Geraldo de Majella
Geraldo de Majella

Geraldo de Majella Fidelis de Moura Marques historiador, alagoano de Anadia, formado no Centro de Estudos Superiores de Maceió – Cesmac. Exerceu alguns cargos na administração pública como o de Coordenador de Direitos Humanos da Prefeitura de Maceió, Ouvidor-Geral do Estado de Alagoas, Secretário Executivo de Ciência, Tecnologia e Educação Superior de Alagoas, diretor-presidente do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas – Iteral entre outros. Autor dos livros Caderno da Militância – histórias vividas nos bastidores da política; Execuções Sumárias e Grupos de Extermínio em Alagoas (1975-1998); Rubens Colaço: Paixão e vida – A trajetória de um líder sindical; Mozart Damasceno, o bom burguês; O PCB em Alagoas: Documentos (1982-1990) e Um Jornalista em Defesa da Liberdade (2014).

Postado em 11/06/2017 às 16:09 0

Os Desejos de Miriam



 

Os Desejos de Miriam é o segundo curta-metragem do cineasta Nuno Balducci, o lançamento será no dia 16/06 (sexta-feira) às 19h, no Sesc Centro, mais uma produção da Manguaba Filmes. O primeiro filme foi Atirou para Matar.

O filme tem como protagonista Miriam, uma dona de casa de classe média que tenta se entreter com seus dispositivos móveis durante um dia em que  se encontra sozinha em seu apartamento. O enredo traz uma reflexão sobre solidão e incomunicabilidade em tempos de conectividade e empoderamento. 

 

O cineasta Nuno Balducci reconhece que seu envolvimento com o cinema começou “pegando filmes antigos em locadoras”. “Depois comecei a escrever críticas para a revista eletrônica Filmologia e fundei com uns amigos da faculdade o cineclube Projeção. Isso durou três anos, e foi aí que conhecei o pessoal que fazia cinema em Alagoas – Werner Salles, Rafhael Barbosa, Henrique Oliveira.

Balducci é um diretor de cinema radicado em Alagoas e que na estreia foi bem recebido pela critica com o curta-metragem, “Atirou para matar, filme financiado por edital público venceu os prêmios de melhor diretor, melhor roteiro e melhor curta de ficção. Foi exibido em festivais e mostras em Penedo (AL), e também no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Ainda fez parte de uma mostra itinerante que percorreu vários países da América do Sul”.

 

O roteiro foi escrito por Ismélia Tavares e Nuno Balducci, direção de fotografia assinado pelo cineasta alagoano Nivaldo Vasconcelos (Mwany), o curta-metragem será a segunda produção audiovisual premiada pelo Edital Guilherme Rogato FMAC/2015 a ser lançada publicamente.

 

No elenco Simone Ciríaco, Mauro Braga, Kleise Mariah, Caio Rob, Walfredo Luz e Jadir Pereira.

 

Local: Cine Sesc

Dia 16/06 (sexta-feira)

Horário: 19hs

Onde Fica: Rua Barão de Alagoas,229 – Centro

Fone: 3326- 3133

A entrada é gratuita!

 

 


Postado em 24/04/2017 às 09:09 0

Alagoas e a previdência II



 

O governador Renan Filho ao assumir encontrou as finanças do estado de Alagoas em condições satisfatória, isto se compararmos aos dois últimos governadores Ronaldo Lessa e Teotônio Vilela Filho. Lessa encontrou as finanças do estado em frangalhos, o caos havia sido instalado na administração Divaldo Suruagy e Manoel Gomes de Barros (Mano).

O governador Teotônio Vilela Filho recebeu o estado de Ronaldo Lessa, uma Alagoas governável, com as finanças organizadas e as secretarias funcionando inclusive com milhares de novos funcionários concursados.   

        É bom rememorar. Alagoas durante o administração Suruagy-Mano quebrou, não pagava os funcionários públicos e os fornecedores, os pequenos evidentemente, as construtoras e empresas de porte e influencia politica receberam, os funcionários amargaram o desespero por dez meses sem receberem os salários.     

        Alagoas é um dos poucos estados na atualidade onde os funcionários públicos estão recebendo os salários em dia. É motivo de propaganda governamental. A divida de Alagoas com a União foi alongada e ganhou mais 20 anos para ser quitada, mesmo assim é impagável, são 8 bilhões de reais. Isso sem falar dos 10 bilhões que já foram pagos só de juros desde 1997, o que gerou esta divida impagável teve o seu inicio em 1,8 bilhões, relativos ao PDV, letras emitidas pelo tesouro sem lastro e corrupção desenfreada.

O governo federal “benevolente” reduziu os juros de 15 para 11%, o pagamento dos juros antes 55 milhões, passa a ser pago 50 milhões mensais. Mas com o acordo celebrado entre a União e estado Alagoas desde o final de 2016, o estado de Alagoas vem pagando apenas 4 milhões ao governo federal.

A economia mensal de 50 milhões feita pelo tesouro estadual deveria ser “naturalmente” destinada a capitalização da previdência estadual, o AL-Previdência.

Essa massa de recursos em doze meses alcança o montante de 600 milhões de reais. É um passo positivo na direção da organização do caixa da previdência estadual.  A crise da previdência em Alagoas pode ter uma saída planejada, se assim for feito, e o futuro de milhares de funcionários públicos será garantido. E o que restou como ativo, a Casal, por exemplo não deve ser privatizada na bacia da almas.

A previdência pública estadual em Alagoas tem solução no curto, médio e longo prazo. Basta querer.

Alagoas não vai quebrar mais uma vez durante o governo Renan Filho, é o que se espera, mas com certeza se não houver investimentos na previdência pública quebrará no futuro próximo.

Este momento para o executivo estadual e os poderes legislativo e judiciário, o Ministério Público e o Tribunal de Contas é talvez o mais relevante nas últimas décadas para os funcionários públicos e para a sociedade alagoana.

O futuro se aproxima.    

 

 


Postado em 21/04/2017 às 12:22 0

Alagoas e a previdência I



O Brasil está em polvorosa com as delações premiadas ou colaborações premiadas – eufemismo à brasileira –, que fazem políticos, empresários e funcionários públicos perderem o sono. Como se isso não bastasse, o presidente Temer, ele próprio envolvido até a alma nos negócios sujos dos empreiteiros, diz querer passar à história como um presidente reformador.

         Enviou à Câmara Federal dois projetos de lei que estão mexendo com todos os brasileiros, o que reforma a Previdência e o da CLT. A base do governo começa a sentir a pressão da população e emite sinais de que não vai aprovar o que veio do Executivo. Mudanças pontuais têm sido feitas, mas ainda é pouco diante da tragédia anunciada: o corte de direitos em nome da austeridade fiscal.

         E os estados e municípios, como vão ficar? É uma pergunta a ser feita. Alagoas tem uma Previdência insolvente, e não é de hoje, faz tempo. A bem da verdade, nunca houve um Instituto de Previdência dos funcionários públicos. O Ipaseal desde sempre foi uma grande caixa de recursos à disposição dos governadores. Quebrou no momento em que Alagoas também quebrou: em 1997.

         Agora chegou a hora para discutir o presente e o futuro de milhares de funcionários públicos. Milhares já estão aposentados, ou morreram e ficaram as pensionistas. E há milhares de funcionários exercendo as suas atividades. Qual será o futuro de todos eles?

         Haverá recursos para honrar as aposentadorias? Esta e outras respostas, os funcionários públicos desejam saber com exatidão. É chegada a hora de o governo abrir a caixa-preta da Previdência estadual.

         E Maceió e os demais municípios? Que futuro os funcionários públicos dos municípios terão? Com a palavra os governantes e os sindicalistas representantes dos trabalhadores.

 


Postado em 04/04/2017 às 15:38 0

Jayme Miranda, um revolucionário brasileiro.



 

Autor: Sérgio Soares Braga,professor de Ciência Politica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

Resenha publicada na Revista Critica Marxista 44, 2017.

Na cultura política da esquerda marxista brasileira desse início de século XXI a memória de algumas personalidades revolucionárias ocupa lugar de destaque. Mencionemos os casos de militantes como Carlos Marighela, Apolônio de Carvalho, Luiz Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Lamarca e outros combatentes, os quais tiveram suas vidas estudadas e narradas em trabalhos acadêmicos, livros, filmes e mesmo séries de televisão. Entretanto, ao lado desses revolucionários mais presentes no imaginário das esquerdas e do público em geral, existe uma ampla massa de militantes cujas ações, embora de menor visibilidade aos olhos do público, nem por isso deixaram de ter importância semelhante ou equivalente àquelas empreendidas por estas lideranças políticas mais conhecidas.

As Comissões da Verdade que funcionaram no Brasil entre 2012 e 2015 reconstituíram a história de muitos desses combatentes menos notórios, que também dedicaram suas vidas ao trabalho organizativo das classes trabalhadoras e à luta por uma sociedade mais justa. No entanto, mesmo com os avanços propiciados pelos trabalhos dessas comissões, muito esforço de pesquisa ainda resta por ser feito para analisar a trajetória dessa ampla massa de militantes cujas ações foram de fundamental importância na história da esquerda marxista no Brasil, bem como tirar as lições políticas dessa análise.

É nesse contexto que pode ser melhor compreendido o trabalho biográfico de Geraldo de Majella intitulado Jayme Miranda: um revolucionário brasileiro (Editora Bagaço, 2015), onde o autor busca resgatar a memória e fornecer uma breve introdução à compreensão da vida de um importante dirigente comunista que, tendo iniciado sua militância num pequeno estado semi-feudal do nordeste brasileiro, veio a ocupar cargos de destaque na hierarquia do antigo PCB (Partido Comunista Brasileiro) a partir da década de 1950 até ser assassinado sob tortura nas masmorras da ditadura militar em meados da década de 1970. Nascido na década de 1920 numa família pequeno-burguesa e atuante no ramo hoteleiro em Maceió-AL, Jayme Miranda foi um dos muitos jovens nordestinos a se politizar sob o efeito conjugado da vitória dos aliados sobre o nazi-fascismo na segunda guerra mundial e do forte poder de atração que o sistema social vigente na antiga União Soviética exercia sobre a juventude politizada de então. O acesso ao curso superior (formou-se em Direito pela UFAL em 1951), o exercício de atividades intelectuais contínuas em empresas jornalísticas (trabalhou como revisor e repórter em jornais do grupo

Diários Associados durante a guerra), a formação militar (frequentou curso de formação de sargentos no Rio e em São Paulo) e, especialmente, a convivência com organizações operárias dos bairros pobres de Maceió, singularizaram sua trajetória em comparação com outros jovens comunistas de seu estado.

Esta somatória de atributos pessoais (boa formação intelectual, talento organizativo, relativo preparo militar, convivência prática com organizações populares, circulação por diversos ambientes sociais e a consequente ausência de sectarismo político) também fizeram com que Jayme Miranda, mesmo vindo de um dos estados mais pobres e atrasados do país, tivesse uma rápida ascensão na hierarquia interna do PCB em nível nacional, desempenhando inúmeras missões e tarefas de importância, embora sem ocupar cargos que lhe dessem visibilidade aos olhos do grande público e da grande massa da militância partidária. Assim, a partir da década de 1950 Jayme ocupa vários cargos na direção do partido comunista, sendo responsável pela redação do jornal Voz do Povo em Alagoas, membro da direção estadual do PCB, frequentando ainda diversos cursos de formação política no Brasil e em países do Leste Europeu. Exatamente por esses motivos, sofreu várias prisões e perseguições políticas por parte das classes dominantes de seu estado e de seus esbirros, perseguições estas que são narradas de maneira sintética por Majella no livro.

O final dos anos 50 e o início dos anos 60 é o período mais rico de sua militância, tendo participado ativamente da organização das Ligas Camponesas nos estados de Alagoas e Pernambuco, um aspecto da atuação de Jayme que poderia ter sido melhor explorado e aprofundado por Majella em sua biografia. Com efeito, em artigo de homenagem ao falecimento da viúva de Francisco Julião, Alexina Crespo, publicado em dezembro de 2013, outro histórico dirigente comunista falecido em março de 2016, Clodomir de Morais, chega a afirmar que, juntamente com Jayme Miranda e outros membros do comitê estadual de Pernambuco, estabeleceram “o caráter leninista de que carecia a organização de massas [as Ligas Camponesas -- SSB] criada por Zezé da Galileia, José dos Prazeres e pelo padre português Alípio de Freitas”. Este trabalho organizativo clandestino de Jayme Miranda nas Ligas Camponesas, que inclusive levou-o a encontrar-se pessoalmente com Mao Tsé-Tung e outros dirigentes chineses em Pequim, como é documentado pelo acervo fotográfico incluído no livro, é um dos aspectos mais destacados de sua trajetória e poderia ser melhor detalhado pelo biógrafo. De qualquer modo, a radicalização populista das classes médias urbanas de início dos anos 60 e a subsequente deflagração do golpe de 1964 vieram a jogar por terra o meticuloso e sistemático trabalho

preparatório de organização dos camponeses nordestinos dirigido por Jayme Miranda e seus companheiros, ao precipitar o confronto com a direita sem que as organizações campesinas tivessem acumulado forças e experiência política suficientes para resistir ao seu aniquilamento pelas classes dominantes. Sabe-se que as Ligas Camponesas estiveram entre as principais vítimas do golpe de 1964, sendo duramente reprimidas pelas oligarquias feudais nordestinas (especialmente dos estados de Pernambuco, Alagoas e Paraíba) em aliança com setores do aparelho repressivo, que receavam com certo fundamento que pudesse ocorrer no nordeste brasileiro um processo de revolução popular e agrária análogo ao ocorrido em Cuba e outros países do terceiro mundo naquele período.

Após o golpe de 1964 e sua prisão em Alagoas, por medidas de segurança, Jayme Miranda concentra sua militância no sudeste brasileiro, desempenhando missões importantes na direção do PCB. Ao contrário de diversas organizações vinculadas às camadas médias urbanas e dissidências do PCB, Jayme Miranda, juntamente com outros dirigentes comunistas, opta por não aderir à luta armada contra o regime, desempenhando tarefas na organização de uma frente democrática contra a ditadura militar, estratégia que posteriormente demonstrou ser a mais adequada para a liquidação do regime. Estava no desempenho dessas funções quando veio a ser morto sob tortura nas dependências do Exército em fevereiro de 1975 no Rio de Janeiro.

O trabalho de pesquisa de Majella nos mostra que Jayme Miranda teve, até o seu assassinato pelo aparelho repressivo da ditadura militar, uma conduta exemplar que ainda hoje pode servir para a educação política de novas gerações de militantes. O gosto pelo estudo e pela formação teórica, a discrição no desempenho das tarefas e missões mais difíceis, a convivência fraterna com os trabalhadores puros e simples das periferias de Maceió e de outras cidades brasileiras, a modéstia no trato com os camaradas, a manutenção da integridade pessoal mesmo ao defender a política de alianças com setores dominantes progressistas, jamais se resignando a aceitar as benesses das classes dominantes e os privilégios do Estado burguês em troca de apoio político, são os elementos subjacentes à sua conduta durante a fase mais repressiva da ditadura e toda a sua militância. O livro de Geraldo Majella, além de resgatar a memória desse importante líder comunista do século passado, contribui para a construção de um modelo de papel do que deve ser o militante comunista nesse início de século XXI, mesmo com as ressalvas a serem feitas nos dias de hoje em relação aos objetivos finais que orientavam a conduta daquela velha geração de comunistas (vale dizer, a defesa incondicional da miragem do “socialismo real” de tipo soviético).

Palavras-chave: biografia política, militância política, Jayme Miranda, Ligas Camponesas; comunismo.

Keywords: political biography, political militancy, Jayme Miranda, Peasant Leagues; communism


Postado em 30/03/2017 às 07:42 0

A Saga de uma família



A família Miranda foi a família mais perseguida pela polícia política no século XX, em Alagoas. A perseguição ocorreu nas ditaduras de Getúlio Vargas (1930-1945) e a militar (1964-1985), e também durante os governos democráticos. A perseguição, a estigmatização e o ódio público externado contra seus membros são de uma crueldade incomparável e perdurou por seis décadas. Ainda hoje os que são de gerações passadas podem lembrar.

O anticomunismo como indústria e ideologia, produzido com maior vigor no período da Guerra Fria, cravou as suas garras em solo alagoano e fez da família Miranda o principal e permanente alvo a ser combatido, por simbolizar, na perspectiva dos anticomunistas, a sucursal de Moscou.

Olga Miranda, jornalista e advogada, é filha de Jayme Amorim de Miranda, dirigente nacional do PCB, sequestrado no Rio de Janeiro em 1975 e um dos desaparecidos políticos brasileiros. Olga escreveu Oh, pedaço de mim, um livro de memórias. Este livro não contém apenas as memórias, mas a história de sua família escrita cruamente e a contrapelo.

Oh, pedaço de mim é também um recorte da história de Maceió, a partir da saga da sua família, escrito num estilo claro e revelador, muitas vezes, da intimidade dos Miranda, como se estivesse escondida atrás da porta do velho Hotel Atlântico, o bunker do “seu” Manoel Simplício de Miranda, o avó e patriarca da família, escutando segredos de família ou planos de fugas dos tios militantes comunistas e do próprio pai.

Mais do que a memória da família Miranda e uma homenagem ao seu pai, Olga escreveu um capítulo da história dos comunistas de Alagoas.

Dia: 31/03/2017

Local: Sindicato dos Bancarios ( auditório)

Endereço: Rua Barão de Atalaia, 50 - Centro

Horário: 19 horas 

 


Postado em 14/03/2017 às 18:38 0

Muvuca paulistana



 

Homero Fonseca - escritor pernambucano

 

Sabe aqueles estereótipos: “São Paulo é o túmulo do samba” e “São Paulo é um deserto no Carnaval”? Nada mais falso. Há muito tempo o desfile das escolas de Sampa não faz feio diante do portento carioca. E, de uns anos pra cá, o carnaval de rua simplesmente explodiu, com centenas de blocos congregando milhares de foliões, primeiro na Vila Madalena, agora no Centro.

Eu e Iracema fomos ver o movimento na Rua Augusta, no sábado. Já o metrô ia coalhado de gente bonita — a maioria jovens — devidamente paramentada. Fomos a um cinema e depois ficamos num boteco numa esquina estratégica e assistimos alumbrados à muvuca. Tinha gente chegando fresquinha, limpinha e perfumada e gente já voltando, no bagaço. A maioria em grupos, mas também foliões isolados, bêbados perdidos, odaliscas desgarradas. Cantavam músicas desconhecidas para nós. Nada que se iguale (ainda) à folia de Olinda, Recife ou Salvador, mas mesmo assim um espetáculo bonito, colorido e muito animado.

Domingo, 22 horas nos pegaram no hotel para levar-nos ao Brás. Nem sou muito ligado em desfile de escola de samba, mas o fato de a Colorado ter-se inspirado no romance “Roliúde”, de ter gentilmente nos convidado a desfilar no carro de abertura e de ter proporcionado a oportunidade de conhecer por dentro como se move uma engrenagem como aquela, essa conjunção de fatores nos fez aceitar o convite com prazer. E valeu a pena.

Vimos uma comunidade viva, em ebulição, convergindo, nas horas finais, para um desfile apoteótico, numa confusão organizada. Quando chegamos à sede da escola, deparamo-nos com um aparente caos: nas ruas adjacentes, 40 ônibus esperavam para o transporte até o Anhembi, onde fica o sambódromo; um monte de moças sentadas no chão cortando, recortando, colando adereços; fantasias amontoadas pelos cantos; num balcãozinho, vendia-se cerveja e servia-se água mineral; gente chegando já pronta e outros saindo para ir em casa, tomar banho e voltar. No mezanino, dona Néia, chefe da equipe de costura, não largava a máquina nem o bom humor, atendendo os últimos pedidos — como o meu, para diminuir as mangas do paletó lustroso de retalhos que me coube — tendo ao lado o colchão onde, desde começo de janeiro, dormia todas as noites para dar conta do serviço. Iracema procurava os encarregados da maquiagem. No meio da balbúrdia, recruta nesse mundo, pensei cá comigo: “Não vai sair, não fica pronta”. Ledo engano. Aquilo era o gargalo final de um trabalho de 10 meses, movido a paixão pura, pela Escola, pelo Samba e pelo Carnaval, nessa ordem. E no fim tudo deu certo.

A certa altura, lá fora, nas calçadas, aos poucos as pessoas já fantasiadas foram se reunindo por alas: 19, com média de 70 figurantes cada, perfazendo umas 1.300 pessoas. Cada ala com quatro coordenadores que tentavam juntar a turma e conferir os detalhes: “Todo mundo de braçadeira?” “Sim!!” “Todo mundo de cinto?” “Sim!!!” E lá estavam os cangaceiros, os Chaplin, os pistoleiros do faroeste, as coristas, as bailarinas, os Tarzãs, as baianas. Não havia chamada por nome, todos procuravam se aglomerar pelo número das alas. Os diretores de harmonia a tudo observando, eles que se encarregarão do andamento do desfile na pista. O presidente Ká, sempre solícito, atende um e outro, secundado pelo vice Gilson, elétrico, e Ju, ora risonha, ora apreensiva.

A partir da meia noite, numa mistura de cores, gritos, apitos, risos e imprecações, os ônibus começam a zarpar, seguidos por alguns caminhões-baú com os adereços e os instrumentos da bateria mais pesados. Quem não conseguisse estar pronto e ir no ônibus com o grosso de sua ala, seguia no próximo. E assim todos embarcaram, inclusive nós.

 

 

 


Postado em 22/01/2017 às 09:48 0

O divórcio entre teoria e prática é a cara do PSB



 

A revista Práxis nº 2/2016 (Quanta Consultoria e Editora) publica o relatório da Comissão Executiva nacional do PSB, Desenvolvimento e avanço civilizatório, assinado pelo presidente Carlos Siqueira. Este documento deve ser discutido pela militância do partido, pelos aliados e pela sociedade.

        A política publicada, em linhas gerais, não se transformará em ação política concreta no cotidiano do PSB. O esforço para a elaboração desse documento serviu apenas e tão somente para ornamentar o relatório com um título pomposo: Desenvolvimento e avanço civilizatório.

        As posições adotadas pela comissão executiva nacional e, sobretudo, pelo presidente nacional, Carlos Siqueira, através no texto de abertura do Relatório, deixa evidente que um é a negação do outro. Ou seja, a teoria é negada na prática e, desta maneira, abriu-se um enorme fosso político, ideológico e programático.

        Li o documento com atenção e anotei pontos como este na p.20: “Temos que restabelecer a antecedência do trabalho e da produção, sob a perspectiva estritamente financeira ou financista que tem conduzido as políticas econômicas, no Brasil e no mundo”.

Mais à frente o documento diz, na p. 21: “para fazer com que uma perspectiva efetiva de desenvolvimento seja concebida e implantada é preciso superar a dicotomia entre políticas macroeconômicas e políticas sociais. Tanto umas quanto outras devem ser pensadas na mesma chave, para permitir que as políticas sociais se transformem em políticas de Estado”.

Essa crítica velada contra a política econômica dos governos Lula e Dilma oculta o fato de que o PSB foi um dos fiadores e beneficiários da referida política. As administrações de Eduardo Campos podem servir como exemplo. Esta abordagem não pode ser levada a sério, por simplista e irreal.

O PSB, envergonhado, diz através de nota não apoiar o governo Michel Temer, mas mantém-se numa posição de independência; no entanto, libera as bancadas na Câmara e no Senado para participar do governo, inclusive com a indicação de um ministro e de outros cargos na administração.

O governo Temer avança contra as políticas sociais implantadas há 21anos e justifica que isso se dá para equilibrar as contas públicas. Corta investimentos nas áreas de educação, assistência social, agricultura familiar, previdência social e direitos trabalhistas, tudo em nome do ajuste fiscal. O sistema de proteção social corre sérios riscos de fenecer.

O PSB tenta, com uma retórica pouco convincente, defender políticas públicas que possam ser transformadas em “políticas de Estado”, mas como isso pode se efetivar num governo que avança contra os pobres e mantém os benefícios aos ricos?

Esse tipo de discurso deve ser definido como autismo político, fenômeno no qual o completo desligamento da realidade alimenta a criação mental de um mundo autônomo de profunda alienação. É uma leitura possível a ser realizada do documento Desenvolvimento e avanço civilizatório.

O documento é o divórcio entre teoria e prática que, mutatis mutandis, é a cara atual do PSB.


Postado em 12/01/2017 às 09:38 0

Réquiem para o PSB



 

Em verdade não existem partidos políticos no Brasil com princípios e compromissos; existem frentes onde cabem todos os segmentos ideológicos, onde convivem direita e esquerda no vaivém dos interesses pessoais. Não são partidos, são siglas que se intitulam democráticas, trabalhistas, social-democráticas,liberais, socialistas, sem que tais denominações tenham a ver com tomada de posição, razão de luta ou de governo, uma desfaçatez. Jorge Amado, Navegação de Cabotagem, p.38.    

 

            A crise política, econômica e ética instalada no Brasil nos últimos anos tem sido debitada na conta do Partido dos Trabalhadores (PT), como sócio majoritário da ampla aliança de centro-esquerda construída para a eleição vitoriosa da chapa Lula-José Alencar, em 2002. A eleição foi decidida no segundo turno, entre Lula e José Serra (PSDB).         

A formação do governo de centro-esquerda teve como programa básico a Carta aos Brasileiros, sinal claro de vontade e desejo de aproximação do PT com o empresariado nacional, os banqueiros e as classes médias. Os trabalhadores, estes já faziam parte da conta petista e/ou das esquerdas.

 O Partido Socialista Brasileiro (PSB) nessa eleição lançou Anthony Garotinho, mas no segundo turno apoiou a candidatura petista,e assim se comportou nas eleições seguintes, exceção na última, em 2014, quando lançou a candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva. Com a morte de Campos, Marina Silva assumiu a candidatura presidencial com Beto Albuquerque na vice; ao não passar para o segundo turno, o PSB virou o leme e apoiou o tucano Aécio Neves.

O PSB nas três administrações petistas (Lula e Dilma) indicou dirigentes e/ou parlamentares para ministérios e outros órgãos da administração federal. O PSB era um aliado ouvido e levado em consideração por Lula e pelo PT. Com Dilma Rousseff o grau de importância reduziu, pelo menos era o que diziam os dirigentes do PSB com um travo na garganta, mas exercia a defesa da política e das administrações petistas, até o rompimento, que se deu antes do encerramento dos prazos eleitorais.

Após a crise política iniciada com as denúncias que ficaram conhecidas como Mensalão, as vozes do PSB foram no sentido do apoio e defesa do governo e dos petistas. A crise política se alastrou e entornou o caldo no governo Dilma com sucessivas tomadas de decisões erráticas na área econômica. A contaminação do ambiente político com a debacle econômica e a explosão dos escândalos de corrupção deixa cristalina a fragilidade do governo. Com o aprofundamento da crise a que o país está submetido, não tem sido possível visualizar uma saída em que a soberania seja preservada e os interesses nacionais e os ganhos sociais sejam mantidos.

Diante de tão grave situação, o PSB (parcela das bancadas no Senado e na Câmara Federal) intensificou a “discussão” de como participar da partilha dos cargos no governo Temer.

A troca de votos por cargos ou o pagamento dos cargos através das votações, moeda corrente na cena nacional, tem sido o objetivo principal do PSB.

O PSB capitula diante do projeto das elites que pretende sepultar os ganhos sociais conquistados nos embates durante a Assembleia Nacional Constituinte e consagrados na constituição de 1988. Sob os olhares complacentes de dirigentes, alguns que tentam manter o discurso de partido independente, comprometido com o Brasil.

Nada mais é do que a tentativa de estabelecer um discurso para cada público, como ficou demonstrado na tibieza da nota assinada pelo diretório nacional na última reunião realizada em Brasília, em dezembro de 2016.

A covardia política e a frouxidão moral da presidência do PSB são máculas insuperáveis na história do partido. Nunca um dirigente foi tão pequeno diante dos desafios do partido e do Brasil como o atual, Carlos Siqueira, um títere histriônico.

O domínio burocrático-cartorial ou a via pela qual ocorreu o açambarcamento do Partido Socialista Brasileiro é o seu fim, o seu triste e melancólico fim. A alma de um partido, o que o move, o que indica vida inteligente para o que realmente significa um partido político que carrega no seu nome a palavra socialista, é a discussão política, é a luta pela democracia, é a luta para a transformação da sociedade excludente numa sociedade onde os excluídos tenham participação ativa na vida nacional. É o mínimo que se espera. Mas o que se observa é exatamente o contrário.

A permuta dos ideais de democracia e o abandono da construção de um sonho em que homens e mulheres continuassem lutando pelo socialismo como expressão superior da democracia e da construção de uma sociedade menos desigual e fraterna foram levados à bacia das almas e vendidos por cargos num governo tomado de assalto através de um golpe parlamentar, inclusive com a participação de parte dos deputados e senadores. É o fim do PSB.

Resta apenas o que se diz na liturgia católica diante dos mortos, que principia com: “Requiem aeternam dona eis” (“Dai-lhes o repouso eterno”).

Amém!


Postado em 09/01/2017 às 01:10 0

Carta Aberta ao Governador



 

Senhor governador Renan Filho:

 

        Tomo a liberdade de escrever a Vossa Excelência sobre um assunto que reputo sério, mais que isso, grave, mas que não tem merecido a devida importância das autoridades responsáveis pelo sistema penitenciário alagoano.

        A população carcerária alagoana e brasileira é formada essencialmente de pobres, negros e jovens com baixa escolaridade. Esse é um “discurso” conhecido das autoridades e, creio, de V. Excia.

        Acontece que a realidade dos presídios alagoanos mudou radicalmente do início da década de 2000 para cá. Recordo da gestão de dois secretários de Justiça, o ex-delegado Rubens Quintela e o advogado, hoje desembargador, Tutmés Airan. Nestas, o ouvidor-geral do Estado de Alagoas reunia-se uma vez a cada mês com os presos individualmente ou com as comissões que os representavam.

        Naquela época não havia representação de facções criminosas como hoje, quando as autoridades conhecem, convivem e pactuam com os dirigentes do crime organizado.

        O “acidente pavoroso”, como disse o presidente Michel Temer ao tratar quatro dias após a tragédia ocorrida no presídio Anísio Jobim, em Manaus e que deixou como saldo 60 mortos, alguns decapitados tem como responsável o governo do estado do Amazonas e o governo federal.  

        Senhor governador, o presidente do sindicato dos agentes penitenciários tem alertado as autoridades de que os presídios alagoanos estão prestes a explodir em rebeliões e não serão “acidentes”, pois acidente não se comunica às autoridades por ofício ou através de entrevistas à imprensa.

O jornalista Janio de Freitas, em artigo na Folha de São Paulo(8/1), diz com clareza que “As matanças nos presídios de Manaus e Boa Vista refletem apenas o criminoso sistema carcerário e as indiferenças perversas das classes média e alta, que servem de anteparo para a omissão dos governos em seus deveres penais. As explosões da violência encarcerada, crescentes em frequência e em Estados atingidos, expressam também a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam a todos”.  

        A terrível realidade dos cárceres não é enfrentada com a responsabilidade exigida das autoridades no Brasil. Como consequência, o domínio do crime vem crescendo e o Estado perde espaço, quando não se torna refém em determinadas áreas. O sistema penitenciário é uma evidência de uma área onde o Estado é refém. Isso já foi dito por vários ministros da Justiça, ministros do Supremo Tribunal Federal, governadores etc.

        Senhor governador, esse modelo faliu. Será que mesmo com as tragédias em Manaus, Boa Vista e as tantas outras ocorridas e já esquecidas pelas autoridades federais e estaduais, inclusive em Alagoas, onde a cabeça de um preso serviu de bola para um jogo de futebol macabro no presídio, não se tomarão as providências cabíveis e urgentes?

        Esse estágio de barbárie tem a assinatura do Estado. É o Estado o único responsável pela segurança dos presos e da sociedade. O que tem acontecido no interior dos presídios tem reflexo imediato nas ruas de Maceió, de Alagoas e no Brasil.

        Senhor governador, todo o esforço do governo de V. Excia. em divulgar a redução momentânea dos índices de violência não reduz a sensação de insegurança da população. Não haverá sucesso por esse caminho, ouso dizer-lhe, já que os seus assessores e responsáveis diretos pela área da segurança não lhe dizem, por não acreditarem em outro modelo, pois foram formados para a guerra. Nessa guerra o Estado vem sendo derrotado e a sociedade é feita refém.

        Senhor governador, não há saída para esse problema da segurança pública se não houver integração entre os poderes do Estado. A política dos falcões é o caminho certeiro do aprofundamento da barbárie.

        O Poder Judiciário tem igual parcela de responsabilidade na resolução e no controle do problema, assim como o Ministério Público. As três instâncias de poder estatal serão cobradas cada vez mais pela sociedade.

        Senhor governador, não vou tomar mais o seu precioso tempo. Espero, como cidadão alagoano no ano do bicentenário de Alagoas, que esse assunto nada agradável seja tratado com um olhar de quem deseja dar encaminhamento de solução, cumprindo a lei e respeitando os direitos de todos os presos, agentes penitenciários, policiais e da população.

        O Estado democrático de direito é o único caminho. Quem disser o contrário quer trilhar o caminho da barbárie.

Desculpe-me se me alonguei.

        Geraldo de Majella é historiador


Postado em 02/01/2017 às 22:16 0

Aos 56 anos, digo: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”



 

 

 

A minha preocupação neste momento, quando completo 56 anos de vida, é comemorar com os(as) amigos(as)os mais próximos fisicamente. Os que estão longe de Anadia, meu solo pátrio, e de Maceió, minha cidade querida e meu porto seguro, com eles nos falamos pelas redes sociais e até podemos realizar comemorações virtuais.

As comemorações – faz tempo – são embaladas com comidinhas gostosas, mas sem exageros, com pouco sal; as bebidas alcoólicas não fazem parte da minha vida, substituí-as por refrigerantes, sucos e água de coco. Mas, creiam, não me tornei um chato pregador contra as bebidas alcoólicas; não me incomodam os apreciadores da cachaça, uísque, vinho, vodca, gim e de outras destiladas, afinal essas eram as minhas preferidas e ainda salivo quando vejo alguém beber um bom trago.

A música tem ocupado cada vez mais espaço em minha vida, e a comemoração do meu aniversario será com música, samba e chorinho, preferencialmente por se tratar de dois gêneros genuinamente brasileiros.

O ano de 2016 demorou a acabar, mas acabou, ufa!Causou estragos na vida de milhões de brasileiros: o desemprego talvez seja o pior dos males, depois da morte. Os números são assombrosos e exigirão esforços redobrados para o país se recuperar.

A democracia em 2016 foi vilipendiada e o que foi anunciado aconteceu: o golpe parlamentar urdido pelo vice-presidente. As famílias que dominam a grande mídia e a banca nacional e internacional, associadas à banda pobre do parlamento, uniram-se e derrubaram sem crime formal a presidenta eleita.

O brasileiro vive sempre com o fantasma do golpe rondando sobre a sua cabeça. Quando não é militar, são os civis que golpeiam. Os militares desta vez permaneceram nos quartéis.

O Brasil se divide e vai permanecer dividido por algum tempo. Espero que não seja por muito tempo. As jornadas de lutas populares começaram. Antigas conquistas sociais estão sob a mira dos patrões do golpista de plantão Michel Temer.

Eu que não me via mais na condição de animador de passeatas, não terei outra saída a não ser voltar às ruas para protestar contra o governo e defender os direitos trabalhistas e sociais conquistados ao longo de 80 anos, e agora ameaçados.

Em 2016 presenciei o florescimento da direita como expressão política e social como nunca havia sentido desde a redemocratização em 1985. Emergiram de lagos sombrios monstros virtuais e em carne e osso, esbravejando um anticomunismo démodé, sob o manto de denominações religiosas. Essa militância odiosa e intolerante apresentou-se de cara lisa.

O fascismo brasileiro vestido de verde e amarelo dava a entender para os incautos tratar-se de patriotas, pessoas individualmente ou famílias que foram às ruas defender o Brasil da invasão comunista. Esse filme nós já vimos e não presta. A ira hidrófoba que escorre sangue pelos cantos da boca é o símbolo do ódio. O momento da ressaca chegou para as classes médias, as reformas anunciadas lhes pegarão no contrapé da vida.

O ano de 2016 se foi e não me fará falta. Mas nem posso me queixar de tudo. Publiquei mais um livro, Panorama Cultural de Maceió, e para minha surpresa cerca de dez a quinze leitores gostaram. Com isso me senti feliz.

Depois de remar contra a maré, estou convencido de que vale a pena escrever sobre Alagoas. Vou continuar nessa batida, para meu gáudio e possivelmente agrado dos poucos mas fiéis leitores.   

Este ano infame de 2016 me reservou momentos de satisfação. O primeiro foi a parceria com o médico José Milton Araújo (Zémilton): enviei-lhe duas letras e, para minha surpresa, tempos depois ouvi dois sambas de nossa autoria, gravados em CD que em breve será apresentado ao distinto público.

As parcerias com o agrônomo e compositor Stanley Carvalho, depois de conversarmos por e-mail e telefone, floresceram. Em 2016, para nossa surpresa, temos material para gravar um CD. Há um projeto desenhado para 2017, isto é, se o ano vier sem arroubos e maneiro. E como uma coisa puxa outra, fui apresentado pelo Stanley ao compositor Petrúcio Baeto e novas músicas estão brotando das pedras.

Com esses parceiros, somados a outros dois, Gustavo Gomes e Robson Amorim, formei involuntariamente um time de parceiros. Confesso que nessa praia nunca pensei em me banhar. Mas aconteceu. Como a vida nos apresenta adversidades e também alegrias, faço questão de compartilhar estas últimas e agradecer publicamente.

Em 2016 realizei a maior aventura de minha vida: subi até o topo do Pico da Bandeira e caminhei duzentos quilômetros de Tombos (MG) a Alto do Caparaó (MG), em companhia de Vânia, minha companheira de vida. Esta caminhada foi realizada com muita alegria e satisfação pessoal.

Isabela, a minha filha, tem amadurecido. A cada ano me surpreendo com o seu crescimento intelectual, as suas preocupações sociais e profissionais e as suas amizades. As suas inquietudes me deixam feliz; muitas vezes fico quieto, só observando as suas discussões e contestações.

As causas que a tocam são diferentes das minhas, dos meus tempos de estudante. As minhas eram mais ideologicamente definidas; já as por que Isabela luta são causas antigas, mas as formas e os modos de reivindicar e protestar são modernos, em redes sociais.

Esses ganhos pessoais são impagáveis e me deixam feliz, sem intervir, mas acompanhando feito um corujão babão, observando a cria crescer e criar asas para um mundo de muito mais conflitos e antagonismos que os que vivi na juventude.

        Os meus amigos, esses são os meus tesouros que guardo e preservo, não sob sete chaves, mas regando todos os dias com água de boa qualidade para florir durante os doze meses. Em Alagoas as quatro estações não são definidas, nem no Nordeste; daí os campos podem, desde que regados, permanecer florindo.

        Em 2017 vou continuar a ouvir ainda mais o mestre Paulinho da Viola e outros sambistas. Eu quero também comemorar o centenário do samba, esse vetusto senhor, durante o ano de 2017, pois como diz o samba Timoneiro de Paulinho da Viola e do Hermínio Bello de Carvalho:

 

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

 

E quanto mais remo mais rezo

Pra nunca mais se acabar

Essa viagem que faz

O mar em torno do mar

Meu velho um dia falou

Com seu jeito de avisar:

- Olha, o mar não tem cabelos

Que a gente possa agarrar

 

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

 

Timoneiro nunca fui

Que eu não sou de velejar

O leme da minha vida

Deus é quem faz governar

E quando alguém me pergunta

Como se faz pra nadar

Explico que eu não navego

Quem me navega é o mar

 

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

É ele quem me carrega

Como nem fosse levar

 

A rede do meu destino

Parece a de um pescador

Quando retorna vazia

Vem carregada de dor

Vivo num redemoinho

Deus bem sabe o que ele faz

A onda que me carrega

Ela mesma é quem me traz.

 


Postado em 05/12/2016 às 20:25 0

Alagoas resiste ao golpe



 

Os partidos políticos no Brasil são propriedades privadas com registros em cartórios. Têm e sempre tiveram donos: os antigos chefes políticos, leia-se os coronéis, que durante a República Velha detinham o controle das siglas e dos votos.

        A revolução de 1930 rompeu com muitos dos vícios e domínios dos antigos chefes políticos, mas não mudou substancialmente a estrutura e a organização partidária. Os partidos tornaram-se organizações com abrangência nacional, mas continuaram sendo propriedade privada.

        Em 1946, a nova ordem constitucional emanada da Assembleia Nacional Constituinte passou a vigorar no país; novos partidos foram criados e obtiveram registro no TSE. O Partido Comunista Brasileiro (PCB),fundado em 1922, atuou todo esse tempo na clandestinidade e elegeu uma bancada com 14 deputados federais e um senador,Luís Carlos Prestes. Em 1947 teve o registro e os mandatos dos parlamentares cassados.

        Em 1947, um grupo de intelectuais de esquerda, não marxista, alguns com militância em pequenas organizações clandestinas de inspiração trotsquista, tem a iniciativa de fundar o Partido Socialista Brasileiro (PSB). O partido nasce a partir de um núcleo de destacados intelectuais e patriotas, e logo se torna uma voz considerada no cenário político, pela defesa dos interesses nacionais.

        O golpe militar de 1964 destituiu do cargo o presidente eleito, João Goulart, cassou mandatos de parlamentares e governadores, entre eles Miguel Arraes, bem como de ministros do Supremo Tribunal Federal; prendeu, torturou, assassinou e baniu milhares de brasileiros. Em 1966, mais um golpe é desferido ao se extinguir os partidos políticos. A ditadura permite a existência de apenas dois partidos: ARENA e MDB.

        Os democratas e os patriotas lutaram de todas as formas para derrotar a ditadura militar, o que conseguiram depois de 21 anos. A nação só então pôde respirar o ar da democracia e da liberdade. O PSB, poucos meses após o fim da ditadura, é refundado por intelectuais e militantes históricos, jovens de esquerda e políticos comprometidos com a causa democrática.

        Este partido foi um ator destacado no processo de consolidação da democracia no Brasil. Nesse período, ganhou e perdeu eleições, fez alianças com os partidos de esquerda, notadamente como PT, e com partidos de centro.

        Em Alagoas o PSB conseguiu eleger e reeleger prefeitos em Maceió (Ronaldo Lessa e Kátia Born) e em outras cidades. Elegeu e reelegeu Ronaldo Lessa governador e tornou-se a principal força política do campo de esquerda. Teve no PT, no PPS e no PCdoB aliados que ajudaram a mudar a realidade de Maceió e de Alagoas.

        O PSB nem sempre acertou ao se aliar com partidos (siglas) e políticos mais ao centro. Talvez esse tenha sido o erro fatal na política de alianças do PSB em Alagoas.

        O exercício do poder fez com que os aliados tradicionais fossem tratados como linhas secundárias, quando não hostilizados. As alianças principais passaram a ser feitas com os políticos tradicionais, os deputados de mandatos, originários das oligarquias locais.

        O PSB vem passando por um processo de desfiguração política, ideológica e com desvios éticos semelhantes aos outros partidos (siglas) que são todos os dias citados como copartícipes do butim do erário público.

        A intervenção em Alagoas e em outros estados, efetuada pelo presidente nacional Carlos Siqueira, é parte de uma política imposta em direção ao centro e à direita, com o objetivo claro de transformar uma organização política, o PSB, num cartório de interesses particulares e de grupos econômicos regionais e nacionais.

        A sigla PSB, em Alagoas, foi adquirida na calada da noite pelo deputado João Henrique Caldas, o JHC, por seu pai, o ex-deputado João Caldas, e sua mãe, ex-prefeita de uma cidade no interior do estado. A aquisição da sigla é fruto de tenebrosa transação ainda não totalmente desvendada. Mas o será com certeza, pois não é possível guardar segredo sobre um ato autoritário dessa natureza, principalmente quando se trata da família Caldas. Alagoas os conhece muito bem. 

        O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, imaginou que daria um golpe na executiva estadual e não haveria reação, e sim um silêncio obsequioso em Alagoas. Isso é no mínimo desconhecimento da tradição do PSB alagoano. A reação ao golpe vem crescendo. Estamos nas ruas denunciando o autoritarismo do presidente nacional do PSB.

        Alagoas resiste ao golpe.

        Fora JHC!

Fora Carlos Siqueira!


Postado em 26/11/2016 às 13:10 0

A democracia no PSB é uma farsa



 

O presidente nacional do PSB Carlos Siqueira aplica um golpe na comissão executiva de Alagoas, ao intervir destituindo os seus dirigentes. Ato monocrático dessa natureza é típico do autoritarismo.

Escuda-se Siqueira no estatuto pelo fato de Alagoas não ter alcançado 5% dos votos nas eleições de 2014. A estratégia eleitoral do diretório de Alagoas foi completamente modificada a pedido de Eduardo Campos, candidato a presidência da República, fato do conhecimento de Carlos Siqueira.

Por esse motivo o deputado federal Alexandre Toledo, candidato a senador, foi para o sacrifício e aceitou ser candidato a vice-governador.

Essas articulações Carlos Siqueira as conhece. Esse é o motivo real sem subterfúgios pelos quais não foram alcançados os 5% de votos na legenda do PSB para deputado federal.   

A doação do PSB a um deputado federal com histórico familiar no mercado de compra e venda de siglas partidárias como o João Henrique Caldas e seu pai João Caldas, e declarar à imprensa alagoana que faz parte do projeto político para 2018, é a evidência da farsa que é a democracia interna e uma demonstração explicita do quanto é autoritário o presidente Carlos Siqueira.

O golpe no PSB de Alagoas terá desdobramentos. Os prefeitos, os vice-prefeitos, os vereadores e a militância e o deputado estadual eleito pelo PSB não concordam e vem declarando serem contra qualquer tipo de golpe.  

Estamos denunciando a sociedade alagoana e aos companheiros do PSB de todo o país este golpe.

Hoje foi Alagoas, amanhã será outro estado. O autoritarismo cresce desta maneira.

Ocupar, lutar e resistir!

Fora JHC        

Fora Golpistas.