Geraldo de Majella

Civilização ou barbárie?

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Postado em set 21, 2018 em Artigos Roberto Amaral, Capa

O quadro de outubro próximo, visto pura e simplesmente do ponto de vista eleitoral, ou seja, na sua aparência, ensejará, a escolha entre o capitão e a alterativa representada por Fernando Haddad ou Ciro Gomes.

Na primeira hipótese, teremos a transição, pela via eleitoral (anunciada para o segundo turno), do Estado autoritário para a ditadura fascista, aqui (como em toda parte) apoiada, em suas origens, por grandes contingentes populares (açulados pela grande imprensa e pelo neopentecostalismo primitivo) e por poderosos setores econômicos e militares, espalhados nas tropas e nos comandos entre oficiais superiores da reserva (os mais falantes) e da ativa.

O caráter politico-ideológico de nossos dias (inédito na vida republicana, seja pela contundência do discurso da extrema-direita, seja pelo apoio popular por ele alcançado) repete as características gerais das experiências do fascismo – cujo centro é a violência e a irracionalidade que conheceram seus extremos com o nazifascismo na primeira metade do século passado, medrando em uma Europa e uma Ásia abertas ao totalitarismo. Deu no que deu. Em face daquelas experiências, todavia, a ameaça representada pelo crescimento eleitoral do capitão traz o ineditismo de rejeitar alguns dos tópicos mais sagrados do catecismo fascista, a saber, a defesa do Estado e a pregação nacionalista, o que aumenta a surpresa com a qual é recebido o apreço que lhe dedicam as Forças Armadas que, também entre nós, sempre perfilaram o discurso de defesa dos interesses nacionais, incluindo as soberanias econômica e política.

Na segunda hipótese, pela qual lutamos, isto é, a eleição de Haddad ou Ciro, não obstante a vitória eleitoral, poderemos ou não haver assegurado a continuidade da via democrática. É o ponto de partida, essencial, conditio sine qua non para a restauração democrático-representativa, mas estaremos ainda muito distantes do ponto de chegada. Pois o novo presidente precisará ganhar – política e eleitoralmente – em condições de poder tomar posse (que estará ameaçada como estiveram as de Getúlio, de JK e de Jango), e, uma vez empossado, precisará de forças e poder governativo, o que, por exemplo, não foi dado ao Getúlio Vargas das eleições de 1950, a João Goulart (recomendo a leitura de 1964 na visão do ministro do trabalho de João Goulart, Almino Affonso) em 1961 e, mais recentemente, a Dilma Rousseff.

A ex-presidente, consabidamente, começou a cair (condenada à ingovernabilidade como passo preparatório para o impeachment) quando sagrou-se vencedora por pequena margem de votos, e teve a legitimidade de sua vitória, límpida, contestada pelo PSDB, herdeiro da tradição golpista levada ao extremo entre nós pelo lacerdismo e pela UDN. Adita-se, como igualmente uma consequência da vitória parca em votos, de que resultou a minoria parlamentar, a atuação desastrada do governo na eleição para a presidência da CD daquele ano, em que se sagrou vencedor, e poderoso, em todos os sentidos, o meliante Eduardo Cunha. Essa contestação, no caso das eleições deste ano, já foi pré-anunciada, em dobradinha, pelo comandante do Exército e ecoada pelo seu candidato. O general Villas Boas, em entrevista ao Estadão (9/9/2018) declara, sem rebuços nem meias palavras, que a “Legitimidade de novo governo pode até ser questionada”. Por quem, cara pálida? Diz o general que se o capitão não for eleito poderá dizer que sua campanha foi prejudicada pelo atentado e, por outro lado, os eventuais derrotados poderão alegar que o vitorioso foi beneficiado pelo atentado. Ou seja: a legitimidade será contestada por quem perder e, como sempre haverá um perdedor… E, em tal hipótese, a que papel se reservam as tropas comandadas hoje pelo general Villas Boas? Contestação daqui, contestação dali…

Do seu leito de hospital, o capitão candidato do general já declara que sua derrota será o atestado de uma rotunda fraude eleitoral, e anuncia, desde já, suas suspeitas relativas ao sistema fundado das urnas eletrônicas, vigente desde as eleições de 1996, e por meio do qual ele mesmo se elegeu cinco vezes, e outras vezes, em seu nepotismo eleitoral, já elegeu dois ou três filhos. Em síntese e em resumo, é não apenas fundamental interromper a caminhada do capitão, mas impor-lhe uma derrota eleitoral que, pelos seus números, ateste a consagração, pelo país, da via democrática, tão arduamente reconquistada em 1985 após 21 anos de ditadura militar, com todo o seu elenco característico de violações: supressão das liberdades, imposição da censura, cassações de mandatos eletivos, atentados terroristas, prisões, sequestros, tortura e assassinatos, ademais de corrupção larvar.

Por isso mesmo os candidatos do campo democrático precisam assumir a responsabilidade de identificar o adversário comum. Antes de mais nada, Haddad e Ciro devem evitar a autofagia que só beneficiará o inimigo de todos, o projeto fascista, e assim fugir da idiotice levada a cabo pelos marqueteiros de Dilma Rousseff que, em 2014, demonizando e desconstituindo a candidatura de Marina Silva, levaram seu eleitorado e o de Eduardo Campos para o colo de Aécio Neves, com os resultados conhecidos.

Desta feita, porém, está claro como a luz do dia que o país está sendo chamado para decidir entre democracia e fascismo, entre civilização e barbárie, e todos estamos sendo postos em face de uma definição que não comporta dúvida, tergiversações e meios termos. Não há espaço para um ‘centro’ politicamente autista, indiferente ao futuro do país: todos seremos responsáveis pelo governo que a voz das urnas ditará em outubro.

A mobilização emocional, a característica da presente campanha de Haddad, pode cativar votos, o que é vital no processo eleitoral, mas não assegura a mobilização das massas no segundo tempo inevitável, o da governabilidade. Para tal, os discursos de campanha dos candidatos do campo democrático não podem abdicar da politização, da defesa clara de teses e da exposição igualmente clara dos desafios que aguardam o futuro governo, a saber, se se tratará, como desejamos, de um governo tão forte quanto necessário para enfrentar os arreganhos das vivandeiras dos quartéis e a insaciabilidade das forças econômicas retrógradas.

O governo democrático que nascer das urnas precisará estar fortalecido, política e eleitoralmente, vale dizer, carecerá do apoio claro e manifesto das grandes massas, para adquirir condições de realizar o compromisso, a ser assumido claramente na campanha, de, garantindo o império da democracia e da Constituição (o que também significa fazer retornar certos Poderes às suas ‘caixinhas’), revogar as medidas antipopulares e antinacionais do governo ilegítimo, que vive, desde o nascimento, seus estertores.

Para isso nosso governo precisará de capacidade de negociação com as forças políticas – como logrou Juscelino, enfrentando seguidas insurreições militares e seguidas tentativas de impeachment –, mas, nas circunstâncias atuais, precisará, acima de tudo, e até para lograr a construção de uma base político-partidária, do apoio das massas, que, mobilizadas no processo eleitoral, deverão permanecer mobilizadas durante todo o governo, sustentando-o (o que Dilma Rousseff não logrou), e assegurando-lhe condições objetivas de realizar as promessas de campanha, sem o que nada terá valido a pena.

O novo governo, que necessita ser um governo forte, e somente será um governo forte se respaldado, repito mil vezes, em manifesto e sistemático apoio popular, não poderá descartar, como segurança para sua estabilidade e força para a realização de seus compromissos, a convocação e realização de consulta plebiscitária sobre seu projeto, apresentado claramente na campanha eleitoral, fortalecendo-o, assim, em face, por exemplo, de um Congresso hostil e de um Poder Judiciário extraviado dos limites constitucionais, extravasando os limites de sua competência.

O apoio popular, organizado, ativo, será a defesa e o ataque em face de uma imprensa sem compromissos éticos, e de uma ordem partidária falida, como o atestam a ascensão do candidato fascista (amparado em um partido de existência apenas jurídica, mas sustentado pelas estruturas militares espalhadas país afora) ), o desmilinguir-se do candidato tucano e a irrelevância do candidato do ex-PMDB, que já foi de Ulisses Guimarães – o estadista das ‘Diretas-já’ e da ‘Constituição cidadã’, e hoje é um valhacouto chefiado por Michel Temer, o energúmeno.

Roberto Amaral

*

A chantagem de sempre – Grita em manchete de sua página B1 o Estadão: “ Influência eleitoral. Disparada da moeda americana reflete a preocupação dos investidores com o rumo das eleições, que também levou a Bolsa a recuar 0,58% e fez os juros futuros registrarem máximas, com taxas de 10% em janeiro de 2021”.

Marielle, sempre – Quando a polícia fluminense e a força militar interventora anunciarão os nomes dos mandantes e dos executores do assassinato da vereadora Marielle Franco? Ficaremos esperando, assim de braços cruzados, até que chacina caia no esquecimento? O PSOL, pelo menos, poderia nos dizer o que está fazendo.

Estratégia petista- Aguarda-se que o PT explique as estratégias adotadas para as eleições para governador de São Paulo e Rio de Janeiro.

 

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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

Dez razões para votar em Ronaldo Lessa

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Alagoas precisa eleger um deputado federal comprometido com a democracia, com o desenvolvimento, com a inclusão social, e que defenda a soberania nacional, a indústria nacional e os trabalhadores no Congresso Nacional.

        Essas causas, Ronaldo Lessa vem defendendo. Os alagoanos devem renovar o seu mandato como deputado federal, em outubro de 2018.

        Eis as dez razões pelas quais voto em Ronaldo Lessa:

   

  1. Ronaldo Lessa, durante os dois mandatos em que governou Alagoas [1999-2003 e 2003-2006], nomeou secretários de segurança que não tinham ligação com o crime organizado, fato raro na história republicana em Alagoas.   
  2. Ronaldo Lessa decidiu, no primeiro mês como governador, que haveria de reduzir a mortalidade infantil, que era de 72 crianças nascidas por mil, para 41,1. Essa tragédia que se abatia sobre as famílias mais pobres e em condições de vulnerabilidade foi enfrentada com a mobilização dos prefeitos, secretários municipais de saúde, ONGs, igrejas e o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Ronaldo Lessa, antes de concluir os mandatos, foi premiado pela Unicef pelo trabalho extraordinário que resultou na redução da mortalidade infantil.
  3. Ronaldo Lessa reconstruiu Alagoas, destroçada durante o governo Divaldo Suruagy.
  4. Ronaldo Lessa lutou e conseguiu com que o governo federal construísse o aeroporto internacional Zumbi dos Palmares.
  5. Ronaldo Lessa construiu o Centro de Convenções Ruth Cardoso.

Essas obras sociais e físicas são importantes para Alagoas e para os alagoanos.

Como deputado federal Ronaldo Lessa tem sido um parlamentar que prioriza a agenda do desenvolvimento com inclusão social:

  1. Defesa da Petrobras como empresa nacional
  2. Defesa da indústria e da engenharia nacional
  3. Defesa dos serviços públicos e dos servidores públicos
  4. Votou contra a reforma trabalhista
  5. Votou contra a reforma da previdência social

Alagoanos, essas são as dez razões pelas quais votarei em Ronaldo Lessa (PDT), 1212, para deputado federal e o indicarei.

Para presidente, voto e indico Ciro Gomes (PDT), 12.

 

Paulinho da Viola, O PCB e as Eleições

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Em 1985, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) me designou para encontrar o cantor carioca Paulinho da Viola, que estava em Maceió, onde realizaria um show. Fui com o jornalista Rubens Jambo, na época repórter da Tribuna de Alagoas, e o psicólogo Luciano Aguiar, os três membros do partido, para entrevistar o cantor e pedir uma declaração de apoio ao candidato comunista a prefeito de Maceió, Nilson Miranda.

Antes, eu havia telefonado para o dirigente nacional do PCB Givaldo Siqueira, que me orientou a falar com Paulinho da Viola em seu nome. Fomos até o hotel na praia de Pajuçara, onde estava hospedado o cantor e os músicos que o acompanhavam, inclusive seu pai, o violonista César Faria.

A entrevista, um pingue-pongue, foi publicada com destaque na Tribuna de Alagoas; como ilustração, Paulinho da Viola vestiu a camisa do candidato do PCB, declarando sua vinculação desde a juventude com os comunistas cariocas.

Era o segundo encontro com o cantor, o primeiro havia sido num pequeno auditório do Instituto dos Arquitetos do Brasil, seção de São Paulo, em 1980, quando Paulinho da Viola, João do Vale, Noca da Portela e outros artistas iriam se apresentar na 1ª festa do jornal Voz da Unidade, mas que fora proibida pelo delegado do Dops paulista, Romeu Tuma. A festa seria realizada no Clube de Trote da Vila Guilherme, Zona Norte de São Paulo.

Passados trinta e três anos, estou novamente indo assistir a mais um show de Paulinho da Viola. Desta vez, ele apresenta Beatriz Rabelo e o Bloco do Amor.

Salve Paulinho da Viola!

Salve a Portela!

Saudações cruz-maltinas.     

 

SERVIÇO

Data: 11/08/2018 - Sábado 
Local: Teatro Gustavo Leite
Endereço: Rua Celso Piatti, s/n – Jaraguá/ Maceió
Horário do evento: 20h 
Abertura dos portões: 21h 
Classificação etária: 14 anos. Menores a partir de 12 anos podem entrar acompanhados dos pais e/ou responsáveis legais. 

Alguma coisa acontece no meu coração

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O desemprego é a face mais cruel do momento por que passa o Brasil. A cidade de São Paulo é onde a maior expressão dessa tragédia se descortina. Não me foi necessário consultar os sites do IPEA e da CAGED para pesquisar os indicadores econômicos. Caminhei durante sete dias pelas ruas da cidade. Iniciei o passeio na praça da Sé; ao sair do metrô me deparei com uma multidão de homens, mulheres, crianças e adolescentes pedindo qualquer coisa ‒  dinheiro, comida, agasalho ‒, deitados pelo chão da praça, sentados e tomando sol na escadaria da suntuosa Catedral.

Esses seres humanos estão vagando sem perspectiva de vida, estão abandonados e possivelmente não terão chances, pelo menos a maioria, de sair da condição de pedintes, desempregados e abandonados. É uma tragédia humanitária, com milhares de trabalhadores que não tiveram condições de pagar o aluguel e sobreviver minimamente com dignidade, trabalhando no emprego formal ou no subemprego. Vivem nas ruas.

Os laços de família vão sendo rompidos. As ruas, praças, viadutos e pontes são os seus endereços, as novas moradias. Não têm código de endereçamento postal (CEP) nem são encontrados pelos familiares que desejem resgatá-los. Estão vivendo da caridade de setores religiosos que têm se dedicado a minorar as agruras da população de rua e que os defendem. O Estado (prefeitura e governo estadual) oferece a repressão, o confisco dos seus cobertores que os protegem das noites geladas de São Paulo. Essa é a política pública.     

    

       Caminhei pelas ruas do Centro, Luz, Bom Retiro, Liberdade, Santa Cecilia, Barra Funda , Pompeia, Vila Buarque, Parque Dom Pedro e a avenida Paulista. Em todos esses lugares me deparei com pessoas vivendo nas ruas. Conheço São Paulo desde 1980 e não me recordo de tamanha tragédia.   

No Largo do Paissandu os sobreviventes do incêndio e do desmoronamento do prédio da antiga sede da Polícia Federal moram em barracas de lona sob o frio intenso. São homens, mulheres, crianças e adolescentes sem perspectiva de encontrar um teto para morar, pelo menos protegidos das intempéries da natureza. Resistirão até quando?

A paisagem atual de São Paulo é da miséria e do desassossego. Mais uma vez a poesia de Caetano Veloso, em Sampa, simboliza a vida cotidiana “do povo oprimido nas filas/ nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue / e destrói coisas belas /
Da feia fumaça que sobe, / apagando as estrelas”.

A alternativa não pode ser o conformismo, o caminho que teremos de caminhar é o da luta contra a miséria, contra o capitalismo, pelo emprego e por dignidade, pela inclusão social. Antes que o buraco cresça ainda mais e drague todos nós.  

Literatura-ostentação

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Homero Fonseca

Entraram no apartamento. Ele dirigiu-se ao bar, enquanto ela passava em revista a sala, detendo-se atenta num quadro de John Jaspers. Ele põe no som uma ópera de Gluck, abre uma garrafa de Châteux Pétrus 2004 e…

Inventei esse trechinho de um conto ou romance aí de cima para exemplificar o que chamo de literatura-ostentação. A toda hora me deparo com coisas assim na ficção. E me pergunto:

– O que estão fazendo aí o quadro do pintor pouco conhecido, a ópera do compositor idem e a marca e o ano do vinho caro?

– São informações essenciais ao leitor?

– Podem ser suprimidos sem nenhum prejuízo à narrativa?

Se a resposta às perguntas for: não estão fazendo nada, não são essenciais e podem ser suprimidas, devemos acrescentar mais uma pergunta:

– O que querem aquelas informações transmitir ao leitor?

Possivelmente pretendem dizer de uma forma bem clara o nível de sofisticação do personagem. Resta então uma última pergunta:

– O fato de se tratar de um personagem sofisticado é relevante para a história? (Isto é, obriga-o a agir de uma forma e não de outra, a pensar de um modo e não de outro, de maneira a determinar os fatos narrados?)

Aí, nós, leitores, temos de concluir a leitura da peça (conto ou romance) para avaliar isso. Se novamente a conclusão clara for de que podemos riscar o trecho sem qualquer consequência para o texto, então estamos diante de um caso de literatura-ostentação. É quando o escritor envia sinais de fumaça para os muito cultos e sofisticados. Uma senha para dizer que ele, o autor, pertence — e tem orgulho de pertencer — àquela tribo. E quando o camarada desanda a citar escritores consagrados, dana-se tudo.

Ora, poupem-nos, a nós leitores, dessas demonstrações tão pouco sutis. Escritor vezeiro em exibir seu capital cultural parece novo rico arrotando suas grifes. A diferença é de nomenclatura. Em lugar de Armani, Ferrari e Mont Blanc: Barthes, Chklovsky, Derrida.

Tal como existe o funk-ostentação, há quem cultive a literatura-ostentação.

 

(*) Homero Fonseca é jornalista, blogueiro e escritor. Foi editor da revista Continente (2000–2008). Autor do romance "Roliúde" (Record, 2007), entre outros livros.

 

 

Audálio Dantas agora é rio

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Ontem (26/6) cruzei a ponte sobre o rio São Miguel, em Tanque d’Arca, a caminho de Palmeira dos Índios. Todas as vezes que passo nessa localidade, a lembrança de Audálio é imediata. Tanque d’Arca, para mim, associa-se ao nome do jornalista e escritor Audálio Dantas.

O rio São Miguel tem a sua nascente no município de Mar Vermelho. Há cerca de dois anos estive no olho-d’água que forma o rio e que desce a serra em direção a Tanque d’Arca, cortando os municípios de Marimbondo e Anadia, antiga sede municipal de onde foram desmembrados esses municípios em 1961.

O São Miguel hoje é um rio com pouca vazão; enchente mesmo só no período das chuvas, que tem início em junho. O rio corre em direção ao mar, mas antes forma o delta com a lagoa do Roteiro, em Barra de São Miguel, e se encontram com o oceano Atlântico.

“Seo” Audálio agora é rio, como disse Juliana Kunc. E para mim, todas as vezes que voltar a cruzar o rio São Miguel lembrarei que em suas águas corre o destemido Audálio Dantas em direção ao Atlântico.

Segue as águas do rio São Miguel e vira peixe, e como peixe se multiplicará em nome da liberdade.  

Cardiologista José Wanderley lança carta pública

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Prezados Amigos,
De ante mão, agradeço a cada um as palavras e gestos de carinho e apoio espontâneos que venho recebendo nesse momento.
Gostaria de esclarecer e reafirmar alguns pontos escritos na minha carta, para que não ocorram interpretações equivocadas ou mesmo desvirtuado o sentido e sentimentos ali impressos:
1- Contínuo Médico Cirurgião da Santa Casa, porém com limitações de atuação, onde na verdade consigo, por uma logística/administrativa, operar um(01) no máximo dois(02) pacientes por semana, isso quando não recebo a informação de que a cirurgia programada não poderá ocorrer.
Ainda permaneço, não por vontade da gestão, mas por compromisso ao juramento médico que fiz a mais de 40 anos, amor ao que faço e respeito aos pacientes e seus familiares que me procuram, os quais busco ajudar com as limitações que me foram impostas;
2- Como exposto na Carta, estamos apontando o fechamento do Instituto de Doenças do Coração (IDC) e não o fechamento da Cardiologia, que agora possui um novo nome e novas equipes;
3- O instituto de doenças do coração é um bem imaterial, uma concepção que une Assistência ao paciente, Educação e Formação Profissional, Ciência / Pesquisa Científica, não sequer é uma pessoa jurídica,
Como um gremio literário e científico serve para educação continuada
Formação de cardiologistas e cirurgiões, iniciação científica para estudantes de medicina.
Com essa marca foram produzidos centenas de trabalhos científicos apresentados em congressos nacionais e internacionais que colocaram Alagoas no mapa científico brasileiro.
4- A equipe do IDC, tinha por missão o atendimento a todo e qualquer paciente seja ele privado (planos de saúde) ou usuários do SUS, e sempre tive como filosofia de vida atender a todos sem nenhuma distinção social, mas um olhar atencioso aos  problemas sociais dos pacientes mais necessitados; 
5- A atual gestão da Santa casa fechou o IDC, tomou os espaços de atuação clínica, limitou nossa atuação na prática a um dia por semana e ainda incentivou os cirurgiões a formarem “equipes”, 
agora são quatro 
E criou uma nova marca 
Inicialmente “nova cardiologia” e depois santa casa cardiovascular.
Os demais pontos e problemas estruturais estão descritos nas cartas e anexos, enviados desde 2014.
Um fraterno e caloroso abraço de agradecimento à causa.
Dr. José Wanderley Neto

Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência

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A esquerda apresenta quatro pré-candidatos a presidente da República: Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSol) e Manuela D’Ávila (PCdoB). A ex-senadora petista Marina Silva (Rede) e o ex-deputado comunista Aldo Rebelo (SD) são candidatos com indiscutível militância na esquerda, mas que não estão no espectro de alianças desse núcleo de esquerda.

       A turbulência em torno da prisão de Lula criou entre os partidos de esquerda a competição para saber – no caso da impossibilidade de Lula ter a candidatura registrada, pois já foi posta nas ruas e nas redes sociais – em torno de que nome e qual o projeto que seria defendido. Não há consenso e muito provavelmente, sem a interferência de Lula, se chegue a um nome que possa unificar pelo menos três dos quatro partidos de esquerda com mais alguns de centro-direita ou centro-esquerda.

Esse é o cenário nacional ainda indefinido, e possivelmente só será definido a partir do dia 15 de agosto, data final para o registro das candidaturas e reta final da campanha eleitoral.

Em Alagoas o cenário é mais complexo para a esquerda ‒ e aqui vou denominar com o espírito mais amplo possível de espectro da esquerda.

Aliados de Renan Calheiros e Renan Filho são o PT, o PDT e o PCdoB, no plano nacional. São três candidatos a presidente no palanque do MDB local

O PSol e o PCB formam uma aliança de esquerda sem aliados e terão candidatos a governador e às duas vagas para o Senado. O PSol, historicamente, vem disputando eleições desde 2006, quando lançou o nome de Ricardo Barbosa como candidato a governador e obteve 51.680 votos, o equivalente a 3,94%.

Nas eleições de 2008 lançou Mário Agra candidato a prefeito de Maceió, que recebeu 5.906 votos, 1,5% dos eleitores. Em 2010, Mário Agra candidatou-se a governador e obteve 18.520 votos, ou seja, 1,3%.  Nas eleições seguintes, em 2012, para prefeito de Maceió foi lançado Alexandre Fleming, que alcançou uma marca extraordinária: 20.561 votos e 5,13% do eleitorado.

O PSol em 2014 novamente lançou Mário Agra como candidato a governador e recebeu 60.816 votos, alcançando a marca de 4,73%. Essa é a melhor performance de um candidato a governador do PSol. Na última eleição, em 2016, Gustavo Pessoa obteve 12.924 votos, o que equivaleu a 3,07%.

A postura tática ziguezagueante da esquerda em Alagoas na última década lhe rendeu em larga medida derrotas e a baixa densidade eleitoral. Não me refiro especificamente ao PSol, mas ao conjunto dos partidos de esquerda.

A esquerda se põe a pensar projetos gerais e globais com enorme disposição e empolgação; é necessário pensar também nesses projetos, mas a disputa no mundo real ocorre nos bairros, nas cidades e nos estados. E para se credenciar na disputa pelo voto, que é quem leva ao Poder, o importante é conhecer, estudar e dialogar com a população e com técnicos. O projeto de governo não pode ser uma peça de marketing ou uma campanha publicitaria no horário eleitoral.

O PSol não conseguiu até hoje se afirmar como uma opção à esquerda de grande parte da militância existente em Alagoas, sem intelectuais, lideranças sociais, com reduzida militância etc. As explicações podem ser dadas, mas não é o caso agora.

A candidatura de Basile Georges Cristopoulos a governador pode ocupar parte desse espaço desde que tenha um discurso que inclua Alagoas. Os problemas crônicos do estado já foram identificados, mas falta quem transforme números em propostas políticas, convença as camadas médias da população e dialogue com a juventude. Quem tem propostas políticas convincentes pode superar as dificuldades materiais. O eleitor tradicional de esquerda e democrata poderá entender que uma candidatura como a de Basile é uma opção no momento para demarcar um determinado campo no cenário eleitoral e político em Alagoas.

Dito isso, para alguns pode parecer uma miragem, mas não se reconstrói o campo de esquerda sem programa, diálogo e muita luta. O desafio foi lançado, o jogo é para ser jogado. Como disse o treinador de futebol e grande frasista Gentil Cardoso: “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Sendo um dos fundamentos do futebol na política, pode também ser utilizado. O jogo já começou, e a bola corre com o tempo.   

             

Fala sério: hoje, quem é oposição em Alagoas?

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Nunca foi tão fácil administrar as alianças eleitorais em Alagoas como estão fazendo Renan Calheiros e Renan Filho. Quadro parecido com o de 1994, quando Suruagy foi eleito governador com 79,39% dos votos.

        A oposição naquela ocasião foi de três candidaturas: a de Pedro Vieira (PP), Marcos Vieira (PSB) e Ângela Canuto (PDT). Eram candidaturas lançadas para marcar presença no cenário politico, sem chances de vitória diante da máquina política, eleitoral e econômica agrupada em torno de Suruagy – naquele momento, estava filiado ao PMDB de Renan e aliado ao PSDB de Téo Vilela.

        A união perfeita: dinheiro, tempo de televisão, os grandes partidos e os principais candidatos majoritários, além do apoio nas cidades de 100% dos prefeitos. Imbatíveis. As urnas provaram elegendo Suruagy governador, Téo Vilela e Renan Calheiros senadores.

        Fala sério: hoje, quem é a oposição ao governador Renan Filho? Não existe. O fato de não haver oposição competitiva é negativo, pois a disputa eleitoral fica menor e a unanimidade não é a melhor conselheira.

        A consolidação de um campo político majoritário e hegemônico onde o projeto é a disputa eleitoral como um fim em si é o que de pior poderá acontecer em Alagoas.

        A oposição não apresenta projeto, e parece não representar um projeto que possa se traduzir em perspectiva de mudança na qual o desenvolvimento de Alagoas seja minimamente rascunhado.

        A eleição para governador, tudo indica que se dará por aclamação ou WO.

        As duas vagas para o Senado serão disputadas. Os senadores Renan Calheiros e Benedito de Lira vão lutar pela reeleição; as candidaturas de Maurício Quintela, Max Beltrão e Rodrigo Cunha estão lançadas. Há outras candidaturas, mas essas são as com maiores chances.

        O fato novo é a candidatura de Rodrigo Cunha, que ameaça concretamente ganhar uma das vagas. É o único candidato que tem discurso livre das amarras tradicionais. É o único que se comunica com a juventude e com o eleitor mais urbano.

Duas perguntas singelas: quem representa a oposição? E se ela existir efetivamente, qual será o seu discurso para ganhar as eleições? Não se sabe, ainda.

A oposição foi desmanchada com um golpe de mestre, um xeque-mate aplicado pelo ex-governador Téo Vilela ao anunciar que não seria candidato em 2018 e o prefeito Rui Palmeira por consequência desistiu.

Políticos tão experientes não tinham plano B.

O senador Fernando Collor, com quem fará aliança em Alagoas?

Essa pergunta ainda não tem resposta, pelo menos pública.

 

Carta para Lula

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Quando um muro separa, uma ponte une

Lula, companheiro, eu sou alagoano, moro em Maceió, e como milhões de brasileiros estou ao seu lado. Não sou filiado ao Partido dos Trabalhadores e nunca fui, nem precisaria ser filiado ao PT para ficar indignado com injustiça.

Lula, companheiro, a minha filiação é com causas sociais, com a democracia e com o Estado democrático de direito.

Lula, companheiro, o massacre a que você vem sendo submetido ‒ a história registra ‒, fizeram com Luís Carlos Prestes. Calúnia, vilania, prisão, todo tipo de torpeza. Mas não conseguiram dobrar o velho Cavaleiro da Esperança.

        Lula, companheiro, os seus sonhos, muitos deles transformados em realidade, são os sonhos do povo. Imagine o trabalhador (a trabalhadora) sonhar com casa própria, comida, emprego com carteira assinada, redes de proteção social para os mais vulneráveis, universidades públicas, escolas técnicas federais, redução da pobreza como nunca houve na história do Brasil.

Lula, companheiro, não voltaremos a ser colônia dos EUA. Esse foi um dos crimes imputados a você. O Brasil que passou a olhar para os países da África, da América Latina como nossos irmãos. Essa mudança de rota afrontou o Tio Sam e seus adoradores.  

        Lula, companheiro, a ideia de romper com o ciclo perverso da miséria afrontou a elite nacional e a elite financeiro-rentista internacional. A reação dos conglomerados de comunicação que a tudo manipula não tardou. Uniram-se contra as conquistas sociais, associados com parcela do Judiciário midiático. O golpe parlamentar-midiático-judicial foi posto em andamento.

        Lula, companheiro, a matéria-prima para combater essas ideias: a elite requentou o ódio como combustível político e dividiu o Brasil. A união das esquerdas e dos democratas será o instrumento para vencer o ódio, o preconceito e os crimes contra a pátria.    

Lula, companheiro, estaremos mais ainda nas ruas, nos auditórios, no campo, nos seis continentes, porque há um Lula em cada um de nós.  

        Lula, companheiro, lembrei-me da canção “Pesadelo” de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro: “quando um muro separa, uma ponte une,/ se a vingança encara, o remorso pune. [...] E se a força é tua,/ ela um dia é nossa,/
olha o muro, olha a ponte,/ olhe o dia de ontem chegando,/
que medo você tem de nós, olha aí.”
 

        Lula, companheiro, receba um abraço afetuoso do

                            Geraldo de Majella

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