"Farmar aura", "sigma", "beta", "six seven". Se essas expressões parecem outro idioma para você, saiba que elas já fazem parte do vocabulário de milhões de adolescentes brasileiros. A gíria que viralizou nas redes sociais nos últimos meses vai muito além de uma simples brincadeira da internet e revela aspectos importantes sobre a forma como as novas gerações constroem a própria identidade, buscam reconhecimento e lidam com a aprovação social.

Embora o termo seja recente, o comportamento por trás dele não é. O desejo de ser admirado, aceito e fazer parte de um grupo sempre existiu. A diferença é que, agora, essa busca acontece em um ambiente hiperconectado, onde curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações funcionam como uma espécie de termômetro da popularidade.

Para o psicólogo Valter Silva (CRP 15/7498), especialista no atendimento de crianças e adolescentes, a popularidade da expressão traduz, de forma leve e bem-humorada, um comportamento que acompanha a juventude há décadas.

"A expressão 'farmar aura', assim como outras gírias que surgiram recentemente, traduz de uma maneira divertida e muito própria da linguagem da internet uma necessidade que sempre existiu entre os jovens: a busca por reconhecimento, aceitação social e pertencimento. A diferença é que hoje isso acontece de forma muito mais virtual e conectada", explica.

Segundo o especialista, a expressão já faz parte do cotidiano de crianças e adolescentes, inclusive dentro do consultório.

"Hoje essa linguagem está em todos os contextos. Muitas vezes o paciente chega e pergunta: 'E aí, tio, já farmou aura hoje?'. Isso mostra como essa forma de comunicação já está inserida na rotina deles."

 

O que significa "farmar aura"?

A expressão nasceu da união de dois universos bastante conhecidos pelos adolescentes.

O verbo "farmar" vem dos jogos eletrônicos, como Minecraft, Fortnite e World of Warcraft. Neles, o jogador realiza tarefas repetitivas para acumular recursos, pontos ou experiência.

Já a palavra "aura" faz referência ao carisma, à presença, à energia ou à "vibe" transmitida por uma pessoa.

Na prática, "farmar aura" significa construir uma imagem de alguém interessante, admirado, confiante ou estiloso. É como se cada atitude rendesse pontos em um placar invisível de popularidade.

Uma boa ação, uma resposta inteligente, uma roupa marcante, uma atitude de coragem ou simplesmente a maneira como alguém entra em um ambiente podem render comentários como "+1000 de aura" ou "farmou aura demais".

Por outro lado, situações consideradas constrangedoras ou atitudes vistas como forçadas costumam ser classificadas como "perda de aura".

Muito além de uma gíria

Para Valter Silva, quando um adolescente fala em "farmar aura", normalmente ele não está apenas repetindo uma tendência da internet.

"Muitas vezes ele está falando sobre construir a imagem de alguém interessante, confiante, admirado, alguém que chama atenção por onde passa. O jovem não pensa apenas em viver uma experiência, mas também em como ela será percebida pelos outros."

Na avaliação do psicólogo, isso demonstra o peso que a validação social passou a exercer na construção da identidade durante a adolescência.

"O jovem começa a pensar como pode ser visto, como pode ser percebido e como pode ser considerado legal dentro do grupo. Isso revela uma mudança importante na forma como essa geração constrói sua identidade."

Apesar disso, ele faz questão de desfazer um equívoco comum entre muitos adultos.

"A maioria dos jovens que participa dessas brincadeiras está apenas se divertindo. Assim como existiam batalhas de rap, de rima ou outras formas de expressão cultural, hoje também existem as chamadas batalhas de 'farmar aura'. É mais uma forma de interação entre eles."

O psicólogo Valter Silva / Foto: Arquivo Pessoal 

 

As redes sociais aceleram esse processo

Na opinião do psicólogo, as redes sociais potencializam a necessidade de comparação e aprovação.

"Instagram, TikTok e outras plataformas permitem que o jovem acompanhe, em tempo real, quem está recebendo atenção, quem está sendo admirado e o que está fazendo sucesso."

Cada curtida, comentário ou compartilhamento funciona como uma recompensa imediata.

"Quando você publica algo e recebe aprovação, cria-se a percepção de que precisa continuar fazendo aquilo para ser aceito. O problema aparece quando essa validação deixa de vir de dentro e passa a depender exclusivamente da opinião das outras pessoas."

Segundo Valter Silva, isso pode trazer consequências importantes para a autoestima.

"Pela Psicologia, a adolescência é uma fase fundamental para a construção da identidade. Quando o jovem acredita que precisa parecer interessante o tempo todo para ser aceito, ele pode construir uma autoestima dependente da aprovação dos outros. Aos poucos, deixa de perguntar 'quem eu sou?' para começar a pensar apenas 'o que preciso fazer para que gostem de mim?'."

Outras gírias que dominam o universo dos adolescentes

"Farmar aura" raramente aparece sozinho. A expressão costuma ser acompanhada de outras palavras que também ganharam espaço nas redes sociais.

Entre elas está "sigma", utilizada para definir alguém que transmite confiança, personalidade e consegue "farmar aura" com facilidade.

"beta" costuma ser usada para quem não consegue passar essa imagem ou acaba protagonizando situações consideradas constrangedoras.

Outra palavra bastante conhecida é "cringe", empregada para definir atitudes vistas como vergonhosas, ultrapassadas ou sem graça.

Há ainda o "six seven" (6-7), um meme popularizado principalmente no TikTok e no YouTube Shorts. Diferentemente das demais expressões, ele não possui um significado específico. Seu humor está justamente no absurdo e na repetição, características marcantes da cultura digital consumida pela geração Alfa.

 

Quando a brincadeira deixa de ser saudável?

Embora o fenômeno seja, na maioria das vezes, apenas uma tendência da internet, Valter Silva afirma que existem situações que merecem atenção.

"O principal ponto é observar o sofrimento. A brincadeira deixa de ser apenas uma tendência quando o jovem sente que precisa provar alguma coisa o tempo inteiro para ser aceito ou quando não consegue se sentir bem consigo mesmo sem a aprovação dos outros."

Segundo ele, nesses casos podem surgir ansiedade, baixa autoestima e dificuldades na construção da identidade.

"Quando essa necessidade gera sofrimento, estresse ou uma comparação constante, aí sim ela merece um olhar mais cuidadoso”, diz o psicólogo.

O diálogo continua sendo o melhor caminho

Para Valter Silva, a solução não passa por proibir o acesso às redes sociais.

"Eu nunca vou ser contra a internet ou contra as redes sociais. A questão é como elas estão sendo usadas e qual é o acompanhamento feito pelos pais."

Ele defende que famílias e educadores conversem mais com crianças e adolescentes sobre autoestima, pertencimento e autenticidade.

"O caminho é conversar. Muitos pais preferem levar o filho ao psicólogo antes mesmo de tentar dialogar com ele. É preciso mostrar ao jovem que existe uma diferença muito grande entre buscar reconhecimento e depender da aprovação dos outros para se sentir valorizado."

Segundo o especialista, fortalecer características como valores, personalidade, esforço e capacidade de enfrentar dificuldades ajuda o adolescente a desenvolver uma autoestima mais saudável.

"No final, precisamos ensinar ao jovem que ele não precisa estar o tempo todo performando para ser interessante. Antes de tudo, ele precisa sentir que pode ser ele mesmo."

Mais do que uma simples gíria passageira, "farmar aura" oferece um retrato da juventude contemporânea. A expressão mostra que, embora a linguagem mude e as tendências surjam em velocidade cada vez maior, a necessidade de pertencimento continua sendo uma das marcas mais fortes da adolescência. O que mudou foi o palco onde essa busca acontece: um mundo cada vez mais conectado, onde a aprovação também pode ser medida em curtidas, comentários e compartilhamentos.

O começo de tudo

Um vídeo específico levou a expressão “farmar aura” ao mundo inteiro: Rayyan Arkan Dhika, um menino de 11 anos da Indonésia, conquistou as redes sociais com seu vídeo dançando na proa de uma canoa durante o festival Pacu Jalur. O conteúdo ultrapassou 5 milhões de curtidas no TikTok e Instagram e deu origem à trend "aura farming".

Entre os comentários do vídeo, surgiu a frase: "bro is farming aura", que pode ser traduzido como "tá ganhando moral". O humor nasceu do contraste entre a cena simples e a interpretação exagerada de que o garoto estaria acumulando "pontos de presença social".

 

O menino indonésio Rayyan Arkan Dhika dançando no festival Pacu Jalur deu origem ao conceito de "farmar aura" nas redes socais — Foto: Reprodução/Youtube

 

*Fotos: Reprodução/ Redes Sociais