João Jorge, o Senador que a Bahia precisa e merece.

As diversas manifestações de apoio a candidatura de João Jorge onde personalidades como Carlinhos Brown, Vovô do Ilê, Fernando Conceição, Netinho de Paula e outros demostra a maturidade que o povo baiano necessita para enfrentar os seus problemas dentro de uma ótica realmente transformadora e justa. Mas, também nos faz pensar no porque de só agora pensarmos nas instancias de comando desta terra mãe, conhecidamente negra. E da resistência de alguns segmentos, por vezes negros, com as possibilidades de mudança.
A face mais cruel do racismo brasileiro é a que impõe ao negro, por meio da dominação mental, o sentimento constante de derrota – a pior forma de escravidão -, fazendo acreditar que não podemos,que não merecemos, que não somos capazes, que não devemos. Em torno dessa construção aquele que aceita esse vaticínio também o deseja para outro, e quando alguém fere essa “lógica” o escravo mental o ataca. Incomoda-se, e discrimina. Como aceitar o avanço do outro, como aceitar a libertação se tudo que lhe disseram é que não era possível mudar. É nessa construção ideológica do Sec. XVII, que adentramos o Sec. XXI. E desta forma nos ausentamos de qualquer discussão acerca do poder. Somos vitimados pela escravidão mental que insistimos em manter. Dentro desse panorama nos afastamos das decisões políticas do país, dos partidos políticos, restando para poucos o movimento social como trincheira de luta. Fizeram-nos acreditar que somente por meio da cultura, da arte e da música poderíamos mudar a realidade do país. Esse é o terreno que “naturalmente” nos cabia. Conseguimos fazer uma verdadeira revolução cultural, mas, deixamos de pensar em política numa esfera macro. Ausentamos-nos dos partidos e hoje percebemos o erro. O que seria do Mandela, do Lula e do Obama se não fosse a estrutura dos partidos? Nenhum dos atuais senadores da Bahia tem mais legitimidade para representar esse Estado do que João Jorge. A não ser pela velha forma “democrática” que historicamente exclui qualquer possibilidade de mudança na nossa estrutura colonial. João Jorge. Um ex-caixa de supermercado, ex taxista, ex-funcionário do pólo petroquímico que nos últimos 30 anos a frente do Grupo Cultural Olodum vem lutando para transformar esse país numa nação justa para negros e brancos.
Nenhum senador baiano possui uma historia tão dedicada a democracia, aos diretos humanos, a educação, a cultura quanto João Jorge. Nenhum dos senadores deu uma contribuição tão valorosa para essa terra como fez o líder do Olodum. Um visionário que pensou a luta pela autonomia econômica negra como algo necessário e possível (a casa do carnaval é um exemplo disso), chamou a atenção para a necessidade de proteção e respeito as religiões de matriz africana, assim como, a promoção da paz entre as religiões (o seminário Você Sabe a Cor de Deus é um exemplo disso) , por meio dos temas dos carnavais, saídos da sua cabeça, falou da História do continente africano e dos negros pelo mundo, muito antes de criarem uma lei para isso. Na constituição baiana de 1989 construiu um capitulo inteiro referente ao negro, garantindo para as gerações de hoje muitos avanços. João Jorge aprendeu a ler para ajudar os seus camaradas, como diz a bela música da Maria Betânia. Mestre em direito público, professor universitário (UNB), um intelectual que conhece muito bem o seu povo e a estrutura do Estado. Brigou, acertou, errou, mas quem não erra? Por isso, e tantas outras coisas que a candidatura e eleição de João Jorge têm que se tornar uma realidade. Desejada por todos e todas que sempre lutaram contra o atraso nesse Estado. Em 2010, você tem a chance de dizer NÃO! a escravidão mental, você tem a chance de mostrar ao país que a Bahia realmente esta mudando, elegendo o seu primeiro senador negro. Um senador com a cara e o jeito dessa terra.
 

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A Ausência de Políticas Públicas Contundentes para a População Negra é Nossa Escravidão Contemporânea.

Segundo, Neves, 1992, as leis simbólicas trazem a prevalência do seu significado político-ideológicos latente em detrimento de seu sentido normativo aparente. A função simbólica da Lei conforta a sociedade mais do que guia. A crença “no reino do direito” teria a função de produzir um “status quo”.
Em 15 de agosto de 2007,o estado de Alagoas instituía por meio da Lei n° 6.842 o Conselho Estadual de Combate à Discriminação órgão permanente, autônomo e deliberativo, vinculado à Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos, com a finalidade de investigar as violações dos direitos das minorias no território do Estado de Alagoas, encaminhar às autoridades competentes as denúncias e representações que lhe sejam dirigidas, estudar e propor soluções de ordem geral para os problemas referentes à defesa e à promoção dos direitos fundamentais da pessoa humana.
Dois anos e muitos e muitos meses após, o Conselho, permanece inerte como ação politicamente esvaziada.
Em 02 de julho de 2007, a Lei estadual nº 6.814/07 foi sancionada. A Lei ,hoje, é quase uma letra morta. Prevalece à cultura das elites que pensa miscigenação invisibilizando a população negra e a nossa contemporânea omissão e passividade social.
Segundo Muniz Sodré “A cultura brasileira só pode ser entendida como um monopólio das idéias dominantes, ou seja, das idéias que as elites fazem sobre si mesmas. E que idéias elas fazem? Que todos são brancos, todos são descendentes de europeus, todos falam línguas estrangeiras, e não querem ver a realidade nacional que é essa coisa diferenciada. O povo, para as elites, é uma massa amorfa, catinguenta, suada e feia, e, extensivamente, negra. Portanto essa realidade é a realidade da luta das pessoas. As elites estão com os olhos voltados para os Estados Unidos, chorando a queda das duas torres, e vendo se vão passar o verão em Paris”.
Afirmamos que o estado 50º% negro, Alagoas, criou para si um registro branco, memórias européias, ideologias fincadas em princípios da elite dominante que consolidam a idéia de que “o que mais incomoda é escutar que o Brasil não é racista, pois isto impede o diálogo”, segundo Mírian Leitão.
É razoável supor que leis aprovadas precisam sair do papel e se tornarem realidade através da prática no dia-a-dia do cidadão. Pergunta que não quer calar: Porque algumas leis são simplesmente ignoradas, principalmente quando trazem o recorte é étnico?
É preciso que ativistas, militantes, acadêmicos, Ministério Público, OAB reinventem a pressão popular para a efetivação das leis, resultado de pactos sociais estabelecidos, exercendo, assim o papel que lhes é de direito, o de controle social na busca da legitimação dos direitos civis.
Existe racismo no estado de Alagoas?
Entre 2003 e 2006, foram “apenas” 10 casos de denúncia de crime de racismo em Alagoas. A constatação é da tese de doutorado “Direitos Humanos e as Práticas de Racismo”, do pesquisador Ivair Augusto dos Santos, que analisou processos e sentenças judiciais em 18 capitais brasileiras.
A pesquisa constata que há racismo institucional no Brasil – afirma Santos. – E, apesar da dificuldade em comparar, é fato que os danos do racismo institucional são enormes. Um exemplo é a polícia que sempre aborda primeiro o negro.
E enquanto isso, a população negra alimenta-se da autonegação, dando voz ao critério político do silêncio de cemitério em torno do racismo institucional que escorre no corpo social.
“Os brasileiros acreditam que discutir o racismo provoca racismo” e a ausência das legislações aprovadas como instrumento de luta aumenta as lacunas de dividas históricas entre a luta dos escravizados, lá no Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga e a nossa escravidão contemporânea.
A população negra brasileira ainda é hoje, hóspede estrangeira no estado do direito constitucional.
Já não é hora de reescrever essa história?
 

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Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.
Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.
A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”
A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?
Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente.”
Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.
Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.
Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.
Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.
“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.
 

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A VIDA ME ENSINOU A SER NEGRA

A primeira vez que escrevi sobre a questão racial brasileira foi nos anos 70, em resposta a um texto lido na Folha de São Paulo, no qual se comparava a sociedade brasileira com a sul- africana, chegando-se à conclusão que se o Brasil adotasse algumas medidas semelhantes às do Apartheid, a situação dos negros seria melhor do que era então. Quase quarenta anos e muitas lutas depois, é decepcionante, embora não seja surpreendente, observar a recusa da sociedade brasileira em aceitar a existência da desigualdade racial entre nós. A se levar a sério o que esses arautos da igualdade racial falam, o Brasil seria o único país cujo passado escravocrata não teria gerado preconceitos, discriminação e desigualdade com base nas diferenças étnicas e culturais entre brancos e negros.
Impossível, neste caso, não associar, de alguma forma, esta recusa à existência de racismo à negação do holocausto. No mundo ocidental, o que inclui o Brasil, à absurda tese de Ahmadinejad, acertadamente se responde com a História, com os depoimentos dos sobreviventes, com as fotos dos campos de concentração, com os documentos do governo nazista, e outros dados que comprovam a tentativa de extermínio; e a mobilização permanente dos judeus é extremamente importante para que tal horror não se repita. Mas, no caso do racismo brasileiro, aos fatos da História do Brasil que revelam as raízes da questão racial, se reserva o esquecimento; aos dados sócio-econômicos que confirmam a discriminação, se reserva a desconfiança, como se fossem dados forjados; aos depoimentos dos negros quanto às humilhações sofridas e às suas reivindicações igualitárias ou reparadoras das injustiças históricas, se reserva o descrédito e a mensagem explícita do chamado “racismo às avessas”. É neste contexto que o Dia Nacional da Consciência Negra é, erradamente, visto como uma comemoração exclusiva da população negra, quando deveria ser o dia em que essa sociedade, que se diz miscigenada e avessa ao racismo, mostraria seu orgulho em ter, na sua formação e desenvolvimento, e ao lado da herança européia, a vasta e importante contribuição dos negros.
Mas, infelizmente, não é assim. Ao discurso da igualdade se contrapõem práticas que, na verdade, demonstram uma certa nostalgia do período escravocrata, ou do tempo em que os negros se resignavam com a condição de subalternidade; a mãe-preta e as mucamas com certeza deixaram saudades nos herdeiros da Casa Grande, assim como hoje se lamenta a falta das empregadas domésticas que abriam mão de suas vidas próprias para cuidar de várias gerações de uma mesma família. Ao discurso da miscigenação como evidência da igualdade racial se opõe a constatação de que muito dessa miscigenação se deve a atos de força, ao uso das escravas como objetos sexuais, o que de certa forma sobrevive até hoje, na exploração negativa da imagem da mulher negra e na condenação à miséria que leva à prostituição.
A Consciência Negra significa o conhecimento e a compreensão dessa realidade, e a luta para mudá-la. Significa criar modelos positivos, para que as crianças e jovens negros acreditem que podem ser professores, engenheiros ou médicos, que não há nada de errado em ter nariz chato e pele escura, que ninguém nasce predestinado a ser criminoso ou prostituta e que é preciso se organizar para enfrentar os mecanismos sociais que perpetuam a desigualdade. No Brasil, apelar para a miscigenação e se dizer negro, é fácil. Difícil é viver como negro. Quando eu era menina, eu era apenas uma mestiça de pele marrom. A vida me ensinou a ser negra.
 

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O Brasil/Alagoas ainda atravessa a rua quando encontra África!\"

 

A Escola como espaço geográfico de interação social é um verdadeiro mosaico humano, onde a diversidade de comportamentos, culturas, etnias e religiões se interligam e se desconectam quando da negação institucional de tudo que vai de encontro ao padrão instituído, ou socialmente aceitável.
Cabe a escola criar em seu currículo vitae, uma memória das identidades sociais, em nome da construção do respeito à diversidade, leia-se aplicabilidade da Lei nº 10.639/03.
Uma memória dinâmica em que haja consolidação de espaços para as possibilidades de leitura e releitura do mundo, numa proposta de reinvenção do conhecimento. O desencontro com o conhecimento gera a ignorância dos fatos, da história, do ser, daí surgem os preconceitos.
E nesta ausência de novos paradigmas que a escola deve intervir, sabendo que é possível a partir das muitas intervenções pedagógicas, educar para a inclusão. Ou se educa para inclusão ou estamos criando uma pedagogia traumática e negativa que traz a tona o elemento do “ diferente versus desigual”.
A ideologia da cultura escolar contemporânea trabalha com um padrão de “normalidade” e ‘igualdade” que exclui e tolhe a liberdade de crença dos que se expressam fora do padrão instituído de normalidade.
A unidade do pensamento eurocentricamente ideológico da sociedade contemporânea inviabiliza o real conhecimento, dimensão, importância e o entendimento de que no sangue do povo brasileiro-independente da cor da pele- circula uma ancestralidade com valores e tradições negras, dentre eles, a religião. A religião foi uma das grandes contribuições que o continente africano e sua descendência em terras brasileiras trouxeram para a história e a cultura do Brasil- segundo país negro do mundo.
E como a escola “vive” o universo da diversidade humana em suas crenças e tradições?
O preconceito racial muda a vida das pessoas de várias maneiras, estabelecendo relações humanas tensas e conflituosas, gerando a massificação dos estereótipos e a cultura da intolerância, da auto-negação e das angustiantes inquietações hameletianas: ser ou não ser, eis a questão!
O racismo se transfigura em manifestações pessoais e expressões coletivas criando certa esquizofrenia social.
É preciso render-se ao desafio proporcionado pelo convívio com a cultura africana e o conhecimento múltiplo de quem esteja disposto a aprender e a ensinar. A Lei Federal nº10.639/03 mudou os parâmetros da educação pública, criou uma conversa íntima com as diversas histórias, substantivou as possibilidades de enriquecimento curricular; mas, o Brasil/Alagoas ainda atravessa a rua quando encontra África!"

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Cabo Verde é uma história de sucesso

Cabo Verde é uma “história de sucesso” como país, no continente africano e nas relações com a União Europeia (UE), afirmou o chefe da delegação dos “27” na Cidade da Praia, Josep Coll, em entrevista ao jornal OJE e à agência Lusa. O responsável adianta que o país é de “rendimento médio e de crescimento rápido” e oferece “novas oportunidades de cooperação” aos parceiros externos.

Josep Coll, 52 anos, natural da Catalunha, justificou que Cabo Verde se tornou, por isso, “especial”, denominação “muito adequada” para qualificar o relacionamento com a UE, tendo sobretudo em conta o seu desempenho macroeconómico e social nas últimas décadas. “A graduação a país de rendimento médio - claramente uma história de sucesso no contexto africano de uma política de desenvolvimento bem gerida - , e a vontade de se incorporar e de contribuir no mundo global são elementos mais que suficientes para que a UE esteja presente no país e queira com ele trabalhar na procura da realização dos desejos de ambas as partes”, salientou.

Lembrando a adesão do arquipélago, em 2008, à Organização Mundial do Comércio (OMC), o antigo porta-voz das Relações Exteriores da Comissão Europeia (CE) realçou que Cabo Verde já participa nas discussões dos grandes temas globais, tais como as mudanças climáticas ou a promoção da estabilidade regional, mas não se aventurou em considerações sobre se o país poderá atingir outro patamar nos “27”.

“A Parceria Especial (com a UE) enquadra e estimula este encontro de vontades. É um processo de aproximação jovem, que está a desenvolver-se com a plena satisfação de todos os intervenientes. Só o futuro poderá dizer se serão necessários outros espaços de conjunção entre a UE e Cabo Verde. Ambas as partes estão a construir este futuro”, sublinhou.

Formado em Ciências Políticas e Relações Internacionais e na Cidade da Praia desde 23 de Março de 2007, depois de chefiar a representação da CE em Barcelona, Josep Coll defendeu que a parceria especial “é exemplar” e que o clima de oportunidades de negócio é “elevado”.

“Cabo Verde demonstrou, solicitando à UE, o estabelecimento de uma Parceria Especial, um nível de ambição, empenhamento e responsabilidade políticos que gostaria de salientar por ser ímpar e indicativo da capacidade deste arquipélago em olhar longe, sem limites e de uma forma desinibida. Neste âmbito, o desempenho do país na formulação, construção e gestão da Parceria está a altura destas pretensões”, sustentou.

No entanto, Josep Coll recordou que a parceria tem somente dois anos e que, por isso, se torna “difícil” fazer um balanço das acções já realizadas, embora tenha salientado que a mobilidade, segurança, estabilidade e boa governação estejam no caminho certo.

Para o futuro, estão já definidas “acções de reforço” em outras áreas como a cooperação regional, a convergência normativa e técnica e a sociedade de conhecimento, não perdendo de vista o Programa de Reforma do Estado, proveniente da Agenda de Transformação promovida pelo Governo.

“Cabo Verde, país de rendimento médio e de crescimento rápido, oferece novas oportunidades de cooperação aos parceiros externos. É o caso do sector do ambiente de negócios, onde uma boa cooperação entre o sector privado e dos negócios de Cabo Verde e das organizações empresariais europeias pode resultar muito frutífera”, concluiu.

 

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Um feliz 2010 para Boris Casoy


Um episódio lamentável chamou minha atenção na semana passada. O apresentador Boris Casoy, um homem de reputação ilibada e de grande importância para a sociedade, considerado um dos jornalistas mais conceituados da TV brasileira, desferiu um duro golpe contra os garis no último dia do ano. Vejo que a manifestação elitista e preconceituosa dele não condiz com a liberdade de imprensa ou de expressão. No ar, mas sem querer que fosse divulgado, Boris Casoy disse que nós, os garis, somos "merda". Sem saber que o áudio estava sendo transmitido, ele realizou um comentário pelas imagens passadas em seu próprio jornal. Dois garis, de forma gentil e humilde, desejaram feliz 2010 para todos. Foi o bastante para que Casoy realizasse o seguinte comentário: "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho".
Penso na dignidade da pessoa humana, no sentido da vida e no que realmente somos e para onde todos vamos quando chegar nosso último minuto aqui na Terra. A primeira sensação que tive foi de humilhação frente aos meus filhos, parentes, vizinhos e amigos. Porque ainda sou e vou continuar sendo gari. Não é uma eleição para vereador, que é cargo passageiro, que mudará minha vida, minha origem e meus laços de amizade. O meu gabinete, vira e mexe, tem a presença e visita de garis. Portanto, não falo aqui com demagogia: sou gari. Permaneço fiel aos meus companheiros. Lutei e luto pelo plano de saúde, pelo plano de cargos e salários e pelo fim de perseguições e demissões sem direito de defesa de nossos companheiros. E quando vejo um jornalista do gabarito de Boris Casoy externando seus comentários, sincera mente, fico chateado e indignado. Boris é um dos heróis que tive na imprensa, uma pessoa que me motivou a andar pelas ruas e repetir seu bordão: "Isto é uma vergonha!". Considero você, Boris, ao lado de grandes nomes da televisão brasileira, como Jô Soares, Paulo Francis e Silvio Santos.
Acho que suas desculpas no dia seguinte foram simples frente à gravidade de seu comentário, que ficará registrado para sempre na internet. Acho que toda pessoa é vulnerável, passível de erro. E, sim, ainda continuo acreditando em Boris. Acredito que ele é um ser em aperfeiçoamento, apesar de grande homem. Mas como representante dos garis preciso desabafar e explicar para você, Boris, que tais expressões ("merda" e "lixeiro") não podem representar seu caráter, caso contrário estaremos diante de um potencial criminoso, um racista com poder de emissão de informações, um sujeito individualista e hipócrita. Falo em nome de todos que limpam essa sujeira produzida pela sociedade, que ainda está longe de ser civilizada quanto ao tratamento do lixo que produz. Não que seja melhor que os demais colegas. Acontece que ocupo cadeira na Câmara Municipal de Goiânia e tenho mais acesso aos meios de comunicação e informação. Por isso hoje mesmo ligarei para a TV Bandeirantes e pretendo falar com o apresentador, requisitando que aprimore seu espírito em evolução e peça desculpas com um grau maior de elaboração. Acredito que Boris não pode simplesmente pedir desculpas, como fez, e continuar sua vida normalmente. Deve estender suas reflexões, aprimorar seu espírito, direcionar sua atuação para comportamentos menos preconceituosos e integrar entidades da sociedade civil que lutam pela igualdade de direitos entre todos - sejam homossexuais, sejam deficientes físicos, negros ou garis.
Em sua manifestação monstruosa, Boris censurou internamente um direito dos garis expressarem "feliz 2010". Quer dizer: o médico e a professora podem desejar um bom 2010 para todos, mas os garis não? Qual o problema com o gari, Boris? Não é gente? Não trabalha? Não desempenha sua função corretamente? As ruas estão, por acaso, sujas? Se explique melhor, querido. Você merece o perdão do gari brasileiro. Mas deve se informar: não somos comedores de carniça nem estamos na última escala do trabalho. Porque, senhor jornalista, no Brasil vale é a lei. E a lei não escalona o trabalho humano. Realizamos a limpeza do planeta. Você nos informa. Garis existem nas ruas da África, da Europa ou Ásia. Se somos predestinados a limpar o mundo e você a informar, apenas cumprimos funções diferenciadas dentro da sociedade. Desejo ruas mais limpas, imprensa sem sujeiras e parlamento limpo. Quero ter minha consciência limpa e livre do materialismo que possivelmente motivou a infeliz reflexão. É isso, Boris, que desejo para você em 2010: prosperidade, saúde, riqueza e bom senso em seu trabalho.
Na medida em que assimilei as suas palavras na TV Bandeirantes senti um orgulho caloroso no peito. E jamais expressões como essas (\'lixeiro\', \'baixo\', \'merda\'), que ouvimos nas ruas todos os dias, irão nos afetar. Somos fortes. Trabalhamos com o sol cortando nossa pele. Enfiamos a mão na matéria decomposta. Imploramos por um copo de água nas ruas. Mas acredito que nenhum gari vai se sentir menor por isso. E sabe o motivo, Boris? Porque existem garis com mestrado, doutorados e pessoas ainda mais qualificadas em estudo que você. Elas exercem com dignidade um trabalho que deveria ser motivo de orgulho para todos. Todos nós, com faculdade ou não, com respeito dos vizinhos ou não, somos trabalhadores honestos, vitoriosos por vencer uma prova de concurso público e dignos de termos nossa importância. O preconceito existe. E vamos lutar contra ele. Definitivamente, não é uma vergonha ser gari, Boris. Enfim, feliz 2010.
 

 

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Benjamim de Oliveira: O primeiro palhaço negro do Brasil

Benjamim significa o filho da felicidade e Benjamim de Oliveira, negro, criança ainda quando a Lei Áurea imperava em território nacional, abandonou o lar aos 12 anos e juntou-se à trupe do Circo Sotero, atuando em números de trapézio e de acrobacia, fazendo nascer o primeiro palhaço negro do Brasil e, de acordo com o pesquisador Brício de Abreu, o primeiro palhaço negro do mundo.
Além de seus números de clown e acrobacia, Benjamim cantava, atuava e até escreveu peças de teatro. Suas múltiplas habilidades o transformaram, também, no primeiro artista negro do cinema brasileiro. "Minha existência poderia ter ficado encoberta pelas muitas montanhas que encobrem as Minas Gerais se, um dia, uma trupe de circo não tivesse passado por lá", disse ele um dia.
Benjamin Chaves, posteriormente conhecido como Benjamin de Oliveira - "Oliveira" adotado do nome do artista Severino de Oliveira, seu orientador no circo -, nasceu em Pará de Minas, no estado de Minas Gerais, no dia 11 de junho de 1870. Foi o quarto filho de Malaquias e da escrava Leandra. Encerrou sua carreira no circo na década de 1940 e morreu no Rio de Janeiro em três de maio de 1954.
No começo, no lugar de gargalhadas, ouviu vaias. Resistiu e transformou-se no principal nome do circo brasileiro, sendo aclamado como o rei dos palhaços no Brasil e respeitado por homens de teatro como Procópio Ferreira.
O circo-teatro, introduzido no Rio de Janeiro por Benjamim Oliveira, teve o seu apogeu entre os anos de 1918 e 1938. Ele começou com paródias de operetas e contos de fadas teatralizados, chegando à apresentação de peças de Shakespeare e á representação de Cristo, na Semana Santa. Essa versatilidade fez com que a obra de Benjamim de Oliveira marcasse uma revolução no circo brasileiro.
Nos entreatos cantava lundus, chulas e modinhas, especialmente de seu amigo Catulo da Paixão Cearense, acompanhando-se ao violão. Deixou gravadas algumas músicas na Columbia, por volta de 1910, como o monólogo Caipira mineiro, os lundus As comparações e O baiano na rocha, este em duo com Mário Pinheiro.


Para saber mais:
Benjamim, o filho da felicidade, de Heloísa Pires Lima da Coleção De repente, com histórias de vidas que mudaram da noite para o dia. Entre a Europa e a África: a invenção do carioca, de Antonio Herculano Lopes, Topbooks
As múltiplas linguagens na teatralidade circense - Benjamim de Oliveira e o circo-teatro no Brasil no final do século XIX e início do XX, tese de doutorado Unicamp, de Ermínia Silva
Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, de Nei Lopes, Selo Negro,
O circo no Brasil, de AntonioTorres, Funarte/AtraçãoRevista da Semana 07/10/1944

 

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Apresentador Boris Casoy irá responder na Justiça por crime de preconceito

SOS Racismo - Notícias


Duas entidades representativas anunciaram que vão entrar com três ações contra o apresentador Boris Casoy — uma delas criminal — e duas contra a TV Band. Nos processos contra emissora e jornalista, o Siemaco (Sindicato dos Trabalhadores de Empresa de Prestação de Serviço de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo) e a Fenascom (Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação, Limpeza Urbana, Ambiental e Áreas Verdes) vão pedir indenização de reparação civil em nome dos dois garis, Francisco Gabriel e José Domingos de Melo, cujas aparições no “Jornal da Band” motivaram as declarações de Boris; e por danos morais, em favor de toda a categoria.

A ação criminal, impetrada somente contra o apresentador, é por crime de preconceito. O valor do ressarcimento não foi estipulado pelas entidades, que preferiram deixar a decisão ao juiz que analisará o caso.
 

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\"Quem é de Axé diz que é!\'

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge), apenas 0,3% da população geral do país (525 mil pessoas) se declaram praticantes de religiões de matrizes africanas, sejam elas o candomblé, a umbanda, o omolocô, o tambor de mina, o batuque entre outros elementos que formam o grande mosaico da religiosidade brasileira que se origina no continente africano. É interessante notar, no entanto, que festas como as de Yemonjá, tanto no Rio quanto em Salvador, as caminhadas que a cada ano se ampliam em todo o país, os dizeres e crendices populares, a literatura, o cinema e a tv, entre tantas outras manifestações brasileiras reconhecem nao só a existência da religiosidade de matriz africana como, também, mobilizam milhares, às vezes milhões de pessoas em torno de um festejo, da entrega de oferendas, do vestir-se de branco e do uso de fios-de-contas.

É perceptível que o temor da discriminação, a vergonha por praticar uma religião que é taxada como primitiva ou coisa de "negros e ignorantes" entre outros elementos faz com que milhares de pessoas não assumam sua religiosidade em público, não se orgulhem de sua prática de fé ou, como diz mãe Stella de Oxóssi, "é o caso de pensar se a pessoa tem algum problema, já que tem cargo ou função dentro da casa de santo mas para fora vai dizer que é católica", por exemplo.

Visando resgatar a auto-estima do praticante de religião de matriz africana e dar visibilidade maior ao número de praticantes em todo o país, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) lançou na semana do 20 de novembro de 2009, durante a I Caminhada Nacional Pela Vida e Liberdade Religiosa, em Salvador, Bahia, com o apoio de diversas outras organizações sociais do Movimento Negro, a campanha "Quem é de Axé diz que é!

Esta campanha, cujo mote diz "Neste Censo, declare seu amor ao seu Orixá/Diga que é do Santo, diga que é do Gunzu, diga que é do Axé/Pois quem é de Umbanda, quem é de Candomblé/Não pode ter vergonha, tem que dizer que é!", buscará falar ao praticante de cada uma das vertentes religiosas de matriz africana no país, buscará valorizar o fazer religioso, buscará afirmar a identidade religiosa de cada homem, mulher e criança que pratica a religião.

O CEN acredita que esta campanha possibilitará uma alteração substancial nos números do Censo e, ao mesmo tempo, dará elementos para que novas políticas públicas sejam criadas especificamente para o povo-de-santo, uma vez que, havendo uma real impressão sobre a totalidade de praticantes no país, se terão elementos à mão para formular e aplicar estas novas políticas.

Para o CEN, a campanha "Quem é de Axé diz que é!\' será um passo importante também para o combate à intolerância religiosa uma vez que ao assumir sua religiosidade, seu praticante, tendo sua auto-estima elevada, adotará cada vez mais os elementos visíveis desta afirmação de identidade e, ao mesmo tempo constrangerá aqueles que fazem da intolerância ou do desrespeito religioso uma ação cotidiana.

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Nacional de Política Institucional do
Coletivo de Entidades Negras - CEN - http://www.cenbrasil.org.br/
 

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