Geraldo de Majella
Geraldo de Majella

Geraldo de Majella Fidelis de Moura Marques historiador, alagoano de Anadia, formado no Centro de Estudos Superiores de Maceió – Cesmac. Exerceu alguns cargos na administração pública como o de Coordenador de Direitos Humanos da Prefeitura de Maceió, Ouvidor-Geral do Estado de Alagoas, Secretário Executivo de Ciência, Tecnologia e Educação Superior de Alagoas, diretor-presidente do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas – Iteral entre outros. Autor dos livros Caderno da Militância – histórias vividas nos bastidores da política; Execuções Sumárias e Grupos de Extermínio em Alagoas (1975-1998); Rubens Colaço: Paixão e vida – A trajetória de um líder sindical; Mozart Damasceno, o bom burguês; O PCB em Alagoas: Documentos (1982-1990) e Um Jornalista em Defesa da Liberdade (2014).

Postado em 22/01/2017 às 09:48 0

O divórcio entre teoria e prática é a cara do PSB



 

A revista Práxis nº 2/2016 (Quanta Consultoria e Editora) publica o relatório da Comissão Executiva nacional do PSB, Desenvolvimento e avanço civilizatório, assinado pelo presidente Carlos Siqueira. Este documento deve ser discutido pela militância do partido, pelos aliados e pela sociedade.

        A política publicada, em linhas gerais, não se transformará em ação política concreta no cotidiano do PSB. O esforço para a elaboração desse documento serviu apenas e tão somente para ornamentar o relatório com um título pomposo: Desenvolvimento e avanço civilizatório.

        As posições adotadas pela comissão executiva nacional e, sobretudo, pelo presidente nacional, Carlos Siqueira, através no texto de abertura do Relatório, deixa evidente que um é a negação do outro. Ou seja, a teoria é negada na prática e, desta maneira, abriu-se um enorme fosso político, ideológico e programático.

        Li o documento com atenção e anotei pontos como este na p.20: “Temos que restabelecer a antecedência do trabalho e da produção, sob a perspectiva estritamente financeira ou financista que tem conduzido as políticas econômicas, no Brasil e no mundo”.

Mais à frente o documento diz, na p. 21: “para fazer com que uma perspectiva efetiva de desenvolvimento seja concebida e implantada é preciso superar a dicotomia entre políticas macroeconômicas e políticas sociais. Tanto umas quanto outras devem ser pensadas na mesma chave, para permitir que as políticas sociais se transformem em políticas de Estado”.

Essa crítica velada contra a política econômica dos governos Lula e Dilma oculta o fato de que o PSB foi um dos fiadores e beneficiários da referida política. As administrações de Eduardo Campos podem servir como exemplo. Esta abordagem não pode ser levada a sério, por simplista e irreal.

O PSB, envergonhado, diz através de nota não apoiar o governo Michel Temer, mas mantém-se numa posição de independência; no entanto, libera as bancadas na Câmara e no Senado para participar do governo, inclusive com a indicação de um ministro e de outros cargos na administração.

O governo Temer avança contra as políticas sociais implantadas há 21anos e justifica que isso se dá para equilibrar as contas públicas. Corta investimentos nas áreas de educação, assistência social, agricultura familiar, previdência social e direitos trabalhistas, tudo em nome do ajuste fiscal. O sistema de proteção social corre sérios riscos de fenecer.

O PSB tenta, com uma retórica pouco convincente, defender políticas públicas que possam ser transformadas em “políticas de Estado”, mas como isso pode se efetivar num governo que avança contra os pobres e mantém os benefícios aos ricos?

Esse tipo de discurso deve ser definido como autismo político, fenômeno no qual o completo desligamento da realidade alimenta a criação mental de um mundo autônomo de profunda alienação. É uma leitura possível a ser realizada do documento Desenvolvimento e avanço civilizatório.

O documento é o divórcio entre teoria e prática que, mutatis mutandis, é a cara atual do PSB.


Postado em 12/01/2017 às 09:38 0

Réquiem para o PSB



 

Em verdade não existem partidos políticos no Brasil com princípios e compromissos; existem frentes onde cabem todos os segmentos ideológicos, onde convivem direita e esquerda no vaivém dos interesses pessoais. Não são partidos, são siglas que se intitulam democráticas, trabalhistas, social-democráticas,liberais, socialistas, sem que tais denominações tenham a ver com tomada de posição, razão de luta ou de governo, uma desfaçatez. Jorge Amado, Navegação de Cabotagem, p.38.    

 

            A crise política, econômica e ética instalada no Brasil nos últimos anos tem sido debitada na conta do Partido dos Trabalhadores (PT), como sócio majoritário da ampla aliança de centro-esquerda construída para a eleição vitoriosa da chapa Lula-José Alencar, em 2002. A eleição foi decidida no segundo turno, entre Lula e José Serra (PSDB).         

A formação do governo de centro-esquerda teve como programa básico a Carta aos Brasileiros, sinal claro de vontade e desejo de aproximação do PT com o empresariado nacional, os banqueiros e as classes médias. Os trabalhadores, estes já faziam parte da conta petista e/ou das esquerdas.

 O Partido Socialista Brasileiro (PSB) nessa eleição lançou Anthony Garotinho, mas no segundo turno apoiou a candidatura petista,e assim se comportou nas eleições seguintes, exceção na última, em 2014, quando lançou a candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva. Com a morte de Campos, Marina Silva assumiu a candidatura presidencial com Beto Albuquerque na vice; ao não passar para o segundo turno, o PSB virou o leme e apoiou o tucano Aécio Neves.

O PSB nas três administrações petistas (Lula e Dilma) indicou dirigentes e/ou parlamentares para ministérios e outros órgãos da administração federal. O PSB era um aliado ouvido e levado em consideração por Lula e pelo PT. Com Dilma Rousseff o grau de importância reduziu, pelo menos era o que diziam os dirigentes do PSB com um travo na garganta, mas exercia a defesa da política e das administrações petistas, até o rompimento, que se deu antes do encerramento dos prazos eleitorais.

Após a crise política iniciada com as denúncias que ficaram conhecidas como Mensalão, as vozes do PSB foram no sentido do apoio e defesa do governo e dos petistas. A crise política se alastrou e entornou o caldo no governo Dilma com sucessivas tomadas de decisões erráticas na área econômica. A contaminação do ambiente político com a debacle econômica e a explosão dos escândalos de corrupção deixa cristalina a fragilidade do governo. Com o aprofundamento da crise a que o país está submetido, não tem sido possível visualizar uma saída em que a soberania seja preservada e os interesses nacionais e os ganhos sociais sejam mantidos.

Diante de tão grave situação, o PSB (parcela das bancadas no Senado e na Câmara Federal) intensificou a “discussão” de como participar da partilha dos cargos no governo Temer.

A troca de votos por cargos ou o pagamento dos cargos através das votações, moeda corrente na cena nacional, tem sido o objetivo principal do PSB.

O PSB capitula diante do projeto das elites que pretende sepultar os ganhos sociais conquistados nos embates durante a Assembleia Nacional Constituinte e consagrados na constituição de 1988. Sob os olhares complacentes de dirigentes, alguns que tentam manter o discurso de partido independente, comprometido com o Brasil.

Nada mais é do que a tentativa de estabelecer um discurso para cada público, como ficou demonstrado na tibieza da nota assinada pelo diretório nacional na última reunião realizada em Brasília, em dezembro de 2016.

A covardia política e a frouxidão moral da presidência do PSB são máculas insuperáveis na história do partido. Nunca um dirigente foi tão pequeno diante dos desafios do partido e do Brasil como o atual, Carlos Siqueira, um títere histriônico.

O domínio burocrático-cartorial ou a via pela qual ocorreu o açambarcamento do Partido Socialista Brasileiro é o seu fim, o seu triste e melancólico fim. A alma de um partido, o que o move, o que indica vida inteligente para o que realmente significa um partido político que carrega no seu nome a palavra socialista, é a discussão política, é a luta pela democracia, é a luta para a transformação da sociedade excludente numa sociedade onde os excluídos tenham participação ativa na vida nacional. É o mínimo que se espera. Mas o que se observa é exatamente o contrário.

A permuta dos ideais de democracia e o abandono da construção de um sonho em que homens e mulheres continuassem lutando pelo socialismo como expressão superior da democracia e da construção de uma sociedade menos desigual e fraterna foram levados à bacia das almas e vendidos por cargos num governo tomado de assalto através de um golpe parlamentar, inclusive com a participação de parte dos deputados e senadores. É o fim do PSB.

Resta apenas o que se diz na liturgia católica diante dos mortos, que principia com: “Requiem aeternam dona eis” (“Dai-lhes o repouso eterno”).

Amém!


Postado em 09/01/2017 às 01:10 0

Carta Aberta ao Governador



 

Senhor governador Renan Filho:

 

        Tomo a liberdade de escrever a Vossa Excelência sobre um assunto que reputo sério, mais que isso, grave, mas que não tem merecido a devida importância das autoridades responsáveis pelo sistema penitenciário alagoano.

        A população carcerária alagoana e brasileira é formada essencialmente de pobres, negros e jovens com baixa escolaridade. Esse é um “discurso” conhecido das autoridades e, creio, de V. Excia.

        Acontece que a realidade dos presídios alagoanos mudou radicalmente do início da década de 2000 para cá. Recordo da gestão de dois secretários de Justiça, o ex-delegado Rubens Quintela e o advogado, hoje desembargador, Tutmés Airan. Nestas, o ouvidor-geral do Estado de Alagoas reunia-se uma vez a cada mês com os presos individualmente ou com as comissões que os representavam.

        Naquela época não havia representação de facções criminosas como hoje, quando as autoridades conhecem, convivem e pactuam com os dirigentes do crime organizado.

        O “acidente pavoroso”, como disse o presidente Michel Temer ao tratar quatro dias após a tragédia ocorrida no presídio Anísio Jobim, em Manaus e que deixou como saldo 60 mortos, alguns decapitados tem como responsável o governo do estado do Amazonas e o governo federal.  

        Senhor governador, o presidente do sindicato dos agentes penitenciários tem alertado as autoridades de que os presídios alagoanos estão prestes a explodir em rebeliões e não serão “acidentes”, pois acidente não se comunica às autoridades por ofício ou através de entrevistas à imprensa.

O jornalista Janio de Freitas, em artigo na Folha de São Paulo(8/1), diz com clareza que “As matanças nos presídios de Manaus e Boa Vista refletem apenas o criminoso sistema carcerário e as indiferenças perversas das classes média e alta, que servem de anteparo para a omissão dos governos em seus deveres penais. As explosões da violência encarcerada, crescentes em frequência e em Estados atingidos, expressam também a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam a todos”.  

        A terrível realidade dos cárceres não é enfrentada com a responsabilidade exigida das autoridades no Brasil. Como consequência, o domínio do crime vem crescendo e o Estado perde espaço, quando não se torna refém em determinadas áreas. O sistema penitenciário é uma evidência de uma área onde o Estado é refém. Isso já foi dito por vários ministros da Justiça, ministros do Supremo Tribunal Federal, governadores etc.

        Senhor governador, esse modelo faliu. Será que mesmo com as tragédias em Manaus, Boa Vista e as tantas outras ocorridas e já esquecidas pelas autoridades federais e estaduais, inclusive em Alagoas, onde a cabeça de um preso serviu de bola para um jogo de futebol macabro no presídio, não se tomarão as providências cabíveis e urgentes?

        Esse estágio de barbárie tem a assinatura do Estado. É o Estado o único responsável pela segurança dos presos e da sociedade. O que tem acontecido no interior dos presídios tem reflexo imediato nas ruas de Maceió, de Alagoas e no Brasil.

        Senhor governador, todo o esforço do governo de V. Excia. em divulgar a redução momentânea dos índices de violência não reduz a sensação de insegurança da população. Não haverá sucesso por esse caminho, ouso dizer-lhe, já que os seus assessores e responsáveis diretos pela área da segurança não lhe dizem, por não acreditarem em outro modelo, pois foram formados para a guerra. Nessa guerra o Estado vem sendo derrotado e a sociedade é feita refém.

        Senhor governador, não há saída para esse problema da segurança pública se não houver integração entre os poderes do Estado. A política dos falcões é o caminho certeiro do aprofundamento da barbárie.

        O Poder Judiciário tem igual parcela de responsabilidade na resolução e no controle do problema, assim como o Ministério Público. As três instâncias de poder estatal serão cobradas cada vez mais pela sociedade.

        Senhor governador, não vou tomar mais o seu precioso tempo. Espero, como cidadão alagoano no ano do bicentenário de Alagoas, que esse assunto nada agradável seja tratado com um olhar de quem deseja dar encaminhamento de solução, cumprindo a lei e respeitando os direitos de todos os presos, agentes penitenciários, policiais e da população.

        O Estado democrático de direito é o único caminho. Quem disser o contrário quer trilhar o caminho da barbárie.

Desculpe-me se me alonguei.

        Geraldo de Majella é historiador


Postado em 02/01/2017 às 22:16 0

Aos 56 anos, digo: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”



 

 

 

A minha preocupação neste momento, quando completo 56 anos de vida, é comemorar com os(as) amigos(as)os mais próximos fisicamente. Os que estão longe de Anadia, meu solo pátrio, e de Maceió, minha cidade querida e meu porto seguro, com eles nos falamos pelas redes sociais e até podemos realizar comemorações virtuais.

As comemorações – faz tempo – são embaladas com comidinhas gostosas, mas sem exageros, com pouco sal; as bebidas alcoólicas não fazem parte da minha vida, substituí-as por refrigerantes, sucos e água de coco. Mas, creiam, não me tornei um chato pregador contra as bebidas alcoólicas; não me incomodam os apreciadores da cachaça, uísque, vinho, vodca, gim e de outras destiladas, afinal essas eram as minhas preferidas e ainda salivo quando vejo alguém beber um bom trago.

A música tem ocupado cada vez mais espaço em minha vida, e a comemoração do meu aniversario será com música, samba e chorinho, preferencialmente por se tratar de dois gêneros genuinamente brasileiros.

O ano de 2016 demorou a acabar, mas acabou, ufa!Causou estragos na vida de milhões de brasileiros: o desemprego talvez seja o pior dos males, depois da morte. Os números são assombrosos e exigirão esforços redobrados para o país se recuperar.

A democracia em 2016 foi vilipendiada e o que foi anunciado aconteceu: o golpe parlamentar urdido pelo vice-presidente. As famílias que dominam a grande mídia e a banca nacional e internacional, associadas à banda pobre do parlamento, uniram-se e derrubaram sem crime formal a presidenta eleita.

O brasileiro vive sempre com o fantasma do golpe rondando sobre a sua cabeça. Quando não é militar, são os civis que golpeiam. Os militares desta vez permaneceram nos quartéis.

O Brasil se divide e vai permanecer dividido por algum tempo. Espero que não seja por muito tempo. As jornadas de lutas populares começaram. Antigas conquistas sociais estão sob a mira dos patrões do golpista de plantão Michel Temer.

Eu que não me via mais na condição de animador de passeatas, não terei outra saída a não ser voltar às ruas para protestar contra o governo e defender os direitos trabalhistas e sociais conquistados ao longo de 80 anos, e agora ameaçados.

Em 2016 presenciei o florescimento da direita como expressão política e social como nunca havia sentido desde a redemocratização em 1985. Emergiram de lagos sombrios monstros virtuais e em carne e osso, esbravejando um anticomunismo démodé, sob o manto de denominações religiosas. Essa militância odiosa e intolerante apresentou-se de cara lisa.

O fascismo brasileiro vestido de verde e amarelo dava a entender para os incautos tratar-se de patriotas, pessoas individualmente ou famílias que foram às ruas defender o Brasil da invasão comunista. Esse filme nós já vimos e não presta. A ira hidrófoba que escorre sangue pelos cantos da boca é o símbolo do ódio. O momento da ressaca chegou para as classes médias, as reformas anunciadas lhes pegarão no contrapé da vida.

O ano de 2016 se foi e não me fará falta. Mas nem posso me queixar de tudo. Publiquei mais um livro, Panorama Cultural de Maceió, e para minha surpresa cerca de dez a quinze leitores gostaram. Com isso me senti feliz.

Depois de remar contra a maré, estou convencido de que vale a pena escrever sobre Alagoas. Vou continuar nessa batida, para meu gáudio e possivelmente agrado dos poucos mas fiéis leitores.   

Este ano infame de 2016 me reservou momentos de satisfação. O primeiro foi a parceria com o médico José Milton Araújo (Zémilton): enviei-lhe duas letras e, para minha surpresa, tempos depois ouvi dois sambas de nossa autoria, gravados em CD que em breve será apresentado ao distinto público.

As parcerias com o agrônomo e compositor Stanley Carvalho, depois de conversarmos por e-mail e telefone, floresceram. Em 2016, para nossa surpresa, temos material para gravar um CD. Há um projeto desenhado para 2017, isto é, se o ano vier sem arroubos e maneiro. E como uma coisa puxa outra, fui apresentado pelo Stanley ao compositor Petrúcio Baeto e novas músicas estão brotando das pedras.

Com esses parceiros, somados a outros dois, Gustavo Gomes e Robson Amorim, formei involuntariamente um time de parceiros. Confesso que nessa praia nunca pensei em me banhar. Mas aconteceu. Como a vida nos apresenta adversidades e também alegrias, faço questão de compartilhar estas últimas e agradecer publicamente.

Em 2016 realizei a maior aventura de minha vida: subi até o topo do Pico da Bandeira e caminhei duzentos quilômetros de Tombos (MG) a Alto do Caparaó (MG), em companhia de Vânia, minha companheira de vida. Esta caminhada foi realizada com muita alegria e satisfação pessoal.

Isabela, a minha filha, tem amadurecido. A cada ano me surpreendo com o seu crescimento intelectual, as suas preocupações sociais e profissionais e as suas amizades. As suas inquietudes me deixam feliz; muitas vezes fico quieto, só observando as suas discussões e contestações.

As causas que a tocam são diferentes das minhas, dos meus tempos de estudante. As minhas eram mais ideologicamente definidas; já as por que Isabela luta são causas antigas, mas as formas e os modos de reivindicar e protestar são modernos, em redes sociais.

Esses ganhos pessoais são impagáveis e me deixam feliz, sem intervir, mas acompanhando feito um corujão babão, observando a cria crescer e criar asas para um mundo de muito mais conflitos e antagonismos que os que vivi na juventude.

        Os meus amigos, esses são os meus tesouros que guardo e preservo, não sob sete chaves, mas regando todos os dias com água de boa qualidade para florir durante os doze meses. Em Alagoas as quatro estações não são definidas, nem no Nordeste; daí os campos podem, desde que regados, permanecer florindo.

        Em 2017 vou continuar a ouvir ainda mais o mestre Paulinho da Viola e outros sambistas. Eu quero também comemorar o centenário do samba, esse vetusto senhor, durante o ano de 2017, pois como diz o samba Timoneiro de Paulinho da Viola e do Hermínio Bello de Carvalho:

 

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

 

E quanto mais remo mais rezo

Pra nunca mais se acabar

Essa viagem que faz

O mar em torno do mar

Meu velho um dia falou

Com seu jeito de avisar:

- Olha, o mar não tem cabelos

Que a gente possa agarrar

 

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

 

Timoneiro nunca fui

Que eu não sou de velejar

O leme da minha vida

Deus é quem faz governar

E quando alguém me pergunta

Como se faz pra nadar

Explico que eu não navego

Quem me navega é o mar

 

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

 

A rede do meu destino

Parece a de um pescador

Quando retorna vazia

Vem carregada de dor

Vivo num redemoinho

Deus bem sabe o que ele faz

A onda que me carrega

Ela mesma é quem me traz.

 


Postado em 05/12/2016 às 20:25 0

Alagoas resiste ao golpe



 

Os partidos políticos no Brasil são propriedades privadas com registros em cartórios. Têm e sempre tiveram donos: os antigos chefes políticos, leia-se os coronéis, que durante a República Velha detinham o controle das siglas e dos votos.

        A revolução de 1930 rompeu com muitos dos vícios e domínios dos antigos chefes políticos, mas não mudou substancialmente a estrutura e a organização partidária. Os partidos tornaram-se organizações com abrangência nacional, mas continuaram sendo propriedade privada.

        Em 1946, a nova ordem constitucional emanada da Assembleia Nacional Constituinte passou a vigorar no país; novos partidos foram criados e obtiveram registro no TSE. O Partido Comunista Brasileiro (PCB),fundado em 1922, atuou todo esse tempo na clandestinidade e elegeu uma bancada com 14 deputados federais e um senador,Luís Carlos Prestes. Em 1947 teve o registro e os mandatos dos parlamentares cassados.

        Em 1947, um grupo de intelectuais de esquerda, não marxista, alguns com militância em pequenas organizações clandestinas de inspiração trotsquista, tem a iniciativa de fundar o Partido Socialista Brasileiro (PSB). O partido nasce a partir de um núcleo de destacados intelectuais e patriotas, e logo se torna uma voz considerada no cenário político, pela defesa dos interesses nacionais.

        O golpe militar de 1964 destituiu do cargo o presidente eleito, João Goulart, cassou mandatos de parlamentares e governadores, entre eles Miguel Arraes, bem como de ministros do Supremo Tribunal Federal; prendeu, torturou, assassinou e baniu milhares de brasileiros. Em 1966, mais um golpe é desferido ao se extinguir os partidos políticos. A ditadura permite a existência de apenas dois partidos: ARENA e MDB.

        Os democratas e os patriotas lutaram de todas as formas para derrotar a ditadura militar, o que conseguiram depois de 21 anos. A nação só então pôde respirar o ar da democracia e da liberdade. O PSB, poucos meses após o fim da ditadura, é refundado por intelectuais e militantes históricos, jovens de esquerda e políticos comprometidos com a causa democrática.

        Este partido foi um ator destacado no processo de consolidação da democracia no Brasil. Nesse período, ganhou e perdeu eleições, fez alianças com os partidos de esquerda, notadamente como PT, e com partidos de centro.

        Em Alagoas o PSB conseguiu eleger e reeleger prefeitos em Maceió (Ronaldo Lessa e Kátia Born) e em outras cidades. Elegeu e reelegeu Ronaldo Lessa governador e tornou-se a principal força política do campo de esquerda. Teve no PT, no PPS e no PCdoB aliados que ajudaram a mudar a realidade de Maceió e de Alagoas.

        O PSB nem sempre acertou ao se aliar com partidos (siglas) e políticos mais ao centro. Talvez esse tenha sido o erro fatal na política de alianças do PSB em Alagoas.

        O exercício do poder fez com que os aliados tradicionais fossem tratados como linhas secundárias, quando não hostilizados. As alianças principais passaram a ser feitas com os políticos tradicionais, os deputados de mandatos, originários das oligarquias locais.

        O PSB vem passando por um processo de desfiguração política, ideológica e com desvios éticos semelhantes aos outros partidos (siglas) que são todos os dias citados como copartícipes do butim do erário público.

        A intervenção em Alagoas e em outros estados, efetuada pelo presidente nacional Carlos Siqueira, é parte de uma política imposta em direção ao centro e à direita, com o objetivo claro de transformar uma organização política, o PSB, num cartório de interesses particulares e de grupos econômicos regionais e nacionais.

        A sigla PSB, em Alagoas, foi adquirida na calada da noite pelo deputado João Henrique Caldas, o JHC, por seu pai, o ex-deputado João Caldas, e sua mãe, ex-prefeita de uma cidade no interior do estado. A aquisição da sigla é fruto de tenebrosa transação ainda não totalmente desvendada. Mas o será com certeza, pois não é possível guardar segredo sobre um ato autoritário dessa natureza, principalmente quando se trata da família Caldas. Alagoas os conhece muito bem. 

        O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, imaginou que daria um golpe na executiva estadual e não haveria reação, e sim um silêncio obsequioso em Alagoas. Isso é no mínimo desconhecimento da tradição do PSB alagoano. A reação ao golpe vem crescendo. Estamos nas ruas denunciando o autoritarismo do presidente nacional do PSB.

        Alagoas resiste ao golpe.

        Fora JHC!

Fora Carlos Siqueira!


Postado em 26/11/2016 às 13:10 0

A democracia no PSB é uma farsa



 

O presidente nacional do PSB Carlos Siqueira aplica um golpe na comissão executiva de Alagoas, ao intervir destituindo os seus dirigentes. Ato monocrático dessa natureza é típico do autoritarismo.

Escuda-se Siqueira no estatuto pelo fato de Alagoas não ter alcançado 5% dos votos nas eleições de 2014. A estratégia eleitoral do diretório de Alagoas foi completamente modificada a pedido de Eduardo Campos, candidato a presidência da República, fato do conhecimento de Carlos Siqueira.

Por esse motivo o deputado federal Alexandre Toledo, candidato a senador, foi para o sacrifício e aceitou ser candidato a vice-governador.

Essas articulações Carlos Siqueira as conhece. Esse é o motivo real sem subterfúgios pelos quais não foram alcançados os 5% de votos na legenda do PSB para deputado federal.   

A doação do PSB a um deputado federal com histórico familiar no mercado de compra e venda de siglas partidárias como o João Henrique Caldas e seu pai João Caldas, e declarar à imprensa alagoana que faz parte do projeto político para 2018, é a evidência da farsa que é a democracia interna e uma demonstração explicita do quanto é autoritário o presidente Carlos Siqueira.

O golpe no PSB de Alagoas terá desdobramentos. Os prefeitos, os vice-prefeitos, os vereadores e a militância e o deputado estadual eleito pelo PSB não concordam e vem declarando serem contra qualquer tipo de golpe.  

Estamos denunciando a sociedade alagoana e aos companheiros do PSB de todo o país este golpe.

Hoje foi Alagoas, amanhã será outro estado. O autoritarismo cresce desta maneira.

Ocupar, lutar e resistir!

Fora JHC        

Fora Golpistas.

 

       


Postado em 23/11/2016 às 09:44 0

Carta Aberta



 

Alagoanas e alagoanos:                 

O Brasil está submerso numa crise de grandes proporções. A crise tem várias facetas: a política, a econômica e a ética, entre outras. Os fatos, ao serem noticiados, têm causado estupor na sociedade e cinismo entre parte dos políticos.

Os políticos estão sob fundadas suspeitas. A maioria não se trata mais de suspeitas, pois há provas cabais de corrupção e formação de quadrilha.

Os partidos como peças do sistema político-eleitoral estão também sob suspeição, e não poderia ser diferente. Diante dessa situação de desmoronamento institucional, as direções partidárias fazem de conta que não têm nada com isso.     

A refundação dos partidos é um caminho possível, mas se demorar ou houver resistências, serão cada vez mais rejeitados pela sociedade. Continuarão a existir, mas como biombos de malfeitores. E não basta autointitular-se de esquerda, direita ou centro. A opinião pública continuará considerando-os como malfeitores ou bandidos, no sentido literal da palavra.

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) é parte desse universo. Apontar saídas para as crises é um desafio; não há outro caminho. Se quiser renovar e transformar o PSB numa organização política moderna e respeitável, a militância terá de forçar as direções a efetuarem mudanças radicais no modus operandi de fazer política, tanto interna como externamente.

A transparência é um caminho sem volta. O senador João Capeberibe (PSB/AP) é o autor da lei da transparência na administração pública. Esse princípio deve nortear as atividades do PSB em todas as suas instâncias, da sua cúpula às suas bases. 

Esta é a revolução que todos queremos. Não basta se definir como esquerda para receber o “manto sagrado” da onipresença democrática e revogar as decisões das bases, ou achar que decidindo na cúpula os militantes acompanharão e que os eleitores votarão no PSB e em seus candidatos.

A democracia interna não pode ser um artifício de maiorias circunstanciais ou cartoriais – como vem acontecendo – para esmagar minorias, como é da tradição dos caciques e “coronéis do voto” ou da “pistolagem” ainda presente nos partidos brasileiros.

 Os partidos políticos no Brasil, em boa parte, são propriedades privadas e funcionam como cartórios onde a compra e a venda de legendas é algo natural. Existe um mercado persa político-eleitoral aquecido mesmo quando a crise política, econômica e ética arrasta os políticos para os cárceres.

       O PSB de Alagoas passa por uma situação no mínimo incômoda. Recebeu como “presente” da executiva nacional o deputado federal João Henrique Caldas (JHC), filho do ex-deputado João Caldas, conhecido no mercado persa das siglas partidárias em Alagoas e em Brasília.

       João Henrique Caldas (JHC), festejado por alguns dirigentes, vende a imagem externa de um jovem deputado moderno, “antenado” com as mídias sociais, mas no dia a dia não consegue desvincular-se das “velhas práticas políticas”, por ele de público condenadas.

       A ânsia de obter o controle cartorial do PSB – é o que lhe interessa e tem sido o seu objeto de desejo – quer destituir a direção estadual sem qualquer motivo político ou ético para tal, mesmo sabendo que o mandato tem duração até novembro de 2017.

       A direção estadual do PSB/AL não é acusada de corrupção, formação de quadrilha, desvios de qualquer natureza. Há de se perguntar: qual será o motivo para o JHC se reunir em dois momentos distintos a fim de destituir a direção estadual. A militância em Alagoas precisa tomar conhecimento desse acordo de cúpula para informar os eleitores do PSB e ao povo alagoano.

       A executiva estadual, os diretórios municipais, os prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e a militância do PSB em Alagoas vêm resistindo contra qualquer interferência autoritária ou ilegítima.

       Conclamamos a militância do PSB nos estados e nos municípios a lutar contra o autoritarismo e a violência política.

      

A democracia para nós é um valor universal.

Abaixo a intervenção!

Geraldo de Majella é historiador e membro da executiva estadual do PSB.

 


Postado em 31/10/2016 às 06:02 0

Ocupar e resistir é o caminho



 

        Os estudantes secundaristas estão resistindo ao conservadorismo do governo Temer. O início dessa resistência foram as ocupações das escolas; são mais de 1.200 em todos os estados. A reforma do ensino e a PEC 241 são os alvos.

        O movimento cresce, consolida-se e se amplia com a adesão das universidades federais e dos institutos federais de ensino. A organização e a disposição da garotada têm surpreendido o país. As redes sociais têm sido o canal de comunicação onde são exibidos vídeos contando o dia a dia das ocupações.

        As novas lideranças têm aparecido em cada uma das escolas ocupadas. A pouca idade não tem sido um fator inibidor para esses milhares de jovens estabelecerem o diálogo com as autoridades, inclusive com o Poder Judiciário, nesses dias que antecederam às eleições do segundo turno.

        O Ministro da Educação, representante da direita pernambucana e do Partido Democrata (DEM), não consegue entender que há uma nova sociedade civil no país e que os jovens que estão organizados em cada escola do país são jovens que pensam e querem participar das decisões políticas.

        A política é assunto também da juventude, dos adolescentes estudantes secundaristas. Os velhos políticos conservadores e de direita ainda não conseguiram captar que haverá muita resistência na base da sociedade e que as conquistas alcançadas pelos pais e avós desses jovens não serão transformadas em pó sem resistência.

        A esquerda tradicional também esta perplexa com o tamanho da mobilização e da qualidade das lideranças. Estas novas lideranças têm surgido do meio da massa, das salas de aulas, e não da militância tradicional dos partidos políticos de esquerda, visto que estes envelheceram.

        Organizar uma rede de apoio aos estudantes, professores, trabalhadores da educação e aos pais dos estudantes é uma tarefa necessária e urgente para ampliar a luta e derrotar a política conservadora do governo Temer e do ministro Mendonça Filho.

        Os intelectuais, cientistas, escritores, artistas, profissionais liberais, esportistas, professores, alunos, cidadãs e cidadãos alagoanos e brasileiros democratas de vários matizes políticos e ideológicos temos esse desafio pela frente que é apoiar o movimento de resistência deflagrado pelos estudantes.

Todo o apoio possível aos estudantes, professores e trabalhadores da educação.

Ocupar e resistir é o caminho!

 


Postado em 25/10/2016 às 16:54 0

A crise pode soterrar as políticas públicas. O que os prefeitos devem fazer?



 

A crise política e econômica em que o Brasil está mergulhado não é de curta duração. Esta tem característica diferente das crises vividas desde que superada a ditadura militar. As crises econômicas no governo José Sarney, quando a inflação era elevada, em 1989, último ano do governo, chegou a 80% ao mês.

No governo Collor a inflação continuou alta. Só no final do governo Itamar Franco, com a implantação do Plano Cruzado, é que houve a estabilização da economia. As crises foram em maior ou menor grau superadas. Todas com danos para a população.

A crise vivenciada no Brasilhoje é de um tipo diferente. A desagregação política não tem um fim à vista. A incerteza política atingiu todos os partidos com representação parlamentar significativa no Congresso Nacional. A agenda política é definida pelo Ministério Público Federal, pela Polícia Federal e pela Justiça Federal, no Paraná e em outros estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais, por enquanto.

A crise econômica permanece e tende a ser aprofundada pelo seu caráter exclusivo ou quase obsessivo para o ajuste fiscal e a supressão de direitos e garantias sociais. A falta de liderança no governo capaz de dialogar com a sociedade civil e com as entidades sindicais é sem precedentes desde 1985. 

Os prefeitos eleitos e reeleitos terão pela frente um cenário de guerra e terra arrasada. Os municípios são os principais elos na constituição da federação. Eles executam as principais políticas públicas e estas serão as primeiras a ser mutiladas pela PEC 241.

Esses desafios políticos e econômicos carecem de inovação e racionalidade na luta dos prefeitos e da população para evitar que, em nome da estabilização econômica, haja mutilação das políticas públicas que beneficiam os mais pobres, que são a maioria da população nos municípios alagoanos.

Os prefeitos não podem ouvir e concordar com o discurso orquestrado pelo governo Temer, difundido pelos grandes meios de comunicação a serviço dos banqueiros nacionais e internacionais.

Aceitar a PEC 241 é aceitar a morte passivamente.


Postado em 29/09/2016 às 10:13 0

Pinacoteca Universitária apresenta “A lágrima das coisas”



Foto:Rose Dias

Objetos ganham significados nas obras da artista plástica alagoana Hilda Moura

 

A artista Hilda Moura traz aos salões da Pinacoteca Universitária a exposição “A lágrima das coisas”. No dia 29 de setembro, a partir das 20h, o público poderá conferir uma série inédita de pintura sobre tela e sobre papel, além de duas instalações que irão compor a mostra. Seus novos trabalhos abordam a relação entre a infância e a maturidade.
Para tratar essa relação em suas pinturas, os objetos são dotados de um forte significado simbólico: eles expressam sentimentos, revelam o silêncio e o distanciamento existentes nas relações humanas. São a tesoura, a linha, a agulha que se assinalam como entraves à comunicação entre a criança e o adulto, o que fomos e o que pretendemos ser. “É por meio da pintura que esses objetos ganham significado”, afirma Hilda.
Além dos objetos, a artista nos apresenta elementos da fauna e da flora – sempre presentes em suas pinturas – que se misturam ao corpo feminino, mostrando-nos um mundo que não necessita de racionalização. Um olhar à fragilidade das relações, aos contrastes e conflitos que permeiam a vida humana. A exposição “A lágrima das coisas” convida o público a um universo em que a delicadeza e a profundidade conversam entre si.
“A lágrima das coisas” é a segunda exposição individual da artista Hilda Moura, que já realizou a mostra “Hábito” na Galeria Sesc Maceió, em 2015.

Bienal do Distrito Federal

Recentemente a artista foi selecionada na categoria Pintura, com a obra intitulada “Eva”, para compor a Bienal de Arte Contemporânea do Distrito Federal 2016, promovida pelo Sesc DF. A artista alagoana Hilda Moura destaca-se entre os 40 trabalhos artísticos que representam predominantemente o eixo Rio-São Paulo.

Sobre a artista

A artista alagoana Hilda Moura teve as primeiras aproximações com o desenho e a pintura na década de 1990. Dedicou-se também, durante dez anos, ao aprendizado da cerâmica, através dos ensinamentos do Mestre Deda. As experimentações dessa época contribuem decisivamente com as mudanças, que ocorrem na posterior retomada da pintura. Atualmente, a artista desenvolve técnicas mistas com o uso de óleos, acrílicos e ceras em suas novas séries.

Serviço

O quê: Exposição “A lágrima das coisas”, da artista plástica Hilda Moura
Local: Pinacoteca Universitária, localizada no 1º andar do Espaço Cultural Universitário Salomão de Barros Lima, Pç. Visconde de Sinimbu, 206 – Centro – Maceió – AL
Abertura: 29 de setembro de 2016, às 20h
Visitação: 30 de setembro a 18 de novembro de 2016, de segunda a sexta, das 8h30 às 18h
Mais informações: (82) 3214–1545 e https://www.facebook.com/pinacotecaufal
Informações sobre a artista: http://www.hildamoura.com/ e http://fb.com/ateliehildamoura


Postado em 11/09/2016 às 12:00 0

Caminho da Luz III (Final)



 

O dia 24 de julho amanheceu frio, e era com frio que teríamos de subir até o topo do Pico da Bandeira. São 2.892 m de altitude, marca que lhe confere a condição da mais alta montanha dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e dasregiões Sudeste e Sul.

Esse era o tamanho do desafio que se apresentou pela frente. O grupo era composto de pessoas, boa parte pelo menos, com experiência em caminhadas de longo percurso e com obstáculos. Os comentários eram de que havia entre nós caminhantes que já tinham subido entre sete e dez vezes o Pico da Bandeira.

A troca de experiências, todo o clima era positivo, e o nosso ânimo, o meu e o de Vânia, permaneceu alto; as nossas expectativas eram boas. Estávamos na reta final do percurso de quase duzentos quilômetros. A nossa trajetória era excepcional, principalmente a minha em particular, que estive durante cento e vinte dias cuidando dos dois joelhos. Até aquele momento nada de anormal havia acontecido.

Iniciamos a subida a partir do Terreirão, rumo ao topo; segundo os nossos guias, seriam 9,5 quilômetros para subir e igual distância para descer. O tempo frio do amanhecer do dia – a temperatura era de 6º C no meio da manhã –esquentou um pouco.

Paramos muitas vezes durante a subida para contemplar a beleza da serra do Caparaó. Tudo para mim era deslumbrante, não tenho outro adjetivo para tanto. O sol ajudou a todos nós dissipando as nuvens; o vento soprou com menos intensidade e a sensação térmica foi reduzida. O frio intenso da manhã logo passou a ser uma temperatura agradável.

A mochila, com lanches, a nécessaire com tesoura, agulha, esparadrapo, remédios e o canivete, além do cantil com água potável na cintura e cerca de quatro horas de subida íngreme começarama pesar.

A atenção redobrada para não pisar em falso e torcer o pé, consumir pouca água, com goles parcimoniosos. Esses cuidados repassados pelos mais experientes eram cumpridos com uma disciplina quase militar ou guerrilheira, situação que difere do meu dia a dia.

Quando ouço falar da serra de Caparaó, lembro-me de um amigo alagoano, o ex-sargento da Marinha Edval Augusto de Melo, um dos militares que participaram da guerrilha de Caparaó, preso no dia 1º de abril de 1967. A guerrilha de Caparaó foi a primeira resistência ou tentativa de resistência armada à ditadura militar.

Essa lembrança me acompanhou durante o percurso. Quanto mais eu subia, mais perplexo ficava com tamanho obstáculo para a instalação de um“foco” guerrilheiro. Talvez fosse a Sierra Maestra brasileira.

O fato é que continuamos a subir, eu com essas lembranças, e Vânia a contemplar a beleza. Os dois persistiam a subir até o topo do Pico da Bandeira. Depois de mais de cinco horas, o cansaço e o desânimo por alguns minutos se instalaram entre nós. Faltando cerca de trezentos metros paramos e resolvemos desistir.

Isso é comum acontecer entre os caminhantes. As dificuldades mais comuns, como bolhas, calos, torções, nada disso aconteceu conosco. Era cansaço, fadiga. Eu, num certo momento da caminhada fiquei mais atento ao meu batimento cardíaco. Procurando não forçar, mas não falava nada para Vânia, não queria trazer-lhe preocupação com algo que não dava indicações de inconveniência. É típico de quem sofre infarto; a partir daí torna-se mais cauteloso.

Encostamo-nos a uma pedra e ficamos descansando e a observar os nossos amigos descendo, outros subindo até o topo. Palavras de estímulo, todos diziam.

– Força. (Era a mais comum.)

– Não desistam, está tão perto!

Até que três jovens – dois homens e uma mulher – vieram em nossa direção e disseram:

– O senhor e a senhora não vão desistir. Nós vamos ajudá-los.

A moça pediu a minha mochila, um dos rapazes pediu a mochila de Vânia. E recobramos as forças e o ânimo para concluir a subida até o topo do Pico da Bandeira.

A chegada foi triunfal. Senti-me um alpinista que escalara o Everest ou algo equivalente. A sensação é indescritível ao avistar aquele conjunto fantástico de serras entre Minas Gerais e Espírito Santo.

Queremos deixar registrado que só foi possível chegarmos ao topo do Pico da Bandeira porque contamos com a solidariedade daqueles três jovens.

Obrigado!


Postado em 23/08/2016 às 18:40 0

Foi um prazer lhe conhecer



 

O jornalismo brasileiro perde o brilhante repórter Geneton Moraes Neto, morto no dia 22, na cidade do Rio de Janeiro. Em novembro de 2010, na Festa Literária Internacional de Olinda (Fliporto) tive o privilégio de conhecê-lo. Quem me apresentou foi o jornalista Homero Fonseca, seu amigo e colega dos tempos em que ambos trabalharam no  Diário de Pernambuco. Nesta noite estavam presentes ao jantar Iracema, companheira de Homero e Isabela, minha filha.

Ouvi várias histórias contadas pelos dois com a atenção de um monge, não queria perder um lance. Até que num determinado momento Geneton falou da dificuldade que estava tendo para localizar um ex-guerrilheiro.

Não me contive e perguntei, quem era. Ele falou o nome do comandante Clemente, um ex-guerrilheiro e ex-dirigente da Aliança Libertadora Nacional (ALN), um dos homens mais procurado do Brasil até 1973, quando foi obrigado a exilar-se. Clemente era o codinome de Carlos Eugênio Coelho Campos da Paz, alagoano e meu amigo.

Disse-lhe com satisfação que essa dificuldade estava superada e passei o número do telefone do comandante Clemente.

Geneton surpreso falou que faltava encontrar o Clemente para concluir um programa, alguns meses depois a entrevista foi exibida no programa Dossiê Globo News.

Ainda continuamos conversando, eu ouvindo mais que tudo. Passava da meia noite quando nos despedimos apertei a sua mão e falei: foi um prazer lhe conhecer.

Hoje, digo: que a terra lhe seja leve.