Geraldo de Majella

A tortura é uma velha conhecida nas delegacias

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

A tortura contra os presos em períodos de normalidade democrática no Brasil é uma prática institucionalizada. Nas ditaduras a que o país foi submetido no século XX ‒ o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) e a Ditadura Militar (1964-1985) ‒, indistintamente os presos comuns e os presos políticos foram torturados, assassinados, e centenas “desapareceram” para nunca mais ser encontrados.

         Esse terror infame nunca deixou de rondar as delegacias de polícia em Alagoas. É sempre bom rememorar os defensores dos direitos humanos ‒ e aqui o advogado e então deputado José Costa é e será sempre lembrado como um destemido defensor dos cidadãos que não têm voz, dos que não têm corporação empresarial e de tão pobres não dispõem de condições financeiras para contratar um advogado para defendê-los da sanha brutal dos agentes do Estado.

         Aqui no “Cada Minuto” o colega Célio Gomes passou a questionar o comportamento das autoridades, tanto as responsáveis pela segurança pública, inclusive e principalmente o governador Renan Filho, como o Ministério Público, chamando-os à responsabilidade. Com o dedo em riste cobrou da OAB o motivo de ela ainda não ter se pronunciado sobre o terrível caso.

Esta senhora, Darcinéia Almeida, conta agora com a proteção de Deus, que não vai lhe faltar; mas no mundo terreno e cão, não basta acreditar em Deus. A sociedade civil e a OAB têm um papel essencial. A Defensoria Pública é a instituição do Estado que abraçou a causa. Faltam, porém, os partidos políticos progressistas, de esquerda, os movimentos sociais e as igrejas.  

Os que conhecem os meandros policiais e do Estado sabem que o tempo é contado a favor dos agentes do Estado, e aqui não estou prejulgando, mas relembrando dois casos: o jovem Davi Silva, desaparecido, e o ex-líder estudantil Nô Pedrosa, assassinado sem esclarecimento.

Célio Gomes, repórter experiente que é, diz: “Não conheço a trajetória acadêmica de Fábio Costa. Suponho que ele não tenha formação em medicina. Mas, mesmo assim, o doutor não vê nada de errado em especular sobre a saúde mental de uma mulher que acaba de perder um filho. ‘Não temos um laudo’, ele admite. Então por que chutar informação sobre algo tão delicado? É um caso clássico de tentativa de desqualificar a denúncia”.

 

DIRCEU LINDOSO, O POLÍGRAFO CABANO

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Dirceu Lindoso e Hermann Baeta, no Rio de Janeiro, em 1981, lançamento do livro Póvoa-Mundo. 

 

 

Geraldo de Majella (*)

 

 

A trajetória intelectual de Dirceu Accioly Lindoso é multifacetada e em certa medida foge ao natural caminho acadêmico stricto sensu, ambiente de formação e projeção de quase todos os intelectuais de sua geração em diante. A ambiência intelectual que impulsionou o jovem de então, Dirceu Lindoso, foi a árdua trabalheira na imprensa comunista das Alagoas. A redação da A Voz do Povo, semanário de propriedade do extinto Partido Comunista Brasileiro (PCB) – fundado em 1946 e destruído pelos militares golpistas  em 1º de abril de 1964 –, descortinou um novo cenário, o da luta social e do marxismo.  

Se iniciou cedo nos trabalhos jornalísticos, como ele mesmo costuma dizer; e fez dessa atividade um ponto de difusão da sua produção intelectual, ainda, muito jovem. Hoje podemos afirmar que Dirceu Lindoso pertence a uma tradição de intelectuais que tiveram no jornalismo de esquerda e operário o caminho primeiro de uma virtuosa carreira intelectual, como percebemos ter também acontecido com Octavio Brandão, Alberto Passos Guimarães, Jayme Miranda, Aylton Quintiliano, Bercelino Maia e André Papini Góes.

A primeira contribuição com a imprensa veio em forma de artigo publicado no Diário de Pernambuco, que teve como tema a obra de Josué de Castro que viera a Maceió a convite dos estudantes da Faculdade de Direito falar sobre o problema da Fome.

Trabalhou no jornal carioca O Globo, quando residia na cidade do Rio de Janeiro, tempo após sair da prisão política ocorrida em Maceió, encarceramento que durou de abril a novembro de 1964. Manteve a distancia permanente contribuição nos jornais de Maceió, enviando artigos para A Tribuna de Alagoas, O Jornal, Gazeta de Alagoas e Extra. Em Petrópolis, publicou trabalhos no Correio Petropolitano e Tribuna de Petrópolis.

Esse incansável intelectual jamais deixou de influir e contribuir com qualquer espécie de publicação, mas foram, talvez, as publicações do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – de circulação nacional, como o jornal do Comitê Central Voz da Unidade – onde colaborou semanalmente por quase uma década de maneira ininterrupta –, e as revistas Problema da Paz e dos Socialismo e Novos Rumos, essa última publicação do Instituto Astrojildo Pereira.      

]  Dirceu Lindoso e Aurélio Buarque de Holanda, em 1981, no Rio de Janeiro. 

        

 

Advogado, por formação, com pouca atuação nessa área, apenas, defendeu em episódios esporádicos trabalhadoras rurais do município de Pilar, em Alagoas, no início da década de 1960. Na condição de advogado foi designado pela direção regional do PCB para defender os índios Wassú Cocau que – à época, início de 1960 –, continuavam lutando pela demarcação das suas terras no município de Joaquim Gomes e jovens estudantes vinculados ao PCB que apoiavam a luta indígena haviam sido detidos pela polícia local, em socorro, lá esteve o advogado Dirceu Lindoso. Foram essas, e talvez alguma outra atuação esparsa, as suas atividades concretas como causídico.

         Toda a sua energia e argúcia vem sendo empregada na pesquisa etnológica, histórica, na tradução de clássicos do marxismo, a exemplo dos filósofos francês Louis Althusser e do húngaro Gyorgy Lukács, do economista francês Charles Bettelheim, do psicanalista suíço Jean Piaget e filósofo e economista alemão Karl Marx, entre outros.

         Dirceu Lindoso tem se dedicado a pesquisar e revelar inovadoramente temas fundamentais da História de Alagoas, mas que a historiografia oficial insistiu em esconder e quando tratou, invariavelmente o fez com o viés do preconceito, colocando-o na categoria dos marginais, na vã tentativa de que esses episódios fossem esquecidos para sempre. Evidente que isso não ocorreu os cabanos foram redescobertos, inicialmente por Manoel Correia de Andrade em A Guerra dos Cabanos em terras Pernambucanas, em 1965, quando é publicado o seu livro.

         A Guerra dos Cabanos (1832-1850) importante acontecimento da história de Alagoas, descoberto, ainda na juventude, passou a ser o tema principal e pelo qual a vasta obra do historiador, etnólogo, ensaísta, romancista e poeta gira centralmente. O povo cabano é objeto de estudo e uma verdadeira paixão para o polígrafo e passa a ocupar papel essencial nos estudos históricos de A Utopia Armada, seu principal livro, publicado em 1983. Antes, a escrita e a fala cabana havia ganho destaque através dos romance Póvoa-Mundo de 1982.

A trajetória na pesquisa antropológica tem sido cada vez mais significativa e diversificada, são inúmeros textos publicados em vários momentos e veículos, como os Anais da Biblioteca Nacional e a Revista Eclesiástica Brasileira que deram guarida aos textos: Na Aldeia de Ia-ti-lhá: Etnografia dos Índios Tapuia do Nordeste, republicado agora na Coleção Índios do Nordeste: Temas e Problemas, vol. VII (Almeida, Luiz Sávio; Silva, Christiano Barros Marinho et alii Orgs.); o Cônego e a Catequese Indígena; e O Andarilho e a Mãe-de-Santo: O Negro na Obra de Arthur Ramos.

         Moreno Brandão em sua História de Alagoas se refere ao comandante cabano, Vicente de Paula como: “um desses tipos truculentos e ferozes, que os sertões mal policiados do Brasil criam e desenvolvem na atmosfera da proteção criminosa que dispensam as autoridades coniventes com o seu banditismo e o povo inculto, amigo de todas as manifestações violentas da força, prestigia, propagando a fama de suas bravuras por largas extensões regionais do país”. O discurso anticabano tem um forte conteúdo ideológico elaborado pelos historiadores da classe dominante que imputaram aos papa-meis que são os índios aldeados, lavradores e moradores pobres e escravos oriundos do sul de Pernambuco e norte das Alagoas. Todo o esforço teórico desenvolvido por Lindoso é realizado no sentido de que o discurso ideológico confeccionado pela classe dominante e seus historiadores que criminalizam a luta desse povo e por muitos anos passou a ser visto pela História Oficial – dominante até então –, como um acontecimento secundário de nossa História.

         Em companhia de Manoel Correia de Andrade, Décio Freitas e Luiz Sávio de Almeida, Dirceu Lindoso deu a mais importante contribuição sobre a Guerra dos Cabanos, luta onde ricos senhores proprietários de engenhos de açúcar, restauradores e absolutistas convocaram os pobres da terra situada ao sul de Pernambuco e ao norte de Alagoas, a época já independente, para de armas nas mãos, trazer de volta ao trono imperial D. Pedro I. Os convocados eram índios, negros escravos, moradores e lavradores, a gente cabana.

Dirceu Lindoso é o responsável, em terra alagoanas, pela “redescoberta” do povo cabano e sua colocação na história de Alagoas, desta vez, na condição de acontecimento histórico significativo e digno para todos nós, livre de quaisquer tipo de preconceitos. Esse entre muitos outros tem sido o mérito fundamental nos estudos e nas pesquisas realizadas pelo historiador marxista nascido diante do lagamar do Gamela na sua Maragogy, antiga pars borealis de Alagoas, teatro que foi de guerra dos índios, negros, brancos pobres que formaram o povo cabano de quem tanto Dirceu se orgulha dele descender.   

Dirceu Lindoso, Marcos de Farias Costa, Jorge Cooper, Estela Cooper e Luiza Helena Wittman, em Maceió.

 

O Poder Quilombola – a comunidade Mocambeira e a Organização Social Quilombola, é mais uma obra escrita pelo autor de A Utopia Armada. Sentido a falta de textos produzidos por historiadores alagoanos, numa tarde de janeiro de calor abrasador lhe pedi, depois de ouvir do próprio Dirceu que tinha a intenção de escrever um livro sobre Palmares e seus quilombolas. Poucos meses após conversarmos é possível entregar ao Brasil esse texto em mais um 20 de novembro data comemorativa da consciência negro em nosso país.           

         Índios, negros e populações excluídas foram e continuam a ser o tema central da vasta obra desse importante intelectual das Alagoas. Dirceu Lindoso não só é um irrequieto intelectual, contraditoriamente ao seu temperamento calmo e sereno, mas, inegavelmente o mais importante historiador dos últimos cinqüenta anos em nossa terra. E de quem os outros historiadores seus contemporâneos, devem se mirar.

         Axé.   

(*) Historiador

 

  

Dirceu Lindoso faleceu hoje, em homenagem ao grande intelectual alagoano publico o prefácio que escrevi para o seu livro Poder Quilombola.

Salve, Dirceu Lindoso.

     

        

 

        

                 

 

A grandiosidade do escultor Manoel da Marinheira

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

O empresário Jorge Tenório tem entre outros méritos o de ter sido o mecenas do escultor Manoel Cavalcanti de Almeida, o Manoel da Marinheira. Tenório iniciou a coleção de obras do escultor ainda na década de 70 do século XX, em Boca da Mata, cidade da Zona da Mata alagoana.

Hoje essa coleção conta com 1.540 peças, sendo mais de 800 produzidas por Manoel da Marinheira, e o restante pelos seus seguidores e discípulos, os seus filhos e filhas, entre eles três filhas surdas-mudas.       

           O Museu Manoel da Marinheira, fundado em 2003, funciona na fazenda Bento Moreira, em Boca da Mata, nas instalações improvisadas de um antigo grupo escolar desativado. As obras estão expostas em dez salas. A coleção é extraordinariamente bela e grande, e é certamente única no Brasil.

       As obras estão bem conservadas, porém armazenadas em condições inadequadas para constituírem um museu. Faltam condições básicas, como a identificação das peças, a época em que foram produzidas, a apresentação de cada obra e as necessárias técnicas da museologia.

       O acervo é monumental e único no Brasil, e possivelmente no mundo. É um espaço de cultura, educação e lazer para as crianças, os jovens e os adultos. Outro detalhe: avançou empresarialmente, mas ainda é subaproveitado.  

       O Museu Manoel da Marinheira, desde que redefinido no espaço em que está localizado, é o nosso Inhotim alagoano.

       O espaço de lazer, de preservação ambiental e de cultura que o Parque Águas de São Bento criou é bonito, grande e agradável, mas o carro-chefe não é o balneário apenas, senão o monumental acervo do Museu Manoel da Marinheira.

       Estive visitando o museu duas vezes num intervalo de nove ano. A primeira vez, na companhia da historiadora Janaina Amado e do jornalista Luiz Carlos Figueiredo, do poeta Sidney Wanderley e da escritora Paloma Amado; a segunda, no último dia 12 de outubro, quando renovei a alegria de visitar um lugar com tanta beleza natural e um acervo que não para de crescer.

       A nota triste é que o Manoel da Marinheira faleceu em 2012, aos 101 anos, deixando uma prole tão grande quanto a obra que o imortalizou.  

O mecenato do empresário Jorge Tenório é um exemplo a ser seguido em Alagoas. 

    

 

O impeachment tinha como resultado morte a democracia no Brasil

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

           O golpe articulado em 2016 teve nas pedaladas fiscais o álibi com o resultado decorrente de bloquear a democracia com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A articulação dos golpistas teve duas conexões: a externa com os EUA, à frente, e a interna, com a grande mídia, os rentistas, o empresariado, os parlamentares e o vice-presidente Michel Temer.

            O golpe levou o Brasil para a extrema direita, o pior dos mundos. A democracia tem sido, a cada dia, torpedeada pela Lava Jato e pelo autoritarismo do Bolsonaro. E ainda em muitas decisões da Suprema Corte, que se nega em muitos casos a fazer justiça.

            A oposição, sem conseguir manter linhas de coesão entre os partidos de esquerda e centro-esquerda, anda ruminando o resultado eleitoral. Mas todos em campanha rumo a 2020.

            A oposição resiste no Congresso Nacional e nas ruas com os movimentos sociais protestando contra o desmonte do Estado brasileiro.

            A mobilização nas ruas tem elevado a temperatura e transmitido energia positiva para o parlamento nacional, mesmo em torno de lutas pontuais como a reforma da previdência e os cortes da educação.

       Essas duas frentes de lutas sinalizaram que é possível derrotar o governo no terreno onde ele se dizia majoritário: o Congresso Nacional.

            As vitórias em determinados momentos históricos nunca são gerais, mas pontuais e cumulativas, e se desenrolam no campo de batalha numa “guerra de guerrilha”. Dessa tática, a esquerda e o campo democrático têm experiências acumuladas.

            A Lava Jato, espinha dorsal da extrema direita nacional e internacional, seção brasileira, está fraturada. O inimigo encontra-se em franco recuo, mas ainda não foi derrotado. A derrota virá não como uma premonição divina, mas com a mobilização social, a atuação nos parlamentos e pelas revelações do The Intercept.

            Teremos muitas lutas pela frente. A defesa das grandes empresas e dos bancos estatais, das universidades e dos institutos federais, e da Embrapa não deve sair da pauta dos democratas, da esquerda e dos nacionalistas.

               O impeachment tinha como resultado morte a democracia no Brasil. A democracia agoniza, mas não morre, como diz o samba do Nelson Sargento.  

 

A guerra de guerrilha de Glenn Gleenwald

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

E agora, o que fazer? Diante das revelações que o site The Intercept Brasil vem publicando e o mundo lê estarrecido, o ex-juiz e ministro Sérgio Moro e o coordenador da Lava-Jato de Curitiba, Deltan Dallagnol, estão a dever explicações ao Brasil.

         Vestir a camisa rubro-negra do Flamengo não atenua o problema, nem ser amparado por Bolsonaro é uma companhia que lhe conforte.

         Moro, Dallagnol e os demais procuradores, agora, tomam conhecimento de que há uma opinião pública nacional e outra internacional.

         O controle dos meios de informação é relativo no Brasil, quando se vive a era da internet. Foi um site de notícias, ou melhor, investigativo, quem acertou o petardo frontal na Lava-Jato. Até o momento mutilou a operação e seus membros, e o pior, anuncia The Intercept, está por vir.

         A “guerra de guerrilha” iniciada por Glenn Greenwald tem colocado a grande mídia, o Ministério Público e parcela do Supremo Tribunal Federal na defensiva.

         O teatro onde se desenrola a “guerra de guerrilha” está sob o domínio absoluto de The Intercept. A infantaria ataca sem medo, com tanques e minas terrestres que estão explodindo no colo das celebridades instantâneas do Judiciário e do Ministério Público Federal.

         O jornalismo sério mudará o rumo da história do Brasil. Assim como a manipulação dos fatos, a violação da ordem constitucional e os pré-julgamentos online guindaram essas celebridades, ora em estado de putrefação moral, a chegar ao topo do ranking dos programas de reality show no Brasil e nos EUA.

Em tempo de celebridades instantâneas, é alvissareiro dizer que a casa caiu.

A estratégia brilhante de Glenn Greenwald

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

(*) Renato Janine Ribeiro

1. Assumiu o protagonismo do jogo. Seus alvos estão fazendo exatamente o que ele quis ou previu. Ele controla o tabuleiro. Pela primeira vez desde 2015, a extrema-direita perdeu a iniciativa.

2. Os procuradores e Moro responderam a ele justamente o que ele queria: confirmaram a autenticidade das fitas. Foram debater a forma, não o conteúdo. Assim disseram: você, Glenn, diz a verdade.

3. Ele previu até o argumento que iam usar: a defesa da lei e da privacidade. E respondeu a isso domingo, antes mesmo da reação do grupo: vcs não fizeram isso com Dilma? Que moral têm? Assim, tirou deles o argumento moral, que era o principal da LavaJato e que esta conduziu para a ideia de que os fins justificam os meios.

4. Enquadrou a mídia pátria. A imprensa internacional caiu matando. A Folha de hoje tem um relato bom das reações no estrangeiro. E os jornais de fora que li chamam todos nosso governo de exceção de “extrema-direita”. Nenhum usa o eufemismo “direita” (direita é Merkel, cara-pálida!) ou “liberal” (liberal é o Economist, stupid!). Vai ser difícil passar pano por muito tempo.

5. Ao dizer que não divulgaria as intimidades dos membros do grupo , mostrou-se superior a eles (que publicaram conversas privadas de dona Mariza - sem falar na subtração do iPad do pequeno, hoje falecido, Artur) - e deve ter causado medo de que divulgue. Acuou-os.

6. Finalmente, anunciou que soltará mais dados a conta-gotas. Tornou-se senhor do tempo ou, se quiserem, é quem decide quais serão as próximas etapas, o desdobramento do assunto (até porque ninguém sabe o que ele sabe).” 
(*) é filosofo e ex-ministro da educação.

 

A UFAL resiste ao autoritarismo

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

     

Ontem (7 de junho), dezenas de graduandos colaram grau no auditório da Reitoria da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Entre eles e elas, estava Isabela, minha filha, a receber o diploma de arquiteta.

      As famílias e os amigos lotaram o auditório, num momento emocionante, principalmente para muitos dos graduando(a)s que eram o primeiro membro da família a estudar numa universidade, com um detalhe a mais: numa universidade pública.

         No auditório, a maioria, assim como na sociedade, era composta de graduandos e familiares pretos e pardos ‒ um sinal evidente de transformação da universidade pública. A invisibilidade do povo nos últimos vinte anos tem sido superada; falta ainda muito chão para caminhar.

         O trabalhador e a trabalhadora que presenciaram o filho ou filha a se graduar têm motivo para ficar orgulhosos, sabendo que esse dia é um marco na vida de sua família.  

         Bolsonaro escolheu um alvo: a educação. Destruir a educação pública é a meta por ele estabelecida. Nunca foi tão atual a palavra resistir.

Resistir no Brasil, hoje, é um ato patriótico. Os professores, funcionários e estudantes têm resistido à sanha do governo federal e de seus aliados em tentar destruir a educação pública. Esse é o projeto do Bolsonaro, Paulo Guedes e Abraham Weintraub, em comum acordo com os empresários da educação privada.  

Os professores têm sido atacados de maneira sórdida pelo presidente da República e pelo ministro da Educação. Nunca os professores foram expostos como nos dias atuais em redes de televisão. Nunca o direito de cátedra foi atacado na história brasileira. Sem esse direito é impossível o exercício do magistério.

Resistir, hoje, no Brasil, insisto, é um ato patriótico. Os presentes no auditório da UFAL aplaudiram quando um graduando mencionou um certo metalúrgico que ousou expandir o ensino superior no Brasil como nunca na história republicana. Emocionou a todos no auditório.

Resistir é preciso; resistir é necessário.       

O capitão em seu labirinto

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

(*)Roberto Amaral

Assistimos domingo último a um estranho ‘protesto a favor’ de um governo e de suas políticas impopulares, das quais a desmontagem da previdência pública – saudada na Av. Paulista – é apenas um indicador perverso. Quando este texto chegar aos seus leitores o IBGE já terá confirmado, com a queda do PIB, que o Brasil de Guedes e Bolsonaro está prestes a concluir sua caminhada suicida para a depressão econômica – com tudo o que ela traz consigo, a começar pelo agravamento do desemprego, tanto mais grave quanto o ultra-liberalismo investe na desmontagem dos mecanismos de proteção social, na precarização das relações

 

de trabalho e no aprofundamento das desigualdades sociais.

As caminhadas de domingo, e destaco as aglomerações de São Paulo e Rio de Janeiro, não salvam o governo em crise (crise geral e crise específica dentro do regime), nem o precipitam no abismo, mas acentuam o consabido viés autoritário do bolsonarismo, manifesto nas palavras de ordem contra o Congresso, o Judiciário e a política em geral, e, principalmente, objetivado na reiterada, e até aqui bem sucedida tática da ação direta, mediante a qual os projetos totalitários historicamente mobilizam as massas na preparação do assalto às instituições democráticas.

Por enquanto, esse mandato não lhe foi outorgado, mas as esquerdas não serão inteligentes se considerarem irrelevantes as multidões que o bolsonarismo demonstrou poder mobilizar.

De uma forma ou de outra, as manifestações têm servido como um sistema de plebiscitos convocados ora pela oposição (que reclama por um recall), ora pelo governo, este em busca de referendo popular após menos de cinco meses de exercício. Com o apoio recebido – e outras mobilizações buscará – o governo intenta aumentar suas fichas tanto nas negociações com o Congresso quanto nos embates, pouco triviais, dentro de suas próprias hostes.

No Brasil quase simetricamente dividido (e desprovido da mediação do centro político desde que a socialdemocracia suicidou-se ao abrigar-se na direita), o segmento bolsonarista do regime optou pelo aprofundamento da cisão, campo de luta para o qual atrai a esquerda, que, desprovida de estratégia própria, dele não tem podido fugir.

Desinteressado, pelo menos por tática, pelo consenso com o qual em regra aspiram os governos nas ordens presidencialistas, o capitão aprofunda e alimenta o confronto, inclusive nas ruas (onde busca legitimação), preocupado apenas em preservar e fortalecer seu núcleo duro. Pode ser a preparação para maiores embates. Com o apoio que revelou ainda conservar, a extrema-direita aparelha-se para o confronto político nas diversas arenas e avisa à direita a impossibilidade de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Esta pode ter sido a grande vitória do capitão, pois capaz de assegurar-lhe a sobrevida ameaçada nas ruas e na domesticidade do poder.

Há sinais de preocupação no núcleo do regime e assim deve ser entendida a procura de diálogo que eminente líder militar procura estabelecer com líderes políticos civis, inclusive do campo da oposição petista.

Em qualquer cenário, a estratégia do confronto haverá de conviver com o desancado ‘presidencialismo de coalizão’ que vem de prestar inegável serviço ao processo democrático, ensinando ao ‘bolsonarismo-raiz’ a necessidade de discutir e compor, quando compor implica limar arestas e conciliar interesses. Essa contingência, todavia, poderá transformar-se no ‘calcanhar de Aquiles’ do governo que opta pela cisão e o confronto, pedra angular de sua capacidade de mobilização de militantes levados ao passionalismo, e, assim, despreparados para composições e recuos. Um governo afinal cedente à ‘velha política’ (da qual, aliás o bolsonarismo, até como empresa familiar, é fruto) dificilmente manterá de pé as idiossincrasias dos grupos radicalizados, mas um governo que não sabe compor é um semeador de crises.

Quando a economia derrete, a alternativa do bolsonarismo é a radicalização ideológica que mobiliza suas bases populares, as quais, se não são majoritárias na sociedade, apresentam-se ainda em condições de sustentar o capitão e seu projeto reacionário e antirrepublicano. É evidente que essas massas (e nelas jamais menosprezemos o papel aglutinador dos fundamentalismos religiosos) não são tudo, pois as bases de sustentação do novo regime – de que o bolsonarismo é uma representação – vão muito além delas, envolvendo um complexo condomínio de forças que caminha da Av. Paulista ao Comando do Exército, unificando interesses heterodoxos em torno da pauta econômica, nada obstante o desconforto de setores até aqui irrelevantes da caserna com a desmontagem do Estado e o avanço da desnacionalização da economia. O fato objetivo – que se soma às características castrenses do novo regime – é a existência (despercebida até 2014) de grandes contingentes sociais conservadores facilmente mobilizáveis pelo reacionarismo político-econômico-religioso, o receituário antinacional e anti-desenvolvimentista que une o ultra-liberalismo econômico a uma vocação política autoritária reforçada na ação prática. Esta é a semente do que hoje podemos chamar de ‘bolsonarismo-raiz’, uma visão de mundo que a aparência do sucesso político do lulismo havia escamoteado, nada obstante a consciência do autoritarismo larvar que, com o escravismo, é a característica nodal de nossa formação de povo, nação e Estado.

O radicalismo, porém, tem sua alma dialética, pois a direita alimenta a reorganização popular progressista e indica caminhos à ação programática de uma esquerda orgânica, até aqui simplesmente reativa. As manifestações do dia 15 exaltam a vitória da política de frente ampla realizada nas ruas (isto é, na ação prática) pelas grandes massas, política que os partidos de esquerda ainda não conseguiram concertar, seja no Congresso, seja mesmo no embate social.

As mobilizações esperadas para o dia 30, mesmo que se limitem à defesa do ensino público e ao combate à proposta reacionária de ‘reforma’ da previdência pública, desamparando os que dela carecem, serão um passo à frente no caráter das manifestações na medida em que impliquem um grau maior de organização. Constituirão um avanço, mas ainda estarão muito longe do que se pode exigir das esquerdas brasileiras. Dessas se espera que, superando táticas puramente reativas – a simples resposta a ações e desacertos do governo que se deve combater – ingresse em uma fase protagonista, apresentando para discussão com a sociedade o seu programa de governo, em contraposição ao programa autoritário-liberal-reacionário que aí está.

A resistência às políticas do governo reacionário – papel elementar da oposição de esquerda – pede complemento na proposição de alternativas. A esquerda socialista é chamada a retomar o discurso que abandonou desde os idos eleitorais de 2002. O combate ao programa de desmonte da previdência pública é a tarefa número um da oposição, mas não deve ser levado a cabo como fato isolado, pois não são acasos, peças soltas de uma engrenagem em pane, o assalto à razão que o bolsonarismo promove com a tentativa de destruição da universidade e do ensino público de um modo geral (e com ele com a pesquisa), a subordinação de nosso desenvolvimento aos interesses estratégicos das grandes potências, a desmontagem do Estado nacional e a sotoposição dos interesses das grandes massas, as privatizações e as desnacionalizações, a desconstituição sistema de proteção social. O que está em jogo, em última linha, é o projeto de nação, de país e de sociedade bem como o papel que nele devem desempenhar as instituições democráticas.

A pergunta que não pode calar: quem mandou matar Marielle?

 

(*) Professor da PUC-RJ e ex-ministro da Ciencia e Tecnologia

 

Bolsonaro é um fardo e será lançado ao mar

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

O governo Bolsonaro em menos de cinco meses apresenta a validade vencida. Perdeu todas as iniciativas enviadas à Câmara Federal. Não formou uma bancada que lhe garanta sustentação. Assumiu sem plano de governo e tenta governar como se fosse um “iluminado” ou “ungido” por força celestial.

Bolsonaro é incapaz de montar uma equipe de ministros tecnicamente competentes para tocar o governo numa conjuntura de crise econômica e política. Bolsonaro nunca soube o que é organizar ou articular oposição, por um motivo simples: sempre foi deputado do baixo clero. Vociferou em nome do “porão” da ditadura militar ‒ seu nicho eleitoral ‒ e, agora, a Nação vem tomando conhecimento das suas ligações estreitas com o crime em estado puro: as milícias cariocas.

O viés ideológico, expressão utilizada à exaustão durante a campanha eleitoral, se mantém como um escudo do espadachim de subúrbio. O certo, nesses poucos meses de governo, é que a grande mídia – as três famílias, Frias da Folha de São Paulo; Mesquita do O Estado de São Paulo e Marinho, da Rede Globo – está iniciando o movimento para lançar a carga ao mar, seja lá o que isso signifique. O fato é que já são perceptíveis os movimentos.

As mobilizações de rua unificaram as tendências de oposição ‒ uma obra governamental, não há o que discutir. As centrais sindicais e todos os movimentos sociais estão se mobilizando para voltar às ruas no dia 14 de junho, para a Greve Geral.

Os apoiadores (eleitores) de Bolsonaro estão percebendo que apostaram no cavalo errado, era uma fake news. Não era um cavalo competidor, mas um pangaré.

Bolsonaro e sua família estão em “prisão domiciliar” no Palácio do Planalto. Antes de Bolsonaro ser lançado ao mar, os interesses da elite econômica, rentista e a grande mídia tentarão impor a reforma da previdência. Afinal, não se pode fazer tanto esforço para apear a esquerda do poder e agora, administrar o inadministrável. Mas diante de tantas trapalhadas e conduções erráticas, está próximo o momento em que a imensidão do mar será a alternativa mais sensata ‒ para eles, claro.

As esquerdas, a oposição no sentido mais amplo, os movimentos sociais, a juventude estudantil e trabalhadora, os trabalhadores intelectuais deverão ampliar a pressão sobre o governo Bolsonaro. Já foram oferecidos régua e compasso, como diz a canção do Gilberto Gil.

O Centrão (conjunto de deputados de várias siglas) está com muito mais força do que se imagina, e as pressões vindas das ruas no último dia 15 serviram como termômetro. Os deputados perceberam que suas bases também estão sendo atingidas pelos atos governamentais.

Os interesses das três famílias da mídia brasileira e do mercado não são os mesmos interesses dos trabalhadores e das classes média, aqui com algumas ressalvas. Mais um motivo para observarmos com lupa os movimentos no tabuleiro político.

O que é bom para os EUA nunca foi bom para o Brasil

O que é bom para essas famílias não será bom para o Brasil.

Festival de Cinema Brasileiro

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

(*) Maria Claudia Badan Ribeiro

Relembrando a todos vocês, envio o cartaz do lançamento do filme Codinome Clemente que estreia essa semana no Festival de Cinema Brasileiro em Paris. Este ano temos pelo menos 4 filmes ambientados na época da ditadura: Codinome Clemente de Isa Albuquerque, Marighella de Wagner Moura, A Torre das Donzelas de Susanna Lira, Pastor Claudio (Guerra) de Beth Formaggini e Deslembro de Flavia Castro.

Filmes importantes, numa época importante, em que os fatos históricos são manipulados, a militância agredida e desacreditada e a ditadura simplesmente negada e transformada, num “regime democrático forte”. Sintomático que seja na França, país do exílio de tantos militantes políticos brasileiros, que esses filmes sejam exibidos juntos. Eles ajudam também a formar uma rede de proteção e de denúncia. Precisamos do ‘lugar de fala’, mas também do lugar de “escuta”.

Em 1987 o Jornal do Brasil anunciava com ironia: que a história de Carlos Eugênio dava um enredo de carnaval. E acrescentava sobre ele: "Carlos Eugênio trocou o tom monocórdico da metralhadora soviética por um harmônico baixo elétrico. Seu aparelho agora é um amplificador”. Quem viveu essa época sabe o que foi lutar e ao mesmo tempo sobreviver sob uma ditadura.

E depois, fora dela. Para o Clemente foram seis anos ininterruptos de luta, de 1967-1973. Como escreveu Franklin Martins: “Poucos militantes participaram de tantas ações armadas naquele período (...). Poucos também foram caçados tão ferozmente como ele”. Poucos também, eu diria, foram aqueles que viveram nas entranhas as exigências da guerra.

Aqueles limites da violência que são, na maior parte das vezes, definidos pela estratégia que a própria guerra determina. Carlos Eugênio tem muitas histórias a contar, do tempo que viveu, do tempo que sonhou. A luta armada foi uma parte desta história, desta pessoa que a história e a militância pouco conhecem. E que na maioria das vezes, condena.

Quem se interessar, e estiver de viagem ou tiver amigos que morem na França, passem por lá. Precisamos de filmes como esse, para entender o que foi a ditadura, o que ela custou à sociedade, e também a este guerrilheiro, que corajoso, deu a vida como tantos outros de sua geração que não sobreviveram para contar a sua história. Ainda não sei quando chegará ao Brasil. Espero que não demore muito...

Abaixo vai parte da divulgação francesa e meu abraço.

 

Exibição : Codinome Clemente,  dia 11 de abril, quinta- feira às 20:45 h no cinema L' Arlequin. 76, rue de Rennes. Paris 75006. Metrô Saint-Sulpice.

(*) é Bacharel em Letras (italiano e francês) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Sorbonne Nouvelle) e pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

 

Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com