Pinacoteca Universitária apresenta “A lágrima das coisas”

Foto:Rose Dias

Objetos ganham significados nas obras da artista plástica alagoana Hilda Moura

 

A artista Hilda Moura traz aos salões da Pinacoteca Universitária a exposição “A lágrima das coisas”. No dia 29 de setembro, a partir das 20h, o público poderá conferir uma série inédita de pintura sobre tela e sobre papel, além de duas instalações que irão compor a mostra. Seus novos trabalhos abordam a relação entre a infância e a maturidade.
Para tratar essa relação em suas pinturas, os objetos são dotados de um forte significado simbólico: eles expressam sentimentos, revelam o silêncio e o distanciamento existentes nas relações humanas. São a tesoura, a linha, a agulha que se assinalam como entraves à comunicação entre a criança e o adulto, o que fomos e o que pretendemos ser. “É por meio da pintura que esses objetos ganham significado”, afirma Hilda.
Além dos objetos, a artista nos apresenta elementos da fauna e da flora – sempre presentes em suas pinturas – que se misturam ao corpo feminino, mostrando-nos um mundo que não necessita de racionalização. Um olhar à fragilidade das relações, aos contrastes e conflitos que permeiam a vida humana. A exposição “A lágrima das coisas” convida o público a um universo em que a delicadeza e a profundidade conversam entre si.
“A lágrima das coisas” é a segunda exposição individual da artista Hilda Moura, que já realizou a mostra “Hábito” na Galeria Sesc Maceió, em 2015.

Bienal do Distrito Federal

Recentemente a artista foi selecionada na categoria Pintura, com a obra intitulada “Eva”, para compor a Bienal de Arte Contemporânea do Distrito Federal 2016, promovida pelo Sesc DF. A artista alagoana Hilda Moura destaca-se entre os 40 trabalhos artísticos que representam predominantemente o eixo Rio-São Paulo.

Sobre a artista

A artista alagoana Hilda Moura teve as primeiras aproximações com o desenho e a pintura na década de 1990. Dedicou-se também, durante dez anos, ao aprendizado da cerâmica, através dos ensinamentos do Mestre Deda. As experimentações dessa época contribuem decisivamente com as mudanças, que ocorrem na posterior retomada da pintura. Atualmente, a artista desenvolve técnicas mistas com o uso de óleos, acrílicos e ceras em suas novas séries.

Serviço

O quê: Exposição “A lágrima das coisas”, da artista plástica Hilda Moura
Local: Pinacoteca Universitária, localizada no 1º andar do Espaço Cultural Universitário Salomão de Barros Lima, Pç. Visconde de Sinimbu, 206 – Centro – Maceió – AL
Abertura: 29 de setembro de 2016, às 20h
Visitação: 30 de setembro a 18 de novembro de 2016, de segunda a sexta, das 8h30 às 18h
Mais informações: (82) 3214–1545 e https://www.facebook.com/pinacotecaufal
Informações sobre a artista: http://www.hildamoura.com/ e http://fb.com/ateliehildamoura

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Caminho da Luz III (Final)

 

O dia 24 de julho amanheceu frio, e era com frio que teríamos de subir até o topo do Pico da Bandeira. São 2.892 m de altitude, marca que lhe confere a condição da mais alta montanha dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e dasregiões Sudeste e Sul.

Esse era o tamanho do desafio que se apresentou pela frente. O grupo era composto de pessoas, boa parte pelo menos, com experiência em caminhadas de longo percurso e com obstáculos. Os comentários eram de que havia entre nós caminhantes que já tinham subido entre sete e dez vezes o Pico da Bandeira.

A troca de experiências, todo o clima era positivo, e o nosso ânimo, o meu e o de Vânia, permaneceu alto; as nossas expectativas eram boas. Estávamos na reta final do percurso de quase duzentos quilômetros. A nossa trajetória era excepcional, principalmente a minha em particular, que estive durante cento e vinte dias cuidando dos dois joelhos. Até aquele momento nada de anormal havia acontecido.

Iniciamos a subida a partir do Terreirão, rumo ao topo; segundo os nossos guias, seriam 9,5 quilômetros para subir e igual distância para descer. O tempo frio do amanhecer do dia – a temperatura era de 6º C no meio da manhã –esquentou um pouco.

Paramos muitas vezes durante a subida para contemplar a beleza da serra do Caparaó. Tudo para mim era deslumbrante, não tenho outro adjetivo para tanto. O sol ajudou a todos nós dissipando as nuvens; o vento soprou com menos intensidade e a sensação térmica foi reduzida. O frio intenso da manhã logo passou a ser uma temperatura agradável.

A mochila, com lanches, a nécessaire com tesoura, agulha, esparadrapo, remédios e o canivete, além do cantil com água potável na cintura e cerca de quatro horas de subida íngreme começarama pesar.

A atenção redobrada para não pisar em falso e torcer o pé, consumir pouca água, com goles parcimoniosos. Esses cuidados repassados pelos mais experientes eram cumpridos com uma disciplina quase militar ou guerrilheira, situação que difere do meu dia a dia.

Quando ouço falar da serra de Caparaó, lembro-me de um amigo alagoano, o ex-sargento da Marinha Edval Augusto de Melo, um dos militares que participaram da guerrilha de Caparaó, preso no dia 1º de abril de 1967. A guerrilha de Caparaó foi a primeira resistência ou tentativa de resistência armada à ditadura militar.

Essa lembrança me acompanhou durante o percurso. Quanto mais eu subia, mais perplexo ficava com tamanho obstáculo para a instalação de um“foco” guerrilheiro. Talvez fosse a Sierra Maestra brasileira.

O fato é que continuamos a subir, eu com essas lembranças, e Vânia a contemplar a beleza. Os dois persistiam a subir até o topo do Pico da Bandeira. Depois de mais de cinco horas, o cansaço e o desânimo por alguns minutos se instalaram entre nós. Faltando cerca de trezentos metros paramos e resolvemos desistir.

Isso é comum acontecer entre os caminhantes. As dificuldades mais comuns, como bolhas, calos, torções, nada disso aconteceu conosco. Era cansaço, fadiga. Eu, num certo momento da caminhada fiquei mais atento ao meu batimento cardíaco. Procurando não forçar, mas não falava nada para Vânia, não queria trazer-lhe preocupação com algo que não dava indicações de inconveniência. É típico de quem sofre infarto; a partir daí torna-se mais cauteloso.

Encostamo-nos a uma pedra e ficamos descansando e a observar os nossos amigos descendo, outros subindo até o topo. Palavras de estímulo, todos diziam.

– Força. (Era a mais comum.)

– Não desistam, está tão perto!

Até que três jovens – dois homens e uma mulher – vieram em nossa direção e disseram:

– O senhor e a senhora não vão desistir. Nós vamos ajudá-los.

A moça pediu a minha mochila, um dos rapazes pediu a mochila de Vânia. E recobramos as forças e o ânimo para concluir a subida até o topo do Pico da Bandeira.

A chegada foi triunfal. Senti-me um alpinista que escalara o Everest ou algo equivalente. A sensação é indescritível ao avistar aquele conjunto fantástico de serras entre Minas Gerais e Espírito Santo.

Queremos deixar registrado que só foi possível chegarmos ao topo do Pico da Bandeira porque contamos com a solidariedade daqueles três jovens.

Obrigado!

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Foi um prazer lhe conhecer

 

O jornalismo brasileiro perde o brilhante repórter Geneton Moraes Neto, morto no dia 22, na cidade do Rio de Janeiro. Em novembro de 2010, na Festa Literária Internacional de Olinda (Fliporto) tive o privilégio de conhecê-lo. Quem me apresentou foi o jornalista Homero Fonseca, seu amigo e colega dos tempos em que ambos trabalharam no  Diário de Pernambuco. Nesta noite estavam presentes ao jantar Iracema, companheira de Homero e Isabela, minha filha.

Ouvi várias histórias contadas pelos dois com a atenção de um monge, não queria perder um lance. Até que num determinado momento Geneton falou da dificuldade que estava tendo para localizar um ex-guerrilheiro.

Não me contive e perguntei, quem era. Ele falou o nome do comandante Clemente, um ex-guerrilheiro e ex-dirigente da Aliança Libertadora Nacional (ALN), um dos homens mais procurado do Brasil até 1973, quando foi obrigado a exilar-se. Clemente era o codinome de Carlos Eugênio Coelho Campos da Paz, alagoano e meu amigo.

Disse-lhe com satisfação que essa dificuldade estava superada e passei o número do telefone do comandante Clemente.

Geneton surpreso falou que faltava encontrar o Clemente para concluir um programa, alguns meses depois a entrevista foi exibida no programa Dossiê Globo News.

Ainda continuamos conversando, eu ouvindo mais que tudo. Passava da meia noite quando nos despedimos apertei a sua mão e falei: foi um prazer lhe conhecer.

Hoje, digo: que a terra lhe seja leve.

  

 

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Livro, Carapeba e Cachaça

 

Lêdo Ivo

                   

Os sebos e alfarrábios de minha infância e adolescência sobem agora à minha lembrança, diante deste livro de evocações do historiador e investigador cultural alagoano Geraldo de Majella.

Os que ele registra neste Panorama Cultural de Maceió, não são os mesmos do meu tempo. Situam-se em locais diferentes. Guardam uma multidão de volumes que surgiram após a minha partida, refletem a realidade de uma época vertiginosa marcada pela emergência de tecnologias atrevidas e até agressivas. Mas, apesar de todas as mudanças ocorridas no ar do mundo e do tempo, hão de conservar a mesma atmosfera plácida da cidade antiga e cuja placidez só era interrompida pelo fragor dos tiros sazonais que ceifavam vidas e saciavam rancores, disputas e vinganças.

Lembro-me de alguns deles. Na Rua do Livramento, junto à igreja, era o sebo do Barbosa, que ocupava a sala de visitas de sua casa familiar. Na Rua do Comércio, entre o Beco São José e a Praça dos Martírios, situava-se outro sebo, no qual terei adquirido os meus primeiros livros em francês. Um deles era Notre Coeur desse Maupassant que ainda hoje suscita a minha admiração, e do qual possuo, compradas num alfarrábio insigne de Paris, as obras completas ilustrada e editadas pela Librarie Paul Ollendorf. E havia ainda outro sebo, na esquina da Rua Boa Vista com o Beco São José.

Onde terei encontrado Song-Kay o Pirata, de Emilio Salgari, uma das estrelas bem-amadas da constelação e Coleção Terramarear? Ainda hoje ele está na minha biblioteca, guardado como uma relíquia ou sobra de naufrágio. E, graças a ele e a tantas outras histórias de tesouros e piratas, e ilhas e ventos dos mares do Sul, pude sulcar a vida inteira, confiante na verdade de minha imaginação, o caminho que me indicaram na infância.

Os sebos e alfarrábios ora registrados pelo historiador Geraldo de Majella  — um historiador tão atento à vida cotidiana e provinciana e ao episódio aparentemente irrelevante — são outros, mas conservam o mesmo rito comercial  de antigamente e sustentam iguais intenções. São lugares em que nem sempre se encontra o que se procura ou deseja; mas se encontra sempre o que não se esperava e surpreende. E, entre os vendedores de livros velhos aqui consignados, avulta a figura do ex-carroceiro Biu, que estacionava o seu “burro sem rabo” na Praça Dom Pedro II.

Contém esta obra de Geraldo de Majella muitas informações e reflexões sobre as bibliotecas de Maceió e as livrarias alagoanas. Será que elas existem atualmente ou são ficções graciosas? Ou não será no Recife que se abastecem os alagoanos contagiados pelo que o poeta Logan Pearsall Smith chamou de “a leitura, esse vício impune”?

Recordo-me de que, no meu tempo de colegial desejoso de ser escritor, havia na Rua do Comércio a Casa Ramalho, que chegou até a ser uma editora, publicando autores alagoanos. Durante semanas, ela exibiu na vitrina um exemplar de Angústia de Graciliano Ramos. Ninguém o comprava, embora seu autor (então enclausurado na Ilha Grande, como comunista) retratasse naquele romance uma Maceió noturna, soturna e dostoiewskiana.

Todos os dias eu me detinha diante da vitrina da livraria e namorava o volume solitário. Finalmente juntei sobras das mesadas semanais e o comprei. A sua leitura foi um dos grandes acontecimentos de minha vida de leitor em flor.

Também são diferentes os dispersos bares e restaurantes captados pela pena astuciosa de Geraldo de Majella. No meu tempo, imperavam a Helvética, defronte à Igreja do Livramento, o Ponto Certo na Praça Deodoro, o bar da Casa Colombo, e o Bar Elegante na Rua do Comércio. Destes, o que ainda é mencionado, como local de reuniões literárias, é o Bar do Cupertino. Nele, no início da década de 30, costumavam reunir-se Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, Maceió era então a capital literária do Nordeste e ignorava sua suprema condição.

No livro de Geraldo de Majella são outros os bares, botecos e restaurantes, outros os boêmios gulosos e mulherengos e os literatos ambiciosos e sedentos de notoriedade e glórias. Mas haverão de ser os mesmos os naufrágios e as impiedades do tempo. E também não terão mudado as comezainas e bebezainas; são as mesmas, os peixes, crustáceos e mariscos da Alagoa Australis, “rica em pescado”, como está no nosso brasão ilustre. A novidade é a macarronada.

E sabe a essas iguarias incomparáveis este valioso livro de Geraldo de Majella. Tem um gosto de carapeba, de camorim e de sururu; de caranguejo; de tira-gosto de caju regado a cachaça; de feijão de corda e manteiga de garrafa. É um livro visceralmente alagoano. Lateja nele o mistério de nosso berço, de nossas águas e terras, de nosso passado e presente, das chuvas e das tanajuras, de nosso povo e de nossos sonhos e pesadelos. E o longo mistério de nossa alagoanidade. E nele sopra o vento do mar.

 

 

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Saudade e denuncia

 

        O saudosismo é uma postura estática perante a vida: abdica-se do presente para reviver nostalgicamente um passado idealizado. Sempre que me deparo com essa manifestação sentimental, eu me pergunto: e daí? Porque se trata, a meu ver, de uma atitude anacrônica que não encerra qualquer lição, apenas acalentando um sonho esfumaçado pelo tempo. Saudade, assim, já disse o poeta, amarga que nem jiló.

 Dito isto, é necessário que se diga mais que esse Panorama cultural de Maceió que tens em mãos, ocupado leitor, embora contenha cálidas lembranças dos anos 70 para cá, não é em absoluto um livro saudosista, pelo fato de o autor ir além do sentimento de mera saudade para traçar em delicadas pinceladas a trajetória cultural da capital das Alagoas, inclusive denunciando os atentados praticados contra a memória da cidade e o descaso para com entidades merecedoras de respeito e atenção.

        Dividido em cinco partes – sebos, livrarias, bibliotecas, bares e restaurantes – tem como fio condutor a importância cultural de pessoas, instituições e estabelecimentos que marcaram época ou continuam presentes na vida cotidiana dos poucos mas sinceros amantes das coisas do espírito na mui leal e formosa cidade de Maceió (diga-se de passagem que, em toda parte, essa turma, embora barulhenta, é sempre minoritária).

Por suas páginas, em linguagem simples e fluida, desfilam personagens antológicos como seu Biu, involuntariamente transformado de carroceiro em sebista pioneiro no paredão da Assembleia, e Nô Pedrosa,raro espécime de anarquista praticante; livreiros antigos e atuais, cuja profissão seduz o autor pela missão de “disponibilizar um bem cultural que contribui para transformar as pessoas e o mundo”, como Geraldo Barroca Portela, entre tantos outros; editoras, como a Edufal, que aposta “num mundo mais culto, onde o livro passe a ser um bem de primeira necessidade”; bibliotecas públicas e privadas – algumas muito precarizadas – que coexistem com o mundo da informação digital; bares cuja clientela era (é) formada por uma fauna de intelectuais majoritariamente de pendores esquerdistas, amantes de copo e conversa, incluindo o Casa Blanca, “um bar com a foice e o martelo”, cuja característica principal era serem todos os seus sócios capitalistas dirigentes históricos do PC do B e onde se produzia o programa radiofônico “Conversa de botequim” – entrevistas ao vivo de personalidades dos mais variados matizes, como os políticos Cristovam  Buarque, Ronaldo Lessa, Renan Calheiros e Kátia Born, e até mesmo um camarada chamado Mossoró, considerado proprietário de bordel.

No quesito gastronomia, Majella dá ênfase a restaurantes populares da Ponta Grossa, onde a pobreza não impedia a formação intuitiva de autênticos e autênticas chefs (que, naturalmente, chamavam a si mesmos de cozinheiro e cozinheira), como era o caso da proprietária do lendário Buraco da Zefa, autora da receita mais sincrética jamais imaginada, a macarronada à cabidela, ou, no mesmo bairro, a Macarronada do Édson,ambiente eclético ao qual compareciam com assiduidade desde “esquerdistas que bebiam e comiam esbravejando contra a ditadura aos mais ferrenhos defensores do regime militar”.

O famoso Bar das Ostras, onde, nos anos 70, tive oportunidade de saborear o famoso camarão à beira da Lagoa do Mundaú, mereceu de Majella um réquiem, digno de uma autêntica instituição maceioense, cuja receita tornou-se, por lei, Patrimônio Imaterial da nação alagoana.

Tudo o que foi dito aqui não é mais que alguns destaques dessa narrativa tão saborosa quanto os quitutes dos bares e restaurantes dos bairros elegantes ou populares da cidade e tão fluida quanto a conversa de boêmios, intelectuais, gourmets e bom vivants em geral desfiadas interminavelmente nas noites mornas refrescadas pela brisa marítima de Maceió.

Vale a leitura.

Homero Fonseca é jornalista e escritor

 

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Caminho da Luz (II)

 

        O Caminho da Luz foi idealizado pelo jornalista Albino Neves, carioca e radicado em Minas Gerais. A Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz (Abraluz),criada em 2006 por Albino Neves, tem a finalidade de apoiar os caminhantes, proporcionando-lhes melhor acesso turístico, cultural, religioso, histórico, ecológico, e mantendo sinalizado todo o trajeto do caminho.

        O Caminho da Luz ampliou a visibilidade das cidades da mata mineira, atraiu um tipo específico de turista, o caminhante, peregrino, de caráter religioso ou não. O ativo a ser explorado no caminho é a beleza natural e os monumentos históricos.

Os investimentos essenciais para a montagem foram o intelectual, o emocional e o desprendimento pessoal para a construção dessa obra.                  

Esse trabalho desenvolvido pela Abraluz é meritório. A organização e a estruturação de um caminho com cerca de 200 quilômetros no Brasil não são tarefas fáceis; requerem dedicação e profissionalismo. É uma obra construída por idealistas e apaixonados por esse tipo de atividade.

Quando ainda era jovem, ou mais jovem, li “Cantares”, poema do espanhol Antonio Machado (1975-1939). Logo me identifiquei e jamais me imaginei um caminhante, mas os versos ficaram dentro de mim:

 

[...] Caminhante, são tuas pegadas/o caminho e nada mais;/caminhante, não há caminho,/se faz caminho ao andar/ Ao andar se faz caminho/e ao voltar a vista atrás/se vê a senda que nunca/se há de voltar a pisar/ Caminhante, não há caminho,/ somente sulcos no mar [...].

 

O meu olhar de caminhante não perde a oportunidade de fazer comparações. As dificuldades físicas, fui superando-as paulatinamente durante o caminho. Abstraí as dificuldades e me pus a olhar um mundo que se descortinou: o rural mineiro. 

A paisagem verde e a cor do cafezal me atraíram. Sou um apreciador de café, tomo café com prazer em casa e em cafeterias. Mas estou longe de ser um conhecedor, um especialista, e nem penso em ser profissional do tipo barista, tampouco um degustador.

A mata mineira, além do café, tem outros produtos agrícolas, como banana, feijão, mandioca, milho, e também a criação de gado leiteiro, suínos, galinhas, tilápias.

A agricultura familiar se apresentou no percurso do Caminho da Luz, para o meu agrado. Sei que essa atividade é a que abastece os lares dos brasileiros e efetivamente gera renda e contribui com a melhoria dos indicadores sociais no interior do país. Mas há médios e grandes produtores rurais no percurso do caminho, inclusive alambique de cachaça com a produção quase que integralmente comercializada no exterior.

Aproveitei a caminhada e conversei com moradores das cidades e povoados, e até no trajeto, com proprietários de pequenas glebas, agricultores familiares. O mineiro é desconfiado, de poucas palavras e reticente, me diziam, mas não foi o que o que percebi; as pessoas com quem conversei foram solícitas e falaram francamente.

Os brasileiros do interior, de Minas Gerais ou de Alagoas, são pessoas gentis e de fácil comunicação. Têm a desconfiança natural, diferentemente dos que moram em grandes centros urbanos, que vivem inseguros e não se permitem parar para conversar com estranhos.

Nesse meu caminhar, subindo e descendo serras e montanhas, só me fortaleceu a convicção de que a pequena propriedade rural bem administrada e com assistência técnica e credito passa a ser forte e competitiva, tornando-se uma alternativa ao atual modelo de desenvolvimento brasileiro, que concentra as maiores energias nas culturas de exportação.

Alimentos saudáveis e com preços justos são uma necessidade para todos nós, caminhantes ou não. O caminho me fez continuar acreditando na viabilidade da agricultura familiar e num mundo novo.

 

        

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Caminho da Luz (I)

 

Em 2010 sofri um enfarte, sem grandes consequências. Fui submetido a um procedimento em que as artérias foram desobstruídas com um cateter manejado pelas mãos habilidosas do cardiologista Dr. Gilvan Dourado, que deixou dois stents como marcas da ciência em meu coração.

        Exercícios, nunca fiz com a disciplina de um atleta, a não ser quando estudante, quando mantinha o desejo de competir em provas amadoras de atletismo. Ou nos jogos de futebol na praia. Mas durante todos esses anos realizei caminhadas na orla de Maceió. 

        A boemia desde muito jovem me atraiu, com ou sem bebidas alcoólicas. A minha dieta incluía tudo, exceto jiló e chuchu,

        A virada mais acentuada talvez tenha acontecido como causa do susto do enfarto aos 49 anos. Porém, considero ainda mais estimulante a disposição e a dedicação de Vânia, minha companheira, que faz caminhadas há mais tempo que eu, com rara disciplina e prazer.

        Essa conjunção de fatores me convenceu a caminhar com mais disciplina e regularidade. Daí em diante, caminhamos em Maceió, em outras cidades de Alagoas e fora do estado.

O Caminho da Luz passou a ser uma meta a ser atingida em 2016. Antes, os caminhantes que eu conhecia, pelo menos os mais antigos e próximos, eram pernambucanos: o economista Abelardo Caminha e as irmãs Lauriza e Nazaré Oliveira, que para meu espanto caminhavam da praia de Boa Viagem, em Recife, até a praia de Ponta Verde, em Maceió. São 270 quilômetros que ligam uma capital à outra, percorrida pela areia da praia, atravessando rios. Para mim, era uma vida típica de bandeirantes à caça de índios no sertão do Brasil colonial.

Agora me vejo na condição de caminhante e não me sinto um bandeirante. Sinto prazer em caminhar e olhar o quanto há de beleza nos caminhos. Procuro ainda mais encontrar beleza no simples que existe na vida rural, ribeirinha, e que em geral o sujeito urbano que passa no automóvel não tem condições de apreciar, e menos ainda vivenciar, nem que seja por alguns minutos ou horas.

Nos caminhos que percorri entre mares e lagoas, matas e canaviais, vegetação agreste e caatingas, fui me dando conta de quanto há de beleza nessas paragens. Mas foi o Caminho da Luz o meu primeiro grande trajeto percorrido, e o fato de alcançar o topo do Pico da Bandeira tornou-se o feito mais significativo.

Há outras belezas possíveis de encontrar na convivência com os caminhantes. Além das montanhas, serras, cachoeiras, matas, cantos de pássaros, e caminhar sobre cristal, recebendo energia oriunda da mica e de pedras semipreciosas.

Cada pessoa encontra o ponto de superação dos seus limites. A fé é uma delas, e talvez seja a mais comum ou a principal. Outros sentiram necessidade de caminhar para obter mais saúde. E há pessoas curadas de moléstias que não só mudaram o estilo de vida como encontraram sentido em viver com simplicidade.

Existem ainda aqueles que querem conviver, nem que seja por sete dias, com pessoas que têm os mesmos objetivos, ou seja: caminhar.

Eu me incluo entre os que passaram a caminhar para manter a saúde e também para conviver com pessoas diferentes das que convivo no dia a dia.

 

 

 

 

 

 

 

       

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Partidos políticos e organizações criminosas, não há diferença no Brasil

 

Não há sinais de que a crise política e econômica esteja no fim ou próximo disso, sendo ou não aprovado o impeachment. A Operação Lava Jato tem ampliado cada vez mais seus alvos e nada indica que esteja perto de ser concluída.

Os empresários, o baronato da construção civil brasileira, doleiros, diretores de empresas estatais, a Petrobras (a principal raiz da Lava Jato), políticos com mandatos parlamentares e executivos, governadores, prefeitos, ministros de estado e políticos sem mandatos, dirigentes de partidos políticos – o PT foi o primeiro grande partido a ser atingido, seguido pelo PMDB, PP, PTB, PSB, PR, que constituem a base aliada de qualquer governo desde 1985, o DEM/PFL e o PSDB (a oposição) –, estão sob a mira da PF, do MPF e da magistratura federal.

Esse cenário devastador aponta para a derrocada dos principais partidos políticos, dos empresários que financiavam as campanhas eleitorais e também se beneficiaram da pilhagem do Estado brasileiro. O mundo desabou sobre a cabeça dos chefões da política nacional, governo e oposição.

As denúncias e as investigações desvendaram a maior e mais sofisticada rede de corrupção e apropriação do Estado brasileiro de que se tem notícia no período republicano.

Partidos políticos com origem na esquerda, na direita e no centro transformaram-se em organizações criminosas. O estilo mafioso revelado pelos delatores é, talvez, a maior e mais surpreendente revelação no meio político-empresarial.

A tradicional corrupção, conhecida e tolerada socialmente, tida como um ato “natural” na cena cotidiana, é parte do passado. Pode-se afirmar que o tipo específico de corrupção denunciada pela mídia e até mesmo por políticos era uma prática amadora.

A profissionalização da corrupção incluiu sofisticação de serviços de lavagem de dinheiro com a participação ativa e preponderante de experientes doleiros, a aquisição de banco no exterior para uso exclusivo de lavagem de somas bilionárias de dinheiro público, além do uso de recursos tecnológicos de última geração.

A sofisticação empresarial em conluio com os políticos, em cada partido político ou organização criminosa, tem os capo di tutti capi ou os chefes de todos os chefes, como ocorre nas organizações criminosas estilo Máfia.

Os partidos com relevância no cenário nacional, a exemplo de PT, PMDB, PSDB, que chegaram à presidência da República e a exerceram durante 21 anos seguidos, estruturaram, cada um a seu modo, a partilha do Estado entre os partidos que formaram a base aliada, associando-se aos grupos empresariais da construção civil, setor elétrico, bancos e outros. É o maior assalto já descoberto no Brasil.

A sociedade acompanha com atenção e tem se declarado contrária a essas práticas mafiosas. A saída para a crise política ainda não foi identificada. O caminho não pode ser determinado pelos que foram pegos pilhando o Estado ou pelos que coonestaram com essas práticas criminosas.

O sistema político e partidário ruiu. E desse escombro não se pode esperar uma saída limpa, honesta e sem vícios antigos; mas estes podem ser encobertos se a sociedade civil não ficar atenta a isso.

Os políticos brasileiros, no geral, são desprovidos de escrúpulos e são produtos da apropriação do Estado. Na atual quadra houve a participação de partidos de esquerda, pelo menos na origem. Os partidos políticos no Brasil são organizações criminosas; há poucas exceções, e essas se encontram no campo da esquerda não petista.

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Mobilizar para resistir e vencer os golpistas.

O governo de Michel Temer não tem relações com os movimentos populares. Os partidos políticos e os parlamentares que votaram o golpe parlamentar na Câmara dos Deputados, e no Senado Federal a abertura do processo de impeachment, desconhecem a sociedade civil por um motivo óbvio: as vinculações desses parlamentares são com os lobbies empresariais, com a ocupação do Estado e a prática da corrupção como estruturação de suas atividades.

        A mobilização dos artistas, intelectuais, produtores culturais e trabalhadores das diversas áreas da cultura colocou nos primeiros dias o governo golpista de Temer contra a parede e reverteu o ato de extinção do Ministério da Cultura (Minc). A derrota politica dos golpistas é emblemática e serve de estímulo aos demais setores da sociedade.

Os movimentos sociais que lutam há décadas pela reforma agrária, as organizações sindicais que representam milhões de trabalhadores rurais e agricultores familiares terão de unir-se para enfrentar o desmonte do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), transformado em secretaria do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Social.

A tentativa de emparedar os movimentos sociais do campo e a agricultura familiar tem o primeiro sinal: a subordinação do MDA e do Incra a uma estrutura politica conservadora e que tradicionalmente luta contra os movimentos sociais e contra agricultura familiar.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), as federações de trabalhadores na agricultura, os milhares de sindicatos, as centrais sindicais que apoiam essas bandeiras e os movimentos sociais do campo como MST, CPT, MTL, MLST e outros têm o dever histórico de unir-se para enfrentar as adversidades, tendo como símbolo da luta inicial contra os golpistas a recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

A luta não pode parar. A mobilização das organizações da sociedade civil que atuam no campo e nas cidades é fundamental, desde que compreendam a necessidade histórica de derrotar os golpistas nessa área.

Mobilizar para resistir e vencer os golpistas!

      

 

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A máscara do golpe

 

 

Homero Fonseca

Tenho entrado em divergência com alguns amigos a propósito da situação política, me esforçando para não ser dominado pela raiva e, sobretudo, para não traduzi-la em agressividade e irracionalidade. Não é fácil pra mim, não deve ser pra eles.

De qualquer maneira, a discussão central é se o afastamento da presidente Roussef foi ou não um golpe. Geralmente, os que defendem o impeachment argumentam com o cumprimento de formalidades jurídicas que dariam um caráter constitucional ao kalten putsch (golpe frio, como chama a imprensa alemã).

Para mim, o processo nasceu no exato momento em que, derrotadas nas eleições de 2014, as oposições não se conformaram com o resultado. A partir dali, a grande mídia e os setores mais conservadores do empresariado (que nunca se conformaram de verdade com a ascensão de um operário sem um dedo à presidência da República, nem com as políticas inclusivas do PT) se uniram aos derrotados e passaram a fustigar violentamente o governo, aproveitando a conjuntura de uma séria crise fiscal (logo amplificada desproporcionalmente até se transformar, pelo terrorismo das expectativas, numa crise geral, recessiva).  Os erros do PT (muitos e indesculpáveis) foram usados para justificar a campanha massiva então deflagrada, mas o real objetivo eram os acertos do PT e a perspectiva de sua permanência no poder.

A Operação Lava-jato (em si, uma iniciativa positiva contra a corrupção sistêmica que grassa entre nós há muito, muito tempo) paulatinamente se desviou para uma rota política, dirigida exclusivamente contra o partido do governo e seus aliados, com vazamentos seletivos, conduções coercitivas injustificáveis e outras truculências, que se constituíram num autêntico estado de exceção comandado pelo aparato da “República de Curitiba”. O processo foi se autoalimentando  dialeticamente, até formar uma bola de neve que, com o combustível diário despejado na fogueira da opinião pública pela TV Globo, Veja e a maioria da grande imprensa, criou as condições psicossociais para a derrubada do governo, suprimindo ou minimizando as vozes da resistência, arrastando o próprio Supremo na “grande onda cívica” gestada por esse formidável complexo conspiratório, até elevar o clima nas ruas a um grau de hostilidade e ódio nunca antes visto na história deste País.

A grande mídia foi um dos principais protagonistas do golpe, mobilizando a opinião pública a seu favor

 Foi essa maré montante que permitiu as estranhas cenas de antigos militantes contra a ditadura de 1964 marchando nas mesmas passeatas em que marcharam Bolsonaro, Eduardo Cunha (simbolicamente), as dondocas perfumadas da Avenida Paulista e os brucutus portadores de faixas pedindo a volta dos militares. Sentiam-se incomodados, mas estavam lá, na mesma trincheira. Depois pediram a cabeça de Bolsonaro e festejaram a suspensão do mandato de Cunha para apaziguar as consciências.

“Pedaladas” e créditos suplementares ao orçamento foram usados como pretexto – nem se deram ao trabalho de provar cabalmente a ocorrência de crime de responsabilidade fiscal. Valia tudo para defenestrar a presidente e torpedear a presumível candidatura Lula em 2018.

O resultado dessa vasta articulação é o tsunami conservador que ameaça varrer o país, afogando conquistas sociais e trabalhistas (nem em 1964 os milicos ousaram estuprar a CLT, como farão agora), entregando o petróleo (a ala majoritária do Exército tinha um viés nacionalista) como já anunciaram com o pré-sal, instaurando um clima de caça às bruxas em matéria de direitos humanos e diversidade de gênero, sexo, cultura, etnias, religião etc. No campo político e econômico, o velho Entreguismo está de volta, travestido de moderno ideário neoliberal. Em termos de costumes, a Idade Média bate às nossas portas vestida de Prada.

Os que negam o golpe branco de hoje alegam as diferenças com o ocorrido há 52 anos. Claro que há diferenças. Os métodos se tornaram mais sofisticados, privilegiando a via institucional, como fizeram em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e agora no Brasil. Tanques nas ruas só em último caso.

Entretanto, é bom lembrar que, em 1964, os autores da deposição do presidente da República negaram veementemente que se tratava de um golpe, afirmaram que agiam justamente em defesa da democracia e cumpriram rituais pseudolegais, para manter a aparência de constitucionalidade: o presidente do Senado, Áureo de Moura Andrade, proclamou legalmente vaga a presidência da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a chefia do governo. Também no Recife improvisou-se uma “solução jurídica”: o impedimento de Arraes foi aprovada pela Assembleia Legislativa por 45 votos contra 17, numa votação "democrática".

Em 1964 era, como hoje é, fundamental para os conspiradores manter a aparência de legalidade, tanto para efeito interno quanto, e principalmente, para o público externo. Os golpes sempre usam máscaras.

Se é certo que a História se repete como farsa, suas consequências, porém,  podem ser trágicas. Quem viver verá. 

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