Blog do Celio Gomes

Lua de sangue

O juiz Sergio Moro disse, em seminário do jornal O Estado de S. Paulo, que o resultado da eleição que vem aí pode representar uma “ameaça” ao trabalho da Operação Lava Jato. Nem original na presepada esse projeto de tiranete consegue ser. O procuradorzinho de “bochechas rosadas”, Deltan Dallagnol, vive cacarejando a mesma cretinice desde o ano passado. E a imprensa continua jogando sobre eles todos os holofotes, como se fossem dois heróis a serviço do Brasil.

Outro magistrado especialista em delinquência intelectual, Marcelo Bretas defendeu, durante debate na Flip, que o Brasil adote a “pena de morte política” para os crimes de corrupção. Para ele, oito anos de inelegibilidade não bastam. Tem de banir para sempre o político que se corrompeu. Bretas não falou se, para juizinho e desembargador que vendem sentença, ele também imagina algum tipo de pena capital. Nada explicou também sobre a imoralidade da farra com o auxílio-moradia.

A coisa anda tão esculhambada no país, que até em evento de literatura somos obrigados a ouvir esse festival de demagogia. Bretas é apenas um deslumbrado que vive nas redes sociais, despejando um amontoado de frases idiotas, para reproduzir ideias igualmente idiotas. É venerado pela “nova direita” – que aliás está devidamente representada em Alagoas por patetas que se pretendem intelectuais. São os pensadores do Twitter e do Facebook. Ah, sim, eles amam Bolsonaro.

Por falar no especialista em boçalidade e truculência em geral, há uma crise em sua candidatura, que não consegue costurar apoios de outros partidos. A procura de um nome para vice na chapa já provocou um festival de piadas – para o espetáculo ficar bem de acordo com o perfil do tosco personagem. Bolsonaro tem tudo a ver com a sanha justiceira dos fanáticos que adoram Moro, Bretas e assemelhados. Toda essa gente sonha com um país governado sob as ordens de um brucutu.

Entramos nessa onda tenebrosa: de um lado, as peripécias jurídicas patrocinadas por togados; de outro, as bandidagens retóricas de salvadores da pátria – uma velharia que se repete com nova maquiagem. Um dado relevante nesse cenário é que ideias assim tão primárias atraem mais os jovens e os mais ricos. É o que mostram várias pesquisas publicadas, ao longo dos últimos meses, pelo Datafolha, por exemplo. E ainda há quem acredite que tudo isso é “renovação”.

Aliás, todo mundo, em todos os cantos, procura o tal do novo. É uma lorota atrás da outra nessa conversa furada. Por aqui, tem um monte de jovens chegando na vida partidária. Filhotes de coronéis – que dominam paróquias alagoenses desde o Brasil Colônia – vendem a imagem de “mudança” e “transformação”. É muita comédia. (E hoje é sábado, um dia depois da lua de sangue!).

Na Folha de S. Paulo, mulheres denunciam caça às “bruxas” de Maceió

A pergunta que se faz aqui é: na contemporaneidade haveria caça pública de mulheres do tipo bruxa? Tudo indica que em Maceió, capital das Alagoas, em pleno nordeste brasileiro, sim. Você acaba de ler uma pequena parte de um texto publicado no site da Folha de S. Paulo, assinado por quatro mulheres que integram uma ONG feminista sediada na capital alagoana.

O blog da Folha AgoraÉQueSãoElas apresenta as autoras assim: Ana Antunes (atriz), Bruna Teixeira (educadora social e empreendedora criativa), Juliana Barreto (antropóloga) e Ticiane Simões (atriz). O texto critica uma investigação anunciada pela prefeitura de Maceió, para identificar a autoria de pichações na Praça do Skate, na Ponta Verde. Parece que isso tocou fogo nas redes sociais.

As ativistas denunciam “machismo institucional e lesbofobia”. As autoras também condenam a abordagem do assunto na imprensa alagoana, que tratou as pichações como “vandalismo”. Sem citar nenhuma emissora, apontam para o preconceito exposto “no principal telejornal do Estado”. Suponho que seja uma referência ao ALTV, exibido diariamente, em duas edições, na TV Gazeta.

As pichações na praça trazem frases que exaltam pautas feministas, como a descriminalização do aborto. Há também imagens que traduzem relacionamento afetivo entre garotas. Por isso, as autoridades estariam agindo de forma tão contundente ao decidir “caçar” as mulheres pichadoras em Maceió. É o que acusam as ativistas que agora dão visibilidade nacional ao caso.

Diante da reação contra o pixo, as autoras do texto decidiram assumir a criação coletiva das mensagens. Daí surgiu uma espécie de campanha, a #QuemFezEssePixoFuiEu. Se as autoridades municipais querem prender as garotas, terão de procurar por todas elas, em todos os lugares. Sem dúvida, com esse verdadeiro manifesto, elas chamam atenção para o debate da hora.

Ainda segundo a Folha, as ativistas que assinam o texto “são fundadoras e associadas” da Ambrosina – Ateliê para Igualdade de Gênero e Empoderamento de Mulheres. Afirma o blog que, após reivindicarem a autoria coletiva das pichações, “hoje, as bruxas autoras dos pixos são incontáveis em Maceió”. Imagino que nossos gestores não esperavam por essa repercussão tão ampla.

Gostei do texto publicado pelas quatro integrantes da Ambrosina. Merece ser lido. Recomendo que o leitor dê uma olhada no site da Folha e confira as ideias que estão ali. Elas falam do “silenciamento das mulheres” na terra dos marechais. Faz todo sentido. O que mais tem por aí, em nossas belas instituições, é valentão adepto da filosofia do prendo & arrebento, como já escrevi aqui.

A violência contra a mulher é uma das maiores barbaridades no país. Esse é o pano de fundo e, ao mesmo tempo, o centro da questão na denúncia que fazem as autoras no texto publicado pela Folha de S. Paulo. Tomara que o episódio sirva para conter o ânimo autoritário dos detentores de cargos públicos. E, sim, nossa imprensa precisa pensar além da palavra de ordem oficial.

Ativismo, conhecimento e arte! Um passeio pela Reunião da SBPC

A Reunião da SBPC em Maceió começou, no último dia 22, com uma saraivada de ataques ao governo Michel Temer. Foi o que se viu na cerimônia de abertura, com as presenças de dois ministros. Eles ouviram os acadêmicos criticarem o corte de verba para pesquisas, o que teria provocado a morte de muitos projetos. A choradeira é uma das marcas desse encontro da entidade.

O clima de insatisfação e protesto parece ter contaminado boa parte do evento. Isso estava claro em debates que vi durante a última quarta-feira, quando visitei o campus da Ufal, onde o encontro ocorre até sábado. Numa espécie de mesa redonda organizada pela Associação de Pós-Graduandos, a mesma reclamação sobre carência de recursos era a questão central entre os falantes.

Mais adiante, em outra roda de debatedores, o tema em jogo era o avanço do “neoliberalismo”. Pelo que entendi, cientistas sociais estavam determinados a demonstrar que este é um dos males que estão destruindo a ciência brasileira. O tom da palestra lembrava a militância, o proselitismo tão comum na guerra política nossa de todos os dias. Faltou originalidade aos doutores.

Paro em outra tenda, desta vez para ouvir as vozes que militam em favor da diversidade de gênero e pela valorização da cultura afro-brasileira. Embora não sejam novidades, são temas hoje na moda e mais que obrigatórios num evento como a Reunião da SBPC. Ao lado, lembrando os velhos hippies, aquelas banquinhas que oferecem anéis, pulseiras, brincos e colares, produtos do mundo artesanal.

Com todo o respeito aos mestres da tecnologia e da robótica, dispensei o convite para ver aquelas invenções e geringonças que fazem a festa dos jornalistas de televisão. É uma das atrações mais procuradas. Nossos repórteres investigativos se divertem pra danar com as maravilhas do mundo científico. Aliás, na TV Gazeta, o encontro da SBPC foi tratado como se fosse um parque infantil.

Da ciência para a arte. Numa das salas da Faculdade de Direito, estive num bate-papo com o cantor e compositor Wado. Múltiplo artista, ele acaba de lançar o livro Água do Mar nos Olhos, que reúne todas as suas letras acompanhadas por desenhos também de sua autoria. A mesa foi mediada pela jornalista Patrycia Monteiro, coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

O livro do Wado, que foi selecionado em edital da Imprensa Oficial, é, além do conteúdo poético-visual, um objeto de arte em si mesmo. E isso deve ser creditado ao talento de Fernando Rizzotto, um dos maiores designers do país. Ele assina o projeto gráfico, a capa e a diagramação da obra. O resultado é irretocável. Wado falou sobre escrita, criação, parcerias, referências e delírios.

Quando caiu a noite, palco e passarela deram lugar à música e à dança de origem africana. Depois, o próprio Wado apresentou seu show no espaço principal dedicado a nomes da produção musical em Alagoas. Até a reitora Valéria Correia caiu no balanço, ao som do catarinense que escolheu Maceió para brilhar aos olhos do mundo. E assim terminou meu dia na 70ª Reunião Anual da SBPC.

Para quem não foi até lá, garanto que vale a pena. Ainda dá tempo.

Para sediar Reunião da SBPC, Ufal resolve às pressas velhos problemas

Convidado pelo camarada Coelho, fui conferir de perto o que se passa na Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que ocorre em Maceió até o sábado 28/07. Como o leitor sabe, as atividades, das mais variadas, estão ali no campus da Universidade Federal de Alagoas. Há debates sobre tudo quanto é tema, abertos à participação do público em geral. Recomendo.

Chegamos no começo da tarde e saímos por volta de nove da noite. Antes de falar um pouco mais da programação, vou registrar o que descobri sobre a organização do evento, ao conversar com alunos e professores da Ufal. Eles me contaram que, nas últimas semanas, o campus esteve tomado por trabalhadores, de várias especialidades, contratados às pressas para sanar encrencas.

Um exército de pintores, pedreiros, eletricistas, encanadores e cortadores de grama correu contra o tempo para deixar as instalações da universidade em condições adequadas para receber milhares de pessoas por uma semana. De fato, os prédios usados pela SBPC estão todos com pintura nova, placas de sinalização nos lugares certos, banheiros bem cuidados e nenhuma janela quebrada.

A grama foi devidamente aparada em terrenos amplos diante dos prédios, como toda a frente da Biblioteca. No bloco da Faculdade de Direito, por exemplo, várias salas que nunca foram usadas finalmente estão abertas – tudo por causa das demandas do encontro nacional da SBPC. Instalações hidráulicas e elétricas também foram recuperadas, a toque de caixa, nos últimos dias.

Veja só, não há nada de errado em dar uma boa arrumada na sua casa para garantir o bom funcionamento de um evento incomum. Mas o que a Ufal correu para resolver agora deveria estar resolvido desde sempre. A universidade deve manter suas instalações em ordem em respeito à sua própria comunidade. Seu orçamento milionário é suficiente para garantir esse padrão básico.

Ao saber desse trabalho emergencial – para sanar velhos problemas no campus da universidade –, pensei no Brasil. Na verdade, é nossa tradição. É a mesma lógica que se viu na organização da Copa 2014 e nas Olimpíadas 2016. Ao povo, a porcaria serve; em dias festivos, aí não. O perigo fatal é que as obras sejam uma maquiagem para se exibir aos visitantes ilustres. Depois, voltamos ao lixo.

Tirante a ressalva que acabo de fazer quanto à organização, vale a pena uma visita ao encontro da ciência no campus da Ufal. Pretendo falar um pouco mais sobre as atividades que vi durante meu passeio por lá. Mas como já estiquei demais este post, volto no próximo com mais SBPC.

Clandestino, sigo de lotação em Maceió

A semana começou tensa para motoristas que transportam passageiros em diferentes pontos de Maceió. Refiro-me aos profissionais que, registrados oficialmente como taxistas ou não, usam o carro para o transporte coletivo. É a chamada lotação. Os táxis passam nos pontos de ônibus e viram opção para quem está a caminho do trabalho, da escola, do lazer ou de qualquer outro compromisso.

A lotação é um sucesso por toda a capital. O motorista leva quatro ou cinco pessoas, geralmente de um determinado bairro até o Centro, e vice-versa. Para o usuário, o custo é o mesmo que ele teria caso optasse pelo ônibus. Ocorre que, de carro, a viagem é muito mais rápida e confortável. Cada passageiro paga, como disse, o valor de uma passagem nos coletivos que fazem as linhas da cidade.

O dia foi tenso para essa categoria porque a SMTT estava à caça dos clandestinos. É o que se vê periodicamente. Ninguém sabe qual o critério para a fiscalização botar a cara na rua ou deixar de lado os trabalhadores do volante, como se a atividade fosse plenamente permitida. Como sei disso? Simples: a três por quatro, sou passageiro das lotações. E nesta segunda-feira vi tudo bem de perto.

Explico. Estava num desses táxis, ao lado de mais três pessoas que rapidamente pintaram nas calçadas e esquinas do Vergel. Todos seguiam ao centro de Maceió. Assim que entrei, o motorista começou a trocar informações com outros colegas de trabalho sobre operação da SMTT no pedaço. Um ajudava o outro a driblar os fiscais da prefeitura. O celular é um aliado valiosíssimo nessa aventura para garantir a sobrevivência. Mensagens em tempo real salvam a corrida.

Por causa dos homens da lei, o motorista foi por um roteiro alternativo, seguindo as dicas dos companheiros. E assim fomos driblando os rigores das autoridades. Mesmo entrando em ruas que não seriam o percurso natural, foi muito mais rápido que o ônibus. Meu taxista de ocasião contou já ter tido o carro apreendido em outras operações semelhantes. Nem sempre dá para escapar.

Não sei se os leitores sabem, mas em várias partes de Maceió existem verdadeiros terminais de carros que fazem a famosa lotação. Você chega no local específico e encontra uma fila de veículos. À medida que a capacidade máxima está garantida, lá vamos nós. Nem tente convencer aquelas pessoas a ficarem à espera do ônibus. Não há demora nem viagem em pé se você vai no clandestino.

Em texto anterior falei dos ambulantes e camelôs que estão, de novo, na mira da prefeitura. É mais ou menos a mesma coisa do transporte. Ou seja, enquanto o mundo oficial tenta impor suas regras radicais sobre o povo, a vida como ela é acontece em velocidade sempre muito mais alucinante. Se o bicho pega numa quebrada, a galera descobre rapidamente atalhos para tocar o barco.

Acho que devemos ser legalistas. Respeitar as leis e andar na linha são comportamentos que nos garantem a convivência civilizada. Mas não vejo nos táxis que fazem lotação (e nem nos ambulantes) ameaça a coisa nenhuma. Governos devem encontrar meios que permitam ao trabalhador acordar cedo e batalhar, em paz, por uma renda digna. Por mim, pista livre aos rebeldes e clandestinos.

Suplente de senador é aberração

​Alagoas acaba de ganhar um novo senador. Ninguém deu um voto a ele, mas Givago Tenório jura por Nossa Senhora que vai nos representar com uma dedicação que beira o fanatismo. É mais um daqueles casos de suplente que assume a cadeira na licença do titular. Benedito de Lira, o dono do posto, dá um tempo no mandato para mergulhar integralmente na campanha de reeleição.

A licença do Benedito é de 121 dias, período em que Tenório vai trabalhar duro pelos interesses do povo alagoano. A suplência no Senado é uma pequena aberração que ilustra de modo irretocável o ambiente político nacional. Há muito tempo se fala na extinção dessa figura. Chegará o dia em que uma reforma ampla deverá eliminar essa distorção no parlamento brasileiro.

Agora mesmo, enquanto alianças vão sendo costuradas, um dos desafios dos candidatos ao Senado são os acertos para encontrar suplentes. Cada eleito arrasta dois nomes na suplência. E qual o critério indispensável para a escolha? Esse é o ponto. Praticamente em cem por cento dos casos, vira suplente quem garante grana para bancar a campanha do titular. Pagou, levou.

O suplente que assume no lugar do Benedito é um ricaço do mundo empresarial. O outro requisito para a escolha é o laço familiar. Sobram exemplos, aqui e lá fora, de senadores eleitos que levam na suplência um tio, um cunhado, o pai ou a mãe, e vai por aí. Com esse nível de seriedade em nossa vida pública, temos certeza de que nossos parlamentares têm tudo para um belo mandato.

Por falar em financiamento de campanha, o processo ficou ainda mais complicado após o veto ao dinheiro privado na eleição. Acabou o tempo dos repasses milionários das grandes empreiteiras, bancos e demais setores da economia nacional. A guerra sanguinolenta desde então é pelo bolo do fundo eleitoral com dinheiro público. Ou seja, nunca houve tanta sedução pelo famoso caixa dois. 

O eleitor com espírito poliana, e que acredita em santos na política, pode entrar nas vaquinhas adotadas por candidatos. Você, assalariado que vive no sufoco, pode achar que não custa nada se apertar mais um pouco para doar seu dinheirinho a essas almas puras da política alagoana. Se seu candidato é um jovem idealista, disposto a mudar o mundo, então, doe até o que você não tem.

De minha parte, acho que seu altruísmo teria caminhos mais decentes para contribuir com alguma causa. Mas cada um acredita no que deseja acreditar. O que certamente ocorre é que apoiadores financeiros entram num jogo de compensação: bancam o político que, se eleito, saberá reconhecer aqueles que lhe garantiram sua boa vida por quatro ou oito anos. Na vida real é assim.

Para terminar, o caso Benedito, é bom ficar claro, não traz qualquer novidade. Sua estratégia é a de todos. Imagino as conversas que estão ocorrendo por aí nas negociações para formação de chapas. Todo mundo muito preocupado com projetos e ideias para um Brasil melhor, naturalmente. Em 2019 vamos conferir a qualidade que sairá das urnas. O país sobrevive apesar dessa gentalha patriota.  

Em defesa de camelôs e ambulantes no Centro de Maceió

Faz pelo menos trinta anos que escuto falar em revitalização do centro de Maceió. Eis aí um projeto que atravessa décadas, prefeito após prefeito, e nada. Escrevo isso motivado pela mais nova iniciativa da prefeitura, que acaba de remover ambulantes de parte daquela área da cidade para, segundo as autoridades, disciplinar o uso do espaço público. Mais uma vez, a coisa se dá no improviso.

Para começar, considero muito estranho que o trabalho de agora esteja sob a gestão de um militar. O coronel Ivon Berto Tibúrcio de Lima é o secretário de Segurança Comunitária e Convívio Social. No cargo, ele tem sob seu comando a Guarda Municipal. Na ação de retirada dos ambulantes, houve cenas de truculência por parte de guardas municipais, algo recorrente nesse tipo de operação.

Eu falei do passado. O Centro sempre foi meio bagunçado. Até os anos 1980, todas aquelas ruas famosas (Moreira Lima, Senador Mendonça, Boa Vista etc) eram pista livre para ônibus, táxis, carros comuns, carroças e, claro, camelôs pra todo lado. Foi naquela década que Maceió entrou na onda dos calçadões. Os trabalhadores da rua foram banidos, mas logo voltaram e lá estão até hoje.

Nesse intervalo de tempo, tivemos como prefeitos João Sampaio, Djalma Falcão, Guilherme Palmeira, Pedro Vieira, Ronaldo Lessa, Kátia Born, Cícero Almeida e, agora, Rui Palmeira. Todos, sem exceção, tiveram seu momento de revitalizar o pedaço. Todos foram derrotados inapelavelmente. Basta uma variável como esta para provar o quanto a esfera pública apanha da vida real.

Perambular por aquela região é uma experiência especial. Gosto do cenário um tanto caótico, diversificado e colorido que se desdobra a cada cruzamento, esquina e calçada. A todo instante, personagens únicos atravessam nosso percurso, correndo de um lado a outro, sozinhos ou em grupo. Não será na porrada que vamos acabar com esse fantástico painel da cidade.

Pelos arredores do Teatro Deodoro e da Câmara de Vereadores, por exemplo, vemos vendedores de tudo, de capa para celular a macaxeira e guarda-chuva. Você pode adquirir ainda brinquedos, roupas, óculos escuros e acendedor de fogão. Pode também tomar um caldo de cana ou apenas matar a sede com uma garrafinha de água mineral. Tudo à base do grito de vendedores.

Não vejo problema algum em conviver com esse tumulto cheio de energia e surpresas. Os carrinhos de mercadorias ocupam as calçadas numa convivência agitada e harmoniosa com transeuntes (tranquilos, nervosos ou aparentemente avoados). Caminhar a esmo por essa paisagem, arquitetônica e humana, sem pressa e sem destino, muda o nosso dia. Nada disso cria problema para ninguém.

Por tudo isso, que a prefeitura deixe os camelôs e ambulantes trabalharem em paz. Eles são um patrimônio da capital alagoana. Pior ainda é querer botar ordem na casa com o uso da força bruta, cumprindo as metas discutíveis de um coronel. Maceió tem problemas de sobra, mas, definitivamente, os trabalhadores informais não estão entre essas encrencas.   

Além do mais, as ruas precisam estar cheias, agitadas e barulhentas. Assim é a vida. Caótica. 

​Jornalismo de banalidades

Cerveja artesanal e barbearia para descolados. Que dupla! Agora Maceió entra de vez no circuito das capitais modernosas. Quando escuto falar nessas coisinhas que fazem a festa de certa rapaziada, sempre atenta às novidades da última moda, é como se estivesse lendo alguma paródia sobre universos paralelos. Avesso a frivolidades em geral, me pergunto de qual planeta essa gente veio.

São também alienígenas esses que propagam as maravilhas das comidinhas gourmet, a suposta elegância do mundinho fashion e as sessões com especialistas na arte das boas etiquetas. Tudo está concentrado por ali na geografia Pajuçara-Jatiúca. Se o público adepto desse raso modo de vida cair, por acaso, nas quebradas da capital alagoana, vai pensar que aterrizou em outro país.

Faz sentido. O tempo passa, mas uma tradição pra valer nunca desaparece. Refiro-me ao zelo desmedido que governos e autoridades dispensam às chamadas áreas nobres, com o mesmo empenho com que desprezam o resto da cidade e do estado. A maquiagem para turista ver é uma marca de nossas administrações, não importa a ala política que esteja no comando. É tudo igual.

Como estamos em ano eleitoral, a bandidagem que precisa de votos vai redescobrir as periferias e a pobreza de nossas cidades. Passada a eleição, todos retornam aos apartamentos à beira-mar e às mansões em praias privatizadas. Abominável é o jornalismo bajular esse ambiente cujo único valor é a boçalidade. A força da grana garante narrativas para exaltar o que, na real, merece é porrada.

Se a imprensa tem lá seus muitos pecados, arrisco dizer que na TV, então, o jornalismo está morto e bem enterrado. As pautas que merecem atenção de nossos editores e repórteres são de arrepiar. É o dia da pizza, são as festinhas do interior, é a campanha para financiar aventuras esportivas, são as dicas para o fim de semana... E vai por aí. A ordem parece ser esta: não vamos incomodar ninguém.

Abri o texto falando das barbichas estilizadas e da modinha de cerveja personalizada porque são assuntos dessa relevância que mobilizam esforços de nossa imprensa. Afora isso, o pessoal na TV não resiste a ruas esburacadas e a proselitismo de sindicalista ameaçando mais uma greve. É o caminho mais fácil para um arremedo de jornalismo. Enquanto isso, a traquinagem política corre livre.

Cada qual com suas manias, preferências e exotismos. O que acho deplorável é que determinados temas, exclusivos de uma patota, sejam apresentados como do interesse da maioria em grandes reportagens. Festinha particular não é notícia, não representa as demandas do público. Mas o que vemos é exatamente o contrário, um desfile de futilidades embaladas em belos textos.

Agora vou ali, na barbearia do seu Antônio, instalada há mais de 30 anos no Vergel. Na sequência, uma birita com o camarada Coelho para saber das novidades nos bastidores do rock alagoano. Antes, numa olhada pelo noticiário virtual em nossa terra, descubro que Deborah Secco e Luana Piovani pautam os grandes portais com suas ideias desconcertantes sobre o nada. Muito louco!

A seleção e o trololó motivacional

Palestra motivacional é uma das piadas mais resistentes na vida brasileira. Suspeito que seja assim também ao redor do mundo. Adoramos frases feitas que afagam nossas ilusões. Parece que estamos sempre dispostos a engolir baboseiras que nada representam, a não ser os objetivos mercadológicos de empresas e palestrantes de cabeça oca. Não tenho paciência com essas cretinices retóricas. 

Durante muitos anos, no exercício de cargos em redações, sempre fugi de eventos festivos organizados pelas empresas em que trabalhava. Quando não tinha como escapar, comparecia a seminários  sabendo que estava desperdiçando meu tempo. Além da inutilidade do palavrório de animadores de auditório, o que restava era o tédio profundo ao ter de ouvir tanta conversa fiada.

Pensei nisso quando a seleção brasileira caiu para a Bélgica na Copa da Rússia. O treinador Tite é um verdadeiro mestre nesse tipo de conhecimento sobre o nada que são as metodologias motivacionais. Em sua trajetória, o professor construiu a imagem de alguém que supostamente tem o poder da palavra. A imprensa bajulatória trata o homem praticamente como se fosse um grande filósofo.

Com essa fama de pensador quase erudito, o treinador da seleção era visto como o homem perfeito no lugar certo, alguém capaz de não apenas fazer o time jogar bem, mas, tão importante quanto, alguém com o dom de motivar seus comandados. Sob as lições intelectuais do motivador Tite, ninguém segurava o Brasil. Ou os caras não entenderam ou o chefe não passa de charlatão.

É claro que não passa de charlatanice. As tais ideias profundas na cabeça de Tite são perfeitas para vender televisão, celular e serviços bancários. Bordão idiota é o ouro da publicidade. Para esse objetivo, sim, o discurso de pastor do técnico brasileiro é irretocável. Mas como na vida real a encrenca é muito mais complexa, os fatos trituram a oratória das motivações. A derrota expõe falácias antes celebradas por meio mundo como exemplos de sabedoria.  

Mas, como disse lá no começo, verborragia e ações motivacionais resistem a tudo. Vamos continuar a ver delinquência intelectual ser vendida como sacadas geniais. Porque precisamos acreditar em entidades sobrenaturais; queremos receitas fáceis e aplicáveis para tudo. E, veja que coisa estranha, estamos dispostos a pagar por isso. Bom para os mercadores de ilusionismo.

No futebol (essa metáfora da vida, como se fala por aí desde antigamente), predomina uma repulsa ao pensamento lógico e ordenado. Basta ver a capacidade comunicativa de Neymar e companheiros de ofício. É o universo perfeito para o trololó de Tite e outros da mesma estirpe. Não foi isso que derrotou a seleção, mas que deu uma bela contribuição, não resta dúvida.

Lula e o juizinho da República de Curitiba

O episódio do prende e solta o ex-presidente Lula serviu para provar, de modo incontestável, que a Justiça brasileira está visceralmente engajada no projeto político de banir o petista da vida pública a qualquer custo. E isso tem o apoio praticamente unânime dos gigantes da comunicação, com a TV Globo à frente. A cobertura do caso pela emissora foi deplorável.

Houve um esforço patético para desqualificar o desembargador que concedeu o habeas corpus. Ao mesmo tempo, comentaristas partiram para a defesa do juiz Sergio Moro, que, mesmo em férias, achou de se meter onde não cabia sua ridícula manifestação. Moro agiu contra a lei e ajudou, em muito, a desmoralizar o discurso de imparcialidade do juizinho da Lava Jato.

Se a decisão do desembargador poderia ser contestada, isso deveria ocorrer pelos trâmites legais. Mas quem disse que Moro e a seita lavajatista ligam para o devido processo legal? Como já escrevi aqui, essa turma do Judiciário pretende comandar o país, passando por cima dos demais poderes. Faz tempo que togados ignoram as prerrogativas do Legislativo.

Ninguém precisa ser jurista para entender claramente que Moro cometeu um delito jamais visto no país. O Brasil tem um juiz que atua como se estivesse acima de todas as normas, desrespeitando até princípios elementares do Direito. Qualquer estudante ou estagiário em escritório de advocacia sabe que o ídolo de Curitiba errou feio nesse caso.

Fico imaginando até quando Moro terá carta branca da grande imprensa para fazer o que bem quiser. Não importa o que ele faça, tem sempre o apoio incondicional da Globo e demais vozes alinhadas ao carnaval das operações policiais. Nunca será demais lembrar que o magistrado de Curitiba correu das férias para decidir como queriam as forças dominantes no país.

Um dia, Gilmar Mendes também já foi intocável. Hoje, não mais. Desde que o ministro do STF passou a criticar duramente a República de Curitiba, incluindo as safadezas do MPF, entrou na mira dos baluartes que combatem a corrupção. Agora, toda semana Mendes é alvo de acusações e ataques nos tradicionais veículos. É assim que funciona a máquina.

A pilantragem intelectual e jurídica de Moro, nesse caso concreto da prisão de Lula, não surpreende. O elemento age dessa forma há quatro anos, sem que nada nem ninguém conteste suas arbitrariedades. Todos aqueles que apontam seus erros são automaticamente carimbados como marginais corruptos. Tudo muito previsível.

Do jeito que está, as perspectivas são as piores possíveis. Vamos escolher um novo presidente para o Brasil sob um quadro de cerco geral à verdade, com o (in)devido aval do Poder Judiciário. A ironia é que, depois do solta e prende, Lula ficou mais forte. Sem fazer força, ganhou mais argumentos para sustentar o discurso de que é, sim, vítima do jogo político.

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