Geraldo de Majella

Carta Aberta ao Ministério Público Federal

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A denúncia que faço ao Ministério Público Federal (MPF) em Alagoas é no sentido de que tome as providências legais contra os agentes públicos responsáveis pela guarda do patrimônio público abaixo citado.

  1. O INSS abandonou, já faz alguns anos, três prédios na Praça dos Palmares com a Rua do Comércio.
  2. A superintendência do IBGE, que durante décadas funcionou na esquina do Beco São José com a Rua Boa Vista, encontra-se completamente abandonada.
  3. O Tribunal de Contas da União (TCU) construiu uma moderna sede na Avenida Assis Chateaubriand, na praia do Sobral; após isso, transferiu-se para o bairro do Farol e abandonou totalmente a antiga sede.

Esses descasos com o patrimônio público têm causado dissabores à população de Maceió, que assiste todos os dias, nas redes de televisão e na mídia em geral, a ações do MPF e do TCU combatendo desvios de condutas e apropriação do dinheiro público, e fica a se perguntar: com esses casos tão expostos, qual o motivo de nada ser feito para apurar tamanha incúria?

Os cidadãos de Maceió e de Alagoas exigem do MPF uma atitude para reverter essa situação.

Polícia civil não apresenta quem matou Nô Pedrosa, o mistério continua.

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A polícia civil de Alagoas, passados 60 dias do assassinato de Walfredo Pedrosa de Amorim, 78 anos, conhecido como Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos, 39 anos, ainda não apresentou a conclusão do inquérito policial, o duplo assassinato ocorreu na noite de 23 de dezembro de 2017, no bairro de Mangabeira, em Maceió.

Histórico

 

O Ministério Público estadual, no dia 8 de janeiro, representado pelo coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça, José Antônio Malta Marques e o coordenador do Núcleo da Infância e da Juventude, promotor de Justiça Ubirajara Ramos, receberam a Comissão em Defesa da População em Situação de Rua na oportunidade ouviram alguns depoimentos relacionados às mortes de Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos e também as condições da população de rua em Maceió.  

 

O procurador-geral de justiça Alfredo Gaspar de Mendonça designou para acompanhar o caso o titular da Promotoria de Direitos Humanos, promotor de Justiça Jomar Amorim de Moraes. Esse grupo do MPE está tratando de elucidar o duplo homicídio, mas tem a função de acompanhar a execução de políticas públicas destinadas à população de rua e em estado de vulnerabilidade.

 “Três dias após as mortes, mesmo com a suspensão temporária das atividades do Ministério Público, o procurador-geral nos acionou, requisitou ao delegado-geral da Polícia Civil, Paulo Cerqueira, a instauração de inquérito para a apuração. Nós enviamos documento ao coordenador da Delegacia de Homicídios, delegado Fábio Costa, o procedimento foi devidamente agilizado e está sob responsabilidade da delegada Rebeca Cordeiro”, afirma José Antônio Malta Marques.

        Até o momento a Polícia Civil não entregou o inquérito policial à Justiça.

 

     

       

     

Como me tornei são-paulino

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O presidente Juscelino Kubitschek governou com entusiasmo e conduziu o Brasil com o lema “Cinquenta anos em cinco”. As metas definidas foram ao encontro dos anseios da população. O país entra numa nova era, indústrias são instaladas e com isso também são criados empregos em todas as regiões. Havia tantos que era possível escolher.

Levas de nordestinos foram trabalhar em São Paulo, Rio de Janeiro, no norte do Paraná ou foram juntar-se aos milhares de operários e técnicos que estavam entusiasticamente construindo Brasília, a nova capital.

Muitos jovens saíram de Anadia em Alagoas e foram trabalhar nas novas frentes de trabalhos. São Paulo era a cidade que mais atraia mão de obra.

      Os irmãos Ezequias e José Fidelis, o primo Abraão e os amigos José Cláudio e Áureo foram para São Paulo de pau de arara, em cima de um caminhão. Viajaram em condições terríveis, na esperança de encontrar trabalho − o que de fato aconteceu, pois todos logo se empregaram na indústria paulistana.

Áureo, negro forte, trabalhava em Anadia como carregador de sacos e ajudante de caminhão. Em São Paulo não se apertou. Foi trabalhar numa firma como ajudante. Era do pesado, sério, trabalhador.

Houve uma mudança essencial na vida desses jovens. Por muitos anos continuaram morando juntos, mas nem todos desejavam se fixar efetivamente na cidade. Um desejo incontido permaneceu: o de voltar a viver em Anadia.

Os domingos eram destinados ao lazer, bebidas, jogos, mulheres e futebol. Áureo, em meio a santistas, time que estava ganhando tudo, tinha Pelé, Coutinho e Pepe. Era a certeza de vitória. Torcia pelo São Paulo Futebol Clube, o time da elite paulistana, pelo menos era assim considerado.  

As tardes de domingo no Morumbi eram sagradas quando o seu time jogava. Canhoteiro, o maior ponta-esquerda do futebol brasileiro, era o seu ídolo, de quem não se cansava de falar, imitar, reproduzir jogadas. Negro, do Maranhão, nordestino como Áureo.

Em São Paulo tinha trabalho, o salário estava além da expectativa, mas a saudade da terra natal e dos amigos era mais forte. A volta foi se desenhando até se consumar. Retornou para Anadia e voltou a trabalhar como ajudante de caminhão no armazém do “Seu” Antonio.  

Aquela massa compacta de músculo em forma de gente era fascinante para os meus olhos de criança. Falava de um mundo que ninguém conhecia, descrevia jogadas imaginárias, muitas delas prendiam a minha atenção e a das outras crianças.

Realizava movimentos rápidos com as mãos e com o corpo carregando sacos de setenta ou oitenta quilos, subia na prancha para arrumar as cargas dos caminhões, umas vezes de algodão, outras de mamona, e na maioria das vezes couro de animais.

O assunto recorrente era futebol e as proezas do São Paulo Futebol Clube. A escalação de várias formações do time era desfiada em voz alta. Os comentários eram de quem conhecia e, mais que isso, tinha visto os jogos com visão privilegiada: da arquibancada do anel superior do estádio do Morumbi.  

Aquele negro musculoso, um gladiador africano em terra anadiense, era a pessoa a quem eu mais admirava. Nem meu pai tinha tantos argumentos sobre futebol. Aliás, de futebol meu velho pai não entendia nada. Os meus primos, considerados ricos e cheios de pose, também não sabiam nada. O cara era o negro Áureo.

Foi por meio dos seus comentários apaixonados que ouvi pela primeira vez falar de um certo Eder Jofre, campeão mundial de boxe e são-paulino. Áureo era seu admirador. Tudo se encaixava: negro musculoso, são-paulino e apaixonado por boxe.

O círculo de minha admiração infanto-juvenil se fecha quando, alguns anos depois, da porta de minha casa presencio a sua prisão. Morei durante anos em frente à cadeia e presenciei inúmeras cenas de maus-tratos e tortura a presos. Essa seria mais uma.

A Polícia Militar foi chamada para prender o Áureo. O motivo alegado foi arruaça na rua. De fato quando ele bebia ficava muitas vezes agressivo, transtornado com o efeito do álcool.

  A prisão para os policiais era mansa e pacífica até chegar próximo à cadeia. Faltando alguns metros, Áureo resiste e sai no braço com os quatro policiais. O resultado: não houve condições de prendê-lo naquele instante; deixou o destacamento policial no chão e foi-se embora.

O tumulto se formou e houve necessidade de chamar reforço policial. A prisão ocorreu depois, mas em outras condições: sob a mira de armas de fogo e cassetete. 

A minha admiração, que era grande, a partir daquele instante redobrou. O Negro Áureo tornou-se o meu herói dos tempos de infância. Um campeão, um Eder Jofre negro e musculoso de Anadia. Nunca mais saiu da minha lembrança.

Foi assim que me tornei são-paulino.

O time do São Paulo de 1971, bicampeão paulista, também não saiu da minha memória. A linha com Terto, Pedro Rocha, Toninho Guerreiro, Gerson e Paraná. O título mundial de boxe peso pena ganho por Eder Jofre, em 1973.

Vinte anos depois, em 1993, quando Isabela – minha filha – nasceu, andando pelo centro velho de São Paulo, entrei numa loja na rua Libero Badaró e comprei uma camisa 10, que simboliza a arte e o craque. Naquele instante, quem vestia a camisa era Raí.

Raí foi um craque, além de símbolo de jogador elegante em campo e fora dele. Isabela é torcedora do tricolor e já teve o seu batismo: foi ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, visitar a sala de troféus do clube.

         Salve o tricolor paulista !

 

Penedo e seus encantos

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O navegador florentino Américo Vespúcio (1454 – 1512) encontrou o rio São Francisco em 4 de outubro de 1501. Pelo calendário litúrgico, era o dia de são Francisco de Assis. O rio São Francisco dos colonizadores era um velho conhecido dos indígenas, que o chamava de Opara, o que em sua língua tinha o significado de “o rio”.     

Vespúcio, que vinha de batizar o cabo de Santo Agostinho, o rio São Miguel, e seguiu viagem no rumo sul, foi batizando sucessivamente os diferentes rios e acidentes geográficos encontrados na costa recém-descoberta que séculos depois viria a ser o estado de Alagoas.

O português Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco e fundador de Olinda ‒ uma joia barroca ‒ em 10 de outubro de 1555, navegou pelo rio São Francisco com as suas embarcações até onde hoje é a cidade do Penedo, meio século depois de Américo Vespúcio.

Duarte Coelho pegou o rumo sul da capitania de Pernambuco com os seus navios e gente trazida de Portugal para ocupar o território.

Porto Calvo é o primeiro polo de povoamento ao sul de Olinda onde os primeiros colonos foram deixados; o donatário seguiu viagem e, mais adiante, adentrou as duas lagoas, hoje, Mundaú e Manguaba.

A segunda leva de colonos desembarcou para constituir o povoamento de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, depois Vila de Alagoas, primeira capital da província de Alagoas, em 1817, hoje Marechal Deodoro.

O terceiro polo viria a ser constituído à margem esquerda do rio São Francisco, na divisa da capitania de Pernambuco com a da Bahia. Por fim, outro grupo de colonos e suas famílias desembarcaram e fundaram o povoado, que já se chamou de Vila de São Francisco (1636) e Vila do Penedo, denominações encontradas em assentamentos coloniais em 1704. A partir de 1842, é elevada à condição de cidade do Penedo, como relatou José Prospero Caroatá em seu texto Crônica do Penedo, de 1872.

A Penedo barroca, construída à beira-rio e entre ladeiras, é de origem e formação portuguesa, mas entre 1637 e 1645 foi dominada pelos holandeses ‒ era um pequeno burgo, com apenas 82 anos de existência e uma localização estratégica.

O conde Maurício de Nassau, em visita ao sul da capitania, ordenou a construção de uma fortificação para se proteger de invasões e a denominou de Forte Maurício.

Ao regressar a Olinda, Maurício de Nassau deixou cerca de 1.600 homens com armas e munição sob o comando do general Segismundo. O território é conquistado. Vencida a resistência dos portugueses, os holandeses permaneceram até 1645, quando os lusos retomaram o território, expulsando-os.   

Há em Penedo marcas históricas dos portugueses e dos holandeses. A arquitetura barroca de suas igrejas e o casario colonial, passados tantos anos e mesmo sofrendo com o descaso dos governantes, ainda assim acha-se consideravelmente conservada, tendo grande valor e significância como patrimônio histórico nacional. É um exemplar único em Alagoas, irmã de Olinda aqui no Nordeste.

Passados 463 anos de quando teve início o povoamento de Penedo, seus moradores e os visitantes têm ido às ruas nos últimos dez anos, descendo e subindo ladeiras, fantasiados, dançando frevo e seguindo o bloco Ovo da Madrugada. Os becos e as ruas estreitas de paralelepípedos, lotados de foliões, acompanham bandas que tocam marchinhas e frevos.

O artista plástico Cícero Tadeu Gomes, o Tadeu dos Bonecos, sergipano nascido em Neópolis, e que quando criança foi morar em Olinda, na escola aprendeu a fazer esculturas de papel. Aos 13 anos voltou para morar em Penedo com a família.

Em Penedo começou a fazer burrinhas de papelão, aperfeiçoou o estilo até chegar a confeccionar os bonecos gigantes. Já perdeu a conta de quantos bonecos gigantes fabricou; ganhou notoriedade por ser o autor do maior boneco do Brasil, o Galeante da Noite, com 4,5 metros de altura.  

O talento desse artista plástico e a beleza da cidade dão um ar diferente ao carnaval de Alagoas. O pôr do sol sobre o rio visto do hotel São Francisco ou da Rocheira, caminhar pelas ruas observando os detalhes das construções centenárias, entrar e me demorar sem tempo determinado em suas igrejas, a de Nossa Senhora das Correntes, juntamente com o Convento Franciscano de Nossa Senhora Maria dos Anjos, são as minhas atividades preferidas.

Não é dado o direito de ter nascido em solo alagoano, viver e não ter ido uma vez sequer a Penedo. Por certo, se assim fizer, o temente a Deus não entrará no Céu, e se entrar, será de cabeça para baixo.

A folia de Momo é uma celebração do corpo, do prazer e da alma. Para isso eu quero ir sempre ao Penedo das Alagoas: ver e rever os seus cantos, ruas, becos e ladeiras que tanto me encantam.

 

     

 

 

 

Segurança ainda não esclareceu assassinato de Nô Pedrosa.

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O militante político Walfredo Pedrosa de Amorim, 79 anos, conhecido por Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos, 39 anos, ambos assassinados no dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, na residência de Nô Pedrosa no bairro de Mangabeira.  

A Polícia Civil passado um mês do duplo assassinato ainda não esclareceu as circunstâncias dos crimes e quem os praticou.

Os amigos e familiares de Nô Pedrosa permanecerão lutando pelos esclarecimentos do duplo homicídio.  

  

Ronaldo Lessa e Kátia Born são absolvidos pela justiça de acusações de envolvimento em ilícitos administrativos.

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O ex-governador e atual deputado federal Ronaldo Lessa (PDT) e a ex-prefeita de Maceió, Kátia Born (PDT) foram absolvidos de acusações feitas pelo Ministério Público Federal (MPF), no caso do deputado federal e o Ministério Público Estadual (MPE), no caso da ex-prefeita.

Os dois políticos tiveram seus sigilos bancários e fiscais quebrados, por determinação judicial e nada que os desabonasse foi encontrado, o mínimo vestígio foi detectado pelas investigações.

Ronaldo Lessa e Kátia Born foram cerca de dez anos investigado e processado e tendo os seus nomes noticiados pela mídia como se condenados fossem, bens bloqueados, as vidas devassadas.

Absolvidos, nada saiu na mídia informando o resultado dos processos e o principal: a absolvição dos dois políticos.

A sociedade do espetáculo que vivenciamos é o pior mal que podemos apontar no pós-ditadura.

As instituições do Estado brasileiro estão cada vez mais partidarizadas ou politizadas no sentido de que mais vale a versão do fato que a apuração do fato em si e, se for encontrado indícios suficientemente plausíveis que sejam abertos os procedimentos legais. Não é o que presenciamos e nesses caso muito menos isso aconteceu.

  1. A primeira absolve Katia Born de qualquer relação com o escândalo do lixo, ocorrido na gestão do ex-prefeito e atual deputado federal Cícero Almeida. Para a Justiça, não há nada que justifique a inserção de Katia no esquema que se desenrolou na gestão de seu sucessor.
  2. A segunda decisão favorável à Katia Born veio com o reconhecimento do magistrado de total ausência de provas e, principalmente, da constatação de que nada foi descoberto que demonstrasse qualquer benefício recebido por Born quando exercia o cargo de secretária estadual de saúde, no governo Ronaldo Lessa. O processo refere-se à obra de reforma e ampliação do HGE.

Vejamos a nota da ex-prefeita.

A ex-prefeita de Maceió, Katia Born, vem colecionando vitórias na Justiça, contrariando tentativas de alguns procuradores de envolvê-la em ilícitos administrativos. São duas decisões significativas, uma no final do ano passado e outra nessa quarta-feira, 10. A primeira absolve Katia Born de qualquer relação com o escândalo do lixo, ocorrido na gestão do ex-prefeito e atual deputado federal Cícero Almeida. Para a Justiça, não há nada que justifique a inserção de Katia no esquema que se desenrolou na gestão de seu sucessor.

A segunda decisão favorável à Katia Born veio com o reconhecimento do magistrado de total ausência de provas e, principalmente, da constatação de que nada foi descoberto que demonstrasse qualquer benefício recebido por Born quando exercia o cargo de secretária estadual de saúde, no governo Ronaldo Lessa. O processo refere-se à obra de reforma e ampliação do HGE.

“Acontece que inexistem nos autos provas de que a acusada tenha participado ou influenciado na elaboração da planilha do orçamento da obra encaminhada ao Ministério da Saúde para os fins do Convênio nº 46/2006 ou da planilha do orçamento estimativo que integrou o Edital da Concorrência nº 04/2006, ambos os documentos elaborados no âmbito do SERVEAL. Também não existem provas, ou sequer indícios, de que a acusada teria agido no sentido de beneficiar a empresa ARQUITEC no certame licitatório no qual esta se sagrou vencedora, primeiramente, porque não mais era Secretária de Estado ao tempo da licitação e da assinatura do respectivo contrato, depois, porque o referido procedimento teve curso no âmbito da SEINFRA/AL, e não da SESAU/AL (cf. fls. 40-94 do ICP, Apenso 01)”, diz a decisão da Justiça.

O magistrado que julgou o caso é taxativo em relação a Katia Born: “… diante da insuficiência de provas nos autos, até mesmo no que tange à sua evolução patrimonial e movimentações financeiras, conforme documentos angariados a partir da quebra dos seus sigilos fiscal e bancário (cf. fls. 1606-1619 e mídia de fl. 3237, pasta “mídias”, arquivos “AP_913_Volume_07_Fl._1362_CD.iso” e “AP_913_Volume_13_Fl._2821_CD.iso”), nos quais não se verificou qualquer anormalidade passível de registro, ao contrário do que alegado de forma genérica pela acusação ao dizer que tais provas “demonstram movimentação financeira e patrimônio incompatível com a situação financeira dos réus e salários recebidos, sendo mais um elemento a demonstrar as condutas criminosas”.

Katia vem recebendo essas decisões com naturalidade.

“Sempre tive a certeza que a verdade iria prevalecer. Entrei e saí da prefeitura de Maceió e de todas as funções públicas que exerci sem nunca me beneficiar do dinheiro público. Posso andar de cabeça erguida, vivo do meu trabalho, com as mesmas dificuldades em pagar contas que qualquer cidadão honesto deste país”, declarou. Para Born, vasculharam a vida dela para fornecerem, finalmente, um atestado de idoneidade que todo político deve ter.

Nessa época de demonização dos políticos, muitas vezes respaldada por atos inescrupulosos praticados por muitos deles, é necessário reconhecer que há exceções e publicar decisões que inocentam muitos que, à época das denuncias, tiveram seus nomes e carreiras políticas expostas e execradas, mas que ao serem inocentados tenham direito a mesma publicidade.

As ruas de Maceió

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O cantor e compositor Domingos Annunziato Litrento (1938-2012), conhecido como Roberto Beckér, nasceu em Maceió no dia 13 de outubro de 1938 e morreu em 1º de abril de 2012, em Aracaju. Ao iniciar a carreira como cantor, na década de cinquenta, adotou o nome artístico de Roberto Beckér.

          Beckér compôs e gravou centenas de músicas, fez sucesso em Alagoas e fora do estado. A sua obra musical tem dezenas de composições dedicadas a Maceió, a personagens históricos, mas uma música em particular foi dedicada às ruas de Maceió.

          Os vereadores, durante muitas décadas, se encarregaram de mudar os nomes das ruas, para render homenagens aos barões, conselheiros, senadores, presidentes de província e militares.

          Já o vereador Enio Lins (PCdoB), em 1990, fez o caminho inverso: apresentou um projeto de lei para que fossem devolvidos os nomes originais das ruas de Maceió.

           O projeto foi aprovado pela Câmara e hoje é a Lei nº 3.998, de 7 de agosto de 1990. Desta maneira Enio Lins conseguiu devolver à cidade a beleza e o encanto dos nomes originais das ruas, preservando a memória de cada morador ou de quem um dia visitou ou residiu na cidade.  

           Os nomes com que Roberto Beckér havia feito uma ironia fina na letra da sua canção, “As Ruas de Maceió”, regravada por Eliezer Setton, foram talvez um prenúncio do primeiro projeto de lei do vereador comunista.

            A Rua Barão de Penedo voltou a chamar-se Rua Nova; a Rua João Pessoa, Rua do Sol; a Ladislau Neto, Rua Augusta; a Conselheiro Lourenço de Albuquerque, Rua Boa Vista; a Melo Moraes, Rua do Apolo; a Cincinato Pinto, Rua do Macena; a Senador Mendonça, Rua do Livramento; e a Tibúrcio Valeriano voltou a ser o Beco São José. Já em Jaraguá, a praça General Lavenère Wanderley foi rebatizada como Praça dos Dois Leões.

             O Beco São José liga as ruas do Macena, Boa Vista, do Comércio e do Sol. Naquele corredor residiu a nobreza de Maceió, bem como Salomão Setton Neto, cantor, comerciante e o mais longevo Rei Momo da cidade, pai do cantor e compositor Eliezer Setton.    

             No momento em que esses laços afetivos vão sendo desatados, as perdas simbólicas se acumulam. Os nomes daqueles figurões imperiais ou republicanos não são elos capazes de estabelecer ligação com a memória da cidade e das gerações passadas, com a presente e menos ainda com as futuras.

             O Centro de Maceió merece ser requalificado e restaurado, para que assim as suas histórias possam ser escritas e reescritas, contadas e cantadas com a música do Roberto Beckér.

 

 

Ruas de Maceió

Roberto Becker

  

Cada rua da cidade
Devia ter um nome só
Mas aqui é diferente
São coisas de Maceió

Primeiro de Março é Moreira Lima
Parque Rodolfo Lins é Praça do Pirulito
Eu tenho dito a muita gente boa
Que a Rua do Sol também se chama João Pessoa*

Rua da Alegria é Joaquim Távora
Rua do sopapo é Miguel Omena
Tem gente que tem pena, mas acha correto
A rua Augusta ter o nome de Ladislau Neto

Cada rua da cidade...

Avenida da Paz é Duque de Caxias
Silvestre Péricles é rua formosa
Parece prosa e já é demais
A rua do Apolo ser Melo Morais

Rua do livramento é senador Mendonça
Barão de Penedo é a Rua Nova
Taí a prova veja como é
Tibúrcio Valeriano é o Beco São José.

 

 

 

 

 

 

Robson Amaral Amorim, música e boemia

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Robson Amaral Amorim (1948), músico e compositor. Nasceu em Recife no dia 13 de novembro de 1948. Filho de Aderson Evaristo Amorim e Diva Amaral Amorim. Estudou no Colégio Marista de Recife. Aos dez anos, acompanhado dos pais e das irmãs, deixou a cidade e foi morar em São Paulo, cidade onde passou a viver com a família.

O pai, Aderson, trabalhava como vendedor da Guararapes Tecidos em Recife. Chegando em São Paulo, continuou trabalhando como atacadista de tecidos. A mãe, dona Diva, trabalhava como cabeleireira.

Robson continuou os estudos em São Paulo no Colégio Mackenzie. Ao sair da adolescência, procurou um trabalho. Deixou, assim, por falta absoluta de tempo, os estudos. Trabalhou em várias empresas, mas foi na Crusoé Discos – época de vinil – onde trabalhou duro por dezoito anos.

Ter trabalhado como vendedor em uma loja de discos influenciou Robson para a música. No entanto, alguns anos depois, reconheceu que sua formação musical e também o gosto pela composição foram moldados no trabalho na loja Crusoé Discos.

As conversas frequentes com clientes, músicos, colecionadores, professores e gente simples que cultuavam bom gosto musical definitivamente abriram um novo horizonte na sua vida, e até mesmo a perspectiva de um dia viver como músico profissional.   

A música sempre esteve presente em sua casa. A mãe e as duas irmãs tocavam piano. O trio musical da família era composto pela mãe Diva e pelas irmãs Rose Mary e Sonia Maria do Amaral Amorim.

Mesmo com a influência musical na família, o verdadeiro interesse pelo violão surgiu por meio dos festivais de músicas da TV Record e da TV Tupi nos anos de 1960, período de efervescência da música popular brasileira.

São aproximadamente 130 composições musicais, compostas desde o tempo em que trabalhou na loja de discos em São Paulo, onde começou a compor e encontrou o seu primeiro parceiro, o músico Paulo Viana. A maioria das composições com letras foi feita com Paulo Viana. A outra parte são músicas instrumentais. Até o ano de 2010 foram gravadas 10 composições deste tipo.

Robson Amorim tem como influência musical o músico Baden Powell, definido como seu “mestre auditivo”. Robson continua, incansavelmente, ouvindo as composições de Baden. Seja dia ou seja noite, na varanda ou no quarto, com ou sem o acompanhamento do inseparável violão.

Em Maceió desde novembro de 2004, encontrou um ambiente musical ricamente favorável, bem como a receptividade dos músicos e compositores locais, o que tem contribuído para enriquecer a sua produção.

Integrado à vida cultural, reaproximou-se do choro, gênero musical pelo qual, desde muito jovem, nutre grande paixão. Durante os últimos seis anos [2004-2010], produziu como nunca havia feito e com vários e diversificados parceiros, como os irmãos Marcos e Marcondes de Farias Costa, Stanley Carvalho, Ubirajara Almeida, Ricardo Cabús e Gustavo Gomes.

A maturidade musical e o crescimento da produção musical o fizeram apresentar seu trabalho em festivais e mostras, tanto em Alagoas como fora do Estado. Participou, em 2006, com a música autoral “Marisol”, da 3ª edição do Palco Aberto, projeto da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

Outro evento em que também conseguiu classificar músicas autorais foi na Mostra do SESC, nos anos de 2006, 2007 e 2008. Em 2006, a música classificada foi “Pequena Suíte Alagoana”, composta com Marcos de Farias Costa e interpretada pelo cantor alagoano César Rodrigues, com participação de Robson Amorim no violão, Ricardo Lopes na guitarra, Van Silva no baixo, Herbeth Vieira na bateria, Luizito no pandeiro, Ronalso na percussão e Uruba na flauta.

 

Em 2007, foi a vez da música “Chorei”. Composta por Robson em parceria com os irmãos Marcos e Marcondes Costa. Interpretada por Micheline Almeida, acompanhada de Van Silva (baixo), Wilbert Fialho (violões), Everaldo Borges (flauta), Josivaldo Jr. (teclado) e Herberth Vieira (bateria). 

No terceiro ano seguido, 2008, voltou a classificar uma canção no Festival do SESC. “Malicioso”, composta em parceria com Marcos de Farias Costa, interpretada por Micheline Almeida, Robson Amorim (violão), Toni Augusto (guitarra), Van Silva (baixo), Josivaldo Jr. e Juliano Gomes (teclados), Everaldo Borges (flauta), Ronalso (percussão) e Pantaleão (bateria).

Maceió consolidou-se como grande palco para Robson Amorim. Na capital alagoana, vem se apresentando em festivais ou em eventos organizados por órgãos estatais, como ocorreu no 1º Festival de Música do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP).

A música “Chorar Simplesmente”, de sua autoria com Paulo Viana, foi gravada no 1º cd do Choro Alagoano, “Chorano”. Participou da trilha sonora do filme “Lá vem Juvenal”, curta-metragem produzido e dirigido pelo cineasta Hermano Figueiredo.

Robson Amaral é autor da vinheta da Secretaria de Estado da Saúde (SESAU) veiculada em rádios e televisões, campanha de combate a hanseníase.

Tem se apresentado semanalmente em casas noturnas e também em encontros vesperais dos sábados e domingos. O repertório é composto de músicas instrumentais e das suas composições e de autores alagoanos.

Em 2010, Robson classificou-se para o projeto “Quinta instrumental”. A apresentação aconteceu em 7 de outubro, no Teatro de Arena Sérgio Cardoso. Na oportunidade, foram mostradas músicas de sua autoria e choros de consagrados músicos brasileiros. Nessa apresentação, esteve acompanhado de Zailton Sarmento, Mikla, Wagner e Wilbert Fialho.

Comemorando a vida, “eu canto samba, porque só assim eu me sinto contente”

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O ano de 2017 passou e não terei saudades, já foi tarde. No balanço que fiz, o saldo é negativo, as perdas foram maiores e os ganhos, mesmo tendo sido bons, não cobriram as perdas. Em geral não sou pessimista nem cultuo o negativo como filosofia de vida.

Em poucos meses perdi duas pessoas, a minha irmã, Rosa, consumida por um câncer bravo, e um amigo querido, Nô Pedrosa, assassinado no dia 23 de dezembro. Essas duas perdas desequilibraram o balanço de 2017. 

        Hoje, dia 2 de janeiro, completo 57 anos de vida. Confesso que as minhas reclamações são poucas e quase que triviais.

        Quando a barra pesa eu me socorro dos amigos(as) e do samba; e no samba é Paulinho da Viola quem me levanta, ou melhor, é quem não me deixa cair, ir à lona, como boxeador nocauteado. É por isso que “eu canto samba, porque só assim eu me sinto contente”.  

        Andar pela cidade, por avenidas, ruas e becos é outro modo de que lanço mão há muito tempo para me reencontrar e seguir em frente. A boemia não é mais a minha companheira; a bebida não é capaz de despertar alegria em mim.

        Maceió é de uma beleza estonteante. O mar no verão reflete várias tonalidades de azuis que contrastam quando olhamos em volta, pois enxergamos a pobreza da gente anfíbia excluída que ganha a vida nos manguezais, nos trabalhos miúdos, nos ofícios e ou fazendo bicos ‒ trabalhos intermitentes, a palavra da moda.

        A paisagem de opulência e miséria corta a carne e perfura a alma, mesmo dos que são desalmados. Viver e sobreviver em Maceió são uma obra de arte ou vida de malabares.

        Diante de realidade tão cruel e perversa, o que salva, ou me salva, é a arte. Procuro ir onde estão os bambas: “eu vou ao samba, porque longe dele eu não posso viver, com ele eu tenho de fato uma velha intimidade”.

        É possível imaginar a vida em Maceió, muitas vezes, como se fosse uma prisão sem grades ou o exílio sob o sol escaldante do verão, diante das águas mornas do mar, da lagoa Mundaú e dos rios.

        E qual a explicação para brotarem tantos músicos, artistas, poetas e escritores numa terra calcinada? Arrisco dizer que é a força da natureza que não foi domada, nem será.

        Há uma geração de violonistas e cantores(as) que estão se apresentando nos bares, restaurantes e teatros. É um dado a ser observado de como a qualidade sai da quantidade com uma simplicidade inimaginável, pelo menos para mim. Os grupos de samba da periferia passaram a ter visibilidade e fizeram a ligação com os outros grupos da cidade.

A arte, diferentemente da política, multiplica-se para fazer o bem e alegrar os corações de uma cidade partida e repartida, como diz o samba: “o samba é alegria, falando coisas da gente, se você anda tristonho, no samba fica contente”.

 

Alagoas não é um estado para amador. Por isso em 2018, depois das festas, devemos retomar a realidade e procurar alternar a vida com sambas e focar nas lutas que nos esperam para superarmos as noites de trevas que têm durado mais que o imaginado e têm causado tristeza e desilusão nos que são do batente e que perderam seus postos de trabalho e agora estão na iminência de perder o direito de se aposentar.

É por isso que eu luto e canto samba.

 

Eu canto Samba

 

Paulinho da Viola

Eu canto samba
Por que só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver
Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade
Se fico sozinho ele vem me socorrer
Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou

 

O samba é alegria
Falando coisas da gente
Se você anda tristonho
No samba fica contente
Segure o choro criança
Vou te fazer um carinho
Levando um samba de leve
Nas cordas do meu cavaquinho.

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Poeta, compositor e boêmio

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Paulo Renault Braga Villas Boas [1958-2003], poeta, compositor, funcionário público, trabalhou na Fundação Cultural Cidade de Maceió e Fundação Teatro Deodoro – Funted. Antes havia trabalhado como vendedor da Brahma. Nasceu em Maceió no dia 29/10/1958 e faleceu em Maceió no 19/11/2003. Filho de Renault Paranhos Villas Boas e Leda Braga Vilas Boas. Cursou até o 3º período de administração de empresas no Centro de Estudos Superiores de Maceió - CESMAC. Casou-se com a professora Márcia Maria Lima Villas Boas; o casal teve dois filhos, Rodrigo e Sergio Lima Villas Boas.

        A política foi um dos assuntos que mais atraiu Paulo Renault, além da poesia e da boemia. Tinha nas veias o sangue do histórico militante comunista Júlio de Almeida Braga, seu avô e um dos fundadores em Alagoas do Partido Comunista Brasileiro – PCB, razão fundamental de tanto falar do avó e de relatar em segunda mão as proezas do velho comunista nas prisões e durante a vida de operário e inventor de instrumentos mecânicos.

         Paulo Renault ousou na juventude entrar para a militância política no antigo PCB, mas logo admitiu não ser essa a sua opção de vida. Pediu “baixa” do PCB e seguiu o seu caminho de poeta e compositor. O que de fato estava certo, pois a política partidária não seria o melhor caminho para ele trilhar.    

Paulo Renault foi parceiro de Chico Elpídio, Eliezer Setton, Marcondes Costa e Carlos Moura, dentre outros. Das músicas compostas em parceria com os amigos, algumas foram gravadas. A temática de suas composições foi sempre focada na condição social do ser humano, seus desejos e suas fraquezas, com influências da bossa nova, da música de raiz nordestina e da MPB.

Integrou um dos mais importantes grupos musicais de Alagoas, o Grupo Terra. Esse conjunto musical foi criado no final dos anos 70 e permaneceu até o início dos oitenta. Márcia, sua companheira, diz que ele “possuía aguçado senso musical e uma voz privilegiada, com um agudo incomum, e que a sua relação com o violão – instrumento de sua predileção − era apenas a de um pretenso tocador, pois não se dedicava com a profundidade que gostaria ou deveria”.        

Os músicos que constituíram o Grupo Terra se tornaram uma referência da sua geração. Entraram de corpo e alma na produção de música alagoana, com forte influência do estilo regional. Durante a década de 70 despontavam no cenário artístico nacional grupos musicais como o Quinteto Violado e a Banda de Pau e Corda ambos pernambucanos.  

A motivação dos músicos era também a do compositor Paulo Renault, que tinha como uma das suas características pessoais o entusiasmo e a grandiloquência. Talvez por ser dessa maneira, “mergulhava de cabeça” em tudo que escolhia

A passagem pelos vários órgãos públicos de cultura era, além do seu oficio, um caminho para tentar se expressar politicamente no ambiente artístico e cultural das Alagoas.     

    

Autodidata

 

O temperamento irrequieto o conduziu por toda a vida – curta, é bom que se destaque. Morreu com apenas 45 anos. Era autodidata; sem que nunca houvesse estudado direção teatral, codirigiu com Paulo Déo, em 1995, uma peça do consagrado escritor gaúcho Moacyr Scliar, Introdução à Prática Amorosa.

Três anos depois, em 1998, ajudou a montar o espetáculo Maceió Cidade Aberta, com o seu amigo o cantor e compositor Chico Elpídio. Esse show foi baseado numa de suas obras, e os poemas foram musicados por Chico Elpídio. A direção ficou a cargo do experiente diretor José Márcio Passos.

O trabalho como produtor musical também o atraia e por muitos anos produziu shows de cantores alagoanos como Eliezer Setton, Leureny Barbosa, Nara Cordeiro, Wilma Miranda, entre outros. O envolvimento na produção não era restrito à montagem formal do espetáculo apenas mas acabava se envolvendo muitas vezes na escolha do repertório; opinava sobre os arranjos musicais e até mesmo sobre a apresentação no palco de cada um dos artistas.

 

Livros

 

 

A Saga do Toureiro é o primeiro livro, com 18 poemas inéditos, editado pela FUNTED em 1990. O livro fez parte da coleção Palco e Luz. Os poemas são críticos ao mundo capitalista globalizado, onde a ideologia do individualismo domina o mundo e transforma os seres humanos em objetos e/ou máquinas de consumo.

Quando Paulo Renault morreu, Maceió Cidade Aberta estava sendo produzido. Os 25 poemas que compõem o livro foram ilustrados por Mário Aloísio, arquiteto e seu amigo. Só em 2004 foi publicado pela Editora Catavento.     

Maceió Cidade Aberta é um conjunto de poemas em que a cidade e sua gente são retratadas. A identidade do poeta com a cidade natal rende muito mais que uma ode. É possível se perceber o que liga um poeta marginal aos marginalizados sociais. É a denuncia do cotidiano mais cruento, são os encontros e desencontros ocorridos entre Paulo Renault e Maceió.

A cidade que sucumbe diante da miséria a que sua gente é arrastada é a mesma cidade em que o poeta foi criado e andou pelos becos, ruas, avenidas, cruzou córregos e se banhou na lagoa Mundaú e no mar. O descaso e o sofrimento do povo e da cidade se confundem com a vida do poeta que romanticamente quer vê-la aberta, livre da miséria e feliz.

Renault produzia lentamente. Publicou apenas dois livros com 43 poemas; deixou outros poemas inéditos, letras de músicas e textos esparsos que merecem ser organizados em outro volume, para assim completar a sua obra.

 

 

O boêmio

 

         A boemia era uma das atividades que lhe davam prazer desde a adolescência. O bate-papo em bares, restaurantes e botecos, nas casas mais seletas ou na periferia, não o incomodava e da sua boca ninguém ouviria nenhum comentário ou resmungo. O boteco com três mesinhas à beira do riacho do Salgadinho era um termômetro da sua satisfação.

Agora imaginem os finais de tarde no Largo do Mercado de Jaraguá, no alegre Buraco da Zefinha? Um típico pé-sujo da cidade, mas que durante muitos anos foi frequentado por boêmios de várias extrações sociais. Era o local onde o poeta pontificava com mais assiduidade.

O samba cantado pelo cantor Zé Paulo era o que havia de melhor e diferente nas tardes de sábado em Maceió. O velho cantor de samba, com seus óculos escuros, adorno que o identificava muito mais que o documento de identificação, o RG. 

Os intervalos invariavelmente eram destinados aos recitais dos poemas de sua autoria ou de outros poetas. Os amigos, depois de tomar muitas, insistentemente solicitavam que Paulo Renault declamasse Vou embora pra New York, o seu mais conhecido poema. Era um delírio embebido no álcool. Palmas, assovios, gritos e mais bebidas, sempre.

No entorno do Buraco da Zefinha e do Poeta se formou uma confraria em estilo profundamente anárquico, e até foi criado um bloco de carnaval chamado Família Josefina. O bloco desfilou apenas um ano pelas ruas do bairro. O poeta foi um dos destaques. Fantasiado, desfilou pelas ruas e becos de Jaraguá. O ponto alto foi o momento em que solenemente foi afixada uma placa em homenagem à Rapariga (prostituta) Desconhecida.  

O território mais conhecido das prostitutas em Maceió recebeu em pleno carnaval essa singela homenagem póstuma. Nada mais justo do que se prestar uma homenagem pública às trabalhadoras do sexo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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