Geraldo de Majella

A democracia no PSB é uma farsa

  • 26/11/2016 13:10
  • Geraldo de Majella

 

O presidente nacional do PSB Carlos Siqueira aplica um golpe na comissão executiva de Alagoas, ao intervir destituindo os seus dirigentes. Ato monocrático dessa natureza é típico do autoritarismo.

Escuda-se Siqueira no estatuto pelo fato de Alagoas não ter alcançado 5% dos votos nas eleições de 2014. A estratégia eleitoral do diretório de Alagoas foi completamente modificada a pedido de Eduardo Campos, candidato a presidência da República, fato do conhecimento de Carlos Siqueira.

Por esse motivo o deputado federal Alexandre Toledo, candidato a senador, foi para o sacrifício e aceitou ser candidato a vice-governador.

Essas articulações Carlos Siqueira as conhece. Esse é o motivo real sem subterfúgios pelos quais não foram alcançados os 5% de votos na legenda do PSB para deputado federal.   

A doação do PSB a um deputado federal com histórico familiar no mercado de compra e venda de siglas partidárias como o João Henrique Caldas e seu pai João Caldas, e declarar à imprensa alagoana que faz parte do projeto político para 2018, é a evidência da farsa que é a democracia interna e uma demonstração explicita do quanto é autoritário o presidente Carlos Siqueira.

O golpe no PSB de Alagoas terá desdobramentos. Os prefeitos, os vice-prefeitos, os vereadores e a militância e o deputado estadual eleito pelo PSB não concordam e vem declarando serem contra qualquer tipo de golpe.  

Estamos denunciando a sociedade alagoana e aos companheiros do PSB de todo o país este golpe.

Hoje foi Alagoas, amanhã será outro estado. O autoritarismo cresce desta maneira.

Ocupar, lutar e resistir!

Fora JHC        

Fora Golpistas.

 

       

Carta Aberta

  • 23/11/2016 09:44
  • Geraldo de Majella

 

Alagoanas e alagoanos:                 

O Brasil está submerso numa crise de grandes proporções. A crise tem várias facetas: a política, a econômica e a ética, entre outras. Os fatos, ao serem noticiados, têm causado estupor na sociedade e cinismo entre parte dos políticos.

Os políticos estão sob fundadas suspeitas. A maioria não se trata mais de suspeitas, pois há provas cabais de corrupção e formação de quadrilha.

Os partidos como peças do sistema político-eleitoral estão também sob suspeição, e não poderia ser diferente. Diante dessa situação de desmoronamento institucional, as direções partidárias fazem de conta que não têm nada com isso.     

A refundação dos partidos é um caminho possível, mas se demorar ou houver resistências, serão cada vez mais rejeitados pela sociedade. Continuarão a existir, mas como biombos de malfeitores. E não basta autointitular-se de esquerda, direita ou centro. A opinião pública continuará considerando-os como malfeitores ou bandidos, no sentido literal da palavra.

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) é parte desse universo. Apontar saídas para as crises é um desafio; não há outro caminho. Se quiser renovar e transformar o PSB numa organização política moderna e respeitável, a militância terá de forçar as direções a efetuarem mudanças radicais no modus operandi de fazer política, tanto interna como externamente.

A transparência é um caminho sem volta. O senador João Capeberibe (PSB/AP) é o autor da lei da transparência na administração pública. Esse princípio deve nortear as atividades do PSB em todas as suas instâncias, da sua cúpula às suas bases. 

Esta é a revolução que todos queremos. Não basta se definir como esquerda para receber o “manto sagrado” da onipresença democrática e revogar as decisões das bases, ou achar que decidindo na cúpula os militantes acompanharão e que os eleitores votarão no PSB e em seus candidatos.

A democracia interna não pode ser um artifício de maiorias circunstanciais ou cartoriais – como vem acontecendo – para esmagar minorias, como é da tradição dos caciques e “coronéis do voto” ou da “pistolagem” ainda presente nos partidos brasileiros.

 Os partidos políticos no Brasil, em boa parte, são propriedades privadas e funcionam como cartórios onde a compra e a venda de legendas é algo natural. Existe um mercado persa político-eleitoral aquecido mesmo quando a crise política, econômica e ética arrasta os políticos para os cárceres.

       O PSB de Alagoas passa por uma situação no mínimo incômoda. Recebeu como “presente” da executiva nacional o deputado federal João Henrique Caldas (JHC), filho do ex-deputado João Caldas, conhecido no mercado persa das siglas partidárias em Alagoas e em Brasília.

       João Henrique Caldas (JHC), festejado por alguns dirigentes, vende a imagem externa de um jovem deputado moderno, “antenado” com as mídias sociais, mas no dia a dia não consegue desvincular-se das “velhas práticas políticas”, por ele de público condenadas.

       A ânsia de obter o controle cartorial do PSB – é o que lhe interessa e tem sido o seu objeto de desejo – quer destituir a direção estadual sem qualquer motivo político ou ético para tal, mesmo sabendo que o mandato tem duração até novembro de 2017.

       A direção estadual do PSB/AL não é acusada de corrupção, formação de quadrilha, desvios de qualquer natureza. Há de se perguntar: qual será o motivo para o JHC se reunir em dois momentos distintos a fim de destituir a direção estadual. A militância em Alagoas precisa tomar conhecimento desse acordo de cúpula para informar os eleitores do PSB e ao povo alagoano.

       A executiva estadual, os diretórios municipais, os prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e a militância do PSB em Alagoas vêm resistindo contra qualquer interferência autoritária ou ilegítima.

       Conclamamos a militância do PSB nos estados e nos municípios a lutar contra o autoritarismo e a violência política.

      

A democracia para nós é um valor universal.

Abaixo a intervenção!

Geraldo de Majella é historiador e membro da executiva estadual do PSB.

 

Ocupar e resistir é o caminho

  • 31/10/2016 06:02
  • Geraldo de Majella

 

        Os estudantes secundaristas estão resistindo ao conservadorismo do governo Temer. O início dessa resistência foram as ocupações das escolas; são mais de 1.200 em todos os estados. A reforma do ensino e a PEC 241 são os alvos.

        O movimento cresce, consolida-se e se amplia com a adesão das universidades federais e dos institutos federais de ensino. A organização e a disposição da garotada têm surpreendido o país. As redes sociais têm sido o canal de comunicação onde são exibidos vídeos contando o dia a dia das ocupações.

        As novas lideranças têm aparecido em cada uma das escolas ocupadas. A pouca idade não tem sido um fator inibidor para esses milhares de jovens estabelecerem o diálogo com as autoridades, inclusive com o Poder Judiciário, nesses dias que antecederam às eleições do segundo turno.

        O Ministro da Educação, representante da direita pernambucana e do Partido Democrata (DEM), não consegue entender que há uma nova sociedade civil no país e que os jovens que estão organizados em cada escola do país são jovens que pensam e querem participar das decisões políticas.

        A política é assunto também da juventude, dos adolescentes estudantes secundaristas. Os velhos políticos conservadores e de direita ainda não conseguiram captar que haverá muita resistência na base da sociedade e que as conquistas alcançadas pelos pais e avós desses jovens não serão transformadas em pó sem resistência.

        A esquerda tradicional também esta perplexa com o tamanho da mobilização e da qualidade das lideranças. Estas novas lideranças têm surgido do meio da massa, das salas de aulas, e não da militância tradicional dos partidos políticos de esquerda, visto que estes envelheceram.

        Organizar uma rede de apoio aos estudantes, professores, trabalhadores da educação e aos pais dos estudantes é uma tarefa necessária e urgente para ampliar a luta e derrotar a política conservadora do governo Temer e do ministro Mendonça Filho.

        Os intelectuais, cientistas, escritores, artistas, profissionais liberais, esportistas, professores, alunos, cidadãs e cidadãos alagoanos e brasileiros democratas de vários matizes políticos e ideológicos temos esse desafio pela frente que é apoiar o movimento de resistência deflagrado pelos estudantes.

Todo o apoio possível aos estudantes, professores e trabalhadores da educação.

Ocupar e resistir é o caminho!

 

A crise pode soterrar as políticas públicas. O que os prefeitos devem fazer?

  • 25/10/2016 16:54
  • Geraldo de Majella

 

A crise política e econômica em que o Brasil está mergulhado não é de curta duração. Esta tem característica diferente das crises vividas desde que superada a ditadura militar. As crises econômicas no governo José Sarney, quando a inflação era elevada, em 1989, último ano do governo, chegou a 80% ao mês.

No governo Collor a inflação continuou alta. Só no final do governo Itamar Franco, com a implantação do Plano Cruzado, é que houve a estabilização da economia. As crises foram em maior ou menor grau superadas. Todas com danos para a população.

A crise vivenciada no Brasilhoje é de um tipo diferente. A desagregação política não tem um fim à vista. A incerteza política atingiu todos os partidos com representação parlamentar significativa no Congresso Nacional. A agenda política é definida pelo Ministério Público Federal, pela Polícia Federal e pela Justiça Federal, no Paraná e em outros estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais, por enquanto.

A crise econômica permanece e tende a ser aprofundada pelo seu caráter exclusivo ou quase obsessivo para o ajuste fiscal e a supressão de direitos e garantias sociais. A falta de liderança no governo capaz de dialogar com a sociedade civil e com as entidades sindicais é sem precedentes desde 1985. 

Os prefeitos eleitos e reeleitos terão pela frente um cenário de guerra e terra arrasada. Os municípios são os principais elos na constituição da federação. Eles executam as principais políticas públicas e estas serão as primeiras a ser mutiladas pela PEC 241.

Esses desafios políticos e econômicos carecem de inovação e racionalidade na luta dos prefeitos e da população para evitar que, em nome da estabilização econômica, haja mutilação das políticas públicas que beneficiam os mais pobres, que são a maioria da população nos municípios alagoanos.

Os prefeitos não podem ouvir e concordar com o discurso orquestrado pelo governo Temer, difundido pelos grandes meios de comunicação a serviço dos banqueiros nacionais e internacionais.

Aceitar a PEC 241 é aceitar a morte passivamente.

Pinacoteca Universitária apresenta “A lágrima das coisas”

  • 29/09/2016 10:13
  • Geraldo de Majella

Foto:Rose Dias

Objetos ganham significados nas obras da artista plástica alagoana Hilda Moura

 

A artista Hilda Moura traz aos salões da Pinacoteca Universitária a exposição “A lágrima das coisas”. No dia 29 de setembro, a partir das 20h, o público poderá conferir uma série inédita de pintura sobre tela e sobre papel, além de duas instalações que irão compor a mostra. Seus novos trabalhos abordam a relação entre a infância e a maturidade.
Para tratar essa relação em suas pinturas, os objetos são dotados de um forte significado simbólico: eles expressam sentimentos, revelam o silêncio e o distanciamento existentes nas relações humanas. São a tesoura, a linha, a agulha que se assinalam como entraves à comunicação entre a criança e o adulto, o que fomos e o que pretendemos ser. “É por meio da pintura que esses objetos ganham significado”, afirma Hilda.
Além dos objetos, a artista nos apresenta elementos da fauna e da flora – sempre presentes em suas pinturas – que se misturam ao corpo feminino, mostrando-nos um mundo que não necessita de racionalização. Um olhar à fragilidade das relações, aos contrastes e conflitos que permeiam a vida humana. A exposição “A lágrima das coisas” convida o público a um universo em que a delicadeza e a profundidade conversam entre si.
“A lágrima das coisas” é a segunda exposição individual da artista Hilda Moura, que já realizou a mostra “Hábito” na Galeria Sesc Maceió, em 2015.

Bienal do Distrito Federal

Recentemente a artista foi selecionada na categoria Pintura, com a obra intitulada “Eva”, para compor a Bienal de Arte Contemporânea do Distrito Federal 2016, promovida pelo Sesc DF. A artista alagoana Hilda Moura destaca-se entre os 40 trabalhos artísticos que representam predominantemente o eixo Rio-São Paulo.

Sobre a artista

A artista alagoana Hilda Moura teve as primeiras aproximações com o desenho e a pintura na década de 1990. Dedicou-se também, durante dez anos, ao aprendizado da cerâmica, através dos ensinamentos do Mestre Deda. As experimentações dessa época contribuem decisivamente com as mudanças, que ocorrem na posterior retomada da pintura. Atualmente, a artista desenvolve técnicas mistas com o uso de óleos, acrílicos e ceras em suas novas séries.

Serviço

O quê: Exposição “A lágrima das coisas”, da artista plástica Hilda Moura
Local: Pinacoteca Universitária, localizada no 1º andar do Espaço Cultural Universitário Salomão de Barros Lima, Pç. Visconde de Sinimbu, 206 – Centro – Maceió – AL
Abertura: 29 de setembro de 2016, às 20h
Visitação: 30 de setembro a 18 de novembro de 2016, de segunda a sexta, das 8h30 às 18h
Mais informações: (82) 3214–1545 e https://www.facebook.com/pinacotecaufal
Informações sobre a artista: http://www.hildamoura.com/ e http://fb.com/ateliehildamoura

Caminho da Luz III (Final)

  • 11/09/2016 12:00
  • Geraldo de Majella

 

O dia 24 de julho amanheceu frio, e era com frio que teríamos de subir até o topo do Pico da Bandeira. São 2.892 m de altitude, marca que lhe confere a condição da mais alta montanha dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e dasregiões Sudeste e Sul.

Esse era o tamanho do desafio que se apresentou pela frente. O grupo era composto de pessoas, boa parte pelo menos, com experiência em caminhadas de longo percurso e com obstáculos. Os comentários eram de que havia entre nós caminhantes que já tinham subido entre sete e dez vezes o Pico da Bandeira.

A troca de experiências, todo o clima era positivo, e o nosso ânimo, o meu e o de Vânia, permaneceu alto; as nossas expectativas eram boas. Estávamos na reta final do percurso de quase duzentos quilômetros. A nossa trajetória era excepcional, principalmente a minha em particular, que estive durante cento e vinte dias cuidando dos dois joelhos. Até aquele momento nada de anormal havia acontecido.

Iniciamos a subida a partir do Terreirão, rumo ao topo; segundo os nossos guias, seriam 9,5 quilômetros para subir e igual distância para descer. O tempo frio do amanhecer do dia – a temperatura era de 6º C no meio da manhã –esquentou um pouco.

Paramos muitas vezes durante a subida para contemplar a beleza da serra do Caparaó. Tudo para mim era deslumbrante, não tenho outro adjetivo para tanto. O sol ajudou a todos nós dissipando as nuvens; o vento soprou com menos intensidade e a sensação térmica foi reduzida. O frio intenso da manhã logo passou a ser uma temperatura agradável.

A mochila, com lanches, a nécessaire com tesoura, agulha, esparadrapo, remédios e o canivete, além do cantil com água potável na cintura e cerca de quatro horas de subida íngreme começarama pesar.

A atenção redobrada para não pisar em falso e torcer o pé, consumir pouca água, com goles parcimoniosos. Esses cuidados repassados pelos mais experientes eram cumpridos com uma disciplina quase militar ou guerrilheira, situação que difere do meu dia a dia.

Quando ouço falar da serra de Caparaó, lembro-me de um amigo alagoano, o ex-sargento da Marinha Edval Augusto de Melo, um dos militares que participaram da guerrilha de Caparaó, preso no dia 1º de abril de 1967. A guerrilha de Caparaó foi a primeira resistência ou tentativa de resistência armada à ditadura militar.

Essa lembrança me acompanhou durante o percurso. Quanto mais eu subia, mais perplexo ficava com tamanho obstáculo para a instalação de um“foco” guerrilheiro. Talvez fosse a Sierra Maestra brasileira.

O fato é que continuamos a subir, eu com essas lembranças, e Vânia a contemplar a beleza. Os dois persistiam a subir até o topo do Pico da Bandeira. Depois de mais de cinco horas, o cansaço e o desânimo por alguns minutos se instalaram entre nós. Faltando cerca de trezentos metros paramos e resolvemos desistir.

Isso é comum acontecer entre os caminhantes. As dificuldades mais comuns, como bolhas, calos, torções, nada disso aconteceu conosco. Era cansaço, fadiga. Eu, num certo momento da caminhada fiquei mais atento ao meu batimento cardíaco. Procurando não forçar, mas não falava nada para Vânia, não queria trazer-lhe preocupação com algo que não dava indicações de inconveniência. É típico de quem sofre infarto; a partir daí torna-se mais cauteloso.

Encostamo-nos a uma pedra e ficamos descansando e a observar os nossos amigos descendo, outros subindo até o topo. Palavras de estímulo, todos diziam.

– Força. (Era a mais comum.)

– Não desistam, está tão perto!

Até que três jovens – dois homens e uma mulher – vieram em nossa direção e disseram:

– O senhor e a senhora não vão desistir. Nós vamos ajudá-los.

A moça pediu a minha mochila, um dos rapazes pediu a mochila de Vânia. E recobramos as forças e o ânimo para concluir a subida até o topo do Pico da Bandeira.

A chegada foi triunfal. Senti-me um alpinista que escalara o Everest ou algo equivalente. A sensação é indescritível ao avistar aquele conjunto fantástico de serras entre Minas Gerais e Espírito Santo.

Queremos deixar registrado que só foi possível chegarmos ao topo do Pico da Bandeira porque contamos com a solidariedade daqueles três jovens.

Obrigado!

Foi um prazer lhe conhecer

  • 23/08/2016 18:40
  • Geraldo de Majella

 

O jornalismo brasileiro perde o brilhante repórter Geneton Moraes Neto, morto no dia 22, na cidade do Rio de Janeiro. Em novembro de 2010, na Festa Literária Internacional de Olinda (Fliporto) tive o privilégio de conhecê-lo. Quem me apresentou foi o jornalista Homero Fonseca, seu amigo e colega dos tempos em que ambos trabalharam no  Diário de Pernambuco. Nesta noite estavam presentes ao jantar Iracema, companheira de Homero e Isabela, minha filha.

Ouvi várias histórias contadas pelos dois com a atenção de um monge, não queria perder um lance. Até que num determinado momento Geneton falou da dificuldade que estava tendo para localizar um ex-guerrilheiro.

Não me contive e perguntei, quem era. Ele falou o nome do comandante Clemente, um ex-guerrilheiro e ex-dirigente da Aliança Libertadora Nacional (ALN), um dos homens mais procurado do Brasil até 1973, quando foi obrigado a exilar-se. Clemente era o codinome de Carlos Eugênio Coelho Campos da Paz, alagoano e meu amigo.

Disse-lhe com satisfação que essa dificuldade estava superada e passei o número do telefone do comandante Clemente.

Geneton surpreso falou que faltava encontrar o Clemente para concluir um programa, alguns meses depois a entrevista foi exibida no programa Dossiê Globo News.

Ainda continuamos conversando, eu ouvindo mais que tudo. Passava da meia noite quando nos despedimos apertei a sua mão e falei: foi um prazer lhe conhecer.

Hoje, digo: que a terra lhe seja leve.

  

 

Livro, Carapeba e Cachaça

  • 07/08/2016 21:32
  • Geraldo de Majella

 

Lêdo Ivo

                   

Os sebos e alfarrábios de minha infância e adolescência sobem agora à minha lembrança, diante deste livro de evocações do historiador e investigador cultural alagoano Geraldo de Majella.

Os que ele registra neste Panorama Cultural de Maceió, não são os mesmos do meu tempo. Situam-se em locais diferentes. Guardam uma multidão de volumes que surgiram após a minha partida, refletem a realidade de uma época vertiginosa marcada pela emergência de tecnologias atrevidas e até agressivas. Mas, apesar de todas as mudanças ocorridas no ar do mundo e do tempo, hão de conservar a mesma atmosfera plácida da cidade antiga e cuja placidez só era interrompida pelo fragor dos tiros sazonais que ceifavam vidas e saciavam rancores, disputas e vinganças.

Lembro-me de alguns deles. Na Rua do Livramento, junto à igreja, era o sebo do Barbosa, que ocupava a sala de visitas de sua casa familiar. Na Rua do Comércio, entre o Beco São José e a Praça dos Martírios, situava-se outro sebo, no qual terei adquirido os meus primeiros livros em francês. Um deles era Notre Coeur desse Maupassant que ainda hoje suscita a minha admiração, e do qual possuo, compradas num alfarrábio insigne de Paris, as obras completas ilustrada e editadas pela Librarie Paul Ollendorf. E havia ainda outro sebo, na esquina da Rua Boa Vista com o Beco São José.

Onde terei encontrado Song-Kay o Pirata, de Emilio Salgari, uma das estrelas bem-amadas da constelação e Coleção Terramarear? Ainda hoje ele está na minha biblioteca, guardado como uma relíquia ou sobra de naufrágio. E, graças a ele e a tantas outras histórias de tesouros e piratas, e ilhas e ventos dos mares do Sul, pude sulcar a vida inteira, confiante na verdade de minha imaginação, o caminho que me indicaram na infância.

Os sebos e alfarrábios ora registrados pelo historiador Geraldo de Majella  — um historiador tão atento à vida cotidiana e provinciana e ao episódio aparentemente irrelevante — são outros, mas conservam o mesmo rito comercial  de antigamente e sustentam iguais intenções. São lugares em que nem sempre se encontra o que se procura ou deseja; mas se encontra sempre o que não se esperava e surpreende. E, entre os vendedores de livros velhos aqui consignados, avulta a figura do ex-carroceiro Biu, que estacionava o seu “burro sem rabo” na Praça Dom Pedro II.

Contém esta obra de Geraldo de Majella muitas informações e reflexões sobre as bibliotecas de Maceió e as livrarias alagoanas. Será que elas existem atualmente ou são ficções graciosas? Ou não será no Recife que se abastecem os alagoanos contagiados pelo que o poeta Logan Pearsall Smith chamou de “a leitura, esse vício impune”?

Recordo-me de que, no meu tempo de colegial desejoso de ser escritor, havia na Rua do Comércio a Casa Ramalho, que chegou até a ser uma editora, publicando autores alagoanos. Durante semanas, ela exibiu na vitrina um exemplar de Angústia de Graciliano Ramos. Ninguém o comprava, embora seu autor (então enclausurado na Ilha Grande, como comunista) retratasse naquele romance uma Maceió noturna, soturna e dostoiewskiana.

Todos os dias eu me detinha diante da vitrina da livraria e namorava o volume solitário. Finalmente juntei sobras das mesadas semanais e o comprei. A sua leitura foi um dos grandes acontecimentos de minha vida de leitor em flor.

Também são diferentes os dispersos bares e restaurantes captados pela pena astuciosa de Geraldo de Majella. No meu tempo, imperavam a Helvética, defronte à Igreja do Livramento, o Ponto Certo na Praça Deodoro, o bar da Casa Colombo, e o Bar Elegante na Rua do Comércio. Destes, o que ainda é mencionado, como local de reuniões literárias, é o Bar do Cupertino. Nele, no início da década de 30, costumavam reunir-se Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, Maceió era então a capital literária do Nordeste e ignorava sua suprema condição.

No livro de Geraldo de Majella são outros os bares, botecos e restaurantes, outros os boêmios gulosos e mulherengos e os literatos ambiciosos e sedentos de notoriedade e glórias. Mas haverão de ser os mesmos os naufrágios e as impiedades do tempo. E também não terão mudado as comezainas e bebezainas; são as mesmas, os peixes, crustáceos e mariscos da Alagoa Australis, “rica em pescado”, como está no nosso brasão ilustre. A novidade é a macarronada.

E sabe a essas iguarias incomparáveis este valioso livro de Geraldo de Majella. Tem um gosto de carapeba, de camorim e de sururu; de caranguejo; de tira-gosto de caju regado a cachaça; de feijão de corda e manteiga de garrafa. É um livro visceralmente alagoano. Lateja nele o mistério de nosso berço, de nossas águas e terras, de nosso passado e presente, das chuvas e das tanajuras, de nosso povo e de nossos sonhos e pesadelos. E o longo mistério de nossa alagoanidade. E nele sopra o vento do mar.

 

 

Caminho da Luz (II)

  • 01/08/2016 17:20
  • Geraldo de Majella

 

        O Caminho da Luz foi idealizado pelo jornalista Albino Neves, carioca e radicado em Minas Gerais. A Associação Brasileira dos Amigos do Caminho da Luz (Abraluz),criada em 2006 por Albino Neves, tem a finalidade de apoiar os caminhantes, proporcionando-lhes melhor acesso turístico, cultural, religioso, histórico, ecológico, e mantendo sinalizado todo o trajeto do caminho.

        O Caminho da Luz ampliou a visibilidade das cidades da mata mineira, atraiu um tipo específico de turista, o caminhante, peregrino, de caráter religioso ou não. O ativo a ser explorado no caminho é a beleza natural e os monumentos históricos.

Os investimentos essenciais para a montagem foram o intelectual, o emocional e o desprendimento pessoal para a construção dessa obra.                  

Esse trabalho desenvolvido pela Abraluz é meritório. A organização e a estruturação de um caminho com cerca de 200 quilômetros no Brasil não são tarefas fáceis; requerem dedicação e profissionalismo. É uma obra construída por idealistas e apaixonados por esse tipo de atividade.

Quando ainda era jovem, ou mais jovem, li “Cantares”, poema do espanhol Antonio Machado (1975-1939). Logo me identifiquei e jamais me imaginei um caminhante, mas os versos ficaram dentro de mim:

 

[...] Caminhante, são tuas pegadas/o caminho e nada mais;/caminhante, não há caminho,/se faz caminho ao andar/ Ao andar se faz caminho/e ao voltar a vista atrás/se vê a senda que nunca/se há de voltar a pisar/ Caminhante, não há caminho,/ somente sulcos no mar [...].

 

O meu olhar de caminhante não perde a oportunidade de fazer comparações. As dificuldades físicas, fui superando-as paulatinamente durante o caminho. Abstraí as dificuldades e me pus a olhar um mundo que se descortinou: o rural mineiro. 

A paisagem verde e a cor do cafezal me atraíram. Sou um apreciador de café, tomo café com prazer em casa e em cafeterias. Mas estou longe de ser um conhecedor, um especialista, e nem penso em ser profissional do tipo barista, tampouco um degustador.

A mata mineira, além do café, tem outros produtos agrícolas, como banana, feijão, mandioca, milho, e também a criação de gado leiteiro, suínos, galinhas, tilápias.

A agricultura familiar se apresentou no percurso do Caminho da Luz, para o meu agrado. Sei que essa atividade é a que abastece os lares dos brasileiros e efetivamente gera renda e contribui com a melhoria dos indicadores sociais no interior do país. Mas há médios e grandes produtores rurais no percurso do caminho, inclusive alambique de cachaça com a produção quase que integralmente comercializada no exterior.

Aproveitei a caminhada e conversei com moradores das cidades e povoados, e até no trajeto, com proprietários de pequenas glebas, agricultores familiares. O mineiro é desconfiado, de poucas palavras e reticente, me diziam, mas não foi o que o que percebi; as pessoas com quem conversei foram solícitas e falaram francamente.

Os brasileiros do interior, de Minas Gerais ou de Alagoas, são pessoas gentis e de fácil comunicação. Têm a desconfiança natural, diferentemente dos que moram em grandes centros urbanos, que vivem inseguros e não se permitem parar para conversar com estranhos.

Nesse meu caminhar, subindo e descendo serras e montanhas, só me fortaleceu a convicção de que a pequena propriedade rural bem administrada e com assistência técnica e credito passa a ser forte e competitiva, tornando-se uma alternativa ao atual modelo de desenvolvimento brasileiro, que concentra as maiores energias nas culturas de exportação.

Alimentos saudáveis e com preços justos são uma necessidade para todos nós, caminhantes ou não. O caminho me fez continuar acreditando na viabilidade da agricultura familiar e num mundo novo.

 

        

Saudade e denuncia

  • 01/08/2016 11:21
  • Geraldo de Majella

 

        O saudosismo é uma postura estática perante a vida: abdica-se do presente para reviver nostalgicamente um passado idealizado. Sempre que me deparo com essa manifestação sentimental, eu me pergunto: e daí? Porque se trata, a meu ver, de uma atitude anacrônica que não encerra qualquer lição, apenas acalentando um sonho esfumaçado pelo tempo. Saudade, assim, já disse o poeta, amarga que nem jiló.

 Dito isto, é necessário que se diga mais que esse Panorama cultural de Maceió que tens em mãos, ocupado leitor, embora contenha cálidas lembranças dos anos 70 para cá, não é em absoluto um livro saudosista, pelo fato de o autor ir além do sentimento de mera saudade para traçar em delicadas pinceladas a trajetória cultural da capital das Alagoas, inclusive denunciando os atentados praticados contra a memória da cidade e o descaso para com entidades merecedoras de respeito e atenção.

        Dividido em cinco partes – sebos, livrarias, bibliotecas, bares e restaurantes – tem como fio condutor a importância cultural de pessoas, instituições e estabelecimentos que marcaram época ou continuam presentes na vida cotidiana dos poucos mas sinceros amantes das coisas do espírito na mui leal e formosa cidade de Maceió (diga-se de passagem que, em toda parte, essa turma, embora barulhenta, é sempre minoritária).

Por suas páginas, em linguagem simples e fluida, desfilam personagens antológicos como seu Biu, involuntariamente transformado de carroceiro em sebista pioneiro no paredão da Assembleia, e Nô Pedrosa,raro espécime de anarquista praticante; livreiros antigos e atuais, cuja profissão seduz o autor pela missão de “disponibilizar um bem cultural que contribui para transformar as pessoas e o mundo”, como Geraldo Barroca Portela, entre tantos outros; editoras, como a Edufal, que aposta “num mundo mais culto, onde o livro passe a ser um bem de primeira necessidade”; bibliotecas públicas e privadas – algumas muito precarizadas – que coexistem com o mundo da informação digital; bares cuja clientela era (é) formada por uma fauna de intelectuais majoritariamente de pendores esquerdistas, amantes de copo e conversa, incluindo o Casa Blanca, “um bar com a foice e o martelo”, cuja característica principal era serem todos os seus sócios capitalistas dirigentes históricos do PC do B e onde se produzia o programa radiofônico “Conversa de botequim” – entrevistas ao vivo de personalidades dos mais variados matizes, como os políticos Cristovam  Buarque, Ronaldo Lessa, Renan Calheiros e Kátia Born, e até mesmo um camarada chamado Mossoró, considerado proprietário de bordel.

No quesito gastronomia, Majella dá ênfase a restaurantes populares da Ponta Grossa, onde a pobreza não impedia a formação intuitiva de autênticos e autênticas chefs (que, naturalmente, chamavam a si mesmos de cozinheiro e cozinheira), como era o caso da proprietária do lendário Buraco da Zefa, autora da receita mais sincrética jamais imaginada, a macarronada à cabidela, ou, no mesmo bairro, a Macarronada do Édson,ambiente eclético ao qual compareciam com assiduidade desde “esquerdistas que bebiam e comiam esbravejando contra a ditadura aos mais ferrenhos defensores do regime militar”.

O famoso Bar das Ostras, onde, nos anos 70, tive oportunidade de saborear o famoso camarão à beira da Lagoa do Mundaú, mereceu de Majella um réquiem, digno de uma autêntica instituição maceioense, cuja receita tornou-se, por lei, Patrimônio Imaterial da nação alagoana.

Tudo o que foi dito aqui não é mais que alguns destaques dessa narrativa tão saborosa quanto os quitutes dos bares e restaurantes dos bairros elegantes ou populares da cidade e tão fluida quanto a conversa de boêmios, intelectuais, gourmets e bom vivants em geral desfiadas interminavelmente nas noites mornas refrescadas pela brisa marítima de Maceió.

Vale a leitura.

Homero Fonseca é jornalista e escritor

 

Caminho da Luz (I)

  • 28/07/2016 18:18
  • Geraldo de Majella

 

Em 2010 sofri um enfarte, sem grandes consequências. Fui submetido a um procedimento em que as artérias foram desobstruídas com um cateter manejado pelas mãos habilidosas do cardiologista Dr. Gilvan Dourado, que deixou dois stents como marcas da ciência em meu coração.

        Exercícios, nunca fiz com a disciplina de um atleta, a não ser quando estudante, quando mantinha o desejo de competir em provas amadoras de atletismo. Ou nos jogos de futebol na praia. Mas durante todos esses anos realizei caminhadas na orla de Maceió. 

        A boemia desde muito jovem me atraiu, com ou sem bebidas alcoólicas. A minha dieta incluía tudo, exceto jiló e chuchu,

        A virada mais acentuada talvez tenha acontecido como causa do susto do enfarto aos 49 anos. Porém, considero ainda mais estimulante a disposição e a dedicação de Vânia, minha companheira, que faz caminhadas há mais tempo que eu, com rara disciplina e prazer.

        Essa conjunção de fatores me convenceu a caminhar com mais disciplina e regularidade. Daí em diante, caminhamos em Maceió, em outras cidades de Alagoas e fora do estado.

O Caminho da Luz passou a ser uma meta a ser atingida em 2016. Antes, os caminhantes que eu conhecia, pelo menos os mais antigos e próximos, eram pernambucanos: o economista Abelardo Caminha e as irmãs Lauriza e Nazaré Oliveira, que para meu espanto caminhavam da praia de Boa Viagem, em Recife, até a praia de Ponta Verde, em Maceió. São 270 quilômetros que ligam uma capital à outra, percorrida pela areia da praia, atravessando rios. Para mim, era uma vida típica de bandeirantes à caça de índios no sertão do Brasil colonial.

Agora me vejo na condição de caminhante e não me sinto um bandeirante. Sinto prazer em caminhar e olhar o quanto há de beleza nos caminhos. Procuro ainda mais encontrar beleza no simples que existe na vida rural, ribeirinha, e que em geral o sujeito urbano que passa no automóvel não tem condições de apreciar, e menos ainda vivenciar, nem que seja por alguns minutos ou horas.

Nos caminhos que percorri entre mares e lagoas, matas e canaviais, vegetação agreste e caatingas, fui me dando conta de quanto há de beleza nessas paragens. Mas foi o Caminho da Luz o meu primeiro grande trajeto percorrido, e o fato de alcançar o topo do Pico da Bandeira tornou-se o feito mais significativo.

Há outras belezas possíveis de encontrar na convivência com os caminhantes. Além das montanhas, serras, cachoeiras, matas, cantos de pássaros, e caminhar sobre cristal, recebendo energia oriunda da mica e de pedras semipreciosas.

Cada pessoa encontra o ponto de superação dos seus limites. A fé é uma delas, e talvez seja a mais comum ou a principal. Outros sentiram necessidade de caminhar para obter mais saúde. E há pessoas curadas de moléstias que não só mudaram o estilo de vida como encontraram sentido em viver com simplicidade.

Existem ainda aqueles que querem conviver, nem que seja por sete dias, com pessoas que têm os mesmos objetivos, ou seja: caminhar.

Eu me incluo entre os que passaram a caminhar para manter a saúde e também para conviver com pessoas diferentes das que convivo no dia a dia.

 

 

 

 

 

 

 

       

Partidos políticos e organizações criminosas, não há diferença no Brasil

  • 04/07/2016 17:37
  • Geraldo de Majella

 

Não há sinais de que a crise política e econômica esteja no fim ou próximo disso, sendo ou não aprovado o impeachment. A Operação Lava Jato tem ampliado cada vez mais seus alvos e nada indica que esteja perto de ser concluída.

Os empresários, o baronato da construção civil brasileira, doleiros, diretores de empresas estatais, a Petrobras (a principal raiz da Lava Jato), políticos com mandatos parlamentares e executivos, governadores, prefeitos, ministros de estado e políticos sem mandatos, dirigentes de partidos políticos – o PT foi o primeiro grande partido a ser atingido, seguido pelo PMDB, PP, PTB, PSB, PR, que constituem a base aliada de qualquer governo desde 1985, o DEM/PFL e o PSDB (a oposição) –, estão sob a mira da PF, do MPF e da magistratura federal.

Esse cenário devastador aponta para a derrocada dos principais partidos políticos, dos empresários que financiavam as campanhas eleitorais e também se beneficiaram da pilhagem do Estado brasileiro. O mundo desabou sobre a cabeça dos chefões da política nacional, governo e oposição.

As denúncias e as investigações desvendaram a maior e mais sofisticada rede de corrupção e apropriação do Estado brasileiro de que se tem notícia no período republicano.

Partidos políticos com origem na esquerda, na direita e no centro transformaram-se em organizações criminosas. O estilo mafioso revelado pelos delatores é, talvez, a maior e mais surpreendente revelação no meio político-empresarial.

A tradicional corrupção, conhecida e tolerada socialmente, tida como um ato “natural” na cena cotidiana, é parte do passado. Pode-se afirmar que o tipo específico de corrupção denunciada pela mídia e até mesmo por políticos era uma prática amadora.

A profissionalização da corrupção incluiu sofisticação de serviços de lavagem de dinheiro com a participação ativa e preponderante de experientes doleiros, a aquisição de banco no exterior para uso exclusivo de lavagem de somas bilionárias de dinheiro público, além do uso de recursos tecnológicos de última geração.

A sofisticação empresarial em conluio com os políticos, em cada partido político ou organização criminosa, tem os capo di tutti capi ou os chefes de todos os chefes, como ocorre nas organizações criminosas estilo Máfia.

Os partidos com relevância no cenário nacional, a exemplo de PT, PMDB, PSDB, que chegaram à presidência da República e a exerceram durante 21 anos seguidos, estruturaram, cada um a seu modo, a partilha do Estado entre os partidos que formaram a base aliada, associando-se aos grupos empresariais da construção civil, setor elétrico, bancos e outros. É o maior assalto já descoberto no Brasil.

A sociedade acompanha com atenção e tem se declarado contrária a essas práticas mafiosas. A saída para a crise política ainda não foi identificada. O caminho não pode ser determinado pelos que foram pegos pilhando o Estado ou pelos que coonestaram com essas práticas criminosas.

O sistema político e partidário ruiu. E desse escombro não se pode esperar uma saída limpa, honesta e sem vícios antigos; mas estes podem ser encobertos se a sociedade civil não ficar atenta a isso.

Os políticos brasileiros, no geral, são desprovidos de escrúpulos e são produtos da apropriação do Estado. Na atual quadra houve a participação de partidos de esquerda, pelo menos na origem. Os partidos políticos no Brasil são organizações criminosas; há poucas exceções, e essas se encontram no campo da esquerda não petista.

Mobilizar para resistir e vencer os golpistas.

  • 25/05/2016 08:56
  • Geraldo de Majella

O governo de Michel Temer não tem relações com os movimentos populares. Os partidos políticos e os parlamentares que votaram o golpe parlamentar na Câmara dos Deputados, e no Senado Federal a abertura do processo de impeachment, desconhecem a sociedade civil por um motivo óbvio: as vinculações desses parlamentares são com os lobbies empresariais, com a ocupação do Estado e a prática da corrupção como estruturação de suas atividades.

        A mobilização dos artistas, intelectuais, produtores culturais e trabalhadores das diversas áreas da cultura colocou nos primeiros dias o governo golpista de Temer contra a parede e reverteu o ato de extinção do Ministério da Cultura (Minc). A derrota politica dos golpistas é emblemática e serve de estímulo aos demais setores da sociedade.

Os movimentos sociais que lutam há décadas pela reforma agrária, as organizações sindicais que representam milhões de trabalhadores rurais e agricultores familiares terão de unir-se para enfrentar o desmonte do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), transformado em secretaria do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Social.

A tentativa de emparedar os movimentos sociais do campo e a agricultura familiar tem o primeiro sinal: a subordinação do MDA e do Incra a uma estrutura politica conservadora e que tradicionalmente luta contra os movimentos sociais e contra agricultura familiar.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), as federações de trabalhadores na agricultura, os milhares de sindicatos, as centrais sindicais que apoiam essas bandeiras e os movimentos sociais do campo como MST, CPT, MTL, MLST e outros têm o dever histórico de unir-se para enfrentar as adversidades, tendo como símbolo da luta inicial contra os golpistas a recriação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

A luta não pode parar. A mobilização das organizações da sociedade civil que atuam no campo e nas cidades é fundamental, desde que compreendam a necessidade histórica de derrotar os golpistas nessa área.

Mobilizar para resistir e vencer os golpistas!

      

 

A máscara do golpe

  • 13/05/2016 08:36
  • Geraldo de Majella

 

 

Homero Fonseca

Tenho entrado em divergência com alguns amigos a propósito da situação política, me esforçando para não ser dominado pela raiva e, sobretudo, para não traduzi-la em agressividade e irracionalidade. Não é fácil pra mim, não deve ser pra eles.

De qualquer maneira, a discussão central é se o afastamento da presidente Roussef foi ou não um golpe. Geralmente, os que defendem o impeachment argumentam com o cumprimento de formalidades jurídicas que dariam um caráter constitucional ao kalten putsch (golpe frio, como chama a imprensa alemã).

Para mim, o processo nasceu no exato momento em que, derrotadas nas eleições de 2014, as oposições não se conformaram com o resultado. A partir dali, a grande mídia e os setores mais conservadores do empresariado (que nunca se conformaram de verdade com a ascensão de um operário sem um dedo à presidência da República, nem com as políticas inclusivas do PT) se uniram aos derrotados e passaram a fustigar violentamente o governo, aproveitando a conjuntura de uma séria crise fiscal (logo amplificada desproporcionalmente até se transformar, pelo terrorismo das expectativas, numa crise geral, recessiva).  Os erros do PT (muitos e indesculpáveis) foram usados para justificar a campanha massiva então deflagrada, mas o real objetivo eram os acertos do PT e a perspectiva de sua permanência no poder.

A Operação Lava-jato (em si, uma iniciativa positiva contra a corrupção sistêmica que grassa entre nós há muito, muito tempo) paulatinamente se desviou para uma rota política, dirigida exclusivamente contra o partido do governo e seus aliados, com vazamentos seletivos, conduções coercitivas injustificáveis e outras truculências, que se constituíram num autêntico estado de exceção comandado pelo aparato da “República de Curitiba”. O processo foi se autoalimentando  dialeticamente, até formar uma bola de neve que, com o combustível diário despejado na fogueira da opinião pública pela TV Globo, Veja e a maioria da grande imprensa, criou as condições psicossociais para a derrubada do governo, suprimindo ou minimizando as vozes da resistência, arrastando o próprio Supremo na “grande onda cívica” gestada por esse formidável complexo conspiratório, até elevar o clima nas ruas a um grau de hostilidade e ódio nunca antes visto na história deste País.

A grande mídia foi um dos principais protagonistas do golpe, mobilizando a opinião pública a seu favor

 Foi essa maré montante que permitiu as estranhas cenas de antigos militantes contra a ditadura de 1964 marchando nas mesmas passeatas em que marcharam Bolsonaro, Eduardo Cunha (simbolicamente), as dondocas perfumadas da Avenida Paulista e os brucutus portadores de faixas pedindo a volta dos militares. Sentiam-se incomodados, mas estavam lá, na mesma trincheira. Depois pediram a cabeça de Bolsonaro e festejaram a suspensão do mandato de Cunha para apaziguar as consciências.

“Pedaladas” e créditos suplementares ao orçamento foram usados como pretexto – nem se deram ao trabalho de provar cabalmente a ocorrência de crime de responsabilidade fiscal. Valia tudo para defenestrar a presidente e torpedear a presumível candidatura Lula em 2018.

O resultado dessa vasta articulação é o tsunami conservador que ameaça varrer o país, afogando conquistas sociais e trabalhistas (nem em 1964 os milicos ousaram estuprar a CLT, como farão agora), entregando o petróleo (a ala majoritária do Exército tinha um viés nacionalista) como já anunciaram com o pré-sal, instaurando um clima de caça às bruxas em matéria de direitos humanos e diversidade de gênero, sexo, cultura, etnias, religião etc. No campo político e econômico, o velho Entreguismo está de volta, travestido de moderno ideário neoliberal. Em termos de costumes, a Idade Média bate às nossas portas vestida de Prada.

Os que negam o golpe branco de hoje alegam as diferenças com o ocorrido há 52 anos. Claro que há diferenças. Os métodos se tornaram mais sofisticados, privilegiando a via institucional, como fizeram em Honduras (2009), no Paraguai (2012) e agora no Brasil. Tanques nas ruas só em último caso.

Entretanto, é bom lembrar que, em 1964, os autores da deposição do presidente da República negaram veementemente que se tratava de um golpe, afirmaram que agiam justamente em defesa da democracia e cumpriram rituais pseudolegais, para manter a aparência de constitucionalidade: o presidente do Senado, Áureo de Moura Andrade, proclamou legalmente vaga a presidência da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a chefia do governo. Também no Recife improvisou-se uma “solução jurídica”: o impedimento de Arraes foi aprovada pela Assembleia Legislativa por 45 votos contra 17, numa votação "democrática".

Em 1964 era, como hoje é, fundamental para os conspiradores manter a aparência de legalidade, tanto para efeito interno quanto, e principalmente, para o público externo. Os golpes sempre usam máscaras.

Se é certo que a História se repete como farsa, suas consequências, porém,  podem ser trágicas. Quem viver verá. 

http://www.interblogs.com.br/homerofonseca/ 

 

O caminho será o das ruas

  • 11/05/2016 08:19
  • Geraldo de Majella

O golpe parlamentar esta se consumando no Senado Federal. A aprovação do impeachment contra a presidenta da Republica Dilma Rousseff torna-se irreversível. As tramas golpistas realizadas pelo vice-presidente Michel Temer são majoritárias exitosas.  

O empresariado nacional e internacional, as grandes famílias que dominam a mídia nacional, os ruralistas e a maioria parlamentares conquistada através das promessas de partilha dos cargos públicos nos ministérios e nas estatais é a joia da coroa e o objeto do desejo dos deputados e senadores. O butim vem sendo ardilosamente anunciado à Nação.   

O rolo compressor está montado para triturar as conquistas sociais de aposentados, trabalhadores e dos milhões de pobres que estão incluídos nos programas sociais. O alvo já foi definido no final de 2015 com o programa de governo de Michel Temer “Ponte para o futuro”.

A redução do Estado é pedra angular do discurso requentado, mas que vem sendo anunciado como a novidade a ser impingida à Nação. O empresariado vive, e faz muito tempo, querendo a flexibilização dos direitos trabalhistas consignados na CLT e de roldão reduzir as políticas públicas das áreas de saúde, educação e assistência social, tidas por eles como sinônimo de gastança governamental.

O símbolo dessas políticas é o programa Bolsa Família. Os mais conservadores e a direita nacional imputam as vitórias petistas e de seus aliados ao êxito e a capilaridade do programa Bolsa Família. E não adianta a argumentação de que o êxito nacional e internacional do programa tem sido uma importante e decisiva âncora de sustentação e geradora de riqueza em todos os municípios brasileiros, notadamente nos municípios mais pobres, com os indicadores sociais mais baixos. A torpeza conservadora dos oposicionistas está sedimentada.

O Partido dos Trabalhadores vem governando o Brasil desde 2002 e nesse período foi possível avançar em muitas conquista. Mas cometeu inúmeros erros e se fez presente em um largo processo de corrupção, pelo que deve sofrer todas as penalidades que a lei reserva. Mas não se devem misturar os fatos.

Os movimentos sociais de todos os matizes devem se organizar, com a urgência que o momento exige, para resistir às políticas de supressão dos direitos sociais. A onda conservadora que está sendo formatada parece ser avassaladora. É o segundo momento; o primeiro foi nos governos Fernando Henrique Cardoso, quando as privatizações aconteceram a preço vil.

O caminho do movimento sindical, dos movimentos sociais, dos estudantes, dos movimentos que lutam pela reforma agrária e da agricultura familiar, do movimento sindical rural, dos intelectuais de esquerda e progressistas, da juventude trabalhadora e também dos aposentados serão as ruas.

A mobilização é o instrumento de luta para manter as conquistas, muitas delas originarias da década de 30. As conquistas devem ser preservadas, e quem tem de lutar ainda mais são os movimentos sociais.

Por isso o caminho será o das ruas!

É GOLPE!

  • 10/05/2016 11:28
  • Geraldo de Majella

 

(*) Jean Wyllys

Vocês precisavam mais uma prova de que o que está acontecendo é um golpe de estado?

O presidente do Senado, Renan Calheiros, decidiu simplesmente IGNORAR a decisão do presidente em exercício da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, que tinha anulado a votação do impeachment em resposta a um recurso da AGU. Isso mesmo: ignorar.

A decisão de Maranhão — independentemente da minha opinião sobre ele, que é mais um aliado de Cunha, investigado por diversos crimes de corrupção — é um ato jurídico válido, tomado por uma autoridade em exercício de suas atribuições, respondendo a um ato da defesa da Presidenta e de acordo com a lei. Se o presidente do Senado considerasse que essa decisão era equivocada, ilegítima ou inadequada, o caminho que ele devia seguir era recorrer ao Supremo Tribunal Federal, mas o que não pode, de forma alguma, é simplesmente ignorar um ato jurídico de outra autoridade da República.

Eu discordo de muitas decisões tomadas por Eduardo Cunha a até fui ao Supremo contra elas, mas não posso simplesmente fazer de conta que elas não existem. Se adotarmos esse caminho, então a Presidenta também poderia ignorar a decisão de Renan e não acatar o impeachment, e o vice-presidente poderia não acatar a decisão da Presidenta e tomar posse, e os ministros poderiam não acatar a decisão dele e continuar respondendo à Dilma, e assim cada um faz o que quer. Numa República, não é assim que a banda toca. Se Renan não concordasse com a decisão de Maranhão, deveria ter recorrido ao STF, mas até o STF se pronunciar, a decisão de Maranhão está valendo!

E é incrível que, enquanto a Constituição e a lei são rasgadas dessa forma, o ministro Gilmar Mendes, do STF, faça declarações à imprensa falando que "anular a sessão do impeachment vai gerar tumulto". Tumulto? E cassar 54 milhões de votos por meio de um golpe institucional gera o que mesmo? Hipócrita! Mais cedo foi a vez de Noblat reclamar do fato de o ato de Waldir Maranhão "cassar os votos dos mais de 300 deputados favoráveis ao impeachment". Ora, e por que esse sabujo acha legítimo cassar 54 milhões de votos na Dilma? Hipócrita!

Todo o processo de impeachment foi conduzido dessa forma. Não importa a Constituição. Não importa a lei que regulamenta o impeachment (uma lei de 1950 que foi violada por Cunha e motivou o recurso da AGU que Maranhão acolheu). Não importa o regimento da Câmara. Não importa nada. Existe a decisão política de tirar do cargo uma presidenta que teve 54 milhões de votos e eles estão dispostos a fazer isso de QUALQUER maneira.

Mas não pode. É golpe. E dará lugar a um governo ilegítimo. Se Temer tomar posse como presidente nessas condições, será um presidente "de facto", mas não de direito. Se quisermos viver numa democracia, precisamos aprender a respeitar suas regras!

(*) Deputado federal (Psol-RJ)

Dias piores virão com Michel Temer

  • 01/05/2016 20:07
  • Geraldo de Majella

 

Procurar entender os erros dos governos Dilma Rousseff e Lula é importante para compreender o porquê da crise politica, econômica e ética que o Brasil vive.

        O PT assumiu a hegemonia da esquerda brasileira ainda nos 1980. Desde a sua fundação conseguiu manter na sigla remanescentes e sobreviventes de organizações políticas de esquerda que optaram pela resistência à ditadura pela via da luta armada, grupos religiosos de esquerda militantes das comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, sindicalistas, ex-comunistas, intelectuais, professores universitários, artistas, antigos militantes da democracia cristã etc.  

        O PT surgiu como um partido legal e conquistou espaço na sociedade e junto aos eleitores, sem ter sofrido nenhum tipo de perseguição e sem ter de suportar os estigmas impingidos aos comunistas do PCB e PCdoB que só em 1985, depois de completar seis ano da anistia conquistada em 1979, se reintegraram à vida política nacional, deixando para trás a vida clandestina, as prisões e o exílio.

        A construção do PT é uma obra notável numa sociedade na qual os partidos políticos tradicionalmente sempre foram cartoriais. O Partido dos Trabalhadores incorporou milhares de cidadãos em suas fileiras e conquistou, através do voto popular, prefeituras de cidades médias e grandes como São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza e Belo Horizonte.

        Elegeu governadores no Rio Grande do Sul, Brasília, Acre, Piauí, Sergipe e Pará; em alguns desses estados, elegeu-os mais de uma vez, como no Acre e no Rio Grande do Sul.

        Lula, o grande líder de massas da segunda metade do século XX, disputou três vezes a presidência da República, sendo derrotado. Elegeu-se na quarta e reelegeu-se; de tão popular que era, lançou uma mulher, Dilma Rousseff, uma  ex-presa política à sua sucessão, e embalado na sua alta popularidade tornou a elegê-la na eleição seguinte Dilma é reeleita presidente do Brasil, dois feitos históricos, primeiro elegendo uma mulher presidente do Brasil e, em seguida, reelegendo-a.

        O PT conseguiu essa trajetória eleitoral espetacular em três décadas. A defesa de políticas públicas históricas, bandeiras da esquerda brasileira como a reforma agrária, a melhoria e universalização da educação pública, a consolidação do Sistema Único de Saúde, a erradicação da pobreza, o desenvolvimento econômico e social com distribuição e renda e a estruturação de politicas de desenvolvimento regional foram marcos do Partido dos Trabalhadores.

        O PT conseguiu capitalizar esses sentimentos e desejos da maioria da esquerda brasileira e de setores progressistas da sociedade e do empresariado nacional. As sucessivas e expressivas derrotas fizeram com que os seus principais dirigentes e quadros amadurecessem diante da realidade. Aprendeu que não seria fácil chegar ao poder sem a flexibilização na ação política e na estratégia eleitoral.

        Foram realizadas as necessárias flexibilizações. Lula e o PT estabeleceram uma aliança política com setores do empresariado nacional e com o que havia de mais significativo no parlamento naquele instante. Em 2002, o então senador mineiro José Alencar foi o caminho ou a ponte que ligaria o Lula e PT ao empresariado nacional, fiador de um governo onde os interesses da indústria nacional e do capital não seriam incomodados com políticas sectárias ou radicais que viessem a prejudicar a elite brasileira.

        Esse pacto firmado é apresentado à Nação no dia 22 de junho de 2002, na Carta ao povo brasileiro. Passados quatorze anos, faço uma nova leitura da Carta ao povo brasileiro, e esse trecho salta aos olhos:

“Nosso povo constata com pesar e indignação que a economia não cresceu e está muito mais vulnerável; a soberania do país ficou em grande parte comprometida; a corrupção continua alta e, principalmente, a crise social e a insegurança tornaram-se assustadoras.

“O sentimento predominante em todas as classes e em todas as regiões é o de que o atual modelo esgotou-se. Por isso, o país não pode insistir nesse caminho, sob pena de ficar numa estagnação crônica ou até mesmo de sofrer, mais cedo ou mais tarde, um colapso econômico, social e moral”.

A eleição de Lula e José Alencar abriu novos caminhos e perspectivas de crescimento econômico. Houve o maior feito da história da República, para mim, a maior obra do governo desde que foi criado o Plano Real, em 1994, até 2010: a redução em 67% da pobreza, pois em dez anos 50% dos mais pobres tiveram crescimento de 69% em sua renda e a renda dos 10% mais ricos cresceu também 10%.

Esses dados são da pesquisa Desigualdade de Renda na Década da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2011, que mostra ainda que a pobreza diminuiu em 50,6% durante o governo do presidente Lula, de junho de 2003 a dezembro de 2010, e que, de 1994 a 2002, a pobreza caiu 31,9%. Ao longo de 2010, a pobreza foi reduzida em 16%.

Essa obra gigantesca é um dos pilares das lutas desenvolvidas pela esquerda brasileira. Essa conquista real e também simbólica não é para retroagir. Alguns desses ganhos  têm sido ameaçados e integram a pauta das lutas dos movimentos sociais e dos brasileiros que querem a erradicação da miséria e da pobreza em nosso país.

Esse capital político vem sendo ameaçado desde o primeiro governo Dilma Rousseff. Os sucessivos erros na condução da política econômica, somados à inabilidade no trato político geral, fez com que o seu governo fosse derrotado pelos piores corruptos de que a nação já ouviu falar.

A soma das inúmeras denúncias, processos, condenações de dirigentes do PT e de ex-ministros do governo Lula e Dilma por corrupção tem sido potencializada pela grande mídia, pelo capital financeiro e pelo empresariado nacional e internacional como forma de bloquear o governo com um processo de impeachment sem comprovação de crime praticado pela presidenta da República.  

A aliança política montada com o empresariado ou por setores se transformou numa estratégia para o PT manter-se no poder, mas com um outro conteúdo: a partilha do Estado. Essa “engenharia política” não é nova na política brasileira, mas não poderia ser a opção adotada pelo Partido dos Trabalhadores e por seu líder.

A corrupção denunciada desde a sua fundação tornou-se – para surpresa geral, ao ser revelada nos inquéritos pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal – uma vergonha nacional e o principal motivo que a direita encontrou para apear do poder o PT, inclusive e principalmente com o que era denominada de base de apoio. A tal base de apoio é infinitamente mais experiente em matéria de corrupção e de apropriação do aparelho de Estado que os petistas.

O combate à corrupção não é o objetivo central da elite brasileira, muito pelo contrário. Com Dilma Rousseff fora do Palácio do Planalto, haverá um realinhamento de forças e os Poderes da República irão encontrar maneiras de salvar os seus membros e representantes ou serviçais.

O legado desse desastre moral deixou foi a fúria avassaladora da direita potencializada pelas forças econômicas nacional e internacional para, em nome de reestruturar a Petrobras, por exemplo, privatizá-la em meio à onda de descontentamento e decepção da maioria da população capitaneada pela facciosa mídia nacional, principal pilar do golpe parlamentar executado, inicialmente, pela Câmara dos Deputados e consumado pelo Senado Federal.

 

O governo Temer

 

        Diante do golpe e com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a organização da resistência ao governo de Michel Temer é a posição mais urgente a se tomar pelos movimentos sociais e setores da sociedade civil que não concordaram com o golpe, mesmo os que não são do PT e não foram eleitores de Dilma Rousseff, mas que são democratas. No horizonte mais próximo, setores do mundo do trabalho que foram a favor do impeachment, mas que poderão perder direitos conquistados, terão de ser convocados para essa nova etapa de lutas do povo brasileiro.

     A temperatura vai esquentar nas ruas, nas fábricas, no campo, nas escolas e universidades. Quem na esquerda imaginou que a luta de classes tinha sido coisa do passado equivocou-se.

         As primeiras notícias do governo Temer foram amplamente festejadas pelo PIB nacional. A economia no seu governo sofrerá um choque liberal; será anunciada a redução de gastos com a máquina pública e o Estado será reduzido – um filme antigo, onde as vitimas são os pobres, para começo de conversa.

        Possivelmente, Temer não vai entregar o que prometeu aos deputados, partidos e senadores na preparação do golpe. Anunciou redução drástica de ministérios, de 36 para no máximo 20 ministérios em sua gestão. Mudou em poucos dias: agora se fala em 26. Temer é fisiológico como a maioria dos políticos brasileiros.

O pior está por vir: a direita fundamentalista capitaneada pelo pastor Silas Malafaia inicia a cobrança da sua fatura. Malafaia foi recebido no Palácio do Jaburu, e Temer contrito como um evangélico recém-convertido orou de mãos dados com o tal pastor.

        Essa gente foi exigir o fim da distribuição de material didático que ensina as crianças a respeitarem a diversidade sexual. Além disso, ou se isso não bastasse como sinal de retrocesso iminente, o DEM pretende indicar o ministro da Educação.

        Dias piores virão com Michel Temer.

        

O Golpe Civil-militar de 1º de abril de 64

  • 01/04/2016 07:34
  • Geraldo de Majella

 

 

O semanário A Voz do Povo, órgão do Partido Comunista Brasileiro - PCB em Alagoas, começou a circular no dia 1º de maio de 1946. A redação de A Voz do Povo desde a sua fundação funcionou até a sua destruição, em 1º de abril de 1964, no nº 606 da rua do Comércio, num imóvel que pertenceu à histórica dirigente comunista Maria Augusta de Miranda (Marinete).

O primeiro diretor foi o jornalista e advogado André Papini Góes. Em 1947, Papini foi eleito deputado estadual constituinte pelo PCB. A redação era inicialmente constituída por jovens, alguns ainda estudantes, como Arnoldo Jambo, Floriano Ivo Júnior, Hélio de Sá Carneiro, Murilo Leão Rego e George Cabral, todos militantes do PCB.

        As dependências d’ A Voz do Povo eram compartilhadas com a direção regional de Alagoas. A ocupação destes espaços evidenciava a ligação umbilical que havia entre o PCB e a administração, redação e oficina do jornal.

A máquina que durante décadas imprimiu o semanário era uma Marinoni com muitos anos de uso. Os tipógrafos, além dos seus afazeres, inúmeras vezes consertaram a máquina depois dos sucessivos empastelamentos.

O jornal teve três diretores durante os dezoitos anos de existência [1946-1964]: André Papini Góis, Osvaldo Nogueira e Jayme Amorim de Miranda. 

Em vários momentos de sua vida o jornal teve de ser impresso em gráficas clandestinas em Maceió e no Recife. Esses fatos ocorreram durante os governos de Silvestre Péricles [1947-1951], Arnon de Mello [1951-1956] e Luiz Cavalcante [1961–1966]. O único período em que A Voz do Povo não sofreu com atos violentos foi no governo de Sebastião Marinho Muniz Falcão [1956-1961].  

Nilson Miranda, antigo dirigente comunista e repórter d’ A Voz do Povo, testemunhou: “O jornal circulou durante anos em condições precárias. Mesmo assim era distribuído e lido nas fábricas, nos bairros populares de Maceió e em outras cidades de Alagoas. Foi uma escola de jornalismo.”

No dia 1º de abril de 1964 a sede do semanário foi invadida e destruída; os seus bens foram saqueados e a gráfica foi destruída. Os seus diretores foram presos. Terminou assim uma longa trajetória.

A invasão foi comandada pelos delegados Rubens Quintela e Albérico Barros, e o responsável pelo ato violento foi o comandante do golpe militar em Alagoas, o governador Luiz Cavalcante.   

  

 

 

 

O Brasil não precisa de heróis nem de salvadores da Pátria

  • 07/03/2016 16:49
  • Geraldo de Majella

 

A corrupção é um mal que tem se perpetuado na sociedade brasileira, isso ninguém se atreve a contestar. Pode-se dizer que em determinado período houve mais ou menos corrupção ou que tal percepção foi sentida com maior ou menor evidência.

        A Operação Lava-Jato tem sido um bálsamo para os olhos da nação. Poucos se atrevem a dizer o contrário. Os resultados parciais da Lava-Jato são sentidos nas ruas. A população tem dado apoio irrestrito; nos cofres públicos os desvios cessaram, pelo menos na Petrobras. O sistema de corrupção está sob a observação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

        Entre tantas operações de combate à corrupção desencadeadas no país nesses últimos anos, esta tem sido a mais eficiente e a que mais conseguiu êxito. Por isso tem sido tão aclamada pela população. O juiz Sérgio Moro foi erigido à condição de pop star no combate à corrupção, sem que tenha buscado mídia pessoal para tanto. Essa condição se dá tão só pelo seu desempenho como agente público.

        O cumprimento do dever constitucional com o mínimo de lisura e competência no Brasil é motivo de euforia. O País, submerso nas mais variadas e extensivas práticas de corrupção, inicia um processo de reação diante do estado de estupor em que vivia.

Esse mérito o juiz Sérgio Moro, o Procurador da Republica Rodrigo Janot e os membros da Polícia Federal têm e ninguém lhes usurpará.

O dia 4 de março será lembrado como o dia em que o juiz Sérgio Moro cometeu o seu primeiro e sério – esperamos que seja o último – deslize ao determinar a “condução coercitiva” do ex-presidente Lula.

Esse ato de força desproporcional é um atentado às liberdades, ao direito e às garantias individuais consignadas na Constituição federal. O ex-presidente da República não se recusara a prestar depoimento. Entretanto, foi tratado como se houvesse desdenhado da ordem judicial.

Esse detalhe é fundamental para a preservação do Estado Democrático de Direito, pois a democracia é uma obra construída por todos e por muitos que se sacrificaram para que o Judiciário não continuasse amordaçado, como foi durante 21 anos de ditadura civil-militar.

Os políticos e dirigentes do PT, PMDB, PTB, PP, os empresários, banqueiros e funcionários públicos que são investigados e processados na operação Lava-Jato e que estiverem efetivamente envolvidos, a nação quer que sejam condenados, mas que nenhum desses acusados tenha os seus direitos vilipendiados.

O Brasil não precisa de heróis nem de salvadores da Pátria. O brasileiro quer justiça.

 

 

Escola Estadual Manoel Lisboa de Moura

  • 05/03/2016 06:38
  • Geraldo de Majella

No último dia 02 de março, a Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB) aprovou a mudança de nome da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, situada às margens da BR-101, em João Pessoa, para Escola Estadual Manoel Lisboa de Moura. Este é o segundo colégio público da Capital que foi rebatizado em substituição ao nome de um velho ditador. O Projeto de Lei 466/2015, que possibilitou esta reparação histórica, é de autoria do deputado estadual Anísio Maia (PT), que militou, na sua juventude, nas fileiras do PCR, partido fundado Manoel, na resistência à Ditadura Militar no Brasil.

Em 2013, já dentro dos preparativos para o cinquentenário do Golpe Militar, a ALPB aprovou projeto de Anísio (hoje Lei 10.086/2013), dando um prazo de dois anos para que o Governo do Estado retirasse de todos os prédios, rodovias e demais espaços sob sua responsabilidade qualquer tipo de homenagem a pessoas ligadas a violações dos direitos humanos, especialmente no período do regime fascista de 1964 a 1985.

Foi assim que, após uma passeata com mais de 300 pessoas, entre estudantes, professores sindicalistas, militantes dos mais diversos movimentos sociais, puxada pelo Comitê Paraibano Memória, Verdade e Justiça para marcar o repúdio popular aos 50 anos do Golpe, que, no dia 31 de março de 2014, o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), assinou um decreto modificando o nome da Escola Estadual Presidente Médici para Escola Estadual Presidente João Goulart.

Quem foi Costa e Silva e quem sempre será Manoel Lisboa

O general Arthur da Costa e Silva foi o segundo presidente da República durante a Ditadura Militar fascista brasileira, no período de 15 de março de 1967 a 17 de dezembro de 1969, data de sua morte. Como ditador de plantão, foi ele quem decretou o famigerado Ato Institucional Nº 5 (AI-5), no dia 13 de dezembro de 1968.

O chamado golpe dentro do golpe, institucionalizou o sequestro, a tortura, o assassinato de militantes revolucionários, fechou o Congresso Nacional, prendeu parlamentares, interveio em estados e municípios, cassou, demitiu, censurou, proibiu qualquer tipo de manifestação ou reunião pública contrária ao regime, etc. Enfim, instalou o terrorismo de Estado no Brasil para salvaguardar os interesses das elites econômicas e políticas.

Num país que se diga democrático, uma biografia como esta jamais poderia ser homenageada, ainda mais dando nome a uma escola.

Já Manoel Lisboa de Moura é o oposto do ex-general. Jovem de classe média, abdicou de confortos para se dedicar à causa do oprimidos. Estudante de Medicina da Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, onde nasceu, foi expulso da instituição logo após o golpe e o AI-5 e o Decreto-lei 477 oficializaram a cassação dos seus direitos políticos e civis. O AI-5 do general ditador Arthur da Costa e Silva levou a polícia política da ditadura a empreender uma feroz caça ao dirigente do PCR mesmo estando vivendo e militando na mais absoluta clandestinamente entre sua terra natal, Pernambuco e Paraíba. Iniciou sua militância política ainda como estudante secundarista (como os jovens de 15 anos que estudam na escola que agora leva seu nome) e, em maio de 1966, fundou, junto com outros valorosos lutadores, o Partido Comunista Revolucionário (PCR) com os objetivos de derrubar a Ditadura e construir uma nação socialista, livre do fascismo e da exploração da burguesia e dos latifundiários sobre o povo.

Por sua destacada atuação à frente do PCR, comandando diversas ações exitosas, como o assalto ao Parque da Aeronáutica em Recife e que desmoralizaram o regime, e por isto Manoel Lisboa passou a ser fortemente cassado pelos agentes da repressão, que numa operação conjunta do DOI-COI de São Paulo e Recife conseguiram capturá-lo em Recife, no dia 16 de agosto de 1973. Torturado ininterruptamente até sua morte, no dia 04 de setembro, Manoel resistiu às formas mais brutais de tortura física, não revelando nada do que sabia sobre outros militantes e sobre seu partido.

Seu corpo, trasladado clandestinamente para São Paulo, foi enterrado na condição de indigente de Campo Grande, numa vala comum, a fim de que não pudesse ser identificado. A versão oficial de sua morte, dava conta de que morrera em um tiroteio com policiais e seu camarada de partido Emmanuel Bezerra dos Santos(sequestrado pela Operação Condor e entregue ao DOI-CODI-SP, que o torturou até a morte sem dizer nem em que cidade do Brasil morava(na época era o responsável pelo trabalho do Partido em Alagoas), provavelmente o sequestro ocorreu numa das fonteiras entre a Argentina e o Brasil, quando voltava de missão internacionalista no Chile e Argentina e numa tentativa de caluniá-lo e de encobrir seus crimes de imprescritíveis de sequestro, torturas, assassinato e ocultação de cadáveres.

Como se vê, nem a violência nem as mentiras contra Manoel e nada adiantaram. Esta homenagem simbólica e as palavras dos militantes do PCR que, até hoje, dão prosseguimento a sua maior obra, confirmam que Manoel Lisboa entrou para a História do Brasil como herói que foi e sempre será: “teu nome é norma de conduta, exemplo da humanidade futura”.

 

O povo quer carnaval, os hoteleiros são contra e a prefeitura baixou a cabeça

  • 04/02/2016 10:57
  • Geraldo de Majella

As prévias carnavalescas de Maceió tiveram início no dia 16 de janeiro com o baile Vermelho e Preto do Jaraguá Tênis Clube. O tradicional clube de tênis da cidade levou milhares de foliões para dançar frevo no salão climatizado e ornamentado em homenagem ao imortal compositor pernambucano Capiba.  

Os Seresteiros da Pitanguinha, no dia 23, realizaram o baile de Máscaras, que teve como a homenageada deste ano a museóloga Carmen Lúcia Dantas.

No dia 31, o Iate Clube Pajuçara realizou a sua matinê infantil. Os três bailes conferem a certeza de que os foliões de Maceió comparecem aos eventos carnavalescos, nos salões e nas ruas.

O Jaraguá Folia tem coordenado os desfiles de dezenas de blocos pelas ruas do bairro de Jaraguá há 17 anos.

No sábado, dia 30, nas orlas de Pajuçara e Ponta Verde, milhares de foliões foram ao bloco Pinto da Madrugada, o maior de Alagoas, seguido pelos blocos Pecinhas de Maceió e Rolinha da Serraria.

Nesse conjunto de eventos carnavalescos estimou-se a presença de cerca de 200 mil pessoas.

Pois bem, essa multidão passou despercebida pelos órgãos fomentadores de cultura e turismo do município de Maceió e do governo estadual. O improviso e a má vontade para com a maior festa popular de Alagoas são visíveis.

O carnaval tem sido tratado nos últimos 12 anos como uma festa indesejável pela prefeitura de Maceió e pelo governo do Estado de Alagoas. Esse ano foi mais grave; sem o apoio da prefeitura os blocos estiveram ameaçados de não desfilar. De ultima hora a o governo estadual liberou 180 mil reais; essa quantia ficou abaixo das reais necessidades. Os blocos desfilaram com um número reduzido de bandas.

Enquanto o carnaval não for tratado como uma atividade economicamente viável em Maceió, não haverá a superação das dificuldades anualmente constatadas.

Maceió continua perdendo recursos financeiros para Barra de São Miguel, Paripueira, Maragogi, Piranhas, Barra de Santo Antônio, além de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e as cidades coloniais de Minas Gerais.

O povo quer carnaval, os hoteleiros são contra e a prefeitura de Maceió tem baixado a cabeça, concordando com essa estupidez.

Quem achar ruim que vá pra Tonga da Mironga do Kabuletê.

Evoé! 

Brasil, pátria encarceradora

  • 22/01/2016 13:22
  • Geraldo de Majella

 

Eis o epicentro de nosso problema na área da (in)segurança pública, sem cuja solução a vigência do Estado democrático de direito permanecerá dúbia, precária ou parcialmente suspensa. Refiro-me ao ponto no qual se cruzam o modelo policial e a lei de drogas, que reputo hipócrita e absolutamente irracional. Observe-se que o modelo policial definido pelo artigo 144 da Constituição veda a investigação a uma das polícias, obrigando-a a prender apenas em flagrante. Registre-se ainda que o ambiente social, cultural e político pressiona a polícia que está nas ruas, a polícia ostensiva, uniformizada (a mais numerosa), isto é, a polícia militar, a mostrar serviço, ou seja, a prender em grandes quantidades.

Se a polícia que está nas ruas não pode investigar, impondo-se-lhe o flagrante como condição para a prisão, os delitos que selecionará como alvos de seu trabalho são aqueles passíveis de prisão em flagrante, aqueles filtrados pelo critério ao qual subordinam-se os objetos de sua ação. Este é o filtro seletivo, oriundo do modelo policial, que se combinará aos demais, inconsciente ou conscientemente acionados pelas culturas corporativas, pelo viés de classe e pelo racismo estrutural da sociedade brasileira. Sendo assim, qual a lei à mão, no varejo? Qual o delito mais instrumentalmente útil para que a polícia ostensiva produza? –entendendo-se esta “produtividade” como costumeiramente é o caso: antes prisões e apreensões de armas e drogas do que redução da insegurança. A resposta é óbvia: as transgressões relativas ao porte, à posse e ao comércio de substâncias ilícitas, as “drogas”. Resultado: cada vez mais as penitenciárias se enchem de varejistas das drogas. E assim têm sido privados de liberdade levas crescentes de jovens quase sempre pobres, em sua grande maioria negros, com baixa escolaridade –muitos dos quais não portavam armas, não agiam com violência, nem estavam organicamente ligados a organizacões criminosas. Não estavam, mas nosso sistema, culminância da inteligência pátria, providencia para que se organizem. Ou seja, estamos contratando violência futura. E pagando caro para semear tempestades.

Eis aí o mistério solucionado: há 58 mil crimes letais intencionais por ano, no Brasil, entre eles 56 mil homicídios dolosos, dos quais apenas 8% são investigados. A taxa de impunidade relativamente ao crime mais grave atinge o patamar escandaloso de 92%. Entretanto, o Brasil está longe de ser, como se poderia precipitadamente inferir, o país da impunidade: temos a quarta população penitenciária do mundo (640 mil presos, segundo dados defasados do DEPEN, divulgados em fins de 2014) e a que mais velozmente cresce. No universo prisional, 40% estão em prisão provisória, 12% cumprem pena por homicídio, e dois terços estão sentenciados por crimes contra o patrimônio e delitos vinculados a drogas –sendo estes o subgrupo que mais vem aumentando.

A receita do fracasso está aí desvendada: proiba a polícia que está nas ruas, a mais numerosa, de investigar; cobre-lhe produtividade; identifique eficiência com prisões, as quais terão de ser feitas, portanto, exclusivamente em flagrante; ofereça-lhe a lei de drogas como filtro seletivo e açoite; junte esses ingredientes e os leve ao fogo brando da inépcia política; salpique omissão das demais instituições que compõem o campo da Justiça criminal; polvilhe autorização tácita da sociedade;  bata a gosto – ninguém está olhando, e a sede de vingança dá o tom nos programas demagógicos de TV. Pronto, está aí o quadro dantesco da insegurança brasileira, invertendo prioridades e sacrificando a vida, que, afinal, é dos outros. O racismo rege esta máquina selvagem que criminaliza a pobreza. E quando novos crimes escandalizam, o populismo penal clama por elevação das penas para que se faça mais do mesmo, com mais força, esperando resultados diferentes. Seria patético não fosse trágico. Brasil, pátria encarceradora.

Visite a plataforma <mudamos.org> e participe do debate

Luiz Eduardo Soares é antropólogo, escritor, dramaturgo e professor de filosofia política da UERJ. Foi secretário nacional de segurança pública e coordena curso sobre segurança pública na Universidade Estácio de Sá. Seu livro mais recente é “Rio de Janeiro; histórias de vida e morte" (Companhia das Letras, 2015).

Gracias a la Vida

  • Redação
  • 03/01/2016 21:35
  • Geraldo de Majella

Ao completar 55 anos de idade (em 2 de janeiro), procurei realizar um balanço sucinto e o máximo possível abrangente da minha vida. As vitórias conquistadas e, claro, as derrotas sofridas. Esse balanço não tem as características nem se parece com um balanço empresarial. Os ganhos e as perdas são afetivos. Não perdi financeiramente nada significativo, ocasionalmente até pode ter ocorrido, mas foi irrelevante e não consta de minhas anotações contábeis.

Tenho procurado, a partir dessa fase da vida, qualificar as minhas buscas por coisas que me deem satisfação pessoal.

 O que fiz na vida e da vida foi além das minhas expectativas, principalmente para uma pessoa que pouco planejou os passos e/ou traçou metas e objetivos claros. A minha busca permanente tinha um alvo definido: a política, a militância política de esquerda.

Nunca me imaginei patrão. E cada vez menos possibilidades terei de me estabelecer como empresário, em nenhuma das condições: grande, médio, pequeno ou micro. Penso ter dirigido as melhores energias – desde a juventude até a década de 1990 – com o fim específico de quem trabalhava em jornadas full time na organização do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em Alagoas. Havia me tornado um revolucionário em tempo integral, na mais ampla acepção da palavra e com a significação histórica que o termo teve no movimento comunista internacional.

Esse período, costumo dizer, foi o mais importante da minha vida, pois foi nele que aprendi tudo ou quase tudo do pouco que sei. E inegavelmente o PCB serviu de universidade em minha formação como cidadão, além de me ter facultado a convivência cotidiana com homens e mulheres, muitos deles operários ou de origem operária, trabalhadores de diversos ofícios, intelectuais, jornalistas e professores universitários.

           A pluralidade de classe existente no PCB e o sentido cultivado de pertencimento a uma organização com laços fraternos e internacional, transmitido de uma geração para outra, mudaram radicalmente a minha percepção de mundo.

Essas pessoas com quem convivi e em que procurei me espelhar foram e continuarão a ser os meus verdadeiros mestres. Eram pessoas sofridas, pobres e que sobreviviam com pequenas aposentadorias obtidas depois de décadas de trabalho penoso como operários, mas que pelos exemplos cotidianos de abnegação e pela firmeza de princípios ideológicos, transformaram-se para mim em paradigmas.

Lembrei-me do texto “O Povo”, do grande escritor português Eça de Queirós, que diz: “[...] Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos [...]”.

Homens e mulheres com quem convivi e de que privei da amizade, além do companheirismo. Gente como o motorista de ônibus Rubens Colaço; o operário tecelão José Graciano dos Santos; o arrumador portuário Mário Correia da Silva; o garçom Evaldo Nunes de Oliveira; o mecânico de fogão Gilberto Soares Pinto. Outros, nem sequer os conheci pessoalmente, como Jayme Miranda, mas aprendi a admirá-los através dos relatos dos velhos militantes.

           O sonho acalentado de um Partido Comunista dirigente das grandes massas esvaiu-se. O fenecer de uma existência heroica me levou às lágrimas muitas vezes. Menos mal; sei de companheiros que perderam o prumo.

A minha trajetória de vida é insignificante diante de centenas de milhares de vidas dilaceradas nas masmorras, nas intermináveis sessões de tortura, e dos inúmeros assassinatos e dos que não tiveram o direito sagrado de ser enterrados dignamente, sendo declarados “desaparecidos políticos”.

Essa atrocidade, o deputado Alencar Furtado (MDB-PR) sentenciou como se fossem “filhos órfãos de pais vivos – quem sabe – mortos, talvez. Viúvas do quem sabe ou do talvez”.

Mais das vezes me surpreendo a refletir sobre o que o historiador Dirceu Lindoso anotou no prefácio do meu livro Caderno da Militância: “O sonho é um só, dividido em várias versões. A urgência do socialismo acabou. Mas não sua caminhada”.

A caminhada deve ser realizada para aprofundar a democracia. Isso, dito desta maneira, me parece ter outro significado, ainda pouco visível: com a democracia sendo apropriada pelas camadas e classes subalternas, o seu conteúdo será modificado e os valores mais significativos, não apenas o voto, que é o mais visível e conhecido, sofrerão transformações qualitativas.

O samba de Paulo Vanzolini diz tudo: “Reconhece a queda/ E não desanima/ Levanta, sacode a poeira/ E dá a volta por cima”.

O mundo mudou e eu, claro, mudei junto. Os caminhos abertos têm sido maiores que simples veredas. E os desafios pessoais que se apresentaram, enfrentei-os. Sem nunca ter sido professor de alfabetização de adultos ou mesmo de crianças, na luta pela sobrevivência aceitei esse desafio: foi um dos meus trabalhos, o primeiro em São Paulo.

Esse talvez tenha sido um dos grandes momentos de minha vida. A participação num projeto como o Movimento de Alfabetização de Adultos (Mova). Trabalhei no quinto subsolo do Citibank, na avenida Paulista. As duas turmas de trabalhadores-estudantes, todos nordestinos, sem que eu percebesse contribuíram para a minha adaptação em São Paulo. A vitória se concretizou quando, após 12 meses, todos foram alfabetizados.

As vitórias conquistadas são dessa natureza. Não receberei medalhas de reconhecimento. Ou então quando, como gestor público no exercício da função de Ouvidor-Geral do Estado de Alagoas, estabeleci uma rotina de visitas mensais aos presídios e passei a me reunir com e ouvir dos detentos as suas queixas e denúncias contra o Estado e o agente público estatal.

Esse diálogo foi o mais significativo em toda a minha vida, até o presente. O mundo dos presídios é um inferno. O que se pode criar como ficção do que seria a vida em presídios é pouco diante da realidade cruel e desumana. As vidas lá dentro são paralelas, os códigos de conduta e convivência são o de Hamurabi, a lei é a de Talião: dente por dente, olho por olho.

A presença do agente público nos presídios antes era exclusividade da polícia e dos agentes carcerários. Eu, durante 45 meses abri esse novo mundo para a sociedade conhecer a partir de outra perspectiva, a do seu porta-voz, o Ouvidor-Geral. Em todas as minhas visitas, levei a imprensa, que entrava nas celas e entrevistava os detentos.

Explicitavam-se as denúncias de tortura e maus-tratos, a falta de alimentação ou as péssimas condições da alimentação que os detentos recebiam. Essa é mais uma vitória a ser registrada. Quando fui substituído, a Ouvidoria-Geral foi silenciada e transformou-se num veículos de propaganda do governador. O canal aberto no aparelho de Estado onde a sociedade passaria a ser ouvida nas suas reivindicações deixou de existir. O órgão foi extinto.

Mediar conflitos agrários para evitar violações dos direitos humanos e fazer com que o agente estatal de segurança cumprisse a lei também faz parte do rol de vitórias e conquistas.

No balanço sumário que realizo, a coluna de ganhos é maior, bem maior que as perdas. Os meus ganhos foram afetivos, bem como as perdas. No campo de batalha institucional, muitas das minhas ilusões foram dissipadas, algumas num momento de ascensão política do movimento de esquerda em Alagoas. Esses atores outrora vestiram a camisa de esquerda; ao conquistar o poder, conciliaram tanto que transformaram vitórias eleitorais espetaculares em derrotas bisonhas.

As derrotas não são pessoais; foram da esquerda, de um campo político que foi na sequência atomizado. Nem por isso guardo rancor. Vida que segue.

Isabela é a minha principal conquista no plano pessoal. Filho significa a sua existência na vida de outra pessoa. Isso pode parecer lugar-comum, e creio que seja mesmo. É o que sinto.  

A minha fortuna acumulada é considerável. Disponho de uma carteira de bons amigos e amigas. Nasci numa família que me faz sentir orgulho dos meus pais (Josias e Marinalva), da irmã, das sobrinhas e de dezenas de parentes. E sinto-me igualmente orgulhoso em ter nascido em Anadia (AL).

  Sou um tipo que não reclamo das mulheres, nem das que namorei e por motivos outros não ficamos mais tempo, menos ainda das com quem vivi, que amei e eventualmente nos desentendemos. A todas agradeço os braços abertos, o colo e os momentos que compartilhamos. Não sou marinheiro, mas consegui navegar até encontrar Vânia, o meu porto seguro.

Feliz com tudo, deixo “a vida me levar” sem muita pressa, porque “não quero ter razão. Quero é ser feliz”.

   E por fim, ganhei a renovação do Green Card no dia 1º de outubro de 2010, ao sobreviver a um infarto.

Em 2016, comemoro 55 anos. O que eu mais quero agora é ouvir Paulinho da Viola: “Onde a dor não tem razão”:

 

“Canto

Para dizer que no meu coração

Já não mais se agitam as ondas de uma paixão

Ele não é mais abrigo de amores perdidos

É um lago mais tranquilo

Onde a dor não tem razão

Nele a semente de um novo amor nasceu

Livre de todo rancor, em flor se abriu

Venho reabrir as janelas da vida

E cantar como jamais cantei

Esta felicidade ainda

Quem esperou, como eu, por um novo carinho

E viveu tão sozinho

Tem que agradecer

Quando consegue do peito tirar um espinho

É que a velha esperança

Já não pode morrer.”

(Paulinho da Viola e Elton Medeiros)

 

 

 

 

 

O livro atrai e encanta as pessoas.

  • 24/11/2015 05:39
  • Geraldo de Majella

A VII Bienal Internacional do Livro de Alagoas é o território do saber e do prazer pelo belo, lúdico e encantador mundo do livro. A abertura solene da Bienal ocorreu na noite do último dia 20 (vinte) no Centro de Convenções Ruth Cardoso.

Estiveram presentes o Reitor da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) Eurico Lobo, o governador do Estado Renan Filho, o vice-prefeito de Maceió Marcelo Palmeira, representando o prefeito, a secretaria estadual de Cultura Melina Freitas, o secretário estadual de comunicação Ênio Lins, a secretaria municipal de educação Ana Deyse Doria, o secretario municipal de Cultura Vinicius Palmeira e o secretário municipal de comunicação Clayton Santos.

A plateia composta por centenas de professores universitários e das redes de ensino municipais, estadual e privada, estudantes, escritores alagoanos e os convidados. Nos corredores e estandes milhares de pessoas, lendo, descobrindo, comprando, assistindo as palestras, celebrando o livro.

A Bienal Internacional do Livro de Alagoas é o mais importante evento cultural em nível estadual. E esta mesma Alagoas é o estado mais violento do Brasil, que há décadas é presença constante, no ranking dos piores indicadores sociais e econômicos do país.

Alagoas é o estado que registra o maior número de assassinatos a jovens, negros, pobres e moradores da periferia. Maceió é a cidade mais violenta do Brasil e uma das cinco mais violentas do Planeta.  

Educação e cultura são meios eficazes, e para alguns pesquisadores e estudiosos os principais, para alavancar Alagoas de tão humilhante condição. A Bienal Internacional do Livro é um ambiente propicio para o envolvimento e encantamento de milhares de crianças, jovens, adultos, tanto os excluídos quanto os inseridos nas redes de ensino, portanto é ambiente mais do que indicado para a presença  dos gestores públicos.

A VI Bienal recebeu cerca de 260 mil pessoas, mais da metade foram crianças e jovens. A estimativa da VII Bienal até o dia 29 quando se dará seu encerramento é de 300 mil pessoas.

O secretário estadual de educação, Luciano Barbosa, também vice-governador e o secretário estadual de segurança pública e promotor de justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça não compareceram a abertura da Bienal Internacional do Livro. No entanto Educação e segurança pública são as duas áreas mais críticas e o que saltam aos olhos é o pouco caso, ou a aparente compreensão por parte dos ocupantes destas pastas que um evento dessa magnitude dispense suas presenças. O que fica “impresso” destas ausências é que as autoridades citadas desconsideram, inclusive, o efeito simbólico dos cargos que ocupam.  

A segunda e importante “leitura” das ausências é que: o livro, o encantamento com a literatura e outros gêneros textuais não lhes tocam a alma. A mudança só é possível quando dezenas de milhares de crianças, jovens e adultos forem incorporadas ao mundo mágico, sedutor e transformador da leitura, o livro é o melhor “passaporte” para transformar as pessoas e humanizar as relações nas famílias, corporações militares, escolas e na sociedade desde o contexto local a um sentido macro.

Ainda há tempo para que os gestores públicos corrijam o erro, ainda que seja para construir uma peça publicitária, caso não acreditem na transformação por meio da educação, apropriação dos bens culturais e da leitura.

Acreditamos ser possível encontrar, ainda, na VII Bienal Internacional do Livro de Alagoas, o secretário estadual da segurança pública, os comandantes da Policia Militar, e do temido Bope como também o secretário estadual e a secretaria adjunta (que é professora) de educação. É uma aposta.

Pode parecer utopia, quero pensar dessa maneira. É necessário ser utópico, confesso que sou, principalmente quando a violência trona-se epidêmica.

O livro e a leitura têm o poder transformadores, eu acredito, acreditem também os senhores.

Despeço-me com palavras do escritor Bartolomeu Campos de Queirós: “Há trabalho mais definitivo, há ação mais absoluta do que essa de aproximar o homem do livro? ”

Viva a Bienal.