“Eu só consegui colocar a bolsa na mesa. Quando olhei para os alunos, me deu aquele desespero, aquela vontade de sair correndo. E foi o que eu fiz: saí de sala correndo, chorando, urrando de dor. Parecia que alguém tinha morrido”. Este relato é da professora Clara Alana, servidora da rede municipal de Maceió e do Estado de Alagoas, sobre o dia em que o seu corpo recusou a sala de aula.

A cena vivida por Clara reflete uma estatística alarmante apresentada nos dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que apontam que cerca de sete em cada dez docentes no Brasil apresentam sintomas severos de ansiedade, depressão, burnout ou necessidade de afastamento do trabalho devido ao esgotamento profissional.

Essa realidade nacional ganha contornos dramáticos em Alagoas, onde professores adoecem, silenciam e se afastam diariamente das salas de aula sob o peso da violência, da sobrecarga burocrática e da desvalorização salarial.

Professora Clara Alana. Crédito: Cortesia ao CadaMinuto


Para compreender as engrenagens dessa epidemia invisível, a reportagem do CadaMinuto cruzou as histórias e vivências de três docentes, sendo uma professora das redes municipal e estadual readaptada após crises severas de pânico; uma ex-docente da rede privada que optou pelo êxodo definitivo da profissão; e um professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que vivencia o dilema na formação de novos educadores. E ainda a análise clínica de uma psicanalista sobre as marcas desse colapso psíquico.

O adoecimento de um professor não começa no momento em que ele cruza o portão da escola. Ele se instala na véspera, no silêncio da noite, na invasão da rotina doméstica por uma angústia antecipatória que destrói o sono. 

Antes de o corpo sucumbir em definitivo, a mente emite alertas cotidianos como a insônia frequente, o nó na garganta a caminho do trabalho e a percepção de que a sala de aula deixou de ser um espaço pedagógico para se transformar em um território de confronto e sobrevivência.

Nas periferias urbanas de Alagoas, o professor é frequentemente empurrado para o papel de testemunha e absorvedor de tragédias sociais brutais. O esgotamento de Clara Alana não decorreu apenas da indisciplina ou da sobrecarga burocrática de trabalho, mas da impossibilidade de digerir o trauma contínuo vivenciado por seus alunos.

“Tinha uma turma de nono ano com no máximo 30 alunos em que três alunas tinham sido estupradas: uma pelo pastor, duas pelo próprio pai. Eu tinha aluno que não podia fazer trabalho em grupo com outro porque não podia entrar em determinada rua por conta de facções rivais. Tudo isso foi mexendo com o meu psicológico. A violência e o desamparo mexem com você”, relata a professora.

Sem suporte psicológico estruturado nas redes públicas para lidar com essa carga emocional, o desgaste acumulado desaguou no pânico. O afastamento temporário de um ano terminou em readaptação funcional. Hoje, Clara não pisa mais em uma sala de aula, ela trabalha na biblioteca de uma escola e no setor administrativo de outra.

“E olhe que eu amava dar aula! Eu dava o meu máximo, tentava fazer as aulas mais criativas possíveis. Só que não dá mais. Eu não consigo nem pensar em voltar”, desabafa.

Quando ensinar vira "pagar para trabalhar"

Se na rede pública o esgotamento docente é frequentemente acelerado pela violência e pelo impacto social da vulnerabilidade dos alunos, no setor privado a expulsão dos profissionais ocorre por uma equação matemática perversa: a precarização salarial.

A história da ex-professora Nathallya Oliveira, licenciada em História pela UFAL, ilustra o fenômeno do êxodo definitivo da docência em Alagoas. Diferente dos casos motivados exclusivamente pelo trauma psíquico, ela deixou as salas de aula do ensino privado quando percebeu que a remuneração oferecida já não garantia a sua própria subsistência.

Nathallya Oliveira, licenciada em História pela Ufal e ex-professara da rede particular de ensino


“Foi um momento bem difícil, a conta não fechava. Na época, o transporte público custava entre R$ 3,00 e R$ 3,25 e a escola queria pagar R$ 5,00 na hora-aula. Sem contar que não assinavam a carteira de trabalho. Ou seja, era pagar para trabalhar”, revela Nathallya.

Sem propostas salariais dignas na rede privada e diante da escassez de concursos públicos para a carreira do magistério no estado, a ex-docente tomou a decisão drástica de abandonar a profissão para a qual se qualificou, recorrendo a empréstimos e à ajuda familiar para abrir o próprio negócio.

“A licenciatura está longe de ser uma profissão valorizada. O sonho de exercer a profissão na educação básica é encerrado quando chega o fim do mês e o salário não paga nem as contas básicas”, desabafa.

Para ela Alagoas precisa cumprir o piso salarial da categoria, “isso vai ajudar a valorizar, bem como criar outros incentivos e benefícios como plano de saúde, auxílio para atividade física, transporte e alimentação. A profissão que forma todas as outras, infelizmente, não é valorizada”.

O olhar de quem forma: entre o trauma e a resistência

A crise da saúde mental na educação também bate à porta do ensino superior. O professor e pesquisador Marcelo Marques, do campus da UFAL em Arapiraca, vivencia a questão em duas frentes: como docente que enfrenta a rotina acadêmica e como formador que observa os dilemas dos futuros professores de Alagoas.

Para Marcelo, a apuração sobre o sofrimento docente revela dois eixos claros de adoecimento que atingem a categoria:

- O Trauma Agudo: Provocado por ameaças, violência explícita ou choque com a vulnerabilidade extrema da comunidade escolar, gerando ruptura psíquica imediata e hipervigilância.

- A Exaustão Crônica: Processo silencioso em que a rotina de trabalho invade a vida privada, sem tempo hábil para a recuperação física e mental.

Contudo, ao avaliar o cenário, o professor faz questão de pontuar um contraponto: a docência não pode ser reduzida a um atestado de falência, existindo um movimento contínuo de resistência pedagógica nas escolas.

“O professor inicia a carreira movido por um ideal: transformar vidas. Esse ideal funciona como fonte de sentido. Quando encontra violência, falta de estrutura e desvalorização, esse ideal se rompe. Ninguém abandona facilmente um trabalho que escolheu por vocação; muitas dessas saídas representam um mecanismo de sobrevivência psíquica”, pontua Marcelo Marques.

Por outro lado, ele ressalta que o debate não deve caminhar para a desistência coletiva da área.

“Não podemos olhar para a docência apenas pelo prisma do colapso. Existe um trabalho diário de resistência e de criação nas escolas alagoanas que precisa ser valorizado. O desafio posta posto não é abandonar a sala de aula, mas exigir que o Estado e a sociedade refundem as condições de trabalho. A educação continua sendo um espaço de transformação e vínculo humano; reconhecer o adoecimento é a premissa para cobrar redes institucionais de apoio”, defende o docente da Ufal.

O diagnóstico clínico e a culpa pelo afastamento

A análise clínica da psicanalista Maria Cavalcante traz o enquadramento técnico sobre a dimensão subjetiva desse colapso, explicando por que o adoecimento na educação vem acompanhado de uma carga emocional tão singular em relação a outras profissões.

Maria Cavalcante, psicanalista


“Ninguém escolhe a licenciatura por mera conveniência financeira. Existe um investimento afetivo e identitário muito forte no ato de ensinar. O professor constrói um ideal de que sua prática vai transformar realidades. Quando ele se depara com a violência diária, a precarização e o descaso institucional, esse ideal é violentamente soterrado. O afastamento, portanto, não é uma desistência leviana, mas a vivência de um luto real pela perda desse projeto de vida”, aponta a psicanalista.

Maria Cavalcante explica ainda o fenômeno da somatização, no qual o sofrimento psicológico que não encontra canais formais de acolhimento passa a se expressar no corpo através de ataques de pânico, crises de ansiedade e insônia severa.

“O corpo e a mente dizem ‘basta’ como um mecanismo final de defesa. Só que esse ‘basta’ frequentemente vem acompanhado de um sentimento devastador de culpa. O docente sente que falhou com seus alunos ou que abandonou a profissão. É fundamental que a sociedade e as redes de ensino compreendam que a readaptação ou o pedido de exoneração não representam fraqueza individual, mas a resposta de um organismo levado ao limite da exaustão”, arremata Maria.

O vazio institucional e a barreira financeira

Um dos pontos mais críticos revelados pela apuração é a inexistência de uma rede pública estruturada de atenção à saúde mental voltada especificamente para os profissionais da educação em Alagoas.

Quando ocorrem episódios de acolhimento no ambiente escolar, eles costumam nascer de iniciativas pontuais e da empatia entre colegas de trabalho, e não de diretrizes governamentais consolidadas. O suporte psicológico disponível nas redes municipal e estadual é destinado quase em sua totalidade ao corpo discente.

“Eu tenho a sorte de não ter filhos e o meu salário ser só para mim, porque o tratamento psicológico e psiquiátrico é muito caro. Se eu fosse esperar por um psiquiatra pelo SUS, levaria meses. O Estado só se importa com números e estatísticas de aprovação, não quer saber da saúde de quem está na ponta”, denuncia a professora Clara Alana.

As histórias reunidas nesta reportagem mostram que o adoecimento docente vai muito além de casos individuais.

Por trás das crises de ansiedade, dos pedidos de exoneração e das readaptações funcionais existe um conjunto de fatores que envolve violência, precarização das condições de trabalho, excesso de burocracia, baixa valorização profissional e ausência de políticas permanentes de cuidado à saúde mental.

Para Marcelo Marques, enfrentar esse cenário exige reconhecer que a saúde do professor também é uma questão de política pública.

Segundo ele, isso passa pela ampliação do suporte psicológico nas redes de ensino, pela redução da sobrecarga burocrática, pelo cumprimento do piso salarial e pelo fortalecimento da parceria entre escola, família e Estado.

Enquanto essas mudanças não chegam, histórias como a de Clara continuam se repetindo silenciosamente.

Ela ainda trabalha em uma escola.

Continua cercada por livros, corredores e estudantes.

Mas nunca mais voltou para a sala de aula onde, durante anos, acreditou que poderia transformar vidas.

Hoje, a professora que um dia sonhou ensinar diz que já não consegue sequer imaginar o próprio retorno.

Foto da capa: Reprodução/Google