Geraldo de Majella

Carta aberta ao bispo de Maceió, Dom Antônio Muniz

  • 24/05/2015 08:41
  • Geraldo de Majella

 

Dom Antônio Muniz,

Arcebispo Metropolitano de Maceió:

        Rogo a atenção de V. Exa. Revma. para fixar ainda mais o seu olhar sobre Alagoas. O estado não consegue controlar a epidemia de violência homicida que tem enlutado milhares de famílias.

Alagoas, nas últimas duas décadas, alcançou o primeiro lugar no ranking dos estados mais violentos. São números trágicos e vergonhosos que se assemelham aos de guerra.   

O Mapa da Violência de 2014 revela que entre 2008 e 2012 ocorreram 10.159 homicídios em Alagoas; desses, 6.114 são jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos, ocorrendo 60% dos homicídios entre negros e pobres.

Os dados estatísticos produzidos pela Secretaria de Defesa Social (SDS) em 2013 revelam 2.260 crimes violentos letais, uma média de 6,19 homicídios/dia, e em 2014 foram assassinados mais 2.199; a média mantida é de 6,02 homicídios/dia. A soma do período é de 14.618 homicídios.

Esse contingente de jovens negros e pobres em idade escolar não teve o direito de viver com o mínimo de dignidade; foram assassinados e os motivos nunca serão esclarecidos pela policia alagoana, fato que mantém a impunidade como regra geral e política de Estado.

Dom Antônio, as condições em que o Estado se encontra é de sucateamento, notadamente nas áreas em que a população mais necessita: educação, saúde, assistência social, e com taxa de desemprego crescente.

As políticas públicas essenciais não existem concretamente, a não ser na propaganda oficial. A possibilidade de incluir os jovens no mundo do trabalho e da cultura é impensável em Alagoas.

O Núcleo Estadual de Atendimento Socioeducativo (Neas), localizado no Tabuleiro, em Maceió, é um depósito em condições inferiores às das piores pocilgas. A tortura física e psicológica tem sido o método de castigo implementado pelos agentes públicos. Não bastou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, em 2014, ouvir dos adolescentes relatos de torturas e de que a comida era deplorável, pois as condições permanecem iguais ou o que mudou tem efeito meramente cosmético.        

Dom Antônio, a presença mais visível do estado nos bolsões de pobreza e miséria é através da presença da polícia, que insiste na “guerra contra a criminalidade” como meio de “oferecer segurança pública”. Essa prática retrógrada se mantém com o apoio e incentivo público dos responsáveis pela segurança pública.

Essa prática tem servido tão somente para incitar o ódio estatal contra o fenômeno crescente de violência, identificado como um estágio de epidemia. Toda a fúria policial é um instrumento que operacionaliza o processo de “limpeza social e étnica” instaurado há décadas no seio da segurança pública.  

Dom Antônio, como cidadão preocupado com essa questão, me reporto ao tempo em que era criança em Anadia, interior de Alagoas. Era então comum ouvir o dito popular: “vá se queixar ao bispo”. É o que me ocorre diante do estado de entorpecimento das autoridades de Alagoas.  

Apelo a V. Exa. Revma. por identificar na figura do arcebispo metropolitano e na Igreja Católica a possibilidade de intervir nesse quadro desolador.

Os meus respeitos e admiração

Geraldo de Majella

Alagoas é o modelo do fracasso histórico na educação

  • 20/05/2015 12:36
  • Geraldo de Majella

 

O jornalista e empresário Arnon de Mello, ao ser lançado candidato ao governo de Alagoas, em agosto de 1950, disse: “em matéria de educação, estamos em penúltimo lugar nas estatísticas, com 77,9% de analfabetos, achando-se depois de nós o Piauí, com 78,4%”.

Passados 65 anos, Alagoas mantém-se alternando nas últimas posições no ranking dos estados com maiores índices de analfabetismo. Houve, no período, uma redução significativa; mesmo assim a taxa de analfabetismo de Alagoas continua a mais alta do país, 19,66%. O Maranhão aparece na sequência, com 18,76% da população com mais de 10 anos analfabeta. 

 “Alagoas e Maranhão também possuem altos índices de analfabetos entre outras faixas etárias. Alagoas lidera as piores estatísticas do analfabetismo entre as faixas etárias de 18 e 19 anos (5,93%, sendo a média nacional de 1,48%), de 25 a 29 anos (9,85%, diante da média nacional de 2,76%), de 30 a 39 anos (20%) e de 40 a 49 anos (26,82%). A pior taxa entre os jovens de 20 a 24 anos é do Maranhão (4,77%), que também lidera a de 50 a 59 anos (34,7%)”.

As explicações são muitas e são emitidas pelos governantes de acordo com a ocasião. Mas o fato é real e quase imutável.

O desmonte do Estado tem início no governo de Fernando Collor e continua com Geraldo Bulhões, quando a crise financeira e administrativa se aprofunda com o atraso dos salários dos funcionários públicos, e tem o desaguadouro fatídico nas gestões de Divaldo Suruagy e Manoel Gomes de Barros.

Nos últimos 25 anos a educação em Alagoas mergulhou no caos. Para a origem da quebradeira do Estado pode ser estabelecido como um marco histórico o dia 17 de julho de 1997, quando o então governador Divaldo Suruagy, depois de atrasar ainda mais os salários do funcionalismo público, chegando a dez meses de atraso, viu-se na contingência de renunciar ao mandato, diante das mobilizações dos funcionários.

A gestão da educação em Alagoas é fundada no improviso, no clientelismo e no patrimonialismo. O modelo em vigência é o símbolo e uma das causas da crise.

Os governadores Ronaldo Lessa e Teotônio Vilela foram eleitos e reeleitos, somando 16 anos, ou seja, 192 meses. O governador Renan Filho assumiu há cinco meses, a soma é de 197 meses. E o estarrecedor é que, nesse período, assumiram a secretaria de estado da educação nada menos que 14 secretários. A média de permanência no cargo é de 1,4 ano.

Esse método de gestão é marcado pela corrupção, baixa estima dos professores e funcionários e pela falta de um programa pedagógico estratégico que una a sociedade e os trabalhadores em torno da educação pública de qualidade.     

 A mudança efetiva da educação só poderá acontecer a partir de transformações na gestão, na formação continuada dos professores e na valorização do servidor público. A gestão da educação mantida por métodos arcaicos não serve para erradicar a chaga do analfabetismo e não será terreno fértil de revolução alguma.

Gostaria de estar completamente errado e que Alagoas superasse as suas dificuldades administrativas e os gestores públicos fossem tomados de súbito pela consciência da importância da educação pública, área mais importante e mãe de todas as outras, caminho da superação do atraso secular e meio de o povo pobre superar a pobreza e erradicar a miséria.  

 

Autoridades dão vexame em audiência pública da CPI

  • 19/05/2015 06:02
  • Geraldo de Majella

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da violência contra Jovens Negros e Pobres da Câmara Federal realizou uma audiência pública no plenário da Assembleia Legislativa de Alagoas. A CPI foi constituída no dia 20 de março deste ano, com objetivo de apurar as causas, razões, consequências, custos sociais e econômicos da violência, morte e desaparecimento de jovens negros e pobres no Brasil.

Os membros da CPI, os deputados Reginaldo Lopes (PT-MG), Paulão (PT-AL), Edson Moreira (PMN-MG) e Rosângela Gomes (PRB-RJ), já estiveram nos estados da Bahia e do Rio de Janeiro. Depois de Alagoas, eles seguem para São Paulo, onde está convocada uma audiência pública para o dia 25 deste mês.

A sessão se iniciou com discursos longos das autoridades – desconfio ter sido proposital, para cansar o público assistente. Dela participaram familiares de vítimas da violência policial como as mães do jovem negro desaparecido depois que foi abordado por policiais militares Davi Santos, a dona de casa Maria José, a educadora Ana Claudia Laurindo e a educadora Maria José (Zezé), entre outras e dezenas de ativistas dos movimentos sociais.

Depois dos longos discursos na hora dos familiares, das entidades e ativistas falarem, os secretários retiraram-se, com a desculpa de que tinham outros compromissos previamente agendados. Primeiro a sair foi o secretario de Defesa Social Alfredo Gaspar de Mendonça, em seguida Rosinha da Adefal, secretaria da Mulher da Cidadania e dos Direitos Humanos, Claudia Petuba secretaria da Juventude, Lazer e dos Esportes e Flávio Gomes representante do Ministério Público. 

O discurso oficial em Alagoas não é para ser levado a sério. A violência é institucionalizada em nosso estado. O discurso oficial foi descontruído pelos familiares e pelos movimentos sociais.

As autoridades não esperaram para discutir os problemas reais da violência policial e de como essa prática tem sido incentivada.

As vozes dos familiares das vítimas e dos ativistas foram ouvidas pacientemente pelos deputados.

Felizmente a CPI foi transmitida pela TV Assembleia, e milhares de alagoanos tomaram conhecimento de muitas ações violentas das polícias.

Minhas Alagoas São Outras I

  • 13/05/2015 12:15
  • Geraldo de Majella

 

A primeira vez que fui a Penedo ainda era adolescente. Encantei-me pela cidade, amor à primeira vista. A visita foi rápida, meu pai tinha compromissos e não poderia me apresentar a cidade. Anos depois, voltei para conhecer e caminhar pelas suas ruas e becos.

Iniciei a segunda visita, desta vez, em companhia de amigos pela Praça 12 de Abril, onde olhei admirado o rio São Francisco, entrei na igreja de N. S. das Correntes, uma obra de arte barroca de 1729.

O estilo barroco, os azulejos portugueses, mais tarde soube serem policromados e o altar-mor folheado a ouro. Tudo na igreja era majestoso, aliás continua sendo e permanecerá assim por séculos sem fim.

Alguém, durante a visita, falou de um esconderijo no subsolo utilizado pelos escravos, que tinham a proteção de religiosos.

Entre lendas e mitos me apresentaram a Penedo, uma cidade heroica e pomposa, aristocrática nas suas tradições, mas que só anos depois me familiarizei com a sua história.

O Museu do Paço Imperial me impressionou pela diversidade e pela variedade de obras expostas. O acervo, por ser particular, me impactou ainda mais.

Ao andar pelas ruas, subindo e descendo ladeiras, parando diante do casario, fotografando e sentando em suas praças, deparei com a Barão de Penedo, uma das que mais me atraem.

O prédio da Prefeitura, o Oratório dos Condenados à Forca, de 1769 – nesse local os prisioneiros rezavam enquanto esperavam a execução capital. Nessa quadra hoje há indicação de ter sido durante o período de dominação holandesa que foi erguido o Forte Mauricio de Nassau. A imponente Catedral Diocesana de N. S. do Rosário, construção de 1690, compõe o conjunto de prédios históricos.

Diante da Praça Rui Barbosa está o Convento de São Francisco e a igreja de Santa Maria dos Anjos, construídos entre 1660 e 1759. O estilo é barroco e rococó, também com altar-mor folheado a ouro e o museu com imagens sacras e móveis antigos, No mesmo conjunto arquitetônico está a Casa São Francisco, que conta a história da ordem franciscana.

O Teatro Sete de Setembro, de 1884, projeto do italiano Luigi Lucarini, em estilo neoclássico, é o primeiro teatro de Alagoas. A poucos metros fica a igreja de São Gonçalo Garcia, de 1758, com traços barrocos ornamentados por pedra calcária.

A Fundação Casa do Penedo é uma criação do médico psiquiatra e acadêmico Francisco Alberto Sales, que em 1992 abriu ao público a biblioteca de 50 mil exemplares de escritores alagoanos, nacionais e estrangeiros, e demais acervos. Em convênio com a Petrobras foram especialmente catalogados cinco mil livros e a biblioteca foi totalmente informatizada, disponibilizando ao público imagens de Penedo, todas digitalizadas para consulta por computador.

O meu retorno a Penedo será para conhecer as 1.200 imagens da cidade e o que for mais possível ver do acervo raro da Fundação Casa do Penedo.

Alagoas deve um reconhecimento público à generosidade do médico Francisco Alberto Sales e a seu espirito de preservação da história do Penedo e das Alagoas.  

 

Alagoas é onde o negro corre mais risco de ser assassinado no Brasil

  • 09/05/2015 20:24
  • Geraldo de Majella

Relatório da Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) da Presidência da República apresenta o Índice de Vulnerabilidade Juvenil ― Violência e Desigualdade Racial IVJ, indicador inédito, utilizado no mapeamento, com o qual foi constatado que jovens negros de 12 a 29 anos estão mais expostos à violência. 

O estudo é resultado de uma parceria entre SNJ, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Ministério da Justiça e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil.  

Numa escala de 0 a 1, Alagoas (0,608) aparece como local de maior risco, seguido pelos estados da Paraíba (0,517), Pernambuco (0,506) e Ceará (0,502), na região Nordeste.

Nos estudos realizados tanto por pesquisadores como por órgãos do governo federal, invariavelmente o estado de Alagoas aparece no topo do pódio da escalada de violência.

“Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados”.

As ações anunciadas pelos governos federal e estadual não são factíveis, pois negligenciam o problema. É o caso do Programa Juventude Viva. Ao ser criado por motivação eleitoral e numa tentativa de responder às criticas, o governo federal tentou e não conseguiu agrupar programas consolidados nos ministérios e, com uma roupagem “nova”, apresenta-los aos estados e municípios.

O resultado é um fracasso. Inexiste como programa integrado e não articula com os estados e municípios ações concretas. Os entes federados, estados e municípios, também se desobrigam das suas responsabilidades.

O jogo de empurra é mantido e a escalada de violência cresce. Os jovens, negros e pobres são as principais vítimas, e a persistir a incúria governamental, a matança continuará sem fim. 

Reduzir a violência homicida e garantir direitos fundamentais é o desafio para o governo de Alagoas.

O marketing pode muito, mas não consegue esconder a realidade por muito tempo.

 

A criminalidade é o tendão de aquiles do governo

  • 28/04/2015 19:17
  • Geraldo de Majella

 

O programa Brasil Mais Seguro é o título do Acordo de Cooperação assinado em 2012, entre o Ministério da Justiça e o Estado de Alagoas e a prefeitura de Maceió “visando à implementação, o desenvolvimento e a consolidação de um conjunto de ações imediatas e estruturantes nos órgãos de segurança pública que tenham como prioridade ações e metas voltadas para áreas de maior vulnerabilidade criminal, com a finalidade de integrar objetivos comuns entre o Ministério da Justiça e o Estado de Alagoas e o Município de Maceió, para redução da criminalidade violenta”.

O Brasil Mais Seguro é uma “caixa preta” e a sociedade pouco ou nada sabe a seu respeito. A mídia e a sociedade tiveram conhecimento tópico e seletivamente divulgado pelo governo. 

A transparência, antes preconizada, é um dos princípios sonegados à sociedade e aos envolvidos na execução do programa desde o início, em 2012.   

Envolto em sigilo, o programa tem pontos positivos; o primeiro é a integração das cúpulas da área de segurança estadual (Polícia Militar, Civil e Corpo de Bombeiros, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal), o Poder Judiciário e o Ministério Público Estadual. Esse trabalho teve início no governo anterior (Teotônio Vilela), tendo continuidade na atual administração.

O segundo: o esforço em estruturar e integrar as ações policiais no âmbito dos municípios com altos índices de criminalidade;

a construção de dois centros de detenção provisória no interior, um em União dos Palmares e o outro em Arapiraca;

e o anúncio do repasse para a Segurança Pública do resultado positivo da receita do DETRAN.

Esse conjunto de intenções anunciadas pelo governador são indicativos positivos e poderão, a fórceps, colocar em prática alguns pontos do programa Brasil Mais Seguro.   

O resultado parcial da redução dos homicídios nos três primeiros meses, comemorado pelo governador e pela cúpula da segurança pública é apenas um indicativo a mais para haver confiança. Mas para a sustentabilidade no médio e longo prazo são necessárias outras ações estruturantes e a transparência inclusive nas estatísticas. 

A reversão dos índices epidêmicos de violência homicida não acontecerá se não vier precedida de um conjunto de políticas públicas de segurança pública e políticas sociais. Para tanto, faz-se necessária a integração consensual dos entes federados no âmbito estadual.

 O governo estadual está paralisado diante da matança de jovens negros e moradores da periferia de Maceió e de outras cidades de Alagoas. O Brasil Mais Seguro propõe trabalhos de integração da segurança pública com a sociedade. O que tem sido realizado?

Mapear as áreas de crescente criminalidade é relativamente fácil, e anunciar com ares de “eficiência” mortes sem explicações ou sob a classificação de “auto de resistência” tornou-se a única participação do Estado nas comunidades.

Não há saída possível e duradoura do abismo monstruoso em que Alagoas se encontra. A redução temporária de homicídios e até uma explosão maior não acontecem devido ao trabalho da Força Nacional nos bolsões de criminalidade de Maceió. É o que dizem estudos encomendados pelo Ministério da Justiça.  

 A criminalidade é o tendão de aquiles do governo e um terror para a sociedade.

 

 

Entrevista para o Blog do Carlito Lima

  • 22/04/2015 07:24
  • Geraldo de Majella

1 - Nome: Geraldo de Majella

2- Idade: 20 a 40 (  )   30 a 50 (  )   40 a 60 (x )  +60 (  )

3- Profissão: Historiador

4- Onde mora (cidade): Maceió-Alagoas

5- O que mais gosta em você: do conjunto, estou satisfeito como sou.

6 - O que menos gosta em você: do desvio do septo.

7- Hobby: caminhar na orla e em trilhas; cinema, leitura, música, passeios, assistir a futebol na televisão.

8- Livros inesquecíveis (3 a 5): Vidas Secas e Memórias do Cárcere (Graciliano Ramos), Poema Sujo (Ferreira Gullar), A Rosa do Povo (Carlos Drummond de Andrade), Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto), Cem anos de Solidão (Gabriel García Márquez) e Quatro Séculos de Latifúndio (Alberto Passos Guimarães). 

9- Autores prediletos (3 a 5): Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade.

10- Filmes inesquecíveis (3 a 5): Memórias do Cárcere de Nelson Pereira dos Santos, Zorba, o Grego de Michael Cacoyannis, O Vagabundo, de Charlie Chaplin, Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica e La Dolce Vita de Fellini.

11- Ator predileto: Paulo Gracindo.

12- Atriz predileta: Fernanda Montenegro.

13- Diretor predileto: Nelson Pereira dos Santos.

14- Músicas inesquecíveis (3 a 5): Foi um rio que passou em minha vida de Paulinho da Vila, Carinhoso de João de Barros e Pixinguinha, Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Construção de Chico Buarque de Holanda e Chega de Saudade de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

15- Compositor predileto (3 a 5): Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Vinicius de Moraes, Paulinho da Viola, Paulo Vanzolini e Gonzaguinha.

16- Melhor cantor: Nelson Gonçalves e Milton Nascimento.

17- Melhor cantora: Elizete Cardoso e Elza Soares.

18- Viagens inesquecíveis(3 a 5): Palmeira dos Índios, São Paulo, Rio de Janeiro, União das Repúblicas Socialistas Soviética - URSS  e Chile.

19- Grandes figuras da humanidade (3 a 5): Karl Marx, Friedrich Engels, Martin Luther King, Nelson Mandela e Einstein.

20- Grandes brasileiros (3 a 5): Luís Carlos Prestes, Darcy Ribeiro, Marechal Rondon, Orlando Villas Boas, Anísio Teixeira, Gregório Bezerra e Aurélio Buarque de Holanda.

21- Grandes alagoanos (3 a 5): Zumbi dos Palmares, Aureliano Cândido Tavares Bastos, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Jorge Cooper, Teotônio Brandão Vilela, o Menestrel.  

22- Quem merece um ovo podre na cara: Ninguém. O desprezo é mais eficaz.

23- Time que torce: Clube de Regatas Brasil (CRB), Vasco da Gama e São Paulo.

24- Bebida predileta: Whisky e Vodka, quando bebia.

25- Prato predileto: macarronada bolonhesa.

26- Frutas prediletas: pitanga, sapoti, mangaba, caju e manga-rosa.

27- Flores prediletas: rosa, violeta, girassol, cravo, gardênia, orquídeas, maria-sem- vergonha.

28- Programa predileto: Namorar

29- A melhor forma de relaxar: Namorando e ouvindo boas músicas.

30- Uma sabedoria de vida: “Faça como um velho marinheiro/ Que durante o nevoeiro/ Leva o barco devagar”.

31- Programa de televisão predileto: Dossiê Globo News com Geneton Moraes Neto e Globo News Literatura com Edney Silvestre e Claufe Rodrigues.

32- Programa de televisão mais chato: Todos os programas policiais.

33- Último livro que leu ou está lendo: Luís Carlos Prestes, Um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis, foi o último que li. Agora estou relendo Ninho de Cobras, do poeta alagoano Lêdo Ivo.

34- Hora de dormir e acordar: Durmo por volta das 23 e acordo às 6 horas.

35- Pior sentimento humano: o ódio.

36- O mais bonito sentimento humano: a solidariedade.

37- Um sonho: Não tenho apenas um sonho, tenho vários. A erradicação da fome e da miséria em Alagoas e no Brasil, viver num país onde a democracia e a renda seja mais bem distribuída e as desigualdades sejam reduzidas entre as classes sociais. Acordo, passo o dia e durmo sonhando nessa perspectiva; às vezes penso ser uma miragem. O sonho e a utopia são irmãos siameses, pelo menos para mim. O jornalista e escritor Eduardo Galeano disse certa vez: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

38- Uma frustração: Não é propriamente frustração, é uma constatação. A história não se repete, a não ser como farsa. As esquerdas em alagoana ganharam várias eleições seguidas e não conseguiram consolidar um projeto de governo e muito menos um projeto de poder. A história não perdoa os que erram, e os que perdem o bonde da história ficam plantados na estação. Assim aconteceu com a esquerda em Alagoas. A minha geração nesse aspecto perdeu o bonde.

39- Uma realização: O fato de ter sido pai e fazer o que fiz em 54 anos de vida me tornaram uma pessoa feliz e de bem com a vida. Tenho amigos, bons amigos. Esse capital é importante para quem valoriza amizades. Lutei pela redemocratização do Brasil com o que havia de melhor em mim: a juventude. Tenho consciência de que fui mais um anônimo na multidão, nunca me incomodei com isso; o mais importante, para mim, é que estive no front e hoje posso dizer: “Confesso que lutei”. Tenho uma vida comum, nada especial, sempre me indignando com as injustiças.   

40- Passeio predileto: ir a Penedo, cidade barroca e ribeirinha das Alagoas. Outro passeio predileto é Olinda, cidade coirmã e barroca de Pernambuco. Esses dois lugares são os meus dois cantos preferidos, no Nordeste.

41- Projetos: Estou trabalhando em dois livros e pretendo concluí-los em breve, até dezembro. 

42- Com quem gostaria de trocar de lugar durante um mês? Trocar de lugar não é propriamente o meu desejo. Mas me contentaria em acompanhar, escondido, o dia a dia do ministro da Fazenda Joaquim Levy. Talvez compreendesse melhor as razões do arrocho econômico e como tem sido o diálogo ente Levy e a presidente Dilma Rousseff.  

43- Se ficasse náufrago numa ilha por 6 meses e pudesse escolher um(a) único(a) companheiro(a) de infortúnio, quem escolheria? A minha escolhida é Vânia Regina; com ela posso ficar mais tempo nessa ilha imaginária.

44- Se ficasse invisível por uma hora, onde iria xeretar: A minha opção seria o camarim das passistas do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, no Rio de Janeiro.

45- Quais as prioridades do Brasil: São muitas. Os políticos brasileiros, regra geral, vivem de costas para a Nação. Educação, saúde e segurança pública são as três áreas que as pesquisas de opinião apontam como as reivindicadas pela população. E, mesmo assim, nada de significativo acontece nessas áreas. A sociedade civil está, felizmente, reinventando o caminho para pressionar os governos. Os gritos das ruas e as postagens nas redes sociais têm mudado o comportamento da população em relação aos governantes. Espero que as mudanças apontem caminhos para as transformações concretas e que, acontecendo isso, os mais pobres sejam incluídos na agenda governamental.

46- Quem admira no Brasil de hoje: A minha admiração é pelo antigo; as duas personalidades que admiro são os ex-senadores Pedro Simon e Eduardo Suplicy.

47- Quem admira em Alagoas, hoje: Continuo admirando o ex-deputado e advogado José Costa, o poeta Sidney Wanderley, o antropólogo Edson Bezerra e o anarquista Nô Pedrosa.

48- Existe esperança no Brasil? Claro que existe. “Não vamos desistir do Brasil”. Eu tenho esperança no Brasil, e mais ainda no povo brasileiro. O Brasil é maior que as crises. O Brasil é maior e melhor que os governantes.

49 - Dê um grau de 0 a 10 às seguintes figuras:

       - FERNANDA MONTENEGRO – 1.000

       - DJAVAN – 1.000

       - DILMA ROUSSEFF − 3

       - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO − 5

       - HELOÍSA HELENA − 5

       - RENAN FILHO − 3

       - MARINA SILVA − 7

       - ARTHUR CHIORO (Ministro da Saúde) − 4

       - SÉRGIO MORO (Juiz do Petrolão) − 10

       - RUI PALMEIRA − 4

50- Um recado para os leitores da ESPIA.

O meu recado eu quero deixar através de uma música, Preciso Me Encontrar de autoria de dois grandes da MPB, Candeia, compositor carioca e do genial Cartola.

 

Preciso Me Encontrar

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

 

Quero assistir ao sol nascer

Ver as águas dos rios correr

Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer

Quero viver

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar

Diga que eu só vou voltar

Depois que me encontrar

 

Quero assistir ao sol nascer

Ver as águas dos rios correr

Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer

Quero viver

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

 

Deixe-me ir preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Deixe-me ir preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

 

O encontro do carcereiro com os filhos do preso político

  • 16/04/2015 23:57
  • Geraldo de Majella

A prefeitura do Recife homenageou, ontem (15), o engenheiro Pelópidas Silveira (1915-2008), numa solenidade realizada no Museu da Cidade do Recife, no antigo Forte das Cinco Pontas. O prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), o ex-prefeito Gustavo Krause, o vice-governador Raul Henry e muitas outras autoridades estiveram presentes ao ato.

Pelópidas Silverira foi prefeito em três momentos da cidade do Recife, sendo o primeiro prefeito eleito em 1955 pelo voto popular. As homenagens fazem parte das comemorações do centenário de nascimento do ex-prefeito.

        A prefeitura do Recife criou o Instituto da Cidade engenheiro Pelópidas Silveira, para pensar a cidade para o futuro, resgatando o planejamento urbano como um legado histórico deixado pelo ex-prefeito, a marca mais importante deixada como gestor público.

        Pelópidas Silveira influenciou várias gerações de administradores e políticos em Pernambuco. Além de prefeito, foi professor na Escola de Engenharia e no curso de arquitetura da Escola de Belas-Artes; também contribuiu como um dos criadores do Instituto Tecnológico do estado de Pernambuco, sendo vice-governador na administração de Cid Sampaio.

        A constituição da Frente do Recife, aliança entre os partidos de esquerda, é um dos seus principais legados. Quando em 1º de abril de 1964 aconteceu o golpe militar, foi preso nas primeiras horas, teve o mandato de prefeito e os direitos políticos cassados durante dez anos e permaneceu preso oito meses e meio.

        Ao sair da prisão reiniciou a sua carreira profissional, como engenheiro consultor da Brasilgás. Só em 1980 foi reintegrado à docência na Universidade Federal de Pernambuco. Em 1981 requereu a aposentadoria.

        Foi na prisão que o então tenente Carlito Lima o conheceu e com ele estabeleceu uma relação de amizade e solidariedade. Essa relação inusitada entre um tenente do exército e presos políticos a todos surpreendia e durou por mais de meio século.

        O capitão reformado Carlito Lima foi convidado pela família de Pelópidas Silveira para participar da solenidade, sendo recebido no antigo Forte das Cinco Pontas com abraços e beijos pelos três filhos do ex-prefeito: a médica Hebe, arquiteta Thaís Silveira e o músico Thales.

         

       

 

 

Em Alagoas foi reeditada a lei de Talião: dente por dente e olho por olho

  • 10/04/2015 17:32
  • Geraldo de Majella

A lei de Talião é a expressão mais conhecida do código de Hamurabi (1780 a.C.), onde a máxima: “olho por olho e dente por dente” se tornou conhecida como o sistema de penas pelo qual o autor de um delito sofreria castigo igual ao dano por ele causado.

A lei de Talião foi praticada durante séculos e com maior abrangência no período obscurantista da Idade Média. A punição a ser aplicada obedecia a critérios diferenciados de acordo com a estratificação social em que estavam inseridos o criminoso e a vítima.

Mutatis mutandis, em Alagoas as autoridades responsáveis pela segurança pública têm procurado inspiração na lei de Talião. Em determinados momentos históricos, passa a utilizar-se da execução sumária de supostos bandidos ou bandidos de estratificação social empobrecida e de cor preta. E em outros, utilizam-se do “auto de resistência” como álibi, visto que as cenas dos crimes são desmanchadas pelos agentes públicos de segurança, desta maneira impedindo ou dificultando o trabalho da criminalística e da perícia técnica.

O Estado vem gradativamente perdendo o controle sobre a criminalidade, isso não chega a ser uma novidade, faz algum tempo. Por outro lado, a segurança pública não conta com a necessária credibilidade junto à população e passa a reagir na vã tentativa de afirmar-se como autoridade, com um grau cada vez maior de violência e consequentemente violando direitos e aterrorizando as comunidades por ele invadidas.

A violência estatal consentida e estimulada faz parte do processo de   retroalimentação e manutenção ideológica da guerra aos bandidos, em que vidas de policiais, cada vez mais, são ceifadas, e a dos supostos bandidos alcança números fantásticos, comparáveis aos dos países em guerra civil. A barbárie tem-se transformado num espetáculo midiático.

        A declaração do secretário Alfredo Gaspar de Mendonça: “prefiro um milhão de bandidos mortos que um policial em Alagoas assassinado” é o apoio necessário para uma tropa acuada e, no geral, despreparada para enfrentar com inteligência a crescente epidemia de criminalidade. E mais adiante, o secretário fundamenta a sua política de segurança pública, quando declara a um repórter em Santana do Ipanema: “Bandido em Alagoas na minha gestão só tem dois caminhos a seguir: ou se entrega e vai para a cadeia ou morre.”

        A barbárie instalou-se no território alagoano. Sejamos justos: o início não pode ser imputado à atual administração – é uma construção histórica em que o aparelho de segurança pública é o centro irradiador dessa concepção e seu protagonista há décadas.

O Estado − falo desse entre social com todas as suas vertentes: Executivo, Judiciário, Legislativo  − terá uma chance de superar a barbárie se compreender que o verso da medalha é a civilização. A segurança pública e o Executivo não entenderam, ainda, que na “guerra” o único vencedor é a criminalidade e seus protagonistas.

A História, antes da justiça, julga os agentes públicos.

Aposentadoria

  • 03/04/2015 10:21
  • Geraldo de Majella

 

O lugar onde se nasce tem significado especial; é comum a exaltação, cada pessoa fala da cidade onde nasceu – seja grande, média, pequena ou até mesmo uma aldeia; lugar distante, esmo da zona rural −, mas nem por essas circunstâncias, esquecido.

        Se o indivíduo é um andarilho, viajante, marinheiro mercante ou funcionário de companhia aérea, andou por mares, desembarcou e conheceu portos e aeroportos em lugares distantes e exóticos, nunca deixa de pensar em sua terra; quando não deseja retornar, mesmo que fosse em férias.      

Essa criação humana chamada cidade tem mudado rápida e intensamente. É comum encontrar, e não são poucos, os que nasceram na zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo. Outros nasceram na periferia, mas o cidadão é carioca. O nascido na periferia diz logo que é suburbano.

É “lúdico”: grandes figuras do samba que nasceram lá, cantavam e cantam as suas origens com reverência. Essa região apartada da cidade se liga através da música, no caso do Rio de Janeiro. Mas não se identifica como periferia.

Há sutilezas na identificação do território. O suburbano não é, e não quer ser, identificado como morador da periferia.  As dificuldades materiais de cada morador ou da maioria deles indica em determinado momento da vida o grau de animosidade com a cidade.

O atraso no transporte coletivo, a violência urbana, a falta de emprego ou o baixo salário fazem com que o cidadão extravase uma certa dose de raiva da cidade. Maldiz a vida que vai levando.

É comum sentar num botequim ou em outro lugar qualquer e alguém dizer: “É impossível continuar morando aqui.” Ou coisas do tipo: “Viver nessa selva de pedra, aguentar o barulho, a poluição, a violência, chega! Estou contando os dias para me aposentar e ir morar numa cidade sossegada.”

Há momentos de desagradáveis notícias, quando a ira e até mesmo os ressentimentos predominam. Mas esse sentimento humano, da raiva, do desprezo é substituído por lembranças afetivas; brotam então do pensamento as memórias da infância já distante, mas que não são e que jamais serão esquecidas.

Muitas vezes os versos da Canção do Exílio, do maranhense Gonçalves Dias, rompem o silêncio imposto pela saudade e pela distância da terra amada, maltratada, nunca esquecida − versos tantas vezes recitados na infância, que lembrados, retornam com a força de um furacão:

 

“Minha terra tem palmeiras,

 onde canta o sabiá;

 as aves, que aqui gorjeiam,

 não gorjeiam como lá”.

 

        Essa briga constante com a cidade é comum; não significa uma ruptura total, mas um desabafo dos que amam e também odeiam; uma relação ambígua que segue vida afora. Nessa relação não é permitido bater. Isso nunca.

        O trem que atrasa, a greve de ônibus, as rebeliões nos presídios, os apagões frequentes, tudo enfim de ruim ocorre e, no mais das vezes, quase simultaneamente. A denúncia do atraso dos trens que vão e vêm do e para o subúrbio, no caso carioca, é um tema recorrente de sambas. O Trem atrasou, de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho, serve como meu apoio.  

 

“Patrão, o trem atrasou

Por isso estou chegando agora.

Trago aqui um memorando da Central

O trem atrasou, meia hora

O senhor não tem razão

Pra me mandar embora”.

        Até o dia em que o sujeito se aposenta e vai embora da cidade. Aliviado, diz orgulhoso: “Vou comprar um molinete, anzóis, todos os apetrechos para me dedicar à pesca.” Mas o zumbido da cidade permanece como se fosse um despertador rebelde que todos os dias dispara.

        A cidade, seja metrópole ou não, permanece presente, num sinal evidente de um mundo vivido que resiste em abandonar o pescador aposentado, o caminhante de todas as manhãs ensolaradas à beira-mar.

         

             

                  

O Programa Brasil Mais Seguro não faz de Alagoas um lugar seguro

  • 18/03/2015 15:12
  • Geraldo de Majella

 

O ministro da justiça José Eduardo Cardoso, o então governador Teotônio Vilela Filho e o ex-prefeito Cícero Almeida, no dia 27 de junho de 2012, assinaram o Acordo de Cooperação para o desenvolvimento de ações do Programa Brasil Mais Seguro no estado de Alagoas. O estado servirá como protótipo do projeto, que em seguida seria implantado no restante do país. Essa é, ou foi, a concepção desenhada na Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça.

        O Programa tem o slogan “Quem ama Alagoas constrói a paz”. Os objetivos definidos teoricamente deveriam promover a atuação qualificada e eficiente dos órgãos de segurança pública e do sistema de justiça criminal. O ponto fora da curva tem sido alguns itens essenciais preconizados pelo convênio, como: o foco na qualificação dos procedimentos investigativos, a falta de uma politica pública de segurança pública e o envolvimento dos municípios com maiores índices de criminalidade.

        O anexo I do Plano de Trabalho diz que para “o enfretamento à impunidade estão previstas ações de fortalecimento da perícia forense e da polícia judiciária, enfrentamento às organizações criminosas, forças tarefa da Força Nacional de Segurança Pública na investigação de homicídios e a integração entre os sistemas policiais e judiciais, com participação ativa do Ministério Público, do Poder Judiciário e da Defensoria Pública”.

        O que acontece no cotidiano é o oposto das determinações acordadas e ou pactuadas entre as partes. As autoridades policiais anunciam os “autos de resistências” antes da perícia forense e de a polícia judiciária iniciar o trabalho de coleta de informações da cena do crime. Esse flagrante desrespeito à legislação tem sido rotineiro.

        A mudança de concepção no fazer segurança pública acordado pelo estado de Alagoas e pelo Ministério da Justiça preconiza “o policiamento ostensivo e de proximidade voltado às áreas mais vulneráveis do Estado, considerando o mapa da violência, e a criação de centros de comando e controle integrados”.

        Esse é outro compromisso firmado através do convênio, e na prática não cumprido. Mesmo assim é possível ler alguns press releases das assessorias de comunicação relatando eventos ou a implantação de serviços nas comunidades carentes.

        O discurso construído está escudado na percepção de que a população que vivencia a sensação de insegurança será protegida com o discurso do enfrentamento ao bandido. A consequência dessa prática são as execuções sumárias de supostos marginais.

A sensação de insegurança da população não alterou desde que foi implantado o Programa Brasil Mais Seguro. O crescimento da taxa de letalidade entre os policiais cresceu possivelmente numa relação direta com a ação de enfrentamento à criminalidade como principal ou única forma de reduzir ou conter a criminalidade.  

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em outubro de 2013 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra que Alagoas detém o maior número de homicídios: são 2.048, configurando uma taxa de 64,5% para cada grupo de 100 mil habitantes.

Em 2014, tiveram morte violenta 14 policiais em Alagoas. A SDS não vem a público explicar com clareza o que motivou essas mortes de policiais. Essa atitude não é casual, mas motivada pela concepção de guerra deflagrada ou continuada como estratégia de segurança pública. O resultado esperado é, infelizmente, o aumento da letalidade em Alagoas e a incapacidade da segurança pública para explicar tamanho clima de violência.

É urgente repensar o Programa Brasil Mais Seguro: “Quem ama Alagoas constrói a paz”.

Aurélio, sinônimo de dicionário

  • 15/03/2015 06:13
  • Geraldo de Majella

 

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira [1910-1989] nasceu no norte de Alagoas, na pequena Passo de Camaragibe. Quando jovem, morando em Maceió, iniciou a sua vida profissional como professor de português. Na década de trinta foi estudar direito em Recife, onde se bacharelou.

Em Recife estudou com quatro alagoanos que se tornaram amigos de toda a vida: Aloysio Branco, Antonio de Freitas Cavalcanti, José Moraes da Silva Rocha e Mário Gomes de Barros Rêgo.  

Bacharel em direito, não atuou como advogado. Dedicou-se ao magistério tanto como professor primário quanto como professor de literatura portuguesa e francesa. Trabalhou ainda como funcionário público municipal em várias funções, desde Oficial de Gabinete do prefeito Edgar de Góes Monteiro até Diretor da Biblioteca Municipal e, cumulativamente, ocupou a função de diretor do Departamento de Estatística e Publicidade da prefeitura de Maceió, em substituição a Rui Palmeira.  

Mestre Aurélio fez parte de uma geração de grandes intelectuais nascidos em Alagoas, como Alberto Passos Guimarães, Valdemar Cavalcanti, Humberto Bastos, Jorge de Lima, Aloysio Branco, Carlos Paurilio, Manuel Diegues Júnior, Mário Brandão, Rui Palmeira, Raul Lima e Théo Brandão.

Acrescente-se a essa relação Graciliano Ramos, o mais velho entre eles, e os aqui residentes Raquel de Queiros, José Lins do Rego e Tomás Santa Rosa, cearense e paraibanos, respectivamente.

A vida de mestre Aurélio em Maceió e no Rio de Janeiro esteve sempre envolvida com a língua portuguesa, seja ensinando, ou como revisor de livros e jornais, seja traduzindo de línguas estrangeiras para o português, ou escrevendo contos e pesquisando.

O saber popular ajudou o mestre a criar tantas palavras e verbetes. Vivia anotando tudo, principalmente a gíria cotidiana do povo. O dicionário Aurélio foi responsável por democratizar e desmitificar nossa língua, assimilando palavras de uso coloquial e do cotidiano até então ignoradas pelas pesquisas lexicográficas.

Em 1975, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa – sua principal obra − foi lançado. A partir desse momento tornou-se o livro mais vendido no Brasil, fazendo de Aurélio sinônimo de dicionário.

Mas quem pensa ou pensava que a vida dessa figura era de clausura, está ou esteve enganado. Um novo Aurélio sempre deixou a mesa de trabalho para sentar em outra: a da boemia. Aquele homem aparentemente circunspeto desde jovem, era conhecido como boêmio na Maceió provinciana das primeiras décadas do século XX.  

Na capital alagoana, muitos amigos da época de juventude se tornaram parceiros nas rodas literárias e/ou de boemia. A maior parte da sua vida foi vivida na cidade do Rio de Janeiro, mas quando vinha passar férias em Alagoas era inevitável entrar na boemia.

Aurélio reunia-se com o jornalista Arnoldo Jambo, o teatrólogo Bráulio Leite Júnior, o poeta Carlos Moliterno, o cronista e político Teotônio Vilela, o industrial Napoleão Moreira, o escritor Emer Vasconcelos, a poeta e atriz Anilda Leão, dentre outros.

Esses encontros literorrecreativos ocorriam em residências de amigos ou nos bares, como o antigo Bar das Ostras, no banho da Bica da Pedra ou apreciando a lagoa Mundaú, bebericando no Pontal da Barra.

As honrarias e o reconhecimento em vida aconteceram e foram muitos, mas a maneira simples de viver e de encarar a vida o imortalizou. As academias − brasileira, alagoana de Letras e a brasileira de filologia e outras instituições a que pertenceu − não foram mais importantes do que o reconhecimento popular.

A imorredoura consagração aconteceu naturalmente fruto do valor de sua obra, sem que houvesse qualquer campanha de marketing. O reconhecimento popular de um trabalhador intelectual no Brasil não é tão comum assim. Aurélio conseguiu.

Indicação de leitura:

Marcos Vasconcelos Filho

Marulheiro – viagem através de Aurélio Buarque de Holanda

Maceió -Edufal, 2008, 339 p.

Carta Aberta ao governador Renan Filho

  • 04/03/2015 17:52
  • Geraldo de Majella

 

Senhor Governador Renan Filho:

 

A maior conquista do povo brasileiro, no pós-ditadura militar, foi a eleição da Assembleia Nacional Constituinte e o que dela emergiu, a nova ordem constitucional que sepultou o autoritarismo ditatorial. 

A Carta Magna batizada pelo deputado Ulisses Guimarães como a Constituição Cidadã recepcionou direitos sociais e econômicos nunca antes mencionados num texto constitucional.

        Governador, li atentamente o discurso de posse e não encontrei uma única vez referência aos direitos humanos. O que mais se aproximou foi: “Este chamado à união, fraternal e sincero, eu o faço em nome de um valor humano, o mais alto deles, a maior conquista do mundo civilizado – a democracia”.

Talvez Vossa Excelência não tenha ainda percebido que a sua fala ou o silêncio sejam interpretados pelos seus auxiliares e gestores na área da segurança pública como uma ordem. Ou a concordância com a falta de transparência e o cumprimento legal das investigações após os sucessivos “autos de resistências”.

A transparência é um dos princípios do Estado democrático e a democracia é a maior conquista do mundo civilizado,  com o que concordamos integralmente.

Governador, as polícias civil e militar continuam sendo “reservas” do autoritarismo oriundo da ditadura militar. As polícias não agem como instituições defensoras da ordem constitucional, sendo nelas recorrente a violação dos direitos civis.

Vossa Excelência, pela juventude, pelos compromissos assumidos publicamente durante a campanha eleitoral, se assim desejar, poderá operar mudanças na concepção dos seus subordinados na área da segurança pública.

O discurso da ordem e da lei é insustentável e ineficaz tem sido usado apenas para aumentar o estado beligerante e autoritário das forças públicas de segurança. Esse discurso é velho e o levará ao cabo de sua gestão como governador à decepcionante realidade de que não foi capaz de estruturar uma política pública para a área da segurança pública. A explicação será encontrada com relativa facilidade pela opção autoritária e violadora dos direitos humanos.

Governador, ainda, me valendo do discurso de posse, em boa hora foi dito que: “Todos sabem que Maceió tornou-se uma das capitais mais violentas do mundo. Aqui morre-se de graça, e mata-se a qualquer pretexto”.

A reversão desses terríveis índices de criminalidade não será alcançada através da força bruta, da declaração de guerra e do incitamento à violência feito explícita ou veladamente.

Governador, o seu antecessor contratou consultores na área da segurança pública de excelente qualidade e com capacidade comprovada. Cito um, o professor Luiz Flávio Sapori. O produto de seu trabalho nunca foi posto em prática, e menos ainda norteou o planejamento da segurança pública alagoana.

É importante, me permita o direito de sugerir, que Vossa Excelência ouça outras vozes que não as vozes macabras dos “Falcões armados”, dos que primam pela manutenção do alto teor de adrenalina e que advogam a “doutrina” do enfretamento armado contra os moradores das periferias de Maceió e das cidades do interior.

Governador, o professor Sapori, na edição da Folha de São Paulo de 4/3/2015, diz: “Ainda é recorrente entre os gestores da segurança pública no Brasil acreditar que o trabalho de policiamento ostensivo é o mais decisivo no controle rotineiro da violência urbana.

“A investigação policial, por sua vez, teria um status secundário, limitando-se a fundamentar o inquérito policial direcionado à instância judicial.

“É um grave equívoco que tem comprometido seriamente a capacidade do poder público de enfrentar a criminalidade. A atividade de investigar homicídios, por exemplo, coletando e sistematizando as evidências de sua autoria e materialidade, é imprescindível ao controle do próprio crime”.

Essa é a maior dificuldade na sua gestão: mudar os rumos da segurança pública de Alagoas.

Governador, os relatórios oficiais são as melhores fontes para com pompa e circunstância o governante ser enganado a partir de gráficos e de estatísticas falseados. Os da segurança públicas são uma fonte fantástica, basta, Vossa Excelência pedir uma série histórica, pois não terá números confiáveis dos seus antecessores e agora, na sua gestão, essa área está sob suspeita.  

Vossa Excelência, tenho lido na mídia, é um internauta e faz bom uso das redes sociais, usando estas ferramentas modernas para divulgar ações da sua gestão. O mesmo não ocorre com alguns dos seus subordinados que usam as redes sociais para fazer apologia da execução de supostos marginais, inclusive postam imagens de cadáveres empilhados em viaturas da polícia militar, atitude acintosa de violação das normas legais, em que a cena do crime deve ser preservada.

Essa atitude contribui enormemente para aumentar a impunidade, sinaliza para a tropa que esse deve ser o procedimento e cultua o ódio como instrumento de vingança ou justiçamento, prática abominável para ser tolerada por um governo democrático.

Governador, não desejo cansá-lo. Sei das suas inúmeras atribuições e da agenda diária pesada. O BOPE tem sido utilizado em qualquer ação. A última ocorreu no dia 27, no CEPA, quando reprimiu adolescentes e causou transtornos a todos.

Os governadores Teotônio Vilela Filho e Ronaldo Lessa, este seu aliado, não permitiam que a pretexto de manutenção da ordem pública o BOPE fosse às ruas reprimir manifestantes, até mesmo durante as grandes manifestações de junho de 2013.

O Centro de Gerenciamento de Crises e Direitos Humanos da Policia Militar é o mais capacitado do Brasil e vem sendo desmobilizado numa “politica” de sucateamento. Esses bravos policiais têm cumprido missões históricas nos últimos vinte anos em Alagoas nas negociações de conflitos.

A persistir a orientação do confronto, não tardará e algum manifestante será vitima da violência policial.

Governador, lhe desejo o que de melhor se pode desejar para alguém que foi eleito democraticamente para conduzir os interesses de Alagoas: saúde e paz.

       

 

Carta Aberta às Autoridades Brasileiras

  • 24/02/2015 10:08
  • Geraldo de Majella

O Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial ( CONEPIR) e dezenas de entidades da sociedade civil alagoana esteve acompanhando as lideranças da comunidade remanescente de quilombo Mumbaça do município de Traipu-Al, no dia 11.02 na sede da OAB-AL, em Maceió. Na oportunidade foi denunciada a perseguição e a violação de direitos.

O CONEPIR e as entidades formalizaram as denuncias através de uma Carta Aberta assinada por 22 entidades, o documento foi entregue à imprensa e também será protocolado em várias órgãos e no Ministério Público Federal.

CARTA ABERTA ÀS AUTORIDADES BRASILEIRAS

COMUNIDADE QUILOMBOLA TEM DIREITOS VIOLADOS E PEDE SOCORRO

Perseguições por parte do pároco da Igreja local e da prefeitura ameaçam exterminar o quilombo Mumbaça, em Traipu (AL)

Em que pese a nossa Carta Magna de 1988 reconhecer a existência de comunidades quilombolas no país, e ter como objetivo fundamental a construção de uma sociedade justa, livre e solidária; bem como promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, religião e

quaisquer outras formas de discriminação, os moradores da comunidade remanescente de quilombo Mumbaça, situada no município de Traipu (Alagoas),  tem seus direitos desrespeitados e são obrigados a negar suas origens, culturas e tradições.

 

Esta carta tem como objetivo fazer um apelo às autoridades governamentais, jurídicas e eclesiásticas, para que os direitos dos quilombolas de Mumbaça sejam respeitados.

Segundo as lideranças quilombolas, desde que o padre Eduardo assumiu a paróquia Santuário Senhor dos Pobres, localizada na comunidade, as famílias de Mumbaça são vítimas de preconceito e discriminação por parte do sacerdote e da comissão que dirige a igreja, ao ponto de serem proibidas de falarem que são quilombolas se quiserem frequentar o santuário, afirmando inclusive que são ordens do bispo de Penedo, Dom Valério Breda. Além disso, por ordem do padre, os quilombolas de Mumbaça estão proibidos de passarem com seus mortos por dentro da igreja antes do sepultamento, uma tradição secular na comunidade, causando profundo sentimento de frustração, constrangimento e decepção, principalmente, entre os mais velhos.

 

Os desmandos e desrespeito dos que hoje mandam na Igreja Senhor dos Pobres, santuário que foi inclusive construído com a força e suor dos ancestrais quilombolas de Mumbaça, tem revoltado as famílias, que já chegaram a fazer protesto, no dia 23 de novembro de 2014, fechando as ruas

do quilombo, com a finalidade de serem recebidos pelo padre para um diálogo sobre suas reivindicações. Após intermediação do então gerente afro quilombola da Secretaria de Estado da Mulher, dos Direitos Humanos e da Cidadania, Jordinelson Santana (também integrante do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial - Conepir), o líder da comunidade, Manuel Oliveira (Bié) – igualmente conselheiro do Conepir -, pode entregar ao sacerdote uma carta, mas até o momento os quilombolas não receberam resposta.

 Vale ressaltar, que a partir do momento em que o padre aceitou receber a liderança, a comunidade suspendeu o protesto, e mesmo assim, uma dirigente da igreja chamou a polícia para prender o líder quilombola. A prisão só não foi efetivada devido à intervenção do representante do governo do Estado que estava acompanhado de um advogado.

 

De acordo com o líder comunitário, como se não bastasse a perseguição da igreja, a comunidade de Mumbaça também é impedida de se declarar quilombola quando procura uma vaga nas escolas e nos postos de saúde do município, sob ameaça de não conseguir matrícula nem atendimento médico.

Além disso, na escola ninguém pode falar em quilombo. O direito à cultura é igualmente proibido pela municipalidade, pois a ordem é parar qualquer festa que se refira a quilombolas.

Na questão educacional, já aconteceu de professor morador do quilombo, conhecedor dos costumes e tradições, ser transferido para outra localidade, sendo substituído por outros de origem externa, sem conhecimento da cultura quilombola. Ou seja, são atitudes que promovem a desconstrução da

identidade étnica da comunidade e ameaçam a existência do quilombo. 

 

Outra grave denúncia, diz respeito a um decreto aprovado pela Câmara Municipal de Traipu, o qual normatizou que a comunidade Mumbaça passou a ser um distrito do município, desconstituindo a toda uma ancestralidade já reconhecida pelo governo federal.

Diante das graves denúncias de violação dos direitos no quilombo Mumbaça, externamos nossa total indignação e solicitamos das autoridades as devidas providências para o restabelecimento do estado de direito. Para tanto, nos baseamos na premissa de que percorridos mais de 100 anos da derrocada

oficial do sistema escravagista, o Estado brasileiro abriu-se à possibilidade efetiva de garantir o exercício da cidadania para a população negra, em especial as comunidades remanescentes de quilombos, cujo direito foi reconhecido pelos constituintes no processo de construção do mais importante instrumento jurídico e político do país.

Maceió, 10 de fevereiro de 2015.

Entidades e instituições que referendam este documento:

- CONEPIR - Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial

- OAB\AL – Comissão de Defesa dos Direitos das Minorias da OAB\AL

- NEAB\UFAL - Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de

Alagoas

- COJIRA\SINDJORNAL – Comissão de Jornalistas por Igualdade

Racial\Sindicato dos Jornalistas de Alagoas;

- UNEAL – Universidade Estadual de Alagoas

- Fretab – Federação Zeladora das Religiões Tradicionais Afro-Brasileiras em

Alagoas

- Ile Ifé Omi Omo Possu Betá

- Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô

- Pastoral da Negritude da Igreja Batista do Pinheiro

- Juventude Negra Independente

- Instituto Raizes de África

- FALC - Federação Alagoana de Capoeira

- GUESB - Grupo União Espírita Santa Bárbara

- CUT – Central Única dos Trabalhadores

- INEG\AL – Instituto do Negro em Alagoas

 - Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas Ganga Zumba

- Coordenação Nacional das Comunidades Remanescentes de Quilombo –

CONAQ

- Comunidade Remanescente de Quilombo Carrasco

- Comunidade Remanescente de Quilombo Cajá dos Negros

- Agentes de Pastoral Negros do Brasil - APNs

- NUCAB-IYA OGUN-TE, Núcleo de Cultura Afro Brasileira Iya Ogun-te

- CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação

 

O Balanço Econômico do Carnaval de Alagoas

  • 18/02/2015 15:40
  • Geraldo de Majella

 

O balanço econômico do Carnaval de Alagoas deve ser anunciado pela Secretaria Municipal de Turismo de Maceió, bem como pela estadual.

É esperado dos dirigentes das pastas que eles venham a público informar quantos empregos temporários gerou o Carnaval de Maceió e quantos milhões de reais foram injetados na economia de Alagoas.

As cidades de Paripueira e Maragogi, no litoral norte, e Barra de São Miguel, no litoral sul, permanecem como as três cidades polos do Carnaval alagoano. A cidade de Piranhas, no sertão, é uma promessa e pode se consolidar como mais  um polo de festa carnavalesca, pela localização, às margens do rio São Francisco, assim como pela beleza do seu patrimônio arquitetônico.

A imprensa nacional noticia o crescimento do carnaval de rua em quase todos os estados, seja nas cidades grandes, nas capitais e regiões metropolitanas, seja nas cidades médias ou em pequenas cidades. Alagoas está fora desse noticiário, e quando entra é negativamente.

Essa é uma boa luta. É necessário seguirmos o bom exemplo dos carnavalescos e dos secretários de Turismo de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, pensar e influenciar, criticar e propor soluções para o nosso Carnaval.

Evoé.   

 

Querem acabar com o carnaval de Maceió

  • 12/02/2015 14:38
  • Geraldo de Majella

 

“ Você diz que o carnaval é uma besteira

Que prefere descansar até quarta-feira

Não quer saber do frevo nem por brincadeira

Você não quer meu bem, mas tem quem queira

Você não quer meu bem, mas tem quem queira”.

(Edécio Lopes e Marcos de Farias Costa)

 

            O carnaval é a principal festa popular do Brasil há mais de um século em todas as cidades, por maior que seja a crise econômica. O povo, com uma alegria contagiante, se fantasia e vai às ruas sambar e dançar o frevo. Esses dois gêneros são os que mais atraem as massas, mas há outros que as animam em todas as regiões do país.

            As festas em todos os lugares do mundo são caminhos certos de atração de renda, de riquezas, além, óbvio, de prazer e alegria. Com o carnaval não é diferente. Mas parece que em Maceió estão – e não é de hoje, faz já bastante tempo − querendo cristalizar uma mentira: a de que a cidade durante o carnaval é um balneário e, portanto, um refúgio para os que não gostam ou não desejam se divertir no carnaval.

             Essa posição vai de encontro à dinâmica econômica e social do restante do Brasil. Os apelos publicitários têm sido veiculados cada vez mais pelas agências de turismo, pelos governos e pelos empresários das cidades e estados onde o carnaval atrai milhões de pessoas (consumidores). Em Alagoas há um movimento em sentido contrário: empresários da hotelaria e até, pasmem, secretários de turismo de Maceió e do estado, em coro dizem o mesmo: “Maceió é um destino consolidado para o turista descansar no carnaval”.

As prévias carnavalescas vêm crescendo a cada ano. Antes, na cidade tínhamos os famosos banhos de mar à fantasia, sempre no domingo que antecedia o sábado de carnaval. Blocos animando milhares de foliões que, frevando no asfalto da avenida da Paz e na areia branca da praia, se esbaldavam. O poder público apoiava, mas era a espontaneidade do povo que alegrava e abria triunfalmente o carnaval de Maceió.

A Liga dos Blocos, entidade presidida pelo jornalista Edberto Ticianeli, mantém a extraordinária façanha de organizar o Jaraguá Folia com 170 blocos, desfilando pelas ruas do bairro de Jaraguá. Esse trabalho é pouco valorizado, quando não incompreendido pelo poder público, tanto o municipal como o estadual.  

A racionalidade econômica diz que os empresários deveriam ser os principais interessados na oportunidade de geração de empregos diretos e temporários. Os hoteleiros podem ampliar ainda mais os seus negócios, assim como os distribuidores de bebidas e refrigerantes, água mineral, sucos, os varejistas de um modo geral, os supermercados, o setor de transporte e os taxistas etc. 

            O antropólogo Edson Bezerra, irresignado com a atitude passiva do poder público diante do lobby, que não oferece as condições básicas para que haja carnaval de rua em Maceió, disse: “Por trás da não existência do Carnaval de Rua, o trade turístico está ainda mais apartando a cidade de uma grande alegria”. E concluiu: “o jornalista Ticianeli, pelo trabalho desenvolvido através da Liga dos Blocos, merece uma estátua em praça pública”. Com o que eu concordo e assino em baixo.

            A luta pela ressureição do Carnaval de Rua em Maceió terá de partir da sensibilização dos empresários do comércio e da indústria alagoana. Esse papel pode e deve ser deflagrado pelo presidente da Liga dos Blocos e por intelectuais e membros e dirigentes de Escolas de Samba de Maceió.

O capitalismo prima pela geração de riqueza e pela obtenção de lucros, mas em Alagoas esse princípio é esquecido completamente, pois em determinados setores da economia alagoana essa possibilidade é desdenhada. Ao contrário de Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia e agora São Paulo, que têm se superado na organização do Carnaval de Rua. São Paulo é o principal polo industrial do carnaval brasileiro e em breve será também um polo importante de Carnaval de Rua.

 

Evoé.

 

 

 

 

 

Meu primeiro carnaval

  • 07/02/2015 05:34
  • Geraldo de Majella

Meu primeiro carnaval é o título do CD do poeta, livreiro e compositor Marcos de Farias Costa, onde se apresenta cantando frevo alagoano de corpo e alma. Marcos é um intelectual multifacetado, um tipo raro na atualidade, que surpreende a todos, inclusive aos amigos mais próximos. 

Desta vez ataca de intérprete das suas músicas, os frevos. Marcos é autor de dezenas de composições e tem parceria com compositores e músicos, como Edécio Lopes, Ibys Maceió, Gustavo Gomes, Stanley de Carvalho, Juvenal Lopes, Robson Amorim, Tânio Barreto, Wellington Pinheiro, José Gomes Brandão e com o seu irmão, Marcondes Costa, o mais constante entre os seus parceiros.

        Mas afinal o que significa frevo alagoano? É o frevo composto a partir de temas e motivações alagoanas. Onde a cultura, o povo e os costumes são traspostos para as músicas. Em resumo: a identidade alagoana. Não se trata de mudanças melódicas. Pode parecer pouco, ou mesmo um detalhe, mas é a essência do que somos, a alma, a nossa identidade a ser preservada e perpetuada através da música, e nesse caso em particular, do frevo que arrasta multidões.

Isso não significa transformar o frevo feito em Pernambuco ou em qualquer parte do Brasil em alvo da nossa rivalidade. Não é isso e nem de longe se pode pensar tão pequeno. O frevo alagoano que Marcos e muitos outros compositores alagoanos querem e vêm fazendo é o caminho da afirmação de uma identidade, é a produção de um ritmo musical com o sotaque e o selo de Alagoas, nada mais que isso.

        O frevo de Marcos de Farias Costa, Stanley de Carvalho e Edécio Lopes, este último nascido em Pernambuco, trata de motivações, retrata pessoas e temas locais que exaltam as nossas tradições e riquezas culturais.

        O Moleque Namorador, folião notável, imortalizado e lenda dos antigos carnavais de Maceió, é um dos personagens homenageados por Marcos e Stanley de Carvalho num dos frevos, que tem o insuspeito título de “Moleque Namorador”:

 

“Bumbo, surdo, caixa e tarol

Arrocha os metais em bemol

O frevo promete

Azeita o moleque

Que diz que é namorador (Bis)

Enquanto eu me aqueço

Esquenta essa troça

Que na Ponta Grossa

Eu sempre arranjo um amor

Eu sou enxerido

E já na sexta-feira

A minha nega sabe como eu sou

Eu sou sempre moleque

Criança ainda

Na quarta-feira de cinzas

Volto e dou meu alô” (Bis)

 

Evoé, Marcos de Farias Costa.

       

 

Jayme Miranda, um revolucionário brasileiro

  • 04/02/2015 21:04
  • Geraldo de Majella

 

Jayme Amorim de Miranda (1926-1975), jornalista, advogado e dirigente comunista, nasceu em Maceió, no bairro do Poço, no dia 18 de julho de 1926, filho do casal Manoel Simplício de Miranda e Hermé Amorim de Miranda, o segundo de uma família de dez filhos. São eles: Haroldo (1925-1988), Jayme (1926-1975), Valter, Edvar, Zenaide, Wilton (1931-2006), Nilson (1933), Neiza, Hélio, Manoel − Manelito − Amorim de Miranda.
Casa-se com Elza Rocha de Miranda e constituem uma família de quatro filhos.Dois nasceram em Maceió e dois no Rio de Janeiro: Olga Tatiana (1960) e Yuri Patrice (1961), são alagoanos; os outros dois, Jaime (1965) e André Rocha de Miranda (1970), são cariocas. 
Em 1974 e 1975 Jayme Miranda foi, também clandestinamente, a Moscou. A rota é pela Europa, passando pelo aeroporto de Orly em Paris, onde é vigiado pelo serviço secreto francês, como consta do seu prontuário. Essa foi, sem que ele pudesse supor, a sua última viagem internacional. 
No dia 4 de fevereiro de 1975, no Rio de Janeiro, é sequestrado pelo Doi-Codi. Até hoje não apareceu, nem as forças armadas entregaram seus restos mortais. Jayme Amorim de Miranda é um dos “desaparecidos políticos” brasileiros. 
Hoje, faz 40 anos que Jayme Miranda foi sequestrado e o Estado brasileiro continua sem informar a família e a nação para onde os facínoras do aparelho de tortura da ditadura militar levaram Jayme Miranda e os demais “desaparecidos políticos".

Evoé, Ovo da Madrugada

  • 04/02/2015 09:24
  • Geraldo de Majella

O carnaval no interior de Alagoas tem ressurgido das cinzas, depois de quase ser sepultado, os foliões com apoio institucional ou não, retomaram a tradição de organizar blocos de ruas.

A cidade de Penedo é um desses casos onde um grupo de foliões persistiu na organização de um bloco carnavalesco, o Ovo da Madrugada.  

O Ovo da Madrugada é um caso de sucesso e há sete anos anima a cidade colonial ribeirinha arrastando milhares de foliões pelas ladeiras mais bonitas e bucólicas de Alagoas.

O batismo feito em praça pública pelos dirigentes do  Pinto da Madrugada, irmão mais velho, Eduardo Lira, Marcos Davi e Braga Lira, a cerimonia aconteceu ao som das orquestras de frevos de Penedo e Traipu.

O hino do bloco é uma composição de Luiz Paulo Galvão e os principais organizadores foram e continuam sendo Betinha e Alcides Galvão e Júnior Dantas. A tradição está sendo construída ano após ano.

Os bonecos gigantes são dez e foram confeccionados pelo artista plástico Tadeu dos Bonecos, um pernambucano que adotou a cidade de Penedo há vários anos para viver e trabalhar.

O carnaval no interior de Alagoas vem ganhando novos brilhos e cores. A bola fora de 2015 ficou por conta da prefeitura de Marechal Deodoro que havia criado o Bloco Ninho do Pinto, mas na última hora, o Prefeito anunciou que o Bloco não iria sair, com a alegação de que o município vive uma crise financeira.

Ora, vejam bem: Marechal Deodoro é a cidade alagoana onde há o maior número de músicos e de orquestras, são cinco. E todas de alto nível. Mas quando falta boa vontade tudo é pretexto.

Vamos brincar o carnaval em paz.

Evoé!

 

Revolução se faz com ideias, líderes e a massa – III (Final)

  • 28/01/2015 12:54
  • Geraldo de Majella

 

O sociólogo argentino Julio Jacobo Waiselfisz criou o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, trabalho que se tornou uma ferramenta para os estudos da violência no Brasil. Os indicadores dão o estado de Alagoas, de 1991 a 2014, como a unidade da federação que se destaca com o crescimento da violência homicida em todos os grupos estudados.

Esse fenômeno tem sido tratado por Julio Jacobo e outros pesquisadores como uma epidemia, mas as autoridades responsáveis pela segurança pública dos governos anteriores pouco se importaram no sentido de estabelecer estratégias de enfrentamento do problema crescente.

        A epidemia tem impactado diretamente a escola pública e privada. Nem mesmo assim a Secretaria de Educação tem se mobilizado no intuito de pensar sobre a realidade que lhe bate à porta e tem adentrado no ambiente escolar.

O estado catatônico em se encontra a rede pública de educação tem relação direta com a incompreensão dos gestores e dos governadores. A reação esperada talvez seja o encaminhamento da discussão do problema e os seus reflexos devastadores em sala de aula, na gestão das escolas e nas famílias.

As marcas da devastação no ambiente escolar e social podem ser lidas através das estatísticas policiais. Os homens são as principais vítimas de crimes violentos letais intencionais; entre janeiro e outubro de 2014, o percentual foi de 93,7% (homens) e 6,3% (mulheres).

As crianças, adolescentes e jovens lideram o ranking dos crimes violentos letais e intencionais, nas duas faixas etárias: de 12 a 17 anos são 12,8%, e de 18 a 29 anos o percentual sobe para 48,3%. O somatório dos dois grupos alcança 61,1% dos homicídios em Alagoas. A totalidade dos homicídios, nesse período, 82,1%, foram praticados por armas de fogo.

Em 2013, os homicídios nos dois grupos de 12 a 17 anos, 12,52%, e de 18 a 29 anos, 49,73% dos homicídios, o que equivale a 62,25% dos homicídios, somados. São números espantosos em quaisquer circunstâncias, até quando se trata de uma guerra convencional.

Esses dados estão disponíveis no site da Secretaria de Defesa Social (SDS) e fazem parte do trabalho do Núcleo de Estatísticas e Análise Criminal (NEAC).

O avanço do tráfico nos bairros de Maceió e nas cidades do interior há muito tempo é percebido pelas famílias e pela polícia. As populações pobres que vivem em áreas vulneráveis da periferia da capital e nas cidades do interior de Alagoas são vítimas do tráfico e do Estado que, ausente, permite o domínio do território e dos equipamentos públicos pelos traficantes e seus aliados.

        A escola é um dos ambientes usados pelo tráfico para recrutar crianças e adolescentes, tornando-os consumidores e varejistas das drogas, entre elas o crack.

        A Revolução a ser realizada na educação pública terá de ter um foco nessa questão, por meio da Secretaria de Educação, da Defesa Social e das demais.

        A violência, o tráfico e a exclusão são matrizes da evasão, da desestruturação das redes de ensino e provocam o pânico entre os funcionários e as famílias. É a causa do império da “lei do silêncio” nas escolas.

        Aguardemos o secretário Luciano Barbosa tornar públicas as ideias que irão transformar a educação em Alagoas nos próximos quatro anos. Há uma expectativa positiva, pelo menos de minha parte, na implantação de um projeto sério na educação. Nenhum povo merece viver no obscurantismo ou ser condenado à miséria.

         O povo alagoano tem sobrevivido na exclusão e historicamente segregado; a libertação só acontecerá através da educação de qualidade.

Revolução se faz com ideias, líderes e a massa − II

  • 20/01/2015 13:37
  • Geraldo de Majella

 

O secretário de Educação Luciano Barbosa é a maior aposta do governo Renan Filho, pelos laços políticos que os une e por ser entre os secretários o que tem a mais larga experiência em administração pública. Exerceu nas três esferas do Poder Executivo funções relevantes: foi ministro de Estado, secretário do estado de Alagoas, secretário municipal e prefeito de Arapiraca.

        A proposta para mudar a educação, que o governador anunciou como sendo uma Revolução, ainda não foi apresentada. Aguarda-se. A ideia central me atraí: “a escola será o principal equipamento público deste Estado nos quatro anos que começam hoje”. Essa fala terá consequências.

        A luz jogada sobre a escola é carregada de simbologia e é o ponto de partida do processo. Tudo me faz deduzir ser a determinação para a Secretaria de Educação e para as demais secretarias. A leitura que faço é a de que o secretario de Educação exercerá poderes nunca antes vistos na administração estadual. Entendo ser um fato positivo por ser a educação a área impulsionadora do governo e de onde germinará a principal politica pública.

        As dificuldades financeiras do tesouro estadual foram anunciadas como graves, o que amplia ainda mais as dificuldades técnicas e a complexidade da pasta. A pasta da Educação é detentora de um passivo histórico que se agravou mais ainda na última gestão, das três em que Divaldo Suruagy governou Alagoas. 

Há um cipoal de problemas internos e externos desafiadores que, se contornados ou superados em parte ou por etapas, podem transformar-se num fator impulsionador da Revolução na educação alagoana.

        A experiência administrativa do secretario é um indicativo que pode conduzir a uma boa relação com as prefeituras e entre elas, as prefeituras com os piores índices de violência. Esse caminho, estado e municípios deverão fazer juntos, para ampliar as chances de sucesso.

A complexidade de uma “revolução” é para ser pensada em todas as suas variantes, com e por múltiplos atores. O “andar de cima” em geral comunica-se com o “andar de baixo”, através de decretos e memorandos. Inverter essa lógica talvez seja o início do processo de construção de consenso interno.

A revolução terá grande chance de ser vitoriosa, no médio e longo prazo, mas será obra não de um secretário e sim do conjunto do governo, centralizado nas políticas e descentralizado com o monitoramento das ações e o envolvimento concreto da prefeitura de Maceió e das demais prefeituras. Refiro-me a Maceió por ser a capital onde será dado início ao processo de implantação de Escola em Tempo Integral e onde vive 1/3 da população de Alagoas e estão os maiores contingentes de estudantes das duas redes de ensino.

O Estado não poderá realizar a sua “revolução” em detrimento dos municípios; não creio ser este o melhor caminho. Os alunos do ensino fundamental são originários das escolas municipais que seguirão para o ensino médio, de responsabilidade estadual. Esse caminho terá de ser bem pavimentado, sem interesses menores.

O líder desse processo tem de ser o construtor de pontes, não as da engenharia civil, mas o construtor do diálogo entre as diferentes partes e níveis, sendo considerado pela sociedade como um condutor do processo que inspire respeito e credibilidade.

A divisão de responsabilidades é norma legal. Mas a integração das ações e a sua potencialização dependerão de intenso trabalho de sedução, o que é mais que convencimento. Mais que dinheiro. Porque o dinheiro virá com boas ideias materializadas em projetos.

Alagoas não precisa de “mais do mesmo”. As obras físicas, em piores condições políticas e econômicas, o governo estadual realizou; no entanto, agora a palavra de ordem é a Revolução na educação, e para ser levada ao pé da letra, os parâmetros terão de ser outros. Não basta ter escolas recém-construídas ou reformadas, merenda para todos os alunos e de boa qualidade.

As mudanças são necessárias, mas nem sempre são pacíficas; por isso a construção de um ambiente de discussão a partir de uma ideia básica formulada pela gestão é fundamental. Os indicadores de eficiência e promoção têm de ser criados, antecedidos de discussão com os trabalhadores em todos os níveis − funcionários, diretores, professores, alunos e as famílias.

Luciano Barbosa terá a sua capacidade de liderança testada diante desses desafios. O secretário tem todas as condições para ser o líder dessa revolução, isso é inegável. 

 

 

 

Revolução se faz com ideias, líderes e a massa - I

  • 16/01/2015 09:30
  • Geraldo de Majella

 

O governador Renan Filho declarou considerar “a Educação o motor da mudança, o impulso e a alavanca para o grande salto que precisamos dar, rumo ao desenvolvimento econômico e social do Estado.

“Por isso meu governo não faz por menos: a meta é fazer uma revolução na Educação de Alagoas.

“Já disse, e repito aqui, que a escola será o principal equipamento público deste Estado nos quatro anos que começam hoje.

“A primeira providência neste rumo já foi tomada. E ela tem, além do propósito prático, um sentido simbólico.

“A Secretaria da Educação terá em seu comando o vice-governador, empossado ao meu lado nesta solenidade”.

Os sinais emitidos a partir da posse são os melhores possíveis. A escolha do vice-governador Luciano Barbosa, para assumir a Secretaria da Educação, na atual circunstância não poderia ser melhor. É um político experiente, menos pelos seus vínculos com a educação e mais pela sua trajetória de gestor.

Os “segredos” dessa área já foram descobertos, mas falta quem os revele aos funcionários, alunos, professores, diretores e à sociedade alagoana, sem demagogia e/ou promessas inverossímeis.

Há, entre os funcionários da Secretaria Estadual de Educação, bons técnicos comprometidos com o serviço público; muitos, senão a maioria, estão com a estima em baixa, não sem razão, diante das interferências nada republicanas ou da falta absoluta de compromisso dos governadores, inclusive o último, Teotônio Vilela Filho, que transformou a educação em objeto de negociação a mais rasteira possível.

“Revolução” foi uma das expressões mais usadas pelo governador no discurso de posse. A repetição não foi gratuita, teve um propósito, o de ser um dos enunciados da carta de intenções da sua gestão. Tanto melhor para os alagoanos que desejam e merecem serviços públicos dignos, educação que eduque e forme cidadãos com capacidade intelectual para ajudar a transformar a dura realidade alagoana através do conhecimento.

A Revolução imaginada, seja na educação ou em qualquer outra área, não acontecerá como tantas obras físicas de governo, mas com um processo cumulativo de conhecimentos novos, a apropriação de tecnologias e ferramentas modernas, a mudança de paradigmas na formação dos professores e a participação ativa − nem sempre compreendida pelos “revolucionários” − da população.

O cidadão que tem historicamente os direitos fundamentais usurpados pelo Estado, terá de ser convocado; mais que isso, seduzido para ser um dos construtores do projeto revolucionário apresentado na sua versão inicial pelo novo governo.

Esse, para mim, é o nó górdio da questão. O governador quer realizar uma Revolução na educação, o secretario também quer, e é por força do cargo o responsável pela elaboração, coordenação e execução do projeto. É a situação ideal e o melhor dos mundos. O que falta, se todos querem?

Essa pergunta contém múltiplas respostas. Os princípios norteadores da Revolução não estão definidos, e se existem, não foram anunciados publicamente, mas serão em breve.

A Revolução só será realizada com ideias, líder e as massas. Isso pode ser no sentido figurado, se assim desejar, mas entendo como um fator essencial, o princípio básico.

As ideias que moverão as massas e o líder e seus diversos líderes intermediários devem ser reconhecidos pelas “massas”; no caso, pelos funcionários, professores, diretores, alunos, famílias e pela sociedade em geral, para se alcançar os objetivos e também quebrar o estado de desânimo, inércia  e baixa estima dos reais condutores da Revolução.

Admitamos que os desígnios revolucionários, sejam sérios, bons e factíveis. Mesmo assim falta dialogar com as outras partes constitutivas do processo revolucionário.

Esse diálogo é essencial para se construir o caminho ou os caminhos da Revolução; se não for assim, travando as batalhas no campo e nas condições em que a realidade se apresente, pode mais uma vez, como os decretos governamentais emitidos de cima para baixo, não prosperar.

A história tem mostrado que projetos nesse campo e de cima para baixo não logram êxito, pois caso os funcionários, os professores, os alunos, as famílias e o restante da sociedade alagoana não se envolvam, tudo não passará de uma boa intenção sem resultados práticos e, menos ainda, com efeitos transformadores.

Essa Revolução não deve ser datada, assim como a nova Emancipação de Alagoas. Entendo-a como expressão de retórica, entusiasmo do momento. Os dias que se seguem são para refletir e agir. A Revolução na educação não tem e não terá caminho único. Mas para existir só será possível com ideias. O exemplo do cineasta Glauber Rocha, que dizia ter “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, pode servir como estímulo. Mas a Revolução na educação em Alagoas deve ter muitas ideias na cabeça e no papel, e entusiasmo e liderança para realizá-la.

O poeta e ex-presidente de Angola, Agostinho Neto, disse certa vez que: “Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós”. Não tenho nenhum motivo para desacreditar das intenções dos governantes que acabam de ser empossados.

O que os alagoanos querem é ter escola de qualidade e um horizonte para romper com o círculo perverso da miséria e da dominação política e econômica de uma elite bárbara.

Sinceramente, desejo-lhe todos os êxitos, Luciano Barbosa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Nova Emancipação de Alagoas

  • 14/01/2015 05:39
  • Geraldo de Majella

O governador Renan Filho, no discurso de posse, foi enfático ao dizer que: “o chamado à união, fraternal e sincero, eu o faço em nome de um valor humano, o mais alto deles, a maior conquista do mundo civilizado – a democracia.

“Se ela é o primado da maioria, é também, e principalmente, o respeito à minoria.

“Mais do que respeito, o que fica pactuado aqui, ao estender minha mão e pedir que Alagoas caminhe unida, é a igualdade de tratamento para todos, sem discriminações”.

         O longo discurso nesse trecho, para mim o mais significativo: trata-se, quero crer, do princípio norteador do seu governo e enunciado da carta de intenções apresentada aos alagoanos.

         A construção do processo democrático é obra coletiva e vai para além da conquista do voto universal. A democracia reivindicada nas ruas e pelas redes sociais é o aprofundamento e a ampliação horizontal das conquistas sociais consignadas na Constituição Federal.

         O desafio para o governador é compreender que governar no presente não é manter-se atento apenas às reinvindicações corporativas dos entes estatais, mas negociar os conflitos sociais com os movimentos sociais tradicionais − sindicatos, associações, ONGS, etc. − e com os novos e difusos, fenômeno emergente.

         O governador pede que “Alagoas caminhe unida” e propõe que haja “igualdade de tratamento para todos, sem discriminações”. A união por Alagoas é uma figura de retórica interessante para quem inicia um governo.

A Alagoas pujante, das corporações de funcionários públicos bem-situados na máquina estatal (a minoria abocanha parte significativa da folha salarial), como se relacionará com a maioria dos funcionários que sobrevivem na penúria? Esse é um dos pontos do desequilíbrio do aparelho estatal.

Ao longo das últimas décadas esse problema tem se ampliado e tornou-se insolúvel. O andar de cima do funcionalismo público continua ampliando o poder e o desequilíbrio.

O exemplo típico é o da polícia militar, na qual o coronel, ganha R$ 16.510,68 e o soldado, R$ 1.304,14. A diferença é simplesmente de 12,66 vezes entre o coronel e o soldado.

         Os indicadores sociais, notadamente os citados no discurso, são possíveis de ser revertidos no médio e longo prazo, desde que se criem as condições.

A receita para equilibrar as contas públicas está pronta e já foi anunciada: “só há três maneiras de conseguir o equilíbrio: reduzir despesas, aumentar receita, ou a terceira, a mais eficiente: fazer as duas coisas. Milagre, nesse território, não existe”.

Tendo o discurso de posse como uma carta de intenções, resta-nos fiarmos na palavra do governador quando diz que: “a segurança, sem dúvida, é a área em que os números assustam mais, e mostram que o medo da população tem razão de ser.

“A média de homicídios no Brasil, já considerada muito alta pela ONU, é de 29 para cada grupo de 100 mil pessoas. Pois em Alagoas essa média foi de 64,6. De novo, mais que o dobro da média nacional.

“Todos sabem que Maceió tornou-se uma das capitais mais violentas do mundo. Aqui se morre de graça, e mata-se a qualquer pretexto”.

 Esse é o principal problema de Alagoas e requer empenho e a coordenação efetiva do governador.

Enfrentar e superar as adversidades será o desafio do governador Renan Filho, que para concretizá-lo invocou a possibilidade de fazer uma nova Emancipação de Alagoas.

Confesso que sou um otimista incorrigível mais não consigo imaginar a nova Emancipação e menos ainda com data pré-fixada, o dia 16 de setembro de 2017.  

Desejo êxito na sua missão, governador.

 

 

 

 

O Arquivo Público é um patrimônio de Alagoas

  • 07/01/2015 08:15
  • Geraldo de Majella

 

O Arquivo Público de Alagoas (APA), criado em 30 de dezembro de 1961, no governo de Luiz Cavalcante – portanto, com 54 anos de existência −, vivenciou altos e baixos, sendo por décadas esquecido pelos administradores. Esteve vinculado à Secretaria de Educação, à de Cultura, e atualmente está subordinado ao Gabinete Civil.

O secretário do Gabinete Civil, Fabio Farias, será o responsável pela concretização do trabalho de organização, estruturação e modernização em curso no Arquivo Público de Alagoas, que pertence à estrutura administrativa do Gabinete Civil.

O APA tem o mais significativo acervo de origem administrativa referente ao Poder Executivo de Alagoas; são  quatro séculos, desde a época em que o Estado ainda era uma comarca, e depois província, até os dias de hoje. O Arquivo ainda abriga o projeto “Memórias Reveladas”, que permite à sociedade o acesso a fontes, antes sigilosas, do período da ditadura militar, além do que restou do acervo da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops).

Todo esse acervo correu sério risco de ser perdido pelas péssimas condições de conservação e também pela falta de técnicos especializados na organização, conservação e restauração dos milhões de documentos fundamentais da história de Alagoas. São livros, fotografias, jornais, revistas e documentos de vários órgãos da administração pública.

Histórico

Ao final do ano de 2005, um movimento liderado pela Associação Nacional dos Professores de História – ANPUH – Regional de Alagoas, que reuniu historiadores, pesquisadores, profissionais de arquivologia e biblioteconomia, além de outros segmentos envolvidos com a preservação da história de Alagoas, criou o Fórum Pró-Arquivos. O primeiro pleito foi sugerir ao Governo Teotônio Vilela a subordinação do nosso principal Arquivo ao Gabinete Civil, seguindo o exemplo do próprio Arquivo Nacional, que é subordinado à Casa Civil da Presidência da República.

Secretário Fábio Farias, venho a público defender o Arquivo Público de Alagoas e principalmente a politica de organização e modernização dessa importante instituição. Está sob sua responsabilidade a continuidade dessa importante obra cultural, e quero crer será dada continuidade e que em breve os pesquisadores de Alagoas e de qualquer parte do mundo poderão acessar as informações pela internet, como se faz em muitas instituições de pesquisa no Brasil e no estrangeiro.

Há dois marcos na história do APA: a sua fundação e esse período de modernização, no qual os documentos estão sendo e serão ainda mais disponibilizados ao público.

Êxito no seu trabalho.

Fonte: http://www.gabinetecivil.al.gov.br/arquivo-publico