Candidatos a renovadores da política

O procurador palestrante Deltan Dallagnol, que gasta mais tempo distribuindo chiliques e bravatas em redes sociais do que lendo processos, anda ocupado com propostas de partidos políticos. Como se noticia largamente, o rapaz de “perfil longilíneo e bochechas rosadas” pretende se valer do fanatismo da Lava Jato para conquistar um mandato de senador.

 

Outros nomes da República de Curitiba também são cogitados como virtuais candidatos nas eleições de 2018. Eles integram uma lista de personalidades, de variados setores, que se apresentam como renovadores da política. Estão chegando para mudar o país e nos livrar do atraso. Vamos conferir algumas dessas figuras – que sonham nada menos com a Presidência do Brasil.

 

Luciano Huck. Animador de auditório que reforma casas e carros, em seu programa semanal apresentado pela Rede Globo. Já montou seu circo várias vezes aqui mesmo em Alagoas, sempre tratado com reverência por autoridades que não perdem uma chance de se promover em presepadas de toda ordem.

 

Bernardinho. Técnico da seleção brasileira de vôlei, campeão olímpico com o time masculino. Em 2014, quase sai candidato a governador do Rio de Janeiro pelo PSDB, mas desistiu depois de pressão familiar. O sonho de transformar tudo isso que está aí, porém, continua vivo. Mais uma vez, sinaliza que pode partir para a briga nas urnas.

 

Roberto Justus. Primeiro genérico brasileiro de Donald Trump, ele ficou conhecido como especialista em “demissões” de subcelebridades em programas de televisão. É um desses casos doentios de exposição em qualquer meio de comunicação dedicado a tais bizarrices. Está no ar atualmente na Record TV.

 

Marcos Palmeira. Galã de novelas da Globo e militante do agronegócio que respeita as regras de proteção ao meio ambiente. É uma das vozes mais atuantes numa espécie de campanha permanente na defesa por um Brasil mais saudável. Também empresta sua consciência crítica a personagens de comédias desmioladas que rendem muita grana.

 

Flávio Rocha. É o dono das Lojas Riachuelo. Está para o Rio Grande do Norte, seu estado natal, assim como João Dória está para São Paulo. Vende a ideia de empresário moderno e empreendedor, em guerra contra a política profissional – embora revele muita espuma e quase nenhuma essência. Já foi denunciado pelas condições de trabalho em suas empresas.

 

Valéria Monteiro. Foi estrela como apresentadora do Jornal Nacional e do Fantástico, na TV Globo, durante a década de 90. Antes do jornalismo, foi modelo, bailarina e atriz. Hoje em dia se apresenta como ativista e vê na corrupção o maior problema do país. Anunciou que será candidata a presidente, mas ainda não escolheu um partido.

 

Lembro que a lista é formada por nomes de fora da política. E essa é exatamente uma das “qualidades” principais que todos vendem ao possível eleitorado. Se a coisa está mais feia do que nunca, o que você acha dessa renovação anunciada?

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Nosso futebol dominado pela máfia

Hoje, Alagoas pode escalar um segundo time na Série B do Campeonato Brasileiro. A missão está nos pés dos craques do CSA, no jogo da vida contra o perigosíssimo Tombense. Mas a jogada aqui será outra. Nunca houve, no Brasil, tanto debate sobre ética no futebol. A cada cobrança de lateral, a cada bola na trave, entre um escanteio e um drible da vaca, o bate-boca sobre honestidade entra em campo e sobe as arquibancadas.

 

Nada tão pertinente. O esporte mais popular no país sempre foi um laboratório de trambiques, politicagem e lances escandalosos de marmelada. A Confederação Brasileira de Futebol não passa de um aglomerado de dirigentes mafiosos, com representantes de todas as divisões, em todas as federações estaduais. A retranca dos marginais para manter o placar da goleada a favor da bandidagem é indevassável.

 

No comando da organização criminosa, ou seja, na presidência da CBF, está a figura bizarra de Marco Polo Del Nero. Acusado de lavagem de dinheiro e fraudes para receber propina, o elemento é alvo até do FBI. Por isso virou um refugiado na própria casa e não pode deixar o Brasil sem correr o risco de ser preso. Um vexame internacional, esse desmoralizado manda como quer no futebol brasileiro.

 

Herdeiro de uma tradição corrupta, Del Nero tem o pleno apoio de clubes e federações, todos domesticados à base de benesses variadas e repasse de dinheiro. As luvas compraram o voto na eleição; a mesada compra a cumplicidade permanente. Com esse esquema tático degenerado, o Brasil Futebol Clube afunda na última divisão.

 

Apesar dos escândalos mundialmente conhecidos, não temos em vista nenhuma chance de virar o jogo. Basta olhar ao nosso redor. Carreiristas da política tomaram os clubes de assalto e agem exclusivamente em nome de seus interesses pessoais. Fazem dos times de futebol currais eleitoreiros, com os piores métodos de gestão e chutes de autoritarismo.

 

Perto de tudo isso, o gol de mão, o impedimento não marcado e a simulação de pênalti não passam de truques em campeonatos juvenis. O debate sobre a ética nos gramados pode até pegar fogo e incendiar as torcidas, mas estamos bem longe do que é urgente pra valer. Nosso futebol tem de sair das garras dessa máfia.

 

No mais, bola pra frente e toda sorte ao CSA!

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A rejeição a Sergio Moro

Você percebe que o país atravessa um momento bem particular, ou mesmo sem precedentes históricos, quando lê na imprensa uma pesquisa sobre o índice de aprovação popular ao trabalho de um juiz, um integrante do Poder Judiciário. A notícia foi um dos destaques deste domingo, 24 de setembro. Alguém se lembra de outras épocas em que coisas assim aconteciam entre nós?

 

Saiu na grande imprensa. O levantamento é do Instituto Ipsos. Os dados informam como o povo avalia a atuação de onze personalidades da vida pública. Desse time, nove são políticos, com ou sem mandato. Os outros dois nomes são o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e o juiz Sergio Moro. (Ensaiando uma candidatura no próximo ano, Barbosa já é visto como um político).

 

Mas a pesquisa é notícia – com forte repercussão – por causa de Moro, o magistrado de Curitiba que está no coração da Operação Lava Jato. É sobre ele que vamos especular. A novidade é que, informa o instituto, disparou a rejeição à figura do rei da filosofia do “prendo e arrebento”. Seus métodos são aprovados por 48% dos entrevistados, mas o homem tem a rejeição de nada menos que 45% dos brasileiros. Empate técnico.

 

O resultado é péssimo para o juiz e toda a sua turma curitibana. A comparação que todos fazem é com o desempenho do ex-presidente Lula na mesma consulta popular. Os dados completos podem ser facilmente verificados em diferentes sites. Não vejo necessidade de reproduzir tudo aqui. Vou direto a alguma interpretação e a vários palpites sobre o quadro obtido.

 

O panorama é trágico para Moro porque, enquanto sua rejeição avança, a de Lula diminui. E enquanto a aprovação a Lula sobe, a do juiz desce, em relação aos meses anteriores. É bastante revelador que isso ocorra depois de o juiz condenar o ex-presidente – e após as acusações contra Lula feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci, em depoimento ao próprio Moro. O efeito previsível não seria o contrário?

 

Talvez sim, caso o juiz Moro agisse com o devido decoro e não tivesse se transformado numa festiva celebridade, a receber troféus como se fosse o último herói do nosso tempo. Sua presença no cinema, com saquinho de pipoca e tudo, para ver o filme que o trata como dono da moralidade nacional, é o exemplo definitivo de alguém dominado por uma vaidade indecente.

 

Ao que parece, o grande público tende a repudiar, cada vez mais, a boçalidade estridente de um membro da Justiça que, afinal, deve se comportar como um magistrado, e não como um inimigo do réu, seja ele quem for. Um convicto adepto da estratégia de se valer do barulho na imprensa para emplacar suas teses, Moro é vítima do veneno previsto em sua própria receita.

 

Não discuto aqui a culpa ou a inocência de Lula. Trato dos métodos de investigadores e do Judiciário. O juiz vive o mesmo drama dos procuradores juvenis da República de Curitiba. De maneira irresponsável, e com manifestações cretinas, fazem política o tempo todo, atacam as instituições com inédita desfaçatez e condenam investigados pelas redes sociais. Parece um bando de maníacos descontrolados.

 

A pesquisa, que ajuda Lula e repudia Moro, expressa a percepção desses abusos em série. Escrevo mais uma vez o que está em textos anteriores: precisamos combater o erro, a corrupção e a delinquência, é claro; mas isso não pode ocorrer por meios ilegais e atos delinquentes.

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A gritaria sobre uma exposição e o eterno mistério da arte

Aquela exposição proibida em Porto Alegre ainda é notícia – e até fora do Brasil. Uma abordagem comum na cobertura da imprensa sustenta que uma “onda conservadora” forçou o banco Santander a desistir do evento, depois que o Movimento Brasil Livre, o MBL, denunciou que algumas obras eram ofensivas a valores cristãos e exaltavam a pedofilia e a zoofilia.

 

O caso, do qual já tratei aqui, mistura um bocado de temas: política, liberdade, uso da censura, direitos individuais, religião, ideologias, vozes da direita e da esquerda. Católicos e cristãos em geral se sentiram particularmente atingidos pela suposta agressão a símbolos de fé, considerados sagrados. Para esses, qualquer argumento em defesa da exposição será inútil. Dogmas descartam o diálogo.

 

Mas o ponto que me interessa agora é outro. O bombardeio de opiniões e impropérios ressuscitou um velho debate e recolocou na praça o dilema igualmente antigo, no qual já se entranharam pensadores de todas as correntes, em todas as épocas: o que é a arte, afinal? A pergunta é praticamente um fantasma que se recusa a dormir no além e retorna quando menos esperamos.

 

Sim, porque um dos ataques mais comuns às obras expostas pelo banco garante que imagens escatológicas representam tudo, menos uma expressão artística. Não faltaram aqueles que decretaram que arte é a expressão da beleza e do sublime, algo construído com a nobre finalidade de nos dar prazer e até doses de felicidade. A tese é uma inocente e equivocada viagem no tempo.

 

É um tanto desconcertante – mas não surpreendente – que o conceito do belo ainda seja, para tantos, critério definidor na criação do artista. É uma regressão de séculos. Estivéssemos ainda sob tal paradigma, o mundo jamais teria conhecido a era da modernidade e todas as vanguardas que demoliram fronteiras, ampliaram modos de linguagem e libertaram nosso olhar para ver o infinito. Falo o óbvio, eu sei.

 

Nossa resistência à estranheza parece nascer com o DNA. Pular fora do convencional será quase uma traição, ou um pecado mortal, a convicções forjadas na matéria do idealismo. Quando essa rendição ao simplório se une a tabus e crenças religiosas, o ciclo se fecha em níveis irrecuperáveis. É o triunfo do fanatismo. Ou algo por aí. Guiados por tais valores, ainda que seja pura arte, só veremos danação.

 

De tão sedutores, o erro e a tolice dominam até aqueles que detêm instrumentos valiosos de análise. Penso na literatura e no grande poeta Ferreira Gullar. Em mais de uma entrevista, em seus últimos anos de vida, declarou que considerava um escritor como Samuel Beckett “um grande chato”. E explicava que, para ele, o irlandês produziu uma obra que deixa o leitor em depressão.

 

É uma avaliação primária, um erro indefensável, ainda que se trate de Ferreira Gullar. Procurar boniteza e conforto na música, na pintura, na instalação ou nas páginas de um romance não faz nenhum sentido. Como disse, seria andar para o passado, para bem antes de tempos medievais.

 

Mas, diante do debate sanguinolento que se espalhou, suspeito que seja uma guerra perdida. De todo modo, se no terceiro milênio ainda nos perguntamos o que é a arte, e qual a sua função em nossas vidas, não serei eu, tão perdido nesse mundo quanto você, a desvendar tamanho mistério.

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Professor aloprado e ódio ao jornalismo

Uma das coisas mais exóticas que descobri nos tempos de universitário – isso já faz trinta anos – foi que existe uma fanática e indestrutível aversão ao jornalismo por parte dos professores de jornalismo. Parece uma contradição inexplicável, mas é assim mesmo nas faculdades de Comunicação Social. Ao menos nas universidades públicas federais, eis uma tradição que se estabeleceu definitivamente.

 

Pelas informações que circulam, sei que hoje a situação é rigorosamente a mesma, ou talvez até mais grave. Nas aulas de jornalismo, aprende-se de tudo, menos como fazer uma pauta, apurar um assunto, escrever uma reportagem e outras habilidades que nossos mestres julgam inúteis e desprezíveis. Altamente qualificados, estão na academia para cumprir missões mais nobres do que essas futilidades da imprensa.

 

Um dos objetivos principais de mestres e doutores é revelar ao pobre aluno o admirável mundo novo da “consciência crítica”. Do curso de jornalismo você pode sair prontinho para ser um ativista das causas mais urgentes da humanidade. Já informações sobre texto e edição, por exemplo, aí não. Essas banalidades não interessam a tais pensadores, ainda que não façam a menor ideia do que seja uma redação de verdade.

 

Não importa a disciplina, o mantra na cabeça de professores é esculhambar os grandes veículos de imprensa do país. O problema mortal é que só sabem fazer isso – e repetem o palavrório ao longo de décadas, desde a criação do curso na universidade brasileira. Essa postura populista é bem conveniente, serve de biombo para ocultar a reincidente mediocridade na sala de aula.

 

Outra marca assustadora é a total ignorância dos doutores sobre a fascinante história da imprensa. Nunca vi um professor fazer qualquer menção a episódios, nomes ou momentos decisivos que tivessem no centro as páginas do jornalismo praticado no país ou mundo afora. Livros existem. Mas ninguém lê nada no planeta paralelo em que vivem os que deveriam ensinar algo sobre jornalismo.

 

No curso de Comunicação, as aulas versam sobre ideologia, status quo, hegemonia, cultura dominante, cultura marginal, combate à burguesia, comunicação de massa, comunicação popular, brechas para mensagens alternativas... É a cartilha perfeita de um marxismo rebaixado. Para repetir essa ladainha, ninguém precisa estudar nada. É o mundo ideal para o professor aloprado.

 

Tudo isso ganha uma fachada de modernidade quando o professor titular navega por uma pegada transdisciplinar. Para isso, basta recorrer a algum intelectual da moda, de origem francesa, que alia divagações ilegíveis a uma repaginada militância de modelo progressista. É mais uma roupa nova para o esqueleto de sempre.

 

Com a internet, abriu-se o vasto horizonte do mundo virtual e suas redes sociais. Sem dúvida um caminho valioso para pesquisas. Mas, limitados e pragmáticos até a medula, os mestres já despejam sobre esse campo os mesmos cacoetes e charlatanices com os quais sempre exerceram a arte de ensinar. Ou seja, conhecimento de jornalismo que é bom, das bancas universitárias, não sai nada.

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Um secretário por um punhado de votos

O troca-troca de nomes em prefeituras e governos estaduais segue em ritmo desenfreado por todo o país. Por aqui, todos os dias ouve-se falar em titulares de cargos ameaçados de despejo – e, para se completar a operação, também se ouve falar dos candidatos a ocupar o lugar dos despejados. Algumas mudanças já ocorreram e outras estão a caminho.

 

Desgraçadamente, o que move essa frenética “reforma de secretariado” não é qualquer planejamento estratégico para incrementar a gestão pública. Exonerações e nomeações no Diário Oficial passam longe dos critérios de desempenho e competência. É a política, sua besta, dirão a mim os nossos bem-informados especialistas em bastidores do poder. A eleição de 2018 está logo ali.

 

É isso mesmo. E é também um tanto chocante como nos acostumamos com essa prática, tratando com naturalidade, e até com alguma reverência, aquilo que não passa de um casuísmo rasteiro e escancarado. O resultado dessa miserável filosofia de governo jamais dará resultados positivos para a população. Teremos sempre um time jogando em função de metas eleitoreiras.

 

A substituição de um secretário desencadeia mudanças em cascata numa equipe que será chefiada, agora, pelo novo titular do cargo. E aí, lá se vai para o lixo um conjunto de ideias e projetos que estava em execução pelos desalojados. Claro, o novo dono do pedaço chega abarrotado de planos originalíssimos, disposto a começar tudo a partir do zero.

 

O mal atravessa toda a máquina burocrática brasileira, do governo federal aos municípios. É uma tradição intocada ao longo de nossa história. Uma reforma política pra valer teria de implodir essa aberração consagrada no país. Mas, olhando para o Congresso Nacional, não há qualquer vestígio que aponte nessa direção.

 

Pelo contrário. O cenário desolador insinua que estamos condenados a um estado de coisas que despreza o interesse do país de maneira obsessiva. Não é por outra razão que, por exemplo, prefeitos se sentem à vontade para montar suas equipes nomeando a mãe, a mulher, o genro e os filhos para ocupar os principais cargos na administração pública. Desde sempre, não há perigo de dar certo.

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Quando a TV Globo decidiu que Alagoas teria horário de verão

O que determina uma decisão de governo? No campo das formalidades e das obrigações legais, são os interesses coletivos de uma sociedade. Essa é a resposta mais óbvia e previsível que se pode encontrar. Nunca sabemos, no entanto, o quanto podem pesar demandas de outra ordem por trás de um simples decreto. Vou dar um exemplo de como uma iniciativa oficial pode ter motivação bem particular.

 

O Brasil pode abandonar o horário de verão. A decisão teria como causa a irrisória economia no consumo de energia elétrica registrada nos últimos anos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, não há consenso entre as autoridades do setor quanto ao cancelamento da medida. O horário especial vem sendo adotado no país de maneira ininterrupta há quase três décadas. Mas a estreia foi bem lá atrás, em 1931.

 

A regra se modificou ao longo do tempo. Inicialmente adotado em grande parte do país, o fuso especial vigora hoje em dez estados e no Distrito Federal. Sul, Sudeste e Centro-Oeste são as três regiões em que os relógios são adiantados em uma hora. Se não for cancelado, o horário de verão começa em outubro e vai até fevereiro do próximo ano.

 

Nos primeiros anos da década de 90, a Bahia era o único estado nordestino no horário de verão. Mas em 1995 um decreto da Presidência da República incluiu mais dois estados no pacote: Alagoas e Sergipe. Essa decisão não era decorrência de possível economia de recursos públicos. No caso de Alagoas, o decreto foi resultado de um acordo entre o governo estadual e a TV Gazeta.

 

Naquele tempo, os estados que originalmente ficavam de fora do horário de verão poderiam adotar a medida, bastando para isso formalizar um pedido à Presidência da República. Foi o que fez o então governador Divaldo Suruagy, alegando que, excluído do horário especial, o estado viveria transtornos com um fuso diferente de Brasília.

 

A verdadeira razão, no entanto, foi uma pressão da TV Globo sobre suas afiliadas para que convencessem governadores a agir pela adoção da medida. Motivo da pressão: a diferença dos relógios atrapalhava a programação da rede. Entrosado com a direção da Organização Arnon de Mello, Suruagy concordou em ajudar o poderoso veículo de comunicação.

 

E assim foi feito. Como editor de telejornais da TV Gazeta na época, lembro da satisfação da diretoria e funcionários com a decisão do governador. Um alívio para todos da casa. Para atender exclusivamente ao desejo da Globo, a população alagoana adiantou os ponteiros do relógio e viveu sob o horário de verão, de outubro de 1995 a fevereiro de 1996.

 

O episódio combina plenamente com as tradições que marcam a relação da TV Globo com o poder. Como está comprovado, por muitos anos o ministro das comunicações era escolha direta dos donos da emissora. As ordens do doutor Roberto Marinho a presidentes, em diferentes épocas, formam um capítulo singular da vida pública brasileira.

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A corrupção que veste farda

As declarações de um general que defendeu uma eventual intervenção militar no país fizeram um barulho inédito, desde que esse tipo de manifestação reapareceu nos últimos anos. Como se sabe, o general falou suas baboseiras durante uma palestra em Brasília, na última sexta-feira 15. Já tratei do episódio aqui. Volto ao tema para novos chutes e palpites.

 

No texto anterior sobre o assunto falei de uma falsa ideia, repetida por aqueles que estupidamente elogiam a ditadura militar que infernizou o Brasil durante duas décadas. Segundo o argumento falacioso, nos tempos do regime autoritário não havia corrupção, ou quase nada, porque nos quartéis a honestidade é regra absoluta. Vamos pensar um pouco mais sobre essa ilusão.

 

É claro que isso não se sustenta em pé. Tanto na época da ditadura como nos anos seguintes não foram poucos os casos de desvio de verba sob as ordens fardadas. A imprensa tem natural dificuldade para apurar esses casos justamente porque a falta de transparência é lei inviolável nas Forças Armadas. O mesmo vale para as polícias militares Brasil afora.

 

A coleção de delitos honra as piores tradições. Fraude na aquisição de combustível; licitações viciadas para compra de armamento; superfaturamento em contratos com fornecedores; uso ilegal de veículos oficiais para benefício pessoal; desvio de função de integrantes das tropas para servir a políticos e comandantes – tudo isso pode estar acontecendo agora, sob a capa fantasista da austeridade.

 

Existe ainda uma anomalia bastante comum nas forças militares, federais e estaduais, vez por outra denunciada, mas nunca resolvida. Trata-se de senhores de alta patente com uma atuação paralela – e secreta – no mercado da segurança privada. Uma investigação pra valer revelaria quantas empresas têm militares em suas folhas de pagamento ou até mesmo como sócios ocultos.

 

Mas vamos a um exemplo atualíssimo de como as corporações fardadas atuam com lisura na gestão pública. Vejam o que acaba de ser noticiado sobre o Corpo de Bombeiros Militar do Rio de Janeiro. Nada menos que 30 oficiais e coronéis foram presos acusados de um gigantesco esquema de venda de alvarás para liberar qualquer coisa. Era bem rigoroso: pagou, levou.

 

Notícia ainda mais recente saiu na versão brasileira do El País. Segundo a reportagem, um tenente-coronel da PM de São Paulo, preso desde março, negocia uma colaboração premiada para revelar uma tramoia de roubalheira na corporação. 18 coronéis estariam envolvidos numa jogada que pode ter desviado mais de 200 milhões de reais, entre os anos de 2005 e 2012.

 

No escândalo fardado carioca não falta nada que você não tenha visto nos clássicos de corrupção no país. A propina é a engrenagem do negócio, com direito a conversas gravadas, ostentação e malas de dinheiro. Portanto, para quem acredita que os quartéis têm alguma coisa a nos ensinar sobre honestidade, um pouco de memória pode clarear as coisas.

 

Mas não é por tudo isso que devemos rechaçar uma intervenção militar. A corrupção deve ser combatida e punida, em qualquer esfera. O ponto essencial é outro. Devemos repudiar acenos a regimes de força porque isso é uma violação aos direitos humanos e às liberdades individuais, valores sagrados na democracia.

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A reportagem de Marcelo Rezende que a Globo prefere esquecer

A trajetória de Marcelo Rezende no jornalismo percorreu mais de quatro décadas, em diferentes veículos de comunicação. Mas foi na TV Globo que ele se tornou um nome nacionalmente conhecido, a partir do fim dos anos 80. Os pontos altos da carreira do repórter foram lembrados em várias reportagens, depois de sua morte, no último sábado 16.

 

Na emissora carioca, o Jornal Nacional destacou o trabalho em que Rezende denunciou a ação criminosa da Polícia Militar de São Paulo, no caso que ficou conhecido como Favela Naval. O lugar fica no município de Diadema. PMs foram flagrados torturando e matando moradores da região. O ano era 1997. A denúncia teve repercussão internacional.

 

Mas outra reportagem do jornalista, exibida no Fantástico em novembro de 1998, entrou para a história da Globo e da imprensa brasileira. E não foi por bons motivos. Rezende fez uma entrevista exclusiva com o motoboy Francisco de Assis Pereira, o homem que ficara conhecido como o Maníaco do Parque. Era acusado de matar pelo menos onze mulheres na capital paulista.

 

A matéria especial pretendia inaugurar uma vertente mais arrojada de jornalismo para TV. Foi o que a Rede Globo avisou a suas afiliadas, que deveriam ficar atentas ao novo formato. Sei disso porque eu era o diretor de jornalismo da TV Gazeta. O resultado foi um desastre absoluto, com duração de incríveis 40 minutos naquela edição do Fantástico, o “show da vida”. A Globo entrou em crise.

 

Para começar, a produção tinha no comando o departamento de dramaturgia, e não a Central de Jornalismo. Um consagrado diretor de novelas, Roberto Talma, assinava a obra jornalística. A edição abusou de trilha sonora de suspense e efeitos especiais à altura do pior sensacionalismo. Para decifrar a mente do assassino, as fontes ouvidas foram um astrólogo e duas videntes.

 

Difícil saber o que era mais bizarro naquilo tudo. Houve simulação dos ataques às mulheres, que mais pareciam cenas de filme de terror de última categoria. Cuidadosamente planejada, a iluminação sobre o rosto do maníaco tentava elevar o clima de tensão e medo. Rezende se empenhou na missão. Cada frase de seu texto tinha como objetivo principal dramatizar ao máximo aquele enredo.

 

As perguntas e a condução da entrevista foram o ápice de um erro total. O assassino foi levado a contar detalhes de sua infância na zona rural, marcada, segundo ele, pela imagem de bois sendo abatidos a golpes de marretadas. O repórter pede que ele mostre como eram os movimentos do animal no momento da agonia. Em pé, o motoboy se contorce e cai no chão do presídio. Foi tudo medonho.

 

Como disse antes, o resultado da aberração provocou uma tremenda crise na Globo. Assustada com a péssima repercussão do caso, a direção da emissora exigiu explicações de Evandro Carlos de Andrade, então homem forte do jornalismo da casa. Descobriu-se que ele não acompanhara de perto a nova aposta de sua equipe. O que deveria ser um novo paradigma para os jornalistas morreu ali mesmo.

 

E o que explica aquele desastre? A resposta é simples. Era uma tentativa irresponsável de recuperar audiência, numa época em que a Globo via seu ibope em queda. Na guerra suja pela liderança, todos os limites são atropelados. Ficou a lição, mais uma, na longa, conturbada e espetacular história da imprensa brasileira.

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A hora e a vez da filosofia brasileira

Eles estão em todos os programas de TV, nas emissoras de rádio, nas feiras literárias, em seminários de universidades e nos debates promovidos por veículos de comunicação. Todos se apresentam como pensadores, com sábias palavras a nos dizer sobre a conturbada realidade mundial e a eterna crise brasileira. Nunca houve tantos gurus como nos tempos atuais.

 

Qual é o tema da vez? Não importa. Eles têm respostas para nossos dramas universais. Da rejeição à política ao império das redes sociais, das loucuras de Donald Trump ao novo feminismo, dos atentados terroristas ao jogo da baleia azul – nenhum mistério resiste ao time de celebridades especialista em tudo.

 

Imigrantes são vítimas de xenofobia? Estudantes espancam professores em sala de aula? Manifestantes depredam bancos e empresas? Intolerância religiosa? Cultura do funk? Despacito? Menino do Acre? É fácil entender. Chamem o Cortella, o Karnal, o Clovis de Barros, o padre Fábio de Melo, a Márcia Tiburi, a Viviane Mosé, o Sakamoto, a Clara Averbuck... A lista é interminável.

 

Antigamente, tudo isso era chamado de autoajuda. Parece que hoje, para se apresentar ao mercado com a eficiência desejada, a coisa ganhou ares mais sofisticados. Cada um na sua área de conhecimento, nossos intelectuais campeões de audiência têm em comum a sagacidade para ganhar dinheiro. O segmento de palestras remuneradas desconhece as crises que balançam a economia.

 

A verborragia vai parar nos livros, é claro, dando ares de seriedade a ideias capturadas no vento. Os pensadores da moda lançam um novo título por dia, com novas revelações imperdíveis sobre a nossa existência. De tão ativa, são se sabe como essa turma arranja tempo para estudar. Deve ser alguma técnica secreta, típica dos grandes sábios.

 

Fica a dica: ao contrário do que pensava Caetano, está provado que é possível filosofar em alemão – e em brasileiro.

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