Geraldo de Majella

Polícia de Alagoas não apresenta assassino de Nô Pedrosa

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A polícia civil de Alagoas, passados 3 meses e 3 dias do assassinato de Walfredo Pedrosa de Amorim, 78 anos, conhecido como Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos, 39 anos, não apresentou o assassino ou assassinos, o duplo assassinato ocorreu na noite de 23 de dezembro de 2017, no bairro de Mangabeira, em Maceeió.

 A sociedade espera da polícia civil e do Ministério Público explicações sobre a questão.

   Histórico

O Ministério Público estadual, no dia 8 de janeiro, representado pelo coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça, José Antônio Malta Marques e o coordenador do Núcleo da Infância e da Juventude, promotor de Justiça Ubirajara Ramos, receberam a Comissão em Defesa da População em Situação de Rua na oportunidade ouviram alguns depoimentos relacionados às mortes de Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos e também as condições da população de rua em Maceió.  

 

O procurador-geral de justiça Alfredo Gaspar de Mendonça designou para acompanhar o caso o titular da Promotoria de Direitos Humanos, promotor de Justiça Jomar Amorim de Moraes. Esse grupo do MPE está tratando de elucidar o duplo homicídio, mas tem a função de acompanhar a execução de políticas públicas destinadas à população de rua e em estado de vulnerabilidade.

“Três dias após as mortes, mesmo com a suspensão temporária das atividades do Ministério Público, o procurador-geral nos acionou, requisitou ao delegado-geral da Polícia Civil, Paulo Cerqueira, a instauração de inquérito para a apuração. Nós enviamos documento ao coordenador da Delegacia de Homicídios, delegado Fábio Costa, o procedimento foi devidamente agilizado e está sob responsabilidade da delegada Rebeca Cordeiro”, afirma José Antônio Malta Marques.

O bloqueio vai continuar cobrando das autoridades policiais e do Ministério Público estadual resultados das investigações.

 

 

 

Segue em paz, meu amigo

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Já ouvi dizer que amizade só se faz com o tempo ou depois que se come uma barrica de sal juntos. No meu caso não foi o tempo, e muito menos comi sal para ser amigo de Luiz Carlos Figueiredo, jornalista e escritor paulista, e de sua companheira Janaina Amado.

Ao tomar conhecimento do seu falecimento, a tristeza se apoderou de mim. Entrei no Facebook e vi algumas fotografias com registros de momentos em que estivemos juntos. Reenviei a mensagem para Isabela, minha filha, falei para Vânia, minha companheira, e para mais quatro ou cinco amigos comuns.

Fui lembrando ocasiões engraçadas, bem-humoradas e de como ele era solidário. Lembrei-me, logo, de uma fase de minha vida, aqui em Maceió, em que fiquei desempregado, e Luiz Carlos, ao saber, sem meias palavras, me perguntou: “Você está precisando de alguma coisa? Tá sem dinheiro, fale, não fique acanhado. Se precisar, me fale”.

Disse-lhe que estava tudo sob controle. E por várias vezes ele me fez a mesma pergunta. Era uma preocupação de amigo, de amigo muito fraterno.

Minha filha não é batizada; isso, por algum tempo, era uma coisa que incomodava, não o fato em si, mas a insistência de minha mãe. Como pode uma menina crescer sem o batismo? O velho catolicismo de guerra da minha mãe de um lado e o meu ateísmo juramentado do outro.  

 O tempo passou, e eu brincava com Isabela que iria escolher um casal para que fossem os padrinhos dela. Para aporrinhá-la, apontava nomes de pessoas que ela considerava chatas. Isso a irritava.

Mas, certo dia, falando sério, pedi para ela escolher os padrinhos da sua preferência, pois não haveria ato litúrgico nenhum a não ser que fosse da sua vontade.

Isabela escolheu Janaina e Luiz Carlos. Eu nunca falei isso para o casal. Hoje, sinto-me na obrigação moral de revelar. Além de reconhecer o quanto os dois influenciaram na formação de Isabela e como aquela adolescente ficava ligada a eles, sentindo-se ouvida e tendo suas opiniões respeitadas em meio às nossas conversas.

Tudo isso e outras tantas atitudes de Luiz Carlos e Janaina me fizeram tão bem que eles nem imaginam.

O que eu estou sentindo é a perda física de um amigo ‒ mais que amigo, um irmão.

Que a terra lhe seja leve, camarada.

Beijos para Janaina, Bernardo e Janice.

 

Renan Filho ganhou o primeiro round por pontos

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    O golpe desferido pelos tucanos jogou a oposição na lona. O nocaute não aconteceu, mas os Calheiros venceram por pontos, o primeiro round. Assim como no boxe, a disputa eleitoral em Alagoas vai consolidando a hegemonia do senador Renan Calheiros e do governador Renan Filho.

        A luta tem dez rounds e requer fôlego, habilidade nas pernas e técnica; isso é pré-requisito em todas as categorias do boxe, e esta luta iniciada é da categoria peso-pesado.

Os Calheiros ganhando a luta, digo, as eleições, pai e filho, ligarão o radar para 2022. A obstinação é uma característica deles, e o horizonte visualizado levará à disputa da vaga para o Senado em 2022, quando Fernando Collor irá buscar a reeleição.

Muitos hão de dizer que está distante. Para esses profissionais, quatro anos é um horizonte próximo. Os tucanos se renderam antes mesmo de começar o combate. A hegemonia governista vem sendo construída e, pelo visto, com relativa tranquilidade e segurança na condução de uma ampla aliança de siglas partidárias.

Depois do golpe militar de 1964, a hegemonia política foi exercida por Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira. Esse momento foi vivido na oposição pelo então líder estudantil Renan Calheiros, hoje um experiente político e quem comanda o processo de hegemonização da política local.

No entanto, há que se fazer duas ressalvas, a primeira: Suruagy e Guilherme derrotaram os grupos internos na ARENA e no PDS ainda durante a ditadura-militar e comandaram por muitos anos a política alagoana até a derrocada final em 1997.

E a segunda: a hegemonia exercida por Suruagy e Guilherme Palmeira no campo político, recebia o suporte econômico dos usineiros, senhores absoluto de então. Hoje esse importante setor econômico atravessa séria crise, com falências e redução de atividades produtivas não garantem mais os financiamentos de campanhas.

Renan Calheiros vem construindo a sua hegemonia política e tem atraído os usineiros em crise ou não. O senador é um confiável interlocutor do setor e as suas vitórias eleitorais não dependem desses grupos econômicos, mas o apoio político lhe interessa, pelo menos mantê-los no entorno. 

Os usineiros historicamente se apropriaram do Estado. Hoje estão fragilizados, mas não estão mortos; continuam influenciando, e nada em Alagoas ocorre sem que eles não interfiram.

O melhor e mais habilidoso representante dos usineiros foi Teo Vilela, o ex-governador sai de cena, derrotado por WO.

A consolidação da hegemonia política está em marcha e acelerada.

As eleições de 2018 anunciará um novo ciclo de Poder na política de Alagoas.

JHC quer ser a salvação da lavoura

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Com a ausência dos dois principais caciques tucanos - Teo Vilela e Rui Palmeira - na disputa, o bloco de oposição aos Calheiros entrou em polvorosa. Deputados federais, estaduais e todos os candidatos do grupo queimam os miolos para achar quem possa substituí-los e levar o barco até a eleição.

       O senador Benedito de Lira é o primeiro a ser atingido; na esteira vêm o deputado Arthur Lira. Diante do golpe, o que fazer para manter a tropa unida, ou seja, os candidatos a deputados federais estaduais não debandarem para o lado dos Calheiros e se encontrar um nome com densidade eleitoral?

       Não é fácil encontrar um nome com esse perfil. Os candidatos a deputados querem se salvar a qualquer custo. É o primeiro efeito do terremoto armado pelo líder tucano. É a lei da selva e das campanhas eleitorais.

       O deputado JHC se ofereceu como candidato. É um aventureiro disponível. E o senador Biu de Lira vai confiar principalmente depois das traições de 2014? É bom esperar. O JHC tem pedigree, ou seja, o histórico eleitoral e familiar não merece credibilidade.

Enfrentar os Calheiros e um pelotão de candidatos, deputados, prefeitos e partidos que já estão formando várias coligações é obra para profissional, aventureiro é outra coisa.

JHC pensa em ser prefeito de Maceió em 2020 e as eleições de 2018 é uma pré-campanha antecipada. Esse grupo de oposição alguém confia em JHC e em João Caldas, quem confia, por favor levante a mão.

       Se essa alternativa se concretizar mesmo assim a derrota da oposição é certa ‒ talvez no primeiro turno. Biu de Lira se salvará; e o resto?

Nesse caso, JHC não será a salvação da lavoura.

 

O PSDB virou pó

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Primeiro, com a desistência de Teo Vilela de ser candidato a senador, e agora, após Rui Palmeira, prefeito de Maceió e presidente Regional do PSDB, anunciar que não será candidato a governador.

       Teo Vilela e Rui Palmeira colocaram a pá de cal na oposição. Selaram qualquer possibilidade de vitória da oposição aos Calheiros, Renan Filho e Renan pai.

            Eis o comentário de um ex-parlamentar e experiente observador da cena política alagoana e nacional, ex-deputado constituinte. Em mensagem pelo WhatsApp, me disse: “Do PSDB só sobrará Rodrigo Cunha, filho de Ceci, se for candidato à reeleição. Teo, Pedro Vilela e Rui foram pelo ralo. O Partido tem 12 prefeitos que já, já, virarão governo. Renan Filho está nadando de braçada”.

O meu interlocutor foi além e com bom humor diante da tragédia tucana, arrematou: “A nível nacional, os tucanos paulistas acham que o PSDB é uma grife. É o Partido Givenchy. Esqueceram que o partido foi criado para dar suporte à candidatura de Mário Covas à Presidência. E só isso”.

Em Alagoas os tucanos cavaram a sepultura sem antes sequer agonizar. Os motivos das desistências e abandono dos aliados podem ser encontrados no âmbito local com a quebradeira das usinas de açúcar e a falência da Cooperativa dos Usineiros ‒ o setor econômico que dava sustentação aos tucanos, bem como com a operação Lava Jato.

O PSDB nacional encontra-se dividido, e as facções em aberta luta interna. O efeito Aécio Neves é o principal detonador da crise, além, óbvio, da ausência de lideranças e da falta de um programa para tirar o Brasil da crise.

Agora é tempo de murici (fruta): cada um cuide de si. E que Deus tenha pena de nós.

Rui Palmeira entrega presente de Páscoa a Renan Filho

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A desistência da candidatura ao governo de Alagoas do prefeito de Maceió, Rui Palmeira, é o melhor e maior presente que o governador Renan Filho poderia receber no período que antecede à Páscoa.

       Os tucanos sem candidatura competitiva eleitoralmente são a certeza de vitória do governador Renan Filho por WO, ou seja, sem competidor forte ou com candidato com baixa densidade eleitoral.

É vitória garantida do governador; não é necessário instituto de pesquisa aparecer com análise mirabolante.

A única saída competitiva dos tucanos é a reentrada de Teo Vilela no jogo. Teo Vilela convencido a disputar as eleições, aí, sim, haverá novamente disputa para valer. Caso contrário, é pró-forma.

A disputa para o Senado fica mais fácil para a reeleição de Renan Calheiros, o sonho do veterano senador.

Renan Calheiros e Biu de Lira vão realizar dobradinhas no interior. As bases de Biu e Renan são essencialmente as mesmas: prefeitos, ex-prefeitos, futuros candidatos a prefeito. Todos ou quase todos vão querer agradar aos dois senadores, afinal são duas vagas ao Senado.

O fogo de palha dos deputados Maurício Quintela e Marx Beltrão também sumiu com a desistência de Rui Palmeira. Aliás, ambos nunca foram seriamente candidatos a senador; estiveram e podem até por mais alguns dias continuarem a dizer que serão candidatos, mas ninguém do mundo político acredita.

Os dois deputados, Marx Beltrão e Maurício Quintela, vão precisar ainda por muito tempo do foro privilegiado. Têm processos em andamento.

Alfredo Gaspar tem se valido da função de membro do Ministério Público para se capitalizar como uma alternativa. É um neófito nesse ambiente. Mesmo com gosto de sangue na boca, rangendo os dentes, não é páreo para Renan e Biu de Lira. 

Os antigos políticos mineiros diziam: “eleição e mineração, só depois da apuração”.

Renan Filho e Renan Calheiros, pai, intimamente agradecem mais uma vez aos tucanos, por razões diferentes: na eleição anterior, Teo Vilela, deixou o senador Biu de Lira sem teto. Os tucanos lançaram um candidato pró-forma para ajudar os Renans.

Agora é a vez de Rui Palmeira, por motivos ainda não revelados, ofertar o presente de Páscoa aos Calheiros.

Carta Aberta ao Ministério Público Federal

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A denúncia que faço ao Ministério Público Federal (MPF) em Alagoas é no sentido de que tome as providências legais contra os agentes públicos responsáveis pela guarda do patrimônio público abaixo citado.

  1. O INSS abandonou, já faz alguns anos, três prédios na Praça dos Palmares com a Rua do Comércio.
  2. A superintendência do IBGE, que durante décadas funcionou na esquina do Beco São José com a Rua Boa Vista, encontra-se completamente abandonada.
  3. O Tribunal de Contas da União (TCU) construiu uma moderna sede na Avenida Assis Chateaubriand, na praia do Sobral; após isso, transferiu-se para o bairro do Farol e abandonou totalmente a antiga sede.

Esses descasos com o patrimônio público têm causado dissabores à população de Maceió, que assiste todos os dias, nas redes de televisão e na mídia em geral, a ações do MPF e do TCU combatendo desvios de condutas e apropriação do dinheiro público, e fica a se perguntar: com esses casos tão expostos, qual o motivo de nada ser feito para apurar tamanha incúria?

Os cidadãos de Maceió e de Alagoas exigem do MPF uma atitude para reverter essa situação.

Polícia civil não apresenta quem matou Nô Pedrosa, o mistério continua.

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A polícia civil de Alagoas, passados 60 dias do assassinato de Walfredo Pedrosa de Amorim, 78 anos, conhecido como Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos, 39 anos, ainda não apresentou a conclusão do inquérito policial, o duplo assassinato ocorreu na noite de 23 de dezembro de 2017, no bairro de Mangabeira, em Maceió.

Histórico

 

O Ministério Público estadual, no dia 8 de janeiro, representado pelo coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça, José Antônio Malta Marques e o coordenador do Núcleo da Infância e da Juventude, promotor de Justiça Ubirajara Ramos, receberam a Comissão em Defesa da População em Situação de Rua na oportunidade ouviram alguns depoimentos relacionados às mortes de Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos e também as condições da população de rua em Maceió.  

 

O procurador-geral de justiça Alfredo Gaspar de Mendonça designou para acompanhar o caso o titular da Promotoria de Direitos Humanos, promotor de Justiça Jomar Amorim de Moraes. Esse grupo do MPE está tratando de elucidar o duplo homicídio, mas tem a função de acompanhar a execução de políticas públicas destinadas à população de rua e em estado de vulnerabilidade.

 “Três dias após as mortes, mesmo com a suspensão temporária das atividades do Ministério Público, o procurador-geral nos acionou, requisitou ao delegado-geral da Polícia Civil, Paulo Cerqueira, a instauração de inquérito para a apuração. Nós enviamos documento ao coordenador da Delegacia de Homicídios, delegado Fábio Costa, o procedimento foi devidamente agilizado e está sob responsabilidade da delegada Rebeca Cordeiro”, afirma José Antônio Malta Marques.

        Até o momento a Polícia Civil não entregou o inquérito policial à Justiça.

 

     

       

     

Como me tornei são-paulino

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O presidente Juscelino Kubitschek governou com entusiasmo e conduziu o Brasil com o lema “Cinquenta anos em cinco”. As metas definidas foram ao encontro dos anseios da população. O país entra numa nova era, indústrias são instaladas e com isso também são criados empregos em todas as regiões. Havia tantos que era possível escolher.

Levas de nordestinos foram trabalhar em São Paulo, Rio de Janeiro, no norte do Paraná ou foram juntar-se aos milhares de operários e técnicos que estavam entusiasticamente construindo Brasília, a nova capital.

Muitos jovens saíram de Anadia em Alagoas e foram trabalhar nas novas frentes de trabalhos. São Paulo era a cidade que mais atraia mão de obra.

      Os irmãos Ezequias e José Fidelis, o primo Abraão e os amigos José Cláudio e Áureo foram para São Paulo de pau de arara, em cima de um caminhão. Viajaram em condições terríveis, na esperança de encontrar trabalho − o que de fato aconteceu, pois todos logo se empregaram na indústria paulistana.

Áureo, negro forte, trabalhava em Anadia como carregador de sacos e ajudante de caminhão. Em São Paulo não se apertou. Foi trabalhar numa firma como ajudante. Era do pesado, sério, trabalhador.

Houve uma mudança essencial na vida desses jovens. Por muitos anos continuaram morando juntos, mas nem todos desejavam se fixar efetivamente na cidade. Um desejo incontido permaneceu: o de voltar a viver em Anadia.

Os domingos eram destinados ao lazer, bebidas, jogos, mulheres e futebol. Áureo, em meio a santistas, time que estava ganhando tudo, tinha Pelé, Coutinho e Pepe. Era a certeza de vitória. Torcia pelo São Paulo Futebol Clube, o time da elite paulistana, pelo menos era assim considerado.  

As tardes de domingo no Morumbi eram sagradas quando o seu time jogava. Canhoteiro, o maior ponta-esquerda do futebol brasileiro, era o seu ídolo, de quem não se cansava de falar, imitar, reproduzir jogadas. Negro, do Maranhão, nordestino como Áureo.

Em São Paulo tinha trabalho, o salário estava além da expectativa, mas a saudade da terra natal e dos amigos era mais forte. A volta foi se desenhando até se consumar. Retornou para Anadia e voltou a trabalhar como ajudante de caminhão no armazém do “Seu” Antonio.  

Aquela massa compacta de músculo em forma de gente era fascinante para os meus olhos de criança. Falava de um mundo que ninguém conhecia, descrevia jogadas imaginárias, muitas delas prendiam a minha atenção e a das outras crianças.

Realizava movimentos rápidos com as mãos e com o corpo carregando sacos de setenta ou oitenta quilos, subia na prancha para arrumar as cargas dos caminhões, umas vezes de algodão, outras de mamona, e na maioria das vezes couro de animais.

O assunto recorrente era futebol e as proezas do São Paulo Futebol Clube. A escalação de várias formações do time era desfiada em voz alta. Os comentários eram de quem conhecia e, mais que isso, tinha visto os jogos com visão privilegiada: da arquibancada do anel superior do estádio do Morumbi.  

Aquele negro musculoso, um gladiador africano em terra anadiense, era a pessoa a quem eu mais admirava. Nem meu pai tinha tantos argumentos sobre futebol. Aliás, de futebol meu velho pai não entendia nada. Os meus primos, considerados ricos e cheios de pose, também não sabiam nada. O cara era o negro Áureo.

Foi por meio dos seus comentários apaixonados que ouvi pela primeira vez falar de um certo Eder Jofre, campeão mundial de boxe e são-paulino. Áureo era seu admirador. Tudo se encaixava: negro musculoso, são-paulino e apaixonado por boxe.

O círculo de minha admiração infanto-juvenil se fecha quando, alguns anos depois, da porta de minha casa presencio a sua prisão. Morei durante anos em frente à cadeia e presenciei inúmeras cenas de maus-tratos e tortura a presos. Essa seria mais uma.

A Polícia Militar foi chamada para prender o Áureo. O motivo alegado foi arruaça na rua. De fato quando ele bebia ficava muitas vezes agressivo, transtornado com o efeito do álcool.

  A prisão para os policiais era mansa e pacífica até chegar próximo à cadeia. Faltando alguns metros, Áureo resiste e sai no braço com os quatro policiais. O resultado: não houve condições de prendê-lo naquele instante; deixou o destacamento policial no chão e foi-se embora.

O tumulto se formou e houve necessidade de chamar reforço policial. A prisão ocorreu depois, mas em outras condições: sob a mira de armas de fogo e cassetete. 

A minha admiração, que era grande, a partir daquele instante redobrou. O Negro Áureo tornou-se o meu herói dos tempos de infância. Um campeão, um Eder Jofre negro e musculoso de Anadia. Nunca mais saiu da minha lembrança.

Foi assim que me tornei são-paulino.

O time do São Paulo de 1971, bicampeão paulista, também não saiu da minha memória. A linha com Terto, Pedro Rocha, Toninho Guerreiro, Gerson e Paraná. O título mundial de boxe peso pena ganho por Eder Jofre, em 1973.

Vinte anos depois, em 1993, quando Isabela – minha filha – nasceu, andando pelo centro velho de São Paulo, entrei numa loja na rua Libero Badaró e comprei uma camisa 10, que simboliza a arte e o craque. Naquele instante, quem vestia a camisa era Raí.

Raí foi um craque, além de símbolo de jogador elegante em campo e fora dele. Isabela é torcedora do tricolor e já teve o seu batismo: foi ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, visitar a sala de troféus do clube.

         Salve o tricolor paulista !

 

Penedo e seus encantos

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O navegador florentino Américo Vespúcio (1454 – 1512) encontrou o rio São Francisco em 4 de outubro de 1501. Pelo calendário litúrgico, era o dia de são Francisco de Assis. O rio São Francisco dos colonizadores era um velho conhecido dos indígenas, que o chamava de Opara, o que em sua língua tinha o significado de “o rio”.     

Vespúcio, que vinha de batizar o cabo de Santo Agostinho, o rio São Miguel, e seguiu viagem no rumo sul, foi batizando sucessivamente os diferentes rios e acidentes geográficos encontrados na costa recém-descoberta que séculos depois viria a ser o estado de Alagoas.

O português Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco e fundador de Olinda ‒ uma joia barroca ‒ em 10 de outubro de 1555, navegou pelo rio São Francisco com as suas embarcações até onde hoje é a cidade do Penedo, meio século depois de Américo Vespúcio.

Duarte Coelho pegou o rumo sul da capitania de Pernambuco com os seus navios e gente trazida de Portugal para ocupar o território.

Porto Calvo é o primeiro polo de povoamento ao sul de Olinda onde os primeiros colonos foram deixados; o donatário seguiu viagem e, mais adiante, adentrou as duas lagoas, hoje, Mundaú e Manguaba.

A segunda leva de colonos desembarcou para constituir o povoamento de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, depois Vila de Alagoas, primeira capital da província de Alagoas, em 1817, hoje Marechal Deodoro.

O terceiro polo viria a ser constituído à margem esquerda do rio São Francisco, na divisa da capitania de Pernambuco com a da Bahia. Por fim, outro grupo de colonos e suas famílias desembarcaram e fundaram o povoado, que já se chamou de Vila de São Francisco (1636) e Vila do Penedo, denominações encontradas em assentamentos coloniais em 1704. A partir de 1842, é elevada à condição de cidade do Penedo, como relatou José Prospero Caroatá em seu texto Crônica do Penedo, de 1872.

A Penedo barroca, construída à beira-rio e entre ladeiras, é de origem e formação portuguesa, mas entre 1637 e 1645 foi dominada pelos holandeses ‒ era um pequeno burgo, com apenas 82 anos de existência e uma localização estratégica.

O conde Maurício de Nassau, em visita ao sul da capitania, ordenou a construção de uma fortificação para se proteger de invasões e a denominou de Forte Maurício.

Ao regressar a Olinda, Maurício de Nassau deixou cerca de 1.600 homens com armas e munição sob o comando do general Segismundo. O território é conquistado. Vencida a resistência dos portugueses, os holandeses permaneceram até 1645, quando os lusos retomaram o território, expulsando-os.   

Há em Penedo marcas históricas dos portugueses e dos holandeses. A arquitetura barroca de suas igrejas e o casario colonial, passados tantos anos e mesmo sofrendo com o descaso dos governantes, ainda assim acha-se consideravelmente conservada, tendo grande valor e significância como patrimônio histórico nacional. É um exemplar único em Alagoas, irmã de Olinda aqui no Nordeste.

Passados 463 anos de quando teve início o povoamento de Penedo, seus moradores e os visitantes têm ido às ruas nos últimos dez anos, descendo e subindo ladeiras, fantasiados, dançando frevo e seguindo o bloco Ovo da Madrugada. Os becos e as ruas estreitas de paralelepípedos, lotados de foliões, acompanham bandas que tocam marchinhas e frevos.

O artista plástico Cícero Tadeu Gomes, o Tadeu dos Bonecos, sergipano nascido em Neópolis, e que quando criança foi morar em Olinda, na escola aprendeu a fazer esculturas de papel. Aos 13 anos voltou para morar em Penedo com a família.

Em Penedo começou a fazer burrinhas de papelão, aperfeiçoou o estilo até chegar a confeccionar os bonecos gigantes. Já perdeu a conta de quantos bonecos gigantes fabricou; ganhou notoriedade por ser o autor do maior boneco do Brasil, o Galeante da Noite, com 4,5 metros de altura.  

O talento desse artista plástico e a beleza da cidade dão um ar diferente ao carnaval de Alagoas. O pôr do sol sobre o rio visto do hotel São Francisco ou da Rocheira, caminhar pelas ruas observando os detalhes das construções centenárias, entrar e me demorar sem tempo determinado em suas igrejas, a de Nossa Senhora das Correntes, juntamente com o Convento Franciscano de Nossa Senhora Maria dos Anjos, são as minhas atividades preferidas.

Não é dado o direito de ter nascido em solo alagoano, viver e não ter ido uma vez sequer a Penedo. Por certo, se assim fizer, o temente a Deus não entrará no Céu, e se entrar, será de cabeça para baixo.

A folia de Momo é uma celebração do corpo, do prazer e da alma. Para isso eu quero ir sempre ao Penedo das Alagoas: ver e rever os seus cantos, ruas, becos e ladeiras que tanto me encantam.

 

     

 

 

 

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