Blog do Celio Gomes

Uma gangue escolhe novo presidente

A quadrilha que administra o esporte mais popular do país escolhe seu novo presidente nesta terça-feira (17/04). Também conhecida como Confederação Brasileira de Futebol, a organização comprovadamente criminosa será presidida por um tal Rogério Caboclo. É homem escolado na tradição da casa. Ele não disputa a eleição com ninguém. Será aclamado. É o nome dos atuais comandantes da gangue. Tudo acertado para que nada ameace o esquema tático dos mafiosos.

 

O arremedo de eleição também renova os mandatos de toda a diretoria, incluindo os oito vice-presidentes da CBF. Entre os valorosos que ocupam esses postos cativos está o alagoano Gustavo Feijó, titular de uma Vice-Presidência para a região Nordeste. Estamos bem na foto? Feijó é prefeito de Boca da Mata, cargo do qual se licenciou em dezembro do ano passado. Ele responde na Justiça pela acusação de caixa dois na campanha. Recebeu, na moita, 600 mil reais da própria CBF.

 

O atual presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, não pode sair do Brasil. Teme ser preso em decorrência do escândalo de fraudes e corrupção na venda de direitos para transmissão de jogos da seleção. Seu antecessor, José Maria Marin, está encarcerado nos Estados Unidos exatamente pelos mesmos motivos. A TV Globo está nessa até o pescoço dos irmãos Marinho – mas finge que não tem nada a ver com a história. Tite, o professor, prefere “não misturar as coisas”. Bola pra frente!  

 

Palco de delinquências a rodo, é claro que uma eleição na CBF tem todos os ingredientes que somente ali encontramos. No colégio eleitoral, o voto das federações estaduais tem peso 3. O voto dos clubes da Série A tem peso 2, e para os times da Série B, o peso é 1. É a fórmula perfeita para garantir a perpetuação do mesmo grupo. O eleitorado decisivo são as federações, sucursais da quadrilha-mãe. Para mantê-las no cabresto, o comando mantém a mesada em dia.

 

Para completar a comedia, o eleito de hoje não toma posse imediatamente, mas apenas daqui a um ano. Ninguém sabe explicar a razão dessa regra. Quando você lembra de tudo isso, fica mais fácil entender a mediocridade absoluta do futebol jogado no Brasil. Arbitragem delirante, cartolas corruptos e pernas de pau dando vexame a cada partida – eis um resumo do esporte que temos, dentro e fora dos gramados. Não será uma turnê pela Rússia que vai mudar esse descalabro.

É sério! Candidatos recebem aula de Luciano Huck sobre formação de líderes

Um amigo, sempre atento ao inclassificável mundo da política, me enviou por e-mail a imagem de uma publicação feita por um jovem candidato no Instagram. Até onde sei, o rapaz é um estreante na seara eleitoral. Acaba de deixar um cargo no serviço público, para tentar uma cadeira de deputado estadual. Ele informa, pela rede social, a última atividade da qual participou como preparação para encarar a briga pelo voto do eleitor. É aí que entra o apresentador Lata Velha, da Rede Globo.

 

Luciano Huck desistiu da candidatura a presidente, mas continua firme na sua missão de transformar o Brasil. Eu sei, parece piada; aliás, é uma piada. Mas não devemos esquecer que até Fernando Henrique Cardoso foi contagiado pelas brilhantes ideias do sócio da Angélica. Pois nesta segunda-feira (16/04), Huck deu uma aula para uma multidão formada por pessoas que estão engajadas na “renovação da política”. A palestra foi organizada por um movimento chamado Renova Brasil.

 

O troço ocorreu em São Paulo. A turma que vi na foto da publicação ouviu as lições do animador de auditório durante o Terceiro Módulo de Formação de Líderes. Sim, você leu certo, Huck está ensinando a jovens políticos como se forma uma liderança. O que eu devo pensar a respeito disso, Jesus de Belém?! Por obrigação profissional, conferi o Instagram do próprio Luciano. Ele divulga o evento, com imagem do auditório entupido. Conclusão: vem aí uma enxurrada de líderes...

 

Um indício certeiro de como as ideias do apresentador têm consistência e seriedade está nas postagens de sua rede social. Logo após a divulgação da palestra para a turma de futuras lideranças, vêm aquelas famosas fotos com a mulher, os amigos ou os bichinhos de estimação. Sem querer, o pensador que forma aspirantes à vida pública revela a essência de seus interesses. Vendo o espetáculo, fica até mais claro por que o delírio de chegar à Presidência do país.

 

Luciano Huck é um Chacrinha piorado. Seus quadros no programa representam o pior tipo de assistencialismo. “Resolver a vida” de alguém, depois de uma pesquisa de puro marketing, de olho na audiência, é uma mistura de messianismo e demagogia. É quase inacreditável que essa infame exploração da miséria resista até hoje na televisão brasileira. Alguém acredita mesmo que isso represente alguma novidade para “melhorar” a vida dos brasileiros? A resposta é trágica: sim.

 

E entre tantos que embarcam nessa patacoada, é claro que alagoanos não poderiam faltar. É o que acabo de descobrir. Insisto no ponto mais surreal: é gente que se apresenta como portadora de ideias transformadoras para nossas vidas! É por essas e outras que, quando vejo um engomadinho serelepe pregando renovação na política, minha vontade é despejar aqueles elogios impublicáveis. Contenho-me, para não importunar os leitores. Quanto a Luciano Huck, algum dia será mesmo candidato.

 

Para quem tiver curiosidade sobre o que acabo de relatar, basta visitar as publicações do Renova Brasil e do apresentador na rede social. Que fique claro, naturalmente, que não estou incentivando ninguém a se filiar a essa vanguarda do pensamento nacional. Ocorre que, como jornalista, tenho de trazer os fatos da maneira mais completa possível. No mais, cuidado com “renovadores”.

Eleição revela o alagoano que é “comunista quase capitalista”

A agitação em ritmo eleitoral vai produzindo, como era de se esperar, capítulos hilariantes. É comédia de todo lado. Depois de Ciro Gomes, agora é com Aldo Rebelo. Nesta segunda-feira, o alagoano de Viçosa, ex-deputado e ex-ministro, lançou sua candidatura a presidente. Como se sabe, hoje ele é um quadro no insuspeito Solidariedade. No oba-oba dos discursos, Paulinho da Força, que preside a legenda, definiu assim a ideologia do candidato: “Comunista quase capitalista”. Quem duvida?

 

Na ocasião, Rebelo não perdeu a chance de lançar farpas na direção de Joaquim Barbosa, que se filiou ao PSB para também disputar a Presidência – o que fez o alagoano sair do partido. Até um dia desses, Rebelo contava que disputaria a eleição pelo PSB, mas acabou atropelado pelo ex-presidente do STF. Segundo Rebelo, as negociações para fazer de Barbosa o candidato do PSB foram “meio nebulosas”. Claramente irritado, se referiu ao concorrente como “essa ilustre figura”.

 

Na sua tentativa de se apresentar como um homem de princípios, Rebelo se comparou às paisagens da geografia mineira: “Sou como as montanhas de Minas. Estou onde sempre estive”. Acabo de ver, no noticiário de televisão, Rebelo discursando. Ao lado dele, entre outros políticos, aparece o deputado Wladimir Costa, aquele sujeito que tatuou o nome de Michel Temer no braço. A associação entre ambos parece dizer muito sobre o rochedo que é a cartilha política do nosso conterrâneo.

 

Aldo Rebelo apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, mas hoje garante que, assim como vários outros algozes do PT, defende “a luta pela libertação do ex-presidente Lula”. Para ele, a prisão do petista é “injusta”. Seria o caso então de um preso político? Sua resposta: “Vou pensar”. Faz sentido. Vê-se que é a convicção típica de um legítimo comunista quase capitalista.

Ciro Gomes, um cretino “camarada”

Em condições normais, a palavra de um político deve ser recebida, digamos assim, com alguma cautela. Não digo que ele esteja mentindo de saída, mas não custa ficar de olho. Essa postura crítica certamente ajuda, ao menos, a escapar de eventuais armadilhas. Se estivermos no meio de uma campanha eleitoral, devemos redobrar a precaução. Agora, se a pauta é eleição, e o político a falar é Ciro Gomes, aí você pode esperar pelo inominável. O coronel do Ceará é imbatível.

 

Ciro pretende visitar Lula na cadeia. Ao ser abordado sobre essa ideia, ele deu a seguinte explicação: O Lula não é pra mim uma figura que conheço pela TV e pelos jornais. É um velho camarada há mais de 30 anos, com quem eu convivo, muitas vezes discordando e mais das vezes concordando e a quem eu apoio. Não trocarei uma frase sobe política. É tão infame quanto ridículo.

 

Cada afirmação no depoimento supera a frase seguinte em hipocrisia, manipulação dos fatos e mentira, pura e descaradamente. Ele fecha a declaração com uma falsidade que apenas corajosos como Ciro ousam sapecar. O homem nos garante, vejam só, que na eventual visita a Lula, não dirá “uma frase sobre política”. Sua agenda exclusiva deve ser a amizade e o futebol.

 

Mas nada supera esse desconcertante “é um velho camarada”. Aí é demais. Fico imaginando aqui o que devem pensar os muitos que realmente podem – pra valer – tratar Lula como um camarada. É bizarro como o oportunismo da politicagem expõe esse tipo de safadeza intelectual. Herdeiro das oligarquias, representante de uma elite ignorante – que ele finge atacar –, Ciro é a cretinice ululante.

 

Para saber como esse elemento respeita quem ele trata agora por “camarada”, faça uma busca pelo Google e pelo YouTube. É de enjoar. Em seus melhores/piores momentos, ele esbraveja agressões que começam em Lula e arrastam até a família do ex-presidente. Com esse padrão moral, julga-se pronto para governar o país. Como não está sozinho nesse pântano, tem boas chances.

“Genocídio”, corrupção e retórica

O que os políticos fazem quando desviam dinheiro dos cofres públicos é um crime hediondo. E não faz sentido subestimar os efeitos que isso provoca na vida das populações. Não importa que os criminosos dispensem a violência física para perpetrar golpes e fraudes. Eles não matam com armas de fogo, por exemplo, mas a corrupção extermina pessoas, sim. É um genocídio nos setores mais vulneráveis da sociedade. Implacavelmente, temos de combater a roubalheira.

 

O pensamento resumido no parágrafo acima não é meu. Foi exposto na entrevista do Ministério Público Estadual, dias atrás, quando os promotores deram detalhes sobre o desmantelamento de uma quadrilha no sertão de Alagoas. No que diz respeito ao combate à corrupção, ninguém discordará do quanto isso é essencial para o funcionamento saudável da máquina pública. Quando o terreno convida à impunidade, o ataque ao Erário avança feito uma praga sem remédio.

 

Mas não gostei da comparação que remete a ações deliberadas de destruição em massa, como fez um dos representantes do MP alagoano, na coletiva citada. “Genocídio”?! Menos, doutor. A coisa fica um tanto pior quando o autor da bobagem parece empenhado em convencer a plateia mais pelo exagero retórico do que pelos fatos em si. O resultado não é bom, porque o efeito obtido pode ser o contrário do que se espera. Geralmente, o barulho disfarça a fragilidade da ideia.

 

Esse tipo de raciocínio que se viu nas palavras da autoridade alagoana é de uma banalidade infinita. É o mesmo pensamento rasinho que se encontra em formulações como esta: A violência no Rio de Janeiro é um câncer que precisa ser exterminado. Outro exemplo: “A corrupção é uma chaga no corpo doente da sociedade. É preciso extirpar o mal pela raiz”. Recorrer a tipos de doenças graves como metáfora de acontecimentos concretos é um discurso amplamente estudado. Tem história.  

 

Um dos problemas com esse mecanismo argumentativo, quando menos, é ofender pessoas que enfrentam um caso grave de enfermidade. Esse equívoco já é o suficiente para que tenhamos todo o cuidado ao apelar para tais tolices. Sem falar nas tintas falaciosas que costumam colorir palavras de indignação ensaiada. Foi o que se viu, em alguns momentos, na entrevista dos integrantes do MPE. Holofotes e microfones seduzem até as pedras. Não é o melhor caminho para o trabalho sério.

 

Para encerrar, resta evidente que o surto justiceiro em certas mentes do Ministério Público Federal faz escola no Brasil todo. É um legado medonho cujas consequências terão vida longa. Caso o promotor acredite mesmo que há prática de genocídio em Alagoas, deve oferecer denúncia não por corrupção, mas por crime contra a humanidade. Isso é tão errado, que o efeito mais leve é justamente deixar o crime real impune. A valentia envernizada resolve tudo em filmes de ficção.

O fator Joaquim Barbosa assusta o tucanato. E o Nordeste sem Lula

O ex-governador Geraldo Alckmin tem muitas razões para se preocupar. E o eleitorado do Nordeste, hoje, é o campo mais aberto quanto a uma candidatura para presidente da República. Esses dois fatores acabam de ser detectados na mais nova pesquisa Datafolha, publicada neste domingo pela Folha de S. Paulo. No geral, o panorama segue mais imprevisível que nunca. A prisão do ex-presidente Lula altera profundamente as perspectivas e dificulta qualquer previsão.

 

Vamos então aos dois recortes anunciados lá no título. A candidatura do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa representa um problema sério para Geraldo Alckmin. Não que o tucano contasse com vida fácil na disputa, mas Barbosa parece elevar em boa dose o estrago para o ex-governador de São Paulo. Fosse agora a eleição, o PSDB estaria fora do segundo turno. Terá de trabalhar duro. No atual contexto de demolição dos partidos, Alckmin procura um discurso desesperadamente.

 

Já sobre o Nordeste, é a região em que Lula fora do páreo provoca o maior impacto em todo o país. Sem o petista, impressionantes 34% do eleitorado afirmam não ter um nome para confiar o voto. O índice é bem menor nas demais regiões do país. Com isso, os nordestinos somos, desde já, a população a ser convencida pelos postulantes que restam. O que esse eleitorado espera? Eis o drama. A pesquisa atesta que, Lula candidato, ele teria 51% por essas bandas do Brasil.

 

Tudo isso, não se pode esquecer, é o que temos a seis meses da eleição. Há candidaturas em demasia – e alguns desses aventureiros devem cair fora logo adiante. Além do mais, as coisas tendem a se ajustar, de um jeito ou de outro, com a campanha na rua, principalmente na propaganda de TV. Por enquanto, em águas mais turvas e nada cristalinas, pode-se ressaltar essas duas variáveis como determinantes na parada: o potencial de Joaquim Barbosa e a geografia eleitoral do Nordeste.

 

Há muito mais a se especular sobre os dados da pesquisa. Ciro Gomes, por exemplo, é um nome que deve provocar situações ainda não muito claras. Ele ainda sonha com o apoio do PT. Seria decisivo para suas pretensões. Mas está fora dos fatores que escolhi para esta coleção de chutes e palpites.

Novidades na corrida eleitoral: nossos candidatos a presidente

De repente, de uma semana para cá, o panorama político-eleitoral mudou. Nos últimos dias, não foram poucas as novidades. Mas, como o bombardeio de informações irrelevantes não cessa jamais, corremos o risco de achar que está tudo no mesmo. Um olhar mais atento, porém, revela que as peças do jogo foram deslocadas – e os atores ensaiam outros capítulos no imprevisível enredo da saga brasileira. Não é exatamente um terremoto, claro, mas algumas ideias sopram mais forte.

 

As supostas novidades sobre as quais vou especular têm explicações precisas. 1) O fim do prazo para troca de partido, filiação partidária e desincompatibilização. São três variáveis relevantes numa única data, o último 7 de abril. 2) A prisão do ex-presidente Lula. 3) Por decisão de um procurador da República, Geraldo Alckmin está fora do alcance da Lava Jato. 4) A denúncia de racismo e outras bandalheiras contra Jair Bolsonaro. 5) Joaquim Barbosa filiado ao PSB.

 

Começo as especulações com o ex-presidente do STF. É praticamente certo que ele vá mesmo ser o candidato do PSB ao Planalto. Até ontem, parecia quase fora do páreo, um tanto esquecido. Agora, já é visto como alternativa consistente, com potencial para seduzir eleitores ávidos por um nome limpo, com autoridade para surfar no discurso de combate à corrupção. Pode atrair um tipo de eleitor que vai da esquerda à direita, incluindo setores vistos como formadores de opinião. E ainda pode ostentar a grife do outsider, o sonho de variados partidos, porque a imagem da política está na lama.

 

Com Aécio Neves abatido (além de outros perigos com a Justiça), a situação do PSDB não é das melhores – mas nem de longe o tucanato vive a tragédia que arrasou o PT. Não há comparação. Se conseguir manter a blindagem, e escapar de uma eventual bala de prata, Geraldo Alckmin é sem dúvida um forte candidato. Quando menos, chega ao segundo turno. Tem base partidária espalhada pelo país, o que lhe garante palanques competitivos na maioria dos estados. O “santo” faz milagres.

 

Direto da pré-história, Jair Bolsonaro baixou o tom de seus grunhidos após ser alvo da Procuradoria Geral da República. A peça que o denuncia é um resumo perfeito de sua mente doentia. De quebra, provando que os herdeiros replicaram o pai, o filhote do animal também foi denunciado à Justiça, igualmente por atos abomináveis. E, como escrevi em outro texto, com a prisão de Lula, Bolsonaro perdeu o inimigo que tanto lhe seria útil. Mas é evidente que ele ainda é uma ameaça. A questão é se terá fôlego por toda a campanha. A gritaria parece pouco para o tamanho do desafio.

 

Entre as forças que vão a campo, a situação do PT é a mais terrível de todas. O partido simplesmente não tem um nome capaz de herdar as intenções de voto para Lula. Fernando Haddad e Jaques Wagner não passam de 2% das preferências. O tal Plano B teria de fazer mágica para conseguir brigar por uma vaga no segundo turno. O quadro é tão dramático que uma alternativa real pode ser desistir da candidatura própria. Aí entra a encrenca de optar pelo apoio a um candidato de outro partido.

 

O nome de Marina Silva também aparece, pela terceira eleição seguida, com força para brigar nas cabeças. Seu problema é a frágil estrutura partidária, além do reduzido tempo de TV na propaganda. Aliás, nesse ponto ela se assemelha a Bolsonaro. Ambos terão de inventar caminhos para superar essas limitações. Cada um com sua turma, não será nada fácil encontrar soluções viáveis.

 

Enquanto escrevia este texto, saiu a nova pesquisa Datafolha. Sem Lula na disputa, Bolsonaro e Marina lideram, com 17% e 15%, nessa ordem. Joaquim Barbosa, Ciro Gomes e Alckmin estão embolados na sequência. O resultado era o que se esperava. Os números não derrubam minhas especulações – talvez até o contrário. Pensando bem, a corrida ainda nem começou. Mas, como disse lá em cima, não há dúvida de que entramos em nova etapa. E o suspense vai demorar.

Conversando, a gente não se entende

É claro que você também anda por aí reclamando da abominável onda de intolerância. Em suas manifestações pelas onipresentes redes sociais, deve estar mandado recados pacifistas para o mundo. Com a mesma ênfase, e na mesma frequência, você também aponta aqueles que, segundo seus respeitáveis princípios morais, são mentores de tanto ódio, por todos os lados.

 

Além de se declarar profundamente triste com os rumos da vida no país, você divide com amigos, colegas e admiradores ideias para a resistência. “Resistir”, aliás, está entre os verbos campeões de audiência na troca de informações, desabafos e convites à mobilização. É como se fosse o fim do mundo. E diante da gravidade desses dias, você não para de alertar sobre o avanço do fascismo.

 

Você faz o máximo. É inteligente, está por dentro de tudo, tem paciência e espírito democrático. Mas, claro, ninguém pode aguentar certas obscenidades praticadas por uma legião de dementes, desinformados e seguidores do mais deplorável autoritarismo. Chega uma hora em que, com esses canalhas, só mesmo na porrada. Você lamenta, porque definitivamente sua alma é delicada.

 

Você compartilha toda e qualquer hashtag (#) que exalte o diálogo, a solidariedade e o engajamento em nome de causas nobres – ou que represente combate a algum tipo de arbitrariedade. Você não perde a oportunidade de reproduzir aquele texto de um pensador exemplar (na sua opinião) no qual ele “disse tudo” o que a gente precisa ouvir. Ainda melhor se o autor for uma estrela intelectual.

 

Quase resignado frente à decadência irrefreável de nossos tempos, você se pergunta, e pergunta a seus amigos: onde isso tudo vai parar? E seus amigos respondem no mesmo tom, solidários e igualmente à beira da resignação. É, querido, nunca imaginamos que essas pessoas fossem capazes de atos tão violentos e opiniões tão hediondas. Quando foi que a humanidade se perdeu?

 

No meio do caos, você ainda encontra tempo para dar atenção às vitimas de Alepo e ao povo palestino. Sua formação humanista jamais estará indiferente ao neocolonialismo que os americanos espalham mundo afora. Com esse olhar globalizado, você repudia a onda de xenofobismo que toma conta da velha Europa. É preciso aceitar a diferença e conviver pacificamente com diferentes culturas.

 

Não foi sua culpa, naturalmente, mas você acabou sendo forçado a romper velhas amizades. Não dava mais para suportar idiotas que, um dia, tolamente, você achou que fossem dignos de sua convivência. Não dá para conversar com alguém tão incapaz de enxergar o óbvio, o lado certo – que é obviamente o lado que você escolheu. Melhor tomar cuidado com esses bonzinhos de fachada.

 

Por falar nisso, você também está atento a esses cretinos que se apresentam como independentes, ou que pregam a indiferença, vejam só, diante de uma verdadeira guerra! Não senhor, não me venha com essa de “isentão” – porque isso é pilantragem ou covardia, não tem escapatória. Você sabe que não tomar partido, de modo claro e visceral, é a mesma coisa que jogar no time do inimigo.

 

Como você tem repertório, divide com todos a memória de outras épocas em que viver era mais saudável. Lembra de uma fase em que a música, a poesia, o cinema, coisas assim, tinham a força de nos mobilizar. Hoje em dia, tudo descartável e fútil, perdemos a noção da verdadeira arte. Cercados pela ignorância dos outros, vemos triunfar a mediocridade que alimenta os ignorantes.

 

Você está cansado. Mas sabe que não perdeu o encanto pelas boas coisas da vida. Então compartilha uma paisagem de pôr do sol, com um verso, para lembrar que, corajosamente, resiste à barbárie. Os amigos, comovidos, se reconhecem na mensagem e inundam sua existência de likes e corações vermelhos. Aí vocês marcam um papo, regado a bom vinho, naquele bistrô ma-ra-vi-lho-so!

 

Eu sei: você faz a sua parte por um mundo melhor!

Cargo de vice deveria ser extinto

É tudo ficção no país do carnaval. Durante 24 horas o Brasil tem um novo presidente da República. Com a viagem de Michel Temer ao Peru, para participar da Cúpula das Américas, a ministra Carmen Lúcia dá um tempo no Supremo Tribunal Federal e ocupa o lugar de chefe da nação. Seu mandato, por assim dizer, vai da tarde desta sexta-feira até mais ou menos a mesma hora do sábado.

 

A posse de Carminha no Planalto é, na verdade, uma insanidade entre as muitas que infestam a vida pública e as instituições no país. Após a queda de Dilma Rousseff, ficamos sem vice. Na ausência de Temer, portanto, quem assume é o presidente da Câmara; caso isso não seja possível, a cadeira é ocupada pelo presidente do Senado. Mas um e outro não podem substituir Temer agora.

 

O deputado Rodrigo Maia e o senador Eunício Oliveira, que estão na sequência automática da linha sucessória, também pegaram o avião e partiram em viagens internacionais. Maia foi ao Panamá, enquanto seu colega do Congresso foi bater no Japão. Segundo a legislação eleitoral, os dois estariam inelegíveis neste ano caso assumissem a Presidência da República.

 

Como a dupla é candidatíssima na eleição de outubro – mas não se pode apresentar isso como motivo para não substituir Temer –, inventa-se um passeio pelo mundo. E assim, enquanto Maia e Oliveira fingem ter sérios compromissos lá fora, Carmen Lúcia finge que agora, além de presidir o STF, é também a nova presidente do Brasil. Ninguém segura a comédia brasileira.

 

Quando você recorta um prosaico episódio como este, tem todo o direito de se perguntar sobre os rumos do país. É claro que a presepada não é de agora – o que só piora a avaliação no conjunto da obra. Instituições e autoridades chancelam e participam ativamente de uma encenação como se estivessem num palco exclusivo para canastrões. E ainda esperam por aplausos e bajulações.

 

Não tenho certeza, mas suponho que no Congresso Nacional tramita algum projeto (ou até mais de um) propondo a extinção do posto de vice-presidente. É o que deveria ocorrer. Não serve para nada, a não ser produzir gastos absurdos. Em viagem, o presidente continua a ser presidente, ora essa. Na era da conexão total e instantânea, isso ficou ainda mais escancarado. Nada justifica esse modelo.

 

Mas o fim do cargo de vice não vai ocorrer; seria uma derrota para a política como ela é – e sempre será. Afinal, como poderíamos costurar alianças e barganhar os valiosos postos e os cobiçados salários? Sem falar na influência partidária que representa o ouro no jogo pelo poder. Por essas e outras, dona Carmen Lúcia já está assinando papéis e recebendo visitas na estreia como a Manda Chuva Número 1 da República Brasileira. Ainda que tudo isso não seja nada além de nada mesmo.

40 anos no PC do B e 8 meses no PSB: Aldo Rebelo surpreende

Foi uma das passagens mais rápidas de um filiado por um partido político que já se viu na história do país. O alagoano Aldo Rebelo, que foi ministro nos governos Lula e Dilma, e que já presidiu a Câmara dos Deputados, trocou o PSB pelo Solidariedade. Rebelo entrou no Partido Socialista Brasileiro em agosto do ano passado, e acaba de anunciar sua nova legenda a partir de agora. Com a troca, portanto, ele deixa a sigla anterior após oito meses na casa. Valeu-se da janela de infidelidade.

 

O movimento de Aldo Rebelo chama atenção por outro detalhe também nada trivial. O PSB foi apenas seu segundo partido em toda a trajetória de atividade partidária. Sim, porque no PC do B, sua estreia como comunista de carteirinha, ele ficou durante 40 anos. Filiou-se no fim dos anos 1970, como tantos jovens saídos direto do movimento estudantil para a política profissional.

 

É ou não é uma coisa no mínimo curiosa? Após nada menos de quatro décadas no primeiro partido da vida, ele vai para nova agremiação antes de completar sequer um ano entre os novos companheiros. O Solidariedade é comandado pelo deputado federal Paulinho da Força, que surgiu no sindicalismo de São Paulo e fez carreira como dissidente da CUT e do petismo em geral.   

  

Rebelo deixou o PC do B e, agora, deixa o PSB pelo mesmo motivo. É que ele acalenta o sonho de ser candidato a presidente da República. Os comunistas, como se sabe, escolheram a admirável Manoel d’Ávila para essa missão. E os socialistas acabam de receber como filiado Joaquim Barbosa, o impaciente e instável ex-presidente do STF, que também é presidenciável. Rebelo foi preterido.

 

O próprio ex-ministro dos governos petistas informou, pelo Twitter, sua motivação para a troca de legenda: Impossibilitado de acompanhar a manifesta inclinação da direção partidária pela candidatura do ilustre ministro Joaquim Barbosa, comunico meu afastamento do PSB. Foi claro e direto. De todo modo, ele ainda não sabe se o Solidariedade vai mesmo lançá-lo candidato.

 

Sobre tudo isso, a Folha de S. Paulo traz outra informação bem estranha – se você ainda acha que isso é possível quando se trata de política: Rebelo pode acabar sendo vice numa chapa com o deputado Rodrigo Maia (DEM) como candidato ao Planalto. Seria o casamento do comunista com o conservador – também se você acredita mesmo nessas feitiçarias ideológicas. É do jogo, dizem.

 

O alagoano, ainda segundo a Folha, pretende percorrer o Brasil para testar seu potencial como concorrente à Presidência. Somente após o passeio nacional, o partido e o novo filiado decidirão o melhor caminho a seguir. No resumo do caso, o que mais chama atenção mesmo é a temporada meteórica de Rebelo no PSB. Com isso, ele ficou um pouco mais parecido com os iguais da política.

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