"O sentimento era de revolta e indignação. Como é que um pai de família passa nove meses sem receber o seu salário, sem ter como colocar comida na mesa, sem condições de pagar o aluguel? A categoria não aguentava mais promessas não cumpridas."
O policial civil Zé Carlos traduz o desespero que sufocava Alagoas em meados de 1997. Não se tratava apenas de uma disputa política nos gabinetes, mas uma crise de sobrevivência que bateu à porta de milhares de lares de servidores públicos.
Naquela manhã de quinta-feira, 17 de julho de 1997, o ar no centro de Maceió não trazia a brisa do mar, mas o cheiro sufocante de gás lacrimogêneo e fumaça de pneus queimados. A Praça Dom Pedro II transformou-se no palco do episódio mais dramático da história política recente do Estado.
Acumulando nove meses de salários atrasados, o funcionalismo público estadual colapsara. Escolas não abriam, com a forte mobilização de base liderada por entidades como o Sinteal, hospitais operavam no limite do caos e o comércio amargava uma recessão profunda. As negociações arrastavam-se há semanas entre o Palácio dos Martírios e a Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE).
Com a votação do pedido de impeachment e afastamento do governador Divaldo Suruagy em pauta no Poder Legislativo, milhares de pessoas tomaram o entorno do prédio. A grande virada de chave institucional ocorreu quando as próprias forças de segurança, policiais civis e militares, uniram-se aos professores, trabalhadores da saúde e à população civil, quebrando as barreiras da governabilidade.

Naquele cenário de extrema tensão, Zé Carlos relembra que a presença da segurança pública ao lado da população mudou radicalmente o peso do protesto, colocando agentes do Estado frente a frente com as forças do Exército Brasileiro, destacadas para proteger o prédio da Assembleia.
"Quando os policiais civis e militares decidiram cruzar os braços e marchar junto com os outros servidores, a estrutura do governo ruiu. Não era mais uma simples passeata; era a união de forças contra um Estado que havia falhado. Nós estávamos ali defendendo os nossos direitos fundamentais”, destaca.

O colapso estrutural
Para além da comoção imediata e da violência na praça, a queda de Divaldo Suruagy precisa ser lida como o sintoma final do colapso de um modelo de gestão fiscal e política. Segundo a análise do professor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Luiz Gomes, pesquisador em sociologia política, o 17 de Julho expôs as entranhas e os limites biológicos de uma estrutura estatal que já operava no fiado, incapaz de honrar compromissos básicos com o funcionalismo público.
Conforme aponta o pesquisador, o movimento de 1997 representou um marco de reconfiguração de forças em Alagoas.
Para Gomes, a união inédita entre categorias historicamente distintas, unindo o rigor e as armas das forças de segurança à combatividade dos professores e trabalhadores da saúde, estilhaçou a governabilidade tradicional do Estado. "A grande virada foi ver a combatividade dos professores marchando lado a lado com o rigor e as armas das forças de segurança."
De acordo com o docente, a crise não apenas forçou a renúncia do Executivo, mas impôs uma restruturação drástica nas contas públicas alagoanas, cujos desdobramentos financeiros e institucionais pautaram todas as gestões que o sucederam.
Por sua vez, o historiador e pesquisador Cláudio Lopes observa que a reação popular daquele dia funcionou como um verdadeiro ato pedagógico para a sociedade civil. Em sua leitura, o episódio demonstrou que a cidadania alagoana não se encerrava no ritual do voto a cada quatro anos, estabelecendo um limite claro para a má gestão e o desrespeito aos direitos básicos do servidor.
"Ali a sociedade civil desenhou um limite bem claro contra o desrespeito ao servidor."
Essa perspectiva de acúmulo histórico também é defendida por Cláudio Lopes, que enfatiza que a explosão de 17 de julho de 1997 não pode ser interpretada como um raio em céu azul ou um evento isolado na história local.
De acordo com o historiador, o levante na Praça Dom Pedro II foi a culminância de um longo processo de organização e resistência sindical que vinha se desenhando ao longo de toda a década de 1990.
Seguindo essa linha, Gomes ressalta o papel determinante desempenhado pelas entidades de classe, com destaque para a atuação do Sinteal e dos sindicatos das polícias, que conseguiram transformar a dor individual do salário atrasado em uma pauta coletiva de afirmação de dignidade.
Na avaliação do sociólogo, a capacidade de organização daquelas categorias demonstrou que o valor do trabalho e a garantia da subsistência são forças capazes de unificar e mover estruturas de poder que pareciam inabaláveis.
Para ambos os pesquisadores, o acervo de lições deixado por 1997 permanece atual, uma vez que a memória daquele 17 de julho segue funcionando como um lembrete permanente aos gestores públicos sobre os perigos do estrangulamento fiscal e a força implacável da mobilização popular quando o Estado falha com a sua gente.
O levante nas páginas da imprensa e o resgate histórico
A dimensão do caos em Alagoas rompeu as fronteiras do Estado e estampou com gravidade as manchetes dos principais veículos do país. No dia seguinte ao confronto, a Folha de S.Paulo trazia a manchete: “Cerco a assembleia obriga a Suruagy a se afastar do cargo”.
Em matéria assinada pelo jornalista Ari Cipola, a cobertura nacional descreveu com precisão o clima de cerco militar e desespero que tomou conta da Praça Dom Pedro II.
“Ontem, armados e a ameaçando de morte os deputados, 15 mil manifestantes forçaram o governador a deixar o cargo. No plenário da Assembléia, onde ocorria a manifestação pelo afastamento do governador, o clima era tenso. A maioria dos deputados estava armada. Os manifestantes, sem salários há mais de seis meses, enfrentaram ontem por várias vezes as baionetas, fuzis, pistolas e cassetetes dos 250 homens do Exército que davam proteção ao prédio da Assembléia Legislativa, onde seria votado o impeachment do governador”. (Folha de S.Paulo, 18 de julho de 1997)
Se o texto jornalístico registrou os fatos e a política, o fotojornalismo imortalizou a tensão visual do levante. No documentário "Um Fato, Várias Lentes", idealizado pelo jornalista, repórter fotográfico e diretor Bruno Fernandes em parceria com Camila Costa, a cobertura do 17 de Julho ganha uma dimensão profunda sobre a psicologia e a coragem dos profissionais que atuaram sob fogo cruzado.

No documentário, os fotógrafos que cobriram o evento relembram que a rotina de passeatas pacíficas deu lugar a um verdadeiro cenário de guerra assim que as polícias civil e militar se uniram aos servidores.
De acordo com os relatos resgatados pela obra, ninguém poderia prever a dimensão da tragédia ou a quantidade de disparos que tomariam o centro da capital.
Conforme destaca o documentário, a atuação dos repórteres fotográficos na praça ocorreu sob um misto de adrenalina, instinto e risco absoluto. Escondidos atrás de palmeiras, bancos de praça ou deitados no chão ao lado de homens armados, os profissionais dividiam-se entre a busca do enquadramento perfeito e a incerteza sobre a natureza das balas disparadas pelos jovens soldados do Exército.
"Nós não partimos do pressuposto do 17 de Julho. O 17 de Julho só veio depois. Nós sempre gostamos muito do Sebastião Salgado, das obras de fotografia. Eu acabei virando repórter fotográfico por conta dessa paixão. Durante as pesquisas, nós entendemos, e depois ficou óbvio, que, independente do fato, qualquer pessoa que for registrar vai registrar com um olhar diferente”, esclarece Fernandes.
Ao resgatar os registros históricos do período, Fernandes identificou a imagem que simboliza com precisão o espírito daquele 17 de Julho: a queda das grades da praça e o avanço contra o cerco militar. O documentarista descreve a força dramática desse enquadramento (foto de capa).
"É uma imagem que mostra os soldados do Exército que estavam fazendo a proteção do lado de dentro... e os manifestantes, policiais civis, militares, alguns apoiadores, estão derrubando essa grade de proteção e avançando em direção aos soldados. Foi a imagem que todo fotógrafo queria, porque resumiu o momento em que os manifestantes vão para cima e desafiam o poder do Exército e do Estado. É uma foto que resume tudo o que aconteceu naquele dia."
Para ele, a atuação dos fotojornalistas na praça deixou um acervo indispensável para a memória coletiva de Alagoas.
"Todo o trabalho que eles fizeram naquele dia hoje a gente reconhece como registro histórico. Foi um fato atípico, que até então nunca havia tido algo semelhante na região. O que eles fizeram ali naquela manhã e tarde acabou entrando para a história. E isso incentiva as futuras gerações a também buscarem registrar fatos que realmente façam diferença na sociedade”, conclui.




