saco de pancada.

 

Com o turbilhão de contatos e trocas virtuais, instalou-se uma confusão entre conceitos. Coisas distintas são tratadas como se fossem idênticas. Informações isoladas, opinião, militância, engajamento, protesto – isso tudo tem relevância e pode influenciar, hoje em dia, até os rumos de políticas oficiais. Mas jornalismo profissional é outro departamento.

 

No império das falsificações e da pós-verdade, tenta-se subestimar o impacto de uma capa de revista, de uma manchete de jornal ou de uma reportagem na TV. Afinal, quem vai prestar atenção nesse modo obsoleto de noticiar alguma coisa, se tudo está na rede, à disposição de todos, as 24 horas do dia? Eis um raciocínio que reproduz a confusão citada acima.

 

Embora o clima geral seja de irritação com a chamada grande imprensa, se você pensar em qualquer caso de forte repercussão, no Brasil ou no mundo, vai constatar que as revelações mais extraordinárias – os furos de reportagem – vieram dos veículos tradicionais. E isso ocorre porque, entre outras coisas, nesses veículos pratica-se o jornalismo profissional. Como sempre foi.

 

Um fenômeno antigo – que continua firme no universo da informação – parece inexplicável para muita gente, mas tem toda lógica: diante de grandes escândalos ou de tragédias que mobilizam a população em escala incomum, cresce a circulação de jornais e aumenta a audiência dos telejornais. O que explica isso nos dias de hoje? As pessoas buscam a informação confiável.

 

Também na internet é o profissionalismo que garante o jornalismo sério – forte e independente como tem de ser. Produzir notícia tem um custo e requer gente do ramo, treinada e atenta a princípios éticos fundamentais no exercício da profissão. Voluntarismo, falta de rigor e negligência a regras não podem gerar resultado no mesmo nível que se tem na imprensa.

 

Um aspecto para mim bem esquisito é ver jornalistas como que torcendo pela morte da imprensa. Há um discurso generalizado que tenta negar a relevância de uma instituição vital para a vida democrática – seja em que regime de governo for, à direita ou à esquerda. Geralmente é um tipo de postura raivosa, que prega quase que o extermínio de veículos de comunicação.

 

Claro que as disputas políticas contaminam todo esse debate. Quanto a isso, nem adianta argumentar. Mas falo de algo que está além das paixões particulares. O fato de ser jornalista – uma contingência da qual não posso me separar – certamente influencia meu modo de ver o assunto. Seja como for, negar a força da imprensa é loucura.

 

Há bom jornalismo no mundo virtual, sem dúvida, como continua a existir jornalismo de qualidade no papel. Como um dinossauro de passos erráticos, mantenho uma pata em cada suporte: clico em sites, blogs e páginas da internet e, ao mesmo tempo, ainda vou às bancas no centro de Maceió em busca de jornais e revistas. Comigo, aliás, foi assim que tudo começou. Há muito tempo.

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A elite do açúcar em decadência

As usinas estão quebradas. Os usineiros vão muito bem, obrigado – como sempre estiveram. Graças ao jornalista Davi Soares, do site Diário do Poder, sabemos agora que sete usinas da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas formalizaram o pedido de recuperação judicial. É uma tentativa de escapar da iminente falência. Os empresários não têm como honrar o pagamento de dívidas de toda ordem, incluindo fornecedores de cana que alugam suas terras para o plantio. Os mais prejudicados são pequenos proprietário rurais, que não sabem quando vão receber.

 

Mas essa crise está longe de ser algo repentino. A decadência começou muitos anos atrás, primeiro fechando várias usinas que não integravam a poderosa cooperativa. A verdade é que essas empresas nunca foram exemplo de boa gestão de negócios. Sempre viveram sob as mamatas do poder político, recebendo todo tipo de subsídio e empurrando o prejuízo para os cofres públicos. Para ficar num único exemplo do que digo, pense no Banco do Estado de Alagoas, o famoso Produban. Se as coisas fossem sérias por aqui, usineiros teriam sido presos. Foram eles que quebraram o banco.

 

Já a cooperativa, que agora tenta a recuperação judicial, foi durante décadas o grupo de empresas mais rico do estado. Mas também abusou da gestão temerária, financiando campanhas eleitorais milionárias e, internamente, criando todo tipo de benesse para seus diretores. Os salários batiam no céu, as passagens aéreas nunca faltavam ao longo do ano e a remuneração extra era uma prática consagrada. Executivos da cooperativa sempre se portaram como verdadeiros rajás, num mundo paralelo de luxo, ostentação e poder descomunal. Pararam no tempo. A conta finalmente chegou.

 

Há pelo menos cinco anos, ou um pouco mais talvez, a cooperativa tomou pé do rombo em sua contabilidade. Resultado: começaram as demissões, a redução de salários e a extinção das absurdas regalias. Alguns funcionários tiveram a remuneração rebaixada e foram autorizados a trabalhar em casa. Diretores no topo da empresa que continuavam gastando a rodo foram afastados. Nessa fase de cortes agudos, a cooperativa viveu uma guerra de poder entre seus chefões. Houve momentos de tensão e, em algumas ocasiões, não faltaram ameaças entre os herdeiros de engenho.

 

Exemplo do que há de mais reacionário na vida brasileira, essa é a nossa elite econômica, muitas vezes truculenta e sempre ignorante. A cana-de-açúcar é o símbolo máximo da exploração do segmento mais pobre da população, especialmente no Nordeste. Pela força, com a conivência do poder público, usinas impuseram jornadas de trabalho desumanas, em condições degradantes. Fala-se hoje em trabalho escravo? Até um dia desses isso era pura realidade nos canaviais.

 

Que esses senhores não venham posar de vítimas desse ou daquele governo. Os fatos provam que isso é uma falácia – aliás, uma velha falácia, sempre usada justamente para meter a mão em recursos de qualquer governo. A vitimização, além de uma mentira factual, seria uma afronta ao povo. Espera-se que paguem suas contas, dentro da lei, sem os criminosos privilégios que sempre tiveram. 

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O prefeito-Botox merece ovo na testa

O homem que elevou a toxina botulínica ao patamar de categoria existencial será homenageado em Maceió nesta sexta-feira. Refiro-me, é claro, a João Doria Junior e ao império do Botox, do qual o prefeito de São Paulo é um dos maiores adoradores do planeta. Essa bizarra figura da degradada vida pública nacional desembarca na capital alagoana para um teatro, uma encenação, uma presepada cuja finalidade única é campanha eleitoral antecipada. Doria – valha-me Nossa Senhora! – é pré-candidato a presidente em 2018.  

 

O prefeito que os paulistanos escolheram será agraciado com o título de Cidadão Honorário de Maceió pela Câmara Municipal. A iniciativa não é original. O mesmo tem ocorrido em outras partes do país, numa tentativa de Doria de ficar conhecido nacionalmente. Embora não esteja em boa hora dentro do PSDB, seu partido, ele só pensa na eleição presidencial. É sua ideia fixa desde que assumiu o comando da maior capital do país. Para sair candidato, já brigou com meio mundo de tucanos e deu uma rasteira no governador Geraldo Alckmin, seu padrinho político.

 

Os planos desse elemento – que um dia já quis transformar em atração turística a seca do Nordeste – podem esbarrar em seus próprios erros na prefeitura paulistana. Desde que tomou posse, tropeça todos os dias em alguma invencionice puramente publicitária, que logo é desmoralizada porque nada tem de sério e consistente. A última dessas piadas é a tal “farinata”, uma espécie de complemento alimentar para escolas da rede pública. A iniciativa é duramente criticada por especialistas, profissionais de saúde e da educação. Nesse caso, Doria é acusado de querer dar ração aos estudantes pobres.

 

Em suas andanças eleitoreiras, o prefeito-Botox não guarda boas lembranças de todas as visitas. Na verdade, diante da fachada de puro marketing, as reações são de protesto por onde ele passa. Como sou contra qualquer tipo de violência, torço por alguma manifestação civilizada contra essa estupidez armada por vereadores e empresários locais. Se tivermos sorte, pode ocorrer o que houve em Salvador: algum ovo podre na testa de Joao Doria Junior. Seria, esta sim, uma homenagem mais que merecida. Fico aqui na torcida.

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O ataque a jornalistas da TV Gazeta

Exercer o jornalismo às vezes pode ser perigoso. Vejam o que aconteceu com uma equipe da TV Gazeta na noite desta quarta-feira. Três assessores (ou seguranças) da deputada estadual Thaíse Guedes partiram pra cima do repórter-cinematográfico Josualdo Moura dispostos a agredi-lo. E foi isso o que fizeram. Os valentes pretendiam evitar imagens da parlamentar no momento em que deixava a sede da Polícia Federal. Segundo a PF, ela foi indiciada por um esquema envolvendo servidores fantasmas. Outros deputados são suspeitos no mesmo caso.

 

Só temos as imagens da agressão porque a repórter Estela Nascimento gravou o ato dos covardes com seu próprio telefone celular. Aliás, ela está de parabéns pela postura. Foi corajosa, manteve a calma, enfrentou os truculentos e registrou o ataque. Não é fácil agir como ela numa situação tensa, diante de uma ameaça que poderia descambar em algo ainda mais grave. Na gravação dá pra ouvir um dos elementos perguntando como é que a TV sabia do depoimento, “antes mesmo do advogado” da deputada. Como se isso fosse algum pecado e justificasse a violência contra os jornalistas.

 

O episódio não foi o primeiro nem será o último. Em algum momento, o bom jornalismo, que sempre incomoda, acaba atraindo a fúria dos que se acham intocáveis. E casos assim não podem ser vistos, jamais, com naturalidade. Devem ser repudiados como atentados ao direito de a imprensa livremente informar à sociedade. Minha solidariedade aos profissionais da TV Gazeta, que exerciam seu trabalho como tem de ser – em cima do fato, sem medo.

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Quando um juiz rasga a Constituição

Toda vez que alguém ousa apontar excessos e abusos na Operação Lava Jato, a reação é a mais previsível do mundo – e a mais superficial também: aquele que critica está movido por intenções malignas e tem como objetivo único proteger os corruptos. Acrescente-se a isso o fato de a operação não ter apenas simpatizantes, mas, em boa medida, uma torcida fanática.

 

A coisa é tão pesada que não são poucos os que evitam criticar o juiz Sergio Moro e sua turma curitibana, pelo temor do revide virulento. Se você reclama desses heróis de toga, corre o risco de ser carimbado como um corrupto igual aos que estão sendo presos todos os dias. Daí que até ministros do STF cedem ao medo da turba que defende um regime no estilo pega pra capar.

 

É uma pena que assim seja. Quando a gente dá carta branca para autoridades rasgarem a Constituição e as leis, estamos perdidos. Será que é tão difícil entender que o atropelo da legalidade não afeta apenas um acusado, mas toda a sociedade? Se um juiz ou um promotor pode avançar sobre a vida de alguém chutando princípios legais, a próxima vítima pode ser você.

 

Os senhores da Lava Jato sabem desse clima e, por isso mesmo, manipulam tal sentimento na defesa de ações indefensáveis. Quantas vezes não vimos Moro e integrantes do Ministério Público anunciando que há uma conspiração contra as investigações? Diante dos flagrantes de ilegalidades, a resposta é espalhar a versão de que a Lava Jato é vítima de antipatriotas.

 

Dane-se a lei, pensam os que defendem qualquer loucura por parte de investigadores. Estou fora dessa. Juiz deve obediência à Constituição. Para julgar qualquer pessoa, ele deve ler e aplicar o que prevê o ordenamento jurídico. Magistrado que se acha acima do bem e do mal deve aplicar as idiossincrasias de sua cabecinha em sua vida particular. No Direito, não.

 

Bater na república de Curitiba é tarefa ingrata. A imprensa está cheia de jornalistas metidos a valentões que não perdem a chance de acusar qualquer um que discorde dos métodos espúrios da Lava Jato. Há nisso também porções cavalares de populismo e hipocrisia. Está tudo tão dominado que dá até uma certa canseira ouvir a mesma coisa todo santo dia.

 

Mais uma vez, insisto: não se combate um crime sujando as mãos com outro crime. A velha história dos fins que justificam os meios é uma tragédia que não pode jamais prosperar, muito menos ser aceita como se fosse natural. Isso é coisa de regimes totalitários. E de gente no mínimo equivocada. O cumprimento da lei é o oxigênio das democracias. Gostem ou não Sergio Moro e sua patota.

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Procura-se uma polêmica de verdade

1. O dublê de ator Alexandre Frota está no centro de um debate que incendeia a opinião pública. É sério isso? É sim. E olhe que ele tem como adversários nada menos que Caetano Veloso e estrelas do Congresso Nacional, como a senadora Gleisi Hoffmann. Caetano já teve oponentes mais perigosos, como Paulo Francis e José Guilherme Merquior. A polêmica entrou em decadência.

 

2. O Ministério Público de São Paulo abriu investigação sobre peças de divulgação do filme Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, que tem Danilo Gentili como protagonista. É isso o que acontece a uma cabeça desocupada, cheia de ideias para tornar o mundo melhor e proteger as nossas vidas. Como todos sabemos, o MP também quer salvar o Brasil.

 

3. Uma novidade no cenário nacional, sem dúvida, é esse debate tresloucado envolvendo religião. Nunca vi tanta gritaria arrastando católicos, evangélicos, espíritas, budistas, crentes, descrentes, agnósticos e ateus. Daqui a pouco, alguém propõe a volta da fogueira para hereges e o enclausuramento de pecadores em mosteiros. Texto sagrado pra mim é literatura – como o Livro de Jó ou o Eclesiastes.

 

4. Os artistas estão na rua de novo. Dessa vez, exigem a derrubada de Michel Temer, a prisão de Aécio Neves e a volta de Dilma Rousseff. Assim como queriam o banimento da guitarra décadas atrás, baluartes da categoria caminham de braços dados, com a convicção de que falam em nome do povo. É uma ideia fixa. Depois, todos voltam para casa realizados. Até a próxima balada de rebeldia.

 

5. Quando não estão batalhando pela causa dos oprimidos, Caetano e amigos importantes vão a casamentos cheios de estrelas internacionais. Coisa de gente preocupada com a miséria brasileira. É o que ocorre exatamente agora. Um casório no Rio de Janeiro reuniu até Madona e os dublês de roqueiros do U2. Para completar, a festa foi no muquifo do casal Luciano Huck e Angélica. Antológico.

 

6. Parece que a atriz Marina Ruy Barbosa ficou triste com o evento relatado acima. É que ela não contava ver suplantado tão rapidamente o seu próprio casamento, que havia batido todos os recordes de ostentação e celebridades. Para se vingar, a ruiva cheia de talentos resolveu entrar numa confusão infernal: está sendo triturada por causa de uma publicidade com papel higiênico preto.

 

7. Esses publicitários geniais... Nem uma reunião multidisciplinar dos maiores talentos chegaria a uma ideia tão extraordinária como essa. Amigo, papel higiênico preto – com um slogan consagrado no combate ao racismo – não é para qualquer um. Sacadas desconcertantes assim você só encontra na cabeça privilegiada de um publicitário. Merece uma tese sobre a semiótica de usos e costumes.

 

8. Enquanto isso, escravidão e armamentismo mobilizam outras frentes de revoltados. Com o clima de guerra generalizado no país, parece que a fábrica de tumultos descartáveis despeja uma nova besteira a cada segundo. Por isso, ao dar uma olhada pelo noticiário, convém não levar a sério tanta zoada. Grande parte das notícias parece mais um balaio de piadas. Falta polêmica de verdade.

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A força jovem da jurássica UNE

Você já ouviu falar, é claro, nas gloriosas lutas do Movimento Estudantil. Já ouviu falar porque essa é uma das mais festejadas lendas brasileiras. É bonito imaginar jovens corajosos, brigando em frente dupla – pela educação e por um país melhor.

 

Pensei nessas questões folclóricas assistindo ao programa político do PC do B na televisão. Foram dez minutos de ideias inovadoras na propaganda obrigatória exibida na noite desta terça-feira (24). E o que tudo isso tem a ver com estudantes?

 

Respondo logo a seguir. Antes, vamos falar um pouco mais sobre a propaganda na TV. Como sempre, viu-se uma lista de filiados reproduzindo as ideias do partido. São quase todos políticos com algum mandato no legislativo ou no executivo.

 

Mas o PC do B também apresentou entre suas estrelas do programa uma estudante. E não foi uma aluna qualquer de uma escola pública do meio do Brasil. Foi Marianna Dias, a presidente da União Nacional dos Estudantes – a jurássica UNE.

 

Nada que se considere estranho. Ao contrário, a presença da jovem de 25 anos está cem por cento de acordo com o espírito do negócio. A UNE sempre foi um braço partidário da esquerda, cumprindo ordens e reproduzindo a militância sob encomenda.

 

Como todo jovem está a um passo do engajamento revolucionário, e como tem algo de romantismo acreditar nesse tipo de lenda, vai-se repetindo eternamente a informação de que a UNE tem muita importância no Brasil. É assim desde os primórdios.

 

Os congressos estudantis, como o que elegeu este ano a baiana Marianna para o comando da UNE, são na verdade encontros para dar palanque a velhos políticos. E eles pertencem a legendas que sempre mandaram na entidade. Não há pluralismo.

 

Ouvir o discurso da direção da UNE é voltar algumas décadas no tempo. Paradoxalmente, falando em nome da renovação, as jovens lideranças ressuscitam o palavreado mais retrógrado possível. Para essa patota, o muro de Berlim continua de pé.

 

Nos meus tempos de universitário, vi de perto a atuação dos destemidos que pretendiam mudar o mundo. Algumas décadas depois, vejo que o discurso já não parece o mesmo – parece ainda mais reacionário e oportunista. Isso não tem cura.

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As mãos sujas da Lava Jato

Em mais um desses convescotes cheios de lero-lero com doutores do Direito, lá estão Sergio Moro e Deltan Dallagnol expelindo suas digressões de alarmismo e pílulas de demagogia para uma plateia preocupada com os rumos do país. Trata-se de um fórum organizado pelo jornal O Estado de S.Paulo, cujo tema é Mãos Limpas & Lava Jato.

 

O procurador da República que tem as bochechinhas rosadas repete seu falatório de dono da verdade, com ataques cretinos ao STF e a todos aqueles que contestam suas estripulias acima da lei. Claro que o homem não perde a oportunidade de atacar também a política, apontando como solução a renovação do Congresso a partir das eleições de 2018. Como se sabe, ele quer ser senador.

 

Na mesma linha, vai o fanático juiz Moro, também com ironias idiotas contra ministros do Supremo e vozes da imprensa que criticam seus métodos abusivos de atuação. Para essa duplinha do barulho, o Brasil não tem saída fora das sirenes da Polícia Federal e das carnavalescas operações chefiadas pelo Ministério Público Federal. Assim, metem suas mãos em tudo, mesmo que estejam sujas.  

 

Esses senhores se acham salvadores da pátria e, não bastasse o messianismo policialesco, ambos têm a pretensão de seres iluminados, com ideias supostamente originais, mas que não passam de uma mistura de demagogia com indigência intelectual. Exemplo disso são as falas sobre o combate à corrupção como “esperança infinita”.

 

O encontro promovido pelo Estadão confirma uma das marcas centrais da Lava Jato, segundo seus próprios mentores. Ou seja, para que os objetivos sejam alcançados – sem contestação – tudo tem de passar por uma forte campanha via imprensa. Foi precisamente esse um dos pontos sagrados da Operação Mãos Limpas na Itália.

 

A república de Curitiba, que tem Moro e Dallagnol como os principais pistoleiros na linha de tiro, berra a cada minuto que o país só tem salvação com o fim dos privilégios para a elite. É verdade. Mas falta incluir entre os alvos dessa guerra a turma de nababos do Ministério Público e do Judiciário. Quando essa rapaziada agir nessa direção, a gente conversa sobre a coragem dos doutores togados.

 

O problema da Lava Jato não é o combate à corrupção. É o festival de ilegalidades no rastro desse trabalho que ignora os mais elementares preceitos da Constituição. Basta ler o que já foi publicado sobre tudo o que essa galera já aprontou. Prisões preventivas sem prazo e vazamentos de informações sob sigilo são os exemplos mais evidentes.

 

Mas aí estão eles, numa palestra atrás da outra, apresentando-se como as almas mais puras do mundo. No fórum de hoje, nada de novo está sendo dito. É a mesma cartilha, embalada em miseráveis frases de efeito e ideias superficiais. Pensando bem, a linguagem aí não fica longe do pior da política. Muita espuma, arroubos e populismo de última categoria.

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Cícero Almeida e Temer na rede social

Ex-prefeito de Maceió por dois mandatos e hoje deputado federal, Cícero Almeida teve uma ideia inusitada. Como conta aqui no CADAMINUTO a jornalista Vanessa Alencar, o parlamentar lançou uma enquete por uma rede social sobre a denúncia contra o presidente Michel Temer, que será votada pela Câmara nesta quarta-feira (25). O resultado da enquete será o voto de Almeida.

 

Os deputados vão decidir se o presidente deve ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção e formação de quadrilha. Como você sabe, será a segunda vez que o destino de Temer estará nas mãos do parlamento. Da primeira ocasião, os deputados decidiram não haver provas para afastar o presidente. Ao que parece, o resultado será o mesmo.

 

Não se pode negar: a iniciativa de Almeida de fato é original e provocou rebuliço no eleitorado. Agora, isso faz algum sentido? Temos aí um gesto de respeito e transparência no exercício do mandato? Vamos ver. Os congressistas decidirão sobre um processo, uma peça acusatória produzida pela Procuradoria Geral da República, ainda na gestão do aloprado procurador Rodrigo Janot.

 

Para dar seu voto contra ou a favor de Temer, o que é necessário para os deputados? Podemos especular várias coisas a respeito, mas um dado é obrigatório: eles precisam conhecer a denúncia que será votada. As acusações de Janot ao presidente formam um conjunto de 245 páginas, com depoimentos, transcrição de conversas gravadas, reprodução de documentos e fotografias.

 

Suponho que a maioria dos brasileiros não leu o que está na peça da PGR. Considero um tanto sem lógica transferir ao eleitor uma decisão como esta – que até pode ser política, mas, essencialmente, tem de ser técnica. Vamos imaginar que Almeida, cioso do mandato e consciente da decisão a ser tomada, já leu atentamente a denúncia. Se fez isso, acha que Temer é culpado ou inocente?

 

E há outra pergunta – pertinente – que os leitores fazem sobre o gesto do ex-prefeito: por que ele não fez o mesmo no afastamento de Dilma Rousseff e na primeira denúncia contra Temer? Para ser coerente, o parlamentar teria de ter aplicado nos casos anteriores os mesmos argumentos que apresenta agora no vídeo em que convoca os eleitores para sua enquete.

 

Lamento, mas o gesto de Cícero Almeida nada tem de democrático, como ele tenta nos convencer. É apenas uma jogada excêntrica cujo objetivo é tão-somente a tentativa de agrado para a arquibancada. Sem contar que a iniciativa revela uma boa dose de irresponsabilidade diante de algo tão grave para o país. Não será com essa gota de populismo virtual que teremos algum avanço.

 

Os políticos estão cada vez mais ensandecidos pelas redes sociais. Prefeitos e governadores tomam decisões pela internet assim como parlamentares legislam mais pelo teclado do que pelos trâmites do Congresso. É um festival de maluquices, um circo de demagogia cada vez mais amplo, com resultados absolutamente ridículos. Mas isso é outro assunto. Fica para depois.

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