Geraldo de Majella

Montevidéu, a cidade dos livros

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        A escolha do Uruguai para passar alguns dias nas férias, numa curtíssima passagem, não foi aleatória. O destino programado inicialmente era o Chile, mas o terremoto do início do ano fez com que mudássemos de roteiro. A viagem foi reprogramada; o poeta Sidney Wanderley e eu definimos que iríamos para Buenos Aires, a linda capital da Argentina, e em seguida, para duas outras bonitas cidades do Uruguai: Colônia do Sacramento e Montevidéu.

        A viagem foi planejada de forma tal que caberia um título: roteiro gastronômico-cultural e esportivo. Em Montevidéu o que me chamou particularmente a atenção foram as livrarias e os cafés. Deparamo-nos com uma forte tradição na capital uruguaia: os livros continuam sendo adquiridos em grande quantidade nas centenas de livrarias. Traçamos um roteiro sem qualquer sinal de rigidez. Partimos inicialmente da Avenida 18 de Julho e fizemos um périplo pelas livrarias que encontramos na majestosa avenida e adjacências.

        As estatísticas do vizinho ao sul poderiam servir de espelho para o Brasil. A população do Uruguai é estimada em 3.399.237 habitantes, Montevidéu está em torno de 1,8 milhões. Acontece que 97,9% dos uruguaios são alfabetizados, a mortalidade infantil é de 13,1/ por mil nascidos e a expectativa de vida chega a 76,4 anos. Esses, entre outros indicadores, colocam o país na 47ª colocação entre as nações do mundo.

        Mas quando se trata da tradição acadêmica o recuo alcança o século XIX, quando foram criadas as duas primeiras Universidades, a da República em 1849 e a do Trabalho do Uruguai em 1878. No campo das artes estão entre os principais teatros dois que são duas joias: a Casa de Comédias de 1795 e o teatro Solís, aberto ao público em 1856.

        Caminhamos por algumas dezenas de ruas e avenidas na Ciudad Vieja, a principal delas a Avenida 18 de Julho. Andávamos olhando a maior parte do nosso tempo para o alto, observando as edificações. Sem medo de errar:, afirmo: são centenas de imponentes edifícios construídos entre o século XIX e XX. As praças estão bem cuidadas e em todas há monumentos que homenageiam os heróis nacionais.

        A Plaza Independência e o conjunto arquitetônico que a circunda merece a atenção, e por esse motivo a ela tornamos algumas vezes. O conjunto formado pelo Palácio Salvo, o Palácio Rinaldi e a Puerta de la Ciudadela, além do monumento central que está no centro da Plaza Independência com mais de 10 metros de altura, estonteiam qualquer visitante. A sede do governo uruguaio é uma edificação modernosa e espelhada, destoando do restante das edificações centenárias.

        O presidente José Mojica – Pepe despacha na área central da capital, e o povo uruguaio não necessita andar muito para protestar, pois a Plaza Independência é ampla e comporta muita gente.  

        A busca incessante por livrarias e cafés foi o foco central de nossa estadia em Montevidéu. Estivemos em dezenas, nas grandes, de que já tínhamos alguma referência, em outras que fomos encontrando, e em pequenas, das quais já dispúnhamos de informações mais ou menos precisas.

        Sidney se esbaldou em quase todas, comprou dezenas de livros, sobretudo poesia e livros de artes. O meu objetivo principal foi comprar cds e dvds de música latino- americana, tango e, pasmem!, de música brasileira. Encontrei relíquias de Pixinguinha, Clara Nunes, Jackson do Pandeiro, Garoto e Luiz Bonfá, estes últimos, dois gênios do violão; do alagoano Jacinto Silva, de Elis Regina, João Gilberto, Vinicius e Toquinho, dos argentinos Astor Piazzolla, Mercedes Sosa e Carlos Gardel, entre outros. Reconheço a extravagância e por pouco não me inviabilizo financeiramente.

        A Librería La Lupa fica na Calle Bacacay, 1.318, vizinha ao Café Bacacay, um dos mais tradicionais da capital uruguaia. Entre tantas que visitamos esta foi a menor; uma livraria especializada e completamente diferenciada. O tamanho do empreendimento chama a atenção: são quatro metros de frente por cerca de onze ou doze metros de fundos, com um mezanino onde são expostos quadros de pintores e também se apresentam músicos, artistas plásticos e poetas performáticos. 

Júlia Ortiz, uma bela jovem, torcedora do Nacional (evitem elogiar o Penharol em sua presença), em pouco tempo de conversa confessou: “Aqui não temos best-sellers nas estantes principais; eles estão em pequena quantidade, numa área separada, quase escondidos.” Os best-sellers na La Lupa ficam confinados numa espécie de calabouço. Essa fala foge a qualquer lógica empresarial e foi a abertura de uma longa conversa. Entramos na La Lupa porque estava chovendo e fazendo frio. Mas para nossa surpresa encontramos ótimos livros e bom papo.

        Comprei alguns poucos livros, e novamente o poeta comprou um lote de obras de autores sul-americanos: Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Mário Benedetti, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Idea Vilariño. 

        A televisão ligada não me dizia muita coisa, um dvd tocava rock and roll e, na sequência, uma voz conhecida cantando em português: era Djavan. Mais um motivo para continuarmos a conversa com Júlia, que se declarou fã do cantor alagoano − para ela um brasileiro muito querido pelos uruguaios; para nós, orgulhosos, sorrisos largos, pois quem estava cantando era um conterrâneo, e dos mais ilustres.

        Os clientes que chegaram enquanto estivemos na livraria vinham pegar as encomendas; Neruda, Benedetti, Saramago, esses eu observei bem, confesso que com bastante curiosidade. Os livros que estavam nas estantes para ser comercializados são rigorosamente selecionados; são livros de arte, literatura (lá se encontra, para nossa felicidade, praticamente toda a obra de Clarice Lispector e alguns dos clássicos de Gilberto Freyre), ciências sociais, gastronomia, música e raros best-sellers, estes invariavelmente escondidos.

        Quando as lojas comerciais fecham suas portas, às 14 horas do sábado, a livraria La Lupa inicia a arrumação para as performances musicais. Todos os sábados, a partir das 18 horas, a música reina naquele pequeno espaço; os jovens lotam as dependências, chegando muitas vezes a ocorrer aglomeração na calçada.

        Montevidéu tem mais de 100 livrarias, e a La Lupa vem sobrevivendo nesse mercado concorrido onde as gigantes do ramo dispõem de melhores condições tanto para comprar como para vender ou distribuir, usando e abusando da internet. Jorge Larrosa, o proprietário, e Júlia Ortiz, a funcionária, vão rompendo barreiras e conquistando novos clientes, incluindo os alagoanos.   

 

Democracia direta

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A democracia representativa tem dado sinais de esgotamento. Os representantes da população eleitos para os parlamentos (vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores) e para os executivos (prefeitos, governadores e presidente da República) não têm representado os interesses dos eleitores e muito menos da população.  

Os eleitos, de um modo geral, há exceções, evidentemente, o que melhor fazem é defenderem interesses privados, patrimonialistas e os seus próprios interesses.

A democracia direta é a ruptura com esse sistema de representação; nela, a própria população decide diretamente sobre o que é de interesse público. Os cidadãos através das redes sociais dizem o que querem para o seu bairro, cidade, estado e para o país.

A democracia direta é o exercício da cidadania no grau mais avançado que se conhece, sobretudo pela inovação tecnológica que a internet oferece: a participação do cidadão nas discussões dos seus interesses sem a intermediação da representação parlamentar ou mesmo do Executivo. A participação horizontal dos cidadãos interferindo com voz ativa nas decisões, exercendo o legítimo poder de pressão junto aos Poderes do Estado, é o maior ganho e a real participação na democracia.

A participação política tende a aumentar e a consolidar instâncias de poder com ampla discussão dos reais problemas da população.

A internet tem sido a ferramenta que mudou radicalmente a comunicação entre os cidadãos e entre o cidadão e as empresas. Para não falar do impacto que o exercício da cidadania tem causado junto ao Estado (Judiciário, Legislativo, Executivo e Ministério Público).  

Democracia não pode ser o voto como símbolo da expressão e vontade popular. A permanente interferência no dia a dia dos políticos e dos agentes do Estado tem sido o mecanismo mais eficaz para se exercer a cidadania plenamente.

As iniciativas populares são possibilidades de o cidadão propor mudanças, seja apresentando um projeto de lei, seja pedindo a modificação ou a revogação. Isso no plano legislativo. Exercer a vigilância sobre os agentes públicos e protestar ou mesmo exigir a mudança de atitude tem sido o novo no Brasil.

Os partidos políticos, as representações sindicais de trabalhadores e patronais e as demais organizações do sociedade civil, ou mudam as suas posturas, deixando de ser burocratizadas e dominadas por grupos internos, ou vão perder função diante das mudanças, dos avanços e da participação do cidadão na defesa dos seus interesses individuais e coletivos.

 

 

 

Historiador debaterá importância da Revolução Russa no ano do centenário [1917-2017].

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O historiador e advogado Natanael Sarmento, participará hoje, 23/11, de um debate comemorativo ao  centenário da Revolução Russa [1917-2017], em Maceió. O tema será: Ecos da Revolução Russa no mundo e no Brasil.,  às 19 horas na sede do Sindicato dos Bancários de Alagoas.

Sarmento é Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1998). Bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco (1978). Pós graduado lato sensu, em Direito, pela Escola Superior da Magistratura de Pernambuco (1995) e AVM - Faculdade Integrada RJ (2012).

O historiador, na década de 1980, estudou na Escola Internacional de Quadros do Partido Comunista da União Soviética, com longa militância acadêmica e politica no estado de Pernambuco, tendo sido dirigente do PCB naquele estado.

Ecos da Revolução Russa no mundo e no Brasil é o tema que vem debatendo em vários estados. “ a importância da Revolução Russa para o mundo no século XX é, mesmo após o fim da URSS, motivo de discussão e de reflexão a ser feita pelos comunistas e pela esquerda. É com esse proposito que me disponho a caminhar pelo país discutindo esse fato histórico relevante para a humanidade”, disse Natanael Sarmento.

Lançamento do Livro

Às Armas, Camaradas é o titulo da trilogia cujo primeiro volume foi lançado em 2016 (Editora Sarau das Letras, 184 p.), o segundo volume lançado em 2017 (Sarau das Letras, 284p.), trata da Insurreição militar dirigida pelo PCB em Natal, no Rio Grande Norte, registrando episódios curiosos, poucos conhecidos e outros, inéditos, dessa história.

O segundo volume aborda a Insurreição em Pernambuco, e contextualiza a situação política internacional, nacional e local, a Rebelião do 29 BC, a Batalha do Largo da Paz, a luta solitária de Gregório Bezerra, na tomada do Quartel general da 7ª Região Militar, no centro do Recife.

Serviço:

O livro será lançado após o debate

Dia 23 de novembro (quinta-feira)

Horário: 19 horas

Local: Sindicato dos Bancários de Alagoas

 

 

 

ÀS ARMAS, CAMARADAS!

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Natanael Sarmento transforma pesquisa assentada em documentos e depoimentos da tese doutoral sobre a Revolução Comunista de 1935 em trilogia de linguagem acessível e quase coloquial com o título geral: Às Armas Camaradas!

O primeiro volume lançado em 2016 (Editora Sarau das Letras, 184 p.) trata da Revolução no Rio Grande Norte, registrando episódios curiosos, poucos conhecidos e outros, inéditos, dessa história. A tomada do Quartel do Exército 21 BC e da PM,  a participação dos líderes e das mulheres na vitória efêmera dos comunistas, na conquista da Capital Potiguar, a marcha das três Colunas que conquistam 2/3 dos Municípios do Estado, o recorde de exílios do governador deposto, da proclamação da Junta Popular Revolucionária, da edição do Jornal A Liberdade, a “expropriação” do Banco do Brasil, o pitoresco episódio dos  “achadores de dinheiro” a farsa da polícia potiguar antecipando o Plano Cohen das mirabolantes anotações do “ Comunista Bluche”, a pantomima inventada pela polícia do herói morto em combate soldado Luiz Gonzaga, do desfecho trágico da Guerrilha rural, do Vale do Açu. 

O segundo volume que está lançado em 2017(Editora Sarau das Letras, 284 p.) aborda a Revolução em Pernambuco, contextualiza a situação política internacional, nacional e local, a Rebelião do 29 BC, a Batalha do Largo da Paz, a luta solitária de Gregório Bezerra, na tomada do Quartel general da 7ª Região Militar, no centro do Recife, as ações e conquistas revolucionárias, em delegacias dos bairros da Capital e cidades de Olinda e Limoeiro,  a Guerrilha camponesa no Vale do Pajeú, Moxotó e São Francisco do interior pernambucano,  a  derrota e debandada dos rebeldes, as execuções criminosas da PMPE nas pedreiras da Muribeca, em Jaboatão e a devassa da “caça às bruxas”. Analisa a contradição dos números oficiais de mortos, feridos, prejuízos ao erário, faz detalhada classificação das explicações da Revolução no âmbito da historiografia brasileira e estrangeira.

O terceiro volume (s/d para lançamento) abordará os sucessos da Revolução de 1935, no Rio de Janeiro, a Capital Federal e também local escolhido para sediar o Comando Geral da Revolução, encabeçada por Luís Carlos Prestes, Olga Benário, Rodolfo Guioldi, dirigente do Birô Sul-americano, ente outros assessores da 3ª internacional sediada em Moscou.   

O autor considera “ideologia” no sentido de ocultação a pretensa história social contada pela historiografia dita “neutra”, a neutralidade é farsa, na sociedade de classes, por isso não esconde a defesa do projeto de Revolução Nacional-libertadora de 1935, compra briga com toda historiografia, inclusive os setores críticos ditos de esquerda, considerado por ele reformistas e revisionistas que perderam a perspectiva revolucionária da luta da luta de classes, esquecidos de que o papel do revolucionário é fazer a revolução. Não desconhece erros e equívocos, mas faz veemente defesa da revolução e dos revolucionários de 1935.

  

Serviço:

Natanael Sarmento é advogado e historiador, professor da Universidade Católica de Pernambuco.

O lançamento será durante a palestra Ecos da Revolução Russa no mundo e no Brasil.

Dia 23 de novembro (quinta-feira)

Local: Sindicato dos Bancários de Alagoas 

Horário: 19 horas

Um amorável marxista: Leandro Konder (1935 – 2014)

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Por José Paulo Netto.

As lutas de classes, especialmente nas conjunturas sociais tensas e mais crispadas, afetam diretamente os comportamentos das mulheres e dos homens que estão na linha de frente dos confrontos políticos. Quem deles participa sabe como é difícil manter a firmeza de princípios e de posições ao mesmo tempo em que se conservam a serenidade pessoal e o trato urbano – seja com inimigos, adversários e mesmo companheiros. Sem paixão não há combate revolucionário pelo socialismo, mas a paixão, tomada em si mesma, não é qualidade revolucionária: só o é quando dirigida por uma racionalidade (envolvente de meios e fins) que implica, necessariamente, a mediação da cortesia e – tomemos a palavra tão desusada hoje – gentileza.

Pois bem: o falecimento de Leandro Konder, cerca de um mês e meio antes de completar 79 anos, vitimado há mais de uma década por uma enfermidade cruel (a qual resistiu com inenarrável estoicismo, graças também à dedicação de Cristina, sua extraordinária companheira), empobrece substantivamente o marxismo e a esquerda brasileiros: com ele se foi um homem que soube, como muito poucos, combinar a firmeza de princípios e de posições com a gentileza, a polidez e a generosidade em todos os níveis das relações humanas. Morreu um amorável marxista.

Não me cabe, nesta hora triste, deter-me na sua obra – tema de outras intervenções minhas em oportunidades anteriores[*]. O decurso do tempo permitirá, estou certo, avaliar a relevância efetiva de suas várias dezenas de livros e ensaios (e centenas de artigos, numa carreira de escritor iniciada precocemente no final dos anos 1950) com rigor e justiça. Mas há três planos da sua atuação sobre os quais o juízo dos contemporâneos parece-me conclusivamente estabelecido.

O primeiro diz respeito ao seu papel agregador na frente cultural democrática que se articulou na imediata sequência ao golpe de 1º de abril de 1964: militante do PCB (ao qual esteve ligado até os inícios da década de 1980) desde adolescente, Leandro foi protagonista daquela paradoxal hegemonia (estudada por R. Schwarz em texto antológico de 1969) de que a esquerda brasileira desfrutou na cultura brasileira entre 1964 e 1968.

O segundo é relativo ao seu desempenho no magistério universitário, no qual ingressou em 1982; por mais de vinte anos, foi professor literalmente adorado por estudantes, querido pelos pares e respeitado pelos adversários.

E o terceiro está vinculado à sua atividade de publicista: foi notável o seu trabalho como competente tradutor de expressivos autores marxistas (especialmente de G. Lukács, de cujo pensamento foi um dos introdutores no Brasil, além de ter vertido ao português textos de Marx e Engels  e ainda, entre muitos, de E. Fischer, R. Garaudy), como informado divulgador de temas palpitantes da tradição marxista clássica (alienação, estética) e como didático analista de autores/obras de grande complexidade (Marx, Hegel, F. Kafka, W. Benjamin, B. Brecht).   

Penso mesmo que é precisamente na sua publicística que Leandro, em uma atividade cuja característica central foi a de um verdadeiro pedagogo, ocupa um espaço absolutamente indisputado. Como publicista, no trato dos marxistas, exercitou a divulgação com um espírito aberto, avesso a qualquer tom dogmático; com os não-marxistas, estabeleceu uma interlocução compreensiva, despida de preconceitos, não doutrinária. E sempre se expressando numa escrita cristalina, fresca, bem-humorada, acessível ao comum dos leitores – uma linguagem para transcender os círculos dos “iniciados”. Neste campo, Leandro rompeu com um viés de polêmica que falsamente identificava firmeza teórica com argumentação grosseira e agressiva. Aqui, antes que uma lição, Leandro lega aos pósteros um exemplo.

Redijo esta brevíssima nota em meio ao desconsolo e à tristeza. Aqueles que, como eu, ainda na adolescência quando eclodiu o golpe de 1964 e então se voltaram para atividades de natureza político-cultural, todos tivemos – sem prejuízo de outros intelectuais e pensadores brasileiros de peso – em Leandro, e em figuras como Carlos Nelson Coutinho (nome tão ligado ao dele!), Fernando Peixoto e Aloísio Teixeira homens que nos influenciaram decisivamente. Perdemos os quatro em dois anos.

No meu caso particular, vínculos para além dos políticos e intelectuais acabaram por me vincular a estes quatro extraordinários brasileiros. O desconsolo deve-se a que são insubstituíveis num panorama cultural que reclama imperiosamente protagonistas do seu quilate. E a tristeza porque, com eles, se foi parte significativa da minha vida – a juventude – , aquela em que eles me ajudaram, e muito, a construir o meu (pobre) jeito de estar no mundo.

__________

* Veja-se, por exemplo, o meu prefácio a L. Konder, Marxismo e alienação. Contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação. S. Paulo: Expressão Popular, 2009.

***

José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista. 

https://blogdaboitempo.com.br/2014/11/18/um-adoravel-marxista-leandro-konder-1935-2014/

Carta-denúncia ao Ministério Público de Alagoas

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Senhor Procurador-Geral, Dr. Alfredo Gaspar de Mendonça Neto:

            O Ministério Público tem a missão de defender os interesses da sociedade e garantir os direitos dos cidadãos e cidadãs. É por esse motivo que me dirijo ao Senhor, para denunciar o crime contra o patrimônio público.

        A Intendência Municipal é um prédio inaugurado no século XX, em 1909, obra do famoso arquiteto italiano Luigi Lucarini, e faz parte do conjunto de obras arquitetônicas que modernizaram a cidade de Maceió.

Lucarini projetou, entre outros prédios, o Palácio dos Martírios, o Tribunal de Justiça, o Teatro Deodoro, e foi também o responsável pelas reformas das praças Deodoro, dos Martírios, Dom Pedro II e Dois Leões.

Em 2001, a Prefeitura Municipal de Maceió, na administração da prefeita Kátia Born, restaurou este prédio, para onde foi transferido o gabinete da prefeita.

Para surpresa de todos, esse prédio histórico vem sendo destruído desde o mês de maio de 2017, quando a Secretaria de Assistência Social mudou-se, e o prédio ficou fechado.

Senhor Procurador-Geral, vândalos entram nele e furtam tudo o que podem, inclusive as grades de ferro fixadas nos muros laterais.

Estou apresentando de público esta denúncia como cidadão e como historiador. Espero que o Ministério Público estadual, por intermédio de Vossa Senhoria, apure as responsabilidades de tão ignóbil incúria administrativa.

Há seis meses, os comerciantes vizinhos da Intendência Municipal, arquitetos, funcionários públicos e muitos alagoanos temos denunciado pelas redes sociais e pela imprensa essa barbaridade, e nada de concreto se verificou para impedir a destruição.

Resta-nos esperar que o Ministério Público estadual aja como defensor da sociedade e da lei.

Atenciosamente,

Geraldo de Majella, historiador e morador da cidade de Maceió.

 

       

 

A pintura da estátua da Liberdade

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A estátua da Liberdade é o monumento mais importante da cidade de Maceió. Mas não é percebida assim pelo Poder público. Encontra-se escondida, e agora foi vilipendiada.    

O artista plástico alagoano Rosalvo Ribeiro (1865-1915) é o principal responsável pela vinda desta obra de arte para Maceió. A estátua chegou em 1904, quando a cidade passava pelo processo de modernização e de urbanização.

Rosalvo Ribeiro estudou na Imperial Academia de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, e passou uma temporada de 12 anos na França, onde continuou os estudos, primeiro na Academie Julien e depois na École des Beaux Arts, na qual conheceu grandes artistas, inclusive Frederic Auguste Bartholdi.

As praças e largos foram reformadas durante os governos de Euclides Vieira Malta e do seu irmão Joaquim Paulo Vieira Malta, entre 1900 e 1912. Dois profissionais foram responsáveis pelas mudanças urbanísticas de Maceió: o arquiteto italiano Luigi Lucarini e o artista plástico Rosalvo Ribeiro.

Lucarini, responsável pelas obras e pelos projetos arquitetônicos, e Rosalvo Ribeiro, contratado para que realizasse os projetos urbanísticos das principais praças: Deodoro, Dom Pedro II, Martírios e a Dois Leões.    

O protótipo da estátua da Liberdade é uma produção da Fundição Val d’Osne e obra de Frederic Auguste Bartholdi, o consagrado escultor que fez a estátua da Liberdade que se encontra na ilha da Liberdade, no porto de Nova Iorque.

O governo francês ofereceu a estátua da Liberdade como presente ao governo dos EUA, e em 1886 foi inaugurado o monumento, que logo se tornou um dos mais conhecidos cartões-postais do mundo.

Há dois protótipos da estátua, um em Paris e o outro em Maceió. Essas duas peças e a original constituem uma coleção única do artista francês Frederic Auguste Bartholdi e da Fundição Val d’Osne.

O cidadão alagoano tem visto a estátua da Liberdade, no bairro portuário de Jaraguá, pintada de verde como se fosse uma peça de madeira produzida com esse objetivo. A prefeitura tentou “explicar” as razões da pintura e até o momento não apresentou um laudo técnico que convença os pesquisadores e a população de que um objeto tão valioso deva ser “restaurado” dessa maneira.

Um monumento com esse valor histórico deve sim ser restaurado, se for o caso, mas por especialistas, como aconteceu durante o processo de restauração do bairro de Jaraguá, iniciado na gestão do prefeito Ronaldo Lessa e concluído na gestão da prefeita Kátia Born.

Os técnicos que na década de 1990 trabalharam na restauração do bairro de Jaraguá continuam na administração municipal, pois são servidores públicos. Bastaria consultá-los, e a restauração ou limpeza seria realizada sem danos, e não afrontaria a memória da cidade nem do autor da obra de arte.

Pedir explicações técnicas convincentes não é um ato anormal, porém um direito do cidadão garantido por lei. Mas em Alagoas parece ser um insulto ou uma agressão pessoal.

Uma pergunta: quem assinou o laudo técnico indicando esse tipo de pintura? 

 

 

Em defesa da cultura, da democracia e da liberdade de expressão.

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(*) Zulu Araujo

Nunca imaginei que no limiar do aniversário de 30 anos da promulgação da Constituição Cidadã de 1988, onde a liberdade de expressão foi categoricamente inscrita, tivéssemos que gritar em alto e bom som, mais uma vez, os versos acima, contidos no hino da proclamação da República: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.

A sucessão de fatos que tem ocorrido no Brasil, nas últimas semanas, agredindo de forma violenta o direito inalienável do povo brasileiro de liberdade expressão é de preocupar.  Num dia, um grupo de direitistas confessos  tentam impedir a todo custo a exibição de uma apresentação artística num museu em São Paulo, acusando o artista de pedofilia. No outro, o Prefeito do Rio de Janeiro, proíbe os museus da cidade de receberem a referida exposição, sob o mesmo pretexto.

Mais adiante, um grupo de vândalos, tenta agredir artistas num museu em Belo Horizonte, onde encontra firme reação dos artistas locais, liderados pelo Secretário de Cultura Juca Ferreira. No último final de semana, em Salvador, um  juiz, a pedido de um deputado evangélico, suspende a apresentação de um espetáculo que era protagonizado por uma artista trans, apenas pelo fato dela ser trans. Nesse interim, um  movimento conservador, liderado por um artista pornô xinga, calunia e ameaça artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil, pelas redes sociais. E por fim, o absurdo dos absurdos, uma juíza, em São Paulo, proíbe a apresentação do artista Caetano Veloso, num acampamento de sem tetos, sob a alegação de que poderia gerar violência.

Ironia do destino, Caetano foi um dos grandes protagonistas na luta pela liberdade de expressão no Brasil, no período da ditadura e contribuiu enormemente para a conquista das liberdades democráticas em nosso país. Aliás, sua frase, singela e direta, que expressa um misto de surpresa e indignação diz tudo: “É a primeira vez que sou impedido de cantar no período democrático”.

Aparentemente isto não tem nada a ver com as causas negras, ou com o movimento negro. Ledo engano. Tem tudo a ver sim. Estas manifestações são em verdade, extensões das ações de intolerância religiosa contra as religiões de matriz africana, das discriminações e atitudes racistas que os artistas, futebolistas e personalidades negras tem sofrido nas redes sociais, assim como são parte integrante dos mesmos grupos que patrocinam o extermínio da juventude negra. É tudo farinha do mesmo saco.

Não se enganem os protagonistas são os mesmos. Os objetivos são os mesmos. E a metodologia é a mesma. Ou seja, a intimidação, o uso da emoção enquanto catalizador de processos antidemocráticos e sobretudo o completo desrespeito as liberdades democráticas tão duramente conquistadas em nosso país.

Por isso mesmo, cabe a todos nós, pretos, brancos, mestiços, mas sobretudo aos democratas de todas as cores,  de todas as idades e de todas as religiões e de todos os gêneros a reagirem veementemente contra essa onda conservadora que tenta se apossar do país.

Mais, do que reagir, precisamos nos mobilizar para fazer valer aquilo que está inscrito em nossa constituição federal. Daí, mais que nunca ser necessário gritarmos em alto e bom som – “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós..”.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

(*) Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

                                                                       

 

Mel Nascimento e o Sambasoul

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Mel Nascimento, alagoana de Maceió, iniciou a carreira artística ainda criança, aos 13 anos, cantando em coros, entre eles a Camerata Pró Música de Alagoas. Cursou a antiga Escola Agrotécnica de Satuba (AL), e, em seguida, foi estudar Canto na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), tornando-se bacharel.

Foi vocalista do Grupo Malacada de 2010 a 2016, tendo participado de vários eventos com o grupo.

         Mel Nascimento ganhou alguns prêmios através de editais, como o Prêmio Microprojetos Bacia do São Francisco ‒ FUNARTE e o edital Mais Cultura nas Escolas ‒ MinC/MEC.

Participou da 2ª edição do São Paulo EXPOSAMBA, interpretando três músicas de compositores alagoanos, bem como da 9ª edição do Quinta no Arena,  com o show Chão de Crioulo.  

         Em 2014 lançou “Um bando de Samba 2”, o seu primeiro CD solo, na 10 ª edição do Quinta no Arena. Em 2015 a cantora foi uma das atrações dos festejos oficiais do réveillon de Maceió. Participou do Projeto MPB Petrobrás, e obteve o 1° lugar no Festival de Música da Ufal.

Mel tem se firmado no cenário musical alagoano com a sua voz potente. Ainda em 2015 integrou o Circuito Sesc de Artes, realizando uma turnê por municípios alagoanos. Foi uma das atrações do show Maceió Meu Xodó.

        Há três anos participa da programação oficial do Dia da Consciência Negra em União dos Palmares. Seu último prêmio foi no Edital FICA ‒ Prêmio Diogo Silvestre (SECULT/AL), com o projeto Sincopadamente Jacinto – um tributo ao compositor alagoano Jacinto Silva, em parceria com o cantor pernambucano Herbert Lucena. E com este mesmo show participou do Festival de Inverno de Garanhuns ‒ FIG 2017.

O SHOW

É parte das comemorações da década do Afrodescendente. O projeto Sambasoul faz parte da trajetória e da identidade da cantora, que também é militante do Movimento Negro cultural em Alagoas.

SAMBASOUL tem o samba como elemento principal, porém, agregado a outros gêneros da música negra como o rock, o coco, o funk e o rap; atrelado à música nordestina, dá margem para uma construção musical marcante e diferenciada, trazendo assim muitas possibilidades sonoras.

 

 

Carta Aberta ao PSB

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Iniciei a militância política no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde permaneci por 20 anos. Deixei o Partidão quando já havia se transformado em PPS; o que me fez sair não foi a mudança de nome, mas os rumos políticos. Em 1998, filiei-me ao PSB, que naquele momento era um partido em construção, com divisões nítidas entre grupos de esquerda, centro e centro-esquerda. As disputas pela hegemonia eram normais, mas circunscritas ao terreno político e ideológico, como é natural em qualquer partido.  

        As alianças políticas em geral aconteciam com os partidos do campo de esquerda, não sem divergências, mas com um programa claro posto em disputa, fossem com o PT, o PCdoB ou o PDT. O PSB tinha uma estratégia clara: a defesa dos interesses nacionais, compromissos com as causas dos pobres, a defesa dos direitos e das garantias fundamentais e a ampliação e o aprofundamento da democracia como um objetivo programático.

O PSB era um projeto em construção, com baixa densidade eleitoral, reduzida inserção nos movimentos sociais e pouca penetração entre os intelectuais. O modelo de partido que vinha sendo desenhado era do tipo eleitoral, mas com algumas tentativas de inserção nos movimentos sociais e populares.

        A burocracia num dado momento passou a exercer papel maior na condução do PSB em nível nacional e a reproduzir essa prática nos estados e municípios.   

        Hoje, o PSB é uma sigla em processo de desintegração. Tem como chefe um burocrata, Carlos Siqueira, típico do Apparatchik soviético, impondo suas vontades para dominar cartorialmente a sigla.

        Esta prática nefasta fez o PSB apoiar o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, como um artifício que o conduziria ao centro do Poder. A resistência interna e a repercussão negativa em segmentos progressistas da sociedade civil levaram a cúpula “socialista” às cordas, a exemplo do boxeador que depois de receber golpes agarra-se nas cordas no canto do ringue.

        O PSB, sem projeto e sem aliados, dividido internamente e perdendo substância política e ideológica, “envergonhado”, resolve deixar a base do governo de Michel Temer. E não diz os motivos reais. Esse vexame nacional é o fim de um partido que, apesar das deficiências, era uma organização respeitada.

A perda de identidade ou pelo menos do que vinha sendo construído como identidade, sem lideranças, sem projeto politico para o Brasil, torna-o uma legenda disponível no mercado brasileiro. As seções estaduais, a maioria sob intervenção do Apparatchik, são instrumentos de dominação e negociação para a perpetuação do poder.

Há ainda no PSB setores progressistas e de esquerda que resistem. Essa militância é o que há de mais importante e o que resta de capital simbólico. Mas, infelizmente, será ou continuará sendo esmagada pelo rolo compressor conduzido por Carlos Siqueira e seus aliados.

Os militantes que ajudaram a construir o PSB, como o escritor Roberto Amaral, a deputada federal Luiza Erundina e o jovem deputado federal Glauber Braga, saíram do partido e continuam a sua militância política na esquerda brasileira.

Aos que ficaram, como o senador João Capiberibe, Júlio Delgado, Lídice da Mata e tantos outros militantes de esquerda que resistem ao autoritarismo, as minhas homenagens. Estaremos em trincheiras diferentes, porém lutando pela mesma causa: a democracia e a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

A partir desse instante, desfilio-me do PSB.

Saudações socialistas a todos os companheiros e companheiras.  

 

Geraldo de Majella historiador e ex-dirigente do PSB.

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