A maldição da política em sua vida

Ideologia – quem precisa de uma para viver? Trinta anos depois de Cazuza cantar as ilusões perdidas e os sonhos vendidos, parece que todo mundo finalmente encontrou uma causa para defender. E a julgar pela zoada ensurdecedora, o engajamento atual em nome do que se acredita é capaz de tudo – até de enterrar amizades que pareciam eternas. Para quem está do outro lado, tolerância zero.

 

Nos tempos da canção de Cazuza, a reta final da década de 80, o país caminhava sem rumo sob o governo Sarney desmoralizado. Nenhum projeto despertava confiança. Nada mobilizava ninguém. Não havia alternativas capazes de transformação para superar a tragédia social que definia a realidade dos brasileiros. Os versos do poeta do rock, quase simplórios, resumem o abismo.  

 

Era a ressaca da pós-ditadura militar. Nos vinte anos anteriores, a falta de liberdade e a perseguição política alimentaram a resistência e turbinaram, nos ambientes intelectuais e da arte, o saudosismo pela velha ideia – tão cara – de uma utopia. Tudo isso havia acabado. Era mais ou menos o que registrava o desencantado roqueiro, numa espécie de engajamento pelo avesso, quase niilista.

 

Hoje, as palavras de ordem retornaram. A convocação à luta contra o fascismo é um imperativo existencial. Na sala de aula ou na balada, ninguém deseja um bom dia sem antes cobrar nossa assinatura em alguma petição de protesto. Há sempre um famigerado reacionário prestes a mais uma barbaridade – e você não pode ficar aí parado, na sua omissão horripilante.

 

É impossível encontrar um espaço de convivência livre dos debates acirrados sobre todas as coisas que existem no mundo. E isso inclui um atirador numa escola, Nicolás Maduro, a Síria, cultura do estupro e a próstata de Michel Temer. E inclui também todos os temas que você conseguir lembrar. Lamentar esses tempos sombrios virou uma senha de acesso a uma nova dimensão.

 

Não é necessário esperar pela ocasião mais adequada para expor ideias e protestar. Nas universidades, nos coletivos de cinema, nas redações ou nos salões da moda para barbudos, aderir ao discurso militante – à esquerda, à direita ou de cabeça pra baixo – é tão comum quanto fazer uma tatuagem. Aliás, em muitos casos, suspeito que as duas atitudes até se equivalem.

 

Não tente pular fora da raia com essa conversinha de isenção. Ninguém é apolítico. Existe até uma ofensa já consagrada, em tom de piada, para esses casos repulsivos de dissimulação: quem posa de equilibrado são os “isentões”, elementos que na verdade estão escondendo as piores preferências no meio da guerra. Essa postura pode ser mais grave do que cometer um crime na vida real.

 

Tal como se dá entre nós hoje em dia, a fixação na política envenena a cabeça e a alma. É um erro fatal. Nem todas as causas são ideológicas. Aliás, a essência da vida passa longe dessa maldição – uma maldição, sim, que, sendo onipresente, parece a única paisagem diante de nossos olhos. Mas é um delírio. E seja qual for sua ideologia delirante, acredite: os inimigos sempre estarão no poder.

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A violência que desafia o Estado

A redução nos índices de violência foi uma das promessas do então candidato a governador Renan Filho na campanha eleitoral de 2014. Vitorioso na disputa, ele chega à reta final do terceiro ano de mandato com poucos resultados a comemorar nessa área. É verdade que o índice de homicídios caiu em Maceió, mas cresceu nas demais regiões do estado.

 

É o que mostram os novos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados nesta segunda-feira. É claro que não se pode exigir do atual governo o milagre de resolver uma calamidade construída ao longo de duas décadas. A criminalidade encontrou solo fértil para o crescimento descontrolado durante as gestões de Ronaldo Lessa e Teotonio Vilela Filho.

 

Mas não adianta jogar a culpa no passado e minimizar os números dramáticos que estão aí. O governo alega ter feito os investimentos necessários em segurança – o que não parece o suficiente para enfrentar um problema desse tamanho. Onde estariam, então, as soluções para se obter resultados de fato significativos? Não sei. Pelo visto, as autoridades também não sabem.

 

Na política de segurança, um erro fatal continua sendo cometido com afinco. Refiro-me ao discurso do “prendo e arrebento”, tão ao gosto da demagogia populista que embala políticos e gestores da área. É uma atitude que vende facilidades e tenta enganar a sociedade na base do voluntarismo, com ações puramente publicitárias. Rende fotos e imagens para TV. E só.

 

De uma coisa temos certeza. No ano que vem o tema estará no centro de mais uma campanha eleitoral. E isso quer dizer que seremos alvo, de novo, das piores mistificações acerca de um grave problema que requer seriedade e iniciativas avançadas. Tem sido assim desde os tempos em que o criminoso mais perigoso era o famoso ladrão de galinha.

 

Com promessas mirabolantes e ideias que repetem as sandices de um coronel Amaral da vida, Alagoas não vai longe no enfrentamento dos altos índices de assassinato. A violência segue desafiando o poder público, que continua falhando na missão de garantir um cotidiano de paz para os alagoanos. Menos espetáculo e mais inteligência. Uma saudável receita começa por aí.

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Agências e Tribunais de Contas afrontam a lei e abusam do cidadão

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Na engrenagem da burocracia pública, os órgãos de fiscalização formam um capítulo especial no hospício chamado Brasil. São agências reguladoras, tribunais de contas e conselhos de todo tipo. Foram criados para acompanhar, orientar e, principalmente, fiscalizar a lisura dos atos administrativos nas diferentes áreas de gestão pública e privada. Tudo isso na teoria.

 

Na prática, a atuação desses órgãos fiscalizadores tem se mostrado, com frequência, um desastre. E não é de hoje. Nos casos de corrupção envolvendo grandes empresas, é comum vermos, por exemplo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aparecer como suspeito de fraudes em processos que são julgados pelos conselheiros. Os bandoleiros irmãos Batista são a prova disso.

 

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) virou piada faz tempo. Ao invés de combater abusos das companhias aéreas, e de zelar pelo cumprimento de medidas de segurança nos voos, geralmente trabalha como sócia das gigantes do setor, fechando os olhos para crimes a três por quatro. Basta lembrar que em todos os acidentes que resultaram em tragédias, a Anac foi flagrada descumprindo, ela própria, regras básicas.

 

As agências reguladoras de saúde e de telecomunicações, para citar dois setores que azucrinam o nosso cotidiano, seguem à risca o padrão degenerado de desempenho. Operam mais para ajudar os potentados da economia do que em defesa do cidadão. Na saúde, laboratórios e planos de saúde incorrem em crimes com uma compulsão assustadora. E nada acontece.

 

Na telefonia, a mesma safadeza corre em ritmo frenético, sem que as multinacionais sejam incomodas pela entidade fiscalizadora. As regras de mercado são ignoradas por fusões fraudulentas, que burlam a lei que impede monopólio e concorrência desleal. Já o coitado do consumidor, então, vive sob um cerco de arbitrariedades nos seus direitos elementares.

 

E temos o caso dos Tribunais de Contas. Aí, meu amigo, a pilantragem com os verbos fiscalizar e punir atinge o status de arte. Além de descumprir, com determinação, suas obrigações incontornáveis, esses laboratórios de ações suspeitas e ilegalidades escancaradas estão inundados por fraudes até o pescoço. São tantos os escândalos que merecem um estudo acadêmico.

 

Por que um país convive tranquilamente com essa antologia de aberrações? A formação desses órgãos explica quase tudo. Quem integra uma agência ou um TC? É aí que estão a origem e a essência do descalabro. São nomeados para essas entidades os políticos em busca de salários milionários e mordomias vitalícias. Os critérios de nomeação são o compadrio e a cumplicidade.

 

É mais ou menos assim: uma quadrilha tem poder para escolher aqueles que vão fiscalizar suas ações. Exercendo plenamente tal prerrogativa, os quadrilheiros escolhem para fiscal precisamente um de seus comparsas. Fica tudo em casa. Fica todo mundo seguro. Sai todo mundo no lucro. O prejuízo, naturalmente, sobra para o resto da população. Nossas esferas de fiscalização funcionam exatamente assim.

 

Quando um novo escândalo tira da sombra essa estrutura viciada e criminosa, o barulho é forte e algumas vozes se levantam para apontar o mal de origem. Mas logo depois as coisas se acalmam e tudo segue como antes. Interesses espúrios no meio político e a muralha do corporativismo se juntam na defesa de uma anomalia que agride, em tempo integral, a vida dos brasileiros.

 

O que fazer? A solução é tão simples quanto – ao que parece – impossível: esses órgãos teriam de ser dissolvidos. E começar tudo do zero. Não vai acontecer, é claro. Para uma tarefa nessas dimensões, falta um requisito obrigatório na praça: a coragem de combater o que precisa ser combatido. Ao contrário, a leniência e a covardia estão por todos os lados.

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Entre Lula e Bolsonaro

E como tudo passa pelas eleições de 2018, aí está o novo Ibope trazendo números que, mais uma vez, deixam analistas perdidos diante do que para muitos não há explicação. O levantamento confirma o ex-presidente Lula como favorito na corrida pelo Palácio do Planalto. Como isso é possível? Por que uma população escolhe um condenado por corrupção como alternativa para governar o país?

 

A pesquisa revela que Lula tem 35% da preferência do eleitorado. Em segundo lugar, aparece o deputado Jair Bolsonaro – o candidato abominável sob todos os critérios – com 13% das intenções de voto. Atrás deles estão Marina Silva, tucanos, Huck e Ciro Gomes, aquele coronel cearense que tenta em vão vender a imagem de moderno, mas não consegue se livrar de sua truculência provinciana.

  

É um drama inédito na história nacional. O candidato que lidera nas pesquisas, ou seja, que tem a confiança de mais de um terço dos eleitores, não sabe se vai mesmo concorrer. A resposta está nas mãos do Judiciário. Condenado pelo juiz Sergio Moro, Lula aguarda o julgamento de recurso em segunda instância. Caso seja derrotado, fica impedido de disputar a eleição.

 

No caso de condenação pelo Tribunal Regional Federal, Lula pode até ser preso – e isso será decidido a poucos meses da eleição. É um cenário cujo ineditismo pode produzir situações imprevisíveis. Independentemente de nossas posições, fato é que, dos arautos da Lava Jato aos seus maiores inimigos na política, ninguém contava com a incrível resistência da popularidade de Lula.

 

Caso possa concorrer, pelos dados de agora no Ibope Lula faria um segundo turno com Bolsonaro. Então os brasileiros estariam diante dessa escolha elementar. O que lhe parece mais confiável? Já pensou o Brasil governado pelas ideias de um elemento que prega o que há de mais atrasado e obscuro nesse mundo? Esse é o tal Bolsomito, como é chamado por sua turma de fanáticos.

 

Decididamente, não vejo como dispensar alguma simpatia a alguém que estimula todo tipo de preconceito e intolerância – além de argumentar mais pelo cano de um revólver do que pelo pensamento lógico. Bolsonaro é a degradação da vida pública, a personificação dos valores mais perniciosos numa sociedade. Não dá nem para iniciar uma conversa.

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O prefeito com a faca no pescoço

Um dos problemas do Brasil é que vivemos em permanente clima eleitoral. É uma eleição a cada dois anos. E no ano em que não há disputa por voto, como este 2017, o mesmo clima toma conta de tudo a partir do segundo semestre. Ou seja, a expectativa pela eleição do ano seguinte contamina os dias atuais, como se todos fossem às urnas já amanhã.

 

O resultado dessa loucura coletiva no meio político é que gestores passam a agir exclusivamente em função da competição eleitoral – mais de um ano antes da data marcada para as urnas. Vejam o que ocorre com o prefeito de Maceió, Rui Palmeira. O homem está sendo praticamente torturado em praça pública para assumir – agora – a candidatura a governador.

 

O detalhe dramático é que a pressão sobre o prefeito vem dos aliados. Pelo menos em tese. Tem gente dando entrevista todo dia na imprensa, forçando a barra sem limites. Outros, é claro, recorrem às redes sociais e gravam vídeos para fazer a mesma cobrança. É como se fosse uma questão de vida ou morte ter uma decisão de Rui Palmeira, de preferência, para ontem.

 

Com variações de estilo e gradações na ênfase dos apelos, o tom das manifestações tem um padrão. No geral, pode-se dizer que o prefeito é alvo de uma ostensiva chantagem emocional. Virtuais candidatos a cargos no legislativo jogam nas costas de Rui o destino de todo um grupo. Daí porque alguns recorrem a apelos quase desesperados, do tipo “ou decide logo ou partimos pra outra”.

 

Já no governo estadual, que terá Renan Filho em busca da reeleição, a pressão é por reforma no secretariado e mudanças onde for possível mudar. Ou seja, tem-se um frenético carnaval de cadeiras em que a moeda de troca – valiosíssima – são os cargos em todos os escalões. E aí também o governador se torna refém das demandas eleitorais, com uma antecedência absurda.

 

Como já escrevi em texto anterior, penso que Rui Palmeira deveria completar seu mandato na prefeitura, que se encerra em 31 de dezembro de 2020. A disputa pelo governo em 2018 me parece uma aventura com todos os ingredientes para dar errado. Suspeito que o mais racional seria ter um pouco de paciência e esperar 2022 para disputar o comando do Estado.    

 

Mas não será assim, a julgar por tudo o que se fala entre os interessados em ter o prefeito como candidato já em 2018. O certo é que ele está com a faca no pescoço, sendo praticamente obrigado a mergulhar na candidatura a governador. Pode dar certo, sim, mas a perspectiva é de um páreo duríssimo. É uma aposta bem alta – e imprevisível. E o prefeito sabe disso.

 

A situação é tão tensa que, talvez por essa razão, suponho que Rui evite o assunto. Fala o menos possível – e quando não há escapatória. Seja como for, temos aí a máquina estadual e os rumos do município atrelados a uma fixação insana no calendário eleitoral. E tudo isso num ano em que o calendário não prevê eleições. É ou não é uma dessas loucuras tipicamente brasileiras? 

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A morte anunciada da imprensa

Todos os dias alguém decreta a morte da “velha imprensa”. A expressão entre aspas que acabo de usar aparece em debates, mesas redondas, entrevistas e textos de cronistas de variadas cores e tendências. A profecia de morte anunciada, é claro, começou com o surgimento da internet – primeiro com a força dos blogs e, logo em seguida, com a explosão das redes sociais.

 

A vastidão do tema é inquietante. Estamos falando de informação numa era de novidades que o homem jamais imaginou – nem nos filmes e na literatura de ficção científica. Não bastasse a complexidade intrínseca ao assunto, o fator político (ou ideológico) torna uma avaliação sobre o cenário atual praticamente uma guerra de versões. E a velha imprensa virou saco de pancada.

 

Com o turbilhão de contatos e trocas virtuais, instalou-se uma confusão entre conceitos. Coisas distintas são tratadas como se fossem idênticas. Informações isoladas, opinião, militância, engajamento, protesto – isso tudo tem relevância e pode influenciar, hoje em dia, até os rumos de políticas oficiais. Mas jornalismo profissional é outro departamento.

 

No império das falsificações e da pós-verdade, tenta-se subestimar o impacto de uma capa de revista, de uma manchete de jornal ou de uma reportagem na TV. Afinal, quem vai prestar atenção nesse modo obsoleto de noticiar alguma coisa, se tudo está na rede, à disposição de todos, as 24 horas do dia? Eis um raciocínio que reproduz a confusão citada acima.

 

Embora o clima geral seja de irritação com a chamada grande imprensa, se você pensar em qualquer caso de forte repercussão, no Brasil ou no mundo, vai constatar que as revelações mais extraordinárias – os furos de reportagem – vieram dos veículos tradicionais. E isso ocorre porque, entre outras coisas, nesses veículos pratica-se o jornalismo profissional. Como sempre foi.

 

Um fenômeno antigo – que continua firme no universo da informação – parece inexplicável para muita gente, mas tem toda lógica: diante de grandes escândalos ou de tragédias que mobilizam a população em escala incomum, cresce a circulação de jornais e aumenta a audiência dos telejornais. O que explica isso nos dias de hoje? As pessoas buscam a informação confiável.

 

Também na internet é o profissionalismo que garante o jornalismo sério – forte e independente como tem de ser. Produzir notícia tem um custo e requer gente do ramo, treinada e atenta a princípios éticos fundamentais no exercício da profissão. Voluntarismo, falta de rigor e negligência a regras não podem gerar resultado no mesmo nível que se tem na imprensa.

 

Um aspecto para mim bem esquisito é ver jornalistas como que torcendo pela morte da imprensa. Há um discurso generalizado que tenta negar a relevância de uma instituição vital para a vida democrática – seja em que regime de governo for, à direita ou à esquerda. Geralmente é um tipo de postura raivosa, que prega quase que o extermínio de veículos de comunicação.

 

Claro que as disputas políticas contaminam todo esse debate. Quanto a isso, nem adianta argumentar. Mas falo de algo que está além das paixões particulares. O fato de ser jornalista – uma contingência da qual não posso me separar – certamente influencia meu modo de ver o assunto. Seja como for, negar a força da imprensa é loucura.

 

Há bom jornalismo no mundo virtual, sem dúvida, como continua a existir jornalismo de qualidade no papel. Como um dinossauro de passos erráticos, mantenho uma pata em cada suporte: clico em sites, blogs e páginas da internet e, ao mesmo tempo, ainda vou às bancas no centro de Maceió em busca de jornais e revistas. Comigo, aliás, foi assim que tudo começou. Há muito tempo.

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A elite do açúcar em decadência

As usinas estão quebradas. Os usineiros vão muito bem, obrigado – como sempre estiveram. Graças ao jornalista Davi Soares, do site Diário do Poder, sabemos agora que sete usinas da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas formalizaram o pedido de recuperação judicial. É uma tentativa de escapar da iminente falência. Os empresários não têm como honrar o pagamento de dívidas de toda ordem, incluindo fornecedores de cana que alugam suas terras para o plantio. Os mais prejudicados são pequenos proprietário rurais, que não sabem quando vão receber.

 

Mas essa crise está longe de ser algo repentino. A decadência começou muitos anos atrás, primeiro fechando várias usinas que não integravam a poderosa cooperativa. A verdade é que essas empresas nunca foram exemplo de boa gestão de negócios. Sempre viveram sob as mamatas do poder político, recebendo todo tipo de subsídio e empurrando o prejuízo para os cofres públicos. Para ficar num único exemplo do que digo, pense no Banco do Estado de Alagoas, o famoso Produban. Se as coisas fossem sérias por aqui, usineiros teriam sido presos. Foram eles que quebraram o banco.

 

Já a cooperativa, que agora tenta a recuperação judicial, foi durante décadas o grupo de empresas mais rico do estado. Mas também abusou da gestão temerária, financiando campanhas eleitorais milionárias e, internamente, criando todo tipo de benesse para seus diretores. Os salários batiam no céu, as passagens aéreas nunca faltavam ao longo do ano e a remuneração extra era uma prática consagrada. Executivos da cooperativa sempre se portaram como verdadeiros rajás, num mundo paralelo de luxo, ostentação e poder descomunal. Pararam no tempo. A conta finalmente chegou.

 

Há pelo menos cinco anos, ou um pouco mais talvez, a cooperativa tomou pé do rombo em sua contabilidade. Resultado: começaram as demissões, a redução de salários e a extinção das absurdas regalias. Alguns funcionários tiveram a remuneração rebaixada e foram autorizados a trabalhar em casa. Diretores no topo da empresa que continuavam gastando a rodo foram afastados. Nessa fase de cortes agudos, a cooperativa viveu uma guerra de poder entre seus chefões. Houve momentos de tensão e, em algumas ocasiões, não faltaram ameaças entre os herdeiros de engenho.

 

Exemplo do que há de mais reacionário na vida brasileira, essa é a nossa elite econômica, muitas vezes truculenta e sempre ignorante. A cana-de-açúcar é o símbolo máximo da exploração do segmento mais pobre da população, especialmente no Nordeste. Pela força, com a conivência do poder público, usinas impuseram jornadas de trabalho desumanas, em condições degradantes. Fala-se hoje em trabalho escravo? Até um dia desses isso era pura realidade nos canaviais.

 

Que esses senhores não venham posar de vítimas desse ou daquele governo. Os fatos provam que isso é uma falácia – aliás, uma velha falácia, sempre usada justamente para meter a mão em recursos de qualquer governo. A vitimização, além de uma mentira factual, seria uma afronta ao povo. Espera-se que paguem suas contas, dentro da lei, sem os criminosos privilégios que sempre tiveram. 

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O prefeito-Botox merece ovo na testa

O homem que elevou a toxina botulínica ao patamar de categoria existencial será homenageado em Maceió nesta sexta-feira. Refiro-me, é claro, a João Doria Junior e ao império do Botox, do qual o prefeito de São Paulo é um dos maiores adoradores do planeta. Essa bizarra figura da degradada vida pública nacional desembarca na capital alagoana para um teatro, uma encenação, uma presepada cuja finalidade única é campanha eleitoral antecipada. Doria – valha-me Nossa Senhora! – é pré-candidato a presidente em 2018.  

 

O prefeito que os paulistanos escolheram será agraciado com o título de Cidadão Honorário de Maceió pela Câmara Municipal. A iniciativa não é original. O mesmo tem ocorrido em outras partes do país, numa tentativa de Doria de ficar conhecido nacionalmente. Embora não esteja em boa hora dentro do PSDB, seu partido, ele só pensa na eleição presidencial. É sua ideia fixa desde que assumiu o comando da maior capital do país. Para sair candidato, já brigou com meio mundo de tucanos e deu uma rasteira no governador Geraldo Alckmin, seu padrinho político.

 

Os planos desse elemento – que um dia já quis transformar em atração turística a seca do Nordeste – podem esbarrar em seus próprios erros na prefeitura paulistana. Desde que tomou posse, tropeça todos os dias em alguma invencionice puramente publicitária, que logo é desmoralizada porque nada tem de sério e consistente. A última dessas piadas é a tal “farinata”, uma espécie de complemento alimentar para escolas da rede pública. A iniciativa é duramente criticada por especialistas, profissionais de saúde e da educação. Nesse caso, Doria é acusado de querer dar ração aos estudantes pobres.

 

Em suas andanças eleitoreiras, o prefeito-Botox não guarda boas lembranças de todas as visitas. Na verdade, diante da fachada de puro marketing, as reações são de protesto por onde ele passa. Como sou contra qualquer tipo de violência, torço por alguma manifestação civilizada contra essa estupidez armada por vereadores e empresários locais. Se tivermos sorte, pode ocorrer o que houve em Salvador: algum ovo podre na testa de Joao Doria Junior. Seria, esta sim, uma homenagem mais que merecida. Fico aqui na torcida.

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O ataque a jornalistas da TV Gazeta

Exercer o jornalismo às vezes pode ser perigoso. Vejam o que aconteceu com uma equipe da TV Gazeta na noite desta quarta-feira. Três assessores (ou seguranças) da deputada estadual Thaíse Guedes partiram pra cima do repórter-cinematográfico Josualdo Moura dispostos a agredi-lo. E foi isso o que fizeram. Os valentes pretendiam evitar imagens da parlamentar no momento em que deixava a sede da Polícia Federal. Segundo a PF, ela foi indiciada por um esquema envolvendo servidores fantasmas. Outros deputados são suspeitos no mesmo caso.

 

Só temos as imagens da agressão porque a repórter Estela Nascimento gravou o ato dos covardes com seu próprio telefone celular. Aliás, ela está de parabéns pela postura. Foi corajosa, manteve a calma, enfrentou os truculentos e registrou o ataque. Não é fácil agir como ela numa situação tensa, diante de uma ameaça que poderia descambar em algo ainda mais grave. Na gravação dá pra ouvir um dos elementos perguntando como é que a TV sabia do depoimento, “antes mesmo do advogado” da deputada. Como se isso fosse algum pecado e justificasse a violência contra os jornalistas.

 

O episódio não foi o primeiro nem será o último. Em algum momento, o bom jornalismo, que sempre incomoda, acaba atraindo a fúria dos que se acham intocáveis. E casos assim não podem ser vistos, jamais, com naturalidade. Devem ser repudiados como atentados ao direito de a imprensa livremente informar à sociedade. Minha solidariedade aos profissionais da TV Gazeta, que exerciam seu trabalho como tem de ser – em cima do fato, sem medo.

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Quando um juiz rasga a Constituição

Toda vez que alguém ousa apontar excessos e abusos na Operação Lava Jato, a reação é a mais previsível do mundo – e a mais superficial também: aquele que critica está movido por intenções malignas e tem como objetivo único proteger os corruptos. Acrescente-se a isso o fato de a operação não ter apenas simpatizantes, mas, em boa medida, uma torcida fanática.

 

A coisa é tão pesada que não são poucos os que evitam criticar o juiz Sergio Moro e sua turma curitibana, pelo temor do revide virulento. Se você reclama desses heróis de toga, corre o risco de ser carimbado como um corrupto igual aos que estão sendo presos todos os dias. Daí que até ministros do STF cedem ao medo da turba que defende um regime no estilo pega pra capar.

 

É uma pena que assim seja. Quando a gente dá carta branca para autoridades rasgarem a Constituição e as leis, estamos perdidos. Será que é tão difícil entender que o atropelo da legalidade não afeta apenas um acusado, mas toda a sociedade? Se um juiz ou um promotor pode avançar sobre a vida de alguém chutando princípios legais, a próxima vítima pode ser você.

 

Os senhores da Lava Jato sabem desse clima e, por isso mesmo, manipulam tal sentimento na defesa de ações indefensáveis. Quantas vezes não vimos Moro e integrantes do Ministério Público anunciando que há uma conspiração contra as investigações? Diante dos flagrantes de ilegalidades, a resposta é espalhar a versão de que a Lava Jato é vítima de antipatriotas.

 

Dane-se a lei, pensam os que defendem qualquer loucura por parte de investigadores. Estou fora dessa. Juiz deve obediência à Constituição. Para julgar qualquer pessoa, ele deve ler e aplicar o que prevê o ordenamento jurídico. Magistrado que se acha acima do bem e do mal deve aplicar as idiossincrasias de sua cabecinha em sua vida particular. No Direito, não.

 

Bater na república de Curitiba é tarefa ingrata. A imprensa está cheia de jornalistas metidos a valentões que não perdem a chance de acusar qualquer um que discorde dos métodos espúrios da Lava Jato. Há nisso também porções cavalares de populismo e hipocrisia. Está tudo tão dominado que dá até uma certa canseira ouvir a mesma coisa todo santo dia.

 

Mais uma vez, insisto: não se combate um crime sujando as mãos com outro crime. A velha história dos fins que justificam os meios é uma tragédia que não pode jamais prosperar, muito menos ser aceita como se fosse natural. Isso é coisa de regimes totalitários. E de gente no mínimo equivocada. O cumprimento da lei é o oxigênio das democracias. Gostem ou não Sergio Moro e sua patota.

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