Blog do Celio Gomes
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Realidades paralelas e “coisa de internet”

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Devo levar a sério o que você escreve numa rede social? Essa pergunta é velha. Essa pergunta não parece ter muito sentido. Mas, agora, o sem-sentido ficou ainda mais gelatinoso em sua consistência já ferozmente duvidosa. Desde que o mundo é o mundo da internet, sempre houve os casos de negação do que fora publicado. Depois de escrever mais alguma baboseira, a repercussão faz com que o autor se defenda mais ou menos assim: ali é uma rede social, é a minha opinião como cidadão comum, é para seguidores e amigos. A tese instala a distinção de “realidades” ontologicamente indissociáveis. Por aí.

Negar o que escreveu e publicou, para reagir a uma crítica, para se defender de alguma lambança ou para atacar alguém, é estratégia de todo mundo. Anônimos, celebridades, mequetrefes da vida pública, na cultura e na política – todo mundo faz isso, repito. De ator a jornalista, de funkeiro a advogado, quando a treta toma dimensões mais graves, os falastrões afinam. Desmentem a si próprios e acabam até em brigas judiciais.

Pois alguma coisa se mexeu no epicentro desse panorama social-psicológico, digamos assim. A novidade tem consequências inéditas – virão outras – e alcança a operação mental e ideológica dos indivíduos na engrenagem das instituições. A novidade sobre isso é obra de um general e de uma época. O general Pazuello recorreu ao já histórico “coisa de internet” pra tentar escapar das perguntas na CPI da Pandemia (foto). Virou um clássico.

A época Bolsonaro. Um general sem qualquer constrangimento a repetir frases idiotas, como um retardado, na tentativa de defender a existência de mundos paralelos. É como se ele dissesse que tem o delinquente da internet e tem o estadista – eis o pensamento de um ministro de Estado. Governistas fingem que a piada é séria.

É paradoxal que bolsonaristas atuantes nas redes sociais defendam esse ponto de vista. Logo essa turma que se leva tão a sério na missão de combater o globalismo comunista via internet!? Mas o que temos de ressaltar aqui é a constatação de como o método miliciano do baixo-clero e das quebradas seduziu a Presidência da República.

Bolsonaro mente feito um canalha sem compromisso com nada nem ninguém, a não ser com sua quadrilha. Mas, diriam o Pazuello e certos jornalistas, é coisa de internet, é rede social, é o presidente autêntico... Não é um espanto? Esse raciocínio trata como corriqueiro o que é uma degeneração inédita no campo da política.

Sem escapatória. O Exército não tem alternativa a isto: ou pune Pazuello ou assina a própria desmoralização. O militar praticou uma imoralidade ao subir no palanque para exaltar o miliciano do Planalto. Diz a imprensa que a cúpula da tropa considera uma “aberração” a atitude de seu subordinado. O elemento virou reles cabo eleitoral.

O vandalismo de Pazuello com o decoro, as instituições e as regras da democracia anima seguidores da seita espalhados nas forças policiais. É daí que surgem delegados e militares, alguns com mandato, na vanguarda do reacionarismo. É tudo adepto de grupo de extermínio e de tortura como “técnica de investigação”. Gentalha!

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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