Raízes da África

Vim aqui só para te receber-disse Augusto César,presidente do IZP.

  • 24/10/2020 21:38
  • Raízes da África

 

Como ativista preta e coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas estivemos com ,o  radialista Augusto César  e atual, presidente do IZP , ou  Instituto Zumbi dos Palmares (IZP), numa reunião em seu gabinete na sede do Instituto.

O objetivo do encontro foi não só  a criação de espaço de conhecimento /reconhecimento, como também discutir projetos ,em parceria, com o orgão estatal , tendo como foco  dar voz ao diálogo preto produtivo .  

Simpático e muito receptivo Augusto  nos contou de suas experiências na profissão e, discutamos , a partir da perspectiva preta, a continuidade das ações

-Ainda estamos trabalhando de forma on-line, cada um em suas casas, mas fiz questão de vir aqui só para te receber disse Augusto.

Fiquei grata pela atenção e atendimento impecável.

Obrigada, Augusto!

 

Quando começa o horário eleitoral, a pergunta da minha mãe,quase 89 anos, é sempre a mesma: cadê,Heloisa Helena?

  • 24/10/2020 20:48
  • Raízes da África

Minha mãe conhece Heloisa Helena faz bem uns 20 e tantos anos.  

É  admiradora , fã de carterinha e eleitora fiel. Sabe como é que é, né?

A matriarca, de quase 89 anos,  percebe a história de vida de Heloisa Helena como um parte da sua própria história. Segundo minha mãe Heloisa Helena é uma mulher que vai atrás do que quer , luta sem medo, e não abaixa a cabeça para ninguém.

Nascida nos tempos em que as opressões, por ser mulher , preta e pobre, eram regras aprofundadas , a matriarca respira essa liberdade inventada, a partir das posturas assertivas de Heloisa.

E toda vez que  começa o o horário eleitoral ( estamos em tempos de campanha política),  minha mãe,quase 89 anos,faz sempre  a mesma pergunta : cadê,Heloisa Helena?

Daí explico que segundo as regras eleitorais,  o partido que não ultrapassou a cláusula de barreira  não tem direito a horário na tv e como o partido de Heloisa não atingiu a meta ficou de fora..

A matriarca ouve e fica  mastigando a informação,  depois fala, convicta:- ela pode nem aparecer na tv, mas , está bem presente na memória do povo. Pelo menos na minha está.

A matriarca é eleitora fiel de Heloisa Helena.

É, assim...  

 

Se faz necessário registrar o profissional diferenciado que é o Batista, o técnico de enfermagem da UNIMED.

  • 24/10/2020 16:07
  • Raízes da África

Batista é técnido de enfermagem da UNIMED,Maceió.

Um sujeito  afável, grandão em estatura e na singela do saber acolher dores alheias.

Em época de pandemia, o  isolamento forçoso, as inseguranças postas, e a complexidade da vida tem levado  muita (muita) gente ao adoecimento da alma, que se reflete, diretamente, no corpo físico.

Como a matriarca estava apresentando um quadro de instabilidade  na saúde chamamos  o Atendimento Domiciliar da UNIMED ( uma coisa boa que o plano de saúde oferece)  para a verificação médica, daí a profissional   perguntou o que minha mãe estava sentido e ela respondeu:- tristeza!

A médica ouviu e tecnicamente  para fechar dignóstico estendeu o questionamento, em  busca de  sintomas  mais especificos. Postura correta da profissionasl, mas, aí, no meio de toda essa história ( ou será consulta?)  entra o Batista.

Ao ouvir minha mãe falar da tristeza ,Batista, o técnico de enfermagem, aproximou-se dela e,empaticamente acolheu o sofrimento e desfiou uma conversa de carinhos e cuidados com a senhora-paciente.

Palavras de afetos e aconselhamentos:- Deixe as preocupações para seus filhos, a senhora tem que viver a vida, já trabalhou muito e etc e tal.

Uma conversa rasgada de atenção e humanização ( saúde é isso, né?) , um gesto tão bonito  que  se faz necessário  registrar o profissional diferenciado que é o Batista, o técnico de enfermagem da UNIMED.

Obrigada, Batista!

PS: A matriarca está bem.

 

 

 

[email protected] [email protected],Jonas Seixas,morador da Grota,pai de família, cidadão eleitor está sumido.Cadê o Jonas?

  • 23/10/2020 21:20
  • Raízes da África

Jonas Seixas da Silva, 32 anos,homem, preto, pobre e periférico, sumiu dia 9 de outubro.

Jonas que tem ofício de servente de pedreiro é morador   da Grota do Cigano, no bairro do Jacintinho, em Maceió, capital de Alagoas.

Jonas é morador das grotas, uma parte dessas  periferias   distantes, abandonadas e invisíveis  o ano todo, mas que em época de eleição são invadidas por  propostas obesas de melhorias sociais.

Desaparecido faz dias,Jonas Seixas,  continua sequestrado pelo conivente silêncio social.

Por que o  desaparecimento de Jonas Seixas não nos incomoda ou mobiliza uma indignação coletiva?

Por que é preto?  

Por que é pobre? 

Ou, porque esse assunto não nos interessa, afinal,nem parente, nem amigo, nem próximo ele é .

Não é mesmo?

Mesmo sendo um cidadão  eleitor, o sumiço de Jonas Seixas  faz vazio nas agendas da maioria dos candidatos.

A filha mais  mais nova, de Jonas tem oito anos assistiu a apreensão do pai. A menina diz para a avó: ‘olha, vó, eles pegaram o meu pai, a polícia pegou o meu pai, meu pai não fez nada, por que isso, vovó?’.

Jonas  tem dois filhos.  

Por que a identidade/sociedade alagoana não dialoga com o sumiço do Jonas?

 

Fico cismando da janela contando todos os gatos pardos

  • 22/10/2020 17:30
  • Raízes da África

Faço resgate,do papel amarelado, de um poemeto que escrevi em tempos outros , nos idos dos anos 80. Morava eu em Belém do Pará, a cidade morena.

Cismando

Passo noites sem dormir

olhando o movimento do mundo.

Minha mãe escreve carta pungente falando de saudades.

Não sei o que fazer neste sábado noturno,

sem dinheiro no bolso.

Meu amor citadino tem cio de rua/

compenetrado veste roupa de festa e vai à porta.

Fico cismando da janela contando todos os gatos pardos  

ciscando em terreiros alheios.

A nostalgia de dias outros invade esta noite/

faço força para não chorar o sal da vida.

Ânsias de sair correndo e meter o pé na lama.

A tristeza cabisbaixa cisma com o sonho.

Arísia Barros

Agradeci ao menino de sorriso bonito, a felicidade pulando corda na alma da gente.

  • 22/10/2020 13:55
  • Raízes da África

Encontro o  menino Pablo, na porta do Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa), localizado no bairro Farol,em Maceió,AL.

O  Cepa  é o maior complexo educacional da América Latina .

Plabo , aluno da  Escola Professor José da Silveira Camerino, popularmente conhecida como Premen,  se aproxima com um sorriso com um sorriso desenhado no rosto :

- Foi a senhora que estava naquela palestra sobre racismo no CENFOR-(Centro de Formação dos Profissionais da Educação Professor IB Gatto Falcão0)?

Respondi que sim e o menino, escancara, ainda mais,  o sorrisão e fala:

- Foi muito bom. Tirou a mesmice das aulas. Precisa acontecer mais vezes e reafirmou:- Foi muito bom,mesmo!  

Gostei.

Agradeci ao menino de  sorriso bonito  , a felicidade pulando corda na alma da gente.

Encontrar o Pablo deu cor e  suaviizou a aridez dos caminhos diários do ativismo da preta.

Caminhemos..

 

Escrito em 2019.

 

Há tantas propostas de mudanças mágicas que é bem capaz das periferias, em Maceió,virarem uma Ponta Verde.

  • 20/10/2020 21:44
  • Raízes da África

Os reclames ,tendo como pano de fundo o povo preto,pobre , das áreas favelizadas ou periféricase  tem invadido as telas da tv, no horário político.

A máquina de fantasiar um  país  de Alice ( que maravilha!) nos discursos, brilhantemente, articulados por profissionais   da comunicação tem exposto soluções , tiradas da cartola,  para abarcar essas gentes dessassistidas, de quase tudo na vida, e suas dores seculares.

Em tempos de campanha política,direita, esquerda, volver,  a  fome  e as vulnerabilidades dos territórios inchados de abandonos, na capital das Alagoas, das eternas secas , se faz um  negócio da China.

Há tantas propostas de mudanças mágicas que é bem capaz das periferias,em Maceió, virarem uma  Ponta Verde.

A juventude moradora das periferias  discriminadas sofre abordagens (baculejos)da polícia,nas áreas nobres, plenamente  naturalizados pela  sociedade seletiva..

São pessoas subnutridas de importância.

Quem liga para o Black Lives Matter?

Importa para quem?

Quem vai encarar o desafio de discutir , de verdade-verdadeira, o genocídio  da juventude preta,a real redistribuição de renda,ou o racismo estrutural, que  segrega, aparta e mata tão frequentemente, essas gentes das periferias?

Essas gentes  que, durante o ano todo-todo-ano  são descartáveis, socialmente, mas, quando se transformam em [email protected]  vestem importância suprema   na corrida insana, estratégica e melimétrica  pela   captura do voto.  

E os "reclames"  transbordando da emoção de novela ( vote em mim para ter uma vida próspera!) buscando  motivar a cumplicidade das emoções populares, e  se apropriarem do discurso reciclado e perpetualizado e principalmente, vitálicio, que aprisiona o  voto do povo, ( faz tempo, carrega malas esgotadas de esperas infindáveis), em ciclos geracionais das famílias.  

Espaços de privilégios.

Por que a política explora tão des-ca-ra-da-men-te a miséria do povo?

Cadê o Jonas?

 

 

-Estou operado. Preciso de muletas- pede o menino de 4 anos.

  • 19/10/2020 21:04
  • Raízes da África

É dia de imunização vacinal e o menino vai com  a mãe , até o Posto de Saúde.

Um dia antes tinha  conversado com ele,  afirmando que  a  vacina era da gotinha (a dose extra da vacina oral contra a poliomielite)  e não dóia. O  menino se fez  confiante.

Chegando no Posto a mãe foi avisada  da necessidade de outras vacinas e o menino   recebe (surpresa!) agulhadas nas coxas.

Saiu mancando- me contam- e quando chegou em casa , me ligou dizendo :

-Arísia Barros, estou operado, preciso de  muletas.

Pergunto, prendendo o riso e com a dramaticidade, o que aconteceu. Fala do "monte" de vacina que tomou e  diz e sente dor ao caminhar. Digo-lhe para ficar  em repouso, que logo passa.

Ele suspira e reafirma a necessidade de muletas.

Ah! qual, criativo, performático  é esse  menino de 4 anos. 

Uma peça rara.

Dêdei!

PS: O menino já está recuperado da “operação”

Pelé é o preto que sempre acreditou que a fama, o poder e o dinheiro o tornariam branco.

  • 19/10/2020 18:54
  • Raízes da África

O escritor , pesquisador carioca Vagner Fernandes, escreve:

"Um homem que renega a filha que, por treze (sim, TREZE) vezes em seis anos fez teste de DNA buscando reconhecimento paterno, pode ser ainda chamado de rei?

 Um homem que, quando essa mesma filha morreu de câncer, comunicou que não iria ao enterro por não ter qualquer relação afetiva com ela merece ser celebrado? 

Oh, não misturemos a trajetória profissional com a vida pessoal. Isso se chama esquizofrenia.

 Quem fez mil gols dentro de campo e errou um pênalti por mau-caratismo e mesquinhez com uma filha perdeu a coroa moral. 

Não reverencio Pelé em seus 80 anos. Aliás, Pelé é o preto que sempre acreditou que a fama, o poder e o dinheiro o  tornariam branco."

Fonte: Facebook do Vagner

 

Você é uma mulher de fibra que luta pelo que acredita de verdade- me diz Alfredo Gaspar.

  • 17/10/2020 09:41
  • Raízes da África

 

Como ativista preta e coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, estivemos em uma conversa de bastidores, com Alfredo Gaspar um dos candidatáveis à vaga para  condução da prefeitura de Maceió, a partir de  2021.

A conversa teve forte marcação com o tema da causa de pretos. Disse-lhe,  dos  inúmeros  diálogos  políticos que o Instituto Raízes de Áfricas promoveu nas tantas e muitas campanhas eletivas de anos passados, inclusive com o atual prefeito, e que no final,  as tais promessas "vou fazer isso e aquilo" viram águas afogadas em mares de esquecimento politico, e lanço o questionamento ao candidato:- o partido do qual você é filiado  e os partidos que se coligaram não tem nenhum histórico no combate ao racismo estrutural e como campanha política é negociação futura de cargos,, como você acha que vai poder criar um espaço para discutir a questão do racismo sem interferência política destes partidos?

Alfredo , pega a palavra para dizer que : “Arísia Barros, sou um cara de 50 anos, já testado na vida, minha autonomia nunca será colocada em dúvida, sou uma pessoa de princípios. Não sou homem de promessas. Sou do tempo que homem tem palavra. Além no MP sempre estive de portas abertas pra essa temática, e te recebi várias vezes.”

E aproveita para nos fazer o convite: "Quero muito poder contar com  sua luta, a parceria, por uma Maceió menos desigual."

Fico feliz com as palavras que dão destaque a nosso ativismo e falo das  verdades intrínsecas e do   auto-respeito incomensurável pela história que venho construindo ao longo dessa jornada, (com as bençãos do meu povo espiritual. Atotô!) e que que em muitos momentos a jornada se faz  excessivamente, exaustiva, conto também  do silênciamento observador e reflexivo  nascido em mim, nos tempos longos pandêmicos de isolamento e que venho me organizado dentro desse tempo de ponderações. 

-Por isso te admiro e respeito- finaliza Alfredo.

O reconhecimento público ao traballho que a gente faz é combustível para continuar na peleja.

Obrigada, Alfredo!

 

 

Aos 6 anos,Aeesha Ali passa talco nas bochechas para parecer branca.

  • 16/10/2020 21:27
  • Raízes da África

A menina , Aeesha Ali tem 6 anos é "mestiça" (segundo a mãe)  passa talco nas bochechas porque “está desesperada para parecer clara”-

Uma coleguinha da escola  chegou a dizer que Aeesha  deveria usar alvejante para ficar "mais branca" e, desde então, Aeesha tem esfregado  o talco.

A pequena se desespera cada vez que tem que ir pra escola.

Uma outra coleguinha já puxou  a menina pela gola da blusa, em uma tentativa de sufocá-la.  

O racismo é mortal.

Crianças da mesma idade da menina  a diferenciam por causa da cor de pele.  

O racismo é segregador.

A partir de uma dor imensa e ataques à auto-estima ,menina   já reinterpreta  e vivencia o poder massacrante do  racismo estrutural .

Aeesha Ali tem só  6 anos .

 

Fonte:https://paisefilhos.uol.com.br/crianca/relato-de-mae-minha-filha-de-6-anos-passa-talco-no-rosto-para-ficar-branca-apos-sofrer-bullying/?fbclid=IwAR3NROsYOZgIx68KCWIpB4qQR3LHCJekScQ9qVuKKbD2J-2vr7BEVlBM6E4

 

Os alunos que me tornaram uma preta ativista estão mortos.

  • 15/10/2020 15:09
  • Raízes da África

Fui professora de [email protected] [email protected], [email protected], diferentes, mas, tem  algumas histórias que, de tão significativas, tornaram-se inesquecíveis.

Tem a história de dois alunos que me marcaram, profundamente, e abriram cancelas n'alma para  novos olhares interpretativos do mundo.  

Mundos que segregam, criminalizam.

O Cícero, um preto  adolescente,fruto de uma pobreza extrema, literalmente desdentado, de tanto ser  motivo das piadinhas racistas de outros jovens , decepcionado com  os  "deixá-pra-la" da direção da escola ( ah! é tudo brincadeira de jovens)  e a quebra permanente da auto estima ,que dificultava o aprendizado , simplesmente jogou a toalha, desistiu da escola.  

A escola é uma dos lugares, mais segregadores e conservadores e que retroalimenta, cotidianamente,  o racismo estrutural.

Quantas escolas, em Alagoas, dialogam com a Lei  Federal nº 10.639/03 e  a Lei Estadual nº 6.814/07?

A última vez ( faz tempo) que o encontrei ,Cícero, liderava um grupo de outros meninos pretos, como ele, e que cometiam pequenos roubos no Mercado da Produção, bairro da Levada, em Maceió,AL.

Nesse dia um dos meninos tentou me levar alguns pertences, mas, me reconhecer, Cícero, meu ex-aluno,  se interpôs :- Minha professora, não!

Cícero foi morto pela polícia, ainda na adolescência.

E tinha , também, o Daniel, um outro preto lindo, pobre,periférico e evangélico.

As muitas confusões da adolescência, a ausência do afeto que educa e toda pressão  de ser um menino preto levou-o para o mundo das drogas.

A última vez que o encontrei fez o pedido: - Tia, arruma um emprego pra mim...

Daniel foi fuzilado por uma gangue.  

Fui professora do Cícero e do Daniel. Dois meninos pretos, pobres, imperfeitos, periféricos, com as almas carregadas de sonhos.

Fui professora dos dois e   a grande lição que me ensinaram  foi a do ativismo, da resiliência.

Resistir, porque  jovens [email protected] tem direito ao futuro e suas vidas importam.

Que estejam em paz!

 

 

-Você é uma bruxa?-pergunta a moça.

  • 12/10/2020 21:02
  • Raízes da África

Encontro a moça em um canto qualquer do mundo. Eu e ela ocupamos  mesas, em  universos paralelos de  caminhos e vivências. É a primeira vez, depois de 7 meses de um exaustivo tempo, entre as paredes da casa, que sento em uma mesa ,ao ar livre.  

Horas assim, na tarde solada, depois de muito  jogar palavras ao  vento , dirijo-me até a mesa da  moça  e  iniciamos uma conversa de reconhecimentos.

Nunca a  vi , mas, conto-lhe da necessidade do auto-cuidado ( ela suspira) . Digo-lhe que ela  precisa cuidar da alma que travada, esmaga caminhos.

Falo sobre um  episódio que sofreu na adolescência e que emudecido se transforma em monstros noturnos e cotidianos.

-Como você sabe disso tudo? Não te falei nada- ela  assusta. Afirmo que nem sempre é necessário a verbalização para a escuta de almas alheias.

-Você é uma bruxa?- ela pergunta.

Rio e reafirmo da necessidade dela se cuidar.  Mostra preocupação, pois, não sabe  a quem procurar.  Entro em contato com minha amiga Telma, para  obter contatos sobre o Alô Saúde Mental, do governo do estado.

Ela protamente e responde e compartilho os  contatos com a moça . E depois de muitas palavras   faladeiras de vida, nos despedimos.

Ela agradece e se vai. Sigo meu caminho tecendo teias de aconchegos, gratidão  e energias espirituais.

Torço , de verdade, para que a moça se cuide.

Atotô!

 

 

 

Era uma senhora preta de porte elegante e na pele carregava a sujeira do mundo todo.

  • 12/10/2020 10:37
  • Raízes da África

Era uma senhora, na casa dos 60 anos, e estava  sentada de pernas cruzadas, no batente de uma  calçada do mundo.  

Uma calçada  feito ponte , entre o abandono social e o acolhimento improvisado, para  um corpo preto de mulher.

Ela fumava um cigarro, com uma classe inusitada , conversava para além do entorno que habitava, olhava para mundos de fantasia, que a salvava do caos.

Nos pés que balançavam ao vento, portava um sapato branco , com design de pequenos furos, mas, de tão sujos os sapatos desembranquiçaram.

O vestido da mulher trazia flores desboatadas, de tempos da rua  De tempos sem rumos , desaprumados.

Eu a vi de longe e  ao passar por ela, cumprimentei-a, mas, não recebi respostas. Ela continuava, por ali,  na ladainha das palavras avessadas de vida, fumando seu cigarro , elegantemente, de pernas cruzadas.

Salve, Cidinha!

Abandonos!

 

E chegou mais um Círio de Nazaré. Peço tua proteção santa Nazinha!

  • 11/10/2020 08:20
  • Raízes da África

Estava eu na casa dos 20 e poucos anos, uma matuta ousada, avexada para conhecer outras vidas, quando desembarquei de mala e cuia, em Belém do Grão Pará.  

Lá morei por seis anos profícuos de descobertas e sonhos. Foi em Belém que me tornei redatora públicitária e tenho muita gratidão ( muita, mesmo!) por Osvaldo Mendes, da maior agência do Norte-Nordeste, a Mendes Publicidade.

Foi na Mendes que comecei meu estágio da publicidade e logo depois fui contratada como profissional. Trago,ainda a carteira de trabalho, como lembrança de uma época alvissareira,de grandes conquistas.

Belém foi a grande revolução em minha vida de menina nordestina. Cheguei uma moça um tanto emparedada por conceitos, me fiz uma revolucionária,metendo pés, em algumas limitações impostas.

Muito dessa mulher que hoje sou,  devo  às experiências vividas na Cidade Morena.

Em Belém tive dois grandes amores, que se tornaram casamentos . Ambos guardo na memória emocional.  

Em Belém do Pará verdejei possibilidades, por entre caminhos de mangueiras e noites sombrias. Nem tudo foi festa, mas, transformou-se  em estrume de crescimento.

Em Belém conheci a devoção ao Círio de Nazaré.

Só participei de um Círio, entretanto guardo aqui n'alma  a emoção de ver a "Nazinha" (Nossa Senhora de Nazaré) sendo saudada pelo povo.

 Foi exuberante! Foi lindo!

Faz tempo grande que estou longe, Nazinha. E lá se vão vinte e tantos anos que voltei para casa, para Alagoas , no  Nordeste, a casa afeto,mas, saiba que o  outro lado do meu coração pousa em ti.

Peço tua proteção  santa , Nazinha. Protege esse mundo tão insano . Está tudo muito confuso.

Chegou mais um domingo de outubro, do Círio e  daqui das Alagoas valente, mando energias de vibração para festa santa e para a outra,  a profana.

A corda, povo.

Acorda!

Sua benção, Nazinha!

Saudades!

 

A intelectual,terrivelmente, macumbeira escreve:

  • 10/10/2020 07:14
  • Raízes da África

A ialorixá Rosiane Rodrigues é uma macumbeira arretada, doutora em antropologia , pesquisadora da Universidade Federal Fluminense , estudiosa  premiadíssima em pretitudes e religião afro e minha amiga e com uma percepção aprofundada  sobre mundos e gentes.

"Escolhemos como as grandes perdas, as tragédias e as traições afetam as nossas vidas. Podemos nos encher de auto piedade, vítimas do mundo cruel e seguirmos culpando a tudo e a todos pelas frustrações e malogros que fatalmente aconteceram, acontecem e acontecerão.  

Ou podemos erguer a cabeça, respirar fundo, colocar o pé no caminho, aprender a lição que a vida trouxe e ter como metas "vai passar", "não repetirei o erro", "sigo agradecendo pelo que aprendi".  

As duas modalidades de lidar com os entraves que a vida nos oferece tem muitas variações, mas fundamentalmente informa que na primeira somos as vítimas do destino, na segunda, autores das nossas histórias. Esta é a diferença.

Recusar o lugar da imobilidade e da auto piedade exige que saíamos das nossas zonas de conforto e encaremos o mundo com toda nossa pequenez. Não é fácil, não é rápido, não é simples. Exige força, determinação, disciplina e uma crença gigantesca de que vai dar certo. Mas, vale a pena.

Bom dia."

"Estou com muitas saudades da minha mãe, mas,Jesus vai me ajudar a suportar"- diz o menino, de 4 anos.

  • 07/10/2020 20:58
  • Raízes da África

O menino aceita convite para dormir na casa da tia. Muito ligado à mãe e avó, recebe alerta de que teria que ficar a noite toda.

Ele satisfeitoo, aceita o convite.

Faz festa assim que  chega ao apartamento, brinca feito principe com seu cavalo, de madeira,defronte a tv , ao mesmo tempo que assiste um desenho.

Não demora muito pra dizer:- Estou com muita saudades da minha mãe, mas, Jesus vai me ajudar a supotar- diz em auto-consolo.

Sinto a tristeza-constrangida  do menino e solidária digo-lhe que se quiser ir embora, eu o levarei.

Me olha agradecido e diz:- Tá bom, vou ficar mais um pouco. Obrigado!

E tempos depois , o menino pega a palavra pelo pé:- Arísia Barros gostei muito de vir a sua casa, mas, vamos embora?

Rio da sutileza do menino e regressamos à casa materna. Ele carregando , no coraçãozinho todo amor do mundo pelas mulheres da sua vida.

Dêdei!

 

Como homem do MP, o candidato Alfredo Gaspar, decide suspender as caminhadas de campanha. Sábia decisão.

  • 07/10/2020 15:47
  • Raízes da África

O mundo vive sobre a pressão de uma pandemia gigantesca, um vírus que mata. Alagoas não foge à regra.

A covid 19 já matou mais de 2 mil 115  pessoas, em território alagoano.

Os números de contágio diminuíram, mas a pandemia, não.

E [email protected] [email protected] à eleição de 2020, na busca de votos estão pondo em  risco a vida de [email protected], com abraço, apertos de mão, tapinhas nas costas. [email protected] sem máscaras de proteção.

O uso da máscara e o distanciamento  físico, são fatores essenciais no protocolo sanitário para contenção da doença. o que não tem ocorrido nas campanhas políticas.

E o candidato à prefeitura de Maceió, , Alfredo Gaspar, como homem do MP e que também perdeu o pai para doença, ao comunicar em suas redes sociais que suspenderá (a partir desta quarta-feira (07), caminhadas e as aglomerações desnecessárias,  minimiza  as possibilidades da circulação do vírus e mostra o bom senso e  respeito às vidas alheias.

Coisa rara na política.

Sábia decisão!

 

Joguei a toalha-diz o homem e se foi,envolvido em sua agonia pessoal.

  • 07/10/2020 12:14
  • Raízes da África

Ouvi a conversa-desabafo, em um banco de praça, na manhã desta quarta-feira.

A conversa dele   tem uma exaustão antiga, de tempos longos e  dificieis.

Ele diz que a mulher  tem  crises sistemáticas por conta dos transtornos mentais e,ele ,o marido,   se torna objeto dos descontroles dela,alvo próximo:

-" Ela cisma com tudo. Diz que estou com mulheres de rua, cheira minhas roupas, procura marca de batom, vasculha minha carteira. 

Sei que não sou um modelo de homem, mas, esse tempo de casados ( 13 anos) foram  uma tortura . Logo no começo, o  médico falou que ela precisava se tratar e que  a doença poderia ser controlada com uso de remédios, mas, ela sempre se  recusou, diz que não é doida, daí sem nenhum tratamento, as coisas pioraram muito.

O médico, até disse que no caso dela , o internamento, seria importante. A família até tentou, mas,  além de não encontrar vagas, os hospitais psiquiátricos  em Alagoas parecem filme de terror. O paciente é mais dopado, do que cuidado.  

Confesso que não aguento mais , saí de casa  e agora ela deu de me ameaçar. Tenho muito amor, pelas minhas filhas, mas , o casamento não tem como manter. A doença mental desestrutura a família toda.

O humor dela é como uma panela de pressão: uma hora está de bem com a vida, feliz (e , quando está assim acho que o doido sou eu),  e em muitas horas sem motivo , vem a explosão. O problema  maior é que ela nega a  se cuidar, e ,agora,eu resolvi dizer basta. Preciso pensar em minha saúde mental. Não quero envelhecer em um ambiente de tormento, Agora vou ver como faço com minhas filhas, porque essa vida de gangorra emocional da mulher, não está sendo fácil.

Joguei a toalha"- diz o homem e ganhou  os caminhos do mundo, envolvido em sua agonia pessoal.

 

 

Escolas para crianças brancas foram construídas com o dinheiro do leilão de crianças pretas/escravizadas.

  • 07/10/2020 08:20
  • Raízes da África
Foto: Agência Alagoas

Por que o racismo estrutural é atemporal e continua massacrando vidas...

“Na Louisiana, Estados Unidos, mulheres negras foram colocadas em celas com prisioneiros do sexo masculino e algumas ficaram grávidas.

Em 1848, os legisladores aprovaram uma nova lei declarando que todas as crianças nascidas na penitenciária de pais afro-americanos cumprindo sentenças de prisão perpétua seriam propriedade do Estado.

As mulheres criavam as crianças até os dez anos de idade, quando a penitenciária colocava um anúncio no jornal.

Trinta dias depois, as crianças seriam leiloadas nos degraus do tribunal 'em dinheiro na entrega'.

Os recursos foram usados ​​para financiar escolas para crianças brancas. . . muitas crianças negras foram compradas por funcionários da prisão. ”

Importante citar que isso ocorre no período pós guerra da sesseção, que aboliu a escravidão em um estado pró a escravagista.

Fonte: LIvro, American Prison: A Reporter's Undercover Journey into the Business of Punishment

Com informações de Carlos Kdoo Guerreiro

 

Sim, eu sei o que é fome,mas,sei também que há no mundo, gente que alimenta nossa alma, com gentileza e cumplicidade.

  • 06/10/2020 09:10
  • Raízes da África

No começo da juventude,me fiz ousada,  larguei a proteção familiar e me joguei para o universo das descobertas, (liberdade onde estás, que não respondes?)  

Já era professora concursada, salário bem pequenino, do tamanho de um botão e muitas responsabilidades batendo à porta,( aluguel, transporte, alimentação) e o dinheiro não rendia de jeito nenhum. Com isso,  minha situação financeira entrou em colapso. Passei fome, daquelas que o estômago cola nas costas.

Meu guarda roupa   se resumia a  algumas peças mínimas e uma  única calça comprida, que estava rasgada entre as pernas.

E, eu leonina digna e orgulhosa,  fazia pose de redes sociais, cuidando de todas as formas, para esconder os rasgões nas roupas e n'alma minha.   

Um dia, como outro qualquer,  Daysianne Farias Jordão , uma amiga querida, professora  e companheira de jornada na educação, toda patricinha e branca (risos) prestou atenção em minhas  dificuldades e, muito discretamente,    passou no quarto  em que eu morava de aluguel e deixou uns dinheirinhos, por baixo da porta.

Esse fato tem bem uns 30 anos e não sei por onde anda Daysianne. Confesso que nunca  esqueci seu gesto de partilha e cumplicidade.

Um gesto que suavizou, humanizou, um pouco  a caminhada do crescer, no mundo segregado do racismo, da exclusão cotidiana. 

Minha   querida Dayse foi/é  uma pessoa especial que o Universo me deu de presente.

Sim, eu sei o que é fome,mas, sei também que há no mundo gente que alimenta nossa alma, com gentileza e cumplicidade.

Obrigada, Daysianne!

O menino preto e pobre se matou no setembro amarelo.

  • 05/10/2020 15:12
  • Raízes da África

O menino se matou e essa história não tem mais volta.

O menino morador de uma periferia distante,  abandonada pelo poder público, em Maceió,AL,  se matou.

Falam que tinha problema com o álcool,  misturado com a ausências  das muitas autonomias sociais. Um coquetel de ausências de políticas públicas.

Falta de emprego gera suicído.

Falta de moradia provoca suicídio.

Falta de comida na mesa é gatilho pro suicídio.

Depois de muitas lives e palestras ilustrativas o setembro amarelo acabou.

Será que o menino,  que se matou, assistiu alguma dessas lives?

 Acabou o setembro amarelo…

 

O que foi mesmo que a gente aprendeu com a pandemia?

  • 04/10/2020 19:39
  • Raízes da África

Estou na praça dos Palmares,centro da capital Maceió,AL,  marco abandonado da história ancestral de [email protected]

Conta que  praça foi um porto de desembarque e venda  de [email protected] E, nos dias atuais  essa história é consumida pelo capitalismo que projeta barracas de comidas e o descaso institucional.

A praça  deveria ser um museu a céu aberto, mas, todas as gestões políticas que administraram e administra Maceió fizeram pouco caso da questão.

Coisa de [email protected], né?

Estou em um banco da praça, depois da aventura de atravessar , andando, o bairro da Jatiúca, Poço para chegar ao centro. Foram cerca de 5 quilometros.

Sento  no banco da praça, olhando movimento do mundo,no entorno.

E vejo o dono de uma das  barracas de lanches  coçar o nariz com uma das mãos ( está sem máscara), logo após atende a cliente que pede um caldo de cana. Com  mesma mão que coçou o nariz ele pega a cana para moer , até virar caldo. Depois atende outra cliente que pede uma água de coco, A moça paga em dinheiro, ele recebe, passa o troco, logo após serve um pastel a outra cliente, que também paga em dinheiro e  a roda viva continua. Em nenhum momento o homem-dono do estabelecimento higieniza as mãos, ou , acontece reclamação da clientela.

Quando o  carro que me levará a casa sinaliza chegada , entro e sigo pensativa:

O que foi mesmo que a gente aprendeu com a pandemia?

 

Em caráter de urgência,o projeto para uso obrigatório das máscaras foi enviado para ALE, e daí o projeto sumiu?

  • 04/10/2020 17:43
  • Raízes da África

Na terça-feira (11 de agosto de 2020),  o governador do estado de Alagoas enviou para a Assembléia Legislativa o projeto de lei (PL) que torna obrigatório o uso da máscara em locais públicos em  todo território alagoano.

Projeto este , que se faz  medida preventiva contra o avanço do novo coronavírus e tem como foco a saúde da população.

Mas, o tal projeto , até agora, repousa em berço esplêndido, ou em alguma gaveta que oculta a cidadania, da Assembléia Legislativa de Alagoas.

“Nós vamos exigir, com mais ênfase, se a lei for aprovada, o uso da máscara em Alagoas, inclusive impondo multa àqueles que teimam em não se proteger e em levar riscos para terceiros”, afirmou, Renan Filho, o governador de Alagoas.

O projeto que já foi fruto de discurso contraditório  [email protected] parlamentares,  escafedeu-se, foi abortado, sumiu?

Com  palavra a ALE.