Resenha100Nota

O mensageiro chegou na Netflix - "Messiah"

  • Bruno Omena
  • 06/03/2020 10:00
  • Resenha100Nota

Com "Messiah" (2020), a Netflix começa o ano com o pé direito. A primeira temporada traz o surgimento de um líder religioso e espiritual que sacode crenças e gera inquietações políticas.
Diante da insegurança que a presença do homem causa, uma agente da CIA incrédula tenta desmascará-lo.

Michelle Monagahn está ótima como a agente da CIA, assim como todo elenco de apoio, mas é o "Messiah" Mehdi Dehbi que hipnotiza o espectador interpretando o protagonista de forma tão serena e crível que poderia facilmente passar horas ouvindo suas palavras.
De fato ele dá sentido ao termo mensageiro.
Já a série levanta questões e nos faz refletir sobre o que é necessário para nos fazer acreditar, seguir e ouvir aqueles que tentam melhorar de alguma forma o mundo.

9.0

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Hora de conhecer o clássico "Bonequinha de Luxo"

  • Bruno Omena
  • 04/03/2020 10:00
  • Resenha100Nota

Não é difícil encontrar alguém que reconheça a imagem de Audrey Hepburn trajando um vestido preto, uma tiara de brilhantes na cabeça, colar de pérolas e uma cigarrilha na mão. O quadro, tirado do filme "Bonequinha de Luxo" (1961) ganhou o mundo e virou ícone da cultura pop, tendo diversas versões e estampando camisetas e telas.
Porém, poucos se deram o "trabalho" de ir atrás da fonte. O longa dirigido por Blake Edwards é uma deliciosa comédia, cheia de estilo, uma música tema inesquecível e uma bela história de amor.

Audrey Hepburn é Holly Golightly, uma acompanhante de luxo à procura de um marido rico para esquecer de vez os tempos de pobreza de sua juventude. Todas as manhãs ela tem o ritual de tomar café da manhã em frente a famosa joalheria Tiffany. É olhando para a vitrine que Holly esquece os problemas e sonha com o futuro.
Ambiciosa e determinada, a moça tem suas convicções abaladas com a chegada do vizinho Paul Varjak (George Peppard), um escritor sustentado por uma mulher mais velha que o tem como amante.

Baseado no texto de Truman Capote, "Bonequinha de Luxo" quase teve outra protagonista. Capote vendeu os diretos de sua obra desejando Marilyn Monroe como protagonista, mas a atriz recusou o papel com receio de associar sua imagem a uma garota de programa.
O roteiro, que inicialmente pode induzir o espectador a achar que o filme é uma comédia romântica bobinha, na verdade é um conto sobre uma mulher e suas escolhas.
Holly decidiu fugir de uma realidade dura, deixando para trás coisas importantes. Consciente disso, ela tentou a todo custo viver um sonho para não pensar no que passou. À primeira vista, sua personalidade pode parecer fútil, mas não há futilidade no coração de quem só quer ser feliz. Paul surge na trama para ajudar Holly a se conectar consigo mesma e fazê-la compreender que é impossível  viver sem vínculos genuínos de amor. Ela, que tinha medo de nomear seu gato de estimação para evitar laços afetivos, acabou percebendo que os sentimentos não precisam de denominação.
Um filmaço para ver e se emocionar ao som de "Moon River", canção vencedora do Oscar.

10.0

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Adam Driver revira o baú da CIA no drama "O Relatório"

  • Bruno Omena
  • 02/03/2020 09:23
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Adam Driver estrela "O Relatório" (2019), filme que se debruça sobre a comissão do Senado americano designada para apurar os interrogatórios de prisioneiros promovidos pela CIA após os atentados do 11/09.

Produzido pela Amazon, "O Relatório" é mais um filme a desvelar os bastidores nada morais da política. Dan Jones (Driver), incumbido pela senadora Fienne Feinstein (Annette Bening) de chefiar um pequeno grupo para investigar a conduta da CIA e elaborar um relatório sobre as chamadas "Técnicas de Interrogatórios Melhoradas" abre a caixa preta da instituição e mostra como o mecanismo age de modo a tentar apagar os rastros de suas falhas.

Nesse sentido o filme logra êxito em conectar os acontecimentos, sempre situando o espectador. Driver vem ganhando meu respeito à cada novo trabalho, a exceção das atuações afetadas na franquia Star Wars. O ator segura bem o protagonismo com um personagem que não pode demonstrar muitas emoções, mas que vai deixando a indignação crescer sem perceber. Annette Bening também se destaca e não seria surpresa vê-la indicada às premiações que se aproximam.

Os fatos reais que deram base a história aconteceram há pouquíssimo tempo e sob a suposta justificativa que os fins justificam os meios. É a tal conversa do bem maior, presente em uma das falas finais de "O Relatório". Esse pensamento só mostra que nossas condutas com o outro não falam sobre ele, mas sim sobre nós.

8.5

*Disponível na Amazon Prime Vídeo

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"Judy", cinebiografia de Judy Garland, mostra o fim do arco-íris da estrela de Hollywood

  • Bruno Omena
  • 19/02/2020 09:00
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Judy Garland maravilhou o público como a doce menina do Kansas que vai parar no mundo mágico de Oz em 1939, mas em 1968 não havia mais tanta fantasia na vida da atriz e cantora.

"Judy" (2019) é a cinebiografia de Garland em sua passagem conturbada por Londres em 1968 durante uma série de concertos que fez na capital inglesa. Permeando o filme também temos flashbacks de Judy nos bastidores de seu primeiro longa, "O Mágico de Oz" (1939). Nesse lugar escondido do grande público descobrimos como os abusos e a pressão da indústria cinematográfica, personificada na figura do chefão do estúdio MGM, Louis B. Mayer, influenciaram os vícios e instabilidade emocional da mulher que nunca parou de caminhar pela estrada de tijolos amarelos.
Renée Zellweger está muito bem interpretando Garland. Além da semelhança física, especialmente nos planos em que está de perfil, a atriz buscou copiar o olhar e trejeitos da biografada, mas seu grande mérito foi nos passar a sensação constante de esgotamento que Judy exalava. Triste ver o rumo não apenas da carreira, mas de sua vida. Por mais irônico que pareça, a eterna interprete da garotinha Dorothy que dizia que "não há lugar como o nosso lar", não tinha um lar para viver e criar os filhos.

O roteiro trabalha esse sentimento de exploração e sacrifício, e mesmo que o filme tenha problemas consideráveis de edição  é uma obra que vale a visita. Seja por Zellweger ou seja por Judy Garland. O final emociona.

7.5

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Tom Hanks encanta no belo "Um Lindo Dia Na Vizinhança"

  • Bruno Omena
  • 17/02/2020 09:00
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Tom Hanks é Fred Rogers, um pedagogo apresentador de um famoso programa infanto-juvenil nos Estados Unidos que muda a perspectiva de vida do jornalista Lloyd Vogel.

"Um Lindo Dia na Vizinhança" (2019) é baseado no artigo da revista Esquire escrita por Tom Junod, incumbido de traçar o perfil do apresentador.
Ao ver o filme me peguei algumas vezes sorrindo com cara de bobo e isso é um ótimo sinal de conexão. As lágrimas também tendem a ser outro forte elo de ligação, mas não vamos entrar em detalhes, rs.
Lloyd, um jornalista investigativo designado para fazer a matéria com Mr. Rogers, era pura descrença  na imagem construída pelo homem da TV que demonstrava-se um poço de atenção e acolhimento com todos a sua volta.
O repórter parecia disposto a desvelar aquela serenidade irreal aos seus olhos.
Os conflitos familiares de Lloyd moldaram sua visão. Dessa forma, passou a enxergar a vida cinza, deixando, assim, de acreditar na existência das cores.
Porém, o contato cada vez mais íntimo com Rogers o ajuda a trabalhar seus medos e angústias. Certamente, também influenciou diretamente para resolver o passado e impedir a repetição inconsciente em comportamentos futuros.

No final das contas, você escolhe  como vai lidar com raiva, dor e mágoas. Como menciona Rogers, há maneiras de trabalhar esses sentimentos sem machucar os outros ou si mesmo. Não é fácil, mas não precisa ser.

9.0

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Nova versão de "Adoráveis Mulheres" atualiza discurso sobre independência e felicidade

  • Bruno Omena
  • 15/02/2020 09:00
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Jo March e suas irmãs voltam para a casa onde viveram na infância para encontrar a caçula que padece de uma doença.

Sob o comando da diretora Greta Gerwig, "Adoráveis Mulheres" (2019) é a oitava versão para os cinemas do livro "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott.
Gerwig decidiu apostar em duas linhas narrativas alternadas durante todo o filme. Assim vemos o presente e passado de Jo e suas irmãs. Saoirse Ronan é a protagonista Jo, cujo sonho de ser escritora é proporcional ao medo de seguir o caminho da grande parte das mulheres: o casamento.
Nesse sentido o filme traz reflexões importantes sobre o caminho que tomamos e o receio de perder a autonomia da própria vida. Às vezes esse temor que nos leva a fugir pode nos deixar preso a outro roteiro engessado. A felicidade não tem destino certo e sucesso profissional não precisa seguir o caminho oposto do campo sentimental.

As irmãs representam bem cada modo de ver a vida. Florence Pugh quase rouba o protagonismo de Saoirse. A jovem atriz que chamou atenção no terror "Midsommar" promete ser figurinha carimbada nas futuras premiações da indústria cinematográfica. Emma Watson, a eterna Hermione da franquia Harry Potter, tem atuação correta, mas discreta e Laura Dern pra variar está ótima, interpretando a mãe das garotas.

Em suma, "Adoráveis Mulheres" é um belo filme sobre caminhos, escolhas, concessões e felicidade.

8.0

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Brasileiro Fernando Meirelles capricha nos estereótipos na produção da Netflix "Dois Papas"

  • Bruno Omena
  • 13/02/2020 09:00
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Dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e produzido pela Netflix, "Dois Papas" (2019) traz uma longa conversa entre o então Papa Bento XVI e seu futuro sucessor, o Papa Francisco. O filme é baseado no livro de Anthony McCarten e tem excelentes interpretações de Jonathan Pryce é Anthony Hopkins.

"Dois Papas" trabalha como porta voz do Papa Francisco, realçando sua simplicidade, virtudes e a aura de um cara legal, bem distante da imagem rígida e extremamente  conservadora do Papa Bento XVI.
Meirelles também dedica tempo para justificar o passado controverso do Padre Bergoglio (Papa Francisco). Alguns poderão empregar o termo da moda "passar pano", mas eu prefiro me manter otimista em acreditar na mudança do homem, que o diretor faz questão de frisar em vários momentos do longa.
Tecnicamente "Dois Papas" tem uma edição confusa e pouco fluida.  Há uma indecisão entre o tom documental e a forma mais tradicional de filmar. É nítido também a intenção de Meirelles em tornar o filme mais leve e descontraído acrescentando trilha sonora pop e humor. Essa informalidade pontual é interessante para atrair um número maior de espectadores.
Até a metade da projeção "Dois Papas" tem ritmo mais lento e fica preso ao contraste entre os dois membros da igreja. A cada cena a direção pinta os dois personagens com cores fortes para não haver dúvidas na cabeça do público quanto às diferentes filosofias. Em dado momento, pensei: "Ok, eu já entendi! Vamos adiante!".
A grande virada acontece quando a dupla vai à Capela Sistina, no Vaticano, para uma conversa franca sobre passado, presente e futuro.
É aí que o filme ganha fôlego, profundidade e melhora bastante.

7.5

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"Jojo Rabbit" - Uma fábula em meio à Guerra

  • Bruno Omena
  • 11/02/2020 09:00
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Taika Waititi nos leva de volta a Alemanha nazista para contar a fábula "Jojo Rabbit" (2019) sobre um garoto fã de Hitler, mas que não entende muito bem a natureza dos judeus até descobrir que uma jovem judia se esconde em sua casa.

O filme de Waititi é carregado de humor politicamente incorreto, porém tudo é feito para exagerar uma realidade por si só absurda. As atuações tem o timing perfeito para  a comédia e para os momentos mais emotivos. Scarlett Johansson e Sam Rockwell estão ótimos em papéis coadjuvantes, Taika Waititi segura bem a reimaginação afetada do Führer, mas o grande destaque vai para o pequeno Jojo, Roman Griffin Davis e da jovem atriz Thomasin McKenzie. A dupla ganha o espectador do início ao fim.
"Jojo Rabbit" pode eventualmente lembrar o oscarizado "A Vida é Bela" (1997), ao brincar e emocionar dentro do cenário triste da Guerra e do Holocausto. Para alguns, um assunto delicado demais para ser pincelado com humor, mas esse filmes são como instrumentos efetivos para a transmissão de mensagens importantes como a coragem, a fé e a capacidade do ser humano de se manter de pé e otimista mesmo diante dos horrores que podem bater à porta.

8.0

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"1917" - O favorito ao Oscar 2020 é um filme para ficar na história

  • Bruno Omena
  • 09/02/2020 09:00
  • Resenha100Nota

A próxima edição do Oscar que ocorrerá no dia 09 de fevereiro tem uma lista de nove filmes concorrendo ao principal prêmio da noite. Para a sorte do público todos os concorrentes estão acima da média e fazem jus a nomeação, porém uma produção dobra a meta e ultrapassa os concorrentes tornando-se uma obra que o tempo se encarregará de colocá-la entre os gigantes do cinema.
"1917", do diretor Sam Mendes, é estupendo. O longa sobre dois soldados britânicos enviados para entregar uma mensagem à um regimento no intuito de evitar a morte de 1600 colegas durante a Primeira Guerra Mundial é um primor.

Sam Mendes idealizou o filme de forma a aparentar um único take. Ou seja, acompanhamos o protagonista integralmente em sua jornada, seguindo seus passos e observando as mesmas ruínas da guerra que seus olhos veem.
O diretor tem o pleno domínio do jogo. Sabe onde colocar as peças para conseguir o efeito desejado. A trilha sonora pontua bem os atos e a fotografia é de encher os olhos. Os planos abertos estão entre os mais bonitos das últimas décadas no cinema.
Posso estar cometendo algum exagero, me perdoem o entusiamo, mas aposto que "1917" terá relevância semelhante a Apocalypse Now, filme de Francis Ford Coppola que revolucionou os filmes de guerra.

10.0

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Oscar 2020 - História e sistema de votação

  • Bruno Omena
  • 07/02/2020 09:03
  • Resenha100Nota

O Oscar é a premiação mais importante do cinema e também a mais antiga. A ideia nasceu com o objetivo de premiar os destaques da indústria cinematográfica e sua primeira apresentação aconteceu em 1929 no Hotel Roosevelt. O prêmio de melhor filme foi para "Asas". O drama "Aurora" também levou por uma categoria similar.
Até 1941 os vencedores eram anunciados nos jornais, após a cerimônia, até que o Los Angeles Times se antecipou e a Academia passou então a selar os envelopes e guardar a revelação dos nomes premiados.
A estatueta, feita de metal e banhada a ouro, chegou a ser produzida em gesso durante a Segunda Guerra Mundial devido ao racionamento de metais. Os vencedores tiveram as estatuetas substituídas pelas originais após o fim daquele período.
Quanto ao nome pelo que ficou conhecido, as versões mais ventiladas são a de uma secretaria notando semelhança entre a estátua dourada e seu tio Oscar, e a versão da lendária atriz Bette Davis que achou o careca de ouro a cara do primeiro marido, também Oscar.

Mas como funciona a votação?

Para se tornar elegível o filme deve preencher alguns requisitos como ultrapassar os 40 minutos de duração, ter sido exibido publicamente nos cinemas no formato 35mm ou 70mm, ou ainda no formato digital de 24 quadros e ter sido exibido em algum cinema de Los Angeles, com cobrança de ingressos, pelo período de sete dias consecutivos.

Cumpridas tais exigências os membros da Academia, dentro de suas áreas específicas elegem seus favoritos de acordo com a ordem de preferência e o número de indicações possíveis da categoria.
Após essa primeira fase os mais citados formam os indicados para cada prêmio. Agora os membros da Academia votam em todas as categorias e vence aquele que obtiver mais de 50% dos votos.

Os habilitados para votar tiveram pelo menos dois créditos dentro da categoria na qual tornaram-se eleitores. O eleitor também pode ter sido convidado por pelo menos dois membros ativos da Academia que apoiaram sua entrada. Por fim, aquele que já foi indicado ao Oscar anteriormente também se qualifica para votar.

Em linhas gerais é assim que funciona a premiação mais charmosa do Cinema.
A edição 2020 está chegando! Façam suas apostas para o dia 09/02!

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Medo de desagradar tira a coragem de "Star Wars - A Ascensão Skywalker"

  • Bruno Omena
  • 23/12/2019 15:20
  • Resenha100Nota

"Star Wars - A Ascensão Skywalker" (2019) é o último capítulo da nova trilogia, que teoricamente encerra a história da família Skywalker e sua luta contra as forças do mal para salvar a galáxia. Após o segundo filme ter gerado polêmica e insatisfação pelas decisões criativas do diretor Ryan Johnson, JJ Abrams, cineasta responsável pelo primeiro longa, foi convidado a retornar ao comando.
Com isso a expectativa era que "A Ascensão Skywalker" diminuísse o efeito Ryan Johnson e de brinde distribuir fan service.

Acontece que a vontade de agradar o público não pode cercear o ímpeto e a ousadia do autor. Infelizmente foi o que vi em "O Despertar da Força" (2015), filme que iniciou a história da catadora de lixo Rey, e agora com o desfecho da trilogia.
Abrams exagerou na mitologia da "Força", algo que sempre enxerguei como sentimento que amadurecia dentro do indivíduo, e transformou os Jedi em super heróis da Marvel.
Esse aumento de proporção tirou boa parte da aventura e investiu tempo e energia em mistérios pouco convidativos e lutas para encher os olhos dos fãs. É inegável que visualmente os filmes impressionam, mas quando o assunto é roteiro e desenvolvimento de personagens a coisa complica.
"A Ascensão Skywalker" sofre bastante nesses dois segmentos. O enredo se divide entre mimar os seguidores fiéis com referências ao material clássico, corrigir equívocos do filme anterior e finalizar a história. Recheando tudo isso você encontrará diversas conveniências de roteiro, soluções fáceis e milagrosas. É um festival de morre, mas não morre que só indica a falta de coragem da direção para tomar rumos mais arriscados. JJ Abrams vai sempre na bola de segurança.
Os principais nomes da nova leva de personagens sofreram com a falta de harmonia entre os três filmes. Finn será menos lembrado que o androide dourado C-3PO e Poe Dameron tinha potencial mas sempre estava fora dos melhores momentos.
Rey foi o destaque e não tinha como ser diferente. Enquanto na trilogia original as atenções eram bem divididas pelos heróis Luke, Leia e Solo, aqui Rey foi criada para não dividir o protagonismo. Todos os plot eram voltados para ela e exceto uma carona ali e outra acolá pela galáxia, a jovem resolveu toda batalha sozinha.
Já o vilão talvez seja o mais problemático. Kylo Ren (Adam Driver) é uma mistura de chiliques e indecisões. Imagino o neto do temido Darth Vader enfrentando o dilema de escolher as opções para o almoço no self service ou a cor que vai pintar o apartamento. Mais inconstante impossível.

Mas o filme é ruim? Não.
Então é bom? Hummm....Não é um desperdício de tempo, mas é um filme menor para o tamanho da franquia.

7.5

*Nos Cinemas

Fantasia e aventura marcam a pérola dos anos 80 "Os Aventureiros do Bairro Proibido"

  • Bruno Omena
  • 18/12/2019 13:43
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"Os Aventureiros do Bairro Proibido" (1986) é uma das maiores pérolas dos anos 80. Se você foi um espectador assíduo das sessões de filmes da Globo, como "Sessão da Tarde" ou "Temperatura Máxima", certamente conhece essa divertida aventura dirigida por John Carpenter e estrelada por Kurt Russel.

Carpenter tem em sua filmografia  outros destaques. O primeiro e mais celebrado longa da franquia "Halloween" (1978), "Fuga de Nova York" (1982) e "O Enigma de Outro Mundo" (1983), ambos em parceria com Russel, que além de ser uma das caras do cinema de ação da época, incorporava como ninguém a figura do anti herói malandro e carismático.
Jack Burton, protagonista de "Os Aventureiros do Bairro Proibido", não foge à regra.

A trama parece fruto de uma viagem alucinógena dos roteiristas.
O caminhoneiro Jack Burton precisa ajudar o amigo Wang Chi, que teve a noiva sequestrada por uma gangue de Chinatown, mas o feiticeiro Lo Pan não pretende deixar que ninguém atrapalhe seu plano para reencarnar em um corpo mais jovem.
Misturando ação, aventura e fantasia, o filme de Carpenter, que inicialmente seria um faroeste, é uma galhofa das boas. Praticamente um cartoon ou um vídeo game divertido em que você precisa vencer os inimigos e o grande chefão para salvar a princesa. Coincidentemente, o longa serviu de inspiração para os criadores da série de jogos Mortal Kombat.

Russel está à vontade no papel. Como falei, o personagem reúne o estereótipo mais identificável daquela geração. John McClane, Indiana Jones, Martin Riggs, Axel Foley e Jack Burton.
O parceiro Wang Chi é a versão asiática de Martin McFly, sempre nervosinho e corajoso. David Lo Pan é o típico vilão inesquecível. Malévolo, controlador e megalomaníaco. Sinto que poderiam ter explorado mais sua figura, que lembra bastante outro símbolo dos anos 80, Mumm-Ra, O de vida eterna!
Outro nome conhecido do elenco é Kim Catrall, famosa por sua participação na série "Sex and City". Ela faz a mulher impetuosa e interesse romântico de Burton.

Kung Fu, tiros, magia e piadas fazem de "Os Aventureiros do Bairro Proibido" uma bobagem divertida que ri de si mesma o tempo todo e a torna uma ótima matinê.

7.5

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Especial de Natal do grupo Porta dos Fundos troca o riso pela polêmica

  • Bruno Omena
  • 13/12/2019 10:53
  • Resenha100Nota

Utilizar o humor como ferramenta para criticar, satirizar e provocar tocando em assuntos delicados não é novidade. O famoso grupo inglês Monty Phyton teve êxito nessa tarefa de fazer graça e gerar reflexão com os clássicos "O Sentido da Vida" (1983) e especialmente em "A Vida de Brian" (1979), filme que traz o personagem Brian, contemporâneo de Jesus, passando pelas provações de seu tempo. Porém, para alcançar o propósito maior de fazer rir e questionar, a comédia que brinca com a história deve se manter distante da ofensa gratuita cujo único objetivo é provocar polêmicas vazias. Tal recurso acaba denunciando certa falta de criatividade para cutucar e ao mesmo tempo chegar a algum lugar.

"A Primeira Tentação de Cristo" (2019) é o segundo especial de Natal do grupo Porta dos Fundos para a Netflix. O primeiro recentemente ganhou um importante prêmio internacional, mas confesso que não encontrei muita graça no especial natalino. Na nova produção continua a carência de um bom texto para aproveitar o talento de Fábio Porchat e Rafael Portugal, os grandes destaques da trupe. As piadas acabam caindo no lugar comum de brincar com a sexualidade de figuras históricas apenas para incomodar, mas se você, na qualidade de espectador, verbalizar o incômodo facilmente receberá a carapuça de conservador, crente (no sentido pejorativo que alguns atribuem) e censor da liberdade. O Porta dos Fundos já mostrou em outras oportunidades que pode fazer melhor.
Comédia e respeito não precisam andar em lados opostos, e ao falar isso não estou me posicionando no lado do politicamente correto. Longe disso. É apenas uma questão de propósito ou da falta dele. A risada é o disfarce do comediante para passar sua mensagem, então, sem algo a dizer, o Especial Porta dos Fundos materializa a criança que quebra a árvore de Natal buscando atenção.

Espero que o Papai Noel traga um presente melhor no próximo ano.

4.0

O grande protagonista do Cinema Alagoano: Elinaldo Barros

  • Bruno Omena
  • 11/12/2019 11:37
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Dono de uma enorme bagagem cinematográfica, o crítico Elinaldo Barros é diretamente associado ao cinema em Alagoas. Seu notório conhecimento faz de sua persona um verdadeiro patrimônio cultural do Estado. Durante anos nos acostumamos a ouvir seu sotaque dando dicas semanais sobre os lançamentos que aterrizavam em nossas poucas salas de cinema.

À frente da "Sessão de Arte", Elinaldo comandou o refúgio das películas à margem das grandes produções comerciais que tomavam conta de quase toda a programação. Diversos cinéfilos saíam de suas casas aos sábados pela manhã para rever clássicos ou conhecer novas pérolas do cinema de autor, e eram recebidos pela cordialidade do ilustre anfitrião.
O amor à sétima arte e a energia empregada em seus projetos, fomentou em mim a vontade de também estudar e contribuir para a divulgação e multiplicação dessa cultura tão mágica, que ganha vida ao apagar das luzes e com o brilho  do projetor.

Tive o prazer de conhecer Elinaldo Barros, mas infelizmente não tive maturidade na época para extrair um pouco da cinefilia e das boas histórias que o crítico acumulou em sua longa estrada pelo cinema.
São os males de uma juventude que transborda energia, mas peca pela pressa. (Ainda espero  reencontrá-lo.)
Arrependimentos a parte, deixo aqui o meu tributo a enciclopédia cinematográfica, Elinaldo Barros, que tal como as valiosas coleções de livros, recheadas de conceitos e conhecimento, resiste ao tempo, pois a sabedoria tem o poder de reverberar eternamente.

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Produção da Netflix com Scarlett Johansson é o melhor filme do ano - "História de um Casamento"

  • Bruno Omena
  • 08/12/2019 10:16
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Chega à Netflix "História de um Casamento" (2019), filme do diretor Noah Baumbach estrelado por Scarlett Johansson e Adam Driver, que traz um casal enfrentando o divórcio em meio à uma confusão de sentimentos.

O longa de Baumbach deve receber indicações para as principais categorias da próxima edição do Oscar e já tem minha torcida. Joaquin Phoenix, até então super favorito pela atuação em "Coringa", ganhou um concorrente de peso. Adam Driver está excelente em um papel mais difícil e sem bengalas de interpretação. Scarlett Johansson faz de tudo aqui. Dança, atua, ri, chora e faz chorar. Juntos, Driver e Scarlett fazem um casal verdadeiro, cuja emoção salta para o espectador. Quando eles estão felizes nós estamos ótimos e quando as lágrimas vêm, bem...
É o êxito da direção em proporcionar emoções genuínas e conectar produção e público. Prestem atenção nos símbolos que a todo momento surgem em tela. É o filme conversando com você o tempo todo.

No início temos o casal lendo em silêncio o relato que cada qual fez sobre as qualidade do parceiro. O objetivo era que o material lido em voz alta pudesse servir para lembrar os motivos que os levaram a se apaixonar pelo outro, visto que durante o processo de separação tais memórias poderiam ser deixadas de lado. Perceberam que "História de um Casamento" já começa metendo o pé na porta dos canais lacrimais?

Porém, diante de mágoas e ressentimentos, as coisas boas vão ficando em último plano. Nicole (Johansson) sentia que no casamento seus desejos eram pouco respeitados e por isso acabou vivendo mais a vida de acordo com a direção apontada por Charlie (Driver). Ela queria algo dela e só dela. Queria mais espaço do que tinha vivendo imprensada trabalhando com marido em Nova York.
Ele queria seguir a vida no ritmo de suas escolhas. Amava o que tinha e isso o impedia de ver que a relação é construídas por "EU", "ELA (E)" e "NÓS". Na verdade ele sabia, apenas não percebeu que Nicole se sentia como apêndice e não como um órgão vital.
E no meio dessa relação, um filho disputado por duas pessoas competitivas que buscavam o "EU".
Sentimentos à flor da pele nos fazem desabar com um simples "Como você está ?", e colocar pra fora o que magoa e o que pode magoar. Muitas palavras ditas no calor do momento não refletem a verdade sóbria, apenas mentiras bêbadas para fazer o outro sentir a dor que você precisa compartilhar e a forma que encontra é machucando quem ama.
Quando há a terceirização da comunicação o assunto íntimo torna-se impessoal. Números, coisas e dias. É a incapacidade de gerir os próprios sentimentos. De fato não é fácil.

Com tempo sua foto não está mais na parede, você não faz mais parte da banda. No anúncio do fim dos Beatles a manchete era: "O Sonho Acabou". Talvez sim, mas se você ler em voz alta a carta que um dia escreveu e tudo aquilo ainda fizer sentido, verá que o sonho pode acabar, mas o amor não.

10.0

*Disponível na Netflix

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Dustin Hoffman e Meryl Streep disputam a guarda do filho no excelente "Kramer Vs. Kramer"

  • Bruno Omena
  • 03/12/2019 21:38
  • Resenha100Nota

Ted Kramer é um homem que coloca o trabalho em primeiro lugar. Sua esposa, infeliz com o casamento, decide sair de casa deixando Billy, o filho do casal, com o marido, mas depois de um ano e meio ausente ela volta para requerer a guarda da criança.

Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Ator, Atriz Coadjuvante e Diretor, em 1980, "Kramer Vs. Kramer" (1979) é um eficiente drama sobre o que estabelecemos como prioridade na vida. Além de abordar a importância da participação de ambos cônjuges na criação dos filhos, o longa também toca no olhar que se deve ter em relação a felicidade do outro. O casamento é um acordo de vontades consensual que requer atenção diária.
Joanna Kramer foi murchando com o passar dos anos devido a falta de sensibilidade do marido em perceber sua tristeza em ter abdicado de sua carreira para assumir o papel integral de mãe e esposa. A saída de casa foi a fuga de uma vida sufocante e por isso é importante não julgá-la de forma tão severa.
Ted, por sua vez, assume a responsabilidade após anos ausente e se restabelece como um pai que ama, cuida e participa.
Impossível não se emocionar com a transformação de Ted Kramer.
Quando o casal entra em uma disputa judicial pela guarda de Billy questões são levantadas. O abandono, a valorização da figura paterna, as feridas do casamento e  a capacidade do pai cuidar de uma criança.
Meryl Streep e Dustin Hoffman fazem um trabalho monumental, em especial nas cenas do julgamento.
O garotinho Justin Henry também se destaca como o filho do casal.

Ótimo filme para exercer empatia e reavaliar nossas escolhas.

9.5

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Martin Scorsese e Netflix apresentam o épico "O Irlandês"

  • Bruno Omena
  • 29/11/2019 09:16
  • Resenha100Nota

Depois de declarações que levantaram discussões sobre o atual cinema e o espaço exagerado dedicado aos blockbusters, Martin Scorsese estreia "O Irlandês" (2019). O filme, uma produção da Netflix, marca a reunião do diretor com uma seleção de lendas de Hollywood. Robert De Niro, parceiro habitual, e Joe Pesci reencontram o Scorsese na história de Frank Sheeran, veterano de guerra e motorista de caminhões que entra para máfia e se envolve com o famoso líder sindical Jimmy Hoffa.
Hoffa, que já foi interpretado por Jack Nicholson em 1992, agora recebe o talento de Al Pacino que pela primeira vez trabalha com Scorsese. O longa ainda conta outro peso pesado, Harvey Keitel em pequena participação.

O filme tem duração aproximada de três horas e vinte minutos, por isso separe tempo para entrar naquele mundo.
O diretor, que coleciona clássicos em sua filmografia como "Táxi Driver", "Touro Indomável" e "Os Bons Companheiros", entrega em "O Irlandês" um verdadeiro épico que faz um recorte de décadas da vida de Frank Sheeran e do meio que ele estava inserido.
A produção, ao contrário de outras, não traz glamour à máfia. O ponto central é a consequência da fidelidade dentro de um ambiente tão violento.
Sheeran precisou tomar decisões que lhe custaram muito, e os anos vividos, mais do que aquele tipo de vida proporcionou aos seus colegas de crime, nos faz pensar sobre dádiva e penitência. Envelhecer com tantas lembranças que gostaria de esquecer deve fazer o tempo passar mais devagar.

Para retratar tantas idas e vindas Scorsese lançou mão de efeitos digitais bem competentes para rejuvenescer o trio principal. O resultado ficou muito bom, mas em algumas tomadas é possível notar a movimentação mais lenta dos atores que não condiz com a idade dos personagens. Se esse foi preço para poder contar com os três, acho que valeu a pena.
De Niro deve colher indicação ao Oscar para Melhor Ator. Mesmo fazendo o mesmo papel de sempre, ele continua excelente. Pesci e Pacino devem disputar uma vaga entre os Coadjuvantes, isso se a Academia não fizer uma dupla indicação. Minha torcida é para Pacino, pois faz o filme ganhar força a partir de sua primeira aparição.
Scorsese já tem vaga certa entre os diretores e surge como favorito. É notável sua habilidade para dar ritmo a longa duração de "O Irlandês" e seu apreço técnico. Podemos dizer que ele não apenas dirige, mas realiza o filme. Tem o controle total da produção e nos entrega uma experiência cinematográfica. Ninguém é obrigado a gostar da experiência, mas impossível negar sua existência.
Por isso, o humilde conselho que dou é: Experimentem, ousem e consumam o cinema fora da caixinha. Deem um tempinho na montanha-russa (que também acho bacana) para conferir "O Irlandês". O parque continuará no mesmo lugar, mas você verá que há muito mais.

9.5

*Disponível na Netflix

**Também está disponível um pequeno vídeo que traz uma conversa descontraída entre Scorsese, Pacino, De Niro e Pesci, analisando "O Irlandês" e suas carreiras.

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As lições do Cinema: Perseverança

  • Bruno Omena
  • 26/11/2019 11:11
  • Resenha100Nota

Perseverar. Ir em busca dos objetivos, seguir em frente mesmo diante das dificuldades tal como Chris Gardner que foi à procura da felicidade dia após dia, lutando e resistindo. Por ele, pelo filho, pelos dois.

É como Rocky Balboa, o boxeador cinderelo, nos ensinou. Não importa o quão forte você consegue bater, mas sim o quanto consegue suportar, porque a vida te baterá forte e não podemos permanecer no chão. O mundo não pára esperando por nossas lamentações. Tampouco espere por tapinhas nas costas por fazer o seu trabalho. Ás vezes, é pela cobrança que nos dedicamos mais e podemos extrair o melhor daquilo que investimos tempo e suor. Quando o jovem Andrew Neiman entrou para a turma do exigente professor Fletcher, no filme "Whiplash", sua perseverança em se tornar um excepcional baterista de jazz foi testada ao limite e é no limite que provamos o quão somos obcecados em continuar em frente.
Outra adversidade comum enfrentada pelos sonhadores (Todo perseverante é um realizador de sonhos) é desviar dos "profetas do impossível", aqueles que sempre aparecem na primeira adversidade com palavras de DESconforto: "Isso não é pra você.", "Melhor tentar outra coisa.", "É impossível!".
Em "Homens de Honra", Carl Brashear, que venceu o racismo da década de 50 nos Estados Unidos para se tornar o primeiro afro americano Mergulhador de Combate Chefe da Marinha, teve que abafar as vozes que gritavam que aquele não era o seu lugar, mas Carl sabia que apenas ele mesmo ditaria seu destino.
Acreditar em si e trabalhar em prol dessa fé é fundamental.
Um pequeno hobbit já salvou o mundo, ou pelo menos a Terra Média, assim como os pais do pequeno Lorenzo ("O Óleo se Lorenzo") conseguiram salvar o filho acometido por uma doença rara que a medicina não conseguia explicar.
E mesmo se no final você descobrir que não tem a devida habilidade para determinado segmento, todos perceberão que tens o talento de perseverar.

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O relacionamento amoroso sob análise no clássico de Woody Allen, "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa"

  • Bruno Omena
  • 22/11/2019 11:00
  • Resenha100Nota

Woody Allen é Alvy Singer, um humorista cheio de neuras que se apaixona pela aspirante a cantora Annie Hall. Ao morar juntos, o relacionamento entra em crise e ambos reavaliam os sentimentos.

Alvy é exigente, tem mania de perseguição e costuma problematizar tudo ao seu redor. Annie se sente confusa e constantemente inferiorizada pelo companheiro e suas manias. Porém o humorista sempre procurou incentivar a namorada a acreditar em si mesma e reconhecer as próprias emoções.
Essa balança de prós e contras dão o peso e significado para o oscarizado "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" (1977).
O longa foi o grande vencedor do Oscar em 1978, levando pra casa as estatuetas de Melhor Filme, Diretor (Allen), Roteiro Original e Atriz (Diane Keaton).

O roteiro de Allen é realmente diferenciado. Verborrágico, intenso e reflexivo, o texto fala com os personagens e com espectador. Ao quebrar a quarta parede e interagir também com os figurantes Alvy mostra que é tão vivo e real como eu ou você. Tão complicado como nós, que achamos que os esquisitos são os outros.
Esse é um dos pecados de quem vive um relacionamento tentando "melhorar" a (o) parceira (o), como se aquela pessoa fosse uma bela pedra de mármore a ser manipulada e esculpida pelas mãos do perfeito escultor. Exigências podem nos fazer crescer, mas o excesso cansa. Aí é a hora que cai a ficha que a boa parceria tem que fazer bem, por isso nos afastamos do escultor e da sensação de precisar fazer sempre mais para cumprir com as expectativas.

O final do filme mostra que é necessário reavaliar o caminho para mudar a chegada. Contar para si a história até que a maturidade nos habilite a escrever a próxima.

8.5

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"Ford Vs. Ferrari" pisa fundo no acelerador e garante uma corrida inesquecível no cinema

  • Bruno Omena
  • 19/11/2019 12:07
  • Resenha100Nota

Dirigido por James Mangold e estrelado por Matt Damon e Christian Bale, "Ford Vs. Ferrari" (2019) traz os bastidores da entrada da Ford Motor Company no setor automobilístico dominado até então pela italiana Ferrari. Mas não se engane, o filme não é sobre carros. Ele diz mais sobre pessoas, paixões, vaidades e lealdade.

Bale interpreta o piloto britânico Ken Miles, cujo temperamento é proporcional ao talento nas pistas. Damon é o ex-piloto e designer automotivo Carroll Shelby que aceita o desafio de projetar um carro e liderar a equipe capaz de vencer a tradicional corrida de 24 horas de Le Mans, na França, dominada há anos pelo vermelho da Ferrari.

Mangold nos coloca não apenas nas pistas, mas principalmente nos bastidores corporativos do negócio. O presidente da Ford, por exemplo, é apresentado como uma figura extremamente vaidosa, uma criança que quer provar que seu brinquedo é o melhor da creche. O contraponto vem com o passional Enzo Ferrari e o nítido comprometimento com o esporte.

As cenas de corrida são muito boas e mantém a visão do público próxima da pista, onde risco de colisão é maior e a típica megalomania de capotamentos e batidas extravagantes de Hollywood é deixada de lado. Dentro do cinema é possível sentir perfeitamente o barulho dos motores que só ressalta o belo trabalho da equipe de som da produção.
Bale e Damon devem ser lembrados pela Academia do Oscar, com mais chances para o primeiro. A indicação para Melhor Filme, Roteiro e Direção também é uma possibilidade.

O roteiro, por sinal, equilibra muito bem os dramas de "Ford Vs. Ferrari", acelerando e freando de acordo com o desenvolvimento da história. Se você não estiver familiarizado com os fatos reais irá aproveitar ainda mais essa corrida. Ganhar o espectador a cada volta, deixando-o apreensivo com a prova, chateado com os conchavos e torná-lo um torcedor é o grande mérito do longa.
Miles, um exímio piloto, mostra que
é conhecendo os limites que atingimos todo o potencial, e é no percurso que se faz um campeão.

9.0

*Nos Cinemas

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Entre erros e acertos "Doutor Sono" entrega um bom filme

  • Bruno Omena
  • 11/11/2019 10:18
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"O Iluminado" é um dos livros mais famosos de Stephen King a ganhar uma adaptação cinematográfica e também um dos casos mais controversos. Apesar do sucesso e dos elogios, King torceu o nariz para a versão de Kubrick.
Quase 40 anos depois, "Doutor Sono" (2019) chega aos cinemas adaptando a continuação do livro escrita por King em 2013 e ao mesmo tempo reverenciando o longa de Stanley Kubrick que tanto irritou o escritor.

A trama nos mostra Danny Torrance (Ewan McGregor), o pequeno sobrevivente do inverno no Hotel Overlook, que conseguiu fugir com sua mãe da loucura que acometeu o pai, Jack Torrance, em 1980. Já adulto, Danny aprendeu a lidar com os fantasmas do Overlook que tentaram persegui-lo, mas recebeu o alcoolismo como herança maldita do velho pai. As sequelas das experiências traumáticas da infância e o peso da responsabilidade por seu dom iluminado são evidentes.
Então, sem grandes expectativas na vida, Danny segue pulando de emprego em emprego, sem rumo ou direção, até chegar a Hampshire, onde finalmente encontrou um pouco de paz.
Lá ele inicia uma estranha amizade com Abra (Kyliegh Kurran), uma garota iluminada que lhe pede ajuda quando descobre que um grupo de andarilhos matou outra criança que possui a "iluminação". Os assassinos, chamados de "O Nó", matam jovens iluminados para se alimentar do vapor que os tornam especiais. Assim eles permanecem fortes e jovens por muito tempo.

O filme é dirigido por Mike Flanagan, responsável por "Jogo Perigoso" (2017), produção da "Netflix" à partir de outro livro de King. O diretor faz um trabalho bem competente quando se aproxima do material original, porém ao tentar imitar o estilo de Kubrick, em planos e jogo de câmeras, o resultado é insosso. Talvez, a exigência do estúdio em conectar ao máximo "Doutor Sono" e "O Iluminado" tenha prejudicado o novo filme a se desenvolver como uma obra independente. A decisão de recriar cenas clássicas e colocar sósias de Jack Nicholson e Shelley Duvall, ao meu ver, foi um erro crasso. Até gostei do uso dos espíritos do Overlook, da volta ao hotel e como ele se conecta com o fim da história, mas passaram do ponto.

Mesmo com essas ressalvas, gostei do filme. Bons personagens, elenco correto, efeitos dignos e o enredo consegue unir as três pontas narrativas do roteiro. Tentei afastar minha análise do "filme que eu gostaria de ver" em prol do "filme que vi", pois pessoalmente eu preferia acompanhar uma trama mais focada em Danny Torrance e seus demônios interiores.

Para quem esperava uma produção no estilo de "O Iluminado" (1980), aviso que "Doutor Sono" está mais próximo da energia do recente "IT" (2017), apesar do esforço da Warner em agradar gregos e troianos, Kings e Kubricks.

8.0

*Nos Cinemas

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Um tema relevante: "A democratização do acesso ao cinema no Brasil"

  • Bruno Omena
  • 08/11/2019 10:28
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"A democratização do acesso ao cinema no Brasil"

Democratizar é tornar popular, ao alcance do povo, da maioria da população, segundo o conceito encontrado no dicionário. Entretanto, o cinema, que deveria ser uma forma de arte acessível ao maior número de pessoas possível, atualmente está longe de seguir o caminho da democratização.
Em uma pesquisa rápida pela internet você pode visualizar melhor essa situação. Boa parte (boa mesmo) das salas de exibição  estão concentradas em áreas de Shopping Centers e isso implica diretamente na atual centralização do cinema.
Os chamados cinemas de bairro estão praticamente extintos, assim como aqueles que existiam nos pequenos interiores do país. Ainda é possível encontrar esqueletos de velhos guerreiros que recebiam o público ávido pelo novo faroeste ou pelas comédias dos Trapalhões. Sempre que me deparo com esse antigos Cinemas em ruínas a tristeza é proporcional ao questionamento sobre a falta de engajamento social e político que deixou a arte morrer.
Diante disso a consequência ficou evidente.
Uma parcela significativa da população deixou de ir ao cinema, seja pela distância ou pelo alto custo do entretenimento, que ao se vincular aos Shopping Centers "precisa" repassar os custos ao consumidor.
Assim, o cinema se afastou do público quando deveria ir ao seu encontro, removendo quaisquer obstáculos ao seu acesso. Democratizar a sétima arte não é apenas abrir um canal de entretenimento, que por si só já seria importante, mas também estimular a informação e possibilitar o contato com novos mundos, realidades e cultura. O cinema é magia e inspiração. Tudo está relacionado. Filmes podem transformar pessoas e pessoas mudam a sociedade.
Logo, a relevância do tema é indiscutível, e no país das desigualdades sociais é preciso debater e lutar sempre pela inclusão.

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Novo filme da franquia "O Exterminador do Futuro" extermina o que havia de melhor em sua mitologia

  • Bruno Omena
  • 04/11/2019 11:27
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Desde "O Exterminador do Futuro 2" (1991) a franquia iniciada por James Cameron tenta repetir o sucesso dos dois primeiros filmes. Porém as produções que vieram a seguir ficaram muito aquém do esperado e é praticamente unânime a baixa qualidade das sequências. Nem mesmo a recorrente presença do astro Arnold Schwarzenegger salvou o barco.

Cameron, que nunca esteve envolvido nas malfadadas continuações, recuperou o domínio da marca "O Exterminador do Futuro" e decidiu produzir mais um filme baseado em uma história própria que prometia ignorar tudo que aconteceu após os eventos do segundo longa.
Para essa missão Cameron recrutou Tim Miller (Deadpool) para a direção, David Goyer para roteirizar e Linda Hamilton para reviver Sarah Connor, mãe de John, o líder da resistência contra as máquinas no futuro apocalíptico.

O problema é que "O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio" (2019) não é um continuação genuína do longa que marcou época em 1991. Na verdade a trama dá um belo chute em todo plot de John Connor e Skynet para contar uma nova história de olho nas tendências atuais do cinema. Se você olhar com atenção, a personagem de Sarah Connor é tão irrelevante para o desenvolvimento do enredo que se ela fosse substituída por outra não faria a menor diferença. Sua presença, infelizmente, é usada apenas para atrair os fãs mais nostálgicos.
É, de fato, uma pena que Cameron tenha optado por sepultar toda a mitologia da família Connor para investir numa heroína de apelo zero.
"Destino Sombrio" começa bem promissor com uma cena sensacional que recria digitalmente as versões jovens de Sarah, John e do Exterminador. A visão dos esqueletos de metal saindo da água com armas nas mãos ainda são impactantes. O final também não é de todo mal. A sequência de ação é bem competente. Mas, e sempre tem um "mas", o miolo do filme é cansativo, repetitivo, cheio de clichês e tem os diálogos mais preguiçosos dos últimos anos.
O roteiro é desleixado e entrega soluções pobres para questões pobres.
O elenco não chega a ter culpa. Mackenzie Davis é ótima, mas parece ter caído de paraquedas em uma história frágil. Hamilton faz apenas presença vip e Arnold tá lá para nos lembrar que a franquia perdeu o rumo de vez quando passou a utilizá-lo como chamariz decorativo para vender o filme.

As cenas de ação, ponto alto da série, também perderam o apelo diante da insistência do embate de exterminador e mocinhos (as) a cada 5 minutos.
Criatividade passou longe e não foi dessa vez que o mundo foi salvo de mais uma sequência pálida de "O Exterminador do Futuro".

5.0

*Nos Cinemas

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A paixão supera o tempo no romance "Guerra Fria"

  • Bruno Omena
  • 29/10/2019 13:08
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Indicado em três categorias na última edição do Oscar "Guerra Fria" (2018) é um drama polonês dirigido por Pawel Pawlikowsvki que narra o romance entre o pianista Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig), na Polônia pós-Guerra.

Na época de seu lançamento acabei deixando-o passar e só agora pude conferir esse belo filme. "Guerra Fria" tem uma das fotografias mais bonitas que já vi. Todo em preto e branco, o longa de Pawel aposta nos contrastes, sombras e luz, direcionada conforme as emoções.
Tomasz Kot e Joanna Kulig preenchem a tela com uma dinâmica tangível. Aliados a cinematografia utilizada pelo diretor, somos conduzidos por um filme que perpassa a linha temporal da dupla tal qual um álbum de fotografias, em que as imagens falam por momentos.


Me lembrou, em certa medida, um pouco do clássico "Casablanca" (1942). Um casal que tem o relacionamento interrompido por circunstância políticas, mas que conserva a paixão durante anos. A música os conecta, como "As Time Goes By" apertava o gatilho de uma época feliz. E se Rick passou anos tentando esquecer a mulher de sua vida, o maestro a perseguiu para conquistá-la.
Diferente do filme de Bogart e Bergman, para o par romântico de "Guerra Fria" Paris não foi uma lembrança para se apegar no vazio da distância. O filme nos mostra o casal vivendo na Cidade Luz, onde a realidade da convivência guarda as devidas discrepâncias da idealização dos enamorados.
Seria um exercício de imaginação que brinca com o destino dos amantes de "Casablanca" se Rick tivesse embarcado no avião para continuar a história de amor com Ilsa.
Entretanto, "Guerra Fria" não tem o mesmo otimismo da década de ouro de Hollywood. Talvez esteja bem mais próximo do neo-realismo italiano, caso tivesse que encaixá-lo dentro de algum movimento cinematográfico.
O amor romântico se choca com o amor vivido, fere, é ferido, insiste e persiste, mas não deixa de ser amor, porque mesmo que o tempo tente desgastá-lo em suas idas e vindas, quando se está apaixonado a velocidade dos ponteiros não importa.

9.0

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