Em defesa do ministro Gilmar Mendes

O ministro Gilmar Mendes mandou soltar mais um preso acusado em alguma investigação da Polícia Federal e do Ministério Público. Qual é a reação imediata? Não me diga que você comete mais uma piada, fazendo pose de indignado e compartilhando sua criativa ironia. Cara, isso também já virou um clichê dos infernos. É mais fácil, eu sei, mas esse automatismo das ideias é tudo, menos criativo.

 

Se tem algo que sinaliza a falência do pensamento é o adesismo geral, a unanimidade, a diluição de um ponto de vista. É por isso que certos manuais e cartilhas fazem tanto sucesso. Repetindo o que todos repetem, agradamos à maioria, ficamos livres de pensar por conta própria e evitamos problemas indesejáveis. Reproduzimos qualquer besteira como se fosse uma relíquia filosófica.   

 

Sem querer magoar os mais sensíveis, além de alguma pitada de burrice, há nas piadas contra o ministro do STF uma perigosa tese sobre o sentido de justiça. Então quer dizer que todo mundo é culpado por antecipação e, mesmo em fase de investigação preliminar, o suspeito já é um meliante desgraçado que deve mofar na cadeia? Acusou, prende e acabou-se? É um raciocínio de doido.

   

Presunção de inocência e respeito à Constituição agora são motivos de chacota. Como é fácil nos convencer a botar nossa própria cabeça na guilhotina! Ironia mesmo é que esse modo de ver as coisas arrasta o intelectual de prestígio e o celerado militarista das redes sociais. Um dos sinais de que estamos diante de algo tresloucado é que Gilmar Mendes unifica a esquerda e a direita na piada.

 

O que importa é saber quais as razões que levam um suspeito à prisão e, depois, por que motivos um juiz decide mantê-lo encarcerado ou libertá-lo. Aí você diz o que pensa sobre a decisão do magistrado. Mas isso é chato, né, e dá uma canseira. Bom mesmo é aderir à palavra de ordem: mete no camburão e joga na masmorra. Por isso, lamento, não embarco nesse carnaval.

 

Sei que é uma guerra perdida. Colunistas da Veja esculhambam Gilmar Mendes. E também os da Folha, do El Pais, da Carta Capital, do MBL, do Brasil 247, do Mídia Ninja, e também os militantes da nova política (à esquerda e à direita). A ideologia de todo mundo se harmoniza no ódio ao pior juiz do planeta. Eu acho toda essa revolta organizada o retrato de um tempo melancólico. E sem graça.

 

Insisto em dois pontos. Primeiro, se eu fosse você, desistia de tentar ser engraçadinho após mais um habeas corpus do Gilmar – porque não cola mais, bicho, virou lugar-comum, e isso é trágico, acredite. Segundo: essa torcida fanática por cadeia, num desejo irracional de vingança, não mira apenas um único alvo, acerta em todos nós. É um incentivo à violação dos direitos intocáveis do indivíduo.

 

Por isso, estou na contramão da comedia que tenta sequestrar a razão e o respeito ao Estado de Direito. Ainda que isso signifique defender o inimigo número um do Brasil pensante – o ministro Gilmar. E ainda que acabe sendo, eu mesmo, alvo de sua refinada ironia. Guerra perdida é comigo.

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Nosso problema são os alfabetizados

Alagoas é o estado com a maior taxa de analfabetismo do país. É o que revela o mais novo levantamento do IBGE divulgado nesta sexta-feira. Segundo a pesquisa, 18,2% não sabem ler nem escrever. A Secretaria de Educação se apressou em emitir nota para responder aos fatos. Começa com uma pérola: reconhece a dívida social no combate ao analfabetismo “durante décadas”, mas assegura que tudo mudou a partir de 2015, com “um dos principais compromissos da atual gestão”.

 

Ou seja, a culpa é da herança maldita. A gente não sabia, mas, desde o primeiro ano do atual governo, há uma revolução silenciosa no ensino público alagoano. Acho que é a leitura que posso fazer a partir da nota oficial. Deixando de lado o trabalho vigoroso em andamento, quero falar é da preocupante taxa de alfabetizados que nos atormenta. É aí que mora a perigosa encrenca.

 

Nossa tragédia está na qualidade dos que sabem ler e escrever. Outro dia, apontei aqui as barbaridades num comunicado da Ufal que era um verdadeiro atentado à língua portuguesa. Diariamente, vemos pronunciamentos de autoridades dos mais variados segmentos que parecem recorrer a algum idioma alienígena. Uma forma estranha traduz pensamentos tortos.  

 

Vamos combinar que a imprensa está aí para provar o quanto ser alfabetizado não garante a ninguém a correção das ideias. Os exemplos são assombrosos. As redes sociais, então, nem se fale. Os casos mais engraçados são os de elementos que não sobrevivem a uma concordância, uma crase, e tentam nos convencer de que podem falar – com autoridade – sobre os rumos da filosofia!

 

Pense nos grandes youtubers do país. A maioria precisa ser apresentada, com urgência, ao universo da palavra. Se no princípio era o verbo, ficou encarcerado por lá mesmo, nos primórdios. Os “influenciadores digitais” vieram direto de uma dimensão ágrafa. Que eles sejam influentes, isso diz uma enormidade sobre a civilização alfabetizada. São piores que analfabetos.

 

Um amigo me enviou, há algumas semanas, a reação de um professor universitário a um texto que publiquei no blog. Tomei um susto, não com o chilique raivoso do rapaz, mas com sua inacreditável destreza na construção de frases. A coisa era tão bizarra, que parecia uma peça (involuntária) de humor. Mais assustado fiquei ao constatar que o autor tem até doutorado.

 

Vejam bem: professor e doutor, que forma jovens numa universidade, e que não consegue botar uma vírgula no lugar adequado. Sem falar na indigência dos argumentos, uma mistura de rabugice e bobagens a rodo em defesa de uma suposta “alagoanidade”. Esse é o nível intelectual em nossa academia? Como uma toupeira pode ensinar qualquer coisa em qualquer faculdade?

 

E não se pode esquecer a exuberância de erudição que é a marca de nossos políticos. O padrão degenerado não é privilégio de nenhuma esfera específica. Mas, como ilustração, vejam entrevistas e discursos na Câmara Municipal de Maceió e na Assembleia Legislativa. É desalentador. Por isso, defendo uma campanha de combate ao analfabetismo entre doutores alfabetizados.

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O dia em que uma promotora rejeitou homenagem de vereadores

Quem não quer ser homenageado com uma comenda, uma medalha, um título de cidadão honorário, essas coisas? O senso comum dirá que todo mundo gostaria, sim, de ver seu nome numa lista de agraciados por alguma honraria. Diria até que são troféus cobiçados. A fonte dessas homenagens geralmente são os governos (nas três esferas) e as casas legislativas pelo país afora.

 

Assembleias Legislativas, Câmaras e Poder Executivo entregam títulos periodicamente, o que revela que há uma demanda permanente na praça. Logo, a oferta trata de contemplar a multidão de candidatos. Aqui mesmo em Alagoas, se você pensar um pouco, vai lembrar de milhares de ocasiões em que uma fileira de personalidades recebeu as mais diferentes comendas.

 

O mais tradicional, digamos assim, talvez seja o título de cidadão honorário de uma cidade ou de um estado. Mas a coisa é um tanto avacalhada. Em outubro do ano passado, por exemplo, os vereadores de Maceió acharam por bem homenagear o arrivista João Doria com o diploma de cidadão honorário de nossa capital. Uma iniciativa demagógica e eleitoreira. E só.

 

A farra com as homenagens desse tipo, algumas vezes, também serve para amansar agentes públicos cuja missão é justamente fiscalizar o poder político. Toda vez que vejo delegados, promotores ou juízes recebendo salamaleques em palácios, gabinetes e plenários, penso que há algo inadequado, fora do lugar. O dinheiro não é a única moeda de troca nos guichês da corrupção.

 

Por isso, acompanhando a vida pública ao longo dos meus anos de trabalho na imprensa, um dos momentos mais marcantes que testemunhei foi o gesto – raro e exemplar – de uma mulher admirável. Refiro-me à promotora de justiça Fernanda Moreira. Um quadro que honra o Ministério Público Estadual, ela rejeitou uma homenagem da Câmara Municipal de Maceió.

 

Foi em agosto de 2010. No dia 13 daquele mês, uma sessão especial entregaria a Comenda Pontes de Miranda a nomes de destaque do mundo jurídico, segundo informava o parlamento. Vejam a coincidência: por uma ação da promotora, naquela época o MP cobrava dos vereadores a devolução da famigerada verba de gabinete, uma consagrada rubrica para gastança sem nenhum controle.

 

Em ofício à Câmara, a promotora agradecia a gentileza, mas esclarecia que seu trabalho no MP era tão somente uma obrigação como servidora pública. Sendo assim, acrescentava, não havia razão para aceitar tal distinção. Como editor-chefe da Gazeta na ocasião, recebi apelos para dar a notícia sem destaque – os vereadores estavam magoados. Fiz o contrário, como está registrado no jornal.

 

Os fatos têm me levado aqui a duras críticas ao MP e ao Judiciário. Com uma frequência assustadora, alguns de seus integrantes agem muito mais em função de interesses pessoais e políticos, em detrimento das demandas da sociedade. Nesses casos, a vaidade e a sanha pelo poder desprezam até os princípios elementares de conduta, numa perversa distorção dos valores institucionais.  

  

Mas sei que há gente séria, que atua com firmeza e sobriedade no cumprimento do dever sagrado. É o caso da promotora Fernanda Moreira. Seu histórico no MP deveria servir de parâmetro, não apenas a seus pares, mas para todos nós. Sua postura atesta que ninguém precisa de holofotes, bajulação ou truculência para se destacar. Se ela fosse a regra, as instituições estariam muito melhores.

 

Aquele gesto, individual e inesperado, quase oito anos atrás, é um emblema de como devemos nos orientar no meio do furacão. Esclareço que não conheço a promotora pessoalmente. Escrevo tudo isso como registro de algo que marcou minha irrelevante experiência no exercício diário do jornalismo. E porque é sempre saudável, além da crítica, celebrar quem faz a coisa certa.

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Renan Filho já está (quase) reeleito

Não se vence uma eleição na véspera, todos sabem, mas Alagoas caminha, mais uma vez, para desmentir essa verdade não escrita. É o que se tem até agora, desde que o prefeito Rui Palmeira desistiu de disputar o governo. Com o panorama devastado no campo da oposição, Renan Filho tem tudo para entrar numa disputa sem adversário que o ameace – exatamente como ocorreu em 2014. Os partidos rivais do governador batem cabeça à procura de um nome. E nada.

 

Claro que haverá candidato, e em condições de brigar pela vitória sobre Renanzinho. É o que garantem nomes como Thomaz Nonô, Teotonio Vilela, Benedito de Lira e o próprio prefeito de Maceió – os caciques do bloco oposicionista. Mas isso é o discurso obrigatório; afinal ninguém é maluco de admitir a própria indigência eleitoral. Como se sabe, a aposta em Rodrigo Cunha também deixou de existir depois que o deputado escolheu concorrer a uma cadeira no Senado.

 

Fico pensando o que de fato significa esse quadro de terra devastada na política de Alagoas, a ponto de não haver um único nome capaz de fazer frente ao atual grupo no poder. A hipótese de que estaríamos sob uma gestão aclamada pelo povo é desmentida pela realidade. Segurança, saúde e educação – para ficarmos nas grandes áreas – estão longe do ideal. Mais de uma categoria de servidores ameaça greve, a começar pelas polícias. Há encrencas para quem se dispõe a enxergar.

 

Ao mesmo tempo, é certo também que não se vê um clima de desaprovação ostensiva ao governo. Mas, do mesmo modo, ninguém morre de amores pela situação no estado – salvo engano em minha rasa interpretação do cenário. Ao que parece, há uma certa resignação no eleitorado, pouca disposição e alguma (ou muita) descrença. Nada disso, porém, explica o raquitismo dessa virtual oposição, incapaz de apresentar uma alternativa com capacidade para jogar de igual para igual.

 

Até a primeira eleição de Renan Filho, todas as disputas anteriores foram acirradas, sem um favorito absoluto durante a campanha. A exceção é Divaldo Suruagy, em 1994, que venceu com mais de 80% dos votos, ou algo por aí. O panorama é mais estranho ainda porque, afinal, o governador parece não ter sido contaminado pelo desgaste do cargo – algo geralmente explorado pelos adversários que se apresentam como candidatos à renovação. Isso também não está à mostra agora em 2018.

 

Como tudo isso é problema dos rivais, Renan Filho, com o valioso auxílio do pai, trabalha obsessivamente para consolidar ainda mais seu evidente favoritismo. Atua como nunca no mundo mágico da publicidade e num arrastão que não dispensa ninguém, para uma aliança total, de todos com todo mundo. Daqui a pouco, atrai até o lado inimigo para suas fileiras. Quer dizer, pensando bem, em alguma medida, isso já acontece na prática. Hoje a eleição está resolvida.

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Sergio Moro e João Doria na fotografia

Uma imagem agitou sites, blogs, redes sociais e a imprensa brasileira em geral. Na fotografia, aparecem o juiz Sergio Moro e João Doria ao lado de suas respectivas senhoras. O registro se deu em Nova York, em mais um desses ridículos convescotes armados para intercâmbio de bajulações e contatos visando a futuros negócios. Uma festinha com ricaços e deslumbrados.

 

Moro, a tranqueira de Curitiba e herói dos “cidadãos de bem”, foi o grande homenageado da noite. Recebeu o prêmio de Personalidade do Ano, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. São banqueiros, empresários e especuladores ajeitando o juiz imparcial da Lava Jato. Todos de gravatinha borboleta. As damas exibiram longos com variações de preto

 

Depois da repercussão da foto, o ínclito magistrado disse considerar o caso apenas “uma bobagem” e que “isso não significa nada”. Está errado. O que temos ali é algo bastante representativo do nosso tempo, além de traduzir à perfeição o espírito de uma elite ignorante e predatória. Para completar a presepada, Doria é um candidato a governador de São Paulo em plena campanha. Muito sinistro.

 

Mas a agenda de Moro contou ainda com outro compromisso além do troféu que recebeu. Na noite seguinte, ele deu uma palestra num evento para o mesmo tipo de plateia, organizado pelo Grupo Lide. Esse troço é uma jogada criada também por João Doria para – de novo – garantir contatos que podem gerar retorno financeiro. Na conversa fiada, Moro repetiu lugares-comuns e autoelogios.

 

Para não restar dúvida do entrosamento reinante na patota, Doria se referiu a Moro como “herói do Brasil”. Isso mesmo, o cretino que abandonou a prefeitura de São Paulo antes da metade do mandato também celebra os feitos do justiceiro que despreza a Constituição. É o Brasil que avança.

 

Aquela fotografia, que mostra dois casais emplumados, ao contrário do que Moro disse, já é um documento definitivo. Fica para a História. Está tudo ali: o deslumbramento a peso de ouro de figuras medíocres e um tanto sombrias. Moro é só uma vestal que mama num indecente auxílio-moradia.

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Conselho ameaça cortar salário de policial que fez pole dance

A essa altura dos fatos, é claro que você já sabe do carnaval na imprensa sobre os vídeos do policial militar, que faz pole dance para comemorar a suspensão dos pardais eletrônicos no trânsito de Maceió. O assunto monopoliza a atenção das autoridades como raras vezes ocorre. Pelo visto, descobriram a causa de todos os males que afligem os alagoanos. Eu estou vendo a hora de alguém propor uma CPI para encarar esse episódio gigantesco que desafia a ordem pública.

 

A última novidade é a manifestação do Conselho Estadual de Segurança, que decidiu convocar o PM Kleverton Ferreti, que também é empresário, segundo leio nos textos publicados. Ferreti deve comparecer na próxima reunião do colegiado para dar suas explicações. E o que pode acontecer com ele após essa etapa crucial na relevante investigação? Pode ficar sem o salário!

 

É o que explica na Gazetaweb o vice-presidente do Conseg, Antônio Carlos Gouveia: Caso seja confirmado pelos meus pares, vamos instrumentalizar um processo que, em caso de condenação, pode ensejar em suspensão das atividades, perda de parte dos salários do servidor ou outra medida até mais enérgica. Suponho que entre as medidas com energia mais forte devem constar a expulsão dos quadros da PM e até mesmo prisão para o perigoso agente. É isso mesmo?

 

É o seguinte. O único crime do policial nisso tudo é a falta de noção combinada a uma dose cavalar de idiotice. Mas, até onde sei, o Código Penal não prevê punição para esse tipo de conduta. Agir como um Zé Mané, por enquanto, ainda não é contra a lei. Cortar o salário? Que brincadeira é essa, doutor? Do alto de minha ignorância jurídica, aposto que tal medida não tem amparo legal.

 

Mas eu entendo. Uma comoção a partir de eventos como esse é irresistível para vigilantes da lei e da ordem. Espero que o Conseg invista a mesma energia, por exemplo, no esclarecimento de inquéritos que se arrastam por meses, e até anos, sem um desfecho adequado. Pode também trabalhar na busca de soluções para os casos de extermínio de pobres nas periferias alagoanas.

 

Quanto ao policial Ferreti, deve ser advertido pela Polícia Militar, pagar suas multas por infrações ao volante e, finalmente, conter sua verve de “influenciador digital” – como ele se apresenta em nota divulgada para se explicar. Cá entre nós, sua suposta influência está no campo da bizarrice. Infelizmente, falta pouco para a esfera pública e oficial se igualar a ele nessa categoria.

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Um tiroteio de demagogia

Três tiros disparados por uma policial militar, em São Paulo, mataram um assaltante e animaram bandoleiros da política. Desde o episódio, registrado em vídeo no último sábado, um bocado de políticos tratou de exaltar a destreza e a coragem da cabo Kátia Sastre. A exploração mais deletéria ficou por conta do atual governador paulista, Márcio França. Candidato à reeleição, ele não perdeu tempo em faturar em cima dos fatos. Demagogia é pouco para o que se viu.

 

Na imprensa, escreveu-se muito sobre se a policial agiu corretamente ou não. Jornalistas nos grandes veículos questionaram o incentivo a ações letais da polícia. O Brasil tem uma das polícias que mais matam no mundo. Mas não é esse o aspecto central aqui. Diante de um assaltante armado, a PM agiu em legítima defesa e ainda protegeu mães e crianças que estavam no local. Ela fez o certo.

 

Escandaloso mesmo – mas nunca surpreendente – foi a postura do governador. No dia seguinte, ele armou uma homenagem à policial, com discurso, beijinhos e flores. Não satisfeito com essa dose de cretinice eleitoreira, piorou as coisas na última segunda-feira, durante um pronunciamento. Disse que a farda da PM é “sagrada” e, além disso, “uma extensão da bandeira do Estado de São Paulo”.

 

Com essa premissa tresloucada na cabeça, Márcio França afirmou ainda que quem “ofender” a polícia “está correndo risco de vida”. Aí não dá. Além de falaciosa (e simplesmente errada), a ideia, agora sim, é um incentivo à truculência das forças de segurança, quase uma licença para matar. Se os abusos já ocorrem a três por quatro, com um aval desses o que se pretende? Matança geral?

 

Essa mentalidade, tragicamente, alcança boa parte dos quadros policiais Brasil afora. Os exemplos são quase diários. Nem precisava, mas as palavras do governador de São Paulo provam, mais uma vez, que o jogo político desconhece limites éticos e morais. Vale tudo para chegar ao poder.

 

Numa disputa eleitoral, nunca é demais lembrar, a falta de escrúpulos se traduz nas piores torpezas por parte de quem deveria dar o bom exemplo. Depois, como se nada tivessem a ver com isso, os representantes do povo ainda reclamam da criminalização da política. Mas o padrão é esse aí.  

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Michel Temer derrotou a Rede Globo

O presidente Michel Temer comemora dois anos de governo. Mesmo que a gente não veja nenhum motivo para comemorações, ele bancou uma solenidade oficial para apresentar o que considera seus principais êxitos. Diz o homem que botou a economia em ordem, ainda que o país tenha uma massa de 14 milhões de desempregados. Reforma trabalhista e recuperação da Petrobras estão entre as “conquistas” apresentadas por Temer no seu balanço de 24 meses no Palácio do Planalto.

 

É um governo com tanta confusão, em todos os sentidos, que até um evento festivo vira mais um tumulto detonado na imprensa. Algum gênio do marketing tramou o slogan “O Brasil voltou, 20 anos em 2”, numa referência aos “50 anos em 5” do governo Juscelino Kubitschek. Basta riscar a vírgula, para que o sentido da frase informe que o país de Temer mergulhou num retrocesso de duas décadas em dois anos. A sabedoria de marqueteiros desconhece as armadilhas da ambiguidade.

 

Antes que o material de divulgação com o slogan idiota fosse distribuído, mudaram a idiotice. Mas não é sobre isso que vou escrever. Quero falar das conquistas do Temer. Existem? Na verdade, o presidente, golpista ou não, pode se gabar de um feito inacreditável: resistiu ao pelotão de fuzilamento das Organizações Globo, incluindo TV, jornal, revista, rádio e o diabo a quatro.

 

Quando, em maio de 2017, o Jornal Nacional apresentou o “furo” do jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, o grupo tinha certeza que ao presidente não restaria outro caminho a não ser a renúncia. A notícia era a famosa gravação de Joesley Batista, que havia registrado uma conversa com Temer. No papo entre os dois, ouve-se a histórica frase “Tem que manter isso, viu”.

 

Como se saberia depois, era uma pilantragem armada pelo empresário em parceria com o celerado Rodrigo Janot, o então procurador-geral da República. Deu tudo errado para a autoridade e a Globo. Temer não renunciou e, na sequência, derrubou dois processos de impeachment no Congresso Nacional. Bombardeado sem trégua pelo jornalismo global, levará o mandato até o fim.

 

Se a Globo integrou uma conspiração que resultou na queda da presidente Dilma Rousseff, como muitos acreditam, investiu ainda mais pesado contra o rejeitado Temer. Os dias que se seguiram à divulgação das gravações feitas pelo marginal da JBS-Friboi foram devastadores para o presidente. Até hoje, o “Fora, Temer” é gritado nos quatro cantos do país. Ainda assim, a Globo perdeu.

 

E essa é, não tenho dúvida, a maior vitória do Vampirão do Planalto, em dois anos de governo.

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Meu voto para Valéria Monteiro

Dois nomes que se apresentam como candidatos a presidente da República fazem campanha em Maceió. Quem chegou antes foi Valéria Monteiro, uma ex-apresentadora da TV Globo que também arriscou breve experiência como atriz. Outro que sonha com o Planalto, e também visita nossa capital, é o dublê de intelectual Guilherme Boulos, esse revolucionário de boutique, nascido em berço dourado, que brinca de invadir prédios em São Paulo. Quem seria melhor presidente?

 

Digamos que estivéssemos num enredo de ficção científica, e os dois fossem ao segundo turno. Eu mesmo não teria a menor dúvida na hora do voto. Valéria Presidente! Claro que, na comparação direta com Boulos, ela é melhor disparadamente. Podem conferir as entrevistas de ambos na imprensa alagoana. Política, economia, sistema partidário, estrutura social – seja qual for o tema, Valéria tem muito mais a dizer do que o candidato do PSOL. Além do mais, é a verdadeira novidade.

 

Há uma semana, Boulos foi o entrevistado do programa Roda Viva, na TV Cultura. Um tédio desgraçado. O homem repete os piores e mais atrasados clichês do que ele considera pensamento avançado de esquerda. É até uma ofensa aos bons intelectuais alinhados ao chamado campo progressista. Quem adora o rapaz é gente como Caetano Veloso e Wagner Moura.

 

Joga a favor da jornalista, devo confessar em nome da honestidade intelectual, aquilo que alguma ciência classificou de memória afetiva. Claro que nem todos se encaixam no grupo afetado por essa variável decisiva para mim. Depende da idade do eleitor. Mesmo após tantos anos longe do vídeo, Valéria Monteiro merece o lugar cativo em nossos corações. Boulos não faz nem sombra.

 

Se ela for candidata, tem tudo para ganhar meu integral engajamento – e meu voto.

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Tenente-coronel acusado de ofensa racista é ligado a poderosos da política

O tenente-coronel Antônio Marcos da Rocha Lima tem história. E que história! Infelizmente, sua fama nas quebradas está longe de ser por bons motivos. A última confusão com o nome do oficial envolve uma suspeita de crime de racismo contra o delegado Leonardo Assunção. Ouvido sobre o caso, o PM nega que tenha desferido ofensas de caráter racista ao membro da Polícia Civil. Aqui no CADAMINUTO o leitor pode conferir detalhes sobre o episódio – que agora será investigado.

 

Mas eu falei no histórico de Rocha Lima. Em dezembro de 2010, o coronel Dário César, então comandante da PM, tentou um processo para expulsar o colega dos quadros da corporação. Isso mesmo: Rocha Lima já esteve à beira de ser expelido do serviço público. Os motivos? Bem, segundo o comando da PM na época, a lista começava com invasão de domicílio, passava por associação ao tráfico de drogas e batia até em homicídio. Tudo está registrado na imprensa.

 

Em seu pedido formal para expulsar Rocha Lima da PM, o coronel Dário César escreveu que o oficial era “indigno” de fazer parte dos quadros da Polícia Militar. Ainda que os argumentos do comando fossem bastante pesados contra o acusado, não deu em nada. Ele não apenas escapou do processo de expulsão – sem maiores dificuldades –, como vem sendo promovido até hoje. Subiu de patente e passou a comandar sucessivos batalhões. Não tem muita paciência com detalhes legalistas.

 

Rocha Lima tem prestígio no mundo da política. Seu arco de amizades é amplo e variado. É um bom prestador de serviços a gente que transita entre casas legislativas e palácios. Um sinal eloquente disso é o caso de seu processo de expulsão. Na época, em janeiro de 2011, o deputado Dudu Hollanda chegou a divulgar uma nota para “manifestar irrestrito apoio” ao oficial.

 

Foi com esse personagem que o delegado Leonardo Assunção bateu de frente no exercício de seu trabalho. Pelo que li, Assunção cumpriu a lei, agiu como deveria agir. Está sendo alvo dessa mentalidade que sonha em praticar “justiça” por conta própria. Mentalidade doentia e criminosa. 

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