Divaldo Suruagy deixou o governo há exatamente 17 anos, em meio a protestos nas ruas e um conflito histórico entre policiais militares que enfrentaram homens do Exército, exigindo sua queda em 17 de julho de 1997. Naquela data, o pagamento de até oito meses de salários atrasados era cobrado pelo funcionalismo público do Estado. Houve troca de tiros diante da sede da Assembleia Legislativa, que votava o impeachment. E Suruagy renunciou e o processo somente foi aprovado em 18 de setembro daquele ano.
Mas tudo isso não passa de “uma piada, uma brincadeira”, segundo o protagonista desta história. Suruagy prefere apagar da memória a crise, ao ressaltar que não governou entre 1995 e 1997. O ex-governador quer voltar a servir aos alagoanos em um mandato de deputado estadual. Por isso, registrou candidatura pelo PPS, incentivado por mais uma crise de credibilidade após denúncias de ilegalidades.
A casa de número 580 da esquina da Rua Santa Fernanda, na Jatiúca, continua aberta, com uma pequena equipe de funcionários para receber antigos eleitores, correligionários e amigos que ainda procuram por apoio político, conselhos ou emprego junto ao ex-governador. Grandes mesas no interior da casa e cadeiras da recepção estavam vazias no início da tarde de ontem.
Foi nesta casa que o ex-governador recebeu o blog no início da tarde da quarta-feira (16) com um largo sorriso no rosto e uma voz já cansada, apesar da disposição física demonstrada quando se pôs a caminhar ao final da entrevista. Mas os lugares vazios em breve estarão ocupados por alagoanos, se depender da disposição do político de 77 anos, natural de São Luiz do Quitunde. Ele iniciou a campanha na terça-feira (15), lançando candidatura na Loja Maçônica Virtude e Bondade, na Rua Barão de Penedo, Centro de Maceió.

"Ninguém fez mais"
Durante esta conversa, Suruagy deu respostas curtas e reagiu incomodado às tentativas de explorar o que ocorreu em seu último mandato como governador. Nesses e em vários momentos, foi repetitivo em afirmar em tom de desafio que ele foi o governador que mais beneficiou a população alagoana, nos dois primeiros governos, entre 1975 e 1978, e de 1983 a 1986.
Suruagy afirmou que “não se arrepende de nada” relativo à sua carreira política. E justifica a crise de 1997 com a conjuntura econômica de transição da moeda, a “falta de apoio” do governo federal de Fernando Henrique Cardoso e a “herança” de três folhas atrasadas do governo de Geraldo Bulhões. E em outra versão, diz que tudo estava programado para transferir a segunda metade do governo para seu vice, Manoel Gomes de Barros, o “Mano”.
Perguntado sobre os argumentos para a conquista de eleitores, respondeu que não precisa convencer o alagoano a lhe confiar o voto, pois todos o conhecem. E fez questão de afirmar o entusiasmo como é saudado pela população que o reconhece em sua rotina de visitas ao shopping de Mangabeiras, onde costuma frequentar um dos cafés apelidado de “senadinho”. Ressalta que sua maior qualidade é a honestidade, a vida limpa.
Divaldo Suruagy se emocionou ao justificar que escolheu o mandato de deputado estadual como alternativa para um retorno à política. As outras opções no Congresso Nacional o obrigariam a deixar o Estado, e ele disse querer morrer em Alagoas. Neste momento, Suruagy foi perguntado se esta seria sua forma de declarar o amor pelo Estado, tentou responder, mas a voz engasgou em um “sim” e seus olhos encheram de lágrimas.
Seria o fim da entrevista. Mas ele se recompôs e voltou a falar sobre segurança pública e a negar a existência de sua última e trágica gestão.
Confira a entrevista na íntegra:
O que levou o senhor a retornar à vida pública e se candidatar a deputado estadual?
A consciência das dificuldades que o parlamento alagoano está vivendo. Me senti obrigado, ou quase que obrigado, a entrar nesse processo. Mesmo porque, na 7ª Legislatura, eu e Teobaldo Barbosa fomos eleitos [deputados estaduais em 1970] naquela época e, no término do mandato, sai para governador do Estado.
Qual a lembrança que o senhor tem desses dois primeiros mandatos?
Os dois primeiros é um banho de realizações. Ninguém fez mais do que o que fiz aqui. E eu colocava como desafio permanente. Se alguém fizer mais e melhor do que eu... E ninguém fez mais não.
E como é que o senhor pretende convencer ao eleitor de que o senhor será um bom deputado estadual?
Todo mundo me conhece. Eu não preciso convencer ninguém. Alagoas toda me conhece.
O que o senhor leva de proposta para projeto de lei e o que o senhor deve tentar resolver na Assembleia?
Levo a moralidade e a busca de enfrentar o processo... Essa crises que estão ocorrendo na área da segurança. E também dar um apoio muito grande na Assembleia, na Educação.
Qual o legado que o senhor deixou para o alagoano, com sua vida pública?
A moralidade. Até hoje – temos 50 anos de carreira política – ninguém conseguiu encontrar nada que diminuísse a minha pessoa. É um desafio que eu faço.
Não houve nenhuma denúncia de ilegalidade?
Denúncias surgiram. Mas isso foi uma coisa montada.
A gente lembra que amanhã [hoje] é 17 de julho e faz 17 anos da tumultuada votação do impeachment...
Isso é uma brincadeira. Isso é uma piada, uma piada. Não houve nada de impeachment.
Marcou o senhor, pessoalmente?
Claro que não. Eu tive, por curiosidade... Já estava pensando em transferir [o governo] para o Mano. E eu deveria ter transferido logo após os dois primeiros anos. Era um compromisso que eu tinha assumido com ele. E então, ficou uma crise e eu fiquei temendo deixar o governo numa crise.
O senhor acha que, apesar de ter terminado dessa forma, o senhor ainda conseguiu acertar em algumas questões nesse último mandato como governador?
Eu não. Nesse último mandato, eu não governei, praticamente, Alagoas. No último mandato não. O último mandato foi uma luta contra, assim, as maiores dificuldades, essas coisas todas.
O que o senhor lembra de ter enfrentado como maior desafio?
Digamos assim, a incredulidade, né? Mas eu acho que não tem nada que me desabone na minha vida pública.
O senhor se arrepende de alguma coisa?
Nada. Mas nada mesmo! Eu faço esse desafio para você: Procure em Alagoas alguém que encontre um deslize meu.
O fim do seu último governo...
Não foi no meu governo, não, rapaz! Eu transferi para o Mano.
Mas não foi por um processo de impeachment?
Impeachment! Que negócio de impeachment! Não foi não! Eu transferi para o Mano!
Mas o senhor lembra que houve uma crise...
Não teve crise nenhuma!
...com salários atrasados.
Salários atrasados, sim. Houve.
Qual foi a dificuldade que o senhor enfrentou?
É claro! Porque eu encontrei já três meses em atraso.
Do mandato anterior?
Do mandato anterior, do Geraldo Bulhões. Três meses de atraso. E a moeda estabilizou. Porque no regime inflacionário, com três meses, a gente pagava a folha. Mas eu imaginei que teria uma força junto ao governo federal e não consegui. Mesmo porque também havia seis estados vivendo esse mesmo momento.
Por que o senhor escolheu a Assembleia para retomar a carreira política?
Acho que ninguém fez mais por Alagoas do que eu. Mas ninguém mesmo.
Qual a avaliação que o senhor faz da gestão do governador Teotonio Vilela Filho?
Ele está com dificuldades. Mas é um homem sério, respeitável. E eu tenho muito respeito por ele.
Ele costuma citar o que ocorreu em seu último mandato, quando nega a concessão de reajustes aos servidores públicos. Porque o senhor concedeu reajuste e não pôde pagar...
Exatamente. Porque, quando eu aumentava, naquele período... Quando eu aumentei, tinha a perspectiva de que poderia crescer [a inflação]. Mas o ângulo não foi possível. Mas eu já tinha deixado... A folha já estava pronta. Mas isso é coisa da política.
O que o senhor acha que mudou na forma de fazer política, desde o tempo que o senhor era político?
Permaneço um homem sério, que se preocupa com o povo alagoano e tenho a consciência de bem servir ao povo alagoano. Ninguém fez mais em Alagoas do que eu. Mas ninguém mesmo. Mande juntar todo mundo e ver meus governos. Eu dou um banho.
Como o senhor lidava com a Assembleia Legislativa?
Na última Assembleia? Na última já estava um quadro impressionante das coisas.
Qual foi a dificuldade na relação?
Nenhuma.
Mas com relação a lidar com os deputados?
Era o contato... Eram aquelas coisas. Mas não tenho mágoa de ninguém. São os fatos políticos. E eu me dou bem com todos. Eu não tenho uma pessoa em Alagoas que diga que eu sou feio. E olhe que eu sou feio (risos). Não tenho um inimigo.
Qual a sua perspectiva de ser eleito?
Imagino que tenho uma perspectiva bastante sensível. Porque, do povo, onde quer que eu me encontre, recebo agradecimentos. Aonde eu chego, é aquela alegria.
O que o senhor diria diretamente ao seu eleitor para convencê-lo a votar no senhor?
Acho o seguinte... É o que eu sempre fiz: o bem, ajudar o povo, dentro das minhas possibilidades. Me sinto um perfeito político, dentro desse ângulo. Voltando para a Assembleia, me sentirei muito realizado.
Porque o senhor não escolheu disputar mandato de deputado federal ou senador?
Eu não queria mais sair de Alagoas. Quero morrer em Alagoas.
Seria uma prova de amor pelo Estado?
Sim. (com lágrimas nos olhos, a tentativa de conter o choro interrompe a entrevista)
O senhor tem mais alguma observação a fazer sobre sua eventual atuação como deputado estadual?
Primeiro, darei todo o apoio para que tenhamos uma secretaria de segurança dentro dos padrões da moralidade e da sagacidade.
Alagoas hoje é o Estado mais violento do Brasil, segundo dados oficiais. Como o senhor observa esse quadro, comparado à situação vivida em seus governos?
Naquele período, dos dois governos... No terceiro, não governei o Estado. Considero que aquele ali foi um erro. Mas, no aspecto positivo, você pode somar os dois primeiros governos e você não conseguirá um volume de recursos... Inclusive a Braskem. Está aí a Braskem, que fui eu que trouxe. Na segurança, não vou ter força, como deputado. Naquele período, o coronel Amaral [ex-secretário] estabeleceu um padrão de moralidade e foi um homem que enfrentou todo mundo.
Leia mais sobre a notícia de impugnação do registro da candidatura de Suruagy, clicando aqui.
