Geraldo de Majella

Conselho e água benta só se dá a quem pede

  • 06/01/2015 10:43
  • Geraldo de Majella

 

A Secretaria de Cultura é historicamente a que dispõe do menor orçamento e uma das secretarias com possibilidades de gerar muita mídia espontânea para o governo de Alagoas. E quero crer que isso se repete nos demais estados.

A ex-prefeita de Piranhas, Melina Freitas, escolhida pelo governador Renan Filho para ocupar a pasta, assume sob protestos e contestações de intelectuais, acadêmicos e artistas de todas as áreas culturais.

        Os grupos constituídos formal ou informalmente – pelo menos nesse momento de crise terão a denominação de Movimento Cultural Alagoano (MOVA) − redigiram uma carta de repúdio e também estão nas redes sociais coletando assinaturas da população para em seguida o MOVA entregar ao governador como sinal da insatisfação.

        Esse é um aspecto que tem chamado a atenção geral dos formadores de opinião e dos intelectuais alagoanos. Não tenho nenhum conselho a oferecer à secretaria Melina Freitas, afinal, como dizia minha avó, “conselho e água benta só se dá a quem pede”.

        A Secretaria de Cultura, na gestão do professor Osvaldo Viegas, recuperou parte considerável do acervo do Museu da Imagem e do Som (Misa). Deveria ter avançado mais, essa é a minha opinião. Mas pelo menos o acervo não se perdeu e está acessível aos pesquisadores. É um ganho quando se trata do estado de Alagoas.

O acervo do Misa é constituído de milhares de discos de vinil e fotografias, dezenas de filmes, centenas de fitas com gravações de momentos significativos da história de Alagoas, além do acervo discográfico do radialista Edécio Lopes, entre outros bem valiosos e únicos da memória do povo alagoano.

Ainda na gestão de Osvaldo Viegas a Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos foi totalmente reformada, ampliada e modernizada. Esse equipamento é um símbolo para a Maceió e para Alagoas. O acervo é constituído de mais de 90 mil exemplares de livros, mapas e uma das mais significativas hemerotecas de Alagoas.

O Misa e a Biblioteca Graciliano Ramos precisam de técnicos que conheçam e se dediquem a manter a organização dos acervos ali confiados por muitos doadores de várias gerações de alagoanos e brasileiros. 

É importante que a secretaria tome conhecimento do que se faz e do que poderia ser feito a mais como ação cultural para o povo de Alagoas. Os artistas e os intelectuais vão continuar contestando pelo inusitado da sua nomeação; mas como gestora de uma área onde a senhora não tem maior trânsito, esse pode ser um caminho para a manutenção do que vem dando certo ou, pelo menos, do que não foi degradado como equipamento público de cultura em Alagoas.  

Essa é a minha sugestão, pois conselho e água benta só se dá a quem pede.

Os números da criminalidade diz tudo: quem mais morre são pobres, negros e jovens em Alagoas.

  • 05/01/2015 11:17
  • Geraldo de Majella

 

No curto e médio prazo não é possível o governo de Alagoas anunciar redução sustentável nos índices de violência e criminalidade. A persistir a visão tradicional, ou seja, a recusa insistente de pensar a segurança pública como uma política pública e não ações de Guerra onde os comandos militares tem supremacia mesmo quando estão sendo derrotados pela ineficácia da estratégia posta há décadas em prática no território alagoano e nacional.   

         Pelas poucas e sucintas declarações a esse respeito tudo indica que a estratégia continuará sendo implementada. Não tenho nenhuma informação privilegiada, estou fazendo leituras das declarações dos dirigentes da segurança pública.

A Folha de São Paulo http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1570527-morte-de-jovens-negros-cresce-21-em-5-anos-no-pais.shtml,  no caderno Cotidiano, abre manchete Morte de jovens negros cresce 21% em 5 anos no país. “ Além do índice de risco relativo, o IVJ avaliou 288 municípios com mais de 100 mil habitantes em itens como frequência escolar, emprego, renda familiar, morte por causas violentas e desigualdade.

Aqueles em que a juventude está mais sujeita à violência estão concentrados no Norte e Nordeste, e os com melhor índice estão principalmente no Sudeste. Alagoas é onde o jovem está mais vulnerável; São Paulo, onde está menos”.

É sobre esses fatos, a violência homicida, que Alagoas deve se voltar com inteligência e determinação para reposicionar o estado no ranking dos estados mais violentos do Brasil. Ganhar posições nesse “campeonato” macabro não é inteligente falar em economia de energias e recursos financeiros.

Vidas humanas não tem preço, mas numa sociedade como a que vivemos onde a distinção de classe social e cor é tão evidente quanto às mortes crescentes na epidemia a que se encontra mergulhado o estado de Alagoas e outros.   

 

Deixa a vida me levar vida leva eu

  • Redação
  • 01/01/2015 18:54
  • Geraldo de Majella

 

Nasci em Anadia – AL, no dia 2 de janeiro de 1961, sob o signo de Capricórnio e recebi como herança dos meus pais e do avô paterno o nome antes destinado ao primogênito, que infelizmente viveu alguns poucos dias. Minha irmã, Rosa Maria, nasceu e sobreviveu, e na sequência nasci e ganhei o nome antes destinado ao primogênito. Não haveria possibilidade de não me chamar Geraldo de Majella.

Anos depois, na adolescência, fui informado com mais detalhes pela minha professora de catecismo, Beatriz Fonseca, sobre a origem do meu nome e da devoção dos meus familiares pelo santo italiano, São Gerardo Majella.

        Eu me iniciei no catolicismo como a maioria das pessoas; hoje, não professo nenhuma religião, mas me relaciono muitíssimo bem com o nome que me foi posto e registrado no cartório de Antônia Carlos dos Santos, Dona Tena, como todos a chamavam.

        A vida me foi encaminhando por lugares tortos e retilíneos, com intermitências ou não. Adquiri régua e compasso para enfrentar e superar as adversidades que nem sempre superei, mas o fato é que sobrevivi e hoje, ao realizar uma rápida retrospectiva desses 54 anos, me convenço de ter sido positivo o saldo, com perdas e ganhos, pois não poderia ser diferente. Mais ganhos do que perdas, para fechar o balanço de maneira sucinta.

        Os apontamentos feitos por mim num livro imaginário onde estão relacionados os amigos de toda a vida registram que a maioria deles foi feita na mais tenra idade, na infância, adolescência e juventude. Mas há outros de quando me tornei adulto e passei a caminhar em direção à maturidade. Esse é o meu principal e talvez o único capital adquirido durante a minha vida errante e cuidadosamente preservado fora das regras do mercado.

        Passei por escolas e faculdades, não me julgo ter sido um bom e muito menos ainda um aluno disciplinado. A rebeldia me é inata. Nesse quesito só Freud explica.

Tenho debitado, em grande medida, o que sou e o que fui adquirindo como conhecimento acumulado às rodas de conversas nas praças, às noitadas intermináveis nos bares e restaurantes, nas praias, nos cabarés e em pouco mais de vinte anos de militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB). A ordem não é necessariamente esta, mas foi nesses locais que consolidei amizades e robusteci a minha formação política e humana.

 Nunca procurei andar em igrejas e leiteria à busca de amizades e de conversas inteligentes, muito embora tenha convívio e preze amizades com religiosos de várias denominações. Todos eles sabem das minhas convicções.

A juventude me fez sonhar com a possibilidade da construção de uma obra coletiva e universal, de um mundo fraterno, justo e socialista. Mergulhei sem salva-vidas em águas revoltas, aprendi a nadar e nunca mais deixei de viver a sonhar.

O mundo mudou, eu mudei, perdi com meus companheiros as batalhas, quase todas, mas jamais perdi a capacidade de sonhar com mudanças locais e universais. Tenho me restringido às batalhas cotidianas, às pequenas lutas, pois acredito nelas e me imagino ainda com capacidade de lutar por conquistas sociais. Para mim, o sonho não deixou de existir. Ele foi apenas adiado para a minha geração, certamente. Faz parte da Revolução de que queremos participar.

Menos ansioso e mais experiente, procuro viver a vida como ela se apresenta, sem me resignar.

O meu olhar para o passado não vem acompanhado de nostalgia, pois só valorizo o que vivi; também não sou saudosista, sendo o passado uma referência onde muitas vezes me apoio como experiência. Não é incomum sentir saudade dos meus pais e de outras pessoas queridas, que revivo através das lembranças que reaproximam vivos e mortos.

No capítulo das conquistas, me sinto um ser afortunado. Exerci algumas funções públicas e procurei errar o mínimo possível, e que os erros nunca fossem danosos às pessoas e ao patrimônio público. Todos os esforços por mim despendidos objetivaram aproximar as ações governamentais em benefício da sociedade, e nunca vestir a casaca dos “donos do poder”.

Aos 54 anos, devo à Isabela, minha filha, as mais profundas mudanças em minha vida, e à Vânia, minha companheira, que me apresentou um novo mundo e uma nova forma de viver e amar.

Sigo em frente, lendo, rindo, ouvindo músicas e delas captando o que há de melhor, como esses versos de “Preciso me encontrar”, do compositor carioca Candeia:

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar.

Quero assistir ao sol nascer

Ver as águas dos rios correr

Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer

Quero viver

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar

Diga que eu só vou voltar

Depois que me encontrar [...]”

 

 

A segurança pública e as prioridades do governo

  • 30/12/2014 10:33
  • Geraldo de Majella

 

A declaração do promotor de justiça Alfredo Gaspar de Mendonça ao Cada Minuto, após o Conselho Superior do Ministério Público Estadual (MPE/AL) aprovar por unanimidade o seu afastamento temporário para assumir o cargo de secretário de Defesa Social, merece uma reflexão.

        A leitura possível a partir da declaração ao Cada Minuto deixa em aberto o quanto a segurança pública será efetivamente prioridade. Vejamos o que foi dito: “O governador já deixou claro que irá fazer o possível para manter o combate à criminalidade em Alagoas. O atual governo encerra a gestão com a Lei de Responsabilidade de Fiscal no limite, ou até mais, e o futuro gestor vai encontrar da mesma forma. Mas, se nos primeiros meses essa situação mudar, todo esforço será atendido”.

        O equilíbrio das contas públicas é essencial, mas como segurança pública requer investimentos e custeio diário, essa equação terá de ser resolvida em favor da sociedade e da vida.

        O condicional é, para os governos, o que termina e o que sucede − a palavra mágica. A frase no condicional: “Mas, se nos primeiros meses essa situação mudar, todo esforço será atendido” acende um sinal de alerta antes da posse.

        Como a segurança pública é um caso excepcional, pelo menos durante a campanha eleitoral os candidatos afirmaram que dariam a ela prioridade. Até mesmo apresentaram as soluções através de animações gráficas no horário eleitoral.

Acontece que diante da realidade dura deixada pelo governador Teotônio Vilela Filho, talvez não seja o caso de afirmar que o governador Renan Filho receberá uma herança maldita, mas, isto sim, um campo minado. Recorro a uma expressão do teatro de guerra tão ao gosto das polícias.

De qualquer modo, é prudente entender a mensagem do governador em face do rombo das contas públicas.

Chamaram-me a atenção, na entrevista do secretário, dois outros pontos: “O norte que segui aqui no Ministério Público será continuado. Sei que na Seds o trabalho é muito mais complexo e abrangente, mas acho que um trabalho em conjunto com a saúde, educação e lazer pode fazer a sociedade alagoana ainda mais consciente dos seus direitos e deveres”.

Acrescento, se me permite a intromissão, que sem o envolvimento dos municípios e da sociedade não teremos saída para a crescente epidemia de violência e criminalidade em Alagoas.

A inflexão verbal em direção à sociedade como um passo positivo, ainda acanhado, é um caminho a ser trilhado num ambiente nunca dantes feito pela segurança pública alagoana.

Renovo os meus votos de boas festas e que em 2015 consigamos uma redução significativa da criminalidade em Alagoas. 

 

 

Guerras às drogas e aos pobres

  • 29/12/2014 06:24
  • Geraldo de Majella

 

A discussão aberta para enfrentar a crescente criminalidade no Brasil tem ganhado cada vez mais a adesão de interlocutores da magistratura  e policiais. Antes esse tema era realizado por acadêmicos e pesquisadores. As mudanças de perspectivas das ainda hegemonizadas nas casernas e tornada prática através da guerra às drogas e da criminalização dos pobres.

         O coronel da PM/RJ, Jorge da Silva, tem sido uma voz altiva contra essa prática histórica, tem contribuído com estudos e opiniões nada ortodoxas como a que prestou a Luiza Sansão, no dia 23, último: “Sou coronel inativo na Polícia Militar, onde trabalhei por 33 anos, fui chefe do Estado-Maior Geral da PM e comandei batalhão, sempre com aquela ideia de que nós precisávamos combater os traficantes e, principalmente, os usuários. Percebi que o trabalho que nós fazíamos era como enxugar gelo. E eu pergunto: para quê? Por que tanta gente morta? Qual é a finalidade disso?”.  

         O coronel Jorge da Silva, ainda na ativa, cursou ciências sociais “para refletir”, prestou concurso de professor para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), tornou-se um dos porta-vozes do ramo brasileiro da Law Enforcement Against Prohibition, associação de agentes da lei contra a proibição das drogas.

“O proibicionismo é um modelo macabro, que produz mortes principalmente de pessoas pobres, que não têm voz e morrem como baratas no Brasil inteiro”, afirmou, em 24/11, durante o seminário “Drogas: Legalização + Controle”, uma iniciativa da Leap Brasil e do Fórum Permanente de Direitos Humanos da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Para Silva, legalizar não significa liberar. “Liberado é como está hoje. Nossa proposta é legalizar sob o controle do Estado, e não do mercado mundial de drogas”, afirma, Jorge da Silva.

A Law Enforcement Against Prohibition (Leap) foi criada para dar voz a integrantes ou ex-integrantes da polícia e do sistema penal, que, vivendo na pele a política de guerra às drogas, decidiram “falar claramente sobre a necessidade da legalização e consequente regulamentação da produção, do comércio e consumo de todas as drogas”, explicou o delegado Orlando Zaccone, na abertura do evento.

Segundo Zaccone, a LEAP Brasil possui, hoje, 236 membros, dos quais 167 são policiais, a maioria deles na ativa. A entidade está presente em 21 estados brasileiros e no Distrito Federal, e conta com 1250 apoiadores. “Nós defendemos a legalização de todas as drogas. E sabem por quê? Porque nós somos ‘maus’”, ironizou Zaccone. “E somos ‘maus’ porque os ‘bons’ têm produzido um dos maiores genocídios da História”, completou.

Mãos sujas

“Estou muito cansado de ver policiais morrendo”, afirmou o detetive inspetor Francisco Chao, que atua há 19 anos na Polícia do Rio, com passagem por unidades como a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). “Eu gostaria muito, antes de me aposentar na polícia, e faltam dez anos, de ver o fim da insanidade dessa guerra, que não interessa à polícia e nem à sociedade.”

Chao, que fez uma participação no filme Tropa de Elite 2, contou que a guerra às drogas do mundo real é muito diferente do cinema, e não só porque “sangue cenográfico não fede”, mas principalmente porque a violência e a corrupção apagam as fronteiras entre mocinhos e vilões. “O informante da droga, a gente não encontra na igreja. Ele é um informante sujo, e não tem como mexer com sujeira sem sujar as mãos.”

Para o delegado Thiago Luís Martins, que durante três anos atuou na Delegacia de Combate as Drogas (DCOD) do Rio, o modelo proibicionista está na raiz dos abusos cometidos pelas polícias contra os moradores de favelas e periferias, embora o discurso oficial prefira culpar os indivíduos. “Quando a polícia mata um trabalhador, esse discurso parte da ideia de que o problema não é da política de combate às drogas, mas, sim, de um policial bandido que está na corporação, o que não é verdade”, afirmou.

A causa, segundo Martins, está numa segurança pública que opera pela lógica da guerra. O delegado afirma que o estresse dos confrontos é tão grande que há casos de policiais que “surtam” e disparam contra os próprios colegas. “Em tiroteio na favela, ninguém sabe quem atirou em quem”, disse. “A morte de inocentes, o policial que perde a noção na hora do combate e acaba se excedendo, são fenômenos produzidos pela guerra.”

Falando sobre as origens do proibicionismo, Martins disse que a separação entre drogas lícitas e ilícitas não se baseou em critérios científicos, e, sim, em preconceitos. O modelo proibicionista adotado pelo mundo nasceu nos Estados Unidos, onde, a partir dos anos 1920, o governo passou a proibir substâncias associadas, no imaginário americano, a grupos sociais marginalizados: a maconha, relacionada aos mexicanos; o ópio, aos chineses; e a cocaína, aos negros. “O racismo, a discriminação e o preconceito orientam a política antidrogas desde o seu início”, afirmou.

Em outros países

Também participaram do debate, entre outros, a médica Raquel Peyraube, assessora do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis, órgão do governo uruguaio responsável pela política de regulação do mercado de maconha do país, e o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que falou sobre a experiência portuguesa com a descriminalização de todas as drogas.

Na sua fala, Peyraube deu a entender que a liberação da maconha no Uruguai pode ser apenas o começo. “Concordo com a posição da LEAP de que todas as drogas deveriam ser legalizadas, e estamos trabalhando para isso. Mas, culturalmente e politicamente, é muito difícil”, afirmou.

Outras Mídias, 23 de dezembro de 2014

http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=75356

 

 

 

 

 

 

João do Vale e Miúcha na campanha eleitoral de 1982

  • 27/12/2014 19:58
  • Geraldo de Majella

 

A ditadura militar em 1966 havia proibido as eleições para governador. Extinguiu os partidos políticos e continuou cassando direitos e mandatos de parlamentares, aposentando magistrados, prática que se iniciara a partir do dia 1º de abril de 1964, dia em que o presidente João Goulart [1919-1976] foi deposto da presidência do Brasil.

O ano de 1982 estava se delineando em Alagoas como o ano da virada política. A oposição, liderada legalmente pelo PMDB, apresentava dois grandes nomes para as eleições majoritárias: o advogado José Moura Rocha [1933], ex-preso político, já havia enfrentado os candidatos e o casuísmo da ditadura nas eleições de 1978.

O outro nome: Teotônio Vilela [1917-1983] − a figura mais importante daquela época na política alagoana e um dos lideres da oposição no país. Mas, infelizmente, Teotônio foi desaconselhado a concorrer à vaga de senador, pois os médicos num exame de rotina haviam identificado um câncer.

A trágica notícia pegou a todos de surpresa. Não demorou muito e a chapa foi modificada, com a entrada do deputado José Costa [1935] para disputar o governo, sendo José Moura Rocha deslocado para disputar a vaga de senador, em substituição a Teotônio Vilela. O velho menestrel iniciou o tratamento do câncer e permaneceu bravamente peregrinando pelo Brasil afora.

A presença de Teotônio Vilela na campanha eleitoral em Alagoas foi emocionante. Eram visíveis os efeitos da quimioterapia no corpo do senador; a cada instante os militantes dos partidos políticos clandestinos, do PMDB e os eleitores iam se emocionando, aumentando assim a participação nos comícios e nas caminhadas.

Os indicativos da vitória vinham das ruas; o povo carregava os candidatos nos braços literalmente. Nos porões eram montadas as armações, as fraudes. O que de fato ocorreu. Os candidatos da oposição foram derrotados pela fraude eleitoral.

Dinheiro, roubo de urnas, subornos nas cidades do interior de Alagoas. E a pior das coisas: a violência. Assassinatos de políticos, prefeitos, vereadores, candidatos a cargos eletivos – o jornalista Tobias Granja, candidato a deputado estadual, foi assassinado numa das ruas centrais de Maceió.       

O crescimento da campanha oposicionista é uma realidade que passou a incomodar. As manifestações ocorrem de maneira organizada pelas ruas na capital e nas cidades do interior. São multidões que estão indo cada vez mais às ruas. Os artistas se engajam no processo de luta pela redemocratização do Brasil.

O cantor e compositor maranhense João [Batista] do Vale [1933-1996] e a cantora carioca Heloisa Maria Buarque de Holanda − Miúcha [1937] entram na campanha de vários candidatos pelos estados, até chegarem a Alagoas para participar da reta final da campanha de José Costa [PMDB] a governador e José Moura Rocha [PMDB] para senador. O comício foi o maior até aquele momento, estimado em mais de 60 mil pessoas na praia de Pajuçara.

O senador Teotônio Vilela, visivelmente abatido pelo câncer, esteve presente e falou para a multidão que o aplaudiu e cantou as músicas da campanha, num grande e afinado coro de milhares de vozes.

A dupla andou pela cidade. João do Vale já conhecia os meandros da cidade, estivera em diversas oportunidades cantando e bebendo na noite maceioense. O Bar da Jaqueira era um dos pontos preferidos do autor de Carcará, Estrela Miúda, Peba na Pimenta, entre outras muitas músicas.

João do Vale era militante do PCB. A direção local do Partido procurou o cantor, que declarou: “Se votasse em Alagoas, votaria em Nilson Miranda e Sérgio Moreira para deputado estadual e federal”. Nilson Miranda era um antigo dirigente do PCB, tinha sido vereador e tivera cassados os direitos políticos e o mandato parlamentar em abril de 1964.

Miúcha, artista com vinculações com a esquerda, também pediu votos para os candidatos do PCB e aliados. João do Vale e Miúcha vestiram a camisa de campanha do jovem advogado Sérgio Moreira e, para evitar qualquer tipo de ciúmes entre os outros candidatos, o fato foi registrado pelos comitês dos candidatos, mas o material só foi enviado à mídia depois do comício.

Os jornais de campanha tanto de Nilson Miranda quanto de Sergio Moreira noticiaram o momento. Teo Vilela [1951] é um dos que aparece na foto, embora na época não exercesse cargo político. A sua estreia na política ocorre nas eleições de 1986, quando é eleito senador, sendo posteriormente reeleito para três mandatos consecutivos, em 1986-1994, 1994-2002 e 2002-2006. Em 2006 foi eleito governador de Alagoas.

Os candidatos da oposição foram derrotados numa das mais vergonhosas eleições da história de Alagoas. A derrota se deu em decorrência da fraude eleitoral e da violência política institucionalizada. Foram eleitos Divaldo Suruagy governador de Alagoas e Guilherme Palmeira senador.      

A segurança pública faliu

  • 23/12/2014 12:11
  • Geraldo de Majella

 

O nome do promotor de justiça Alfredo Gaspar de Mendonça, anunciado pelo governador eleito Renan Filho para a Secretaria de Defesa Social (SDS) de Alagoas foi o ponto fora da curva, impactando a base aliada.

A destacada atuação do promotor na coordenação do Grupo Estadual de Combate as Organizações Criminosas (Gecoc) do Ministério Público Estadual tornou-o uma referência no combate à corrupção e aos diversos crimes, inclusive os contra a vida.

        A aposta feita pelo governador Renan Filho consistiu em escolher um nome com boa imagem entre os formadores de opinião. O acerto, partindo dessa ótica, pode ser acrescido de alguns pontos favoráveis: 1) é jovem, mas não é inexperiente; 2) não pertence a nenhum dos grupos internos da segurança pública; 3) trabalha com informações policiais, valoriza esse instrumento e detém informações privilegiadas sobre organizações criminosas; 4) é trabalhador e pessoalmente sério. Conclusão: é o homem ideal.

        A busca por “salvador(es)” tem sido uma constante em Alagoas. Diante da situação falimentar da segurança pública, assumir a gestão da segurança pública é correr o mais alto risco para quem tem uma carreira em ascensão no Ministério Público.

        A área da segurança pública é talvez a mais complexa da administração pública e a mais resistente a mudanças em qualquer nível. Por esse e outros motivos, assumir a gestão da segurança pública sem ter um programa debatido com a sociedade e com os estudiosos da questão só amplia a possibilidade do insucesso.

        O promotor de Justiça Alfredo Gaspar de Mendonça vai aplicar qual programa de segurança pública? Essa pergunta deve ser feita antes da posse do novo secretário de Defesa Social. Alagoas vivencia, faz tempo, uma epidemia de violência sem indicativos de controle.

        Ocupa o 1º lugar no ranking dos estados mais violentos do Brasil, e Maceió, o maior centro urbano, é a 3ª cidade mais violenta do mundo.

O Mapa da Violência de 2014 indica que em Alagoas, de 2008 a 2012, foram assassinadas 10.159 pessoas, 6.114 jovens (entre 15 e 25 anos), 60% do total de homicídios. Em Maceió, no mesmo período, ocorreram 4.799 homicídios; desses, 3.199 foram de jovens (67%).

Alagoas tem 14 municípios com mais de 10 mil habitantes entre os 100 mais violentos do Brasil, são eles: Pilar, Satuba, Rio Largo, Arapiraca, Marechal Deodoro, Murici, Coruripe, Maceió, Branquinha, Joaquim Gomes, São Miguel dos Campos, Santana do Ipanema, Viçosa e Palmeira dos Índios.

        Todas as qualidades de um gestor podem ir pelo ralo se não houver uma política estruturada e abrangente de segurança pública. A “política” de segurança pública executada até o dia 31 de dezembro é a da “guerra contra bandidos”. Essa tem se mostrado ineficiente, e a polícia nas ruas, nos confrontos sem inteligência (nos dois sentidos da palavra), fracassou em Alagoas e em todos estados.

        A capacidade de se reinventar não é da tradição das polícias e dos políticos. Para se reinventar é fundamental romper com dogmas e com as certezas dos manuais militares impostos desde a ditadura militar.

        A segurança pública alagoana é refratária aos estudos e pesquisas sociais; quem determina as ações é a emoção, o “espírito de combate” e o improviso. Mas os políticos também são refratários, ouvem e em geral seguem apenas as orientações dos oráculos modernos: os marqueteiros.

        Visualizar uma possibilidade de queda sustentável nas taxas de criminalidades, começando pelo homicídio, sem o envolvimento direto dos municípios, é uma obra quase impossível.

A “parceria’ do governo estadual com os municípios não pode ser um faz de conta. Um tapinhas nas costas e reuniões formais em Palácio. Para se obter bons resultados só com trabalho sério e diuturno entre os municípios, o estado e o governo federal.

O papel da sociedade na construção de políticas públicas é vital. O gestor da segurança pública que se imaginar capaz de executar uma política sem o envolvimento direto da sociedade fracassará. Há inúmeros exemplos a ser pesquisados Brasil afora.

        O controle das polícias é um item fundamental para se estruturar qualquer possibilidade de ação policial confiável. Cumpre instituir corregedorias com independência administrativa, financeira e transparente.

        Não basta o governador lhe ofertar a carta branca. Isso não vale muita coisa. O secretário de Defesa Social é um secretário em igual condição aos demais. Ou seja: secretário não comanda outros secretários. É um jogo em que o placar é empate.

        A segurança pública é tão importante em Alagoas que o governador é quem deve coordená-la. Renan Filho, se deseja acertar, e eu não tenho elementos que digam o contrário, deve seguir o exemplo do ex-governador Eduardo Campos: levar a crise da segurança pública para dentro do seu gabinete e passar a coordenar todas as ações. Mas, antes, deve construir um programa de segurança para Alagoas. Se errar nesse item, terminará o governo como o de Teotônio Vilela Filho: mergulhado na maior onda de violência da história republicana brasileira.

        Em tempo: doutor Alfredo Gaspar de Mendonça, uma sugestão: mude o rumo do leme, procure as melhores experiências no Brasil e internacionalmente, aconselhe-se com quem estuda os fenômenos da criminalidade, procure não “cair” no canto dos falcões da segurança pública. O fenômeno da criminalidade é mais complexo do que a defesa da lei e da ordem, cantilena historicamente derrotada como estratégia de segurança pública.

        Feliz Natal, e êxito na nova função. O que Alagoas deseja como presente em 2015 é a redução dos terríveis indicadores de criminalidade. 

Em Alagoas, é possível vencer o crack?

  • 22/12/2014 12:36
  • Geraldo de Majella

 

Crack, é possível vencer é  um programa nacional coordenado pelo Ministério da Justiça, com o objetivo de “desenvolver, em parceria com outros Ministérios, uma ação integrada que envolve três frentes de atuação: prevenção, cuidado e autoridade’.

“Nesses três aspectos, o programa integra vários grupos sociais, trabalhando, simultaneamente, na prevenção, no combate, na reabilitação e na reintegração social.

“O programa é um amplo trabalho realizado pelos Ministérios da Justiça, da Saúde e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, da Educação e da Secretaria de Direitos Humanos, visando oferecer aos grupos de risco irrestrito apoio em todas as suas necessidades, contribuindo, desta forma, para a redução dos índices de consumo de drogas”.

A concepção do programa é boa e abre um caminho de possibilidades entre os estados e os municípios no enfrentamento da epidemia do crack no país. Alagoas, não custa lembrar, é o estado mais violento do Brasil, ensaiou  a execução do programa, mas falta efetividade na coordenação e estruturação de uma rede interinstitucional.

As condições básicas existem, há profissionais no serviço público capazes de coordenar e executar; na outra ponta estão as organizações da sociedade civil: algumas desenvolvem trabalhos meritórios, mas o poder público estadual, que deveria exercer a coordenação, pouco faz, negligenciando diante de uma epidemia que cresce cada vez mais.  

A letargia e a pouca importância conferida ao problema contribuem para a permanência dos usuários cada vez mais consumindo o crack e outras drogas ilícitas. O tráfico e as disputas entre traficantes e consumidores de crack são um indicativo da criminalidade na cidade de Maceió e em Alagoas.

A constatação da gravíssima situação é do conhecimento do gestor estadual e dos gestores municipais; o que falta, no entendimento dos técnicos, é o compromisso com políticas públicas de saúde e nas demais áreas.

A epidemia de violência é retroalimentada em grande medida pelo uso e pelo tráfico de drogas, como demonstram as pesquisas. As mudanças esperadas dessa situação não serão vislumbradas se persistirem as práticas e a concepção fragmentada do enfrentamento do problema.

Não seria infundado deduzir que, de maneira subjacente, vem sendo estruturado um “mercado” de dependentes químicos com fins econômicos e político-eleitorais. O econômico e o eleitoral têm caminhado juntos. Os bloqueios ocorridos na estruturação de políticas públicas voltadas aos dependentes químicos são silenciosamente torpedeados nos bastidores do governo.

O enfrentamento dessa dura realidade social não pode continuar nos marcos até agora estabelecidos pelo governo que finda. Verifica-se o loteamento político-eleitoral de áreas do estado tão sensíveis, como a do tratamento e a do acolhimento de dependentes químicos.

O tripé formado pelos trabalhos de prevenção, cuidado e repressão ao trafico terá de ser parte do eixo estratégico de combate à violência em Alagoas, tendo como estratégia o controle da epidemia de crack, a segurança pública utilizando tecnologias na inteligência policial, os investimentos na saúde, a assistência social, cultura etc.

Evidentemente que esse trabalho não será estruturado a partir da concepção da “guerra” e da mão dura e inclemente da polícia, que tem fracassado e produz o aumento vertiginoso do encarceramento de usuários e varejistas do tráfico, majoritariamente jovens.

Em Alagoas, é possível vencer o crack? - é a pergunta que fica.

A voz que encanta as noites

  • 20/12/2014 12:13
  • Geraldo de Majella

Micheline Deise de Almeida, ou simplesmente Micheline, nome artístico da cantora que tem encantado as noites maceioenses há treze anos. Por onde canta enche a casa, seja em barracas de praias, restaurantes ou bares alternativos. Homens e mulheres ficam atraídos pelo seu repertório e pela sua beleza.

         É provavelmente a mais sensual das cantoras de sua geração −. atributo associado a sua voz afinada e seu repertório muito bem montado, vem cada vez mais atraindo admiradores.

         A vida das cantoras e cantores que trabalham na noite não é nada fácil: cantam em pequenos palcos − quando não em calçadas −, isso para não falar de ambiente onde a acústica é imprópria. Em meio a tanta falta de condições de trabalho, são obstáculos e desafios superados através de artifício vocais e/ou performáticos.

         Trabalhar na noite nunca foi moleza, não. Em qualquer época. Diante das dificuldades encontradas, a sorridente Micheline solta a voz e levanta o público. Nesses anos de estrada conquistou uma fatia de público e de fãs de causar ciúmes e dores de cotovelos às colegas de ofício.

Isso fica evidente, pois a cada casa em que se apresenta uma rede de fãs passa e repassa mensagens anunciando o novo ponto de encontro. É público garantido e casa lotada.   

         Não faz muito tempo abriu o show da cantora Ângela Rô Ro, no SESC – Poço, e a plateia a recebeu com entusiasmo e louvação. Sinal, quero crer, de empatia entre o público − que já a conhecia das noitadas – e o repertório montado com algumas canções clássicas da MPB, outras de compositores alagoanos, aliado a sua performance no palco.

         Micheline encanta. “Som de uma saudade” é o titulo do cd que lançou em 2008; são dezoito músicas gravadas, de vários estilos e épocas. Os compositores alagoanos Marcondes e Marcos de Farias Costas, e Robson Amorim – este paulista que já se alagoanizou − são interpretados por Micheline.

 

Aqui Jazz Rex Bar

  • 16/12/2014 15:51
  • Geraldo de Majella

 

Há 14 anos os médicos me aconselharam a parar de consumir bebidas alcoólicas. Não vou esconder, confesso que fiquei chateado, pois sou boêmio das noites e dos dias e permaneço frequentando regularmente os locais onde há boa música e também boas conversas.

        O Rex Jazz Bar é um desses lugares em Maceió, onde é possível ouvir com qualidade o jazz, o blues, o chorinho e outros ritmos.

        O Helvio Gama, idealizador e proprietário, é uma dessas figuras alegres e de bem com a vida, e que vive para fazer amigos.

Helvio é o que antigamente se chamava de um cara boa-praça. Mais que dono de bar, é um sujeito que agrega as pessoas; refinado e modesto, duas das suas inúmeras qualidades e que me fazem cada vez mais admirá-lo.

        Acontece que depois da intempestiva invasão da Polícia Militar e dos funcionários da SMCCU, fato constrangedor para os frequentadores e para ele, claro, o pior veio a galope: foi o anúncio “fúnebre” do fechamento: Aqui Jazz Rex Bar. Ao ler a nota postada no Facebook me lembrei dum verso da música Sabiá de Chico Buarque e Tom Jobim:

 

“Vou voltar

Sei que ainda vou voltar

Para o meu lugar

Foi lá e é ainda lá

Que eu hei de ouvir cantar

Uma sabiá”.

 

        Os motivos expressos na comunicação pelo produtor cultural são para ser aceitos, quando diz: “Por não mais me sentir à vontade diante da humilhação sofrida, de ter o estabelecimento cercado por policiais fortemente armados, nossos clientes expulsos das mesas e nossos móveis apreendidos e confiscados, resolvemos ENCERRAR NOSSAS ATIVIDADES. Além do trauma psicológico sofrido, o cancelamento forçado dos shows também atingiu o financeiro do nosso querido Rex. [...] Após dois anos e sete meses, o Rex acha que, em parte, cumpriu sua missão. Provou que longe dos melhores bares da cidade, ali na Jatiúca, Stella Maris e em seus entornos, bem no meio da semana a música instrumental pode fazer sucesso”.

        Agora nos preparamos para a despedida, na torcida de que seja repensada a sua atitude, para o bem dos frequentadores, dos boêmios, dos jovens e da cidade tão carente de boa música e de um espaço alternativo saudável.

        Volta, Rex Jazz Bar!

 

O Impacto da criminalidade na economia (Final)

  • 11/12/2014 11:42
  • Geraldo de Majella

 

        A inexistência de políticas públicas continuadas para a área da segurança pública tem ampliado o fosso entre o Estado e a sociedade. As autoridades responsáveis pela segurança não têm encontrado respostas convincentes para explicar a crescente criminalidade em Alagoas. Pior. Tratam o assunto em público com “argumentos” de uma época pretérita e que mesmo para aquela época já demonstrava ser ineficaz.

        A utilização do policiamento ostensivo tão só aparenta à população uma sensação – tecnicamente se comprovou falsa - de segurança. Os reais motivos são desprezados pela incapacidade de se fazer uma outra leitura da nova realidade social e econômica que se apresenta.

        As estatísticas disponíveis hoje são mais confiáveis que as coletadas no passado. Mas, volto a afirmar: devido à incapacidade de interpretar os dados e pensar politicas de segurança pública, as autoridades responsáveis pela segurança pública continuam insistindo em manter o posicionamento ideológico de que há uma guerra declarada contra a marginalidade. Para isso mantêm a justificativa do confronto, e as energias são canalizadas para essas concepções reacionárias e belicistas.

A guerra declarada pelo aparelho militar da segurança pública em nível local e nacional produziu nas últimas décadas milhares de baixas dos dois lados. Essa guerra tem interesses outros que não a segurança pública. O Estado que decreta a guerra nunca se declarou vencedor, e nas entrelinhas declara perder a “batalha” para a marginalidade.

Nesse ambiente conflagrado - esta é a visão dos falcões da segurança pública, quero aqui ressaltar -, há grupos de extermínios com origem nas polícias e/ou com o apoio delas, o que tem contribuído para elevar as estatísticas de crimes letais intencionais, os homicídios dolosos, assim definidos tecnicamente.

Os custos com a segurança pública crescem, mas numa proporção inferior ao crescimento do problema. Alagoas dispõe de 10.527 policiais nas três corporações: a Polícia Militar tem 7.294, o Corpo de Bombeiro Militar, 1.307, e a Polícia Civil, 1.926. O orçamento da segurança pública, em 2012, foi de R$ 797.408.780. Esse montante inclui todas as despesas correntes com folhas de pagamentos e custeios e contrapartidas junto aos convênios firmados com o governo federal.

A administração penitenciária é outro sorvedouro de recursos públicos e sem maiores controles em sua gestão. Em 2011 foram aplicados R$ 30.904.085,32, e em 2012 houve um considerável acréscimo, passando para R$ 53.287.101,06. Esse crescimento deu-se em função das construções e reformas de presídios na capital e no interior.

O sistema penitenciário alagoano em 2012 dispunha de 1.113 vagas e tinha 4.153 presos nos presídios, ou seja: um déficit de 3.040 vagas, e a exemplo do que ocorre nacionalmente, não há política de ressocialização dos presos. A população carcerária em 2014 aumentou. O crescimento da população carcerária não tem sido estudado para se encontrar um modelo de redução da população combinado com a ressocialização dos presos. Essa conta ainda não foi realizada, e assim o impacto da criminalidade na economia e nas contas públicas não foi ainda efetivamente mensurado pela falta de estudos e, mais grave, pela improvisação das ações governamentais. 

A violência que se abate sobre Alagoas nas últimas décadas tem tido visibilidade na mídia nacional, mas essa tragédia não fez com que o governo se mobilizasse para encontrar soluções para o problema.

O Mapa da Violência 2014, Jovens do Brasil, evidencia que nos anos 2011 e 2012 foram assassinadas 4.314 pessoas de todas as faixas etárias; e que 2.560 jovens, de 15 a 29 anos, foram mortos no mesmo período. “Um estado como Alagoas, que até poucos anos apresentava taxas moderadas, abaixo da média nacional, em poucos anos passou a liderar o triste ranking da violência do País, com crescimento vertiginoso a partir de 1999”.(Mapa da Violência,p.31,42)

Alagoas alcançou a taxa de homicídios juvenis cinco vezes maior que a dos estados de Santa Catarina e São Paulo. Os efeitos danosos que a criminalidade dissemina na sociedade vêm impactando a economia alagoana. Talvez os efeitos da epidemia de violência ainda não tenham obtido a real visibilidade no canteiro de obras ou no escritório.

        Reinam o temor, a sensação de insegurança da população e os elevados gastos com a segurança privada nas empresas, nos condomínios e nas residências de classe média. Os pobres, moradores dos bairros da periferia de Maceió, sem iluminação adequada, sem serviço de transporte coletivo decente, são submetidos à lei do silêncio e obrigados a conviver com o trafico de drogas; e ainda, muitos deles são obrigados a pagar por “segurança privada” − o justiceiro, uma versão alagoana do miliciano carioca.

            Diante dessa realidade, os governos se esmeram em exibir armamentos e instigam a força pública de segurança a reprimir indistintamente os guetos periféricos, onde a população vive sem a presença do Estado, e o braço estatal que aparece se expressa através da violência policial.

Torturador foi secretario em Alagoas

  • 10/12/2014 17:11
  • Geraldo de Majella

 

A Comissão Nacional da Verdade entregou o relatório final à presidenta Dilma Rousseff, nesta quarta-feira (10) em cerimônia no Palácio do Planalto, o documento trata dos  crimes e violações de direitos humanos que ocorreram no período entre 1946 a 1988. A cerimônia aconteceu no Dia Mundial dos Direitos Humanos.  

A comissão sistematizou uma relação de agentes públicos responsáveis pela repressão, são 377 nomes de militares e civis de várias patentes obedecendo ao critério da cadeia de comando incluído os ex-presidentes da República os generais, ministros e comandantes de áreas.

A comissão apresentou uma relação com 434 nomes de mortos e desaparecidos políticos. Onde constam 210 desparecidos, 191 mortos e mais 33 corpos que localizados e não constavam das relações anteriores.

A ditadura atingiu a representação dos trabalhadores ao intervir em 536 sindicatos.

A ditadura prendeu, torturou, baniu e assassinou militares, a comissão apresentou uma relação com 6.591 militares perseguidos. Os números são espantosos: 3.340 da Aeronáutica, 2.214 da Marinha, 800 do Exército e 237 policiais militares.

Dois entres os 377 torturadores em momentos distintos estiveram em Alagoas e ocuparam postos importantes, o coronel Francisco Demiurgo Santos Cardoso, relacionado entre os envolvido diretamente no desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva e de outros presos políticos. Foi comandante do 20º Batalhão de Caçadores (20 BC), é falecido.

E o general Edson Sá Rocha, ex-secretário de Defesa Social no governo Teotônio Vilela Filho. Sá Rocha planejou o atentado à bomba do Riocentro, em 1981. No dia 1º de maio, quando explodiu uma bomba no colo de um dos militares, incidente que frustrou a ação planejada pelo general e outros militar da linha dura.

 

Carta aberta ao prefeito Rui Palmeira

  • 09/12/2014 12:51
  • Geraldo de Majella

 

Senhor prefeito:     

Vi uma postagem no Facebook onde funcionários da Secretaria Municipal de Controle e Convivo Urbano (SMCCU) recolhiam mesas e cadeiras do Rex Jazz Bar, no bairro de Pajuçara. Fiquei sem acreditar tamanho o desproposito daquele ato. Se havia ou há alguma inconformidade no funcionamento do estabelecimento, o normal nesses casos deve ser a abertura de um procedimento administrativo e caso haja alguma irregularidade que se exija a pronta resolução. E não o recolhimento das mesas e cadeiras.

Senhor Prefeito, falo com a experiência prática de ex-fiscal de postura do município de Maceió, função que exerci durante alguns anos.

Há poucos bares em Maceió onde se pode ouvir música de qualidade. O Rex Jazz Bar é um desses locais, onde os apreciadores do jazz e de outros gêneros musicais passaram a se encontrar todas as semanas. O espaço público usado, em parte, pelos frequentadores é um cantinho escondido de nossa cidade, uma minúscula praça, construída no início da década de 1960, pelo prefeito Sandoval Cajú.

        A Praça do Rex, homenagem ao antigo cinema, esteve abandonada nas últimas décadas, vinha sendo ocupada por adolescentes em situação de risco e que vivem nas ruas e ponto de prostituição feminina e masculina. Esse era o cenário.

O produtor cultural Hélvio Gama, requalificou aquele espaço público ao abrir o Rex Jazz Bar criou alguns postos de trabalho e atraiu jovens e adultos, artistas de várias áreas, intelectuais e boêmios para as noites de música no Rex Jazz Bar.  

Senhor Prefeito, os cidadãos que gostam de boa música, de arte e divertimento proporcionado pelo Rex Jazz Bar à cidade de Maceió, esperam um gesto que aponte uma saída satisfatória para a administração pública e para o proprietário.    

Assim teremos mais músicas em nossas vidas.

Um forte abraço,

Geraldo de Majella

         

A Voz do Povo

  • 04/12/2014 08:03
  • Geraldo de Majella

O semanário A Voz do Povo, órgão do Partido Comunista Brasileiro - PCB em Alagoas, começou a circular no dia 1º de maio de 1946. A redação de A Voz do Povo desde a sua fundação funcionou até a sua destruição, em 1º de abril de 1964, no nº 606 da rua do Comércio, num imóvel que pertenceu à histórica dirigente comunista Maria Augusta de Miranda (Marinete).

O primeiro diretor foi o jornalista e advogado André Papini Góes. Em 1947, Papini foi eleito deputado estadual constituinte pelo PCB. A redação era inicialmente constituída por jovens, alguns ainda estudantes, como Arnoldo Jambo, Floriano Ivo Júnior, Hélio de Sá Carneiro, Murilo Leão Rego e George Cabral, todos militantes do PCB.

        As dependências d’ A Voz do Povo eram compartilhadas com a direção regional de Alagoas. A ocupação destes espaços evidenciava a ligação umbilical que havia entre o PCB e a administração, redação e oficina do jornal.

A máquina que durante décadas imprimiu o semanário era uma Marinoni com muitos anos de uso. Os tipógrafos, além dos seus afazeres, inúmeras vezes consertaram a máquina depois dos sucessivos empastelamentos.

O jornal teve três diretores durante os dezoitos anos de existência [1946-1964]: André Papini Góis, Osvaldo Nogueira e Jayme Amorim de Miranda. 

Em vários momentos de sua vida o jornal teve de ser impresso em gráficas clandestinas em Maceió e no Recife. Esses fatos ocorreram durante os governos de Silvestre Péricles [1947-1951], Arnon de Mello [1951-1956] e Luiz Cavalcante [1961–1966]. O único período em que A Voz do Povo não sofreu com atos violentos foi no governo de Sebastião Marinho Muniz Falcão [1956-1961].  

Nilson Miranda, antigo dirigente comunista e repórter d’ A Voz do Povo, testemunhou: “O jornal circulou durante anos em condições precárias. Mesmo assim era distribuído e lido nas fábricas, nos bairros populares de Maceió e em outras cidades de Alagoas. Foi uma escola de jornalismo.”

No dia 1º de abril de 1964 a sede do semanário foi invadida e destruída; os seus bens foram saqueados e a gráfica foi destruída. Os seus diretores foram presos. Terminou assim uma longa trajetória.

A invasão foi comandada pelos delegados Rubens Quintela e Albérico Barros, e o responsável pelo ato violento foi o comandante do golpe militar em Alagoas, o governador Luiz Cavalcante.   

Segurança Pública no fim do governo

  • 02/12/2014 18:06
  • Geraldo de Majella

 

 

O dia 27 de novembro entrou para a história da cidade de Penedo, quando Leandro Júnior, [Gamimbé], 18 anos, negro, foi preso e levado para a carroceria de uma caminhonete da PM, em pé e algemado, ao lado de dois com os rostos coberto e as viaturas em comboio com as sirenes ligadas, os faróis acesos a circular pelas ruas exibido o preso como um “troféu”.

        Esse ato indigno de uma guarnição militar que tem a função constitucional de garantir a segurança pública, se preste ao papel execrável de justiceira. Não devendo em nada as volantes do tenente José Rufino, algoz de Lampião, no final da década de 1930.

        Os responsáveis pela segurança pública de Alagoas e principalmente o governador Teotônio Vilela, está devendo uma explicação a sociedade alagoana.  

        O advogado Daniel Nunes, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, em nota pública, pede explicação do ignominioso ato policial.

        A maioria dos policiais militares não concorda com atos dessa natureza, mas o espirito beligerante passado à tropa tem sido enfatizado na corporação.  

        As chacinas, as execuções sumárias e agora o pelourinho instituído pela Polícia Militar de Alagoas tem marcado com sangue o final do governo Teotônio Vilela.

        A Polícia Militar não pode ser exposta a tamanho vexame. Tudo isso depõe contra a centenária corporação.

       

 

Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos

  • 01/12/2014 13:13
  • Geraldo de Majella

O deputado provincial Tomaz Espíndola,  redigiu e aparentou na sessão do dia 26 de maio de 1865, da Assembleia Legislativa Provincial o projeto de criação da Biblioteca Pública, numa tramitação célere o projeto em menos de um mês, no dia 10 de junho, é aprovado e dezesseis dias depois, no dia 26, o presidente da Província, desembargador Joao Batista Gonçalves Campos, torna o ato através da Resolução n.453.

O artigo 1º da Resolução anuncia: “ Fica criada no Lyceu desta capital uma Biblioteca Pública, a qual se comporá dos livros existentes no atual Gabinete do referido Lyceu pertencentes à Província e dos que forem sendo comprados pela presidência por autorização da Assembleia Legislativa Provincial”.

O prédio onde passou a funcionar a  biblioteca  foi construído por José Antonio de Mendonça, o Barão de Jaraguá, mas só na década de 1940 é que a edificação passou  a ser chamada de Palacete Barão de Jaraguá.

A Biblioteca Pública iniciou as suas atividades com o acervo bibliográfico de 2.072 obras escritas em várias línguas, como latim, francês, italiano, inglês, alemão, espanhol, árabe, grego, além de português, o que perfazendo 2.622 volumes e mais 547 folhetos e 1.366 estampas de botânica.

Passados 149 anos a Biblioteca Pública Estadual recebeu o nome de Graciliano Ramos, através do Decreto nº 29.175 de 2013.

A Biblioteca Graciliano Ramos após a restauração foi ampliada e passou a ocupar todo o antigo Palacete, antes dividia com o Arquivo Público. Acessibilidade é um dos principais itens da reforma, o prédio secular passou a contar com um  elevador e computadores e áreas destinadas as pessoas com deficiências e espaços para crianças.

Os usuários terão a disposição 95 mil volumes, acervo de obras raras. “Espaço exclusivo, dotado de protótipo de uma Biblioteca Modelo, para o atendimento voltado às Bibliotecas Públicas Municipais de Alagoas. Além do acervo literário, a Biblioteca dispõe de um acervo de obras de arte, em exposição permanente, e ainda o Memorial Graciliano Ramos um espaço dedicado à vida e obra do escritor alagoano aberto a visitação pública”.

A Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos ficou bem mais atrativa para os usuários que já a conhecia e será certamente uma surpreendente novidade para os jovens e as crianças que não conhecem.

Visitar a biblioteca será um grande programa e a partir daí o antigo Palacete do Barão de Jaraguá será reincorporado a vida afetiva dos alagoanos.

Finalizo, parabenizando o Secretario de Estado de Cultura Osvaldo Viegas e a diretora da biblioteca, a bibliotecária Maria Luiza Russo pelo grande obra entregue a cidade de Maceió e ao povo alagoano.

Fonte: Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos. In Sant’Ana, Moacir Medeiros, Pequena História da Biblioteca Pública Estadual, Maceió, Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2014, p. 67.  

 

  

O cantor e compositor Robson Amorim

  • 30/11/2014 06:59
  • Geraldo de Majella

 

Robson Amaral Amorim (1948), músico e compositor. Nasceu em Recife no dia 13 de novembro de 1948. Filho de Aderson Evaristo Amorim e Diva Amaral Amorim. Estudou no Colégio Marista de Recife. Aos dez anos, acompanhado dos pais e das irmãs, deixou a cidade e foi morar em São Paulo, cidade onde passou a viver com a família.

O pai, Aderson, trabalhava como vendedor da Guararapes Tecidos em Recife. Chegando em São Paulo, continuou trabalhando como atacadista de tecidos. A mãe, dona Diva, trabalhava como cabeleireira.

Robson continuou os estudos em São Paulo no Colégio Mackenzie. Ao sair da adolescência, procurou um trabalho. Deixou, assim, por falta absoluta de tempo, os estudos. Trabalhou em várias empresas, mas foi na Crusoé Discos – época de vinil – onde trabalhou duro por dezoito anos.

Ter trabalhado como vendedor em uma loja de discos influenciou Robson para a música. No entanto, alguns anos depois, reconheceu que sua formação musical e também o gosto pela composição foram moldados no trabalho na loja Crusoé Discos.

As conversas frequentes com clientes, músicos, colecionadores, professores e gente simples que cultuavam bom gosto musical definitivamente abriram um novo horizonte na sua vida, e até mesmo a perspectiva de um dia viver como músico profissional.   

A música sempre esteve presente em sua casa. A mãe e as duas irmãs tocavam piano. O trio musical da família era composto pela mãe Diva e pelas irmãs Rose Mary e Sonia Maria do Amaral Amorim.

Mesmo com a influência musical na família, o verdadeiro interesse pelo violão surgiu por meio dos festivais de músicas da TV Record e da TV Tupi nos anos de 1960, período de efervescência da música popular brasileira.

São aproximadamente 130 composições musicais, compostas desde o tempo em que trabalhou na loja de discos em São Paulo, onde começou a compor e encontrou o seu primeiro parceiro, o músico Paulo Viana. A maioria das composições com letras foi feita com Paulo Viana. A outra parte são músicas instrumentais. Até o ano de 2010 foram gravadas 10 composições deste tipo.

Robson Amorim tem como influência musical o músico Baden Powell, definido como seu “mestre auditivo”. Robson continua, incansavelmente, ouvindo as composições de Baden. Seja dia ou seja noite, na varanda ou no quarto, com ou sem o acompanhamento do inseparável violão.

Em Maceió desde novembro de 2004, encontrou um ambiente musical ricamente favorável, bem como a receptividade dos músicos e compositores locais, o que tem contribuído para enriquecer a sua produção.

Integrado à vida cultural, reaproximou-se do choro, gênero musical pelo qual, desde muito jovem, nutre grande paixão. Durante os últimos seis anos [2004-2010], produziu como nunca havia feito e com vários e diversificados parceiros, como os irmãos Marcos e Marcondes de Farias Costa, Stanley Carvalho, Ubirajara Almeida, Ricardo Cabús e Gustavo Gomes.

A maturidade musical e o crescimento da produção musical o fizeram apresentar seu trabalho em festivais e mostras, tanto em Alagoas como fora do Estado. Participou, em 2006, com a música autoral “Marisol”, da 3ª edição do Palco Aberto, projeto da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

Outro evento em que também conseguiu classificar músicas autorais foi na Mostra do SESC, nos anos de 2006, 2007 e 2008. Em 2006, a música classificada foi “Pequena Suíte Alagoana”, composta com Marcos de Farias Costa e interpretada pelo cantor alagoano César Rodrigues, com participação de Robson Amorim no violão, Ricardo Lopes na guitarra, Van Silva no baixo, Herbeth Vieira na bateria, Luizito no pandeiro, Ronalso na percussão e Uruba na flauta.

Em 2007, foi a vez da música “Chorei”. Composta por Robson em parceria com os irmãos Marcos e Marcondes Costa. Interpretada por Micheline Almeida, acompanhada de Van Silva (baixo), Wilbert Fialho (violões), Everaldo Borges (flauta), Josivaldo Jr. (teclado) e Herberth Vieira (bateria). 

No terceiro ano seguido, 2008, voltou a classificar uma canção no Festival do SESC. “Malicioso”, composta em parceria com Marcos de Farias Costa, interpretada por Micheline Almeida, Robson Amorim (violão), Toni Augusto (guitarra), Van Silva (baixo), Josivaldo Jr. e Juliano Gomes (teclados), Everaldo Borges (flauta), Ronalso (percussão) e Pantaleão (bateria).

Maceió consolidou-se como grande palco para Robson Amorim. Na capital alagoana, vem se apresentando em festivais ou em eventos organizados por órgãos estatais, como ocorreu no 1º Festival de Música do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP).

A música “Chorar Simplesmente”, de sua autoria com Paulo Viana, foi gravada no 1º cd do Choro Alagoano, “Chorano”. Participou da trilha sonora do filme “Lá vem Juvenal”, curta-metragem produzido e dirigido pelo cineasta Hermano Figueiredo.

Robson Amaral é autor da vinheta da Secretaria de Estado da Saúde (SESAU) veiculada em rádios e televisões, campanha de combate a hanseníase.

Tem se apresentado semanalmente em casas noturnas e também em encontros vesperais dos sábados e domingos. O repertório é composto de músicas instrumentais e das suas composições e de autores alagoanos.

Em 2010, Robson classificou-se para o projeto “Quinta instrumental”. A apresentação aconteceu em 7 de outubro, no Teatro de Arena Sérgio Cardoso. Na oportunidade, foram mostradas músicas de sua autoria e choros de consagrados músicos brasileiros. Nessa apresentação, esteve acompanhado de Zailton Sarmento, Mikla, Wagner e Wilbert Fialho.

 

Fontes:

Marise Leão Ciríaco e Robson Amaral Amorim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para não esquecer e não deixar que esqueçam

  • 27/11/2014 20:08
  • Geraldo de Majella

A Comissão da Memória e Verdade Jayme Miranda enviou a Porto Alegre e São Paulo, Olga Tatiana de Miranda, membro da comissão, e Geraldo de Majella, historiador e voluntário, para gravar o depoimento de Nilson Amorim de Miranda, ex-vereador, jornalista e ex-dirigente do PCB, no Rio Grande do Sul. Em São Paulo foi realizado contato com a direção do Arquivo Público do Estado e com o Laboratório do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

 

Para a Universidade Federal de São Paulo foram transportadas 411 caixas, guardadas em 30 nichos ou sepulturas. O conteúdo dessas caixas são ossadas encontradas numa vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus, em 1990, e que desde 2002 estavam alocadas no Ossário Geral do Cemitério do Araçá, à espera de definição quanto à retomada da identificação. Antes, essas ossadas achavam-se jogadas numa sala inapropriada da Unicamp.

 

O Centro de Arqueologia e Antropologia Forense está realizando a análise científica para a identificação dos restos mortais das ossadas transportadas em 1.049 caixas. O grupo de trabalho é formado por arqueólogos e antropólogos da EAF – Equipe Argentina de Antropologia Forense e da EPAF – Equipe Peruana de Antropologia Forense e especialistas brasileiros.

 

É a primeira vez que se verifica o envolvimento de instituições dos três níveis da administração pública: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da prefeitura de São Paulo, e da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. Os trabalhos estão sendo coordenados pelas técnicas Márcia Hattori, Patricia Fischer e Luana Alberto.

 

O desafio está sendo enfrentado. É preciso que seja dito que na vala clandestina do cemitério de Perus foram possivelmente enterrados corpos de militantes políticos, pois três militantes políticos já foram identificados entre essas ossadas.

 

A busca incansável de familiares e de militantes dos direitos humanos é o que tem mantido a esperança de que talvez se encontrem outras ossadas de desaparecidos políticos.

 

O advogado Yuri Patrice de Miranda forneceu as amostras de sangue para o Banco de DNA de Mortos e Desaparecidos Políticos brasileiros e idêntico ato tem ocorrido com outros familiares de presos políticos que desapareceram nos anos mais duros da ditadura brasileira.

 

No Arquivo Público de São Paulo, Marcelo Chaves, diretor do Centro de Difusão e Ação Educativa, entregou à Comissão da Memória e Verdade de Alagoas os documentos pertencentes ao arquivo do Deops de São Paulo, em mídia eletrônica (CD-ROM), num total de 538 imagens. São elas imagens de Gastone Lúcia Beltrão, Luiz Almeida Araújo, Manoel Fiel Filho e Manoel Lisboa Moura.

 

Foi solicito ainda a Marcelo Chaves para que levantasse a documentação de: Gilson Souza Leão, Agrimeron Cavalcante da Costa, José Albuquerque Rocha, Jarbas de Holanda Pereira, Gildo Marçal Bezerra Brandão, José Thomaz da Silva Nonô Neto, Selma Bandeira Mendes, Sílvio da Rocha Lira, Paulo Elisiário Nunes, Sebastião de Sá Figueiredo, Adalberto Timóteo da Silva, José Maria Cavalcante, Alberto Passos Guimarães, Alberto Passos Guimarães Filho, Audálio Dantas, José Francisco de Oliveira, Henrique Cordeiro Oest, Aloysio Ubaldo das Silva Nonô, Mário Agra Júnior, Nelito Nunes de Carvalho, Teotônio Brandão Vilela e Nilson Amorim de Miranda.

 

Festas Literárias em Alagoas

  • 17/11/2014 17:04
  • Geraldo de Majella

A FLIP é a Festa Literária Internacional de Paraty que ocorre anualmente desde 2003 na cidade de Parati, idealizada pela editora inglesa Liz Calder e organizado pela Associação Casa Azul, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) presidida pelo arquiteto Mauro Munhoz.

Na primeira Festa Internacional de Parati o homenageado foi o poeta, diplomata e compositor Vinicius de Moraes. Ao tomar conhecimento, comprei as passagens aéreas, reservei hotel e fui a Parati. Foi paixão à primeira vista. Daí em diante fui a sete Flips seguidas.

Em Parati conheci Ovídio Poli Junior, idealizador e organizador da OffFlip, evento paralelo que inclui dezenas de escritores de várias cidades do país. O OffFlip tornou-se também um evento de repercussão nacional. Em companhia do escritor Carlito Lima participamos de algumas edições da OffFlip.

Os três primeiros homenageados foram Vinicius de Moraes (2003), Guimarães Rosa (2004) e Clarice Lispector (2005); em 2006, o homenageado foi o escritor Jorge Amado. A delegação alagoana, inicialmente composta por mim e Carlito Lima, agora recebia dois reforços de alta qualidade, o casal Janaina Amado e Luiz Carlos Figueiredo, residentes em Maceió.

Esse grupo no Rio de Janeiro se encontra com Dora e João Jorge Amado; numa van descemos a serra em direção a Parati. Numa das paradas João Jorge, filho de Jorge Amado, lança um desafio: por que vocês não organizam uma festa literária em Palmeira dos Índios, terra de Graciliano Ramos?

Respondemos que iríamos levar à frente o desafio. A conversa mudou de rumo e voltamos a falar de acontecimentos, e mais que isso, de “causos” engraçados.

O desafio não saiu mais de minha cabeça, nem da cabeça de Carlito Lima.  Quando voltamos ainda esboçamos a intenção de falar com o então prefeito de Palmeira dos Índios, Albérico Cordeiro, mas resolvemos aceitar a sugestão do médico Fernando Andrade, que conversou conosco na barraca Pedra Virada. Com muito entusiasmo, ele nos sugeriu a cidade de Penedo.

A proposta foi aceita e passamos a organizar a Festa Literária de Penedo (FliPenedo), que se realizou de 30 de novembro a 3 de dezembro. Num prazo de três meses, 28 escritores alagoanos e de outros estados participaram, sem cachê, e cerca de 4.500 livros foram doados às bibliotecas das escolas e aos estudantes. A FliPenedo teve uma única edição.

Em 2010, o escritor Carlito Lima, agora na condição e secretário de Cultura de Marechal Deodoro, criou a Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar). Em pouco tempo tornou-se um dos principais eventos culturais de Alagoas, dividindo essa salutar disputa com a Bienal do Livro de Alagoas.

Faço este registro para tornar público como uma ideia despretensiosa se materializa, ganha corpo e passa a influenciar uma nova geração de leitores e escritores.

A V Flimar homenageou o compositor, arranjador e cantor Djavan Caetano Viana (1949), alagoano de Maceió.

A sugestão de João Jorge Amado nasceu com o nome de FliPenedo e brotou no solo fértil de Marechal Deodoro pela cabeça e mãos de Carlito Lima.

Vida longa à Flimar.

 

Cadê o Davi?

  • 17/11/2014 06:17
  • Geraldo de Majella

Davi da Silva é negro, pobre, jovem, mora na periferia de Maceió desaparece após ser abordado por policiais militares. A dona de casa Maria José da Silva, mãe de Davi, tem chorando, batido em portas que não se abrem e menos ainda responde a pergunta da mãe desesperada: cadê o meu filho?

Os negros, jovens, pobres e moradores da periferia de Maceió são os mais vulneráveis do Brasil. Em Maceió a possibilidade de um jovem, negro ser assassinado é cerca de 20 vezes maior que em qualquer outra cidade do Brasil.

O comandante da polícia militar não vem a público explicar o que aconteceu e esse caso, como tantos outros, começa a ser “esquecido” pela (in)segurança pública de Alagoas e pela banalização da vida. 

Dona Maria José gravou um apelo dramático e postou nas redes sociais. A PM e a Secretaria de Defesa Social emudecida esperam o tempo passar e que outro fato tenebroso apareça para encobrir o desaparecimento de Davi da Silva.

Não podemos deixar esse caso entrar para a estatística do esquecimento oficial.

Cadê o Davi? É o que todos nós queremos saber.

 

O Impacto da criminalidade na economia (II)

  • 13/11/2014 11:23
  • Geraldo de Majella

 

A segurança pública não entrou definitivamente na agenda governamental nacional e estadual. As ações são reativas. O impacto da criminalidade na economia pode ser mensurado de vários ângulos; o econômico talvez seja o mais concreto. Mas como se devem tratar as crescentes perdas humanas e seus desdobramentos?

A juventude está sendo dizimada em Alagoas. Falar assim não causa impacto, afinal os jovens que estão morrendo são pobres, negros, moradores da periferia e com pouco poder ou sem poder para influenciar os formadores de opinião.

Os custos com a violência no Brasil atingiram a cifra de R$ 258 bilhões no ano passado – quase 6% do PIB, que é a soma de todas as riquezas que o país produz em um ano. É a conclusão do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esses dados estão sistematizados no anuário da violência.

“Dos 258 bilhões gastos com os custos da segurança pública e da violência no Brasil, só R$ 65 bilhões são gastos com políticas públicas de segurança e com o sistema prisional. Isso significa que a gente gasta três vezes mais com os efeitos perversos da violência e da segurança privada do que com políticas públicas voltadas ao enfrentamento do crime e da violência”, afirma Samira Bueno, diretora do Fórum.

O improviso do governo federal na área da segurança vai ficando evidente quando não há politicas públicas consolidadas e as relações com os estados são pontuais. A secretária nacional de Segurança Pública, Regina Miki, diz que a violência só vai cair se houver integração dos poderes. “A solução está em aproximarmos o Judiciário da política de segurança pública e termos o respaldo da ressocialização dentro do sistema prisional”.

O Programa Brasil Mais Seguro foi lançado em Alagoas como um piloto na área da segurança pública. Não há mudanças significativas e menos ainda métodos de avaliação do programa que venha afiançar a sua eficácia. Os indicadores negativos na área levaram Alagoas à condição de estado mais violento do Brasil.

O Mapa da Violência de 2014 indica que em Alagoas, de 2008 a 2012, foram assassinadas 10.159 pessoas, 6.114 jovens (entre 15 e 25 anos), 60% do total de homicídios. Em Maceió no mesmo período ocorreram 4.799 homicídios; desses, 3.199 foram de jovens (67%).

       Os trágicos números apresentados pelo anuário revelam que em 2013, 490 policiais foram mortos, sendo 75% assassinados fora de serviço. E que 11% dos homicídios do mundo aconteceram no Brasil.

Os custos econômicos, sociais e humanos estão juntos, mas essa conta não fecha por uma razão simples ou relativamente simples: diante de tantas mortes, muitas delas evitáveis, não é possível colocar numa planilha de custos e depositar numa conta pública.

Essa questão é mais complexa e muito mais difícil de ser conduzida com serenidade e racionalidade como são conduzidas as questões econômicas em si. A violência tem um custo alto para toda a sociedade e tem impactado severamente a economia e as famílias.

 

 

 

 

 

 

 

O impacto da criminalidade na economia (I)

  • 03/11/2014 12:09
  • Geraldo de Majella

O fenômeno da criminalidade tem sido estudado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. As pesquisas têm impactado o governo federal nos últimos vinte anos, de FHC a Dilma Rousseff.

Há esboços e tentativas de construção de politicas públicas sendo discutidas por técnicos e gestores, inclusive projetos pilotos têm sido testados.

        O governo federal, desde o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, demonstrou ter-se curvado à realidade do crescente fenômeno da criminalidade no país.

Mas como a segurança pública é constitucionalmente uma atribuição dos estados, o governo federal é o polo passivo e só tem atuado quando solicitado pelos governos estaduais.

A participação do governo federal − a face mais visível − tem se dado pela Força Nacional de Segurança, tropa constituída por policiais militares, civis e peritos cedidos pelos estados, Alagoas inclusive.

A Força Nacional tem prazo predeterminado: são 60 dias, podendo ser prorrogado. Atua no policiamento ostensivo e auxilia a polícia judiciária na conclusão dos inquéritos instaurados por homicídios, tráfico de drogas etc.

Estados com dificuldades financeiras – é o caso da maioria − não poderão arcar com os custos da Força Nacional. Entretanto, superar a crise de insegurança pública não será possível mediante profissionais de segurança pública com baixa qualificação e também com orçamentos restritos, o que tem tornado difícil esboçar uma reação inteligente e eficaz para que seja superada a crise de segurança publica e haja redução da criminalidade.

A criminalidade é uma questão complexa e de dimensões multifacetadas, por isso mesmo suas razões estão fora do entendimento e do alcance das polícias e dos políticos. Essas polícias e esses políticos têm atuado ao longo dos anos com modelos anacrônicos e com foco exclusivo nas “políticas tradicionais” de segurança pública, as repressivas, que giram em torno de armamentos, construção de presídios e ações ostensivas, sem nenhum efeito duradouro e com resultados pífios.

Essa receita está esgotada. A sociedade exige políticas públicas de segurança em que os resultados se evidenciem e a paz seja o resultado concreto.

As experiências de políticas públicas, algumas delas, estão ainda em fase de implantação. Os resultados são pontuais, como nos casos de Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Há diferenças significativas entre um estado e outro, e até mesmo os estágios de execução são distintos. 

Em Alagoas, diante da explosão de violência das últimas décadas, há ações positivas e pontuais a serem estudadas, e já com resultados concretos. São as Bases de Policiamento Comunitário.

O controle da criminalidade e a reconquista do território para o Estado, como no caso do Rio de Janeiro, reduzindo os índices de violência urbana nas regiões metropolitanas e/ou nas cidades médias, são uma evidência de que a estruturação de políticas públicas para a área da segurança é a saída segura e duradoura.

As forças econômicas da sociedade estão há tempo submetidas ao estado de insegurança pública no Brasil. É raro identificar um político que faça constar em sua plataforma de governo o controle da criminalidade e a redução da violência, sem manipulação de dados estatísticos nem violações dos direitos fundamentais da população mais pobre e excluída.

Isso para não falar de que não há garantias concretas para os agentes econômicos e para a sociedade de que as políticas públicas na área social serão integradas com uma estratégia de governo.

A criminalidade crescente tem impactado a economia em várias regiões do país. Esse impacto pode ser mensurado, primeiro, pela insegurança provocada pelo tráfico de drogas em territórios sob o domínio de facções criminosas.

Segundo: o efeito devastador causado pelas disputas dos pontos de comercialização de drogas nos bairros atinge diretamente a educação, expondo a comunidade escolar (diretores, professores, funcionários, alunos e suas famílias)  e tornando-a presa fácil do conflito.

Terceiro: o aumento vertiginoso da criminalidade tem atingido majoritariamente os adolescentes e jovens que ocupam ou poderiam ocupar os postos de trabalho, irradiando um clima geral de insegurança na população e no empresariado.

Muito embora tenha havido discussões, não se chegou ainda a um consenso a respeito das melhores formas de atacar esse grave problema social.

O fato de a sociedade civil, suas agências e o empresariado ainda não fazerem constar de suas agendas a redução da criminalidade a níveis toleráveis requer a  mobilização geral de todas as forças sociais e atores políticos para que haja um controle da criminalidade e da violência como estratégia de governo.

 

Poeta, compositor e boêmio

  • 02/11/2014 13:01
  • Geraldo de Majella

 

Paulo Renault Braga Villas Boas [1958-2003], poeta, compositor, funcionário público, trabalhou na Fundação Cultural Cidade de Maceió e Fundação Teatro Deodoro – Funted. Antes havia trabalhado como vendedor da Brahma. Nasceu em Maceió no dia 29/10/1958 e faleceu em Maceió no 19/11/2003. Filho de Renault Paranhos Villas Boas e Leda Braga Vilas Boas. Cursou até o 3º período de administração de empresas no Centro de Estudos Superiores de Maceió - CESMAC. Casou-se com a professora Márcia Maria Lima Villas Boas; o casal teve dois filhos, Rodrigo e Sergio Lima Villas Boas.

        A política foi um dos assuntos que mais atraiu Paulo Renault, além da poesia e da boemia. Tinha nas veias o sangue do histórico militante comunista Júlio de Almeida Braga, seu avô e um dos fundadores em Alagoas do Partido Comunista Brasileiro – PCB, razão fundamental de tanto falar do avó e de relatar em segunda mão as proezas do velho comunista nas prisões e durante a vida de operário e inventor de instrumentos mecânicos.

         Paulo Renault ousou na juventude entrar para a militância política no antigo PCB, mas logo admitiu não ser essa a sua opção de vida. Pediu “baixa” do PCB e seguiu o seu caminho de poeta e compositor. O que de fato estava certo, pois a política partidária não seria o melhor caminho para ele trilhar.    

Paulo Renault foi parceiro de Chico Elpídio, Eliezer Setton, Marcondes Costa e Carlos Moura, dentre outros. Das músicas compostas em parceria com os amigos, algumas foram gravadas. A temática de suas composições foi sempre focada na condição social do ser humano, seus desejos e suas fraquezas, com influências da bossa nova, da música de raiz nordestina e da MPB.

Integrou um dos mais importantes grupos musicais de Alagoas, o Grupo Terra. Esse conjunto musical foi criado no final dos anos 70 e permaneceu até o início dos oitenta. Márcia, sua companheira, diz que ele “possuía aguçado senso musical e uma voz privilegiada, com um agudo incomum, e que a sua relação com o violão – instrumento de sua predileção − era apenas a de um pretenso tocador, pois não se dedicava com a profundidade que gostaria ou deveria”.        

Os músicos que constituíram o Grupo Terra se tornaram uma referência da sua geração. Entraram de corpo e alma na produção de música alagoana, com forte influência do estilo regional. Durante a década de 70 despontavam no cenário artístico nacional grupos musicais como o Quinteto Violado e a Banda de Pau e Corda ambos pernambucanos.  

A motivação dos músicos era também a do compositor Paulo Renault, que tinha como uma das suas características pessoais o entusiasmo e a grandiloquência. Talvez por ser dessa maneira, “mergulhava de cabeça” em tudo que escolhia

A passagem pelos vários órgãos públicos de cultura era, além do seu oficio, um caminho para tentar se expressar politicamente no ambiente artístico e cultural das Alagoas.     

    

Autodidata

 

O temperamento irrequieto o conduziu por toda a vida – curta, é bom que se destaque. Morreu com apenas 45 anos. Era autodidata; sem que nunca houvesse estudado direção teatral, codirigiu com Paulo Déo, em 1995, uma peça do consagrado escritor gaúcho Moacyr Scliar, Introdução à Prática Amorosa.

Três anos depois, em 1998, ajudou a montar o espetáculo Maceió Cidade Aberta, com o seu amigo o cantor e compositor Chico Elpídio. Esse show foi baseado numa de suas obras, e os poemas foram musicados por Chico Elpídio. A direção ficou a cargo do experiente diretor José Márcio Passos.

O trabalho como produtor musical também o atraia e por muitos anos produziu shows de cantores alagoanos como Eliezer Setton, Leureny Barbosa, Nara Cordeiro, Wilma Miranda, entre outros. O envolvimento na produção não era restrito à montagem formal do espetáculo apenas mas acabava se envolvendo muitas vezes na escolha do repertório; opinava sobre os arranjos musicais e até mesmo sobre a apresentação no palco de cada um dos artistas.

Livros

 

 

A Saga do Toureiro é o primeiro livro, com 18 poemas inéditos, editado pela FUNTED em 1990. O livro fez parte da coleção Palco e Luz. Os poemas são críticos ao mundo capitalista globalizado, onde a ideologia do individualismo domina o mundo e transforma os seres humanos em objetos e/ou máquinas de consumo.

Quando Paulo Renault morreu, Maceió Cidade Aberta estava sendo produzido. Os 25 poemas que compõem o livro foram ilustrados por Mário Aloísio, arquiteto e seu amigo. Só em 2004 foi publicado pela Editora Catavento.     

Maceió Cidade Aberta é um conjunto de poemas em que a cidade e sua gente são retratadas. A identidade do poeta com a cidade natal rende muito mais que uma ode. É possível se perceber o que liga um poeta marginal aos marginalizados sociais. É a denuncia do cotidiano mais cruento, são os encontros e desencontros ocorridos entre Paulo Renault e Maceió.

A cidade que sucumbe diante da miséria a que sua gente é arrastada é a mesma cidade em que o poeta foi criado e andou pelos becos, ruas, avenidas, cruzou córregos e se banhou na lagoa Mundaú e no mar. O descaso e o sofrimento do povo e da cidade se confundem com a vida do poeta que romanticamente quer vê-la aberta, livre da miséria e feliz.

Renault produzia lentamente. Publicou apenas dois livros com 43 poemas; deixou outros poemas inéditos, letras de músicas e textos esparsos que merecem ser organizados em outro volume, para assim completar a sua obra.

 

 

O boêmio

 

         A boemia era uma das atividades que lhe davam prazer desde a adolescência. O bate-papo em bares, restaurantes e botecos, nas casas mais seletas ou na periferia, não o incomodava e da sua boca ninguém ouviria nenhum comentário ou resmungo. O boteco com três mesinhas à beira do riacho do Salgadinho era um termômetro da sua satisfação.

Agora imaginem os finais de tarde no Largo do Mercado de Jaraguá, no alegre Buraco da Zefinha? Um típico pé-sujo da cidade, mas que durante muitos anos foi frequentado por boêmios de várias extrações sociais. Era o local onde o poeta pontificava com mais assiduidade.

O samba cantado pelo cantor Zé Paulo era o que havia de melhor e diferente nas tardes de sábado em Maceió. O velho cantor de samba, com seus óculos escuros, adorno que o identificava muito mais que o documento de identificação, o RG. 

Os intervalos invariavelmente eram destinados aos recitais dos poemas de sua autoria ou de outros poetas. Os amigos, depois de tomar muitas, insistentemente solicitavam que Paulo Renault declamasse Vou embora pra New York, o seu mais conhecido poema. Era um delírio embebido no álcool. Palmas, assovios, gritos e mais bebidas, sempre.

No entorno do Buraco da Zefinha e do Poeta se formou uma confraria em estilo profundamente anárquico, e até foi criado um bloco de carnaval chamado Família Josefina. O bloco desfilou apenas um ano pelas ruas do bairro. O poeta foi um dos destaques. Fantasiado, desfilou pelas ruas e becos de Jaraguá. O ponto alto foi o momento em que solenemente foi afixada uma placa em homenagem à Rapariga (prostituta) Desconhecida.  

O território mais conhecido das prostitutas em Maceió recebeu em pleno carnaval essa singela homenagem póstuma. Nada mais justo do que se prestar uma homenagem pública às trabalhadoras do sexo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O poeta Zé da Feira

  • 29/10/2014 08:23
  • Geraldo de Majella

 

 

José Alves Feitosa, jornalista profissional (repórter fotográfico) e poeta. Nasceu em 29 de março de 1951 na cidade de Paulo Jacinto, Alagoas. Filho do cearense Antonio Alves Barbosa e de Rosa Feitosa Barbosa. O pai “seu” Antonio, trabalhador, passou parte da vida entre Alagoas e o Ceará, mas em 1960 o velho artesão toma uma decisão definitiva na vida: fixou-se em Paulo Jacinto, região serrana no agreste alagoano. Estabelecido na cidade montou uma pequena fábrica de calçados de couro.

A produção da semana era vendida aos sábados nas feiras de Viçosa e aos domingos em Paulo Jacinto. Os chinelos, as alpercatas e os sapatos eram de boa qualidade, rapidamente formou uma boa clientela nas duas cidades. O negócio era pequeno, não dispunha de capital suficiente para comprar matéria prima em quantidade suficiente para obter maior lucro. Mas mesmo assim criou a família com o suor do seu trabalho.

José, o segundo dos filhos, depois de perambular como cigano com o pai entre Alagoas e juazeiro do Ceará, e também após o falecimento da mãe, dona Rosa em 1963, foi estudar em Viçosa, cidade vizinha onde morava o avô paterno “Seu” Camilo. O contato com os cantores, a música popular e a poesia de cordel, abriu uma janela na vida do adolescente que mais tarde se tornaria poeta.

O ambiente de boemia em Viçosa, terra de grandes figuras, como o músico Zé do Cavaquinho, Teotônio Vilela, Octavio Brandão, José Maria de Melo, José Pimentel, José Aloísio Brandão, Alfredo Brandão, Sidney Wanderley, Denis Melo, Eloi Loureiro Brandão, Nelson Almeida e outros. Feitosa, diz sempre que: “Foi em Viçosa que iniciou o aprendizado do jornalismo e de minha profissão de repórter fotográfico.”

Trabalhou como repórter fotográfico em todas as redações de Alagoas, dos extintos Jornal de Alagoas, o mais antigo do Estado, que pertencia a cadeia dos Diários Associados e Jornal de Hoje, até os atuais Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, na primeira fase do jornal, quando foi inaugurado e pertencia ao saudoso senador Teotônio Vilela. Novamente está trabalhando como repórter fotográfico na redação do jornal Gazeta de Alagoas.

O fotógrafo desenvolveu habilidade e apurou a sensibilidade no dia-a-dia: cumprindo pautas, fotografando a seca, a miséria no sertão de Alagoas ou em Maceió, captando cenas cruéis de crianças saciando a fome catando resto de comida no lixo para comer em bairros periféricos. O olho de repórter e a sensibilidade de poeta caminharam juntos, sempre e desse feliz casamento nasceu um grande fotografo e cidadão.

O dia-a-dia na redação de um jornal é, para muitos, enfadonho, sem grandes perspectivas, mas para José Feitosa, essa rotina foi superada com os projetos que desenvolveu. O afastamento temporário das redações aconteceu em vários momentos. Primeiro vieram as campanhas eleitorais, ao ser tratado para cobrir campanhas de candidatos majoritários tanto ao governo de Alagoas como ao senado da República, em 1982 e 1986.

Nas eleições de 1982 entregou-se de corpo e alma, passou a ser fotógrafo e poeta oficial dos candidatos José Costa e José Moura Rocha. O Brasil desde 1966 não elegia os governadores dos estados, a ditadura militar havia acabado com as eleições diretas através do voto popular, os governadores passaram a ser escolhidos pelas assembléias legislativas.

A década de 1980 entrou com esperanças de que o país superaria a ditadura militar. José Feitosa foi eleito dirigente sindical, em diversas oportunidades e para diversos cargos na diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas. O movimento sindical brasileiro havia crescido, greves eram proibidas, mas os trabalhadores vinham realizando movimentos paredistas em vários estados e categorias, os jornalistas de Alagoas também fizeram a sua em 1979.

A luta contra censura nas redações era uma das principais bandeiras dos jornalistas. Em todos esses momentos esteve presente o jornalista e poeta José Feitosa, o Zé da Feira.