A cada eleição, a divulgação das pesquisas eleitorais provoca uma mistura de expectativa, comparação e desconfiança entre eleitores e candidatos, principalmente quando diferentes institutos apresentam cenários divergentes para a mesma disputa. Para entender o que explica essas diferenças, quais métodos garantem maior confiabilidade aos levantamentos e como o eleitor pode interpretar os números divulgados, a reportagem ouviu um cientista político e o diretor-proprietário de um instituto de pesquisa consolidado  no mercado.

O debate ganhou novos contornos, também, com a polêmica ideia, levantada pelo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Kassio Nunes Marques, de criar um “selo de acurácia” para destacar institutos que apresentem maior índice de acerto em relação aos resultados oficiais das eleições.

Sobre a existência desses resultados diferentes entre institutos para uma mesma disputa, o cientista político Ranulfo Paranhos avalia que variações são esperadas quando os levantamentos seguem critérios técnicos adequados.

Ele explica que os institutos utilizam modelos semelhantes de amostragem e que as diferenças normalmente aparecem dentro da margem de erro. Uma pesquisa pode apontar determinado candidato com 25%, enquanto outra registra 23% ou 28%, sem que isso represente necessariamente uma contradição.

“Se a margem de erro for de três pontos percentuais ou de 2,5 pontos percentuais, essas diferenças são consideradas normais”, afirmou, acrescentando que divergências maiores costumam aparecer quando a eleição ainda está distante, período em que muitos eleitores ainda não definiram seus votos ou sequer conhecem todos os candidatos.

Paranhos destacou que o Brasil já tem, pelo menos, quatro décadas acumuladas de experiência sobre como fazer pesquisa de opinião e que os institutos de pesquisa reproduzem, basicamente, o mesmo modelo de amostragem, o que faz a grande diferença na pesquisa de opinião.

“É por isso que uma pesquisa com 1.200 ou 1.500 entrevistados consegue representar a intenção de voto de um país inteiro. Essa técnica é utilizada por todos os institutos. As diferenças vão acontecer dentro da margem de erro, o que é muito esperado e muito normal. Toda pesquisa possui uma margem de erro, e esse cálculo é estabelecido em função do tamanho da amostra utilizada. Essas diferenças entre um instituto e outro tendem a ocorrer, considerando que a metodologia aplicada pelos institutos seja equivalente, que as pesquisas sejam idôneas e que as empresas tenham experiência na realização de pesquisas de opinião. Considerando esses fatores mínimos, à medida que as eleições se aproximam, os resultados tendem a ser muito próximos, dentro da margem de erro”, analisou.

O cientista político ressalta que as pesquisas eleitorais mostram tendências e são fotografias do momento, destacando que a sequência de levantamentos é o que permite identificar movimentos do eleitorado.

“As pesquisas eleitorais são capazes de revelar tendências do comportamento do eleitor, mas não devem ser interpretadas como uma previsão definitiva do resultado das urnas. Uma pesquisa dificilmente permanece válida por mais de uma semana. Agora, quando você tem pesquisas que repetem a mesma questão ao longo do tempo, aumentando o número de levantamentos, é possível identificar uma tendência”.

Para ele, a chamada série histórica das pesquisas é o principal instrumento para compreender o cenário eleitoral. Para ele, a mudança nos números não significa necessariamente que o eleitor alterou completamente sua preferência, mas que, com a aproximação da eleição, os votos vão sendo definidos e o número de indecisos diminui.

Em disputas mais acirradas, Paranhos ressalta que fatores políticos podem provocar alterações na intenção de voto, como declarações de candidatos, propostas apresentadas, fatos novos ou desempenho em debates. “A pesquisa de opinião é fundamental durante as eleições. Ela também é essencial depois do processo eleitoral, pois permite ao gestor público identificar quais são as necessidades e preferências da população”, afirmou.

“Selo de Acurácia”

Questionado sobre a ideia do “Selo de Acurácia Eleitoral” para reconhecer institutos que mais se aproximarem dos resultados das urnas, Paranhos afirmou que não considera a medida necessária.

“O sistema atual já possui mecanismos de controle, como a obrigatoriedade de registro das pesquisas na Justiça Eleitoral, com informações sobre metodologia, questionário, tamanho da amostra, valor do levantamento e identificação do contratante. O próprio mercado já exerce um papel regulador sobre os institutos de pesquisa”, avaliou.

Segundo Paranhos, criar um selo exigiria uma estrutura permanente de avaliação e poderia gerar custos adicionais, além da necessidade de definir critérios técnicos e responsáveis pela análise.

Como identificar uma pesquisa confiável, então?, questionou o CadaMinuto. Na avaliação do cientista político, o eleitor deve observar alguns elementos antes de interpretar uma pesquisa, como a metodologia utilizada, o período de coleta, a margem de erro e o histórico do instituto responsável.

Ele destaca que empresas com maior tempo de atuação e reconhecimento no mercado tendem a possuir maior credibilidade, enquanto institutos que apresentam resultados muito discrepantes de forma recorrente podem perder espaço. “O próprio instituto prejudica sua imagem. Nesse sentido, não é interessante para a empresa divulgar pesquisas sem qualidade ou com falhas metodológicas”, disse.

“De maneira geral, o que observamos é que os grandes institutos de pesquisa, aqueles que estão no mercado há mais tempo, costumam conquistar maior reconhecimento público. Houve um período, por exemplo, em que um instituto de pesquisa muito conhecido no Brasil era o Ibope. O nome “Ibope” tornou-se tão forte que passou a ser utilizado como sinônimo de popularidade. Era comum ouvir a pergunta: “Quanto de Ibope você tem?”. Na verdade, tratava-se do nome da empresa, mas a marca tornou-se tão conhecida que acabou substituindo o próprio conceito de audiência ou preferência. Esse é um exemplo da credibilidade que um instituto pode conquistar ao longo do tempo por meio da qualidade de seus resultados”, ressaltou.

Paranhos também afirmou que existe a possibilidade de manipulação de levantamentos, mas explicou que ela não necessariamente ocorre por meio da alteração das respostas dos entrevistados. Segundo ele, uma das formas seria a construção inadequada da amostra, escolhendo um perfil de entrevistados diferente da composição real da população.

Como exemplo, citou uma situação em que um candidato tem maior intenção de voto entre homens e um instituto aumenta artificialmente a participação masculina na amostra, reduzindo a representação feminina. “Nesse caso, não houve necessariamente falsificação das respostas dos entrevistados, mas houve um erro, ou uma manipulação, na definição da amostra”, explicou.

Para Paranhos, irregularidades desse tipo podem gerar punições previstas pela Justiça Eleitoral, além de comprometer a reputação do instituto.

Ao final, o cientista político reforçou que a credibilidade das pesquisas depende da transparência metodológica, da experiência dos institutos e da comparação dos resultados ao longo do tempo, e não apenas de um levantamento isolado.

Histórico de resultados

Também ouvido pela reportagem, Francisco Nunes, diretor-proprietário do Instituto Falpe de Pesquisa, defendeu maior fiscalização sobre o trabalho de campo realizado pelos institutos e afirmou que a credibilidade de uma pesquisa eleitoral deve ser avaliada a partir do histórico de resultados apresentados nas urnas. Ele destacou que os levantamentos representam um retrato do cenário no período em que são realizados e afirmou que a influência das pesquisas sobre o voto atualmente é menor.

Segundo Nunes, o eleitor utiliza as pesquisas como uma forma de expressar suas preferências e prioridades, tanto em levantamentos espontâneos quanto naqueles em que são apresentados nomes de candidatos. Para ele, embora os números possam influenciar parte do eleitorado, esse impacto perdeu força nos últimos anos.

“Hoje eu acho que influenciam, mas muito pouco. As pessoas não estão mais votando em quem as pesquisas indicam que está na frente e que, possivelmente, ganhará as eleições. Elas estão votando mais com base em uma opinião própria”, afirmou.

Com experiência acompanhando pesquisas eleitorais em Alagoas, o diretor da Falpe avaliou que os resultados divulgados devem ser interpretados como uma fotografia do cenário em determinado período. Segundo ele, mesmo que a eleição ocorra semanas depois, o levantamento representa apenas aquele momento específico da disputa.

“É o retrato daquele momento, daquele dia em que a pesquisa é feita. Mesmo que a eleição ocorra um ou dois meses depois, a pesquisa representa aquele momento”, explicou.

Nunes acrescentou que, em determinadas situações, a vantagem de um candidato pode indicar uma tendência mais consolidada. De acordo com ele, quando um nome ultrapassa 55% das intenções de voto, dificilmente será alcançado nos dias seguintes, caso o cenário permaneça estável.

Diferenças entre pesquisas

Sobre as divergências entre pesquisas divulgadas por diferentes institutos, Francisco Nunes afirmou que as diferenças podem estar relacionadas principalmente à coleta de dados em campo e às metodologias utilizadas.

Ele explicou que existe uma margem de diferença considerada normal nos levantamentos e citou que pesquisas realizadas recentemente em Alagoas por diferentes institutos apresentaram resultados semelhantes.

“Existe uma diferença permitida, de até três pontos e meio percentuais”, afirmou. O diretor da Falpe evitou fazer críticas diretas a outros institutos, mas defendeu que o acompanhamento e a fiscalização do trabalho realizado pelos entrevistadores são fundamentais para garantir a qualidade dos resultados.

“Eu não quero passar a impressão de que estou criticando a metodologia aplicada por qualquer instituto. A minha visão é que deve haver uma fiscalização maior no trabalho de campo por parte do responsável pelo instituto e também um treinamento mais intenso das equipes”, disse.

Francisco Nunes afirmou ainda que trabalha com pesquisas desde 1996 e que a Falpe foi registrada oficialmente como instituto em 2010. Segundo ele, a preparação das equipes é um dos fatores determinantes para reduzir erros nos levantamentos.

“Eu venho treinando as pessoas que estão trabalhando neste período desde 2002. Se você estiver bem preparado e seguro daquilo que está fazendo, com certeza o resultado virá com uma margem de erro muito pequena”, declarou.

Iniciativa positiva e critérios de avaliação

Sobre a discussão acerca da criação de um “selo de acurácia”, Nunes avaliou a iniciativa como positiva. Para ele, a medida pode ampliar a confiança do mercado e permitir que contratantes tenham acesso ao histórico dos institutos antes de escolher uma empresa para realizar levantamentos.

“A criação do selo é de grande importância, principalmente para a gente que vive exclusivamente desta profissão. Ela dá mais confiança e, com certeza, na hora da contratação, o nosso cliente terá como pesquisar o nosso trabalho”, afirmou.

Ao comentar quais critérios devem ser observados pelo eleitor antes de confiar em uma pesquisa, o diretor da Falpe destacou a importância de analisar o histórico do instituto, principalmente os resultados apresentados em eleições anteriores. Segundo Nunes, críticas aos levantamentos devem ser feitas com base em dados e não apenas em opiniões.

“Antes de criticar qualquer tipo de pesquisa, olhem primeiro os resultados das últimas eleições. Vejam os acertos, vejam os erros, que são mínimos, muito pequenos”, afirmou.

Ele também declarou que seu instituto não trabalha para produzir resultados direcionados e afirmou que a empresa não aceita interferência nos números divulgados. Para Nunes, a avaliação da confiabilidade de um levantamento deve partir da análise dos dados históricos e da atuação técnica de cada instituto.

“Eu, particularmente, jamais aceito qualquer proposta para mexer em qualquer tipo de resultado, nem mesmo dentro da margem de erro. Portanto, é simples: quem estiver desconfiado dos institutos de pesquisa deve analisar os levantamentos anteriores. Nós registramos várias pesquisas no estado de Alagoas, praticamente em todos os municípios, e basta verificar os resultados e os índices de acerto. Se você observar os nossos últimos resultados, verá que o índice de acerto é quase absoluto”, finalizou.