Geraldo de Majella

O impeachment tinha como resultado morte a democracia no Brasil

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

           O golpe articulado em 2016 teve nas pedaladas fiscais o álibi com o resultado decorrente de bloquear a democracia com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A articulação dos golpistas teve duas conexões: a externa com os EUA, à frente, e a interna, com a grande mídia, os rentistas, o empresariado, os parlamentares e o vice-presidente Michel Temer.

            O golpe levou o Brasil para a extrema direita, o pior dos mundos. A democracia tem sido, a cada dia, torpedeada pela Lava Jato e pelo autoritarismo do Bolsonaro. E ainda em muitas decisões da Suprema Corte, que se nega em muitos casos a fazer justiça.

            A oposição, sem conseguir manter linhas de coesão entre os partidos de esquerda e centro-esquerda, anda ruminando o resultado eleitoral. Mas todos em campanha rumo a 2020.

            A oposição resiste no Congresso Nacional e nas ruas com os movimentos sociais protestando contra o desmonte do Estado brasileiro.

            A mobilização nas ruas tem elevado a temperatura e transmitido energia positiva para o parlamento nacional, mesmo em torno de lutas pontuais como a reforma da previdência e os cortes da educação.

       Essas duas frentes de lutas sinalizaram que é possível derrotar o governo no terreno onde ele se dizia majoritário: o Congresso Nacional.

            As vitórias em determinados momentos históricos nunca são gerais, mas pontuais e cumulativas, e se desenrolam no campo de batalha numa “guerra de guerrilha”. Dessa tática, a esquerda e o campo democrático têm experiências acumuladas.

            A Lava Jato, espinha dorsal da extrema direita nacional e internacional, seção brasileira, está fraturada. O inimigo encontra-se em franco recuo, mas ainda não foi derrotado. A derrota virá não como uma premonição divina, mas com a mobilização social, a atuação nos parlamentos e pelas revelações do The Intercept.

            Teremos muitas lutas pela frente. A defesa das grandes empresas e dos bancos estatais, das universidades e dos institutos federais, e da Embrapa não deve sair da pauta dos democratas, da esquerda e dos nacionalistas.

               O impeachment tinha como resultado morte a democracia no Brasil. A democracia agoniza, mas não morre, como diz o samba do Nelson Sargento.  

 

A guerra de guerrilha de Glenn Gleenwald

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

E agora, o que fazer? Diante das revelações que o site The Intercept Brasil vem publicando e o mundo lê estarrecido, o ex-juiz e ministro Sérgio Moro e o coordenador da Lava-Jato de Curitiba, Deltan Dallagnol, estão a dever explicações ao Brasil.

         Vestir a camisa rubro-negra do Flamengo não atenua o problema, nem ser amparado por Bolsonaro é uma companhia que lhe conforte.

         Moro, Dallagnol e os demais procuradores, agora, tomam conhecimento de que há uma opinião pública nacional e outra internacional.

         O controle dos meios de informação é relativo no Brasil, quando se vive a era da internet. Foi um site de notícias, ou melhor, investigativo, quem acertou o petardo frontal na Lava-Jato. Até o momento mutilou a operação e seus membros, e o pior, anuncia The Intercept, está por vir.

         A “guerra de guerrilha” iniciada por Glenn Greenwald tem colocado a grande mídia, o Ministério Público e parcela do Supremo Tribunal Federal na defensiva.

         O teatro onde se desenrola a “guerra de guerrilha” está sob o domínio absoluto de The Intercept. A infantaria ataca sem medo, com tanques e minas terrestres que estão explodindo no colo das celebridades instantâneas do Judiciário e do Ministério Público Federal.

         O jornalismo sério mudará o rumo da história do Brasil. Assim como a manipulação dos fatos, a violação da ordem constitucional e os pré-julgamentos online guindaram essas celebridades, ora em estado de putrefação moral, a chegar ao topo do ranking dos programas de reality show no Brasil e nos EUA.

Em tempo de celebridades instantâneas, é alvissareiro dizer que a casa caiu.

A estratégia brilhante de Glenn Greenwald

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

(*) Renato Janine Ribeiro

1. Assumiu o protagonismo do jogo. Seus alvos estão fazendo exatamente o que ele quis ou previu. Ele controla o tabuleiro. Pela primeira vez desde 2015, a extrema-direita perdeu a iniciativa.

2. Os procuradores e Moro responderam a ele justamente o que ele queria: confirmaram a autenticidade das fitas. Foram debater a forma, não o conteúdo. Assim disseram: você, Glenn, diz a verdade.

3. Ele previu até o argumento que iam usar: a defesa da lei e da privacidade. E respondeu a isso domingo, antes mesmo da reação do grupo: vcs não fizeram isso com Dilma? Que moral têm? Assim, tirou deles o argumento moral, que era o principal da LavaJato e que esta conduziu para a ideia de que os fins justificam os meios.

4. Enquadrou a mídia pátria. A imprensa internacional caiu matando. A Folha de hoje tem um relato bom das reações no estrangeiro. E os jornais de fora que li chamam todos nosso governo de exceção de “extrema-direita”. Nenhum usa o eufemismo “direita” (direita é Merkel, cara-pálida!) ou “liberal” (liberal é o Economist, stupid!). Vai ser difícil passar pano por muito tempo.

5. Ao dizer que não divulgaria as intimidades dos membros do grupo , mostrou-se superior a eles (que publicaram conversas privadas de dona Mariza - sem falar na subtração do iPad do pequeno, hoje falecido, Artur) - e deve ter causado medo de que divulgue. Acuou-os.

6. Finalmente, anunciou que soltará mais dados a conta-gotas. Tornou-se senhor do tempo ou, se quiserem, é quem decide quais serão as próximas etapas, o desdobramento do assunto (até porque ninguém sabe o que ele sabe).” 
(*) é filosofo e ex-ministro da educação.

 

A UFAL resiste ao autoritarismo

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

     

Ontem (7 de junho), dezenas de graduandos colaram grau no auditório da Reitoria da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Entre eles e elas, estava Isabela, minha filha, a receber o diploma de arquiteta.

      As famílias e os amigos lotaram o auditório, num momento emocionante, principalmente para muitos dos graduando(a)s que eram o primeiro membro da família a estudar numa universidade, com um detalhe a mais: numa universidade pública.

         No auditório, a maioria, assim como na sociedade, era composta de graduandos e familiares pretos e pardos ‒ um sinal evidente de transformação da universidade pública. A invisibilidade do povo nos últimos vinte anos tem sido superada; falta ainda muito chão para caminhar.

         O trabalhador e a trabalhadora que presenciaram o filho ou filha a se graduar têm motivo para ficar orgulhosos, sabendo que esse dia é um marco na vida de sua família.  

         Bolsonaro escolheu um alvo: a educação. Destruir a educação pública é a meta por ele estabelecida. Nunca foi tão atual a palavra resistir.

Resistir no Brasil, hoje, é um ato patriótico. Os professores, funcionários e estudantes têm resistido à sanha do governo federal e de seus aliados em tentar destruir a educação pública. Esse é o projeto do Bolsonaro, Paulo Guedes e Abraham Weintraub, em comum acordo com os empresários da educação privada.  

Os professores têm sido atacados de maneira sórdida pelo presidente da República e pelo ministro da Educação. Nunca os professores foram expostos como nos dias atuais em redes de televisão. Nunca o direito de cátedra foi atacado na história brasileira. Sem esse direito é impossível o exercício do magistério.

Resistir, hoje, no Brasil, insisto, é um ato patriótico. Os presentes no auditório da UFAL aplaudiram quando um graduando mencionou um certo metalúrgico que ousou expandir o ensino superior no Brasil como nunca na história republicana. Emocionou a todos no auditório.

Resistir é preciso; resistir é necessário.       

O capitão em seu labirinto

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

(*)Roberto Amaral

Assistimos domingo último a um estranho ‘protesto a favor’ de um governo e de suas políticas impopulares, das quais a desmontagem da previdência pública – saudada na Av. Paulista – é apenas um indicador perverso. Quando este texto chegar aos seus leitores o IBGE já terá confirmado, com a queda do PIB, que o Brasil de Guedes e Bolsonaro está prestes a concluir sua caminhada suicida para a depressão econômica – com tudo o que ela traz consigo, a começar pelo agravamento do desemprego, tanto mais grave quanto o ultra-liberalismo investe na desmontagem dos mecanismos de proteção social, na precarização das relações

 

de trabalho e no aprofundamento das desigualdades sociais.

As caminhadas de domingo, e destaco as aglomerações de São Paulo e Rio de Janeiro, não salvam o governo em crise (crise geral e crise específica dentro do regime), nem o precipitam no abismo, mas acentuam o consabido viés autoritário do bolsonarismo, manifesto nas palavras de ordem contra o Congresso, o Judiciário e a política em geral, e, principalmente, objetivado na reiterada, e até aqui bem sucedida tática da ação direta, mediante a qual os projetos totalitários historicamente mobilizam as massas na preparação do assalto às instituições democráticas.

Por enquanto, esse mandato não lhe foi outorgado, mas as esquerdas não serão inteligentes se considerarem irrelevantes as multidões que o bolsonarismo demonstrou poder mobilizar.

De uma forma ou de outra, as manifestações têm servido como um sistema de plebiscitos convocados ora pela oposição (que reclama por um recall), ora pelo governo, este em busca de referendo popular após menos de cinco meses de exercício. Com o apoio recebido – e outras mobilizações buscará – o governo intenta aumentar suas fichas tanto nas negociações com o Congresso quanto nos embates, pouco triviais, dentro de suas próprias hostes.

No Brasil quase simetricamente dividido (e desprovido da mediação do centro político desde que a socialdemocracia suicidou-se ao abrigar-se na direita), o segmento bolsonarista do regime optou pelo aprofundamento da cisão, campo de luta para o qual atrai a esquerda, que, desprovida de estratégia própria, dele não tem podido fugir.

Desinteressado, pelo menos por tática, pelo consenso com o qual em regra aspiram os governos nas ordens presidencialistas, o capitão aprofunda e alimenta o confronto, inclusive nas ruas (onde busca legitimação), preocupado apenas em preservar e fortalecer seu núcleo duro. Pode ser a preparação para maiores embates. Com o apoio que revelou ainda conservar, a extrema-direita aparelha-se para o confronto político nas diversas arenas e avisa à direita a impossibilidade de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Esta pode ter sido a grande vitória do capitão, pois capaz de assegurar-lhe a sobrevida ameaçada nas ruas e na domesticidade do poder.

Há sinais de preocupação no núcleo do regime e assim deve ser entendida a procura de diálogo que eminente líder militar procura estabelecer com líderes políticos civis, inclusive do campo da oposição petista.

Em qualquer cenário, a estratégia do confronto haverá de conviver com o desancado ‘presidencialismo de coalizão’ que vem de prestar inegável serviço ao processo democrático, ensinando ao ‘bolsonarismo-raiz’ a necessidade de discutir e compor, quando compor implica limar arestas e conciliar interesses. Essa contingência, todavia, poderá transformar-se no ‘calcanhar de Aquiles’ do governo que opta pela cisão e o confronto, pedra angular de sua capacidade de mobilização de militantes levados ao passionalismo, e, assim, despreparados para composições e recuos. Um governo afinal cedente à ‘velha política’ (da qual, aliás o bolsonarismo, até como empresa familiar, é fruto) dificilmente manterá de pé as idiossincrasias dos grupos radicalizados, mas um governo que não sabe compor é um semeador de crises.

Quando a economia derrete, a alternativa do bolsonarismo é a radicalização ideológica que mobiliza suas bases populares, as quais, se não são majoritárias na sociedade, apresentam-se ainda em condições de sustentar o capitão e seu projeto reacionário e antirrepublicano. É evidente que essas massas (e nelas jamais menosprezemos o papel aglutinador dos fundamentalismos religiosos) não são tudo, pois as bases de sustentação do novo regime – de que o bolsonarismo é uma representação – vão muito além delas, envolvendo um complexo condomínio de forças que caminha da Av. Paulista ao Comando do Exército, unificando interesses heterodoxos em torno da pauta econômica, nada obstante o desconforto de setores até aqui irrelevantes da caserna com a desmontagem do Estado e o avanço da desnacionalização da economia. O fato objetivo – que se soma às características castrenses do novo regime – é a existência (despercebida até 2014) de grandes contingentes sociais conservadores facilmente mobilizáveis pelo reacionarismo político-econômico-religioso, o receituário antinacional e anti-desenvolvimentista que une o ultra-liberalismo econômico a uma vocação política autoritária reforçada na ação prática. Esta é a semente do que hoje podemos chamar de ‘bolsonarismo-raiz’, uma visão de mundo que a aparência do sucesso político do lulismo havia escamoteado, nada obstante a consciência do autoritarismo larvar que, com o escravismo, é a característica nodal de nossa formação de povo, nação e Estado.

O radicalismo, porém, tem sua alma dialética, pois a direita alimenta a reorganização popular progressista e indica caminhos à ação programática de uma esquerda orgânica, até aqui simplesmente reativa. As manifestações do dia 15 exaltam a vitória da política de frente ampla realizada nas ruas (isto é, na ação prática) pelas grandes massas, política que os partidos de esquerda ainda não conseguiram concertar, seja no Congresso, seja mesmo no embate social.

As mobilizações esperadas para o dia 30, mesmo que se limitem à defesa do ensino público e ao combate à proposta reacionária de ‘reforma’ da previdência pública, desamparando os que dela carecem, serão um passo à frente no caráter das manifestações na medida em que impliquem um grau maior de organização. Constituirão um avanço, mas ainda estarão muito longe do que se pode exigir das esquerdas brasileiras. Dessas se espera que, superando táticas puramente reativas – a simples resposta a ações e desacertos do governo que se deve combater – ingresse em uma fase protagonista, apresentando para discussão com a sociedade o seu programa de governo, em contraposição ao programa autoritário-liberal-reacionário que aí está.

A resistência às políticas do governo reacionário – papel elementar da oposição de esquerda – pede complemento na proposição de alternativas. A esquerda socialista é chamada a retomar o discurso que abandonou desde os idos eleitorais de 2002. O combate ao programa de desmonte da previdência pública é a tarefa número um da oposição, mas não deve ser levado a cabo como fato isolado, pois não são acasos, peças soltas de uma engrenagem em pane, o assalto à razão que o bolsonarismo promove com a tentativa de destruição da universidade e do ensino público de um modo geral (e com ele com a pesquisa), a subordinação de nosso desenvolvimento aos interesses estratégicos das grandes potências, a desmontagem do Estado nacional e a sotoposição dos interesses das grandes massas, as privatizações e as desnacionalizações, a desconstituição sistema de proteção social. O que está em jogo, em última linha, é o projeto de nação, de país e de sociedade bem como o papel que nele devem desempenhar as instituições democráticas.

A pergunta que não pode calar: quem mandou matar Marielle?

 

(*) Professor da PUC-RJ e ex-ministro da Ciencia e Tecnologia

 

Bolsonaro é um fardo e será lançado ao mar

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

O governo Bolsonaro em menos de cinco meses apresenta a validade vencida. Perdeu todas as iniciativas enviadas à Câmara Federal. Não formou uma bancada que lhe garanta sustentação. Assumiu sem plano de governo e tenta governar como se fosse um “iluminado” ou “ungido” por força celestial.

Bolsonaro é incapaz de montar uma equipe de ministros tecnicamente competentes para tocar o governo numa conjuntura de crise econômica e política. Bolsonaro nunca soube o que é organizar ou articular oposição, por um motivo simples: sempre foi deputado do baixo clero. Vociferou em nome do “porão” da ditadura militar ‒ seu nicho eleitoral ‒ e, agora, a Nação vem tomando conhecimento das suas ligações estreitas com o crime em estado puro: as milícias cariocas.

O viés ideológico, expressão utilizada à exaustão durante a campanha eleitoral, se mantém como um escudo do espadachim de subúrbio. O certo, nesses poucos meses de governo, é que a grande mídia – as três famílias, Frias da Folha de São Paulo; Mesquita do O Estado de São Paulo e Marinho, da Rede Globo – está iniciando o movimento para lançar a carga ao mar, seja lá o que isso signifique. O fato é que já são perceptíveis os movimentos.

As mobilizações de rua unificaram as tendências de oposição ‒ uma obra governamental, não há o que discutir. As centrais sindicais e todos os movimentos sociais estão se mobilizando para voltar às ruas no dia 14 de junho, para a Greve Geral.

Os apoiadores (eleitores) de Bolsonaro estão percebendo que apostaram no cavalo errado, era uma fake news. Não era um cavalo competidor, mas um pangaré.

Bolsonaro e sua família estão em “prisão domiciliar” no Palácio do Planalto. Antes de Bolsonaro ser lançado ao mar, os interesses da elite econômica, rentista e a grande mídia tentarão impor a reforma da previdência. Afinal, não se pode fazer tanto esforço para apear a esquerda do poder e agora, administrar o inadministrável. Mas diante de tantas trapalhadas e conduções erráticas, está próximo o momento em que a imensidão do mar será a alternativa mais sensata ‒ para eles, claro.

As esquerdas, a oposição no sentido mais amplo, os movimentos sociais, a juventude estudantil e trabalhadora, os trabalhadores intelectuais deverão ampliar a pressão sobre o governo Bolsonaro. Já foram oferecidos régua e compasso, como diz a canção do Gilberto Gil.

O Centrão (conjunto de deputados de várias siglas) está com muito mais força do que se imagina, e as pressões vindas das ruas no último dia 15 serviram como termômetro. Os deputados perceberam que suas bases também estão sendo atingidas pelos atos governamentais.

Os interesses das três famílias da mídia brasileira e do mercado não são os mesmos interesses dos trabalhadores e das classes média, aqui com algumas ressalvas. Mais um motivo para observarmos com lupa os movimentos no tabuleiro político.

O que é bom para os EUA nunca foi bom para o Brasil

O que é bom para essas famílias não será bom para o Brasil.

Festival de Cinema Brasileiro

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

(*) Maria Claudia Badan Ribeiro

Relembrando a todos vocês, envio o cartaz do lançamento do filme Codinome Clemente que estreia essa semana no Festival de Cinema Brasileiro em Paris. Este ano temos pelo menos 4 filmes ambientados na época da ditadura: Codinome Clemente de Isa Albuquerque, Marighella de Wagner Moura, A Torre das Donzelas de Susanna Lira, Pastor Claudio (Guerra) de Beth Formaggini e Deslembro de Flavia Castro.

Filmes importantes, numa época importante, em que os fatos históricos são manipulados, a militância agredida e desacreditada e a ditadura simplesmente negada e transformada, num “regime democrático forte”. Sintomático que seja na França, país do exílio de tantos militantes políticos brasileiros, que esses filmes sejam exibidos juntos. Eles ajudam também a formar uma rede de proteção e de denúncia. Precisamos do ‘lugar de fala’, mas também do lugar de “escuta”.

Em 1987 o Jornal do Brasil anunciava com ironia: que a história de Carlos Eugênio dava um enredo de carnaval. E acrescentava sobre ele: "Carlos Eugênio trocou o tom monocórdico da metralhadora soviética por um harmônico baixo elétrico. Seu aparelho agora é um amplificador”. Quem viveu essa época sabe o que foi lutar e ao mesmo tempo sobreviver sob uma ditadura.

E depois, fora dela. Para o Clemente foram seis anos ininterruptos de luta, de 1967-1973. Como escreveu Franklin Martins: “Poucos militantes participaram de tantas ações armadas naquele período (...). Poucos também foram caçados tão ferozmente como ele”. Poucos também, eu diria, foram aqueles que viveram nas entranhas as exigências da guerra.

Aqueles limites da violência que são, na maior parte das vezes, definidos pela estratégia que a própria guerra determina. Carlos Eugênio tem muitas histórias a contar, do tempo que viveu, do tempo que sonhou. A luta armada foi uma parte desta história, desta pessoa que a história e a militância pouco conhecem. E que na maioria das vezes, condena.

Quem se interessar, e estiver de viagem ou tiver amigos que morem na França, passem por lá. Precisamos de filmes como esse, para entender o que foi a ditadura, o que ela custou à sociedade, e também a este guerrilheiro, que corajoso, deu a vida como tantos outros de sua geração que não sobreviveram para contar a sua história. Ainda não sei quando chegará ao Brasil. Espero que não demore muito...

Abaixo vai parte da divulgação francesa e meu abraço.

 

Exibição : Codinome Clemente,  dia 11 de abril, quinta- feira às 20:45 h no cinema L' Arlequin. 76, rue de Rennes. Paris 75006. Metrô Saint-Sulpice.

(*) é Bacharel em Letras (italiano e francês) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-Sorbonne Nouvelle) e pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

 

Ninguém solta a mão de ninguém

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

Há muitos anos tenho realizado o balanço anual da minha vida. Hoje, ao completar 58 anos, realizo mais um, desta vez numa situação adversa. Individualmente, estou bem, com saúde e planejando as minhas pequenas atividades pessoais e familiares, coisas sem muita importância, mas que pretendo fazer com prazer. 

            Amigos e parentes muito próximos morreram, foram embora antes do combinado; isso é doloroso, mas é uma realidade com a qual devemos conviver. Essas perdas demoram até ser assimiladas. Esse é um item do balanço que devo colocar na coluna das perdas pessoais e afetivas, mas que permanecerão nas minhas recorrentes lembranças.

            O ganho mais significativo diz respeito à Isabela, minha filha, que se graduou em arquitetura e concluiu uma etapa importante de sua vida, mas que a partir de agora terá pela frente outras etapas. Após um círculo concluído, outro inexoravelmente será aberto.

            O resultado computado da minha vida pessoal e familiar foi extremamente positivo, sem queixas, posso dizer. O balanço político de 2018 é pesaroso; aliás, os últimos anos, desde 2015, não têm sido nada positivos para o Brasil. Tem crescido na sociedade a busca autoritária como forma de encaminhamento político e econômico; é uma onda fascista que tem se ampliado e prenuncia tempestade. 

O mundo, em vários países na Europa e nos EUA, bem como em outros continentes, tem presenciado espasmos autoritários de inspiração fascista. É a globalização do autoritarismo em tempo real, percebida em sociedades, até então, democráticas e tolerantes com as diferenças, receptivas aos imigrantes e refugiados. Mas, de uma hora para a outra, são eleitos governantes de formação autoritária que se voltam contra os refugiados políticos, de guerras, econômicos, étnicos. 

Os muros vergonhosos vão sendo erguidos em nome da garantia dos empregos e como meio de evitar o terrorismo. Milhares de crianças e adultos são mortos afogados, numa tentativa desesperada para sobreviverem à fome, à guerra e ao genocídio em seus países e buscam territórios onde tenham paz, comida e trabalho, coisas básicas e essenciais para os seres humanos. Os que sobrevivem são alojados em campos de concentração, quando não impedidos de viver em países da Europa e nos EUA.  

O Brasil, historicamente, é um país aberto à imigração e aos refugiados. Somos uma nação formada pela multiplicidade de etnias e povos; um povo onde há sangue de quase todas as nações do planeta ou de grande parte dele.

Os brasileiros que pensam como eu perdem uma eleição, mas não o sentido de humanidade. Essa derrota eu não sofri; continuarei a luta por uma nação democrática, onde haja justiça, mesmo que no momento parte dela esteja de olhos vendados. Devemos continuar lutando por justiça e nos mobilizarmos para manter a democracia, mesmo que seja apenas representativa. Não há nada melhor que a democracia.

O clima de intolerância e ódio que tomou conta do Brasil me fez lembrar uma canção da cantora argentina Mercedes Sosa: “Eu só peço a Deus/ Que a dor não me seja indiferente/ Que a morte não me encontre um dia/ Solitário sem ter feito o que eu queria”.

A resistência ao autoritarismo está sendo gestada; não vai demorar e estaremos de volta às ruas ‒ o nosso campo de luta e o lugar de onde não nos devemos afastar. Em 2019, ninguém solta a mão de ninguém.

1ª Maragofli homenageia os escritores Dirceu Lindoso e Chico Buarque

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

As festas literárias em Alagoas iniciaram-se em 2006 com a Flipenedo, quando eu e Carlito Lima a organizamos, contando com a participação de 28 escritores. Entretanto, não houve sequência. Em seguida, a prefeitura de Marechal Deodoro criou a Flimar, que ganhou dimensão nacional, coordenada pelo escritor Carlito Lima. Palmeira dos Índios realizou uma edição em 2017, e não foi à frente. Arapiraca lançou a sua primeira Fliara.

Maceió realizou festas literárias nos bairros: em 2017 e 2018, no Pontal da Barra; em 2018, no Graciliano Ramos e Jacintinho. Para 2019 estão programadas seis festas em bairros da capital.  

A histórica cidade de Maragogi, no litoral norte de Alagoas, lançou a 1ª Maragofli, e o escritor Carlito Lima foi convidado pelo prefeito Fernando Sérgio Lira para prestar consultoria à prefeitura. A experiência e a sensibilidade como poeta e editor do prefeito contribuíram muito para o êxito da festa literária.

 A 1ª Maragofli ocorreu entre 5 e 7 de dezembro, como uma festa literária aberta ao público, mas que teve o seu início meses antes, nas salas de aulas das escolas da rede municipal de ensino. A escolha dos homenageados, o historiador e escritor Dirceu Lindoso e o compositor e escritor Chico Buarque de Holanda, foi importante no processo de mobilização dos diretores, professores e alunos.    

O livro e a música, a memória e a história ganharam mais sentido e pulsaram com mais vida nas interpretações feitas pelos alunos e professores, como resultado do trabalho coletivo apresentado na praça Batista Accioly.  

O entusiasmo se refletiu ainda mais durante as encenações teatrais produzidas pelos professores e alunos num teatro em praça pública. Os temas foram as letras musicais, o contexto e as metáforas utilizadas por Chico Buarque para burlar a censura durante a ditadura militar.  

A Maragofli contou com a participação dos escritores Dirceu Lindoso, o homenageado, do historiador Geraldo de Majella, do cronista Carlito Lima, do poeta Charles Cooper, do juiz de direito Alonso Filho e do poeta e prefeito Fernando Sérgio Lira, que falaram para centenas de pessoas presentes na tenda instalada na praça Santo Antônio, no centro de Maragogi.

A cantora Wilma Araújo e sua banda apresentaram-se na abertura da festa, interpretando canções de Chico Buarque. Nos outros dias, shows de Mattos Mendonça e William Miranda. As tendas armadas na praça Batista Accioly teve a participação de Damiana Melo e Sidney Sá, do Grupo Cia Literando, e apresentação do Samba de Matuto e do Bumba Meu Boi.

O objetivo da Maragofli foi alcançado. É esta a proposta de uma festa literária que mobiliza a escola, apresenta o livro como objeto de primeira necessidade e contribui para a formação de novos leitores.

Tem sido comum a mídia noticiar que livros são essenciais e que ler faz bem. Há casos de governos estaduais e prefeituras distribuírem com os professores um “vale livro” ou “cartão” específico para adquirirem livros em festas, feiras e bienais. A realidade local é outra; diante da crise a que o país se acha submetido, iniciativas dessa natureza são um ponto fora da curva.

 O envolvimento das secretarias de Educação foi importantíssimo e decisivo. Sem a compreensão e o envolvimento pessoal dos secretários de Cultura e Turismo a festa não teria sido o sucesso que foi. 

O prefeito Fernando Sérgio Lira ao encerrar a 1ª Maragofli anunciou o próximo homenageado: Ariano Suassuna, escritor e dramaturgo paraibano.

Salve a Maragofli!

 

Xadrez da política hoje Alguns movimentos previsíveis, em conformidade com o atual quadro das pesquisas e o posicionamento dos principais jogadores.

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

Homero Fonseca (*)

1 — A partida vai ser resolvida no segundo turno.

2 — Bolsonaro estará dentro, beneficiado pela facada e pelo antipetismo massificado pela mídia. Como sempre nesses momentos, os liberais mandam os escrúpulos às favas e fecham com a extrema direita.

O apoio no segundo turno envolverá o seguinte acordo num eventual governo: Bolsonaro fica como figura decorativa, fazendo momices nas redes sociais para entreter seu eleitorado (como Trump, nos EUA), enquanto Paulo Guedes junto com o “Mercado” cuida da economia, aprofundando o liberalismo selvagem e os retrocessos sociais do governo Temer, e o general Mourão assume o governo de fato, com ênfase na repressão aos movimentos sociais.

3 — Liberais envergonhados e ex-esquerdistas com problemas de consciência (que no primeiro turno votaram em Alckmim ou Marina), proclamam o voto nulo ou branco, tentando sair bem na fotografia enquanto abrem caminho para a eventual ascensão da extrema direita.

4 — A esquerda oscila entre Haddad e Ciro e, dependendo de como mover as peças na atual etapa (abrindo ou fechando as portas para uma coligação inteligível ao povão na segunda rodada), poderá ganhar as eleições ou se ferrar.

Homero Fonseca é jornalista, blogueiro e escritor. Foi editor da revista Continente (2000–2008). Autor do romance "Roliúde" (Record, 2007), entre outros livros.

 

 

Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com