“Morar sozinho com um salário mínimo nesta cidade é cruel para quem trabalha com carteira assinada e depende do transporte público.” O relato de Gabriel Bernardo, escritor de 27 anos que trabalha em um hotel de Maceió, resume uma dificuldade enfrentada por muitos jovens: mesmo depois de ingressar no mercado de trabalho, sair da casa da família continua sendo um projeto distante.

A chegada à vida adulta, afinal, nem sempre vem acompanhada da independência esperada. A moradia ainda é compartilhada com pais ou outros parentes, as despesas precisam ser divididas e o desejo de viver sozinho esbarra, sobretudo, na distância entre a renda disponível e o custo de manter uma residência.

A situação enfrentada pelo jovem não é uma exceção. Cada vez mais adultos permanecem na casa da família ou retornam ao convívio com parentes depois de ingressar no mercado de trabalho. Em comum, enfrentam um cenário no qual ter emprego e renda já não é suficiente para garantir autonomia financeira.

Dados do Índice FipeZap mostram que Maceió encerrou junho com o metro quadrado para venda avaliado em R$ 9.966, o mais caro entre as capitais do Nordeste. Jacarecica, Serraria e Gruta de Lourdes aparecem entre os bairros mais valorizados da cidade.

Enquanto os preços dos imóveis avançam, a renda dos alagoanos permanece distante dos valores necessários para comprar ou manter uma residência. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o rendimento mensal domiciliar per capita em Alagoas é de R$ 1.422, valor 12,8% inferior ao salário mínimo de R$ 1.611.

 

Professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Cid Olival. Foto: arquivo pessoal

 

 

Na avaliação do professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Cid Olival, o cenário observado em Maceió se repete em outras capitais brasileiras: os custos da moradia têm aumentado em ritmo superior ao da renda.

“Embora o salário mínimo tenha registrado ganho real nos últimos anos, os preços anunciados dos aluguéis aumentaram bem acima da inflação e dos reajustes salariais”, afirma.

Segundo o economista, a dificuldade não se resume ao valor do aluguel. Condomínio, energia elétrica, água, alimentação, transporte e os gastos necessários para mobiliar uma residência elevam o custo da independência e exigem uma renda muito superior ao preço mensal do imóvel.

“Ter emprego e renda não garante, por si só, condições financeiras para manter uma residência. É preciso que essa renda seja suficiente e relativamente estável para cobrir todo o custo de morar sozinho.”

Diante desse cenário, o escritor continua morando com os tios e contribui para o pagamento de despesas como energia elétrica, internet e água. Embora já tenha feito as contas para buscar um imóvel compatível com sua renda e próximo às oportunidades de trabalho, os valores encontrados ainda dificultam a mudança.

Nas pesquisas feitas por ele, os aluguéis variam de R$ 600 a R$ 3.500 em bairros das partes alta e baixa de Maceió. Além do preço do imóvel, as despesas fixas e os custos de deslocamento fazem com que permanecer com os parentes seja, por enquanto, uma necessidade.

Cid Olival explica que existe um parâmetro considerado saudável por especialistas: o aluguel não deveria comprometer mais de 30% da renda mensal. Na prática, porém, mesmo esse limite pode ser insuficiente quando as demais despesas domésticas entram na conta.

“Em Maceió, com o aumento recente dos preços, essa possibilidade tem se tornado cada vez mais restrita para quem recebe apenas um salário mínimo”, acrescenta.

A busca por autonomia

 

 Gabriel Bernardo, de 27 anos. Foto: arquivo pessoal

 

Permanecer na casa dos tios foi uma decisão necessária para Gabriel, mas essa escolha também traz consequências, como a falta de privacidade e a necessidade de adaptar decisões e hábitos pessoais para preservar o convívio com os demais moradores.

“Funciono melhor em espaços em que estou sozinho, falo sozinho em alto e bom tom, fumo cigarro, coloco música alta para tocar, danço na sala, toco violão”, ressalta.

Segundo a psicóloga clínica Jacqueline Leão, uma das precursoras da Terapia do Esquema no Brasil, a independência financeira representa um dos principais marcos da vida adulta. Quando esse processo é adiado por dificuldades econômicas, pode provocar sentimentos de frustração e impotência, além de aumentar a ansiedade.

“Muitas pessoas relatam vergonha, culpa e até sensação de fracasso, principalmente quando se comparam a amigos ou às expectativas sociais de que o adulto já deveria dar conta da própria vida sem apoio dos pais”, explica.

De acordo com a especialista, o impacto emocional não decorre necessariamente do fato de morar com familiares, mas da maneira como essa convivência é construída. Quando existe respeito à autonomia do adulto, os efeitos tendem a ser menores. A ausência de limites claros, por outro lado, pode gerar conflitos.

“Nessa fase da vida, a relação deixa de ser entre pais e adolescentes e passa a ser entre adultos. Quando essa redefinição de papéis não acontece, surgem cobranças, invasões de privacidade e dificuldades para estabelecer limites”, afirma.

 

Psicóloga clínica e uma das precursoras do trabalho com Terapia do Esquema no Brasil, Jacqueline Leão. Foto: Arquivo Pessoal

 

O jovem reconhece esses reflexos no próprio cotidiano. A instabilidade financeira o obriga a adaptar hábitos pessoais e adiar projetos.

Ele desenvolvia uma revista com amigos da universidade, mas a iniciativa acabou ficando em segundo plano, embora ainda pretenda colocá-la em prática. “Acho que a falta do básico desanima algumas vontades; para mim, não. Sinto ainda mais desejo. Porém, a realidade está empacando a vida”, diz.

Na avaliação do professor, também está em curso uma mudança na forma de compreender a saída da casa dos pais, tradicionalmente associada à conquista de liberdade e autonomia. Permanecer com a família, segundo ele, pode ser resultado de planejamento, e não apenas da falta de recursos.

“Permanecer na residência da família pode ser uma estratégia financeira inteligente, permitindo economizar recursos para investir na qualificação profissional, formar uma reserva financeira ou comprar um imóvel.”

Mais que uma questão financeira

 

 

Se, para Gabriel, o desafio está em equilibrar trabalho, universidade e o desejo de construir uma vida independente, outras histórias mostram que permanecer ou retornar à casa da família nem sempre está relacionado apenas ao preço dos aluguéis.

Foi essa a decisão tomada pela enfermeira Letícia Belo, de 36 anos. Mãe de uma menina, ela voltou a morar com a mãe depois de passar seis anos vivendo com o ex-companheiro. Mais do que uma questão financeira, a mudança foi motivada pela necessidade de contar com uma rede de apoio para conciliar a maternidade e a rotina profissional.

“Eu não tinha rede de apoio quando estava morando sozinha, não tinha com quem deixar minha filha. Com a minha mãe, eu tinha mais possibilidades, como trabalhar”, relata.

Mesmo recebendo mais de um salário mínimo, a enfermeira afirma que o alto custo dos aluguéis continua sendo o principal obstáculo para voltar a viver sozinha. A falta de um espaço próprio também interfere na vida social e na privacidade.

“Algumas pessoas dizem para eu me mudar por causa da privacidade e para conseguir levar pessoas que eu quero para a minha casa, mesmo com cautela, porque eu tenho uma filha”, diz.

Na avaliação de Jacqueline, histórias como a de Letícia mostram que permanecer na casa da família não deve ser interpretado automaticamente como sinal de fracasso.

Em muitos casos, existem relações familiares saudáveis, marcadas pelo respeito à autonomia e pelo apoio mútuo. “Nesses casos, essa convivência pode funcionar como uma estratégia temporária de proteção financeira e fortalecer os vínculos familiares”, afirma a psicóloga.

Para Cid Olival, enfrentar esse cenário exige mudanças que vão além do esforço individual. Ampliar o acesso à moradia, conforme explica, passa por políticas que fortaleçam o mercado de trabalho e reduzam o peso do aluguel no orçamento das famílias.

“É necessário ampliar a geração de empregos formais, com rendimentos suficientes e maior estabilidade. No campo habitacional, também é importante discutir medidas que ampliem a oferta de imóveis para locação de longa duração e reduzam a pressão sobre os preços dos aluguéis.”

Enquanto essas mudanças não saem do papel, a alternativa é ajustar os planos à realidade do orçamento. Para o escritor, isso significou adiar projetos e continuar dividindo a casa com os tios.

Para a enfermeira, representou abrir mão de um espaço próprio para contar com o apoio da mãe e conseguir conciliar trabalho e maternidade. Em ambos os casos, a independência permanece como um projeto em construção.