A velha política e a eleição de 2018

Então você está cansado e não aguenta mais os políticos tradicionais. Mais ou menos de quatro anos para cá, as multidões descobriram o que certos pensadores gostam de chamar de “crise de representatividade”. Preocupados com os rumos da civilização, analistas mais antenados enxergam o fenômeno em dimensões globalizantes. A revolta toma conta do mundo.

 

Da primavera árabe às jornadas de julho de 2013 no Brasil, chegamos aos dias atuais. Nesse intervalo de tempo, a tensão política foi às alturas e elegeu caras novas que pouco ou nada mudaram o panorama que esta aí. A descrença generalizada segue reproduzindo um difuso desejo por mudança, ainda que ninguém consiga apontar como isso poderia se materializar de modo eficaz e saudável.

 

Longe das teorias mais ou menos alucinadas, a lista de nossos favoritos para 2018 escancara o paradoxo desconcertante: daqui a um ano, vamos eleger a velharia de sempre. Basta ver a última pesquisa para a eleição presidencial, realizada pela Confederação Nacional dos Transportes e publicada nesta terça em toda a imprensa. Os nomes que teremos na urna estão na praça há algumas décadas.

 

Para governar um novo Brasil a partir de 2019, nossas alternativas começam em Lula e Marina Silva, passam por Ciro Gomes e Geraldo Alckmin e terminam em João Dória e Jair Bolsonaro. Entre eles, ainda temos Álvaro Dias e Aécio Neves. É esse o time que pede o seu voto com a promessa de transformar o país num celeiro de desenvolvimento, emprego e ética na política.

 

Os números apontam, mais uma vez, que Lula bate todos os concorrentes, no primeiro e no segundo turno. O campeão de votos, no entanto, é um não candidato, ou seja, o índice de rejeição. Na média geral, os nomes são rejeitados por 50% dos eleitores. Natural. Sobra ódio pra todos os lados e para todas as siglas partidárias.

 

Voltemos então ao cenário sobre o desencanto geral com os políticos tradicionais. Você pode até estar cansado de todos eles, mas já deve ter percebido que não terá escapatória. Mesmo que seu voto (de protesto) seja nulo ou em branco, um velho conhecido nosso chegará ao poder. É o destino.

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O procurador que atropelava a lei

O Supremo Tribunal Federal pode devolver à Procuradoria Geral da República a segunda denúncia de Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer. É o que informam veículos da imprensa nacional. E por que isso? Porque a peça acusatória do agora ex-procurador-geral é uma coleção de insinuações e proselitismo político destituída do essencial: as provas não estão lá.

 

Reportagem da Folha de S.Paulo, na edição do último sábado, constata que o licencioso Janot se baseou em fatos ainda em investigação, ou seja, sem conclusão alguma sobre a consistência dos eventos narrados. Nada menos do que 15 episódios usados como prova pelo procurador não passam de histórias sem comprovação. Esse foi o padrão degenerado numa gestão desastrosa na PGR.

 

Para denunciar Temer por obstrução de justiça, além de acusar outros políticos por formação de quadrilha, o procurador das flechas de bambu recorre exclusivamente ao relato de delatores. E fica por aí. Ocorre que, segundo a lei, delação nenhuma pode ser tomada como prova, é claro. Os delatores precisam apresentar dados concretos que confirmem o que dizem. Mas, para Janot, a lei é um detalhe.

 

Em sua carta de despedida aos colegas do Ministério Público Federal, o procurador que atropela a Constituição e os códigos se apresenta como um homem valente, que não se acomodou diante dos criminosos da política. Como peça de demagogia e dissimulação, é lindo. O problema não é a suposta coragem de fanfarrão. Não é isso o que está em debate. A tragédia são os métodos de Janot.

 

Não importa se os alvos de uma autoridade são Renan Calheiros, Temer, Aécio ou Lula. Importa que, para denunciar seja lá quem for, essa autoridade obedeça rigorosamente à legislação. Fora disso, estamos expostos à tirania dos que se sentem, aí sim, acima de todas as leis. Esse é o ponto. Serei repetitivo: não se combate o delinquente com um processo assentado numa antologia de delinquências jurídicas.

 

O STF agiria com acerto se devolvesse a denúncia feita por Janot à nova procuradora-geral, Raquel Dodge. Que as coisas andem nos trilhos da legalidade, eis uma condição essencial para a saúde de uma democracia. Não precisamos de valentões de fachada nas esferas da Justiça. Precisamos de juízes e promotores que atuem com respeito às regras e honestidade.

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Uma jogada estremece o Brasil

Esqueça a Lava Jato e o império da corrupção. Temer, Lula, Joesley e Sérgio Moro perderam. Nenhum monstruoso escândalo, desses revelados por delação premiada, chega nem perto do que realmente nos interessa agora. O mundo quer saber: afinal, Jô é bandido ou inocente? Porque no Brasil nada é mais avassalador do que os dramas de uma partida de futebol. Vamos falar sério.

 

Era domingo. O clássico entre Corinthians e Vasco parecia correr para o zero a zero, até que houve aquele cruzamento aos 28 minutos do segundo tempo. A bola saiu da linha de fundo, pela ponta esquerda, sobrevoou a pequena área e, no limite do segundo poste da trave, mudou a vida de João Alves de Assis Silva, um paulistano negro, de 1,88m e 30 anos de idade, conhecido como Jô.

 

Do lançamento ao toque do centroavante na bola, são três segundos. Tempo suficiente para escrever um capítulo definitivo na biografia de um homem. O gol do jogador corintiano provocou um vendaval de revolta e histeria por todo o país. O pecado mortal de Jô foi ter usado o braço para mudar o placar da partida. Por causa do gol ilegal, ele foi chamado de bandido e comparado a Fernadinho Beira Mar.

 

Na exótica tentativa de uma abordagem mais sofisticada do caso, cronistas não perderam a chance de comparações com o quadro de degradação na política nacional. Para esses, no Brasil da ilegalidade consagrada, o atleta confirma que, sim, nosso caráter pervertido não tem cura. Desde que a bola tocou a rede até o momento em que escrevo, o massacre sobre o jogador é impiedoso.

 

Outra jogada, cinco meses atrás, acrescenta ao episódio doses de crueldade diabólica. Além de fazer um gol irregular, Jô é acusado de hipocrisia porque, em abril, se beneficiou de uma atitude ética do adversário, elogiado por ele mesmo. Jogando contra o São Paulo, livrou-se de um cartão amarelo depois que o zagueiro Rodrigo Caio, são-paulino, avisou o árbitro sobre a punição equivocada. Dessa vez, faltou ao corintiano o idêntico gesto de honestidade.

 

Com a alma do brasileiro em transe, até os deuses do futebol se perguntam: em casos assim, o jogador deve se denunciar, abrindo mão até da vitória, ou o árbitro está em campo para isso? Ouvi algumas vozes, uma minoria, defendendo que a obrigação de apontar o eventual erro é do juiz. Mas a repulsa dominante ao comportamento do jogador não deixa dúvida quanto à sua condenação inapelável.

 

Ética, dentro e fora dos gramados – é disso que se trata, afinal. Vale qualquer coisa para ganhar? Jô parece viver hoje o mesmo tipo de tragédia que desabou sobre um craque, depois de uma inocente jogada, no distante ano de 1976. A diferença é que o lance do passado ocorreu longe da bola e do campo de jogo, mais precisamente num comercial de TV para vender cigarros da marca Vila Rica.

 

O gol de mão cometido por Gerson, tricampeão com a mitológica seleção de 1970, foram palavras que, para ele, se tornariam malditas: Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também!. O slogan entrou para a história como a ilustração perfeita da nossa malandragem, a síntese de um tipo de indivíduo destinado a driblar qualquer regra por toda a eternidade. Nascia a Lei de Gerson.

 

Ao lado de expressões como “jeitinho brasileiro” e “sabe com quem está falando?”, a Lei de Gerson foi rapidamente capturada por sociólogos ávidos por teorias para decifrar o brasileiro. Ter seu nome associado a algo tão pesado levou o ídolo do futebol à depressão. De tão incomodado, passou a se recusar a tratar do assunto, sob qualquer hipótese.

 

Volto a Corinthians e Vasco. Até agora, o atacante que fez o gol ilegal se defende afirmando não saber em que parte de seu corpo a bola bateu. Mas, também para ele, o benefício da dúvida está sumariamente negado. Quer apenas levar vantagem. Não sei. O que me ocorre é o seguinte: um cara que venceu na vida jogando futebol, João Alves de Assis Silva, demasiadamente humano, como eu e você, também erra.

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O delírio de uma intervenção militar

Talvez por falta de ocupação, um general andou por aí defendendo uma intervenção militar no país. A convicção imbecil foi exposta durante uma palestra em Brasília. As reações foram previsíveis. A direção nacional do PT divulgou nota para condenar a ideia. Alarmistas vociferam a iminente ameaça dos quartéis. E militantes de todas as cores denunciam a intolerância da extrema direita golpista.

A manifestação do general desocupado ocorre dias depois das palavras de Zezé di Camargo, esse exemplo de talento e consciência crítica na arte brasileira. O cantor acha que deveria ocorrer uma ação fardada para “ajustar as coisas”. Não foram os primeiros e não serão os últimos a expor a ignorância política e o apreço pela arbitrariedade.

A volta dos militares é uma idiota cogitação há mais de trinta anos, ou seja, desde que a ditadura acabou. Durante o governo Sarney, o primeiro pós-presidentes fardados, a pauta esteve na ordem do dia em vários momentos. Naquela época de pandemônio na economia e na política, a ameaça era levada mais a sério do que viria a ocorrer nos anos seguintes. No fim dos anos 1980, o assunto era capa de revistas e pulava nas manchetes de jornais.

Em todas essas ocasiões, a hipótese nunca foi além de discursos tresloucados. O mesmo se dá agora. Um dos motivos alegados pelos que defendem o regime de força é a suposta honestidade dos governos militares. Um mito. A verdade é que, pela violência da censura e das perseguições, as mazelas produzidas por ditadores são simplesmente abafadas; ficam longe do conhecimento da população.

Um exemplo banal da honestidade e da seriedade de fachada na ditadura é este: filmes proibidos para o público eram exibidos, em sessões particulares, para o deleite de oficiais e comandantes dos truculentos governos. Agora imagine o que não ocorria quando os interesses iam além de uma piada como essa.

O desejo pelo arbítrio vai se manifestar sempre, aqui e ali, com mais ou menos ênfase. Há razões concretas para isso, é claro. Em Alagoas, por exemplo, nos últimos anos o comando regional do Exército comemora, em 31 de março, o aniversário da “Revolução”. É tosco. É delirante. Mas fica por aí. Apesar de tudo, ainda que jovem, em três décadas a democracia brasileira se consolidou pra valer.

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As viúvas de Rodrigo Janot na PGR

A turminha de procuradores histéricos da Lava Lato de Curitiba ameaça a gestão de Raquel Dodge, a nova chefe do Ministério Público Federal. Antes mesmo de assumir o cargo de procuradora-geral da República, o que ocorre nesta segunda-feira 18, ela já foi alvo dos primeiros golpes por parte dos rapazes mais descontrolados do próprio MPF.

Acostumados ao vale-tudo de Rodrigo Janot, os monopolistas da verdade espalham calúnias que tentam atingir a credibilidade da nova procuradora-geral. Agindo como os cretinos barulhentos nas redes sociais, que vivem de difamar a honra de qualquer um, as viúvas de Janot insinuam que Raquel Dodge dará um freio no combate à corrupção.

Na verdade, a procuradora não era a favorita da turma de Janot, e houve tentativas de sabotar sua escolha. Descontentes com o resultado da consulta interna, os deslumbrados caçadores de holofotes partiram para o jogo sujo – e para isso contaram com setores da imprensa. Não se sabe bem os motivos, mas a Globo esteve na vanguarda dessa campanha difamatória.

Quando percebeu que a investida não colava, o jornalismo da Globo cessou a artilharia. Vamos esperar para ver o tom da cobertura a partir do momento em que Raquel Dodge assumir oficialmente o cargo. Está a maior expectativa no circuito Rio-Brasília sobre como a Globo, tão zelosa que é no trato com seus poderosos favoritos na esfera pública, vai se comportar daqui por diante.

Chama atenção o quanto a emissora carioca protegeu o senhor Janot até o fim de sua bizarra jornada. O homem recebeu tratamento de rei incontestável, mesmo tomando decisões equivocadas e arbitrárias. Nenhum outro dos grandes veículos de imprensa do país bajulou com tamanho gosto o ridículo arqueiro das flechas de bambu.

A trajetória de Raquel Dodge sinaliza que estaremos livres da afetação e dos modos degenerados que dominaram a PGR nos últimos tempos. A procuradora só precisa ficar atenta aos sabotadores dentro de sua própria casa, órfãos da licenciosidade do antigo chefão.

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Nosso indispensável reacionário

Vivesse nos dias de hoje, escrevendo como escrevia em seu tempo, Nelson Rodrigues provavelmente seria caçado a pauladas. Bastaria um de seus textos sobre, por exemplo, Dom Hélder Câmara, para que fosse levado ao linchamento inapelável nas redes sociais. O inventor da modernidade no teatro brasileiro via no homem santo a síntese de tudo o que deplorava. O tratamento mais leve era chamar o religioso de “padre de passeata”.

Aliás, em suas crônicas sobram venenos e ironias para todas as passeatas da época. Para ele, não passavam de manifestações de boçalidade intelectual, para as quais o povo nunca era convidado. Segundo escreveu, não se via um operário nessas ocasiões festivas promovidas por universitários, artistas e pensadores da academia militante.

As opiniões do dramaturgo e escritor estavam na contramão do ideário de combate à ditadura militar, uma guerra na qual se engajou a ala progressista da Igreja Católica. Bater em Dom Hélder era tão estarrecedor quanto agredir uma criança indefesa. Um ato hediondo. Não para Nelson, um obstinado demolidor de unanimidades.

O teor de seus textos rendeu a ele inimigos por todos os lados. Nos dias atuais, seria tratado como um extremista de direita, um canalha fascista que, se visto num aeroporto ou num restaurante, certamente tomaria porrada desses que caçam reacionários 24 horas por dia. Sua sorte foi ter vindo ao mundo bem antes da internet.

Dizem que nunca houve tanto ódio, polarização e radicalismo quanto nos dias atuais. Não sei. Nossa tendência atávica à idealização do passado é uma maldição incurável. Sempre fomos bárbaros. Nosso altruísmo de vitrine não resiste à mais insignificante piscadela de uma vantagem pessoal. Uma simples consulta a qualquer contexto histórico revela a prevalência do comportamento primitivo.

A diferença inescapável para hoje, com o perdão da falta de originalidade, é a revolução do universo virtual. Pela internet, conquistamos todos os caminhos para atirar a esmo, numa vertigem fora de controle. Nelson Rodrigues seria alvo do mesmo ódio que sempre esteve na praça. A novidade estaria na rapidez, na quantidade de munição e na voracidade estimulada dos atiradores.

Odiado em vida, Nelson cresceu depois da morte. É caso único na cultura brasileira, como gênio do teatro e da literatura, a despeito do que pensam muitos professores dos cursos de letras nas universidades. A restrição é puramente ideológica. Além dos contos e romances, sua inigualável maestria literária pode ser conferida em livros de crônicas e memórias como A Cabra Vadia, O Óbvio Ululante, A Menina sem Estrela e O Reacionário.

Abra em qualquer página, de qualquer título que acabo de citar, e verá o que é a arte de escrever de verdade. Hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais, o rádio e a TV. Quase tudo e quase todos exalam abjeção. A internet só não entrou nessa lista porque, como sabemos, em 1968, isso ainda não existia. Nelson Rodrigues também foi um visionário.

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Rio de Janeiro, túmulo do rock

O panorama vai ficando cada vez mais promissor. É até difícil imaginar o que mais pode acontecer de tão relevante, a partir de agora, no ativismo para salvar a Amazônia, o Brasil e o planeta. Será difícil concorrer com Ivete Sangalo e Gisele Bündchen no palco do Rock in Rio. De mãos dadas, a dupla foi às lágrimas numa inacreditável interpretação do xarope Imagine, do eterno guru das celebridades, John Lennon. Já é histórico.

A dama da alta costura e a rainha do axé baiano, muito bem-informadas sobre as demandas da humanidade e do reino florestal, fizeram bonito. A multidão se comoveu. Mas, afinal, de onde vem isso? Quem está por trás dessa original ideia que – na defesa de um mundo melhor – junta ecologia, o universo roqueiro e a juventude rebelde?

É simples. Pegue a TV Globo, a fome por dinheiro e a cretinice publicitária, e tudo está explicado. O que interessa é a promoção do mais rasteiro engajamento. É uma encenação à altura das expectativas mais tolas e imediatas. Ou alguém acredita que aquele medonho espetáculo tem alguma coisa de legítimo e respeitável? Além do mais, Ivete e Gisele aderiram ao Fora, Temer!

Depois da indispensável mensagem política, ao som da trilha de protesto, Ivete, gravida de gêmeos (eu tinha que dizer isso), partiu para o número solo. Deu à plateia o que tanto se esperava na primeira noite do evento: música de primeira. Esgoelou-se, desfilou criativas coreografias e finalmente fechou o conjunto da obra com o incontornável “Tira o pé do chão!”. Para o público e para a imprensa, foi tudo apoteótico.

E assim tivemos mais uma noite igual a tantas outras de festa no país, cheias de trio elétrico e carnaval fora de época. Com o charme de uma modelo internacional vertendo lágrimas pela consciência crítica da nação. O Brasil é impossível. Foi nisso o que se transformou um festival de rock? Meus amigos roqueiros devem estar indignados.

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200 anos num sábado de sol

O que escrever sobre os 200 anos de Alagoas? Terra da cana-de-açúcar, dos coronéis da política, dos crimes de pistolagem e das oligarquias. Aqui também é o paraíso de uma elite que transita entre a ignorância e a corrupção. Mas essas memórias talvez não caiam muito bem, afinal a data é festiva, como informa a programação oficial cheia de eventos.

Quem sabe o recomendável seja falar do sentimento de alagoanidade. O palavrão ganhou até status de categoria sociológica, segundo o que pensam alguns nomes da nossa produção cultural e acadêmica. Há pouco mais de dez anos, artistas, professores e jornalistas passaram a defender essa ideia como alguma coisa realmente séria. Houve até um manifesto para patentear o rebuscado conceito.

Do mesmo jeito que não acredito em mineirice ou em espírito carioca, as supostas particularidades de um alagoanismo não me parecem convincentes. Entre outras razões, porque a exaltação de qualidades supostamente especiais, nesse campo, tende para certo ufanismo, o que acaba, naturalmente, turvando nossas opiniões sobre a realidade.

Os teóricos da alagoanidade, ou qualquer coisa do tipo, acabam sendo mais patriotas do que pensadores da cultura. É normal. Quando se analisa um fenômeno a partir de princípios assim, não teremos análise, mas apenas doses descontroladas de militância. Para quem não consegue respirar sem uma infalível dose de engajamento político, está de bom tamanho. Por aí, somos um povo de origens singulares.

Na data comemorativa, ninguém escapa do carnaval de imagens publicitárias e da ladainha que exalta as belezas naturais e os grandes vultos da terra. Numa festa dominada pela versão chapa-branca da História, as contradições e mazelas desaparecem na cobertura da imprensa. Também é natural que assim seja. Não gostamos de falar de problemas quando a ordem geral é comemorar.

Mas não quero aqui incentivar o negativismo frente ao bicentenário das Alagoas. Isso nunca. O sábado amanheceu ensolarado. Você pode tirar proveito do clima quente e celebrar a data a seu modo, em algum recanto acolhedor ou instigante. Afinal, são dois séculos de emancipação. Tudo é permitido. Ou quase. Não precisa cantar o hino.

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A crise da colaboração premiada

Periga o Brasil desmoralizar o instrumento judicial conhecido como colaboração premiada. Se isso ainda não ocorreu, parece faltar bem pouco. E a responsabilidade pela presepada é das próprias autoridades que deveriam zelar pela rigorosa aplicação da lei. Afinal de contas, atropelaram de tal modo os limites do processo legal, que perderam o controle da situação.

Vejam o que está dizendo o açougueiro Joesley Batista sobre sua nova rotina de presidiário, depois de ficar provado que ele fraudou sua própria delação contra o presidente Michel Temer e outros políticos. Em depoimento à Justiça, o dono da JBS se diz vítima da “covardia” da Procuradoria Geral da República. Segundo sua lógica, o combinado não está sendo cumprido.

Na mesma linha, Wesley Batista, o outro açougueiro também preso, afirma agora que o “único crime” que cometeu foi ter formalizado o acordo de delação com o Ministério Público Federal. O irmão de Joesley reclama de “traição” por parte daqueles que, até ontem, eram seus parceiros na PGR.

É bastante reveladora a maneira como os dois se referem às autoridades com as quais negociaram suas delações. Sem disfarces, deixam claro que procuradores sabiam exatamente como agiam e, mais do que isso, contavam com o aval dessas autoridades para aprontar o que aprontaram. Nada mais natural, portanto, que se sintam no direito de denunciar o que eles consideram uma covardia.

O que já era algo bastante turbulento, depois do caso JBS, ficou ainda mais grave. As peripécias da PGR, tomada pela vaidade e excessos de muitos de seus membros, acabaram por espalhar suspeitas sobre a eficácia e credibilidade das delações. Novas consequências certamente vão aparecer nos próximos dias.

Pelos últimos acontecimentos, parece evidenciado que agentes da lei empregaram métodos bem pouco transparentes no trabalho investigativo. Agiram como se tivessem licença para ignorar a Constituição. Assim, para legitimar suas ações, se utilizam da gritaria desinformada por justiça a qualquer custo.

A mistura de má-fé e amadorismo vai acabar produzindo o efeito contrário ao que se espera de investigações sérias e competentes. E esse estado de coisas não é consequência de pressões externas sobre o Judiciário e o Ministério Público. Os senhores procuradores e juízes não podem fingir que nada têm a ver com o descalabro. A bem da verdade, são os mentores da crise dentro da crise.

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Um dia na vida brasileira

Em dez casos exemplares, segue abaixo uma antologia do bestiário nacional, segundo os acontecimentos das últimas 24 horas. A relação, naturalmente, é apenas um singelo recorte diante da interminável profusão de espantos.   

1. Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina é preso acusado de desvio milionário. Deve ser pra isso que reitores defendem a autonomia universitária. Alguns professores, também presos, podem denunciar a intolerância e o fascismo da direita pela injustiça de que são vítimas. 

2. Lady Gaga, patrimônio da música universal, cancela participação no Rock in Rio. Milhares de brasileiros perdem o sono depois da notícia. Pela gravidade do caso, eventual nome substituto, só com um plebiscito.

3. Procurador-geral da República, desmoralizado em fim de carreira, denuncia o presidente pela segunda vez. Michel Temer reage com nota oficial se dizendo indignado. Parece que Marcela Temer acreditou.

4. Dupla caipira, dona do maior açougue do mundo, tem a prisão preventiva decretada pelo Supremo Tribunal Federal. Sobe a temperatura no pasto nacional com o pavor de uma possível delação premiada entre executivos de quatro patas.

5. Ministros do STF dizem que a corte é independente e corajosa. A versão contrasta com a antiga desconfiança de Lula, para quem o Supremo vive acovardado. De lado a lado, há o temor de uma acareação.  

6. Zezé di Camargo, patrimônio imaterial da música brasileira, diz que a ditadura militar não existiu. Acha que, hoje em dia, um “militarismo vigiado” daria um jeito nas coisas. Jair Bolsonaro e o comando do Exército em Alagoas concordam.

7. Ciro Gomes, o coronel do Ceará, ataca o ex-presidente Lula e rejeita aliança com o PT. Em campanha ao Planalto, Ciro vive sem rumo desde que perdeu o apoio eleitoral de Patrícia Pilar.

8. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Beto Barbosa, patrimônio imaterial da lambada, revela que já pensou em se matar. Superou a crise e ameaça embalar o país com novos clássicos.

9. Durante o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba, promotora repudia tratamento de “querida” por parte do ex-presidente. No lar e – principalmente – no Ministério Público Federal, é uma mulher séria.

10. Geddel Vieira Lima, que escondia 51 milhões de reais num apartamento, pede para deixar o presídio e voltar para casa. Alega ter medo de violência sexual na cadeia. Ainda não se conhece o alvo de seu involuntário galanteio.

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